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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 241 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 23 | Nº 69 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 242 DO HEARTLAND AO RIMLAND: FUNDAMENTOS DA GEOPOLÍTICA CLÁSSICA APLICADOS AO CONFLITO RÚSSIA-UCRÂNIA Vitor Stuart Gabriel de Pieri 1 Alessandro Cunha Bessone da Cruz Ferreira 2 Fabiana de Oliveira 3 Resumo Este estudo aborda o conflito Rússia-Ucrânia, analisando-o sob a perspectiva da geopolítica clássica, com ênfase na articulação dos conceitos de Heartland (Mackinder) e Rimland (Spykman). O objetivo central é demonstrar que, embora a geografia imponha constrangimentos estruturais às decisões estatais, os efeitos resultantes são intrinsecamente mediados por variáveis contemporâneas, como alianças estratégicas, logística militar e economia política, buscando explicar a persistência e intensidade desta disputa. A pesquisa adota uma abordagem de reconstrução teórico-conceitual, empregando o conflito Rússia-Ucrânia como estudo de caso. Os procedimentos de levantamento de dados consistiram na análise documental e bibliográfica dos eventos críticos iniciados em 2014 e da escalada de 2022. A análise procedeu por enquadramento teórico, aplicando-se as proposições de Mackinder e Spykman para interpretar as estratégias e as dinâmicas de contenção exercidas pela Rússia e pela OTAN/UE. Os resultados evidenciam que a Ucrânia possui uma posição geopolítica de charneira (Planície Europeia do Norte e Mar Negro/Crimeia), condicionando a profundidade estratégica da Eurásia e o controle de projeção naval. Esta lógica se manifesta na estratégia russa de defesa do interior e disputa das bordas costeiras e na contenção da OTAN/UE, que visa impedir a formação de uma hegemonia no Rimland. Conclui-se que a integração dos postulados dos clássicos da geopolítica com a análise de variáveis contemporâneas fornece chaves indispensáveis para a compreensão da Eurásia como o epicentro das grandes disputas globais do século XXI, superando o risco do determinismo geográfico. Palavras-chave: Conflito Rússia-Ucrânia; Geopolítica; Heartland; Rimland. Abstract This study addresses the Russia-Ukraine conflict, analyzing it from the perspective of classical geopolitics, with emphasis on the articulation of the concepts of Heartland (Mackinder) and Rimland (Spykman). The central objective is to demonstrate that, although geography imposes structural constraints on state decisions, the resulting effects are intrinsically mediated by contemporary variables, such as strategic alliances, military logistics, and political economy, seeking to explain the persistence and intensity of this dispute. The research adopts a theoretical-conceptual reconstruction approach, employing the Russia-Ukraine conflict as a case study. The data collection procedures consisted of documentary and bibliographic analysis of the critical events initiated in 2014 and the escalation of 2022. The analysis proceeded through theoretical framing, applying the propositions of Mackinder and Spykman to interpret the strategies and containment dynamics exercised by Russia and NATO/EU. The results show that Ukraine holds a geopolitical hinge position (North European Plain and Black Sea/Crimea), conditioning the strategic depth of Eurasia and the control of naval projection. This logic is manifested in the Russian strategy of defending the interior and disputing the coastal edges and in the containment by NATO/EU, which aims to prevent the formation of a hegemony in the Rimland. It is concluded that the integration of the postulates of classical geopolitics with the analysis of contemporary variables provides indispensable keys to understanding Eurasia as the epicenter of major global disputes in the 21st century, overcoming the risk of geographical determinism. Keywords: Geopolitics; Heartland; Rimland; Russia-Ukraine Conflict. 1 Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutor em Geografia. E-mail: vitor[email protected] 2 Mestrando em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: [email protected] 3 Professora da Universidade Paulista. Doutora em Ciências para a Integração da América Latina. E-mail: oliveira.fabiana1[email protected]
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 243 INTRODUÇÃO Este estudo aborda o conflito Rússia-Ucrânia sob a lente da geopolítica clássica, focando na utilidade analítica e na capacidade preditiva dos conceitos de Heartland, desenvolvido por Halford J. Mackinder, e Rimland, formulado por Nicholas J. Spykman. A geopolítica, enquanto campo de conhecimento, analisa como os fatores espaciais e geográficos condicionam as capacidades, vulnerabilidades e estratégias de atores estatais e não estatais em múltiplas escalas. O termo foi cunhado por Rudolf Kjéllen, operacionalizando os fundamentos de Friedrich Ratzel, com a intenção de dotar os Estados de um instrumento de análise estratégica baseado na geografia. O campo emergiu em sua fase clássica (final do século XIX e início do século XX) como fruto das necessidades impostas pela emergência de potências mundiais e pelo imperialismo, concentrando-se especificamente na dimensão estratégica e pragmática das relações de poder, o que a torna um instrumento essencial para a formulação estratégica global, como defendido por seus fundadores e principais expoentes (Mahan, Mackinder, Spykman). Embora o conflito na Ucrânia venha sendo amplamente debatido por perspectivas jurídico-morais, econômicas e militares, esses enfoques tendem a se limitar à análise tática, às operações no território ou a rótulos de agressão, negligenciando os pressupostos geopolíticos de longa temporalidade e escala estratégica que sustentam a disputa. Tais visões, ao focarem no imediato e no normativo, impedem uma reflexão aprofundada sobre as dinâmicas de poder enraizadas nas características estruturais do espaço eurasiático. O dilema da segurança que subjaz à guerra só pode ser plenamente compreendido ao se analisar a Ucrânia como o "portão aberto" que liga a Europa ao interior russo, conforme Mackinder, ou como o elo vital do Rimland que Moscou busca impedir que caia sob controle de potências marítimas, conforme Spykman. A aplicação dos enquadramentos conceituais clássicos oferece, portanto, uma chave interpretativa robusta para ir além da superfície da guerra, permitindo a compreensão de por que esta região específica da Eurásia se tornou, e permanece, um epicentro de disputas globais persistentes. Diante disso, a pesquisa busca responder à seguinte questão: Em que condições os enquadramentos de Heartland e Rimland ajudam a explicar a dinâmica estratégica do conflito entre Rússia e Ucrânia desde 2014, incluindo a anexação da Crimeia e a escalada em larga escala de 2022? Conceitualmente, partimos do legado da geopolítica clássica, a geografia ainda estabelece constrangimentos estruturais significativos à ação estatal. No entanto, o arcabouço evita o determinismo geográfico ao enfatizar o papel da agência na formulação das estratégias. Contudo, sustenta-se que sua eficácia explicativa é crucialmente mediada por variáveis contemporâneas, tais como os arranjos de
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 244 alianças e basing (expansão da OTAN), a logística multimodal (ferrovias, oleodutos, hidrovias) e os instrumentos de economia política (sanções energéticas, controle de cadeias críticas, etc.). A análise empírica se concentra em um teatro anfíbio onde a Ucrânia ocupa uma posição de charneira. Esta posição articula, simultaneamente, um eixo terrestre na Planície Europeia do Norte (condicionando a profundidade estratégica do Heartland) e um eixo marítimo-aéreo no Mar Negro (Crimeia, portos e rotas de projeção naval, essenciais para o Rimland). Essa configuração empírica complexa permite testar a operacionalização e a superioridade explicativa dos conceitos de Heartland e Rimland no contexto de um conflito contemporâneo, avaliando suas convergências e divergências. A metodologia adotada consiste em uma abordagem qualitativa de caráter explicativo, sendo um estudo de caso seu principal meio. O estudo visa aprofundar o entendimento dos fenômenos (fins), e não apenas descrevê-los. Quanto aos procedimentos de levantamento de dados, a pesquisa se fundamenta integralmente em fontes secundárias, compreendendo a reconstrução teórico-conceitual (análise detalhada das obras canônicas de Mackinder e Spykman e literatura especializada) e a pesquisa documental (relatórios de think tanks, documentos estratégicos, e análises geográficas e cartográficas). O perfil dos dados secundários abrange, portanto, a literatura geopolítica clássica e contemporânea, bem como documentos estratégicos e dados geográficos relativos à Eurásia e ao flanco leste europeu. Os procedimentos de análise de dados envolvem a interpretação rigorosa dos constructos conceituais e a aplicação de análise de conteúdo qualitativa do material empírico, confrontando a evolução geopolítica do conflito (2014 e 2022) com a validade e a capacidade explicativa dos modelos Heartland e Rimland. O trabalho está estruturado em três seções analíticas. A primeira seção discute os conceitos contidos na obra de Mackinder, com destaque para as categorias de Heartland, World-Island, Área Pivô e Crescente Interno. A segunda seção é dedicada à análise das contribuições realizadas por Spykman para o pensamento geopolítico, com foco especial no conceito de Rimland. Por fim, a terceira seção do texto analisa a evolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, incluindo o desenvolvimento das estratégias de contenção adotadas pelos Estados Unidos e seus aliados a partir dos anos 1990, utilizando para isso os enquadramentos mackinderiano e spykmaniano. O HEARTLAND DE MACKINDER O Autor e o Contexto do Poder Terrestre Halford J. Mackinder (1861–1947) foi um proeminente geógrafo, acadêmico e político britânico, cuja atuação se deu em um período histórico crucial. Como professor em Oxford e parlamentar pelo
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 245 Partido Conservador (1910–1922), Mackinder vivenciou as transformações que culminaram nas duas Guerras Mundiais, marcadas pelo fortalecimento do Imperialismo e pelas disputas interimperialistas no continente europeu. Sua produção intelectual, que o consagra como um dos fundadores da geopolítica e da geoestratégia modernas, reflete a necessidade de equipar o Estado com uma análise estratégica baseada na geografia, em contraponto direto às teorias de Poder Marítimo (Alfred T. Mahan). Mackinder postulou a crescente centralidade do "poder terrestre" em oposição à flexibilidade dos mares, argumentando que o domínio global dependeria do controle da região interior da Ásia. Essa tese central foi desenvolvida em três obras seminais: The Geographical Pivot of History (1904), Democratic Ideals and Reality (1919) e The Round World and the Winning of Peace (1943). O conceito que posteriormente se consolidaria como Heartland está sintetizado em seu célebre enunciado: "Quem controla a Europa Oriental controla o Heartland; quem domina o Heartland controla a WorldIsland; quem controla a World-Island controla o mundo (MACKINDER, 1919)". A Evolução Conceitual: Da Área-Pivô ao Heartland A primeira formulação de Mackinder, apresentada em 1904, foi a Área-Pivô (Geographical Pivot of History), um vasto espaço continental no interior eurasiático que, por ser inacessível aos navios, engendrava um poder de longo raio, historicamente exercido por cavaleiros nômades e, na modernidade, potencializado pela interconexão ferroviária. Nessa lógica, Mackinder via a Rússia como herdeira geoestratégica do Império Mongol. A pressão projetada pela Rússia (do Báltico ao Mar Negro e em direção à Ásia) substitui as antigas irrupções centrífugas das estepes. Essa centralidade geográfica confere à Rússia a capacidade de operar ofensivas em diversos vetores, mas também a expõe a uma significativa vulnerabilidade em quase todos os flancos, exceto pelo Ártico. Dois pontos são fortemente presentes ao longo de todo o texto. O primeiro refere-se ao papel dos “homens montadores de cavalos e de camelos”, em alusão à facilidade de locomoção nas estepes que se estendem entre a zona ártica, ao norte, e os desertos, ao sul da Área-Pivô. Essa configuração faz da planície eurasiática, segundo Marshall (2020), “uma faca de dois gumes”, porque a Polônia representa um ponto de estrangulamento pelo qual a Rússia pode manobrar forças com o objetivo de barrar uma ofensiva rumo a sua capital. Mais a Leste, esse corredor se abre como uma “cunha” até alcançar cerca de 3.220km nas imediações russas e se mantém predominantemente plana além de Moscou.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 246 Figura 1 - Área Pivot de Mackinder Fonte: Mackinder (1904). A Figura 2 ilustra a “cunha” a qual Marshall (2020) faz referência, consistindo esta em uma faixa relativamente estreita na Planície Norte-Europeia, que vai da França à Polônia, mas que se expande amplamente ao norte do Mar Negro, abrangendo os atuais territórios da Estônia, Letônia, Lituânia, Belarus, Ucrânia e Moldova. É precisamente essa região que Mackinder identifica como o limite ocidental da Área Pivô. Figura 2 - Mapa Físico da Europa Fonte: <https://www.todamateria.com.br>.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 247 É evidente, portanto, a centralidade da chamada geografia física na análise geopolítica. A delimitação da Área-Pivô de Mackinder está diretamente vinculada aos aspectos naturais da região, sobretudo à vasta planície eurasiática, que se estende do litoral francês até os Montes Urais, já em território russo. Outro ponto relevante nessa primeira obra de Mackinder (1904) é a proteção que a Área-Pivô teria contra invasões de potências marítimas, uma vez que a região se encontra distante dos mares e oceanos, sendo cercada pelo que o autor denomina “crescente interno” (Inner ou Marginal Crescent, no original). Praticamente todos os rios da localidade nascem na parte central e drenam em direção ao Ártico, impedindo o acesso ao interior da Área-Pivô, o que reforça a prevalência do poder terrestre, aprofundada em obras subsequentes. Figura 3 - Hidrografia da Ásia Fonte: Paludeto (2015). É importante destacar que a delimitação da Área-Pivô, nessa primeira obra, baseia-se tanto em aspectos físicos, como clima, vegetação, hidrografia e relevo, quanto em aspectos históricos, evidenciados pelos diversos conflitos que marcaram a passagem de vastas tropas (“homens montadores de cavalos e de camelos”) por essa região ao longo do tempo. O atual território russo representa, nesse sentido, a manifestação mais recente do poder que controla essa área. Mackinder (1904) afirma, ainda, que a Europa seria, em grande medida, o produto da resistência às investidas vindas da Ásia. Segundo ele, figuras abominadas podem unificar inimigos, como o exemplo da própria Europa nos indica. Isso porque teria sido a pressão do que se percebia como “barbarismo” externo que impulsionou a consolidação da civilização europeia. Assim, Mackinder (idem) sugere que a Europa e sua história estão em posição subordinada à Ásia, uma vez que a civilização europeia resulta do confronto secular travado contra incursões asiáticas.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 248 Essa observação revela-se notavelmente atual quando analisada à luz dos recentes movimentos dos países europeus em ampliar seus gastos militares, mesmo em um contexto econômico adverso, marcado pelo aumento dos níveis de endividamento público em quase toda a Europa. Como Mackinder antecipou mais de um século atrás, as ações hostis da Rússia contra a Ucrânia, somadas à redução da propensão dos Estados Unidos em garantir a proteção militar das nações europeias, têm levado vários países a aprovarem aumentos expressivos em seus orçamentos de defesa. Até mesmo a Alemanha, historicamente marcada pelo trauma do fortalecimento militar e pela rigidez em relação ao endividamento, vem promovendo expansão significativa nesse setor. Originalmente publicado em 1919, Democratic Ideals and Reality ganhou crescente notoriedade ao longo do século XX, recebendo novas edições em 1942, 1962, 1981 e 1996. Nesta última, a introdução salientava a relevância do conceito de Heartland mesmo após o final da Guerra Fria. Isso porque, a despeito dos ideais democráticos do Ocidente, permaneceria real a chance de um poder autoritário ressurgir com o fim de obter a hegemonia na Eurásia central (MACKINDER, 1996). Mackinder emitiu esse alerta oito décadas antes da ascensão de Vladimir Putin ao poder, parecendo antecipar um fenômeno que só se manifestaria doze anos depois, com a invasão russa à Geórgia em 2008, já interpretável como indício desse processo. Ao longo da obra, Mackinder (1996) reafirma sua inclinação realista, criticando o pensamento liberal/idealista, que, segundo ele, falhou em se manter conectado à realidade prática, sendo repetidamente derrotado por forças autoritárias ao longo da história. Ademais, o autor estrutura a tese de que, embora o “poder marítimo” tenha prevalecido até o século XIX, sustentando os impérios ultramarinos e aproveitando-se da flexibilidade dos mares, o século XX marcaria a consolidação da supremacia do “poder terrestre”, favorecida pelo desenvolvimento das ferrovias e pela integração continental. É então que Mackinder (idem) apresenta uma de suas contribuições mais influentes, a concepção da Ilha-Mundo (World-Island), formada pela Eurásia e pela África. Essa imensa massa continental abriga a maior parte da população e dos recursos naturais do planeta, constituindo o território mais estratégico do globo. O poder marítimo pode circundá-la, mas não penetrá-la com facilidade. É ainda nessa obra que Mackinder (1996) desenvolve uma formulação definitiva do conceito de Heartland. Embora a expressão já tivesse aparecido em O Pivô Geográfico da História, aqui surge consolidada como categoria geopolítica: A concepção de Eurásia a que chegamos desse modo é a de uma terra contínua, rodeada por gelo ao norte e por água nos demais limites, medindo 54,4 milhões de quilômetros quadrados — mais de três vezes a área da América do Norte —; cujo centro e norte, com cerca de 23,3 milhões de quilômetros quadrados, abrangem mais do que o dobro da Europa, sem possuir qualquer curso de água que chegue ao oceano. Por outro lado, excetuando-se a zona dos bosques subárticos, trata-se de uma região geralmente favorável à mobilidade dos homens montadores de cavalos e de camelos.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 249 Ao leste, sul e oeste desse Heartland, encontram-se regiões marginais, dispostas em vasto semicírculo acessível aos navegantes (MACKINDER, 2011). Como se observa na figura abaixo, a delimitação do Heartland amplia-se em relação à Área Pivô, incorporando as bacias dos mares Negro e Báltico, além dos vales superiores, ou planaltos, dos rios chineses e indianos. Figura 4 - Heartland Mackinderiano - 1919 Fonte: <www.ca-c.org>. É, portanto, evidente a relação entre o conceito de Heartland de Mackinder e o conflito entre Rússia e Ucrânia, uma vez que a dimensão geográfica é um elemento central para a compreensão das motivações e das estratégias adotadas pelos atores envolvidos nesse enfrentamento. O território que hoje corresponde à Ucrânia encaixa-se quase perfeitamente no recorte definido pelo autor como “as estepes” que circundam a porção sul do Heartland, reunindo praticamente todas as características descritas: a) acesso ao mar; b) presença de um grande rio navegável que adentra o território; c) terras planas que permitem o avanço facilitado de tropas. Talvez o único aspecto que não corresponda de maneira absoluta seja o “fácil acesso ao mar”, ao menos se considerado o acesso direto aos grandes oceanos. Embora disponha de saída pelo Mar Negro ao sul, a conexão com os oceanos globais é complexa. Para alcançar o Mediterrâneo, é necessário transpor os estreitos de Bósforo e Dardanelos, na Turquia, e, a partir daí, atravessar o estreito de Gibraltar para acessar o Atlântico ou seguir pelo Canal de Suez até o Mar Vermelho, cruzar o estreito de Bab el-Mandeb
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 256 não podem tolerar ameaças em suas zonas de influência imediata. A diferença é que Spykman oferece um mapa espacial concreto desse dilema: a Ucrânia é um elo vital na engrenagem do Rimland. Ainda na introdução de The Geography of the Peace, Spykman (1944) apresenta argumentos que convergem diretamente com a hipótese defendida neste estudo: as ações dos EUA na Ucrânia são milimetricamente calculadas dentro da lógica da geoestratégia de sua política externa. O autor destaca que tais ações se fundamentam nas lições das duas grandes guerras mundiais, em que os americanos inicialmente atuaram de forma indireta, mas acabaram arcando com enormes custos sociais e econômicos. Estes dois conflitos mostram que, nas duas vezes em que uma potência ameaçou dominar a Europa, os EUA entraram na guerra para impedir tal avanço, embora o fazendo tardiamente e, precisamente por isso, pagando um preço elevado. Neste sentido, Spykman (1944) afirma a necessidade de se reconhecer que o ponto mais importante para os EUA é o controle do arco costeiro eurasiático e que é do interesse norte-americano agir preventivamente, deslocando poder para impedir iniciativas agressivas. Por outro lado, permitir que essas agressões ocorram produziria uma escalada que poderia envolver o país em uma terceira guerra mundial, sem quaisquer garantias de um desfecho favorável para os americanos. Ainda com respeito aos paralelos traçados por Spykman com as formulações de Mackinder, o autor sugere a renomeação do que este último chamara de “crescente interno”: “Além da barreira montanhosa, a região costeira, chamada por Mackinder de crescente interno, pode ser mais efetivamente chamada de Rimland, um nome que define seu caráter com precisão (SPYKMAN, 1944, p. 38). É importante ressaltar que, assim como Mackinder divide o Crescente Interior em três porções – costa europeia, terras desérticas do Oriente Médio e região das monções asiáticas –, Spykman (1944, p. 40) também subdivide o Rimland, preservando as duas primeiras regiões e reconhecendo-as como “claramente definidas como áreas geográficas”. Contudo, ele observa que a região das monções seria mais complexa e não poderia ser agrupada de maneira genérica. As semelhanças, segundo Spykman (idem), limitam-se ao clima e ao fácil acesso ao poder marítimo, enquanto o relevo e os aspectos sociais impedem a formação de uma subdivisão única. Dessa forma, Índia e China devem ser consideradas separadamente. Em seguida, Spykman (1944) realiza um questionamento a respeito da ênfase atribuída por Mackinder aos recursos naturais do Heartland, observando que, à luz do conhecimento geológico e da base industrial disponível na época, a maior parte dos recursos identificados e economicamente exploráveis se concentrava a oeste dos Montes Urais. Embora essa constatação permaneça parcialmente válida, a Figura 10 ilustra as extensas reservas de recursos estratégicos – notadamente hidrocarbonetos e jazidas minerais de grande porte – que foram descobertas a leste dos Urais e incorporadas a partir da segunda metade do século XX. Com isso, esses recursos passaram a desempenhar um papel ainda mais
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 257 relevante no dinamismo da economia russa e na reconfiguração da geopolítica de recursos no interior euroasiático. Figura 10 - CEI: Regiões industriais, recursos minerais e portos Fonte: <www.geofundamental.blogspot.com>. Como salientado anteriormente, o grande ponto de discordância de Spykman em relação a Mackinder refere-se à região que deve ser considerada chave no jogo de forças da geopolítica internacional. Se, para o britânico, o controle sobre o Heartland garantiria o domínio mundial, para o estadunidense é a região “anfíbia” que abrange os territórios da Europa Ocidental - Mediterrâneo - Oriente M - Sul e Sudeste Asiático que desempenha tal papel, uma vez que dali se contém o interior ou se projeta força sobre ele. Ao mesmo tempo, Spykman (1942) argumenta que a ideia de que uma oposição estrutural e inevitável entre o poder terrestre russo e o marítimo britânico é uma generalização indevida, uma vez que, nas três grandes guerras europeias travadas desde o século XIX – as guerras napoleônicas e a Primeira e Segunda Guerra Mundial –, Grã Bretanha e Rússia atuaram como aliadas contra potências do Rimland (Napoleão, o Reich de Wilhelm II e o Terceiro Reich, respectivamente). Para o autor, isso sugere que os alinhamentos variam conforme a posição e o controle do Rimland, e não por um antagonismo fixo entre “terra” e “mar”. Assim, o conceito de poder anfíbio em Spykman não afirma a superioridade do mar sobre a terra, mas a centralidade política do Rimland como espaço onde coalizões eficazes combinam ambas as dimensões. Nesse sentido, ao precisar o conceito de poder anfíbio, o autor não descreve uma superioridade
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 258 naval abstrata, mas um critério geográfico segundo o qual o poder anfíbio nasce onde terra e mar se articulam de modo contínuo e operacionalmente vantajoso. Segundo Regiani (2018, p. 65): [...] uma potência anfíbia deve estar situada entre uma grande massa continental e um grande oceano, a fim de desenvolver habilidades de deslocamento, combate e comunicação sobre ambos os espaços, preferencialmente em um território localizado entre as latitudes 25° e 60° N, consideradas por Spykman como as mais relevantes para a história. A Península Europeia, caso estivesse unificada em um só Estado, aparece como candidata a sediar o poder anfíbio. A hipótese de uma Península Europeia unificada é um contrafactual útil, pois mostra que a coerência geográfica desse espaço pode ser convertida em convergência estratégica em caso de que exista uma coordenação política. Outro ponto de discordância refere-se à ênfase de Mackinder no poder terrestre. Spykman (1944) reconhece a ascensão do poder aéreo no cálculo estratégico, mas sustenta que ele é intrinsecamente dependente das condições criadas pelos poderes marítimo e terrestre. Segundo ele (idem, p. 46), “O poder aéreo não é apenas aviões, mas aviões mais bases”. Dessa maneira, mar e ar funcionam como instrumentos cujo efeito decisivo se materializa em terra, pois as aeronaves permanecem “presas por cordas invisíveis às suas bases de operação” (ibidem, p. 47). Assim, o ar reconfigura a interação mar-terra sem, no entanto, anulá-la. Ao contrário, reforça-se a importância de basing, logística e controle de litorais e interiores – precisamente o tipo de articulação que, para Spykman, confere centralidade ao Rimland. A Figura 11 evidencia como a topografia da Eurásia oferece poucos vetores de penetração para o interior do Heartland. Entre eles, sobressai a Planície Europeia do Norte, onde se insere o território ucraniano, como um corredor de mobilidade terrestre de baixa fricção, decisivo para quem busca projetar poder para dentro do continente ou, inversamente, conter tal projeção. Figura 11 - Portões para o coração Fonte: Spykman (1944).
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 259 Essa leitura converge com a formulação de Spykman sobre a pressão do poder continental em direção ao Rimland, cuja persistência ele antevê ao discutir o pós-guerra: O período pós-guerra testemunhará uma continuação da luta da Rússia e da China pelo controle e influência sobre a província de Xinjiang e a Mongólia Exterior. As reservas minerais, suspeitas ou comprovadas, nesta região certamente fornecerão incentivo adicional à luta. De fato, pode ser que a pressão da Rússia em direção ao Rimland constitua um aspecto importante do acordo pós-guerra (SPYKMAN, 1944, p. 51-53). Mais do que uma “profecia”, trata-se de uma hipótese estrutural: enquanto o Rimland concentrar pontos de acesso, população, indústria e rotas, e o Heartland oferecer profundidade estratégica, haverá incentivos para a disputa de margens e para a defesa do interior. Nesse sentido, o conflito entre Rússia e Ucrânia se esclarece como capítulo contemporâneo dessa lógica. O AGRAVAMENTO DAS TENSÕES ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA E A GUERRA DE 2022 O conflito entre Rússia e Ucrânia apresenta um aspecto multifacetado e tem se desenvolvido em etapas, sendo as principais delas a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão em grande escala iniciada em fevereiro de 2022. Como lembra Santos (2022), a última fase desse conflito teve início pouco tempo depois do aniversário de 30 anos da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e marca a continuidade de uma série de disputas espaciais travadas no antigo espaço soviético desde então. Nesse sentido, conflitos como o do Alto Carabaque (2020), as guerras da Chechênia (1994 e 1999) e o conflito Russo-Georgiano (2008) seriam exemplos das consequências causadas pela fragmentação dessa região e das novas tramas geopolíticas que nela se desenvolvem. Segundo Santos (2022), o que está em curso são novos processos de produção espacial que estão diretamente vinculados ao controle do espaço, à exploração dos recursos naturais, à articulação dos mercados financeiros e à conquista de novas zonas de influência econômica, política e militar. Com os EUA assumindo uma liderança global inconteste a partir dos anos 1990 e a Rússia experimentando uma intensa crise política e econômica, ocorreu a extensão do poder americano sobre os Estados localizados no interior eurasiático (BRZEZINSKI, 1997). A Rússia, por sua vez, se retraía para o interior da Eurásia e assistia aos países da Europa Central e do Leste abandonarem a sua posição neutra para se converterem em membros da OTAN (BRIGOLA; TEIXEIRA, 2022). A Ucrânia, por outro lado, manteve a sua estratégia de não-alinhamento ao longo da década de 1990 e primeira metade da década de 2000, especialmente durante o governo de Leonid Kuchma (19942005) (RUZHIN, 2022). No entanto, isso não significa que o país não tenha sido assediado pelas potências
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 260 ocidentais neste período, como ficou evidente com a adesão da Ucrânia ao Partnership for Peace (1994) e à Carta de Parceria Distinta OTAN-Ucrânia (1997) (BRIGOLA; TEIXEIRA, 2022). O desgaste nas relações russo-ucranianas teve início com as chamadas Revoluções Coloridas, que atingiram a Ucrânia ao menos duas vezes desde o início dos anos 2000 (BRIGOLA; TEIXEIRA, 2022). Nessas ocasiões, o país foi exposto a crises políticas produzidas por interesses externos que reforçavam uma polarização, dividindo o país entre facções pró-Ocidente e facções pró-Rússia (idem). A primeira expressão desse movimento foi a “Revolução Laranja”, ocorrida entre 2004 e 2005 e que, ao resultar na chegada ao poder de Viktor Yushchenko, deu início a um processo de aproximação com a União Europeia (UE). Ademais, foi durante o governo de Yushchenko que teve início o processo de “ucranização” da Ucrânia, quando uma série de medidas foram adotadas no sentido de promover o ucraniano como único idioma oficial do país, em detrimento das línguas faladas pelas numerosas maiorias que habitam seu território, inclusive o russo. Da mesma forma, centenas de monumentos de personagens históricos russos, tais como Lênin e heróis da Segunda Guerra Mundial, foram derrubados como parte do esforço de “desrrussificar” o país (RUZHIN, 2022). As eleições de 2010 levaram o candidato pró-Rússia Viktor Yanukovych ao poder, e sua gestão se caracterizou pela chamada “multi-vector policy”, através da qual a Ucrânia buscaria se equilibrar em um balanço estratégico entre Moscou e Bruxelas (RUZHIN, 2022). No entanto, as tensões entre Rússia e Ucrânia voltaram a se agravar a partir de 2013, quando Yanukovych, sob forte pressão da Rússia, abandonou as negociações de um acordo comercial com a União Europeia (UE) (SANTOS, 2022). Essa decisão provocou o início de uma série de protestos massivos contra o presidente, que ficaram conhecidas como Euromaidan ou Revolução da Dignidade, e que tiveram como resultado a deposição de Yanukovych em fevereiro de 2014. Desde então, a Ucrânia vinha sendo governada por lideranças pró-Ocidente que promoveram uma significativa aproximação não apenas com o bloco europeu, mas também com a OTAN. Sintomático disso foi a assinatura do Acordo de Associação UE-Ucrânia em 2014, sua entrada em vigor em setembro de 2017, a revogação por parte de Kiev de seu status de país não alinhado em dezembro de 2014, e a posterior constitucionalização de sua orientação pró-UE/OTAN em 2019. Em junho de 2020, a cooperação com a aliança atlântica ainda seria elevada ao patamar de Enhanced Opportunities Partner, reforçando a interoperabilidade político-militar. Assim, foi nesse contexto de trajetória ocidentalizante de Kiev que o governo russo de Vladimir Putin decidiu intensificar o apoio político e militar oferecido às províncias separatistas do leste da Ucrânia, habitadas majoritariamente por populações de origem étnica russa (FREITAS; PAZ; DIAS, 2022). Em
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 261 março de 2014, a realização de um referendo não reconhecido pela Ucrânia deu início à ocupação militar e à anexação da Crimeia pela Rússia, sob a justificação de que Crimeia e Sebastopol haviam pertencido ao país até 1954. Como lembra Ruzhin (2022), Putin havia reiterado em diversas ocasiões que Odessa e cidades do sudeste da Ucrânia, somadas às regiões de Donetsk, Dnipropetrovsk, Nikolaev e KhersonKirovograd, bem como o Kuban e a Transnístria (Moldávia), seriam historicamente territórios russos, agrupados sob o rótulo de “Novorossiya” (Nova Rússia). Em uma ocasião, o presidente russo teria afirmado que tais áreas foram transferidas a países vizinhos por motivos jamais explicitados (idem). Com essas ações, a Rússia buscava reconfigurar o equilíbrio no Mar Negro através da consolidação do controle sobre Sebastopol e da ampliação das capacidades de negação de área a partir da península. Em paralelo, protestos pró-Rússia no Donbass evoluíram para um conflito armado nas províncias de Donetsk e Luhansk a partir de abril de 2014, abrindo espaço para que a Rússia consolidasse a região como um nó terrestre e logístico na Planície Europeia do Norte. A chamada Guerra do Donbass intercalou ciclos de combates e cessar-fogos intermitentes sob os acordos de Minsk I e Minsk II que, embora tenham servido para congelar o enfrentamento, não resolveram a disputa. Finalmente, em fevereiro de 2022, o governo de Vladimir Putin iniciou a invasão à Ucrânia, alegando a necessidade de assegurar o direito à autodeterminação da população de origem étnica russa em Donetsk e Luhansk, classificando o movimento como uma “operação militar especial” (FREITAS; PAZ; DIAS, 2022). A ofensiva russa apoiou-se em vetores provenientes de Belarus e da Crimeia, visando assegurar a fachada Odessa-Mariupol-Kharkiv, estratégica para o domínio da península crimeana. O emprego de blindados deu-se por múltiplas direções: ao norte (área de Chernihiv em ligação com Belarus), nordeste (Sumy, contígua à Rússia) e leste (Luhansk e Kharkiv, fronteiriças com a Rússia) (RUZHIN, 2022). As áreas anexadas pela Rússia desde 2014 e, de forma mais intensa, a partir de 2022, possuem um peso estratégico evidente. As porções ocupadas que correspondem a Donetsk, Luhansk, Zaporíjia e Kherson correspondem a cerca de 15% do território ucraniano. A região do Donbass, mais precisamente, consiste no núcleo industrial da Ucrânia e inclui a estratégica cidade portuária de Mariupol. Já a região de Zaporíjia, localizada junto ao Mar Negro, concentra a principal planta nuclear ucraniana, instalada nas proximidades do rio Dnieper, e seu porto principal, Berdiansk, está sob controle russo desde março de 2022. Por fim, a região de Kherson foi capturada ainda nos primeiros dias do conflito e a sua vocação agrícola e contiguidade com a Crimeia lhe conferem grande valor estratégico (FRANCO; FABIÁN, 2023). Assim, em combinação com os trechos costeiros de Zaporíjia e Donetsk, o controle de Kherson viabiliza à Rússia uma malha territorial contínua nas áreas ucranianas sob sua posse, incluindo a conexão
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 262 com a Crimeia (FRANCO; FABIÁN, 2023). Ademais, do ponto de vista geopolítico, a incorporação desses territórios contribui para o fortalecimento da projeção russa no Leste Europeu, em um processo que integrou majoritariamente populações de matriz cultural e religiosa russa e que viabilizou o controle do Mar de Azov e consolidou a influência acrescida no Mar Negro (FRANCO; FABIÁN, 2023). Já a Ucrânia tem se apoiado na estratégia de estabelecer uma equivalência entre o seu destino e o da Europa, com o governo de Volodymir Zelensky afirmando que a resistência ucraniana condiciona a resistência europeia, conclamando à defesa da liberdade e entendendo que seu eventual triunfo não implicaria apenas em uma derrota militar das forças russas, mas em uma vitória do bem sobre o mal (RUZHIN, 2022). É, portanto, evidente que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia está profundamente relacionado aos conceitos desenvolvidos por Mackinder e Spykman. A Ucrânia está localizada em uma região limítrofe entre o Heartland e o chamado “Crescente Marginal Interior”, o Rimland, o que a dota de extrema relevância estratégica (FREITAS; PAZ; DIAS, 2022). Situada na Planície Europeia do Norte, com relevo amplamente plano e grandes eixos fluviais como o rio Dnieper, ela integra um corredor de mobilidade terrestre que liga o interior eurasiático ao espaço europeu atlântico. Controlar o território ucraniano significa modular a profundidade estratégica do poder assentado no interior, dificultando ou facilitando seu acesso a oeste, e, simultaneamente, condicionar as linhas de comunicação que cruzam o país, ferroviárias, energéticas e rodoviárias, e que são vitais para sustentação de campanha e projeção de poder. A borda sul ucraniana, por sua vez, toca o Mar Negro e a Crimeia, o que conecta a charneira terrestre à dimensão marítima. Assim, quem estabiliza o flanco ucraniano também influencia portos, estreitos e rotas que tangenciam o Heartland. Em outras palavras, quem controla a Ucrânia controla a Europa Oriental e, consequentemente, o Heartland (CANNON, 2025; FRANCO; FABIÁN, 2023). Em termos operacionais, isso se traduz em escolhas estratégicas: para uma potência continental, reter influência sobre a Ucrânia ajuda a proteger o interior e a manter pontos de apoio na transição para o litoral. Para coalizões de perfil marítimo, ancorar a Ucrânia no seu entorno reduz a liberdade de ação do interior e encurta suas linhas. Mackinder não propõe um destino inevitável, mas um conjunto de possibilidades e constrangimentos que a geografia impõe: tecnologia, alianças e economia política podem ampliar ou reduzir essas vantagens. Ainda assim, a posição ucraniana explica por que o país permanece disputado: no quadro mackinderiano, ele é ao mesmo tempo um anteparo e um trampolim entre o Heartland e a orla eurasiática. Ao mesmo tempo, Spykman afirma que quem controla o cinturão anfíbio representado pelo Rimland adquire uma capacidade desproporcional de moldar o equilíbrio de poder. No pós-Guerra Fria,
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 263 a OTAN se converteu no principal instrumento dessa lógica, apoiado pela UE como componentes fundamentais da estratégia de contenção dos EUA contra a Rússia. Isso porque a OTAN integra e interliga os Estados da orla eurasiática, ademais de criar uma interoperabilidade político-militar capaz de elevar os custos para qualquer projeto hegemônico regional. No caso do conflito entre Rússia e Ucrânia, a contenção não significa necessariamente um cerco mecânico ou a busca por um conflito direto, mas a gestão de riscos para evitar a consolidação de um corredor de poder contínuo do interior continental até os litorais estratégicos. Nesse sentido, a Ucrânia é um fator fundamental, uma vez que, se submetida à esfera de controle adversária, aproxima o Heartland das saídas marítimas. Ao mesmo tempo, se defendida e capacitada, a Ucrânia tem o potencial de fragmentar essa projeção e estreitar as linhas de comunicação do poder continental. Na prática, a contenção via OTAN se deu em três frentes diferentes. Na primeira delas, são realizados exercícios, rotação de forças, melhorias de infraestrutura dual e integração de Inteligência, Vigilância, Reconhecimento e defesa aérea, com o fim de se elevar a resiliência do Rimland. Em seguida, foi oferecida à Ucrânia diversas formas de assistência, especialmente através de treinamentos, equipamentos e inteligência, com o fim de negar vantagens à Rússia e de aumentar o custo da agressão ao seu território ucraniano. Por fim, uma série de instrumentos não militares foi implementada, com destaque para as sanções, o controle de exportações, a substituição por outros fornecedores energéticos e a proteção de cadeias críticas. Embora a estratégia de contenção levada a cabo pela OTAN/EUA tenha servido para ampliar a resiliência da Ucrânia e para tornar o conflito mais custoso para a Rússia, é preciso destacar os riscos dessa estratégia. Como os EUA podem seguir reforçando a defesa do Rimland sem ser atraído para um conflito direto com a Rússia? Da mesma forma, como os EUA e a UE poderão seguir sustentando a economia política dos seus aliados sem que isso afete a sua erosão interna? Assim, à luz dos quadros mackinderiano e spykmaniano, é bastante evidente que a OTAN e os EUA operam uma estratégia de cercamento para limitar a projeção política e econômica da Rússia, com o fim de manter o equilíbrio e dissuadir revisões territoriais capazes de alterar a ordem regional. Da mesma forma, a estratégia russa consiste em uma articulação entre defesa do interior continental e disputa das bordas costeiras da Eurásia, buscando preservar profundidade estratégica e zonas de amortecimento no seu “exterior próximo” (Ucrânia, Belarus, Cáucaso e Ásia Central), ao mesmo tempo em que busca assegurar acesso ao mar e negar a formação de uma hegemonia rival nas orlas eurasiáticas. Em síntese, a guerra entre Rússia e Ucrânia reativa a intuição central contida nas categorias de Mackinder e Spykman, não sem demandar a sua adaptação para os parâmetros tecnológicos e econômicos contemporâneos.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 264 CONSIDERAÇÕES FINAIS As Considerações Finais do presente estudo reafirmam a tese central de que a Guerra entre Rússia e Ucrânia é, em sua essência, a manifestação contemporânea de uma lógica geoestratégica clássica e duradoura. A análise detalhada das formulações de Halford Mackinder e Nicholas Spykman demonstra que o território ucraniano ocupa um ponto geográfico decisivo na charneira euroasiática, agindo como um gatekeeper que condiciona o equilíbrio de poder global entre as potências Marítimas e o Poder Continental. Sob a ótica do Poder Terrestre de Mackinder, a preocupação russa com a Ucrânia torna-se evidente. A geografia física do país, marcada por vastas planícies e rios navegáveis, corresponde perfeitamente ao que o geógrafo britânico identificou como o "portão aberto" de mil quilômetros de largura no istmo entre o Mar Báltico e o Mar Negro. Esse corredor expõe a Planície Norte-Europeia, vulnerabilizando a defesa do Heartland contra incursões externas. O domínio dessa porção do corredor é, para Moscou, uma questão de profundidade estratégica e, em última instância, de sobrevivência geopolítica. Inversamente, a perspectiva do Rimland de Spykman ilumina a natureza da intervenção ocidental. A Ucrânia é um elo vital no "arco da borda" que deve ser mantido sob a órbita de influência das potências marítimas (OTAN/EUA). Impedir que o poder continental russo consolide seu controle sobre o Rimland e, assim, projete força sobre a Ilha-Mundo (World-Island), reforça o axioma spykmaniano, segundo o qual a estabilidade global depende do impedimento de qualquer hegemonia eurasiática. É importante reconhecer que a presente análise se concentrou rigorosamente na dimensão da geografia física e do realismo clássico, inerente aos autores estudados. O estudo deliberadamente se restringiu a examinar a persistência das categorias Mackinderianas e Spykmanianas. Contudo, a aplicação estrita desses referenciais mostra seus limites diante da complexidade da ordem internacional contemporânea. O escopo não abrangeu, por exemplo, a dinâmica interna de construção da identidade nacional ucraniana, as motivações étnico-culturais ou o impacto detalhado da política energética global. Mais significativamente, a guerra já não se trava apenas em territórios e fronteiras, mas também em âmbitos econômico, tecnológico, informacional e jurídico, englobando fluxos financeiros, interdependência tecnológica, guerra cibernética e mecanismos multilaterais. Tais fatores, que necessariamente devem ser articulados, extrapolam o alcance estrito da literatura clássica. Partindo do mapa estrutural de poder aqui reafirmado, aponta-se para que estudos futuros explorem a interação entre essa Geografia Determinante e as Novas Tecnologias. Uma pesquisa promissora seria analisar como o surgimento de armamentos de longo alcance e o poder aéreo reconfiguram a resiliência defensiva do Heartland, testando a máxima de Spykman de que o poder aéreo está "preso por cordas
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 23, n. 69, Boa Vista, 2025 265 invisíveis às suas bases de operação". Adicionalmente, seria relevante investigar a crescente relevância da China e o seu impacto na estabilidade do Cinturão do Heartland, especialmente após a invasão de 2022, dada a sua crescente projeção sobre a Eurásia. Em última análise, o conflito ucraniano transcende o mero contencioso territorial, servindo como laboratório onde se testam as tensões estruturais da geopolítica global. A análise combinada de Mackinder e Spykman permite, portanto, compreender o conflito sob uma perspectiva clássica e estratégica, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de articular tais chaves interpretativas às dimensões atuais do poder. A conclusão final deste estudo é que o objetivo geoestratégico de quem busca o controle da Eurásia permanece fundamentalmente inalterado desde a formulação da Tese do Pivô Geográfico em 1904. O território da Ucrânia continua sendo o ponto de estrangulamento geográfico e militar mais decisivo do planeta para a manutenção do equilíbrio de poder entre os eixos Marítimo (Rimland) e Continental (Heartland). REFERÊNCIAS BRIGOLA, H. F.; TEIXEIRA, V. M. “A influência de Nicholas Spykman nas relações contemporâneas entre EUA e Rússia: uma análise sobre a importância geopolítica da Ucrânia”. Revista de Geopolítica, vol. 13, n. 3, 2022. BRZEZINSKI, Z. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. New York: Basic Books, 1997. CANNON, B. J. “Hegemony in Eurasia, the Joining of the Euro-Atlantic and Indo-Pacific, and the Enduring Relevance of Mackinder’s Heartland Theory”. Seychelles Research Journal, vol. 7, n. 2, 2025. FRANCO, C. A. B.; FABIÁN, F. O. “La teoría geopolítica del Heartland de Mackinder y su aplicación en la guerra de Rusia-Ucrania”. Revista Defensa Nacional, n. 9, 2023. FREITAS, G. A.; PAZ, O. L. S.; DIAS, M. A. “O resgate da teoria do Heartland de Mackinder no entendimento do conflito russo-ucraniano”. Caderno Intersaberes, vol. 11, n. 35, 2022. MACKINDER, H. J. “O mundo redondo e a vitória da paz”. Foreign Affairs, vol. 21, n. 4, 1943. MACKINDER, H. J. “The Geographical Pivot of History”. The Geographical Journal, vol. 23, n. 4, 1904. MACKINDER, H. J. Democratic Ideals and Reality: A Study in the Politics of Reconstruction. Washington: NDU Press, 1942. MARSHALL, T. Prisioneiros da Geografia: dez mapas que explicam o mundo e como ele funciona. São Paulo: Editora Intrínseca, 2020.