scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

UÝRA: PERIFERIA TAMBÉM É UMA FLORESTA

Tosta Pereira, Theo; Mendes, Ágatha de Jesus; Sales, Tiago Amaral

Full text

¹ Graduando em Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura), Universidade Federal de Uberlândia (UFU) – Campus Pontal. E-mail: [email protected] ² Graduando em Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura), Universidade Federal de Uberlândia (UFU) – Campus Pontal. E-mail: [email protected] ³ Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas, Mestre e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-doutor em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Email:[email protected] ANAIS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS EM AMBIENTE E SOCIEDADE - CONBEAS Universidade Estadual do Ceará Evento online - 28 a 39 de agosto de 2025 UÝRA: PERIFERIA TAMBÉM É UMA FLORESTA Theo Tosta Pereira¹, Ágatha de Jesus Mendes² e Tiago Sales Amaral³. Resumo O que pode a arte em interlocuções com as ciências e as culturas? Neste trabalho temos como objetivo refletir como as questões sociais - especialmente as de raça, gênero, classe e território - estão completamente entrelaçadas com as questões ambientais. Isso ocorre a partir de um olhar atento à trajetória de Uyra Sodoma e a um filme que retrata parte de sua vida e trabalho. O filme “Uýra: A retomada da floresta” propõe uma nova forma de relações entre sociedade e ambiente, ao invés da produtificação e a constante busca pela utilidade do natural. Uýra - bióloga, ativista, pessoa trans não binária, periférica, indígena e artista, nos convida a olhar e se relacionar com a natureza de uma forma única, fazendo com que seres humanos, florestas, córregos, montanhas e a subjetividade se conectem entre si, transformandonos em algo novo com ancestralidade, espiritualidade, identidades e demais elementos que a burguesia se amedronta ao ver vidas fortemente enraizadas e convictas de sua existência. Assim como seu corpo, com tantas questões atravessadas, o espaço foi invadido, ocupado e violentado. As vivências que o filme retrata de Uýra evidenciam que a colonização não opera somente sobre a terra, mas também sobre os corpos de modo epistemológico. Quando a Ciência convencional é encabeçada por paradigmas coloniais, ela mede o valor de uma floresta com base em lucro e exploração, e ignora os valores imateriais como culturais, espirituais e comunitários que nela habitam. Ao afrontar essa lógica, Uýra desmistifica saberes não reconhecidos como verdades pela Ciência tradicional, mesclando arte que carrega crítica, política e denúncias, além de saberes como metodologia, questionando a ideia de que o conhecimento científico se faz apenas em laboratórios, materiais didáticos ou em meios acadêmicos. Neste contexto, o que se convencionou chamar de Ciência - com “C” maiúsculo – não se limita a um objeto neutro de explicação da realidade, portanto, atua historicamente como relações de poder que impõe um único conhecimento legítimo, baseado na dominação da natureza, corpos e culturas, silenciamento de perspectivas epistêmica, territórios periféricos e cosmologias ancestrais, visto que esses conhecimentos divergentes são automaticamente desqualificados e considerados falsos. Essa Ciência reforça hierarquizações que colocam certos grupos acima de outros, formando uma hegemonia nas verdades. É possível estimular uma nova concepção de como questões culturais, raciais, de gênero e desigualdades confluem no meio ambiente. A potência de Uýra, de seu trabalho, de sua militância e também de produções culturais que retratem sua trajetória manifesta-se na representatividade de um corpo a todo tempo em movimento, se reinventando, resistindo e re-existindo a cada performance. Ademais, compreender outras formas de envolver a natureza e o ambiente ao invés de desenvolver. Após a experiência crítica e política de nos encontrar com a trajetória de Uýra, refletirmos como é possível erguer outras ecologias do saber e existência, reforçando como natureza, cultura e sociedade não são categorias separadas.