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EM TEMPOS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, AINDA EXISTE ESPAÇO PARA A INTELIGÊNCIA HUMANA? UM DEBATE A PARTIR DE FISIOCITY

Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ

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129 EM TEMPOS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, AINDA EXISTE ESPAÇO PARA A INTELIGÊNCIA HUMANA? UM DEBATE A PARTIR DE FISIOCITY Jânia de Faria Neves – Fisioterapia – [email protected] DOI 10.5281/zenodo.17498856 O ano de 2023 definitivamente foi um grande divisor de águas para toda e qualquer uma das novas formas de relação social existentes atualmente no mundo. É o ano que marca a consolidação do ChatGPT, considerado o mais importante lançamento para a integração do que se chama de Inteligência Artificial Generativa (GenAI). A partir daí, o mundo passou a ter acesso e conduziu a expansão da inteligência artificial (IA) para as massas ao longo do biênio 2024-2025. Contudo, essa mesma ampliação vem pulverizando uma enxurrada de discussões de toda ordem. A grande alavancadora desse debate têm sido as redes sociais, espaços individualmente compartilhados a partir de milhões de perfis que se espalham pela internet trazendo tanto produtos com impacto positivo quanto, na outra ponta, anúncios, criação de vídeos, imagens com temas absolutamente irreais e outros com simmulações cada vez mais realistas de pessoas famosas e não famosas. Temas como ética, limites, plágio, crimes digitais, fake news e direito digital emergiram não mais como assuntos pontuais, mas como necessidade de convivência civilizada e que protege a imagem, a integridade e a segurança humana. Uma discussão que começa a descortinar de maneira paralela é a forma como a IA pode, deve e vem sendo utilizada na educação. A chamada geração “prompt”, que tem em mãos o último celular fabricado e busca cada vez mais recursos para sempre integrar a trend do momento, passa a ter disponível uma infinidade de aplicativos e programas que podem 130 trazer “soluções mágicas” para seus trabalhos acadêmicos e comprometer severamente a aprendizagem. O fato é que a modernidade líquida de Bauman parece cada vez mais real só que com um detalhe: o progresso tecnológico caminha a passos largos para uma solidez cada vez maior enquanto a convivência entre as pessoas, os limites éticos nas parcerias e negócios, por exemplo, parece se esfacelar em uma crise mundial. Para fortalecer esse debate, o presente relato descreve uma experiência que trançou atividades de sala de aula consideradas mais tradicionais, com simulação realística e uso de IA para solucionar problemas de uma cidade virtual. Para entender isso, é necessário conhecer Fisiocity. Trata-se de uma cidade virtual, produto final de um projeto piloto criado para a extinta disciplina ciências sociais na saúde no semestre 2017.1 no curso de Fisioterapia do UNIPÊ. A ideia era criar uma cidade fictícia a partir da qual as situações problemas que envolvem uma cidade do interior do nordeste seriam geradas. A cidade foi estruturada a partir de uma base gráfica que compôs o solo e todos os elementos de animação (casas, carros, pessoas, árvores, dentre outros) foram inseridos manualmente por mim com suporte do Núcleo de Educação em Distância do UNIPÊ. Assim, a cidade se pareceria com qualquer município de pequeno porte impregnada de traços culturais e de elementos que fazem referência a modernidade. A partir da criação da imagem da cidade, iniciouse a segunda etapa, que consistia em criar um texto que falasse sobre o município. Para isso, foi realizada uma pesquisa para criar a história local, apresentada em uma narrativa contendo desde as lendas que envolvem o seu surgimento até as estatísticas locais, perfil econômico, demográfico, político e social, além das questões e serviços de saúde e todos os problemas que uma cidade desse tamanho teria, caso fosse real. Desde a sua criação, Fisiocity já foi palco de diversas atividades realizadas na modalidade de educação à 131 distância (EaD), quanto em atividades presenciais. No semestre 2025.1, Fisiocity foi mais uma vez a base para geração de situações-problemas. A atividade foi chamada de I Reunião de Secretários Municipais de Fisiocity e foi realizada tanto no curso de fisioterapia quanto no curso de fonoaudiologia. De maneira resumida, a turma era dividida em grupos e cada grupo seria responsável por uma secretaria municipal. A partir de uma leitura cuidadosa do texto escrito sobre a cidade, os grupos teriam que identificar os problemas existentes e, a partir de um parcentual do orçamento municipal (definido previamente), a secretaria deveria propor soluções factíveis e dentro do orçamento que dispunha. A atividade foi disparada com um mês de antecedência e, em dia e hora marcados, os grupos teriam que apresentar suas propostas como se estivessem em uma reunião oficial na prefeitura da cidade. O formato de apresentação era livre, ou seja, poderiam utilizar powerpoint®, canva® ou qualquer outro recurso para ilustrar suas propostas. Contudo, a atividade seria, necessariamente, conduzida de forma teatral e com debates paralelos para articular parcerias entre as secretarias. Fiquei como articuladora dos debates, no papel de vice prefeita da cidade e fui mediando as apresentações, articulando secretarias e suas propostas. Essa provocação abria novas discussões de forma que todos em sala precisavam não só conhecer os problemas locais, como pensar em estratégias para resolver os problemas que iam aparecendo ao longo das apresentações. Embora ainda de maneira tímida, a IA apareceu integrando o que foi produzido por alguns grupos. Na maioria dos casos, ela foi utilizada para criar cenários e lugares que ilustravam as propostas feitas pelos secretários municipais e suas equipes, a exemplo de um grupo que ficou responsável pela secretaria de desenvolvimento urbano e, para cada uma de suas propostas, como construção de praças, revitalização do rio Aurora, dentre outros, criou com IA as imagens. A 132 possibilidade dos aprendentes fazerem uso de IA não foi imposta, tampouco negada. Como afirmado anteriormente, o formato para a apresentação da atividade era livre. Portanto, a iniciativa foi deles. Como costumeiramente em trabalhos acadêmicos os estudantes fazem uso do powerpoint® e, mais recentemente, o canva®, os grupos que fizeram uso de IA para criar seus produto acabaram se destacando aos olhos dos próprios colegas. Penso, como docente, que a disponibilidade dessas ferramentas pode não só potencializar a aprendizagem, mas, também, ampliar as formas de interação dentro e fora da sala de aula e dos cenários de prática. É evidente e necessário que se destaque, que a IA não supera ou substitui a inteligência humana, mas, o seu bom uso depende de uma reflexão ética e com propostas intencionais de aprendizagem feitas pelos docentes. Nesse sentido, cabe ao professor responsável, como um facilitador desse processo, pensar atividades e avaliações de aprendizagem em que o uso da IA seja precedido por uma reflexão e análise das situações-problemas. Dessa forma, o seu uso será complementar e não substitutivo da inteligência humana. A educação, como arte de fazer novos pensadores, precisa entender que o progresso tecnológico é uma realidade e não há como frear esse avanço. Encontrar saídas a partir da preparação de docentes para fazer o uso intencional e colaborativo dessas ferramentas parece ser um desafio para toda e qualquer instituição de ensino comprometida com a aprendizagem significativa. Isso se torna, progressivamente, a base para formar um perfil de egresso capaz não mais de armazenar bits e mais bits informações, mas, de fazer uso delas com os recursos disponíveis, inclusive a IA, para solucionar problemas de pessoas, comunidades e serviços.