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VIVÊNCIAS, DESCOBERTAS E DESAFIOS NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM ESCOLAS DE COMUNIDADE

Ferreira Lopes, Maria Raquel

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VIVÊNCIAS, DESCOBERTAS E DESAFIOS NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM ESCOLAS DE COMUNIDADE Maria Raquel Ferreira Lopes1 Resumo: O relato descreve a experiência de estágio supervisionado em uma escola pública de ensino médio em tempo integral, situada no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza, tendo como motivo de escolha da escola o desejo de atuar em um ambiente escolar semelhante à sua realidade, buscando contribuir com os alunos da comunidade e tornar o ensino mais acessível. O estágio envolveu o contato com turmas do primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio. As turmas apresentaram comportamentos variados. Alterações nos horários e mudanças de turma dificultaram o planejamento inicial, fazendo com que a maior parte da atuação ocorresse com as turmas do segundo ano. Houve a aplicação de estratégias de ensino diversificadas, como mapas mentais e a proposta de uma “cola autorizada”, inspirada em uma experiência escolar. A ideia era incentivar o estudo ativo e a seleção de informações importantes, e uma melhora no desempenho dos alunos. Por fim, o estágio proporcionou um aprendizado prático sobre a realidade da educação pública, destacando a infraestrutura prejudicada, a importância da adaptação do professor e o uso de metodologias criativas. A experiência reforçou o papel do educador como agente de transformação social e mostrou que é possível, e necessário, criar um ensino significativo e motivador. Palavras-chave: Planejamento. Metodologias ativas. Limitações. 1. INTRODUÇÃO Em todos os meus relatos anteriores sempre deixei claro a minha vontade de realizar meus estágios em escolas do meu bairro, e não necessariamente por ser mais perto ou confortável para mim. Certo que isso também estava na lista de prós, porém o que estava no topo dessa lista era a vontade, ou pelo menos a tentativa, de mostrar o meu melhor para pessoas com a realidade mais próxima e semelhante a minha. Sei o quanto as comunidades, muitas vezes, são marginalizadas e evitadas, e eu não julgo até porque hoje em dia as coisas são diferentes e bem mais perigosas para todo mundo, inclusive para nós professores, porém a diversidade de alunos é comum como em todas as demais escolas. A diferença vai estar nas oportunidades e vivências de cada aluno, 1 Licenciada em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará, [email protected]. por isso é importante ter professores que gostam do que fazem e se esforcem para deixar o ensino mais acessível para todos. Talvez eu seja bem sonhadora e tenha uma visão um pouco utópica da realidade, mas acredito que algumas pessoas e atitudes fazem a diferença na mudança ou sugestão de caminhos diferentes para todos os alunos. Eu por exemplo, a chavinha que virou na minha cabeça para estudar e querer seguir na área da educação foi, além do incentivo da minha família, ter o incentivo dos meus professores do ensino médio. Na minha família, poucas pessoas possuem ensino superior, devido às dificuldades e oportunidades da vida. Depois de adultos eles conseguiram se formar nas áreas de desejo e a maior influenciadora deles foi a minha querida avó. Como eu fui a primeira neta, as energias e incentivos foram direcionados a mim. Me sinto uma garota de sorte. Quando iniciei meu ensino médio achei tudo diferente, mas ainda assim me senti influenciada a ser grande como os meus professores. Até hoje muitas pessoas ainda dizem "mas ser professora? Por que não escolheu algo diferente?" Eu minimizo o espanto alheio e tento justificar com o leque de opções que a biologia oferece, porém sei que entre todas as opções, o “ser professora” tem me puxado mais que as demais. A escola que eu escolhi fica localizada em uma comunidade do bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza. É uma escola de ensino médio em tempo integral. Possui salas de aula, um pátio com refeitório, cantina, laboratórios, e todas as coisas comuns de uma escola normal. Como em todos os meus estágios, fui muito bem recebida pelo meu professor supervisor, pela turma de professores presentes e pela direção da escola. A escola não tinha uma boa estrutura. Algumas salas possuíam quadros extremamente inapropriados para uso. Estavam apodrecidos, quebrados e descolados da parede, porém em outras salas estava razoável. Mesas e cadeiras para o professor estavam ausentes em algumas salas e o ar condicionado não funcionava direito na maioria das delas. Os alunos reclamam muito do calor e também notei que um aluno em específico levava um ventilador de casa para amenizar o calor em sala. Alguns alunos me reconheceram de uma escola que estagiei no ensino fundamental e falaram "olha a tia do colégio…". Fiquei envergonhada por não lembrar deles, mas acredito que seja um acontecimento muito comum na vida dos professores. As turmas do primeiro ano eram as mais inquietas, as do segundo mais apáticas e as do terceiro mais participativas, porém devido às mudanças não consegui escolher as turmas que gostaria de trabalhar devido aos meus choques de horários. Eu iniciei o meu estágio com as turmas do terceiro ano e gostei da turma logo na primeira aula. Os alunos eram participativos, brincalhões e receptivos, sabe aquele equilíbrio? Eles tinham. Os alunos do segundo ano eram pouco engajados nas atividades propostas, foi uma turma que eu não me senti tão segura em dar aulas, mas que com o tempo as coisas foram fluindo e mudando a minha opinião. As turmas do primeiro ano eram inquietas e desinteressadas, porém entendo que é uma mudança radical para eles, então é comum chegar no ensino médio e estranhar os conteúdos e o ambiente que, de certa forma, são mais difíceis e diferentes do que estavam acostumados. A quantidade de horas-aulas de biologia também é bem curta, sendo apenas uma aula de Biologia por semana. Fiz o reconhecimento da escola e conheci alguns professores de Biologia que não estavam mais ensinando, porém estavam participando do desenvolvimento de atividades internas da escola. Depois iniciei minhas atividades de observação, seguida da regência e aplicação do projeto didático. Aconteceram algumas coisas inesperadas que acabaram atrapalhando um pouco do meu planejamento, como mudanças nos horários das aulas e semana de provas. O horário mudou 3 vezes, interferindo nos meus dias de ida a escola e fazendo com que eu ficasse com turmas diferentes. Além disso, houve outros acontecimentos internos, semanas de provas e simulados na escola que acabaram influenciando nas decisões tomadas durante o estágio. As turmas tinham média 30 alunos, a frequência era razoável e acredito que o índice de evasão não seja tão alto, pois em conversas com a diretora percebe que ela oferece um leque de opções para que os alunos possam continuar estudando na escola. A relação de aluno x professor é excelente. Há uma troca muito boa entres eles e isso, de certa forma, torna o ambiente mais agradável e seguro para os alunos e professores. Na minha primeira ida à escola, uma professora de Biologia me falou que o ensino lá era um pouco diferente das demais escolas. Lá, na teoria, eles não seguiam a educação punitiva, mas sim a educação restaurativa, com foco em resolução de conflitos. Eu pensei em escrever sobre isso, achei interessante a abordagem da escola com os alunos, mas não consegui coletar informações e vivências o suficiente para escrever e compartilhar da maneira correta. Então, decidi relatar a minha vivência num contexto mais geral em relação ao estágio. 2.DESENVOLVIMENTO A escola em questão já estava na minha lista de possíveis estágios. Alguns colegas estudaram lá e achei que seria interessante. Na minha primeira ida conversei com as professoras de biologia da escola, ambas são efetivas mas não trabalham em sala, apenas em desenvolvimento de atividades internas e administrativas. Ao conhecer as salas fiquei levemente surpresa com a infraestrutura e durante a observação consegui notar a frequência e participação dos alunos em sala de aula. Iniciei a observação com as 3 turmas do ensino médio, sendo mais frequente nas turmas do terceiro ano. Os assuntos em aula eram sobre genética. Os alunos demonstravam interesse no assunto, fazendo diversas perguntas, inclusive sobre assuntos recentes, como o do DNA e a possibilidade de “desextinção” do lobo terrível. O professor supervisor explicou detalhadamente a situação e até alertou os alunos sobre as possíveis notícias sensacionalistas presentes na mídia. Quando chegou a minha vez de dar aula fiquei um pouco nervosa, pois o assunto era heredograma, e por mais que eu amasse esse assunto, lembrei do quanto meus colegas de turma no ensino médio criticavam o assunto por ser chato e difícil. Sempre que vou dar aula sobre algum assunto, me imagino sendo aluna e pensando em como seria aprender sobre ele. Talvez isso desperte uma insegurança em alguns conteúdos, mas faz com que eu me esforce um pouco mais para apresentar uma aula legal e proveitosa. Talvez isso também gere uma autocobrança em relação às minhas aulas, mas acredito que com o tempo eu consiga ser mais tranquila quanto a isso. A minha primeira regência foi nas turmas do terceiro ano. Das três turmas existentes, fiquei com duas. Vamos chamá-las de turma 3A e turma 3B. Em ambas as turmas o planejamento era o mesmo: iniciar a aula perguntando se eles já ouviram falar sobre o assunto, apresentar o assunto com explicação teórica no quadro e finalizar com questões e resolução em sala. Na primeira turma estava um pouco temerosa e em alguns momentos precisei da ajuda do professor para me sentir mais confortável e segura. Na turma 3A a participação foi razoável, um pouco mais da metade participou da aula e nem todos concluíram a atividade proposta. Já na turma 3B, eu estava bem mais confortável, afinal já tinha feito isso uma vez, então foi bem mais leve na segunda turma. A maioria dos alunos participaram da aula, fizeram perguntas e entregaram a atividade solicitando o visto da professora. As turmas do terceiro ano foram as que eu mais me conectei e me senti segura e confortável para trabalhar em qualquer tipo de atividade. Eles eram participativos, solícitos e, de certa forma tranquilos. Nas turmas do segundo senti uma leve indiferença vindo do lado deles. Foi uma turma que, a priori, eu não gostei de trabalhar, pois eram menos receptivos no começo, mas no decorrer do estágio consegui me conectar com eles e, as atividades propostas e participação em sala foi evoluindo e se tornando cada vez melhor. As turmas que tive menos contato foram as do primeiro ano. Em relação às outras, foi a que eu passei menos tempo. Sempre relevo o comportamento do primeiro ano pois eles acabaram de chegar no ensino médio e vieram de uma escola do ensino fundamental, então talvez essa falta de controle em alguns impulsos possa estar relacionada a isso. São uns queridos, mas ainda são quase crianças, é a turma mais difícil de controlar entre todas as outras. Durante meu estágio, passei por diversos imprevistos que acabaram interferindo no meu planejamento. As mudanças repentinas de horário das aulas foi um deles. Quando planejava algo para uma turma, recebia a notícia de que houve mudança nos horários e precisava refazer algumas coisas, situação essa que se repetiu em três momentos diferentes ao longo do estágio. Minha ideia inicial era de aplicar o projeto didático nas turmas do terceiro ano, mas com as mudanças não consegui ficar com elas por tempo suficiente. Com o horário definido, fiquei com a maioria das turmas do segundo ano e algumas do primeiro ano, e com isso decidi focar as atividades nas turmas do segundo ano. Além das mudanças no horário das disciplinas, houveram outros acontecimentos na escola, como semanas de provas (parciais, bimestrais e testes no modelo vestibular) e alguns contratempos internos que ocasionaram em momentos de reunião geral entre alunos e professores. Observando o comportamento das turmas, notei que por mais que os alunos participassem das aulas de revisão da prova, não estava sendo suficiente para bons resultados nas provas. Pensando em um possível aumento no rendimento dos alunos, pensei em algumas estratégias que pudessem ajudar os alunos nesse objetivo. O assunto era Reino Monera e Reino Protoctista. O professor já tinha iniciado com o Reino Monera e eu dei continuidade com mais uma aula e atividades de revisão do conteúdo. Os alunos fizeram a primeira avaliação parcial sobre o Reino Monera e a prova foi, de certa forma, surpresa para eles. Com isso, o professor deu a eles a oportunidade de pesquisar a prova no caderno. Alguns alunos não tinham anotações no caderno, então não tinham como pesquisar. Além disso, a maioria dos alunos não chegavam a ler a prova com atenção, então chutavam a maioria das questões. Falo isso, de ler com atenção, pois as provas elaboradas pelo meu professor supervisor eram muito fáceis e algumas perguntas estavam relacionadas com respostas de questões seguintes. Como esses alunos não estavam com boas notas, tentei trabalhar melhor ainda nos conteúdos seguintes, já que a prova bimestral estava se aproximando. Então iniciei o conteúdo sobre o Reino Protoctista. Dei a aula expositiva no quadro, passei uma pequena atividade sobre o assunto e pedi que eles trouxessem na próxima aula um mapa mental bem elaborado sobre o assunto. Cada aluno teria que fazer um mapa mental com os itens descritos por mim, como principais características, funções no ecossistema, doenças associadas e respectivos causadores, tipo de reprodução e outras características. Além disso, adicionei uma pergunta no final que deveria ser respondida por ele que era “Por quê eu devo estudar isso?”. Essa atividade deveria ser entregue na próxima aula e contaria como uma parte da avaliação parcial. Essa atividade foi um sucesso! Os alunos entregaram mapas mentais incríveis, bem elaborados, didáticos e bonitos. Recebi e o professor supervisor ficou com os mapas mentais para poder pontuar os alunos que fizeram a atividade. Na aula seguinte foi feita uma revisão para a prova que seria na próxima semana. Revisei todo o conteúdo com os alunos, reino monera e reino protoctista, fiz uma atividade de revisão com eles e respondemos juntos, e dei a cartada final que seria uma estratégia utilizada para que eles estudassem de forma indireta para a prova. No meu ensino médio, uma professora querida de biologia fez uma avaliação com a gente e permitiu um tipo de “cola autorizada”. Para que isso ocorresse de forma organizada, tínhamos que seguir algumas regras. Nós poderíamos colocar todas as informações que considerássemos necessárias, desde que ficasse em apenas ½ de folha A4. Essas anotações só poderiam ser escritas a mão e ocuparia apenas a frente, não poderíamos usar o verso da folha. Além disso, ela era pessoal e intransferível. No final teríamos que entregar a folha da cola junto com a prova. O objetivo dessa estratégia, ao meu ver, é fazer com que os alunos estudem para a prova de forma indireta, já que a escrita a mão faz com que ajude a fixar os conteúdos melhor, Além disso, o fato do aluno ter que pesquisar o assunto, selecionar informações e resumir o que seria interessante para se pesquisar durante uma prova é um estudo. Então os alunos, independentemente de utilizarem ou não a cola, teriam estudado para a prova. Como o assunto dos meus alunos do estágio era menos complexo do que o assunto que eu usei no meu ensino médio, decidi fazer uma pequena mudança. O aluno só poderia utilizar ¼ da folha A4, no mais as demais regras permanecem. Obviamente os alunos ficaram muito empolgados com a ideia e fizeram tudo certinho, seguindo todas as regras. No dia da prova, os aplicadores eram outros professores, e por ser avaliação bimestral as regras são ordenadas pela direção. Infelizmente a direção não permitiu a utilização da cola autorizada, mas os aplicadores pegaram as colas dos alunos e entregaram ao professor supervisor para que ele soubesse quem tinha feito ou não. Surpreendentemente os alunos conseguiram se sair muito bem nos resultados das provas. Então acredito que, de certa forma, essa estratégia ajudou muito no desempenho dos alunos. Por um momento fiquei pensando “mas será que se eles conseguirem bons resultados não vai ser porque pesquisaram durante a prova?”. E aí lembrei que em outro momento eles fizeram uma prova pesquisada utilizando o material do caderno e mesmo assim não conseguiram se sair bem. Então percebi que o simples ato de pesquisar durante a prova não garante um bom desempenho, e que o processo de estudo prévio teve um papel mais relevante nos resultados. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estágio obrigatório nos dá a oportunidade de vivenciar, aprender e praticar o que vimos por tanto tempo na teoria. Embora tenhamos visto diversas metodologias durante o período da graduação, a aplicação dessas metodologias vai depender de diversos fatores, como a infraestrutura da escola, materiais disponíveis, calendário acadêmico, orientação do supervisor e participação dos alunos. Felizmente, meu professor supervisor me deixou bem livre e se manteve sempre disponível para que pudéssemos trabalhar algo da melhor forma possível. Além disso, os alunos também se mostraram dispostos a trabalhar com qualquer tipo de atividade proposta. Obviamente há exceções e particularidades, mas isso é em todos os âmbitos da nossa vida, mas desde que a maioria se prontifique a fazer algo, já é suficiente para que possamos mostrar um resultado. Cada indivíduo possui suas particularidades, vivências e limitações, e o papel do professor vai ser orientar e mediar nesse processo de aprendizagem, a fim de promover uma educação de qualidade, significativa e inclusiva. REFERÊNCIAS