A Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) é publicada pela Fatec Praia Grande Multidisciplinar - Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista -
[email protected] eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2024 • aceito: Mar/2024 • publicado: Jun/2024 Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Low-code: what is it, advantages and challenges in corporate digital transformation Vinicius de Lucca Silva Almeida Fatec Praia Grande
[email protected] Rogério de Paula Rebellatto Fatec Praia Grande
[email protected] Jônatas Cerqueira Dias Fatec Praia Grande [email protected] RESUMO Na área da tecnologia da informação, a demanda por entregas rápidas, de qualidade e fortemente monitoráveis é constante, pressionando empresas e profissionais a se superarem constantemente para acompanharem o mercado. Em função da crescente relevância do paradigma de programação low-code nas organizações contemporâneas em meio à busca pela eficiência na transformação digital, este artigo apresenta a metodologia de desenvolvimento low-code e suas principais plataformas além de destacar as vantagens oferecidas pela abordagem, enfatizando a rápida entrega de aplicações por meio de uma interface visual intuitiva, permitindo que profissionais com diferentes níveis de habilidade participem do desenvolvimento de software. Buscamos investigar os desafios em optar por plataformas low-code, destacando preocupações relacionadas à segurança, escalabilidade e personalização. Ao analisar a literatura acadêmica, os dados e relatórios comerciais e as líderes de mercado no segmento de plataformas low-code, os autores identificam obstáculos comuns enfrentados no processo de integração de sistemas existentes e na gestão da complexidade crescente. PALAVRAS-CHAVE: Low-code; desenvolvimento de software; paradigma de programação; programação visual; desenvolvimento ágil.
217 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 ABSTRACT In the field of information technology, the demand for fast, quality, and highly monitorable deliveries is constant, pressuring companies and professionals to constantly excel to keep up with the market. Due to the increasing relevance of the low-code programming paradigm in contemporary organizations amidst the pursuit of efficiency in digital transformation, this article presents the low-code development methodology and its main platforms, highlighting the advantages offered by the approach, emphasizing the rapid delivery of applications through an intuitive visual interface, enabling professionals with different skill levels to participate in software development. We aim to investigate the challenges in opting for low-code platforms, highlighting concerns related to security, scalability, and customization. By analyzing academic literature, data and commercial reports, and market leaders in the low-code platforms segment, the authors identify common obstacles faced in the process of integrating existing systems and managing increasing complexity. KEY-WORDS: Low-Code; software development; programming paradigm; visual programming, agile development. INTRODUÇÃO A transformação digital tem emergido como um dos tópicos mais impactantes e desafiadores no cenário empresarial contemporâneo. A convergência da tecnologia está redefinindo a maneira como as organizações operam, interagem com os clientes e conduzem seus negócios (ROGERS, 2017). Neste contexto, a adoção de ferramentas de desenvolvimento ágil e tecnologias inovadoras desempenham um papel crescente na capacidade das empresas de alcançar a agilidade e a excelência digital necessárias para se manterem competitivas. Tais empresas precisam aceitar as tendências de maiores níveis de abstração para o desenvolvimento de aplicações, bem como permitir times de desenvolvimento orientados ao negócio (MATVITSKYY et al., 2023). Atualmente é possível identificar uma opção em constante ascensão no segmento de plataformas voltadas ao desenvolvimento ágil, projetadas para permitir que mesmo usuários com baixo ou nenhum conhecimento em programação tenham a possibilidade de desenvolver aplicativos sem a necessidade de digitar códigos, apenas selecionando o que se deseja incluir na aplicação. Estas são as plataformas são intituladas de low-code. Plataformas de Desenvolvimento Low-code (LCDP – Low-code Development Plataforms) se destacam como uma solução que visa facilitar a transformação digital, permitindo o desenvolvimento rápido e escalável de aplicações, a integração de sistemas legados e a automação de processos (ARAÚJO, 2022). A natureza do low-code capacita não apenas os desenvolvedores experientes, mas também os novos talentos a criar soluções
218 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 complexas e eficientes, eliminando boa parte da complexidade tradicionalmente associada ao desenvolvimento de software por meio de uma interface capaz de incluir componentes desejados na aplicação por meio de clique e arraste, sem a necessidade de código. No entanto, a decisão de adotar tais ferramentas como parte da estratégia de desenvolvimento de uma empresa não é isenta de desafios. Questões como a transição de equipes, a integração com sistemas legados, a governança tecnológica e a otimização da automação também devem ser consideradas ao decidir pela adoção ou não de uma nova tecnologia. Contudo, procuramos responder o seguinte problema de pesquisa: As plataformas low-code representam uma opção viável para atender às necessidades das empresas no mercado de desenvolvimento de sistemas? Para isso, o objetivo desta pesquisa é analisar a viabilidade e eficácia das plataformas low-code como uma solução para atender às demandas das empresas no mercado de desenvolvimento de sistemas. Para alcançar tal objetivo, serão investigadas as definições e particularidades do low-code, através de uma revisão na literatura e do levantamento de dados e estudos relevantes. O estudo visa fornecer "insights" sobre a pertinência e os benefícios da adoção de plataformas low-code nas empresas de desenvolvimento de sistemas. Na seção 2, serão abordadas as definições e particularidades contemporâneas do que é caracterizado como low-code, a seção 2.1 fala das plataformas alinhadas com essa tecnologia, a seção 2.2 trata de como elas se harmonizam com processos de automação e a seção 2.3 apresenta os perfis de usuários que utilizam tais plataformas. A seção 3 traz as expectativas e tendências do mercado de desenvolvimento com ferramentas low-code e a seção 3.1 cita motivos para a adoção da tecnologia, bem como principais pontos de resistência para seu uso. A seção 4 aborda os procedimentos metodológicos deste estudo, a seção 5 lida com os resultados da pesquisa e a seção 6 apresenta nossa conclusão sobre o tema. 1. LOW-CODE O termo low-code foi mencionado pela primeira vez em 2014 pela Forrester Research para descrever plataformas que ofereciam simplicidade de uso na criação de aplicativos (PINTO, 2021). A origem do termo apenas sucede softwares e conceitos que já existiam muito antes, como o a metodologia Rapid Application Development (RAD) presente já na década de 80 (MARTIN, 1991).
219 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 O desenvolvimento low-code, por conter pouco ou quase nenhum código, visa ajudar na programação, economizando tempo com pouco esforço por meio da utilização de interface visual e recursos como o clique-e-arraste (drag-and-drop), a fim de criar as aplicações em um tempo menor do que na programação tradicional (MENDES, 2023). Tais aplicações são criadas através de plataformas de desenvolvimento low-code que permitem que desenvolvedores de diferentes especificações possam produzir aplicações completas prontas para a fase de produção. As LCDPs possuem arquitetura orientada a modelos denominadas de Model Driven Archtecture (MDA) e constam com a infraestrutura de computação em nuvem, geração automática de código, programação declarativa e alto nível de abstrações gráficas (SAHAY et al., 2020). 1.1 PLATAFORMAS LOW-CODE Dado o conceito do que é low-code, é possível explorar mais a fundo quais são as plataforma que utilizam esta tecnologia. Em contraste com a programação tradicional, as plataformas de desenvolvimento de low-code possuem, segundo Shridhar (2021), o custo reduzido, melhor agilidade na entrega, na produtividade e no gerenciamento de riscos, além de trazer uma melhor experiência para o cliente. É importante entender que as LCDP fornecem as ferramentas e os meios para o time de colaboração utilizar e que essas plataformas não têm a intenção de substituir completamente a necessidade de abordagens tradicionais ou personalizadas no desenvolvimento (SHRIDHAR, 2021). Elas respondem muito bem a metodologias ágeis, considerando que operam para atender a três objetivos: Time-to-market, Resposta à Mudança e Valor para o Utilizador Final (PINTO, 2021). • Time-to-Market – refere-se ao tempo em que uma solução leva do início do seu desevolvimento até a sua disponibilidade efetiva para o usuário final; • Resposta à Mudança – é a capacidade do desenvolvimento das aplicações em se adaptar a possíveis alterações nas necessidades dos clientes; • Valor para o Utilizador Final – aponta os reais benefícios que a solução desenvolvida irá gerar para o cliente final.
220 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 Em conformidade com a pesquisa feita por Bratincevic (2023), que avaliou as quatorze provedoras de plataformas low-code mais importantes, é possível categorizar as LCDPs em cinco camadas principais: • Dados e integrações: Facilita a manipulação e integração de dados entre sistemas. • Automação de processos: Automatiza processos de negócios para aumentar a eficiência. • UX (User Experience): Centra-se na criação de interfaces de usuário intuitivas e envolventes. • Teste de aplicativos, implantação e gerenciamento: Envolve o teste, a implementação e a manutenção de aplicativos. • Aplicativos e plataformas de governança: Garante a governança, o controle e a segurança dos aplicativos desenvolvidos. Outro ponto interessante das LCDPs é sua arquitetura. A arquitetura das plataformas low-code, de forma geral, é composta por 4 camadas (Figura 1): Aplicação, Integração de Serviços, Integração de Dados e Implantação (SAHAY, 2020): Figura 1 – Camadas de Arquitetura das Plataformas Low-code Fonte: Sahay (2020, tradução nossa) Ao analisarmos a Figura 1 podemos observar que a primeira camada, denominada "Camada de Aplicação", desempenha um papel crucial no desenvolvimento das interfaces de usuário e na definição dos comportamentos específicos da aplicação. Esta camada é a face
221 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 visível para o usuário final, responsável por garantir uma interação eficiente, intuitiva e com funcionalidades que substituem a necessidade de código escrito. A "Camada de Integração de Serviços" é dedicada à comunicação eficaz com diversos serviços externos, utilizando APIs (Application Programming Interfaces) como pontes para esta integração. Esta camada é essencial para a expansão das funcionalidades da aplicação, permitindo a incorporação de serviços e dados externos de maneira coesa. A terceira camada, "Camada de Integração de Dados", foca na manipulação e integração de dados. É aqui que os dados, oriundos de diversas fontes, são consolidados, processados e preparados para uso pela aplicação, assegurando que a informação seja precisa e esteja disponível quando necessário. Por fim, a "Camada de Implantação" abrange as operações necessárias para disponibilizar a aplicação aos usuários finais. Esta camada inclui a gestão de integração contínua, controle de versões e governança da aplicação, garantindo que a entrega do software seja realizada de forma ágil, segura e conforme as melhores práticas de desenvolvimento. Existem diversas plataformas no mercado, muitas delas oferecendo vantagens para tipos específicos de aplicações a serem desenvolvidas enquanto outras são mais generalistas. É recomendável que a empresa avalie a proposta, recursos e impacto da transição tecnológica em seus negócios. O quadrante com as principais LCDPs do mercado (Figura 2) mostra como elas estão divididas em 4 grupos de acordo com a Gartner (MATVITSKYY et al., 2023): • Líderes – plataformas líderes do setor de desenvolvimento low-code; • Desafiantes – plataformas competitivas com potencial e desempenho para alcançar os líderes; • Visionários – plataformas pioneiras, buscando atender novas necessidades do mercado; • Nichos – plataformas especializadas em atender, com excelência, partes específicas das demandas por low-code;
222 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 Figura 2 – Plataformas Low-code mais conhecidas em 2023 Fonte: Relatório Gartner, Matvitskyy (2023, tradução do autor) Algumas das plataformas mais populares atualmente são: Mendix – Plataforma subsidiaria da Siemens para desenvolvimento de aplicações com grande suporte de IA para desenvolvimento, com a maioria das capacidades de plataformas low-code disponíveis em si (MATVITSKYY et al., 2023; BRATINCEVIC et al., 2023; MENDIX, 2023). Microsoft Power Apps – Plataforma com construtor orientado a IA desenvolvida pela Microsoft e uma das líderes de mercado no segmento.Apresenta facilidade para se integrar com outras aplicações do ecossistema da empresa, como o pacote Office (MATVITSKYY et al., 2023; BRATINCEVIC et al., 2023; MICROSOFT, 2023). Outsystems – Plataforma de origem portuguesa para desenvolvimento de aplicações voltada para atendimento de demandas de desenvolvimento em empresas de grande porte, com suporte de IA (MATVITSKYY et al., 2023; BRATINCEVIC et al., 2023; OUTSYSTEMS, 2022).
223 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 Salesforce – Plataforma voltada para CRM (Customer Resource Management) permitindo desenvolver aplicativos para gerenciamento de clientes, como cadastros, controle e acompanhamento de vendas, oportunidades de negócios, agendamentos e mais (MATVITSKYY et al., 2023; BRATINCEVIC et al., 2023; SALESFORCE, 2023). 1.2 AUTOMAÇÃO Estas plataformas contam com ferramentas automatizadas para as diversas etapas do desenvolvimento: construção, depuração, implementação e teste (MARQUES, 2023). Por tal, é possível mitigar problemas de qualidade e entrega. Usá-las para automatizar processos de negócios pode reduzir significantemente o custo e tempo dessas etapas, bem como a manutenção de processos (WASZKOWSKI, 2019). Operações DevOps, que integram desenvolvimento (Dev) e operações (Ops) para melhorar a colaboração e a produtividade, são essenciais no desenvolvimento com plataformas low-code. Estas plataformas automatizam tarefas de DevOps, simplificando e acelerando o ciclo de desenvolvimento de aplicações (VINCENT et al., 2019). O que diferencia essas plataformas, é justamente um ambiente integrado onde vários componentes de design bem conhecidos e tradicionalmente usados estão disponíveis de forma a reduzir esforços em rotinas repetitivas (BOCK; FRANK, 2021). Com vários recursos de automação implementados em si, fica mais fácil democratizar desenvolvimento entre perfis de usuários com maior ou menor especialização. 1.3 PERFIS DE DESENVOLVEDOR Os tipos de usuários desenvolvedores das plataformas low-code podem ser divididos em dois grupos: Citizen Developer e IT Developer. Um Citizen Developer é um usuário que não teve treinamento em tecnologia, usando apenas treinamentos na plataforma low-code para desenvolver aplicações, já o IT Developer é o desenvolvedor profissional que aderiu à uma plataforma low-code apesar de ter outros conhecimentos na área (LIPTAK; HORWITZ, 2021). A capacidade de permitir que usuários sem especialização em tecnologia consigam desenvolver aplicações, possibilitou que empresas de vários setores, que não podiam priorizar
224 | Low-code: o que é, vantagens e desafios na transformação digital corporativa Revista Processando o Saber - v.16 - p. 216-229 - 2024 soluções automatizadas em seus negócios, agora tivessem a oportunidade de automatizar seus processos com aplicações desenvolvidas em plataformas low-code (WASZKOWSKI, 2019). 2. MERCADO A Gartner (VINCENT et al. 2020, p. 1), previu um aumento significativo, de mais da metade das empresas de médio e grande porte, na adoção de aplicações desenvolvidas em tecnologias low-code como parte de suas aplicações estratégicas. Em 2023, o relatório da Gartner apontou uma rápida e constante aderência de empresas às plataformas low-code com predição para até 2026 haver um crescimento anual. Esse crescimento se dá por três tendências chaves: Adoção Empresarial, Hyperautomação, Negócio Combinável (MATVITSKYY, 2023). Prevê-se que o mercado de baixo código atinja $44,5 bilhões em receita até 2026 (com uma taxa de crescimento anual composta [CAGR] de 19,2% de 2021 a 2026). Especificamente, espera-se que o segmento de Plataforma de Aplicação de Baixo Código (LCAP) expanda para mais de $18 bilhões em 2026, com uma CAGR de mais de 20%.. (MATVITSKYY, 2023, tradução nossa) As empresas de desenvolvimento que adotam LCDPs não estão apenas aderindo a uma mudança tecnológica, mas uma mudança em toda sua forma de desenvolver soluções e essa mudança tem impactos na forma de efetuar o planejamento e organização de equipes, na relação com o cliente, metodologias de desenvolvimento e custos de projeto (PINTO, 2021). 3. MOTIVAÇÕES PARA A ADOÇÃO DO LOW-CODE Dentre os motivos para a adoção de plataformas low-code estão a aceleração da inovação/transformação digital, aumento da capacidade de resposta ao negócio; redução da dependência de competências técnicas difíceis de contratar; substituição de sistemas legados, proteção contra agitação tecnológica; e permissão para que os denominados citizen developers melhorem os processos internos (PINTO, 2021). A utilização de LCDPs traz a capacidade de adaptação de objetivos empresariais, monitoramento de processos e fluxos de trabalho, suportando boas práticas de governança por permitir que os processos envolvendo a aplicação estejam devidamente amparados de acompanhamento e controle (SANCHIS, 2020).