Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme "Era uma vez em… Hollywood"
Abstract
este artigo tratou de uma iconoclastia, por meio de uma cena do filme “Era uma vez em Hollywood” (2019), na qual aparece um Bruce Lee personagem. Esta cena causou grande repercussão junto ao público, o que gerou declarações do diretor, Quentin Tarantino, e de Shanon Lee, filha de Bruce. A pesquisa focou em análise de conteúdo de comentários da Internet, investigando em que termos a iconoclastia foi compreendida. O tratamento foi por meio das categorias: (a) ataque ao personagem, (b) ataque ao diretor e (c) não ofendidos (como grupo de controle). Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/349
Full text
A Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) é publicada pela Fatec Praia Grande Multidisciplinar - Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista - [email protected] eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2024 • aceito: Mar/2024 • publicado: Jun/2024 Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Analysis of reactions to Bruce Lee’s iconoclasm in the film “Once Upon a Time in… Hollywood” Ricardo Cortez Lopes Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS [email protected] RESUMO este artigo tratou de uma iconoclastia, por meio de uma cena do filme “Era uma vez em Hollywood” (2019), na qual aparece um Bruce Lee personagem. Esta cena causou grande repercussão junto ao público, o que gerou declarações do diretor, Quentin Tarantino, e de Shanon Lee, filha de Bruce. A pesquisa focou em análise de conteúdo de comentários da Internet, investigando em que termos a iconoclastia foi compreendida. O tratamento foi por meio das categorias: (a) ataque ao personagem, (b) ataque ao diretor e (c) não ofendidos (como grupo de controle). PALAVRAS-CHAVE: iconoclastia; Bruce Lee; Quentin Tarantino; remendos. ABSTRACT This article dealt with an iconoclasm, through a scene from the movie “Once upon a time in… Hollywood”, in which a Bruce Lee character appears. This scene caused great repercussion among the audience, which generated statements by the director, Quentin Tarantino, and Shanon Lee, Bruce's daughter. The research focused on an analysis of the content of comments on the internet, investigating in what terms iconoclasm was understood. The treatment was through the categories: (a) attack on the character, (b) attack on the director and (c) not offended (as a control group). KEYWORDS: iconoclasm; Bruce Lee; Quentin Tarantino; patches.
105 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 INTRODUÇÃO A iconoclastia é um ato muito conhecido pelos bizantinos, que quebraram imagens diretamente. Emergindo no século VIII, essa intensa controvérsia teve raízes teológicas e políticas profundas, dividindo a sociedade bizantina e desencadeando convulsões políticas e sociais. Os iconoclastas acreditavam que a veneração de imagens infringia a pureza do culto religioso, enquanto os iconódulos argumentavam que as imagens serviam como meio de conexão com o divino. No entanto, atacar símbolos não sempre representa um ato extremo ou material, é possível atacar símbolos de outras maneiras, e esse estudo pretende mostrar um destes casos. Em tela, será apresentado o caso da iconoclastia da figura do ator chinês Bruce Lee em um filme do diretor Quentin Tarantino na película “Era uma vez em… Hollywood”. A análise empírica foi sobre os comentários, que demonstram as tentativas de remendo. Em um primeiro momento, foi na imagem de Bruce Lee, porém esse remendo incitou a iconoclastia do próprio diretor, o que também incitou novos concertos. Assim, pudemos estudar os sagrados sobre os quais os grupos se articulam. Qual o enredo do filme? Em Era uma Vez em... Hollywood temos uma Los Angeles em 1969. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de TV que, juntamente com seu dublê, está decidido a fazer o nome em Hollywood. Para tanto, ele conhece muitas pessoas influentes na indústria cinematográfica, o que os acaba levando aos assassinatos realizados por Charles Manson na época, entre eles o da atriz Sharon Tate (Margot Robbie), que na época estava grávida do diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha) (ADORO CINEMA,2019, s/p). Neste enredo, Bruce Lee faz parte do grupo de pessoas marcantes na indústria cinematográfica na época - aliás, é válido notar que o ator era conhecido por não utilizar dublês em suas cenas de luta, daí a maior relevância do protagonista e seu dublê, que buscam a glória e, nisso, encontram com diversas estrelas de Hollywood na época, misturando ficção e história. Cabe ressaltar que o diretor, Quantin Tarantino, inspirou a famosa cena em um caso real, ocorrido em 1966, quando o dublê Gene LeBell, após um desentendimento no set fez com que LeBell suspendeu Lee fora do alcance do chão até que ele se acalmasse (AVENTURAS NA HISTÓRIA, 2022). Sobre o diretor, ele é conhecido por ser fã de filmes de baixo orçamento, que exageram na violência – e daí na sua filmografia há filmes como Pulp Fiction, um drink no Inferno, Django Livre, entre outros. O estilo distintivo de Quentin Tarantino é uma mistura de diálogos afiados, referências culturais ecléticas e uma narrativa não linear, tudo ligado por uma dose generosa de violência estilizada, criando uma atmosfera única com personagens complexos e memoráveis (que normalmente se tornam “memes”). Tarantino ao mesmo tempo
106 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 homenageia e subverte os tropos do cinema pop (popular). Logo, Bruce Lee vai aparecer com um tom de exagero e caricatura (para produzir as falas ácidas) que adentrarão o estilo de Tarantino. O material empírico foi obtido em páginas da Internet que repercutiram o ocorrido, seja ele de maneira direta (cenas do filme ou declarações envolvidas) ou comentando. A ideia foi reunir o corpus analítico, analisado segundo o referencial teórico. 1. ICONOCLASTIA, SOCIOLOGIA DA MORAL E METODOLOGIA A iconoclastia é um tema genuinamente moral, dado que envolve a escolha e o sagrado, aqui entendido pela perspectiva durkheimiana, como aquilo mais elevado e verdadeiro que está além da capacidade humana e que compõe, em última instância, o julgamento do que é belo e moral (WEISS, 2013). A destruição não é só a alteração de algum símbolo ou a sua inutilização, há também a construção de um significado e que pretende demonstrar a não veracidade da visão de mundo de outro. Em um primeiro momento vamos definir o que é iconoclastia e, posteriormente, relacionar com a sociologia da moral. O que seria a iconoclastia? [...] um modo de desfiguração, onde a imagem desaparece e é substituída por uma nova e modificada imagem (podendo ser depreciativa e ofensiva, de acordo com a interpretação realizada) [...] diferentes especificações: aniquilação, ocultação e desfiguração (CARMO, 2018, p.4) Nessa perspectiva, a iconoclastia é o trabalho como uma imagem, sendo para desaparecê-la (aniquilação), escondê-la (ocultação) ou transformá-la (desfiguração). Essa seria, no entanto, uma definição mais “estética”. A iconoclastia vai muito mais a fundo na cultura e na história. Por exemplo: Um moderno é aquele que crê que os outros creem. Mas, novamente, não se trata de um estado mental, mas de algo associado a uma prática sistemática, a libertação dos ídolos. O moderno, portanto, é um iconoclasta, um anti-fetichista, com todas as implicações concretas que isso pode ter. Sua denúncia vem acompanhada de destruição: é preciso entregar aos fetichistas a natureza como ela é. Mas é preciso também preservar – em museus, por exemplo – esses objetos que foram inventados como fetiches, como provas das proezas de que a humanidade foi capaz (GIUMBELLI, 2011, p.344)
107 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 Portanto, o moderno é um iconoclasta por natureza devido à própria modernidade na medida em que ela coloca em xeque o argumento de autoridade dos antigos. Sob a leitura de que se trata de superstições, a empiria apresentaria a natureza como ela é, sem mediações religiosas. Assim, é possível pensar em termos ofensivos: Imagens ofensivas são radicalmente entidades instáveis cuja capacidade para causar prejuízo depende de contextos sociais complexos. Esses contextos podem mudar, às vezes como resultado do debate público em volta da imagem, mais frequente porque o choque inicial diminui, para ser substituído por familiaridade e até afeição. O caráter ofensivo de uma imagem não é escrito em pedra, mas surge da interação social entre uma coisa específica e comunidades (MICTHELL, 2005, p 131). Logo, a ofensa depende dos grupos. A modernidade destrói símbolos por meio de choques. Jürgen Habermas, por exemplo, apresenta sua teoria da Esfera Pública dentro da sua Teoria da Modernidade (HABERMAS, 1985), pois esta produz uma esfera autônoma do Estado e que seria pautada pela racionalidade argumentativa; por outro lado, Simmel (1987), com sua microssociologia das formas, e Bauman (1999), com sua ideia de modernidade líquida na questão da individualização do sujeito na era moderna – todos esses autores demonstram como a modernidade destrói os símbolos tradicionais com o fito de estabelecê-la enquanto valor único. porém também os produz (e os ofende) no interior dos grupos no decorrer da interação social. Esse modelo de criação e quebra de símbolos gera uma verdadeira utopia iconoclasta, em que os significados são muito flutuantes (NAPOLI, 2020). Até o momento, vimos que a imagem pode causar ofensa para determinados grupos, já que mexem com os seus valores – como é o caso dos iconólatras bizantinos, ou mesmo de símbolos políticos que são reapropriados por opositores para criar derrisão. Esse nicho pode ser preenchido por uma sociologia da moral, que consiga teorizar sobre os valores atingidos e faça uma reflexão sociologicamente embasada. A sociologia da moral, ao continuar a discussão de Kant sobre a humanidade se tornar o “meio dos fins”, estuda o julgamento moral (DURKHEIM, 2015) dos indivíduos partindo de valores construídos socialmente, e não oriundos de preferências pessoais (e psicológicas) ou mesmo lógicas. Neste caso, os valores são formados em processos de efervescência, quando se criam representações até o momento em que momentos de crises demonstram que essas ideias não são reais. Neste momento, uma nova efervescência se constrói e a verdade é construída para aquele grupo. É claro que não se trata de pensar os indivíduos como uniformes, mas sim de pensar aquilo que eles pensam em comum:
108 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 Do ponto de vista da sociologia da moral, os posicionamentos morais podem e devem ser explicados em termos de posições sociais contidas na estrutura social e de seus respectivos discursos. Nesse sentido, a sociologia da moral pode ser considerada uma formalização da sociologia popular [...] (VANDENBERGHE, 2015, p.70). No caso do estudo, o resultante seria uma imagem de Bruce Lee (que foca na questão da luta, por exemplo) e as representações tecidas para emular essa representação (como a do filme de Tarantino) são julgadas com base nessa representação mais sedimentada, gerando a familiaridade ou o estranhamento. A iconoclastia, dentro desse referencial teórico, ocorre quando um grupo intencionalmente nega a representação do outro grupo com o objetivo de causar derrisão. Metodologicamente, esse estudo é de natureza qualitativa. A coleta dos dados começou em motores de busca, quando digitamos as palavras Bruce Lee + Quentin Tarantino + Polêmica. Por meio dos sites coletados, foi possível dois movimentos: produzindo uma revisão sobre o ocorrido e os comentários que seriam analisados. Esse procedimento gerou uma lista de comentários, que foram colocados em um arquivo. A análise dos dados foi efetuada por uma análise de conteúdo (BARDIN, 1977), que primeiramente lançou uma leitura flutuante sobre os comentários. Por meio dessa apreciação, foram formuladas categorias de análise, que organizaram o material e permitiram investigar o problema da pesquisa. 2. CONSTRUINDO E DESTRUINDO O ÍCONE: BRUCE LEE Bruce Lee é o nome artístico do sino-americano, com dupla nacionalidade. Sua biografia afirma que: Filho de Grace Ho e de Lee Hoi-Chuen, famoso ator da Ópera de Hong-Kong e de inúmeros filmes cantoneses, Lee nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1940, ano em que seu pai realizava turnê pelos Estados Unidos da América [...] — um golpe de sorte que lhe possibilitou a dupla cidadania. A etnia e a nacionalidade de Lee têm suscitado reflexões acadêmicas intrigantes sobre noções de identidade cultural, colocando Lee como uma identidade fronteiriça (MIRANDA, 2015, p. 87). Portanto, Bruce Lee era um mestiço cultural que conseguia trânsito pelos Estados Unidos e por Hong-Kong. Porém, a sua formação não foi apenas com artes marciais, dado à sua base na ópera:
109 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 No caso da ópera cantonesa, o treinamento começa na infância e perpassa cinco áreas de estudo, quais sejam: canto; dança; interpretação; acrobacia e artes marciais. Lee Hoi-Chuen introduziu Bruce Lee no teatro, no cinema e nas artes marciais. O Pequeno Dragão entrou em cena pela primeira vez em 1941, nos braços do pai, e “atuou em mais de 20 filmes antes de completar 18 anos”. Para os fãs do ator sino-americano, assistir aos filmes desta época pode ser uma atividade curiosa (MIRANDA, 2015, p. 87). Assim, atuar já era uma prática usual de Bruce Lee, em múltiplas disciplinas - e as artes marciais era só uma. Porém, foi essa faceta a que se consolidou, como mostra a nossa revisão: No entanto, foram os filmes da década de 1970 que consagraram o ator como estrela de filmes de ação em Hong Kong, nos Estados Unidos da América e em inúmeros outros países, tanto no Ocidente como no Oriente. Não seria exagero dizer que Lee, a partir da década de 1970, tornou-se parte da cultura de massa (MIRANDA, 2015, p. 87). Assim, a representação social de Bruce Lee é a de alguém completamente devotado às artes marciais, o que o torna quase que uma representação da própria habilidade de luta. Existem alguns relatos que apontam, por exemplo, que o treinamento era bastante intenso, a ponto de o ator criar também uma arte marcial. Portanto, vimos até o momento a construção da representação com alguns fatos históricos. Como é a representação final? Lee transitou nas práticas psicofísicas com a mesma sinuosidade dos mitológicos dragões alados: ator de filmes de aventura e um espetacular artista marcial, premiado dançarino de chá-chá-chá, professor de Kung Fu, cineasta, escritor, poeta e um estudioso da filosofia oriental. Produziu nos veículos de cultura midiática tanto performances corporais, inaugurando um novo estilo cinematográfico de estética da violência, como performances discursivas sobre o cultivo do corpo a partir de noções filosóficas Taoistas e Budistas (MIRANDA, 2015, p. 87). Pode-se perceber que a representação considera Bruce Lee uma pessoa muito inteligente e muito aplicada no seu treinamento, e como se trata de uma figura histórica, há também a necessidade de uma veracidade. Portanto, para atacar essa representação, será preciso mostrar que o que se estabeleceu como verdade história não o é. Dentro do filme, acompanhemos o primeiro passo da iconoclastia: A cena em que o personagem de Bruce Lee (Mike Moh) aparece em Era Uma Vez em... Hollywood é um breve flashback, lembrado pelo personagem de Brad Pitt, Cliff Booth. Trabalhando como dublê de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) em um filme, Booth encontra Bruce Lee nos bastidores da produção e ouve o ator fazendo um discurso sobre duelos, se gabando de que, se enfrentasse Muhammad Ali, provavelmente ganharia a luta. Quando Booth tira sarro de sua arrogância, Lee o convida para uma luta, sem socos na cara, e o melhor de três rounds sairia vitorioso (SABBAGA, 2019, s/p).
110 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 Nesta cena, portanto, Bruce Lee aparece como alguém 1) orgulhoso, 2) mesquinho, 3) desrespeitoso e 4) impaciente. Só nesta cena podemos perceber esses aspectos, porém os comentadores encontram outros a explorarem - entre eles o de atacar o próprio diretor pelo mecanismo do bode expiatório. 3. AS RESPOSTAS DOS ENVOLVIDOS DIRETOS Quando nos referimos à situação, devemos distinguir os participantes: 1) aqueles que conheceram Bruce Lee ou participaram de algum filme (e que criaram a controvérsia pública) e 2) quem criou as iconoclastias de fora da situação, observando-as e comparando as representações (e que repercutiram a controvérsia). A primeira declaração foi a de uma das filhas de Bruce Lee, Shanon Lee, que é uma atriz muito conhecida nos EUA: Ele parece um idiota arrogante e cheio de exibicionismo. E não como alguém que teve que batalhar três vezes mais duro do que qualquer uma daquelas pessoas, para conseguir o que para alguns veio naturalmente [...] eu consigo entender as razões por trás do que está retratado no filme. Eu entendo o que os dois personagens representam como anti-heróis, e que é como uma fantasia do que poderia ter acontecido. Eu entendo que eles quiseram fazer o personagem de Brad Pitt um grande durão que poderia derrotar Bruce Lee. Mas não precisavam tratá-lo do modo que Hollywood branca tratava ele quando estava vivo (SABBAGA, 2019, s/p). Podemos perceber que a filha detectou que o pai foi retratado como uma farsa: ele não tem as habilidades que afirma ter (o que se comprova na luta) e mente sobre elas (por meio da arrogância). Assim, a iconoclastia estaria em esvaziar as capacidades marciais na vida real, vivendo de um simulacro 1 (o que o tornaria um vilão). Mas o diretor respondeu: Bruce Lee era meio que um cara arrogante. O jeito que ele falava… Eu não inventei, ouvi ele falar coisas como essas. As pessoas me dizem ‘ele nunca disse que poderia derrotar Muhammad Ali’ e sim, ele disse. Não só ele disse isso, sua esposa disse isso. A primeira biografia dele que li foi Bruce Lee: The Man Only I Knew, de Linda Lee, e ela absolutamente disse isso [...] Brad não poderia derrotar Bruce Lee, mas Cliff talvez pudesse. Então se pergunte: quem ganharia em uma briga, Bruce Lee ou Dracula? É a mesma pergunta. São personagens fictícios. E eu digo, Cliff poderia derrotá-lo, ele é um personagem fictício (SABBAGA, 2019, s/p). 1 “Disimular es fingir no tener lo que se tiene. Simular es fingir tener lo que no se tiene. Lo uno remite a una presencia, lo otro a una ausencia. Pero la cuestión es más complicada, puesto que simular no es fingir: «Aquel que finge una enfermedad puede sencillamente meterse en cama y hacer creer que está enfermo. Aquel que simula una enfermedad aparenta tener algunos síntomas de ella» (Littré). Así, pues, fingir, o disimular, dejan intacto el princípio de realidad: hay una diferencia clara, sólo que enmascarada. Por su parte la simulación vuelve a cuestionar la diferencia de lo «verdadero» y de lo «falso», de lo «real» y de lo «imaginario». El que simula, ¿está o no está enfermo contando con que ostenta «verdaderos» síntomas? Objetivamente, no se le puede tratar ni como enfermo ni como no–enfermo. La psicología y la medicina se detienen ahí, frente a una verdad de la enfermedad inencontrable en lo sucesivo” (BAUDRILLARD, 1993)
111 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 Nesse caso, o autor distingue dois níveis: a arrogância seria histórica, porém o embate seria ficcional. Assim, não haveria uma iconoclastia de fato, pois haveria, em verdade, uma representação errônea: Bruce não tinha nada além de desrespeito pelos dublês. Ele estava sempre batendo neles com os pés, estava sempre pegando — chama-se marcação quando você atinge um dublê de verdade. E ele estava sempre os marcando com os pés, sempre os marcava com o punho, e chegou a um ponto onde [os dublês diziam]: ‘Eu me recuso a trabalhar com ele’. E ele não tinha nada além de desrespeito pelos dublês americanos (JESUS, 2021, s/p). Na fala do diretor, podemos perceber a utilização de evidências históricas para afirmar que não houve destruição, mas sim uma verossimilhança - ao menos na questão ética, já que na questão do embate não haveria essa mesma necessidade. A fala do diretor, no entanto, acrescenta a dimensão “americanos”, o que cria uma certa revanche de Cliff, que era um dublê americano. Isso fica parecendo mais evidente quando Tarantino dá outra declaração: Ele não ofereceu resistência alguma a Bruce e Bruce bateu no traseiro de Cliff. Existem quatro maneiras diferentes de Bruce ter atacado ele pela segunda vez, e Cliff teria pouca defesa. Mas na maioria das vezes, se um cara tem um movimento específico e parece que o outro cara é um falastrão que não consegue se defender, eles fazem o primeiro movimento novamente. Mas agora Cliff sabe o que é. Ele se prepara para isso e joga a bunda [de Bruce] no carro. Ele apenas o enganou. Bruce percebe que foi enganado (JESUS, 2021, s/p). Podemos observar que a cena, portanto, era mais profunda em significados na micro interação, embora o que tenha sido mais focado na controvérsia tenha sido na personalidade. Isso fica mais evidente na tréplica de Shanon: Uma das coisas problemáticas de sua resposta é que, por um lado, ele coloca como fato, e por outro, ele quer que fique na ficção [...] Ele pode retratar Bruce Lee como ele quiser, e foi isso que ele fez. Mas é um pouco dissimulado da parte dele dizer 'ele era assim, mas este é um filme de ficção, então não se preocupe com isso [...] Ele poderia se desculpar, ou ele poderia dizer 'eu não sei como era Bruce Lee. Eu só escrevi para o meu filme. Mas isso não deveria ser considerado como ele era de verdade (SABBAGA, 2019, s/p). Porém, não foi apenas a filha de Bruce Lee que se manifestou. O ex-jogador de basquete americano Kareem Abdul Jabbar – que atuou no filme “Jogo da Morte” e era amigo pessoal e aluno do ator - também detectou a iconoclastia, focando especificamente na questão racial:
112 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 O que me incomoda [é] Tarantino ter escolhido retratar Bruce de uma forma tão unidimensional. A atitude de machão de Cliff (Brad Pitt) estilo John Wayne, um dublê mais velho que derrota esse chinês arrogante ecoa os vários estereótipos que Bruce estava tentando desmontar. É claro que o galã americano branco e loiro pode bater no seu carinha asiático chique porque essa merda estrangeira não manda aqui (SABBAGA, 2019, s/p). Assim, é evocado um Bruce Lee ativista identitário, cujos filmes transcendem as artes marciais ou a sua promoção pessoal (que justificaria sua arrogância). Nesse caso, a iconoclastia estaria em retirar a “memória coletiva” de Lee e o tornar egocentrado. Shanon, filha de Lee e apresentadora de TV, parece ter seguido essa linha de raciocínio: Estou cansada de ouvir de homens brancos de Hollywood que ele era arrogante e um c*zão, quando eles não têm ideia e não conseguem entender o que pode ter sido necessário para conseguir trabalho em Hollywood nos anos 1960 e 1970 como um homem chinês com um (Deus o livre) sotaque, ou tentar expressar uma opinião em um set de filmagens visto como um estrangeiro e uma pessoa de cor", continuou Shannon. "Estou cansada de homens brancos de Hollywood confundindo sua confiança, paixão e habilidades por arrogância e, logo, achando necessário marginalizá-lo, assim como suas contribuições. Estou cansada de homens brancos de Hollywood acharem muito desafiador acreditar que Bruce Lee pode ter de acreditar que Bruce Lee pode ter sido bom no que ele fazia e que talvez sabia fazê-lo melhor que eles (UOL, 2021, s/p). Por isso, por mais que houvesse arrogância no Bruce Lee histórico, ela estaria descontextualizada, que seria Hollywood nos anos 1970. Ou seja, o ator era visto como um inimigo do status quo na medida em que contrariava um estereótipo 2 de incapacidade: Estou cansada de ouvir de homens brancos de Hollywood que ele não era um lutador de artes marciais e que só fazia isso para os filmes. Meu pai vivia e respirava artes marciais. Ele ensinava artes marciais, escrevia sobre artes marciais, criava sua própria arte marcial [...] E, já que estamos aqui, estou cansada de me dizerem que ele não era americano (ele nasceu em São Francisco, Califórnia), que ele não era amigo de James Coburn, que ele não era bom com os dublês, que ele saía chamando as pessoas para brigas em sets de filmagens, que minha mãe disse em seu livro que meu pai acreditava que ele venceria Muhammad Ali (não é verdade), que tudo o que ele queria era ser famoso (UOL, 2021, s/p). Nesse caso, evidencia-se há certa hermenêutica que se está pedindo a Tarantino, que aparentemente comprou formulações preconceituosas do senso comum. Nesse sentido, está-se quebrando a representação por meio da inconsistência histórica. Mesmo do ponto de vista ficcional há o desacordo: 2 "[...] o estereótipo social (como caso particular das representações sociais) permite organizar de forma significativa o real, influencia os processos de comunicação, predispõe para a ação e assume papel relevante em fenômenos de diferenciação social (os quais por sua vez nos remetem para processos de categorização social e de construção da identidade social) [...]" (BAPTISTA, 2004, p.112)
119 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 Por fim, a iconoclastia é uma constante na modernidade, e pode se expressar de maneira tangível (como com os bizantinos) ou intangível. A maneira intangível, sem dúvida, é a mais difícil de se detectar por causa da necessidade de o analista perceber os valores do grupo. Porém, uma vez detectado, o material é bastante volumoso, especificamente em uma cultura digital. Essa abundância implica em dificuldades de seleção, porém também amplia as possibilidades de pesquisa. REFERÊNCIAS ADORO CINEMA. ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD. 2019. AdoroCinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-257482/. Acesso em: 29/07/2021. AVENTURAS NA HISTÓRIA. A briga real de Bruce Lee com um dublê em set de gravações. UOL. 2022. Disponível em: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/briga-real-de-bruce-lee-com-umduble-em-set-de-gravacoes.phtml. Acesso em 21/03/2024. BAPTISTA, M. M. Estereotipia e representação social: uma abordagem psico-sociológica. In: BARKER, A. A persistência dos estereótipos. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2004. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BAUDRILLARD, Jean. Cultura y simulacro. Divinópolis: Kairós, 1993. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. 1ª ed. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 1999. CARMO, Suellen. A iconoclastia nas charges. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Anais... 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Joinville, 2018. DURKHEIM, E. “Determinação do fato moral”. In: DURKHEIM, Émile. Sociologia e filosofia. São Paulo: Edipro, 2015. GIUMBELLI, E. A noção de crença e suas implicações para a modernidade: um diálogo imaginado entre Bruno Latour e Talal Asad. Horizontes antropológicos, v. 17, p. 327-356, 2011. HABERMAS, J. O Discurso Filosófico da Modernidade, Lisboa: Dom Quixote, 1985. HWAN, Leo. Quentin Tarantino é um babaca. YouTube.2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DEeazDIqnpE. Acesso em 21/07/2021.
120 | Análise das reações à iconoclastia de Bruce Lee no filme “Era uma vez em… Hollywood” Revista Processando o Saber - v.16 - p. 104-120 - 2024 JESUS, N. Quentin Tarantino dá resposta afiada aos críticos da cena com Bruce Lee em Era Uma Vez em... Hollywood. 2021. Adoro Cinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-159495/. Acesso em 15/07/2021. JOBLO, Movie Trailers. Bruce Lee Fight Scene - Once upon a time in hollywood (2019). Youtube. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tlUuNg6PEXA. Acesso em 21/07/2021. MIRANDA, M. B. Bruce Lee nas telas–O “Pequeno Dragão” enlaça com seu corpo marcial Oriente e Ocidente. Urdimento-Revista de Estudos em Artes Cênicas, v. 2, n. 25, p. 084-099, 2015. MITCHELL, W. J. T. What do pictures want? Chicago: The University of Chicago Press, 2005. NAPOLI, L. Caminhos para utopia iconoclasta: diálogo entre psicanálise, arquitetura e urbanismo. Indisciplinar, v. 6, n. 2, p. 150-165, 2020. REDAÇÃO. Quentin Tarantino rebate críticas sobre cena de Bruce Lee em Era Uma Vez em… Hollywood: 'Chupem um p**'. 2021. Rolling Stone. Disponível em: https://rollingstone.uol.com.br/noticia/quentin-tarantino-rebate-criticas-sobre-cena-de-brucelee-em-era-uma-vez-em-hollywood-chupem-um-p/. Acesso em 15/07/2021. SABBAGA, J. Era Uma Vez Em... Hollywood | Entenda a polêmica de Tarantino e Bruce Lee. 2019. Omelete. Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/era-uma-vezem-hollywood-polemica-tarantino-bruce-lee-entenda#5. Acesso em 15/07/2021. SILVA, L. Era uma vez em Hollywood cena da luta Cliff x Bruce Lee dublado. YouTube. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DajI_g5Lh20. Acesso em 21/07/2021. SIMMEL. G. A Metrópole e a Vida Mental. In: VELHO, Otávio G (org.). O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1987. UOL. Filha de Bruce Lee volta a atacar Tarantino: 'Cansada de brancos'. Splash. 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/07/05/filha-de-bruce-lee-voltaa-atacar-tarantino-cansada-de-brancos.htm . Acesso em 16/07/2021. VANDENBERGHE, F. A Sociologia como uma Filosofia Prática e Moral (e vice-versa). Sociologias, v. 17, p. 60-109, 2015. WEISS, R. A. Efervescência, dinamogenia e a ontogênese social do sagrado. Mana, v. 19, p. 157-179, 2013.