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A Supervisão Clínica de Pares na Integração de Enfermeiros num Serviço de Ortopedia

Ribeiro, Vera; Nogueira, Alina; Ribeiro, Andreia; Barros, Ana; Silva, Cláudia; Feijó, Neide

Abstract

Introdução: O processo de integração dos enfermeiros é fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional, uma favorável adaptação é fundamental para se sentirem capazes de prestar cuidados de qualidade e contribuir para uma melhoria contínua dos cuidados. Objetivo: Conhecer o processo de integração dos enfermeiros num serviço de ortopedia de um hospital do norte de Portugal, na perspetiva dos próprios. Metodologia: Abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, utilizando um questionário com respostas abertas como instrumento de recolha de dados, aplicado durante o mês de fevereiro de 2024. A análise dos dados foi realizada pelo método de análise de conteúdo adaptada de Bardin (2011), aplicada a 12 enfermeiros integrados no último ano (2023). Resultados e Discussão: Os resultados foram apresentados em seis categorias: 1. Integração realizada por diferentes enfermeiros, 2. Material de apoio: nem todos tiveram, mas todos valorizaram, 3. Pouco Tempo de Integração, 4. Predominância de sentimentos negativos no processo de integração, 5. Competências relacionais, organizacionais e técnicas do enfermeiro supervisor, 6. A experiência profissional anterior como o mais importante fator facilitador da integração. A percepção dos enfermeiros permitiu analisar e refletir sobre a supervisão clínica de pares, identificar fatores e estratégias para uma integração mais eficaz. Considerações Finais: O estudo permitiu reconhecer aspetos negativos a ser evitados, assim como aspectos positivos que deverão ser reforçados no processo de integração. Destaca-se a importância de um supervisor clínico capacitado e um programa de integração adequado às necessidades dos novos enfermeiros como aspetos fundamentais ao processo de integração, ao desenvolvimento pessoal e profissional e à construção da identidade profissional.

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Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 77 Recebido em 06/11/2024 Aprovado em 07/07/2025 Avaliado pelo sistema double blind peer review A SUPERVISÃO CLÍNICA DE PARES NA INTEGRAÇÃO DE ENFERMEIROS NUM SERVIÇO DE ORTOPEDIA Vera Ribeiro [1], Alina Nogueira [2], Andreia Ribeiro [1], Ana Barros [1], Claúdia Silva [2], Neide Feijó [3] [1] ULS do Médio Ave, EPE, Portugal [2] ULS São João, EPE, Portugal [3] Insight – Piaget Research Center for Ecological Human Development, Portugal [email protected] RESUMO Introdução: O processo de integração dos enfermeiros é fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional, uma favorável adaptação é fundamental para se sentirem capazes de prestar cuidados de qualidade e contribuir para uma melhoria contínua dos cuidados. Objetivo: Conhecer o processo de integração dos enfermeiros num serviço de ortopedia de um hospital do norte de Portugal, na perspetiva dos próprios. Metodologia: Abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, utilizando um questionário com respostas abertas como instrumento de recolha de dados, aplicado durante o mês de fevereiro de 2024. A análise dos dados foi realizada pelo método de análise de conteúdo adaptada de Bardin (2011), aplicada a 12 enfermeiros integrados no último ano (2023). Resultados e Discussão: Os resultados foram apresentados em seis categorias: 1. Integração realizada por diferentes enfermeiros, 2. Material de apoio: nem todos tiveram, mas todos valorizaram, 3. Pouco Tempo de Integração, 4. Predominância de sentimentos negativos no processo de integração, 5. Competências relacionais, organizacionais e técnicas do enfermeiro supervisor, 6. A experiência profissional anterior como o mais importante fator facilitador da integração. A percepção dos enfermeiros permitiu analisar e refletir sobre a supervisão clínica de pares, identificar fatores e estratégias para uma integração mais eficaz. Considerações Finais: O estudo permitiu reconhecer aspetos negativos a ser evitados, assim como aspectos positivos que deverão ser reforçados no processo de integração. Destaca-se a importância de um supervisor clínico capacitado e um programa de integração adequado às necessidades dos novos enfermeiros como aspetos fundamentais ao processo de integração, ao desenvolvimento pessoal e profissional e à construção da identidade profissional. Palavras Chave: Supervisão Clínica, Enfermeiras e Enfermeiros, Exercício Profissional CLINICAL PEER SUPERVISION IN THE INTEGRATION OF NURSES INTO AN ORTHOPEDIC SERVICE ABSTRACT Introduction: The process of integrating nurses into a department is crucial for their personal and professional development. A smooth adaptation is essential to feel capable of providing quality care A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 78 and contributing to the continuous improvement of services. Objective: To understand the process of integrating nurses into the orthopedics department of a hospital in Northern Portugal, from the perspective of the nurses themselves. Methodology: Qualitative approach, exploratory and descriptive in nature. An open-ended questionnaire, applied during february 2024, was used as the data collection tool. The data was analyzed using Bardin's (2011) content analysis method, applied to 12 nurses who were integrated during the past year (2023). Results and Discussion: The results were presented in six categories: 1. Integration conducted by different nurses, 2. Support materials: not all nurses received them, but all valued them, 3. Short Integration Period, 4. Prevalence of negative emotions in the integration process, 5. Relational, organizational, and technical skills of the supervising nurse, 6. Previous professional experience as the most important facilitating factor in integration. The nurses' perspectives allowed for an analysis and reflection on peer clinical supervision, identifying factors and strategies for more effective integration. Conclusion: The study highlighted negative aspects that could be avoided, as well as positive aspects that should be reinforced during the integration process. The importance of a well-prepared clinical supervisor and a structured integration program tailored to the needs of new nurses are emphasized as key elements in the integration process, supporting both personal and professional development and the building of professional identity. Keywords: Clinical Supervision, Nurses, Professional Practice INTRODUÇÃO A temática deste estudo é a Supervisão Clínica em Enfermagem com especial enfoque no processo de integração de novos enfermeiros no serviço de ortopedia. A Supervisão Clínica em Enfermagem assume-se como um processo de acompanhamento dos enfermeiros no contexto de trabalho que pretende o desenvolvimento da sua autonomia profissional e tomada de decisão, assim como a garantia da segurança e de melhoria da qualidade dos cuidados de saúde prestados (Albuquerque, 2021; Santana, 2022). Trata-se de “um processo dinâmico, sistemático, interpessoal e formal, entre o supervisor clínico e supervisado, com o objetivo de estruturação da aprendizagem, a construção de conhecimento e o desenvolvimento de competências profissionais, analíticas e reflexivas” (Regulamento n.º 366/2018 de 14 de junho, p.16657). Especificamente nos processos de integração dos enfermeiros nos serviços hospitalares, a supervisão entre pares desempenha um papel essencial, representando uma componente fundamental para a adaptação e desenvolvimento desses profissionais. Neste período de integração, os profissionais são confrontados com um conjunto de desafios relacionados com as especificidades dos serviços que integram, tanto ao nível organizativo como da prestação de cuidados à pessoa (Azizan et al., 2021). Neste processo, a formação académica, a experiência prática, a interação com colegas e a inserção na cultura organizacional dos enfermeiros pode ser determinante neste processo (Albuquerque, 2021). Assim, as próprias condições pessoais, a disparidade existente entre a formação profissional e a realidade dos contextos de trabalho, a falta de familiarização com os protocolos e procedimentos dos serviços, a insegurança, incapacidade de tomada de decisão face à falta de experiência profissional são os fatores que mais impactam este processo (Santos & Pires, 2023). Benner (2001), no seu Modelo de Aquisição de Competências, afirma que a integração na vida profissional exige aprendizagens técnicas, nas quais a proficiência é aprimorada pela aquisição e A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 79 evolução de conhecimentos adquiridos na prática, pelas experiências proporcionadas e partilhadas na vida profissional, com o intuito de atingir a excelência e perícia. O desenvolvimento de saberes, habilidades e competências é crucial para um desempenho profissional adequado e seguro. Para tal, é importante que o processo de integração seja orientado por estes atributos, no sentido de motivar e potenciar a autoconfiança dos enfermeiros que iniciam a sua atividade profissional num novo serviço (Coelho & Adriano, 2021; Santana, 2022). Assim, o processo de integração deve ser contínuo e adaptável às necessidades individuais de cada enfermeiro, o que significa que a instituição deva ajustar o processo de integração de acordo com o feedback dos enfermeiros e com as mudanças no ambiente de trabalho. É também responsabilidade da instituição informar os seus novos colaboradores acerca das suas expectativas em relação ao seu desempenho, assim como sobre os recursos disponíveis para os apoiar no seu trabalho. Em contrapartida, é fundamental que a instituição permita aos novos enfermeiros a oportunidade de expressar as suas preocupações e necessidades para que possam receber o apoio adequado (Pinheiro et al., 2014). Além da adaptação ao serviço/instituição, um processo de integração eficaz dos enfermeiros é determinante para o desenvolvimento da sua identidade profissional. Esta dimensão é fundamental para o desenvolvimento de uma prática profissional eficaz, pois influencia o comportamento e as atitudes dos enfermeiros em relação ao trabalho, aos colegas e aos doentes (Albuquerque, 2021). No âmbito da construção da identidade profissional dos enfermeiros destaca-se a relevância da interação com colegas na sua prossecução. É durante o trabalho em equipa, que os enfermeiros têm a oportunidade de partilhar experiências, aprender com os colegas mais experientes e contribuir para o desenvolvimento de uma cultura organizacional positiva. Além disso, esta interação permite que os enfermeiros desenvolvam competências de comunicação, empatia e trabalho em equipa, que são fundamentais para uma prática profissional eficaz (Miyazato et al., 2021). Além da interação com os colegas, a inserção dos enfermeiros na cultura organizacional das instituições é fundamental para a construção da sua identidade profissional, já que as normas, os valores e as práticas da instituição de saúde, podem ter um impacto significativo no exercício profissional dos enfermeiros. Assim, uma cultura organizacional que valoriza a autonomia, o trabalho em equipa e o respeito mútuo pode contribuir para o desenvolvimento de uma identidade profissional sólida e para a satisfação no trabalho dos enfermeiros (Albino et al., 2022). Durante o processo de integração dos novos profissionais, a atuação do enfermeiro supervisor adquire uma grande relevância ao promover uma abordagem colaborativa e de apoio, contribuindo para a construção de uma equipa coesa e eficiente (Albuquerque, 2021; Azizan et al., 2021). Considera-se, por isso, que o enfermeiro supervisor desempenha uma função preponderante na facilitação da adaptação dos novos profissionais ao ambiente hospitalar, que não inclui apenas a familiarização com o espaço físico, mas também a assimilação da dinâmica da equipa, das relações interprofissionais e das expectativas institucionais. Perante o exposto, a necessidade de integração de novos enfermeiros nos serviços hospitalares, concretamente nos serviços de Ortopedia, torna-se num desafio premente. Garantir a eficácia e adequabilidade deste processo de integração, motivou a reflexão sobre as potenciais melhorias a implementar neste processo, no qual o enfoque na satisfação dos enfermeiros em integração e a segurança da prestação de cuidados fosse assegurado. Para o efeito, o presente estudo tem como objetivo conhecer o processo de integração dos enfermeiros num serviço de ortopedia de um hospital da zona norte de Portugal, na perspectiva dos próprios enfermeiros. Com isso, contribuir com a A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 80 ponderação de estratégias que possam alicerçar a sistematização do processo de integração de pares, no sentido da otimização da integração dos enfermeiros, neste contexto específico. METODOLOGIA Para alcançar os objetivos propostos foi utilizada uma abordagem qualitativa da investigação, de natureza exploratória e descritiva, pois o que se pretende é o aprofundamento do entendimento do fenómeno. O contexto deste estudo foi o serviço de ortopedia de um hospital da zona norte de Portugal, que, à semelhança de outros serviços, apresenta particularidades que requerem uma adaptação específica dos enfermeiros, como a complexidade dos procedimentos cirúrgicos, a necessidade de trabalho em equipa e a atenção a pacientes com condições ortopédicas variadas. Como instrumento de recolha de dados foi utilizado uma entrevista semi-estruturada de autopreenchimento, cujo guião foi disponibilizado online, no Google Forms, aos 12 enfermeiros que constituíram a amostra intencional do estudo. Estes enfermeiros foram identificados por terem passado pelo processo de integração no referido serviço de ortopedia nos últimos 12 meses, durante o ano de 2023. As respostas foram voluntárias, anónimas e após concordarem com o consentimento livre e informado, através da resposta ao guião do google forms, e os dados foram tratados e armazenados no Microsoft 365 da universidade. Para a realização do estudo foi também solicitada autorização à comissão de ética do respectivo hospital, com parecer favorável nº 06/2024. Os dados foram recolhidos durante o mês de fevereiro de 2024 e tratados através da análise de conteúdo adaptada de Bardin (2011), que se divide em três etapas: 1. Pré-análise; 2. Exploração do material; 3. Tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Assim, foi realizada a leitura das respostas, iniciando a organização dos dados ao encontro do objetivo definido; aprofundando na exploração do material, de forma a operacionalizar, codificar e identificar as unidades significativas de análise (palavras ou frases), isto é, que continham informações relevantes para o entendimento pretendido. Com isso, foi possível, por meio de decomposição, classificação e agrupamento construir o conhecimento pretendido. Neste processo, emergiram as categorias, considerando a homogeneidade, pertinência, objetividade e fidelidade. As autoras, de forma independente, reviram os dados e propuseram as inferências e interpretações, resultando na organização das informações que a seguir serão apresentadas. RESULTADOS E DISCUSSÃO As principais características sociodemográficas da amostra foram: nove mulheres e três homens; jovens, com idades entre os 23 e os 35 anos; cinco deles possuíam uma formação pós-graduada; a maioria, oito, tinha de um a cinco anos de experiência profissional, seguido de três com mais de cinco anos e apenas um com menos de um ano de experiência profissional; todos tiveram experiências profissionais anteriores quase que exclusivamente em ambiente hospitalar. As informações que emergiram da análise de conteúdo foram organizadas em seis categorias (Quadro 1), as quais permitiram compreender o fenómeno proposto para o estudo: a supervisão clínica de pares no processo de integração de enfermeiros num serviço de ortopedia de um hospital do norte de Portugal. A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 81 Quadro 1 – O processo de integração dos enfermeiros – categorias descritivas Das descrições que os enfermeiros fizeram da própria integração, serão transcritas informações correspondentes a cada categoria. Integração realizada por diferentes enfermeiros a) Visões desfavoráveis: repetição e dificuldade de integrar conhecimento Os participantes identificaram desvantagens na integração realizada por diferentes enfermeiros, conforme podemos verificar nas transcrições a seguir: “Vejo isso como um fator dificultador, quer seja porque se repetem informações desnecessárias por o elemento não saber o que já aprendemos ou não, quer pela fluidez do trabalho ser muito diferente de profissional para profissional. Dificulta a aquisição de conhecimentos, principalmente no que diz respeito à integração de conceitos e de procedimentos.” (E3) “Por enfermeiros diferentes, o que pode ser uma menos-valia porque cada enfermeiro pode ter abordagens diferentes para a mesma situação.” (E11) b) Visões favoráveis: diferentes modos de fazer, ampliação do conhecimento. No entanto, alguns participantes também reconheceram vantagens neste processo, como podemos confirmar nas seguintes transcrições: “Com diferentes enfermeiros, o que penso que seja uma boa estratégia para poder também aprender com modos de trabalhar e visões diferentes.” (E1) “A integração foi realizada por diferentes enfermeiros. Por um lado, foi bom para perceber diferentes formas de abordar o doente ortopédico e nesse sentido posteriormente adaptarmos a nossa própria abordagem, bebendo da experiência de cada um.” (E 10) “...Por outro lado diferentes enfermeiros permite obter diferentes conhecimentos e formas de trabalho.” (E12) Nesta categoria destaca-se que a integração foi conduzida por enfermeiros diferentes, revelando aspetos positivos, contudo, os negativos foram os mais elencados. A integração realizada por diferentes enfermeiros foi sentida pelos participantes como uma oportunidade de absorver diferentes saberes e experiências profissionais. Por outo lado, a necessidade de um acompanhamento sólido e contínuo foi mais valorizada, no sentido de facilitar um processo de integração mais efetivo. A atribuição de um enfermeiro supervisor específico permite uma aprendizagem mais próxima, Categorias Subcategorias Integração realizada por diferentes enfermeiros Visões desfavoráveis: repetição e dificuldade de integrar conhecimento Visões favoráveis: diferentes modos de fazer, ampliação do conhecimento. Material de apoio: nem todos tiveram, mas todos valorizaram Pouco Tempo de Integração Predominância de Sentimentos Negativos no Processo de Integração Competências relacionais, organizacionais e técnicas do Enfermeiro Supervisor A experiência profissional anterior como o mais importante fator facilitador da integração A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 82 proporciona maior apoio e estabilidade nesta fase de integração. Este facto foi já confirmado em diferentes estudos realizados (Coelho e Adriano, 2021; Carvalho, 2016). Material de apoio: nem todos tiveram, mas todos valorizam O fornecimento de material de apoio, como normas e procedimentos do serviço, não era uma prática consensual entre todos os supervisores. Os enfermeiros entrevistados foram favoráveis a que no período de integração fossem fornecidos materiais de apoio, como manuais de procedimentos, protocolos do serviço, que orientassem a prática específica no serviço de ortopedia, guiassem e padronizassem a integração. Aqueles que não receberam nenhum material de apoio, reclamaram pela falta, e os que receberam consideraram de utilidade no processo de integração, conforme podemos verificar nas transcrições a seguir: “…vários colegas adotam formas de trabalhar diferentes e explicaram-nos vários assuntos, de algumas formas distintas. Por esse motivo, seria interessante o fornecimento de um manual específico em Ortopedia.” (E4) “..informação repetida ou informação não obtida. Mas isso seria colmatado se existisse um documento para todos os enfermeiros em integração com os aspetos a abordar, independentemente do enfermeiro que estivesse a integrar teria que perceber quais as informações transmitidas e quais as que ainda não foram e proporcionar assim uma uniformização na integração dos enfermeiros.” (E10) “Não foram fornecidos materiais de apoio, por exemplo, sobre os protocolos do serviço e/ou das cirurgias.” (E3) “No meu processo de integração foram me fornecidos manuais e folhetos teóricos relativos a ortopedia tendo sido uteis para a adquisição de novos conhecimentos assim como me foi fornecida uma capa com os protocolos do serviço tendo sido útil para aprender as diversas dinâmicas do serviço.” (E6) “Sim, foi-me facultado esse material que ajudou bastante na percepção das práticas e procedimentos.” (E8) Observou-se, assim, que os métodos de integração diferem entre os enfermeiros, alguns fornecendo material de apoio enquanto outros não, o que sugere a necessidade de uniformizar e planear os processos de integração. Coelho e Adriano (2021) referem no seu estudo, que é fundamental que o enfermeiro tenha acesso a informações claras sobre os procedimentos e protocolos da instituição, bem como a oportunidade de participar de formações e capacitações específicas para a área de atuação. Pouco Tempo de Integração Os enfermeiros entrevistados consideraram o tempo de integração insuficiente: “O curto período de integração”...”Período de integração no serviço de 2 turnos” (E1) “Relativamente ao tempo de integração, este demonstrou-se breve. Cerca de 4 turnos para interiorizar as rotinas.” (E2) “O meu processo de integração teve um período de cerca de uma semana”…”sentindo que deveria de ter tido mais tempo de integração” (E6) “…por ter sido muito curto, não considerei suficiente para desempenhar a atividade profissional de forma segura.” (E7) “O tempo reduzido de integração não permitiu o contacto com diversas situações quer a nível de casos clínicos, quer a nível de gestão administrativa.” (E10) A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 83 O momento de integração num serviço é uma etapa de transição da vida profissional e para ser eficaz é importante que aconteça de acordo com as necessidades dos profissionais em integração. Podemos constatar que os enfermeiros questionados consideraram o tempo de integração insuficiente, variando este período entre 1 dia e 2 semanas, o que na maioria não respondeu às suas necessidades individuais. Esta insuficiência no processo de integração dificulta a aquisição de competências essenciais para a prestação de cuidados com segurança, como já foi afirmado por Carvalho (2016) e Albuquerque (2021). Predominância de Sentimentos Negativos no Processo de Integração O período de integração estudado foi caracterizado pela predominância de sentimentos negativos, como se evidencia nos apontamentos dos enfermeiros: “Ansiedade, frustração, preocupação.” (E2) “Nervosismo, ansiedade, medo.” (E3) “Ansiedade, frustração, nervosismo, apreensão e vontade de aprender.” (E7) “Um pouco de ansiedade para reter todos os procedimentos num curto período de tempo.” (E11) É importante notar os sentimentos negativos expressos pelos participantes, o que levanta questões sobre a atuação dos supervisores e a necessidade de investir numa função de suporte para tornar o processo de integração mais natural e facilitador. Tal como Coelho e Adriano (2021) salientam, o enfermeiro supervisor é fundamental para o processo de integração enquanto elemento de suporte e apoio. A existência de programas estruturados e com funções de suporte, são promotores de conhecimentos, habilidades que se traduzem no desenvolvimento de competências, autoconfiança e aumento da satisfação no trabalho. As dificuldades enfrentadas no processo de integração revelam a necessidade de maior investimento nessa fase inicial da profissão, potencializando a supervisão de pares e a figura do supervisor clínico (Pinheiro et al., 2014). Isso inclui investir na formação dos enfermeiros na área da supervisão clínica, para que possam planear os processos de integração dos colegas de forma mais eficaz e adequada às suas necessidades (Santos & Pires, 2023). A supervisão clínica é vista como um processo dinâmico e de partilha, que permite o desenvolvimento profissional também dos enfermeiros mais experientes. A importância de um ambiente acolhedor e potenciador dos processos de aprendizagem já foi salientado por diferentes autores como promotores de uma integração mais eficaz. (Albino et al., 2022; Albuquerque, 2021; Miyazato et al., 2021). Promover momentos de análise e reflexão durante o processo de integração seria uma boa estratégia para promover a construção do conhecimento dos novos enfermeiros, fomentando a sua capacidade critico-reflexiva e autoconfiança na prestação de cuidados, tal como foi salientado por Carvalho (2016). Competências relacionais, organizacionais e técnicas do Enfermeiro Supervisor A figura do supervisor, o seu papel e as suas características foram apontados como sendo de extrema relevância no processo de integração dos enfermeiros: “Organização, método de trabalho, transmissão de informação eficaz.” (E4) “Boa comunicação, vontade e interesse em integrar.” (E8) “Responsabilidade, organização e compreensão que foram características importantes e positivas que ajudaram a tornar-me um melhor enfermeiro.” (E9) “Abertura para tirar dúvidas e disponibilidade.” (E11) A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 84 “Acho que tivemos uma boa relação. Senti-me apoiada. Que estava sempre atenta e pronta a ajudar-me.” (E12) Os enfermeiros apontaram características relevantes para o supervisor, o que pode fornecer sugestões para identificar o perfil mais adequado de um enfermeiro supervisor. Tal como já foi confirmado por Carvalho (2016), é essencial que os supervisores sejam dotados de competências técnicas para o desempenho desta função, mas também de competências humanas e relacionais. Estas competências foram francamente destacadas pelos participantes do estudo, reforçando a importância do empenho e dedicação enquanto supervisores e salientando, mais uma vez, as funções de suporte e apoio inerentes a este processo, como foi demonstrado por Carvalho (2016) e Santos e Pires (2023). A experiência profissional anterior como o mais importante fator facilitador da integração Foi unânime a referência à experiência profissional como um fator facilitador da integração dos enfermeiros no serviço: “...tendo em conta que tenho experiência em serviço de medicina, muitos dos conhecimentos adquiridos nesse período consegui aplicar e ajudaram a encurtar o tempo de adaptação e integração no serviço.” (E1) “No meu caso, o facto de ter experiência na instituição ajudou na integração, já que esta foi curta. Ajudou principalmente a nível informático e uniformização dos registos.” (E7) “Sim, tendo em conta a experiência prévia com doentes de ortopedia, o facto de apenas terem sido 2 dias de integração não foi um problema.” (E11) A experiência prévia foi identificada como um claro facilitador no processo de integração corroborando vários estudos que reforçam a ideia que os anos de experiencia profissional influenciam na adaptação e capacidade de integração profissional num novo contexto (Carvalho, 2016; Albuquerque, 2021) Em síntese, a integração no serviço estudado decorreu com a supervisão de mais de um enfermeiro, poucos destes supervisores forneceram material de apoio, o tempo para a integração foi considerado insuficiente e foram reconhecidas as competências dos enfermeiros supervisores. Os sentimentos que predominaram foram negativos e o ponto forte destacado não foi propriamente sobre o processo de integração e sim, atribuído à experiência profissional anterior. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conhecer o processo de integração no contexto de trabalho, através da percepção dos próprios enfermeiros, permitiu analisar e refletir sobre a supervisão clínica de pares, no sentido de identificar fatores e estratégia para uma integração mais eficaz e facilitadora de maior satisfação profissional. O estudo proporcionou o reconhecimento de aspetos considerados, pelos enfermeiros, como negativos, que poderão ser evitados ou transformados, assim, como os aspectos positivos que deverão ser reforçados e ampliados no processo de integração. Merece destaque a importância de um supervisor clínico preparado para esta função, um programa de integração adequado às necessidades dos novos enfermeiros no serviço, com protocolos e manuais de integração específicos para o serviço especializado à disposição destes enfermeiros. Além de prever mais tempo para o período de integração. Desta forma, contribuiu com o conhecimento na área da supervisão clínica de pares e, consequentemente, para um melhor ambiente de trabalho, para cuidados de enfermagem mais adequados e seguros ao utente e para o desempenho profissional de excelência. A supervisão clínica de pares na integração de enfermeiros num serviço de ortopedia Ribeiro, V., Nogueira, A., Ribeiro, A., Barros, A., Silva, C., Feijó, N. Germinare n.º 5. 2025. Doi: https: doi.org/10.5281/zenodo.17224550 85 Não obstante, reconhece-se que um maior aprofundamento das próprias entrevistas realizadas junto dos enfermeiros em integração, poderiam apontar estratégias mais adequados para uma prática de supervisão por pares ao encontro dos anseios dos próprios enfermeiros, nomeadamente, relacionadas às características que valorizam para uma prática de cuidados de um profissional bem integrado; o que facilitaria a verificação e avaliação da própria integração, permitindo direcionar a prática de supervisão e otimizar os processos de integração. No mesmo sentido, investigar as percepções dos supervisores que realizaram a integração, complementaria as informações a respeito do processo estudado, o que poderá ser feito como continuidade de investigação futura. Ainda, no âmbito das limitações do estudo, verifica-se que a escassa publicação na especialidade em foco limitou as comparações que seriam desejadas. REFERÊNCIAS Albino, C., Vidal, J. & Pescada, S. 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A supervisão clínica no processo de integração de enfermeiros [Dissertação de mestrado, Escola Superior de Enfermagem do Porto]. RCAAP - Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal. https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/12851/1/Disserta%c3%a7%c3%a3o_Ana%20Carvalho%20 VERS%c3%83O%20DEFINITIVA.pdf Coelho, A. & Adriano, P. (2021). Estratégias que suportam a integração de enfermeiros em uci: revisão sistemática de evidência de significado. Revista Ibero-Americana de Saúde e Envelhecimento, 7 (2), 296319. http://dx.doi.org/10.24902/r.riase.2021.7(2).494.296-319 Miyazato, H., Araújo, P. & Rossit, R. (2021). Competências necessárias para atuar como preceptor: percepção de enfermeiros hospitalares. Enferm Foco, 12(5), 991-7. https://doi.org/10.21675/2357707X.2021.v12.n5.4655 Pinheiro, G., Macedo, A. & Costa, N. (2014). Supervisão colaborativa e desenvolvimento profissional em Enfermagem. 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