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TECNOLOGIA E CUIDADO: ESTRATÉGIAS DIGITAIS PARA FEEDBACK FORMATIVO E DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES CLÍNICAS NA FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA

Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ

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118 TECNOLOGIA E CUIDADO: ESTRATÉGIAS DIGITAIS PARA FEEDBACK FORMATIVO E DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES CLÍNICAS NA FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA Landerson Carlos Martins de Souza – Curso de Psicologia – [email protected] Felipe Fernandes da Silva – Curso de Psicologia – felipe[email protected] DOI O século XXI redefiniu o panorama educacional, impulsionando uma transformação profunda na forma como o conhecimento é construído, mediado e avaliado. No contexto do ensino superior, a integração entre tecnologia e práticas pedagógicas transcendeu a esfera da possibilidade para se tornar uma necessidade imperativa. Inovar, neste cenário, não se resume à mera inserção de ferramentas digitais no cotidiano acadêmico, mas implica uma reconfiguração paradigmática do processo de aprendizagem. Particularmente na formação em Psicologia, onde a centralidade do contato humano e o desenvolvimento de habilidades interpessoais são o cerne da profissão, a presença das tecnologias exige uma articulação cuidadosa. É fundamental que esses recursos digitais se entrelacem de forma orgânica com os princípios do cuidado, da escuta ativa e do respeito à singularidade de cada estudante. Este capítulo propõe-se a detalhar uma boa prática desenvolvida na Clínica Escola de Psicologia do UNIPÊ, no âmbito da supervisão clínica. O foco recai na exploração e utilização estratégica de ferramentas digitais para impulsionar o desenvolvimento de competências clínicas, éticas e relacionais nos estagiários. A supervisão clínica é, em sua essência, uma prática intrinsecamente 119 relacional. O vínculo entre supervisor e estagiário não apenas complementa o conteúdo técnico transmitido, mas se estabelece como um pilar fundamental para a segurança e a confiança necessárias ao desenvolvimento do estudante. Contudo, a crescente complexidade do cotidiano clínico demanda dispositivos de acompanhamento que transcendam as limitações dos encontros presenciais. É nesse ponto que a tecnologia surge como uma poderosa aliada, permitindo expandir o campo da supervisão para além da sala de aula, sem, contudo, comprometer a dimensão essencial do cuidado pedagógico. Uma das ferramentas centrais desta abordagem inovadora é a implementação de formulários digitais semanais, elaborados por meio de Forms. Estes formulários funcionam como verdadeiros diários reflexivos, nos quais os estagiários são convidados a registrar, de forma estruturada e autônoma, seus avanços, dúvidas, angústias e planejamentos para os atendimentos subsequentes. Essa ferramenta cumpre uma dupla função estratégica: por um lado, confere ao supervisor a capacidade de acompanhar de perto a trajetória individual de cada estudante, oferecendo intervenções personalizadas; por outro, e não menos importante, estimula o desenvolvimento da metacognição e da autorregulação dos próprios estagiários (LUCKESI, 2011; VALENTE, 2019). Ao refletir sobre sua prática e seus sentimentos, o aluno se torna protagonista de seu próprio aprendizado. Adicionalmente, um componente inovador e ético dessa prática é o envio de formulários de avaliação aos próprios pacientes, sempre de maneira ética e consensual. Estes formulários oferecem uma perspectiva rica e complementar sobre a percepção do cuidado recebido, incluindo a clareza das intervenções, a qualidade da escuta e a construção do vínculo terapêutico. É crucial ressaltar que esses dados não possuem caráter avaliativo para os alunos, mas servem como insumos valiosos para a construção de devolutivas mais ajustadas e 120 abrangentes por parte do supervisor. Essa estratégia permite um olhar multifocal sobre o processo clínico, revelando aspectos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos. Dessa forma, tecnologia e ética se entrelaçam harmoniosamente na promoção de um ensino mais responsável, empático e centrado no paciente. Outro pilar inovador da prática docente apresentada reside na utilização do Microsoft Word Online como um espaço dinâmico de produção textual colaborativa. Durante os encontros de supervisão, os estagiários, em conjunto e em tempo real, dedicam-se à construção de hipóteses diagnósticas, planos de intervenção detalhados e devolutivas terapêuticas. O recurso do "comentário em tempo real" dentro da plataforma digital torna-se uma ferramenta poderosa para o supervisor, permitindo-lhe orientar a escrita, corrigir pontos específicos, sugerir novas abordagens e, simultaneamente, incentivar a autonomia e o senso crítico dos estudantes. Tratase de um processo de aprendizagem dinâmico e interativo, que não apenas favorece o raciocínio clínico aprofundado, mas também impulsiona a construção coletiva do saber. Este tipo de ferramenta tem sido igualmente empregado na elaboração de relatórios finais de estágio, que, ao invés de serem encarados como meras tarefas individuais, transformam-se em oportunidades valiosas de aprendizagem compartilhada. Nesse contexto, a Inteligência Artificial (IA), quando utilizada de maneira responsável e ética, pode oferecer suporte significativo, como sugestões de estrutura textual, revisão ortográfica ou formatação. Entretanto, é imperativo que o uso da IA seja sempre acompanhado de uma orientação crítica do docente, que reforce o protagonismo do estudante e sua capacidade de discernimento e autoria (SANTOS; BATISTA, 2023). A tecnologia, assim, não substitui o pensamento crítico, mas o potencializa. No modelo educacional tradicional, o feedback é frequentemente percebido como uma resposta 121 reativa a um erro ou desempenho insatisfatório. No entanto, na prática desenvolvida na Clínica Escola, o feedback é estrategicamente reposicionado como uma ferramenta contínua de desenvolvimento, intrinsecamente ligada ao processo de aprendizagem. Para além dos formulários reflexivos e das discussões colaborativas, são empregados instrumentos como enquetes rápidas via Forms ou Mentimeter. Essas enquetes, aplicadas após as supervisões, sondam o sentimento dos estagiários, sua percepção de preparo e sua segurança clínica. As respostas coletadas são cruciais para orientar ajustes precisos no planejamento pedagógico, personalizando o processo formativo e garantindo que as necessidades dos alunos sejam atendidas de forma proativa. A edificação de um espaço de feedback seguro, horizontal e constante está em plena sintonia com as teorias da avaliação formativa. Tais teorias defendem um acompanhamento processual e dialógico como a forma mais eficaz de promover uma aprendizagem crítica e transformadora (VASCONCELOS, 2021). O feedback, nesse sentido, não é um julgamento, mas um convite à reflexão e ao aprimoramento contínuo. Os resultados obtidos com a implementação dessas estratégias digitais são inegavelmente múltiplos e positivos: observou-se um aumento significativo da participação discente nos encontros de supervisão, uma melhoria notável na qualidade das anotações clínicas, e um fortalecimento da postura ética e empática dos estagiários. Adicionalmente, houve um desenvolvimento expressivo da escrita técnica e da capacidade de argumentação dos estudantes. Os próprios alunos relatam sentir-se mais acompanhados em seu percurso formativo, mais confiantes em suas habilidades e, consequentemente, mais preparados para transitar de forma segura e competente entre a teoria acadêmica e a complexa prática clínica. A grande vantagem e o potencial de impacto dessa metodologia residem no fato de que as 122 ferramentas utilizadas são acessíveis, gratuitas e de fácil replicação. Isso significa que a prática desenvolvida na Clínica Escola de Psicologia do UNIPÊ pode ser adaptada e implementada em diferentes contextos de ensino, especialmente em áreas da saúde, onde o acompanhamento contínuo e o desenvolvimento de habilidades relacionais são alicerces fundamentais para a formação de profissionais de excelência. A integração harmoniosa entre tecnologias digitais, inteligência artificial e práticas pedagógicas humanizadas representa uma das principais chaves para o desenvolvimento das habilidades essenciais no século XXI. A supervisão clínica em Psicologia, tradicionalmente centrada na oralidade e na observação direta, ganha novos e enriquecedores contornos quando associada a ferramentas que favorecem a escuta aprofundada, a autonomia do estudante e a produção colaborativa de conhecimento. Este modelo não propõe a substituição do elemento humano pela máquina, mas sim a utilização estratégica da tecnologia como uma ponte robusta e eficaz entre o cuidado pedagógico, a aprendizagem significativa e a ética profissional. Ao adotar essa perspectiva, as instituições de ensino formam não apenas profissionais tecnicamente capacitados, mas também indivíduos reflexivos, empáticos e eticamente comprometidos com o bem-estar da sociedade. REFERÊNCIAS LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 22. ed. São Paulo: Cortez, 2011. SANTOS, M. T.; BATISTA, J. M. Inteligência Artificial e Ensino Superior: implicações para a autoria e a ética na formação docente. Revista Brasileira de Educação, v. 28, 2023. 123 VALENTE, J. A. Tecnologia na educação: o desafio da integração. Campinas: Papirus, 2019. VASCONCELOS, C. M. A avaliação como prática emancipatória na formação universitária. In: FRANCO, M. A.; DINIZ, A. C. B. (Org.). Práticas pedagógicas no ensino superior. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. p. 7992.