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Filosofia, mundo e cansaço, segundo Han

Andrade, Marcelo Pereira

Abstract

Versão publicada na Revista Processando o Saber:fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/406

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296 | A utilização da vinhaça de alambique como biofertilizante Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) - Fatec Praia Grande – Multidisciplinar Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista - [email protected] eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2025 • aceito: Mar/2025 • publicado: Jun/2025 Interface gráfica do usuário Descrição gerada automaticamente com confiança baixa Desenho de um círculo Descrição gerada automaticamente com confiança média Filosofia, mundo e cansaço, segundo Han Philosophy, world and fatigue, according to Han Marcelo Pereira Andrade Fatec Praia Grande [email protected] "Estamos muito cansados!" "Também estamos pobres!", assim já dizia Walter Benjamin, em seu célebre texto Experiência e Pobreza, de 1933. Hoje, Byung-Chul Han, filósofo também alemão, como Benjamin, e de origem sul coreana, confirma o prognóstico dado por Benjamin. Lá em 1933, no século XX, em que afirmava com o pesar e com a lucidez filosófica típica de Benjamin, a barbárie em curso (pobreza). Ao mesmo tempo, Benjamin nos falava na possibilidade de renovação, como um reconstruir do nada. Essa "nova barbárie" viria após admitirmos nossa pobreza de experiência. Essa missão seria dada a homens capazes de redimensionar toda a existência material e espiritual. "Estamos pobres e cansados, muito cansados", Benjamin dizia. O capitalismo é o mundo do cansaço, do simulacro e da simulação que nos faz todos seus atores. Han fala de hipermundo e hiperexigências! Em meio a tanto esgotamento, o que sobra? Bornout. As doenças. Adoecemos todos os dias porque exigimos um alto desempenho, segundo Han. A depressão bate à porta, os vícios e os escapismos, os jogos, as apostas, as betis. Não temos mais direito ao silêncio, ao nada. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos” Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, p.22 O grande feito do capitalismo não foi obrigar ninguém a cumprir as metas, o grande feito do capitalismo está em fazer o indivíduo culpar a si mesmo do fracasso de não cumprir metas. Ultrapassamos a sociedade de controle, a sociedade administrada ou disciplinar. Somos hoje, a sociedade do desempenho individual narcisista. Sem lugar para revoltas, essa positividade tóxica escarnece do passado. Ela se diz muito mais que moderna. 297 | Filosofia, mundo e cansaço, segundo Han Revista Processando o Saber - v.17 - p. 296-299 - 2025 Hoje os indivíduos se enganam tanto. Vão para Índia, burgueses abastados em busca de iluminação. Mentem para si mesmos, sem aparente culpa. Turismo místico, apropriação cultural do ocidente. É uma feira pós-moderna de tendências, mas sem uma mudança estrutural. Falar da religião Indu, sem conhecimento do papel transformador da religião, no campo ético e social, é o mesmo que colecionar bibelôs de viagens em apartamentos de alto padrão no Brooklin Paulista. O excesso de positividade. Han é bem claro quando afirma, de diferentes formas, a mesma coisa, "O excesso de positividade vai nos matar!" Quando, num mundo técnico, em que tudo é tecnicamente resolvido, solucionado pela técnica, tudo vai mal, a existência sob o império da técnica é insustentável. A técnica é letal. A super exposição a técnica promove o indivíduo do desempenho absoluto. Nos exigimos muito e demais... Novamente a frase de Benjamin, em Experiência e Pobreza parece insuperável: "Estamos todos muito cansados!" "Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso. Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes, podemos afirmar o oposto: eles "devoraram" tudo, a "cultura" e os "homens", e ficaram saciados e exaustos. "Vocês estão todos tão cansados — e tudo porque não concentraram todos os seus pensamentos num plano totalmente simples, mas absolutamente grandioso." Ao cansaço seguese o sonho, e não é raro que o sonho compense a tristeza e o desânimo do dia, realizando a existência inteiramente simples e absolutamente grandiosa que não pode ser realizada durante o dia, por falta de forças..." (Benjamin, 1933). Excesso de bens, excesso de coisas, de informação, de técnicas. Muita positividade. Agora a técnica da Inteligência Artificial. Han é categórico quando descreve que a sociedade do desempenho individual superou em muito a sociedade do controle. Antes, um poder obrigava os indivíduos a produzir. Era uma sociedade disciplinar, a qual Foucault descreveu em seus trabalhos. Para Han, essa sociedade foi superada pela sociedade do cansaço. Hoje, o indivíduo não precisa de disciplina externa, a disciplina é interna, internalizada pelo próprio indivíduo. 298 | Filosofia, mundo e cansaço, segundo Han Revista Processando o Saber - v.17 - p. 296-299 - 2025 "Você pode!" You can! We can! O capitalismo conseguiu. A fórmula de sucesso pessoal se atualiza no tempo. Desde o self made man, não se via tantos discursos de positividade tóxica. O capitalismo é consagradamente um modo de vida, uma filosofia comportamental, acima de tudo, antes de ser um sistema econômico, o modelo comportamental do capitalismo se expandiu e hoje assume a forma do "You Can!" Han o chama de positividade em excesso. De fato, há muita positividade no ar, a positividade tóxica que nos afunda num mar de auto condenação, auto cobranças e auto desempenho. No ritmo alucinante de um Cross Fiteiro... O Crossfit traz muitas vantagens para o físico, enquanto uma parte da educação física, necessária e justa. Mas o Crossfit, assim como as práticas “coaching”, esconde um grande problema: mais uma vez o excesso de positividade. “Seja um empreendedor de sucesso e tenha um corpo bem sucedido”. Para isso, faça inúmeros cursos e desafios do Iron man. Talvez o problema esteja na unilateralidade desses regimes, desses modos de vida. Não há clareza quanto ao valor de certos esforços, se eles atendem a expectativa do indivíduo ou do sistema. Crítica à ideologia. O pensamento filosófico atual deve dar conta de entender a ausência de crítica social. O fascismo se instala na ausência de crítica. Tanto Han, como Benjamin sabem disso. As formas mais tradicionais de expressão popular, a religião por exemplo deve abandonar urgentemente sua filiação ideológica com o neoliberalismo. O cristianismo não deveria mais fazer apologia ao pensamento ideológico em ruína, dos Estados Unidos da América. Não, desde que os EUA, se firmaram como nação essencialmente cristã e protestante, eles patrocinam a ideia do individualismo, sobre a cooperação. O cristianismo comete um erro grave, ao continuar patrocinando uma ideia datada, profundamente ultrapassada, de um capitalismo doentio e que agora se encontra em franca decadência. O Império dos EUA está quebrado. 299 | Filosofia, mundo e cansaço, segundo Han Revista Processando o Saber - v.17 - p. 296-299 - 2025 A velha ideologia dos pioneiros, que ocuparam o solo da América do Norte, de que o sucesso depende da empreitada individual, é hoje uma verdadeira mentira. Ninguém suporta mais servir de capacho, para que o outro prospere, enquanto você empobrece. Os EUA, através de seu presidente Trump ainda acredita nisso, na “não cooperação”, isso porque não aceitam a ideia de não liderar. Mas, o mundo não é mais assim. REFERÊNCIAS HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.