PRÁTICAS INTEGRADAS DE PSICODIAGNÓSTICO: UM MODELO DE APOIO INSTITUCIONAL AO ENSINO
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180 PRÁTICAS INTEGRADAS DE PSICODIAGNÓSTICO: UM MODELO DE APOIO INSTITUCIONAL AO ENSINO Leonardo Damasceno de Sena – Curso de Psicologia – [email protected] Kay Francis Leal Vieira – Curso de Psicologia – [email protected] Sandra Helena Mousinho Benevides – Curso de Psicologia [email protected] DOI 10.5281/zenodo.17498964 A graduação em Psicologia, especialmente nos períodos finais do curso em que há uma maior carga horária de estágios que acontecem no Serviço-Escola de Psicologia, exige que os discentes não apenas tenham conhecimento acerca dos fundamentos teóricos da avaliação psicológica, mas que saibam aplicá-los com segurança, ética e rigor técnico. Entretanto, é comum observar que, mesmo após disciplinas teóricas bem conduzidas, que apresentam esses conceitos e trazem discussões e metodologias ativas acerca da prática clínica, os discentes tendem a demonstrar insegurança ao enfrentar o cenário real do estágio em psicodiagnóstico, conforme disciplina regular do curso de Psicologia no Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ. A avaliação psicológica, sendo um processo complexo e que demanda rigor metodológico, não pode ser reduzida ao uso de testes, pois envolve uma compreensão ampliada do sujeito e também de seu contexto, além de articulações éticas e técnicas que nem sempre são simples de manejar na prática clínica, principalmente por não se apresentarem de forma clara e homogênea como é retratada na literatura técnica, mas sim, ambígua e com características únicas para cada manifestação de prejuízos de um sujeito avaliado para outro (Hutz, Bandeira, 2015). Nesse contexto, o Laboratório de Avaliação Psicológica, sendo inaugurado em abril de
181 2023 e implantado no curso de Psicologia do UNIPÊ, surgiu como estratégia institucional de apoio ao ensino da avaliação psicológica. Vinculado ao componente curricular de estágio em psicodiagnóstico, às disciplinas de: Avaliação Psicológica e Testagem Psicológica; Estágio supervisionado básico em avaliação psicológica - testes cognitivos; Estágio supervisionado básico em avaliação psicológica - técnicas projetivas; Estágio supervisionado básico em avaliação neuropsicológica e também ao Serviço-Escola de Psicologia, o laboratório não substitui a supervisão docente, atua de maneira complementar, fornecendo suporte pedagógico aos discentes matriculados nas disciplinas teóricas, acolhimento técnico e espaço para discussão técnica acerca da instrumentação necessária e apoio profissional frente a capacitação na utilização dos recursos necessários durante o planejamento e execução de uma avaliação psicológica, quando estes passam a cursar as disciplinas de estágio em avaliação, seja a nível supervisionado básico, ou específico. A proposta central é oferecer um ambiente seguro para que os estagiários possam revisar suas práticas, esclarecer dúvidas e refinar seus procedimentos à luz das diretrizes éticas e científicas da profissão. A Resolução CFP nº 31/2022 (Brasil, 2022), que atualiza as diretrizes para a realização da avaliação psicológica no Brasil, orienta parte substancial do trabalho realizado. Ela reforça a necessidade de planejamento, fundamentação técnica, registro sistemático, uso de instrumentos validados e elaboração adequada de documentos, além de alertar para os aspectos éticos e legais que atravessam todo o processo avaliativo. Assim, tanto a estrutura quanto as ações do laboratório estão alinhadas com essas exigências, favorecendo a formação responsável e consistente dos futuros psicólogos, enquanto preza pelo seguimento das normatizações vigentes e também pelo regimento interno do Serviço-Escola de Psicologia. O funcionamento do
182 laboratório é simples, porém, eficaz. Os estagiários contam com momentos de atendimento individual ou em grupo, em que podem trazer dúvidas relacionadas ao andamento do processo de avaliação dos seus pacientes, no entanto, tais dúvidas vinculadas à aspectos técnicos e metodológicos, visando manter a postura clínica e andamento do processo a cargo dos professores-supervisores responsáveis pelo estágio. Essas dúvidas envolvem desde a utilização dos instrumentos com o paciente (como normas de aplicação, correção e análise), até a redação dos documentos finais, como laudos e pareceres, em que podem utilizar do espaço do laboratório como um ambiente seguro para a redação do documento psicológico, como também a retirada de dúvidas pontuais relacionadas a como os instrumentos podem ser descritos de forma técnica e ética. Muitas vezes, surgem também reflexões importantes sobre os limites éticos da atuação, dificuldades na articulação da teoria e prática, e desafios na interpretação integrada dos dados. O laboratório oferece, nesses momentos, escuta qualificada e orientação, sem substituir o juízo clínico do aluno e também a responsabilidade do professor-supervisor, mas oferecendo subsídios para que ele possa chegar a esse juízo com mais segurança e possua maior embasamento e clareza ao passar os dados durante a supervisão de estágio. Além disso, o laboratório possui e disponibiliza materiais complementares, como baralhos terapêuticos, atividades lúdicas que podem ser utilizadas na avaliação, materiais de apoio para elaboração de documentos psicológicos e listas de instrumentos psicológicos favoráveis, isto é, autorizados para uso através do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), e que se encontram disponíveis para consulta, estudos no laboratório, e uso no estágio em Psicodiagnóstico e disciplinas de avaliação, conforme necessidade e orientação dos professores responsáveis. Esses recursos não são impostos como modelos
183 únicos, mas servem como guias que facilitam a organização do trabalho clínico e favorecem a aprendizagem gradativa da lógica avaliativa. O espaço, portanto, não é apenas técnico, mas também formativo, pois auxilia o aluno a consolidar sua autonomia profissional sem abrir mão da responsabilidade. Em relação à disponibilidade do material, o laboratório conta com um estoque amplo de testes psicológicos para avaliação de diversos construtos, como memória, atenção, raciocínio lógico, habilidades sociais, personalidade e também instrumentos específicos para a investigação de transtornos de neurodesenvolvimento. Os instrumentos mantidos em estoque no laboratório são escolhidos tanto para suprir a necessidade das demandas que chegam ao Serviço-Escola de Psicologia no serviço prestado à comunidade externa, em relação ao Psicodiagnóstico, quanto para suprir a necessidade pedagógica durante a realização das disciplinas teóricas do curso, oferecendo uma experiência prática tanto em sala de aula, com a utilização dos instrumentos e capacitação dos discentes que futuramente prestarão o estágio. A utilização de instrumentos psicológicos durante a graduação e o contato dos discentes com esse material de forma prática oferece não somente o aproveitamento de um potencial de desenvolvimento na prática clínica, mas também um diferencial frente à outras instituições no estado da Paraíba que não oferecem esse subsídio para os psicólogos em formação. Assim, o feedback recebido acerca tanto das disciplinas em Avaliação Psicológica, quando do Laboratório de Avaliação Psicológica, são muito positivas nesse aspecto, tornando-se um diferencial também em questão metodológica e aplicada dos ensinos da prática clínica. Outro aspecto importante é a integração do laboratório com os professores-supervisores de estágio. A proximidade entre esses atores permite trocas frequentes sobre as principais dificuldades dos estagiários, o que gera ajustes no suporte oferecido e
184 contribui para uma formação mais alinhada com as necessidades reais da prática de estágio. Para os professoressupervisores, o laboratório tem sido uma importante rede de apoio, sobretudo diante da multiplicidade de demandas que enfrentam em grupos de estágio heterogêneos. Os impactos dessa iniciativa são perceptíveis. Discentes que utilizam o laboratório, inclusive desde as disciplinas teóricas que precedem os estágios na clínica, relatam sentir-se mais seguros para conduzir seus processos de avaliação, compreendem melhor as etapas envolvidas e demonstram mais clareza e objetividade na produção dos documentos técnicos. Para o ServiçoEscola de Psicologia, os benefícios também são evidentes: os atendimentos se tornam mais qualificados, os registros mais consistentes e os procedimentos mais compatíveis com as exigências éticas e técnicas em vigor. Além disso, o próprio processo formativo é favorecido, já que os graduandos conseguem integrar melhor os conhecimentos adquiridos ao longo da graduação. Do ponto de vista da atuação profissional e regularização da profissão, a avaliação psicológica como prática exclusiva no profissional de psicologia, tem também frente ao Conselho Federal de Psicologia diversas denúncias acerca de sua execução. A avaliação deve obedecer aos critérios éticos, técnicos e científicos, e estar alinhada com o Código de Ética Profissional do Psicólogo e resoluções vigentes, porém, tanto a AP quando os documentos psicológicos oriundos dela, como o laudo psicológico, são os tópicos que mais aparecem em denúncias recebidas nos CRP’s e CFP (Oliveira et al., 2023). O uso de testes desfavoráveis, a falta de capacidade técnica do profissional, e o não seguimento das resoluções e o Código de Ética implicam em diversos tipos de consequência ao profissional de psicologia. Assim, as atividades práticas elaboradas em sala de aula, em conjunto com o papel do Laboratório de Avaliação Psicológica na construção da integração entre o saber
185 teórico-prático, possuem o potencial de minimizar a possibilidade deste tipo de falta ética para os discentes que são apresentados previamente às nuances da prática clínica em avaliação. Do ponto de vista institucional, o laboratório representa uma aposta no fortalecimento da qualidade do ensino em Psicologia. Sua existência contribui para aproximar o saber acadêmico da prática clínica, reforçando uma formação ética e crítica, atenta às complexidades do atendimento psicológico. Como já apontava Cunha (2000), o psicodiagnóstico precisa ser compreendido como uma prática de escuta e compreensão profunda do sujeito, e não apenas como um conjunto de técnicas e utilização dos testes psicológicos. A criação de espaços como esse, voltados para a mediação pedagógica e o amadurecimento clínico, vai ao encontro dessa concepção mais ampla e humanizada da avaliação psicológica. Dessa forma, o Laboratório de Avaliação Psicológica - UNIPÊ, enquanto prática institucional, vem se mostrando uma estratégia eficiente na mediação entre teoria e prática. Sua proposta respeita o ritmo de aprendizagem dos alunos e reconhece a complexidade da atuação profissional, funcionando como elo entre os diferentes momentos formativos. Trata-se de uma iniciativa que pode ser replicada em outros contextos e ainda ampliada para outras instituições do grupo Cruzeiro do Sul Educacional que ainda não possuem o respectivo espaço, e que reforça o compromisso das instituições de ensino superior em psicologia com a formação técnica, ética e crítica dos futuros psicólogos. REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 31, de 7 de novembro de 2022. Dispõe sobre a Avaliação Psicológica e revoga a Resolução CFP nº 09/2018. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2022. Disponível em: https://atosoficiais.com.br/cfp/resolucao-n-31-2022.
186 Acesso em: 21 jul. 2025. CUNHA, N. C. da. Psicodiagnóstico: teoria e prática. 5. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R. Avaliação Psicológica: fundamentos e aplicações. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. OLIVEIRA, Aislan José de et al. Faltas éticas durante o processo de avaliação psicológica e elaboração de laudo psicológico. Psicologia e Saúde em Debate, João Pessoa, v. 9, n. 2, p. 607-627, 9 nov. 2023. Disponível em: https://www.psicodebate.dpgpsifpm.com.br/index.php/periodico/article /view/1005?articlesBy SimilarityPage=24. Acesso em: 21 jul. 2025.