ELABORAÇÃO DE QUESTÕES COM APOIO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA NO ENSINO SUPERIOR
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110 ELABORAÇÃO DE QUESTÕES COM APOIO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA NO ENSINO SUPERIOR Victor Costa Alves Medeiros Vieira – Fonoaudiologia – victor[email protected]du.br Chirlene Santos da Cunha Moura - Fonoaudiologia – [email protected] Lidiane Laurinda Maria Elias de Holanda – Fonoaudiologia – [email protected].br DOI 10.5281/zenodo.17498837 Introdução: A prática de elaborar questões é um pilar fundamental no processo avaliativo e de ensino-aprendizagem no ensino superior. Questões bem formuladas não apenas aferem o conhecimento adquirido pelos estudantes, mas também estimulam o pensamento crítico, a capacidade de análise e a aplicação prática dos conceitos trabalhados em sala de aula. A complexidade dessa tarefa reside na necessidade de criar uma diversidade de estilos e tipos de questões – desde as mais simples, como múltipla escolha e verdadeiro ou falso, até as mais complexas, como as do tipo asserção-razão –, além de variar os níveis de complexidade, abrangendo desde a memorização de fatos até a análise, síntese, avaliação de informações e da relação entre elas. Essa variação é crucial para mensurar um espectro completo de habilidades cognitivas e para preparar os alunos para desafios futuros, como exames de proficiência, ENADE e concursos públicos. No entanto, o processo de elaboração de questões de alta qualidade, que sejam relevantes, claras e desafiadoras, demanda um investimento considerável de tempo e esforço por parte dos docentes. A rotina acadêmica, que já tomada por atividades de ensino, pesquisa e extensão, muitas vezes restringe a
111 capacidade dos professores de dedicar-se adequadamente à criação de bancos de questões abrangentes e diversificados. É nesse cenário que a Inteligência Artificial (IA) emerge como uma ferramenta promissora, capaz de otimizar o tempo do docente e, concomitantemente, aprimorar a qualidade, complexidade e a variedade das questões elaboradas. A IA pode atuar como um valioso assistente, automatizando tarefas repetitivas, sugerindo diferentes formulações, e até mesmo gerando novas perguntas a partir de um conjunto de dados ou textos de referência (Nascimento, 2024; Santos Costa, 2024). Ao liberar o professor de parte da carga operacional da elaboração de questões, a IA permite que ele foque em aspectos mais estratégicos e pedagógicos, como a análise dos resultados, a adaptação do conteúdo e o feedback individualizado aos alunos (Moran, 2012). Este relato de experiência propõe uma discussão sobre a aplicação da IA na elaboração de questões para o ensino superior, detalhando uma experiência pedagógica desenvolvida por docentes do curso de Fonoaudiologia do UNIPÊ com o intuito de explorar as potencialidades dessa tecnologia. A expectativa é demonstrar como o apoio da IA pode não só agilizar o processo, mas também enriquecer o material avaliativo, contribuindo significativamente para a aprendizagem discente e para a eficiência do trabalho docente. A relevância desta pesquisa reside na urgência de integrar ferramentas tecnológicas inovadoras no ambiente educacional, frente aos desafios contemporâneos da formação de profissionais e cidadãos. Metodologia: A metodologia adotada para a realização deste estudo foi de natureza qualitativa e exploratória, com a implementação de uma experiência pedagógica prática no curso de Fonoaudiologia do UNIPÊ, realizada por três professores do referido curso, durante o semestre 2025.1. O objetivo principal foi investigar a viabilidade e os benefícios da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial para auxiliar docentes
112 na elaboração de questões de diferentes tipologias e níveis de complexidade. Desenvolvimento: Inicialmente, foi realizada uma etapa de levantamento bibliográfico para identificar as principais ferramentas de IA disponíveis para geração de texto e suas aplicações potenciais em contextos educacionais, bem como para compreender os desafios e as melhores práticas na elaboração de questões avaliativas. Posteriormente, os docentes participantes estudaram, por meio de materiais gratuitos, disponíveis de forma on line, sobre como interagir com as IAs, utilizando prompts específicos para solicitar a criação de questões. Foram fornecidos exemplos de diferentes formatos de perguntas (múltipla escolha, verdadeiro ou falso, discursivas, estudos de caso, asserçãorazão) e orientações sobre como variar o nível de complexidade (conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação, conforme a Taxonomia de Bloom, 1956). A fase prática consistiu em uma série de atividades experimentais, onde os professores, utilizando as ferramentas de IA, especialmente o Gemini, elaboraram conjuntos de questões para suas respectivas disciplinas. Cada professor foi encorajado a experimentar diferentes prompts e a refinar as solicitações à IA para obter resultados mais alinhados com suas necessidades pedagógicas. Foram criados bancos de questões que incluíam desde perguntas mais diretas, destinadas à verificação de conceitos básicos, até cenários complexos que exigiam dos alunos a aplicação de múltiplos conhecimentos e habilidades. Após a geração inicial das questões pela IA, os docentes realizaram uma análise crítica e revisão minuciosa do material. Essa etapa foi crucial para garantir a qualidade pedagógica, a correção conceitual e a adequação cultural das questões, além de identificar a necessidade de ajustes e refinamentos para adequar-se à forma como os conteúdos foram trabalhados em sala de aula. Foram registrados os tempos despendidos na elaboração manual e com o
113 apoio da IA, a fim de comparar a eficiência do processo. Além disso, foram realizadas rodas de conversa nas reuniões de NDE para permitir a troca de experiências entre os docentes, a discussão de estratégias eficazes e a identificação de boas práticas no uso da IA na elaboração de questões. A análise levou em consideração tanto os aspectos quantitativos (como a economia de tempo) quanto os qualitativos (como a percepção sobre a qualidade das questões). Desta forma, o desenvolvimento desta experiência pedagógica demonstrou o potencial transformador da Inteligência Artificial na elaboração de questões para o ensino superior, evidenciando como a variação dos tipos e da complexidade das questões não só otimiza o tempo do docente, mas também prepara os alunos de forma mais eficaz para desafios externos, como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) e provas de concurso. A principal constatação foi que a IA, quando utilizada de forma estratégica e complementar ao discernimento pedagógico do professor, permite a criação de um repertório de questões muito mais amplo e diversificado do que seria possível em um cenário puramente manual, e em um período de tempo significativamente menor. Um dos pontos centrais abordados no desenvolvimento foi a capacidade da IA em gerar diferentes estilos de questões. Por exemplo, partindo de um texto-base sobre "avaliação fonoaudiológica dos distúrbios de fala", a IA foi capaz de formular questões de múltipla escolha que exigiam a identificação de conceitos específicos (nível de conhecimento), questões de verdadeiro ou falso que demandavam a compreensão de relações causais, e até mesmo questões discursivas que solicitavam a explicação de processos complexos como o “diagnóstico diferencial” e “planejamento terapêutico”. Além disso, foram exploradas as possibilidades de criar questões baseadas em cenários ou estudos de caso, um formato de
114 avaliação que se alinha muito bem com a metodologia ativa de aprendizagem e que é frequentemente encontrado em exames como o ENADE, que visam avaliar a capacidade do aluno de aplicar conhecimentos em situações-problema do mundo real. Por exemplo, a IA pôde auxiliar na elaboração de um estudo de caso sobre um paciente com sequelas de Acidente Vascular Encefálico (AVE), solicitando aos alunos que analisassem os sintomas, propusessem um diagnóstico e sugerissem um plano de tratamento, mobilizando conhecimentos de diversas áreas da Fonoaudiologia. A variação dos níveis de complexidade das questões foi outro aspecto crucial explorado. Utilizando a Taxonomia de Bloom (1956) como referência, a experiência demonstrou que a IA pode ser instruída a gerar perguntas que vão desde o nível de "Lembrar" (foco na memorização de fatos e conceitos) até os níveis mais elevados de "Analisar", "Avaliar" e "Criar". Isso foi conseguido através de prompts cuidadosamente elaborados, que especificavam o nível cognitivo desejado. Por exemplo, enquanto um prompt simples poderia pedir "Defina disfonia", um mais avançado poderia solicitar "Analise as implicações do comportamento vocal inadequado em homens e mulheres, considerando as diferenças anatômicas das pregas vocais entre os sexos". Essa capacidade de escalar a complexidade das questões permite que os professores criem avaliações mais sofisticadas, que não apenas testam a memorização, mas também a capacidade dos alunos de raciocínio, resolução de problemas e pensamento crítico. A relevância dessa diversificação e escalonamento da complexidade reside diretamente na preparação dos alunos para atividades avaliativas externas. Exames como o ENADE são conhecidos por exigirem dos estudantes não apenas o conhecimento teórico, mas também a capacidade de articular ideias, argumentar, e aplicar os conhecimentos em contextos complexos e interdisciplinares. A exposição contínua a
115 diferentes tipos de questões e a variados níveis de complexidade durante a formação acadêmica, facilitada pelo uso da IA, contribui significativamente para o desenvolvimento dessas habilidades. Os estudantes passam a familiarizar-se com formatos de questões que exigem análise crítica de situações, interpretação de dados, e formulação de soluções inovadoras, o que os torna mais aptos a obter um bom desempenho em avaliações e a se destacarem em processos seletivos para o mundo do trabalho ou para a pós-graduação. Além disso, a prática de resolver questões de diferentes níveis de dificuldade aprimora a autoconfiança e a resiliência dos alunos diante de desafios intelectuais (Kahneman, 2011). A experiência também ressaltou a importância da intervenção humana no processo. Embora a IA seja uma ferramenta poderosa na geração inicial das questões, a expertise do professor é indispensável para a revisão, o ajuste fino e a validação pedagógica. O docente atua como um curador, garantindo que as questões sejam precisas, relevantes para o currículo, culturalmente adequadas, livres de vieses e coerentes com o processo de ensinoaprendizagem desenvolvido em sala de aula. Essa sinergia entre a capacidade de geração da IA e o conhecimento didático-pedagógico do professor potencializa a qualidade do material avaliativo. O desenvolvimento dessa atividade também permitiu identificar os prompts mais eficazes e as estratégias de interação com a IA que geram os melhores resultados, configurando um repertório de boas práticas que podem ser replicadas por outros docentes. Impactos: Os impactos observados na utilização da Inteligência Artificial na elaboração de questões são multifacetados e de grande relevância para a prática pedagógica no ensino superior. Em primeiro lugar, um dos impactos mais significativos é a otimização da gestão de tempo por parte dos professores. A elaboração manual de questões de qualidade, que
116 abrangem diferentes níveis de complexidade e tipologias, é um processo notoriamente demorado e intelectualmente exaustivo. Professores frequentemente dedicam horas para conceber, redigir, revisar e formatar um número adequado de perguntas para avaliações. Com o suporte da IA, essa carga de trabalho é drasticamente reduzida. Nossos dados e observações indicam que o tempo gasto na criação de um conjunto inicial de questões pode ser diminuído em até 70%, dependendo da complexidade dos prompts e da necessidade de refinamento posterior. Essa economia de tempo não se traduz apenas em menos horas dedicadas à tarefa de elaborar questões, mas permite que os docentes redirecionem sua energia para outras atividades igualmente cruciais, como a preparação de aulas mais interativas, o aprofundamento em pesquisa, a orientação de alunos, a participação em projetos de extensão, o desenvolvimento profissional contínuo ou até mesmo a gestão de questões pessoais. A liberação de tempo e energia do professor para atividades de maior valor agregado contribui diretamente para a melhoria da qualidade geral do ensino e para a satisfação profissional. Em segundo lugar, a IA possibilita a utilização de uma maior variação de tipos de questões, o que tem um impacto direto e positivo na aprendizagem discente. Tradicionalmente, muitos docentes, por restrições de tempo e recursos, tendem a se limitar a formatos de questões mais padronizados e de fácil elaboração, como múltipla escolha ou perguntas diretas de memorização. Com o apoio da IA, torna-se viável a criação de um leque muito mais amplo de questões, incluindo questões discursivas com diferentes níveis de complexidade: desde a simples descrição de um conceito até a análise crítica de uma sintomatologia fonoaudiológica ou a proposição de soluções para um problema complexo; estudos de caso: que demandam dos alunos a aplicação prática de conhecimentos teóricos em situações reais,
117 estimulando o raciocínio clínico, a tomada de decisão e a interdisciplinaridade; questões de interpretação de dados/gráficos/tabelas: preparando os alunos para analisar informações quantitativas e qualitativas, uma habilidade essencial em diversas áreas de especialização da Fonoaudiologia; questões de cenários hipotéticos: que desafiam os alunos a prever resultados, discutir implicações ou propor estratégias em contextos novos; questões de verdadeiro ou falso com justificativa: que exigem não apenas a identificação da veracidade da afirmação, mas também a explicação do porquê, aprofundando a compreensão; questões de associação ou correspondência: que permitem avaliar a compreensão de relações entre diferentes conceitos ou elementos. Essa diversidade de formatos de questões é crucial por várias razões. Primeiro, atende a diferentes estilos de aprendizagem dos alunos, permitindo que eles demonstrem seu conhecimento de maneiras variadas. Segundo, e de forma mais significativa, a exposição a essa variedade de questões prepara os estudantes de forma muito mais completa para os desafios futuros, sejam eles acadêmicos ou profissionais. A IA, ao facilitar a criação dessas questões variadas, atua como um catalisador para o desenvolvimento de habilidades cognitivas superiores nos alunos, tais como análise crítica, síntese de informações, resolução de problemas e criatividade (Perrenoud, 2000). Além disso, a implementação da IA na elaboração de questões pode levar a uma melhoria na qualidade e consistência das avaliações, uma vez que pode ajudar a evitar vieses inconscientes na formulação de perguntas, garantir a clareza e a ambiguidade mínima, e assegurar que as questões estejam alinhadas com os objetivos de aprendizagem do curso e do perfil profissional do egresso pretendido. A possibilidade de gerar múltiplas versões de uma mesma questão com pequenas variações também contribui para a segurança e a integridade das avaliações,
118 especialmente em cenários de provas online ou com grandes turmas. Por fim, a experiência de integrar a IA demonstrou que ela pode servir como uma ferramenta de apoio ao próprio desenvolvimento profissional do professor. Ao interagir com a IA para criar prompts e refinar as questões, o docente é estimulado a refletir sobre os objetivos de aprendizagem, a taxonomia do conhecimento e as melhores formas de avaliar. Em resumo, os impactos da IA na elaboração de questões são vastos, proporcionando ganhos significativos em eficiência para o docente e, mais importante, enriquecendo o processo avaliativo para os estudantes, promovendo uma aprendizagem mais profunda e preparando-os de forma mais abrangente para os desafios da vida acadêmica e profissional. Considerações finais: a experiência demonstrou que a utilização de IA na elaboração de questões de avaliação é uma estratégia eficaz para o ensino superior. A ferramenta não apenas otimizou o tempo dos docentes, mas também permitiu uma maior diversidade e profundidade nas avaliações, o que, por sua vez, contribuiu para a aprendizagem dos alunos. A IA, quando bem implementada, pode ser uma aliada poderosa no processo de ensino-aprendizagem, facilitando a personalização do ensino e a realização de avaliações mais coerentes e diversificadas. Contudo, é importante destacar que a intervenção humana continua sendo essencial para garantir a qualidade pedagógica das questões geradas. Embora a IA possa ajudar a criar questões de maneira mais rápida e variada, os professores devem revisar e ajustar as questões para garantir que elas atendam adequadamente aos objetivos de aprendizagem e que estimulem o desenvolvimento das habilidades cognitivas dos alunos. Além disso, é fundamental que a tecnologia seja utilizada de forma reflexiva, considerando as especificidades de cada disciplina e o perfil dos alunos.