SIMULAÇÃO SERIADA E PROCESSO DE ENFERMAGEM: DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS TÉCNICAS E RACIOCÍNIO CRÍTICO NA PRÁTICA CLÍNICA
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217 SIMULAÇÃO SERIADA E PROCESSO DE ENFERMAGEM: DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS TÉCNICAS E RACIOCÍNIO CRÍTICO NA PRÁTICA CLÍNICA Deborah Helena Batista Leite– Curso de Enfermagem – [email protected] Ana Luísa Fernandes Vieira Melo – Curso de Enfermagem – [email protected] DOI 10.5281/zenodo.17499038 A formação de enfermeiros competentes demanda metodologias pedagógicas que propiciem a aprendizagem ativa, a integração harmônica entre teoria e prática, bem como o aprimoramento do raciocínio clínico. A educação em enfermagem contemporânea exige estratégias que rompam com a fragmentação do conhecimento e favoreçam a construção de saberes significativos, centrados no estudante como sujeito ativo do processo formativo. Nesse cenário, o processo de enfermagem, considerado o cerne da prática profissional, reveste-se de fundamental importância para a sistematização do cuidado e para a tomada de decisões clínicas fundamentadas em evidências. Ensinar essa ferramenta demanda mais do que domínio conceitual: exige condições didáticas que favoreçam a contextualização, a análise crítica e o desenvolvimento de competências complexas. A simulação clínica, especialmente em sua vertente seriada, tem emergido como potente estratégia para esse fim. Diferente da simulação tradicional, a simulação seriada organiza-se de maneira progressiva, com incremento gradual da complexidade dos cenários, permitindo que os discentes consolidem suas habilidades de forma estruturada e evolutiva. Tal abordagem favorece não apenas a competência técnica, mas também a tomada de decisão sob pressão,
218 a comunicação efetiva, o trabalho em equipe e o desenvolvimento da autonomia profissional. Essas competências, amplamente demandadas no século XXI, alinham-se aos princípios da educação por competências e às diretrizes da formação em saúde orientada para a integralidade do cuidado. O presente relato foi desenvolvido no semestre 2025.1, na disciplina Prática Clínica de Enfermagem na Saúde do Adulto: Cuidados Mínimos e Intermediários, ofertada pelo curso de Enfermagem do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ. A proposta pedagógica teve como eixo central a aplicação da simulação clínica seriada como ferramenta de ensino-aprendizagem, com o objetivo de integrar teoria, prática e raciocínio clínico em ambientes realísticos. Essa abordagem metodológica foi concebida com base nos pressupostos da aprendizagem experiencial e da educação baseada em competências, e visou promover a internalização das etapas do processo de enfermagem em contextos simulados que espelham a realidade assistencial. As simulações foram realizadas no Complexo Laboratorial e Clínica Escola Florence Nightingale (COLACE), ambiente equipado com infraestrutura tecnológica que inclui manequins de média e alta fidelidade, monitoramento por câmeras, microfones e espelhos unidirecionais, possibilitando à equipe docente observar o desempenho dos estudantes em tempo real, sem interferências. Os discentes foram organizados em grupos e, para cada atividade, sorteou-se uma temática clínica específica (como insuficiência respiratória, alterações cardiovasculares, lesões por pressão, cuidados com drenos e sondas), bem como a ordem de execução das etapas do processo de enfermagem entre os membros da equipe. Cada estudante assumiu responsabilidade por uma das cinco etapas: avaliação, diagnóstico, planejamento, implementação e evolução de enfermagem. O tempo foi igualmente dividido entre leitura do caso clínico e execução da tarefa,
219 assegurando que todos os alunos tivessem oportunidades equitativas de atuação. A equipe docente, posicionada na sala de controle, acompanhou o desempenho com base em instrumentos avaliativos previamente validados, os quais contemplavam critérios objetivos e subjetivos para cada etapa. Ao término da prática, os grupos eram conduzidos à sala de debriefing, onde ocorria uma discussão estruturada das decisões tomadas, dos acertos, das falhas e das possibilidades de melhoria, com base em modelos de feedback reflexivo. Complementarmente, os demais estudantes, que não estavam participando diretamente da simulação, assistiam à atividade ao vivo na sala de debriefing, o que possibilitou ampliar o aprendizado por observação e incentivou o debate coletivo. Toda a experiência foi conduzida por duas docentes, que atuaram como facilitadoras do processo, buscando garantir um ambiente ético, seguro e propício ao desenvolvimento das competências previstas no plano de ensino da disciplina. A execução da simulação seriada permitiu operacionalizar, de maneira concreta e progressiva, os fundamentos do processo de enfermagem em contextos clínicos simulados de média complexidade. Cada grupo de estudantes teve a oportunidade de aplicar os conhecimentos teóricos em uma situação prática, que exigia não apenas domínio técnico, mas também habilidades interpessoais, raciocínio crítico, organização e trabalho em equipe. A atividade iniciouse com a leitura do caso clínico sorteado, momento em que os alunos se organizavam conforme suas etapas, refletiam sobre a situação-problema e definiam estratégias de cuidado coerentes com o quadro apresentado. A etapa de avaliação foi conduzida com atenção à identificação precisa dos sinais e sintomas, utilizando ausculta pulmonar, verificação de sinais vitais e análise de dispositivos presentes, como cateteres, sondas e drenos. A estudante responsável deveria distinguir
220 dados subjetivos e objetivos, correlacionando-os com alterações clínicas relevantes. Em seguida, o segundo integrante formulava os diagnósticos de enfermagem com base na taxonomia NANDA-I e estabelecia objetivos mensuráveis e compatíveis com o quadro clínico. Essa fase demandava domínio conceitual, clareza na hierarquização dos problemas e raciocínio clínico apurado. O planejamento envolvia ainda a seleção e organização dos materiais necessários, bem como a justificativa das intervenções com base em literatura científica. A execução, por sua vez, foi orientada por protocolos institucionais e normas de biossegurança, exigindo dos estudantes precisão técnica, ética e empatia ao interagir com o paciente simulado. Técnicas como administração de oxigenoterapia, realização de eletrocardiograma, curativos, manuseio de sondas e cuidados com drenos foram frequentemente sorteadas e exigiram destreza, segurança e fundamentação. Na última etapa, o estudante responsável pela evolução relataria cronologicamente as ações realizadas e a resposta do paciente, avaliando criticamente os resultados e propondo ajustes, quando necessário. Essa etapa foi estratégica para consolidar o ciclo do processo de enfermagem, promovendo a metacognição e a visão integrada do cuidado. A condução ética, a linguagem técnica e a coerência narrativa foram criteriosamente observadas. Ao longo das atividades, os alunos demonstraram crescente autonomia e segurança. A lógica sequencial da simulação seriada possibilitou uma aprendizagem cumulativa, em que os erros iniciais se tornavam insumos para melhoria contínua. A participação ativa dos docentes na mediação, por meio de observações estruturadas e devolutivas qualificadas, favoreceu o aprimoramento de competências clínicas, comportamentais e comunicacionais. O envolvimento da turma, inclusive dos colegas que assistiam remotamente pela sala de debriefing, gerou um ambiente de
221 aprendizado coletivo, onde as experiências de um grupo reverberavam nas discussões dos demais. A simulação seriada gerou impactos significativos no processo formativo dos estudantes, evidenciados tanto pela evolução no desempenho técnico quanto pela maturidade clínica e emocional observada ao longo da disciplina. Um dos principaisefeitos percebidos foi o fortalecimento do raciocínio clínico, uma competência essencial para a prática profissional, cuja construção demanda experiências contextualizadas, reflexão sistemática e tomada de decisão sob condições que simulam a complexidade real do cuidado em saúde. Os discentes passaram a articular melhor os dados clínicos, a justificar suas condutas com mais segurança e a antecipar riscos com base na leitura integrada do quadro do paciente. Outro impacto notável foi a elevação do engajamento discente. A proposta desafiadora, estruturada e próxima da realidade despertou senso de protagonismo, responsabilidade e envolvimento afetivo com o processo de cuidar. Os estudantes relataram que se sentiram estimulados a estudar com maior profundidade, antecipar possibilidades e se preparar para os cenários de maneira proativa. O ambiente de simulação, por sua vez, ofereceu um espaço seguro para o erro e o aprendizado, permitindo que o estudante experimentasse, refletisse, ajustasse e tentasse novamente, o que favoreceu a autoconfiança e a autorregulação da aprendizagem. No âmbito das competências interpessoais, a experiência favoreceu o desenvolvimento da comunicação terapêutica, da empatia, da escuta ativa e da colaboração em equipe, elementos indispensáveis à humanização do cuidado e à prática segura. A organização dos papéis entre os alunos, a necessidade de escuta mútua e o tempo reduzido de atuação exigiram articulação eficiente e respeito ao trabalho do outro, o que favoreceu o amadurecimento ético e relacional. Do ponto de vista pedagógico, a iniciativa foi considerada inovadora e transformadora,
222 sobretudo por explorar de forma integral a estrutura tecnológica do complexo laboratorial e integrar múltiplos níveis de aprendizagem. O debriefing, enquanto estratégia de feedback estruturado e reflexão crítica, foi valorizado por alunos e docentes como momento essencial para consolidar o aprendizado, resignificar erros e transformar a experiência em conhecimento. A experiência também aproximou os estudantes da realidade dos processos seletivos de instituições hospitalares de referência, em que práticas semelhantes são frequentemente utilizadas. Assim, os impactos extrapolaram o espaço da sala de aula, preparando os discentes para os desafios do mercado de trabalho e reafirmando a pertinência da proposta pedagógica para o ensino contemporâneo da enfermagem. A simulação clínica seriada, integrada ao ensino do processo de enfermagem na disciplina de Prática Clínica na Saúde do Adulto, evidenciouse como uma proposta pedagógica consistente e transformadora, capaz de articular teoria, prática e reflexão crítica em ambientes simulados de alta fidelidade. Seu emprego possibilitou a construção de competências essenciais à prática profissional contemporânea, ao estimular a tomada de decisão fundamentada, o raciocínio clínico, a comunicação eficaz e o trabalho em equipe, em consonância com os desafios que atravessam a formação em saúde. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem. Brasília: MEC, 2014. CAMPANATI, F. L. S. et al. Clinical simulation as a Nursing Fundamentals teaching method: a quasi-experimental study. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, n. 2, 2022. Disponível em:
223 https://www.scielo.br/j/reben/a/kLtg83qXkwsQGnPcGXNPF8P/. Acessado em: 15 jul 2025. HERDMAN, T. H.; KAMITSURU, S.; LOPES, C. T. (org.). Diagnósticos de enfermagem da NANDA-I: definições e classificação – 2024-2026. Porto Alegre: Artmed, 2024. NASCIMENTO, J. S. G. et al. Métodos e técnicas de debriefing utilizados em simulação na enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 41, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/fjCyqcxZmZk87vcVfr9QPXy/. Acessado em: 15 jul 2025.