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Ordem do discurso da Maldição de Recursos Naturais: um Estudo Crítico-Discursivo dos Processos de Dominação, Diferença e Resistência

Lima, Ana Flávia Martins de; Silva, Jorge Leal da; Fuel, Tomás Heródoto

Abstract

Este artigo pretende demonstrar como o discurso da maldição dos recursos naturais imprime em sua concepção a manutenção do poder e controle sobre a exploração de recursos nos países do Sul Global ao endossar o neoliberalismo e a governança corporativa como antídotos para o subdesenvolvimento econômico. Pelo itinerário metodológico que parte da ontologia do realismo crítico e combina a epistemologia pós-colonial e o método da Análise Crítica do Discurso, analisa-se o discurso dominante sobre a capacidade da mineração de gerar desenvolvimento econômico na mesorregião do Sul Goiano e em contraposição, os discursos de diferença e resistências das comunidades por ela atingidas. Conclui-se que o discurso utilizado pelos “corredores do poder” para justificar o avanço da mineração sobre o território no contexto analisado fundamenta-se sobretudo nas retóricas do desenvolvimento econômico e da criação de empregos e que por outro lado, os moradores das comunidades atingidas invocam em seus discursos a experiência histórica da exploração colonial como forma de contestar tal ordem do discurso.

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Artigo aceito para publicação Cadernos de Linguagem e Sociedade, Brasília jan./jun. 2026 (aguardando publicação/fluxo editorial) Ordem do discurso da Maldição de Recursos Naturais: um Estudo Crítico-Discursivo dos Processos de Dominação, Diferença e Resistência Autoria Ana Flávia Martins de Lima - [email protected] Mestrado e Doutorado em Administração - Fundação Getulio Vargas - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas Outro (54) - Universidade Federal de Uberlândia Tomás Heródoto Fuel - [email protected] Mestr e Dout em Admin Pública e Governo - Fundação Getulio Vargas - Escola de Administração de Empresas de São Paulo Jorge Leal da Silva - [email protected] Mestrado e Doutorado em Administração - Fundação Getulio Vargas - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas Outro - Outra Resumo Este artigo pretende demonstrar como o discurso da maldição dos recursos naturais imprime em sua concepção a manutenção do poder e controle sobre a exploração de recursos nos países do Sul Global ao endossar o neoliberalismo e a governança corporativa como antídotos para o subdesenvolvimento econômico. Pelo itinerário metodológico que parte da ontologia do realismo crítico e combina a epistemologia pós-colonial e o método da Análise Crítica do Discurso, analisa-se o discurso dominante sobre a capacidade da mineração de gerar desenvolvimento econômico na mesorregião do Sul Goiano e em contraposição, os discursos de diferença e resistências das comunidades por ela atingidas. Conclui-se que o discurso utilizado pelos “corredores do poder” para justificar o avanço da mineração sobre o território no contexto analisado fundamenta-se sobretudo nas retóricas do desenvolvimento econômico e da criação de empregos e que por outro lado, os moradores das comunidades atingidas invocam em seus discursos a experiência histórica da exploração colonial como forma de contestar tal ordem do discurso. Ordem do discurso da Maldição de Recursos Naturais: um Estudo Crítico-Discursivo dos Processos de Dominação, Diferença e Resistência Resumo Este artigo pretende demonstrar como o discurso da maldição dos recursos naturais imprime em sua concepção a manutenção do poder e controle sobre a exploração de recursos nos países do Sul Global ao endossar o neoliberalismo e a governança corporativa como antídotos para o subdesenvolvimento econômico. Pelo itinerário metodológico que parte da ontologia do realismo crítico e combina a epistemologia pós-colonial e o método da Análise Crítica do Discurso, analisa-se o discurso dominante sobre a capacidade da mineração de gerar desenvolvimento econômico na mesorregião do Sul Goiano e em contraposição, os discursos de diferença e resistências das comunidades por ela atingidas. Conclui-se que o discurso utilizado pelos “corredores do poder” para justificar o avanço da mineração sobre o território no contexto analisado fundamenta-se sobretudo nas retóricas do desenvolvimento econômico e da criação de empregos e que por outro lado, os moradores das comunidades atingidas invocam em seus discursos a experiência histórica da exploração colonial como forma de contestar tal ordem do discurso. Palavras-chave: maldição de recursos naturais, análise crítica do discurso, nióbio 1. Introdução Para a tradição cristã, a relação entre o homem e a natureza expressa em seu livro sagrado, revela que ainda nos primórdios da vida humana na terra, nem todos os recursos naturais criados providencialmente estavam ao dispor do homem. Aliás, foi justamente pela contravenção à proibição do usufruto de certos recursos que os primeiros habitantes foram amaldiçoados. Historicamente, a validade da interpretação da vida humana ancorada a esta sacra fonte, teve o seu período dourado no que se passou a chamar como “idade das trevas”, a idade média dos séculos XV-XVI, superada pela incandescência do iluminismo que despontou na Europa nos séculos seguintes XVII-XVIII onde o Senhor, então ser omnipotente e omnipresente viu seu espaço gradualmente ocupado pelo homem, agora dono de si, racional, por manter as rédeas sob os proventos da natureza. Consta nesta esteira o eurocentrismo, abordagem elaborada sistematicamente a partir do século XVII na Europa que postula como parte do processo de eurocentralização padrões de desenvolvimento, de exercício de poder colonial/moderno/capitalista. Isto de tal sorte a engendrar determinada ordem econômica, política e social como única racionalidade legítima (Quijano, 2002). A América foi o primeiro espaço/tempo no qual o padrão de poder colonial ocidental foi experimentado. A acumulação do capital obtida com a exploração do trabalho nas Américas deu uma enorme vantagem aos países colonizadores europeus, possibilitando a extensão de seu domínio por todas as demais nações do globo, incorporando-as em um único sistema-mundo. A constituição histórica da América Latina é resultante da condição de subalternização não só econômica e política, mas, também, simbólica e discursiva que a partir da ascensão do império Estadunidense passou a ser realizada não mais pelos preceitos do colonialismo moderno e sim pelo discurso do desenvolvimento (Quijano, 2005). De acordo com Banerjee (2003), “a invenção do desenvolvimento e a criação do subdesenvolvimento” teve a sua gênese no discurso inaugural do Presidente Harry Truman em 20 de janeiro de 1949 em que o imperialismo estadunidense outorgava a missão de levar o desenvolvimento para as áreas subdesenvolvidas do mundo. A ficção do subdesenvolvimento produziu um discurso que incutiu em todos os países a necessidade de perseguir os fatores materiais e organizacionais para acessar as formas de vida criadas pela civilização industrial de maneira que os países desenvolvidos fornecessem as categorias e técnicas necessárias para alcançá-las (Escobar, 1988). Dado que o desenvolvimento é uma forma de intervenção sobre o chamado "mundo subdesenvolvido” e o colonialismo o exercício de poder de um país sobre o outro, seja por meio de acordos de soberania ou de mecanismos indiretos de controle, então podemos compreender o desenvolvimento como uma forma de dominação colonial contemporânea (Peña, 2015). Derivados deste e, associados à gestão de recursos naturais, a Comissão Brundtland, em 1980, cunhou o conceito “desenvolvimento sustentável” em função do qual transformou a “natureza” em “meio ambiente”. Tal mudança implicou na separação entre a natureza e as práticas sociais e culturais que constituíam seus inúmeros significados, passando a ser encarada como um ativo a ser gerenciado, destinado a produzir resultados discretos, observáveis e mensuráveis calcados no uso da lógica dos mercados e da acumulação capitalista. Do esteio dos conceitos de desenvolvimento, subdesenvolvimento, ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável e de seu viés questionador sobre a potencialidade dos recursos naturais de promover o crescimento econômico dos países em vias de desenvolvimento, Richard Auty (1993) talhou o conceito de “maldição dos recursos naturais” segundo o qual a abundância em recursos naturais nos países em desenvolvimento estaria relacionada a um desempenho econômico inferior (Cust e Mihalyi, 2017; Frynas et al., 2017). Por conseguinte, a diferença entre a riqueza em recursos naturais e pobreza econômica deve ser reduzida mediante uma gestão econômica apropriada. Apesar da abundante literatura sobre resource curse, esta não se mostrou capaz de definir uma solução para o problema (Gilberthorpe & Rajak, 2017), tendo sido pautada principalmente pela incapacidade das instituições e governos de orientar o processo de desenvolvimento (Kuwimb, 2010; Ross, 2015) e pela ênfase dada às boas práticas de governança e de responsabilidade social corporativa como uma saída possível para a transformação da maldição dos recursos em riqueza mineral e desenvolvimento sustentável (Collier, 2008; Hicks, 2015). A teleologia, pois, que fundamenta a teoria da maldição dos recursos baseia-se nos ideais clássicos da modernização e do progresso, segundo os quais o valor da terra é determinado unicamente por sua capacidade produtiva (Kirsch, 2014; Gilberthorpe & Rajak, 2017). Dentre as atividades econômicas diretamente relacionadas à exploração de recursos naturais, a mineração representa uma das mais importantes para o equilíbrio da balança comercial brasileira (IBRAM, 2019). De acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM, 2019) em 2018, as exportações de minério renderam ao país 29,9 bilhões de dólares sendo 68% desse montante relativo às exportações de ferro, 9% de ouro, 8,81% de cobre e 7% de nióbio. A participação do nióbio correspondeu a pouco mais de 2 bilhões de dólares, o que equivale a 0,8% do total das receitas de exportações nacionais (IBRAM, 2019). O Brasil detém 98,2% das reservas de nióbio do mundo e é responsável pelo atendimento de 93% da oferta mundial. A atividade de extração e beneficiamento do nióbio no país é concentrada em duas grandes corporações: a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e a Niobrás, antiga subsidiária da Anglo American vendida à China Molybdenum (CMOC) em 2016 por 1,7 bilhões de dólares (CMOC, 2016). A Mina Boa Vista, principal mina de extração de nióbio da Niobrás localiza-se em um território que compreende três comunidades de pequenos produtores rurais - Macaúbas, Mata Preta e Coqueiros - no município de Catalão, Goiás. A intensificação da atividade minerária na região tem elevado a tensão entre a empresa e as comunidades que sofrem com a desapropriação e a destruição de seus meios de vida e que questionam o discurso do progresso e do desenvolvimento econômico como justificativa para o avanço da mineração sobre o território. A partir da análise da ordem discursiva sobre a maldição de recursos, o estudo pretende responder às seguintes questões: em que contexto esta tese surgiu, que interesses persegue e como se manifestam a dominação, a diferença e a resistência com relação a esta ordem do discurso no contexto de exploração do nióbio na mesorregião do Sul Goiano no Brasil? Para isso, segue uma visão ontológica assente na ideia de que as narrativas correntes sobre a maldição de recursos naturais reproduzem relações de poder coloniais reforçando a dependência dos Estados do Sul Global aos Estados e instituições do centro. Com efeito, a explicação da dominação subjacente é feita à luz do realismo crítico. Epistemologicamente, a análise é orientada pelo pós-colonialismo e metodologicamente baseia-se na abordagem da Análise Crítica do Discurso (ADC) desenvolvida por Norman Fairclough. 2. Auty e a ascensão da tese da maldição de recursos A análise do conceito de maldição de recursos naturais neste artigo, é baseada na obra seminal de Auty (1993) que, como explicaremos mais adiante, introduziu no campo acadêmico o termo maldição para se referir a visão contraintuitiva da posse de recursos como sinônimo de maiores oportunidades de crescimento econômico. Porém, muito antes da publicação daquela tese, houve um contexto político e científico fecundo do qual o autor deve ter sido fortemente influenciado. Note-se que, antes da publicação da obra, realizaram-se duas conferências importantes (1972 em Estocolmo, Suécia e 1992 no Rio de Janeiro, Brasil) onde foram tomadas decisões que estruturaram as narrativas sobre o meio ambiente e o papel dos Estados na sua proteção. A primeira conferência internacional sobre o meio ambiente realizou-se na cidade de Estocolmo, na Suécia, de 5 a 16 junho de 1972, e foi precedida por uma série de movimentos de reivindicação e protestos de organizações sociais exigindo medidas efetivas para maior proteção do meio ambiente. Neste evento, de acordo com Prada (1972), os 112 países participantes reconheceram por um lado, as consequências danosas que o desenvolvimento industrial infligiu à natureza e por outro a pobreza decorrente da falta deste mesmo desenvolvimento industrial. Assim, os danos ambientais foram vistos como fruto quer da industrialização quer de sua ausência. Mais importante ainda é, como nota Mindoso (2020) que decorrente da narrativa inaugurada nesta conferência, os países do Sul Global ficariam sob a tutela do Norte Global uma vez que necessitavam de seu apoio financeiro, tecnológico e científico. Em outras palavras, o direito de uso e aproveitamento dos proventos naturais existentes nos países do Sul Global exigia um alinhamento com as agências de cooperação e as organizações internacionais responsáveis pela regulação da proteção do meio ambiente. Vinte anos depois, na Conferência Rio+20, que ocorreu em 1992, os problemas ambientais passaram a ser vistos a partir de uma perspectiva globalizada e, buscou-se realizar um esforço para reconhecer a responsabilidade desigual dos países nos danos causados ao meio ambiente (Mindoso, 2020) No Rio, arrastados pela onda liberalizante que despontara no alvorecer daquela década, para os países do Sul Global a solução dos problemas ambientais passava necessariamente pela abertura ao neoliberalismo econômico, aceitando em seus territórios a presença de capital estrangeiro, sobretudo na exploração de seus recursos naturais. Neste sentido, caberia aos países do Norte Global de onde provinha o capital econômico internacional, intensificar a extração e exploração de recursos naturais e, ao Sul, preservar a biodiversidade. Como se pode ver, se a conferência de 1972 pode ser considerada um acontecimento remoto da tese da maldição de recursos, o mesmo não se pode se dizer, da conferência de 1992 que aconteceu um ano antes da publicação da obra de Aunty. Para além do contexto político, no âmbito acadêmico, o assunto já ocupava a mente dos mais ilustres economistas. Davis e Tilton (2008) explicam que uma visão menos apologética da possibilidade dos países se enriquecerem com base na exploração de recursos naturais, partiria do que ficou conhecido como tese de Prebisch-Singer. A tese de Prebisch-Singer era de inspiração keynesiana e defendia que a demanda por produtos minerais e outros recursos, cresce menos em relação aos produtos manufaturados. Por isso, recomendava aos países em vias de desenvolvimento, diversificar os produtos de exportação e apostar na industrialização local orientada para a substituição das importações. Esta tese conferiu a racionalidade intelectual para as “políticas autárquicas” que muitos países implementaram entre as décadas de 60 e 70. Com efeito, em vários Estados do Sul Global (Bresser-Pereira et al., 2020, Mkandawire & Soludo, 1998; Lopes, 2019) políticas de industrialização rápida foram levadas a cabo. Contudo, os níveis de crescimento econômico obtidos até a virada ideológica na década 90 e a redução do apoio dos parceiros de cooperação do bloco do leste, davam pouco espaço de manobra para que os países mantivessem suas “políticas autárquicas” ante a globalização e a ascensão do capitalismo financeiro-rentista capitaneado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. As ideias de Prebisch-Singer, então abrigadas na Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), estavam com seus dias contados. Do exposto, verifica-se que no pós-Estocolmo, as questões ambientais, o uso de recursos locais e a preservação da natureza ganharam maior ímpeto. Em seguida, a conferência do Rio revigorou o assunto e endossou o neoliberalismo como a “nova” racionalidade intelectual no relacionamento inter e intra estatais sob o qual ancorou-se a tese de maldição de recursos de Richard Auty. Nos anos que antecederam à publicação da obra que o firmou nos meios acadêmicos, Auty fez estudos em vários países como a Guiana, Caribe, Trinidade e Tobago, Nigéria, Camarões, Coréia do Sul, Zâmbia, China, Índia, Venezuela e da América Latina, em suma, em países do Sul Global. Com efeito, o lócus da análise que serviu de esteio para sua a tese não fugiu à regra, visto que, contemplou a análise de quatro países da América-Latina (Chile, Peru, Bolívia, Jamaica) e, para aferir a validade das conclusões, incluiu a Zâmbia (África) e Papua Nova Guiné (na Ásia). Daqui pode-se inferir que, para além de sua inserção em um contexto político e acadêmico onde crescia a preocupação com o meio ambiente, a sua atenção esteve, ao longo dos anos antecedentes, voltada para os países em vias de desenvolvimento que se tornaram o principal destinatário da mensagem veiculada pela sua tese de maldição de recursos. A tese da maldição de recursos é descrita em três momentos. Nas palavras de Auty (1993): [Primeiro] “um crescente corpo de evidências sugere que uma dotação favorável de recursos naturais pode ser menos benéfica para países com níveis de desenvolvimento de renda média e baixa do que a sabedoria convencional (grifo nosso) pode supor”. [Segundo], “duas peças importantes dessa evidência são os esforços de industrialização dos países em desenvolvimento no pós-guerra e o desempenho dos países em desenvolvimento ricos em minerais desde a década de 1960”. [Terceiro] as “novas evidências sugerem que não apenas os países ricos em recursos podem deixar de se beneficiar de uma dotação favorável, como também podem ter um desempenho pior do que os países menos dotados. Esse resultado contra-intuitivo é a base da tese da maldição dos recursos” (enumeração nossa) (p.1). De acordo com Pamplona e Cacciamali (2018) durante o período de 1950 a 1970, a economia convencional cujo mainstream era constituído por estudiosos como Viner, Lewis e Rostow concordava com os preceitos da teoria das vantagens comparativas, que via a abundância de recursos naturais como vantajosa para o desenvolvimento. Destarte, a posse de grandes e diversificados recursos naturais era vista como uma vantagem para que um país obtivesse rápido crescimento econômico. Em análise retrospectiva, Auty mostra que os países que buscaram industrializar-se (tomando como caso de estudo os países mencionados), explorando os seus recursos e objetivando a substituição de importações, “podem ter tido um desempenho pior do que os países menos dotados”. Por conseguinte, a diferença entre a riqueza em recursos naturais e pobreza econômica dos países deve ser reduzida mediante uma gestão econômica apropriada. Dessa maneira, criticando as políticas industriais calcadas na economia convencional, Auty endossou o neoliberalismo como o antídoto para os corolários nefastos da crescente rejeição da onipresença do Estado. Porém, a tese da maldição de recursos que parece incorporar uma estratégia de “criar dificuldades para vender facilidades” não tem estado imune à crítica, como veremos a seguir. 3. A crítica da tese sobre a maldição dos recursos: a busca por uma antítese Em oposição à concepção moderna sobre o potencial da exploração das vantagens comparativas como forma de superar o atraso econômico e à crítica desenvolvimentista sobre a condição de dependência imposta aos países subdesenvolvidos pela estrutura econômico, política e internacional, a teoria da maldição dos recursos pressupõe o alinhamento desses países às políticas de desenvolvimento econômico preconizadas pelo neoliberalismo - orientadas à exportação e ao livre mercado (Kuwimb, 2010) e às políticas de governança global, afixadas por meio das premissas do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social corporativa. A tese de Kuwimb (2010) sobre a maldição dos recursos na Papua Nova Guiné oferece uma análise crítica contundente a respeito da dimensão discursiva da maldição. O autor constatou que os efeitos da maldição dos recursos são os mesmos descritos por economistas políticos nas décadas de 1950 e 1960 como a causa do subdesenvolvimento. Nesta conformidade, para o autor, a “diferença na escolha de palavras para descrever os mesmos efeitos decorre do ponto de vista ideológico a partir do qual a pobreza e o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo são discutidos” (p.6). A partir de uma análise meticulosa da tese de Auty (1993), Kuwimb (2010) aponta que, a tese de maldição de recursos desempenha um papel ideológico para legitimar as posições hegemônicas das antigas potências coloniais e corporações transnacionais que financiam e controlam a exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos nos antigos territórios coloniais e ofuscam os efeitos econômicos, sociais e ambientais prejudiciais das suas atividades culpando políticas ‘erradas’ e a interferência do governo no funcionamento ‘perfeito’ do chamado "mercado livre” (p.14). Kuwimb (2010) evidencia a predominância dos preceitos do neoliberalismo nos discursos sobre a maldição de recursos. O autor destaca dois conjuntos de evidências que corroboram tal afirmação. O primeiro refere-se a crítica neoliberal direcionada à participação dos governos no processo de desenvolvimento econômico e o segundo, às sugestões das políticas econômicas neoliberais como forma de solucionar os efeitos da maldição. O conjunto de evidências apresentado por Kuwimb (2010) revela a contradição fundamental presente nesse discurso, segundo o qual a intervenção do Estado no processo de desenvolvimento econômico deve limitar-se à implementação das políticas econômicas preconizadas pelo neoliberalismo. Kuwimb (2010) conclui que a fonte da maldição dos recursos naturais, na Papua Nova Guiné, ao contrário das causas habituais apontadas pela teoria da maldição dos recursos, é o regime jurídico imposto pelo colonialismo que resultou na supressão dos direitos dos povos tradicionais sobre o território e sobre os recursos, transferidos às corporações transnacionais. As boas práticas de governança global também despontam no debate internacional sobre a maldição dos recursos como a solução para a aparente incapacidade do Estado de realizar o desenvolvimento econômico. Nesse contexto, o capital estrangeiro encarnado em grandes corporações transnacionais, depositárias das boas práticas de governança, é encarado como a solução e não a causa do problema (Gilberthorpe & Rajak, 2017). Assim, enquanto alguns autores como Collier (2008) e Hicks (2015) enfatizam as boas práticas de governança e de responsabilidade social corporativa como uma saída possível para a transformação da maldição dos recursos em riqueza mineral e desenvolvimento sustentável, outros (Carmody, 2011; Southall & Melber, 2009; Lee, 2009; Prichard, 2009; Ferguson, 1999) evidenciam a continuidade de padrões de exploração e expropriação imperialistas. Segundo Gilberthorpe e Rajak (2017) as disputas discursivas em torno da maldição dos recursos não foram capazes de definir uma solução para o problema, evidenciando a prevalência de lacunas sobre o entendimento acerca da maldição. Diante desse cenário, as autoras destacam a contribuição da antropologia da extração na reconfiguração de uma abordagem que seja capaz de direcionar o debate de maneira adequada. Para elas, compreender a operacionalização de projetos extrativos em comunidades tradicionais passa necessariamente pela questão da agência, não somente dos atores marginalizados que estão sujeitos ao processo de extração, mas dos atores e instituições que conduzem o processo. Uma das possibilidades de análise que emerge desta questão refere-se a forma como o discurso de economistas e especialistas sobre a maldição de recursos legitima e endossa as grandes corporações como detentoras de uma autoridade moral, expressa nas práticas de governança, capazes de garantir a adequada exploração das riquezas minerais (Weszkalnys, 2010; Gilberthorpe & Rajak, 2017). Esses atores, entretanto, não são os únicos implicados nos “corredores do poder” que estruturam o mundo real da extração, faz-se também necessário questionar o papel desempenhado pelo Estado e pelas próprias corporações e que as autoras denominam como “corredores do poder”. Para Gilberthorpe e Rajak (2017), compreender o papel desses atores e instituições exige a análise dialética da relação entre eles não só na maneira como o Estado molda as corporações por meio de seu papel regulador, mas, também a forma como ambos se entrelaçam na conformação de identidades corporativas e culturas de governança que acabam por dissociá-los da maldição de recursos e posiciona as corporações como entidades benevolentes. A teleologia pois, que fundamenta a teoria da maldição dos recursos baseia-se nos ideais clássicos da modernização e do progresso, segundo os quais o valor da terra é determinado unicamente por sua capacidade produtiva e cujos custos sociais de extração, ou seja, a experiência incalculável da perda - expropriação, destruição do tecido das relações humanas, alienação da paisagem e empobrecimento - são raramente incluídos e desproporcionalmente arcados por aqueles que vivem no entorno das operações extrativas (Kirsch, 2014; Gilberthorpe & Rajak, 2017). Corroborando com estes autores para analisar o reflexo da tese da maldição de recursos no caso da exploração de nióbio nas comunidades das mesorregiões do alto Paranaíba e Sul goiano do Brasil, a seguir apresenta-se o itinerário teórico-metodológico que parte de uma ontologia do realismo crítico e combina a epistemologia pós-colonial e a ADC. 4. Percurso metodológico Para responder o problema de pesquisa, partimos de uma ontologia realista crítica. Os estudiosos do realismo crítico presumem a existência de um mundo objetivo (intransitivo) que tem poderes e propriedades que podem ser mais precisamente conhecidos como uma consequência do esforço científico, mas reconhecem que o conhecimento é subjetivo, discursivamente limitado (ou seja, transitivo) e que tal construção social está em constante mudança (Vincent & O’Mahoney, 2016). Em Critical realism and semiosis, Fairclough et al. (2002) defendem que a análise semiótica crítica - especialmente a ADC, representa estratégia analítica supra-textual compatível com o realismo crítico. Incorpora-se, portanto, a ADC enquanto arcabouço teórico-metodológico com vistas a compreender o papel das semioses nos processos da mudança social e das relações a que essa se imbrica, conforme postula Fairclough (2012). Quando os diversos gêneros e discursos de determinadas práticas sociais são interrelacionados de uma maneira particular, os denominamos como ordem do discurso sob interação. A convergência dos gêneros discursivos caracteriza-se ainda pela interdiscursividade e intertextualidade o que os reveste sob a perspectiva da língua em ação. Segundo Fairclough (2012, p. 310) uma ordem do discurso pode ser definida como “uma ordenação social particular das relações entre os vários modos de construir sentido”. Nesta ordenação, algumas formas de construção de sentido são dominantes e outras são marginais, alternativas. A estruturação da diversidade semiótica torna-se hegemônica quando passa a integrar o imaginário social e a legitimar relações de dominação. Apesar da hegemonia de alguns discursos, a estruturação de uma ordem discursiva é sempre dinâmica, “uma ordem do discurso não é um sistema fechado ou rígido, é, na verdade, um sistema aberto posto em risco pelo o que acontece em interações reais” (Fairclough, 2012, p. 311). Com vistas a captura dessa dinamicidade dos discursos, objetiva-se analisar os direcionamentos discursivos da ordem do discurso da maldição dos recursos naturais no contexto da exploração do nióbio na mesorregião do Sul Goiano. Para isso, recorremos tanto à produção discursiva dominante, presente nas falas dos dirigentes e autoridades, quanto à produção discursiva alternativa, expressa nos depoimentos dos moradores das comunidades atingidas pela mineração. Reconhecemos que a ADC não se limita unicamente a uma metodologia de pesquisa. Segundo Fairclough (2012), a ADC deve ser compreendida como uma Teoria Social da Linguagem, ou mais amplamente, da semiose, considerada como um dos elementos do processo social material mais amplo e cuja análise se beneficia de uma relação dialógica com outras teorias e métodos sociais (Fairclough, 2001). Assim, em consonância com Fairclough (2000), recorremos também à perspectiva pós-colonialista como forma de direcionar nossa crítica ao discurso dominante sobre a maldição de recursos. A perspectiva pós-colonial orienta-se pela crítica radical ao colonialismo e tem como objetivo contestar a soberania aparentemente inquestionável das distinções discursivas por ele produzidas (Banerjee & Prasad, 2008). Os estudos pós-coloniais visam compreender as questões contemporâneas através da “reflexão retrospectiva do colonialismo” (Said, 1978, p.45), e, com isso, desvelar práticas neocoloniais caracterizadas por controles de ordem política, econômica e cultural (Banerjee & Prasad, 2008). Ao localizarmos a teoria da maldição dos recursos no discurso mais amplo do desenvolvimento e da modernidade ocidental, a perspectiva pós-colonial nos oferece a possibilidade de compreender seus mecanismos e efeitos a partir de uma crítica radical e eticamente direcionada (Banerjee & Prasad, 2008; Prasad, 2003). Os métodos e técnicas utilizados para composição do corpus de pesquisa foram a pesquisa documental e entrevistas. A pesquisa documental destinou-se a recuperar documentos sobre o contexto além das falas e posicionamentos oficiais dos atores e instituições que fazem parte dos “corredores do poder” (Gilberthorpe & Rajak, 2017) e que estão alinhados ao discurso dominante sobre a maldição dos recursos. Elegemos a notícia intitulada “Ampliação de mineradora pode investir R$1,2bi em Catalão” publicada no site do Governo do Estado de Goiás em maio de 2019. A notícia trata da reunião realizada em 9 de maio do mesmo ano, que envolveu representantes do poder público, como o Governador do Estado de Goiás e o Prefeito do município de Catalão, e o corpo diretivo da CMOC com a finalidade de anunciar a ampliação das atividades minerárias da empresa no município. A escolha desta publicação justifica-se não só pela relevância da declaração em si, mas sobretudo por abarcar parte fundamental dos atores mais influentes e suas narrativas sobre a ampliação da atividade minerária no município cujo registrado no episódio comunicativo da Fotografia 1. Sua gramática inclui à “resistência” (E16) ao "ritmo" (E12) das ações colonial-empresariais, pautadas pela subserviência aos seus modelos "predatórios" (E12), de "descobrimento" (E14), que se "apropria" (E14) daquilo que é de outrem por meio, também, do silêncio de promessas ("não por escrito" (E16)) não cumpridas. As diferentes formas de articular sentido e as práticas sociais dos moradores das comunidades são um contraponto ao discurso dominante empregado pelos integrantes dos corredores do poder que recorrem ao discurso do desenvolvimento e do progresso como forma de justificar o avanço da mineração sobre o território. 7. Considerações finais Este artigo objetivou responder em que contexto a tese da maldição de recursos naturais surgiu, que interesses persegue e como é que estes se manifestam na exploração do nióbio nas comunidades das mesorregiões do Sul goiano no Brasil. Pelo itinerário metodológico que partiu da ontologia do realismo crítico e combinou a epistemologia pós-colonial e discursiva crítica, constatou-se que, o paradigma da maldição dos recursos da literatura do resource curse funciona como um discurso sobre o desenvolvimento cujos valores normativos são ordenados em função das oposições entre norte e sul, sucesso e fracasso, boa governança e má governança, desenvolvimento e subdesenvolvimento. Por conseguinte, a análise crítica da tese de maldição de recursos naturais de Richard Auty revela que se trata de uma crítica à capacidade de alguns governos de realizar o desenvolvimento econômico e visa apresentar as políticas econômicas neoliberais e a governança corporativa como formas de solucionar os efeitos da maldição onde o capital estrangeiro encarnado em grandes corporações transnacionais é encarado como a solução e não a causa do problema (Kuwimb, 2010; Gilberthorpe & Rajak, 2017). Pelo exposto, o caso da exploração de nióbio na mesorregião do Sul Goiano no Brasil evidencia que o discurso dos “corredores do poder” reproduz a ideia de que as grandes corporações são as depositárias benevolentes do progresso econômico, expresso, sobretudo na retórica da criação de empregos e demonstra alinhamento ao discurso dominante presente nas discussões sobre a maldição de recursos de que sua resolução estaria relacionada a adoção de políticas econômicas neoliberais. Ao contrário, o discurso dos moradores evidencia que o avanço da mineração não significou melhores condições de vida, mas a destruição do território e das comunidades tradicionais que nele vivem e que dele dependem e insere a retórica empregada pelos corredores do poder no contexto mais amplo da exploração colonial a qual historicamente estão submetidos. A rachadura discursiva entre dominador-dominado evidencia a dupla avenida de sentidos produzidos pelas vozes analisadas e que a constituição da ordem do discurso não ocorre sem resistência. Obviamente não se trata de uma dinâmica exclusiva, especialmente por haver moradores favoráveis à exploração mineral. Reconhecemos inclusive, como limitação da pesquisa a seleção de apenas um episódio comunicativo: a reunião da Fotografia 1. Como demonstrado na análise, a temática da maldição de recursos naturais é bastante controversa quando se procura identificar a fonte acabando-se por atribuir a “culpa à vítima” ou mesmo a difamar os recursos. Neste âmbito, os próximos estudos podem aprofundar a discussão sobre a performatividade do discurso de maldição de recursos, analisar os aspectos geopolíticos investidos na produção dessas narrativas e aferir os ganhos que o capitalismo financeiro vem adquirindo com a sua reprodução. Referências Auty, R. (1993). 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