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Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN

Oliveira, Yasmin Stefany Soares; Ribeiro, Mayra

Abstract

O estudo objetiva compreender os sentidos atribuídos ao “viver a universidade” como postura acadêmica para o desenvolvimento de uma formação experiencial, percebendo as aprendizagens experienciadas nos atos de currículo como possibilidade de uma formação existencial. Fundamenta-se em um Rigor Outro (MACEDO, 2009), englobando seres humanos em formação, incluindo o poético, o filosófico, o literário e as incertezas inerentes aos sujeitos. Nos inspiramos na Multirreferencialidade (ARDOINO,1998), Histórias de Vida (JOSSO, 2004) e Atos de Currículo (MACEDO, 2020), construindo autonarrativas a partir do Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010). Utilizamos como fontes de pesquisa os livros, artigos, dissertações e o Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia – PPP. Portanto, compreendemos os sentidos do “viver a universidade” extrapolando os limites do currículo instituído, ou qualquer intenção de apenas preencher um currículo formal, mas como postura assumida diante da formação implicada e engendrada nos Atos de Currículo. Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/292

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A Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) é publicada pela Fatec Praia Grande Multidisciplinar - Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista - [email protected] Creative Commons License Uma imagem contendo Interface gráfica do usuário Descrição gerada automaticamente eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2023 • aceito: Mar/2023 • publicado: Jun/2023 Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Living the university: narratives of an authorized training in a pedagogy course – UERN Yasmin Stefany Soares Oliveira Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN [email protected] Mayra Ribeiro Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN [email protected] RESUMO O estudo objetiva compreender os sentidos atribuídos ao “viver a universidade” como postura acadêmica para o desenvolvimento de uma formação experiencial, percebendo as aprendizagens experienciadas nos atos de currículo como possibilidade de uma formação existencial. Fundamenta-se em um Rigor Outro (MACEDO, 2009), englobando seres humanos em formação, incluindo o poético, o filosófico, o literário e as incertezas inerentes aos sujeitos. Nos inspiramos na Multirreferencialidade (ARDOINO,1998), Histórias de Vida (JOSSO, 2004) e Atos de Currículo (MACEDO, 2020), construindo autonarrativas a partir do Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010). Utilizamos como fontes de pesquisa os livros, artigos, dissertações e o Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia – PPP. Portanto, compreendemos os sentidos do “viver a universidade” extrapolando os limites do currículo instituído, ou qualquer intenção de apenas preencher um currículo formal, mas como postura assumida diante da formação implicada e engendrada nos Atos de Currículo. PALAVRAS-CHAVE: Formação Universitária. Autoria. Atos de Currículo. ABSTRACT The study aims to understand the meanings attributed to “living the university” as an academic posture for the development of an experiential formation, perceiving the learning experiences in the curricular acts as a possibility of an existential formation. It is based on a Rigor Other (MACEDO, 2009), covering the human being in formation, including the poetic, the philosophical, the literary and the uncertainties inherent to the subjects. We are inspired by Multireferentiality (ARDOINO, 1998), Life Stories (JOSSO, 2004) and Curriculum Acts (MACEDO, 2020), building self-narratives from the Research Diary (BARBOSA, 2010). We used books, articles, dissertations and the Pedagogical Project of the Pedagogy Course – PPP as research sources. Thus, we understand the meanings of “living the university” going beyond the limits of the instituted curriculum, or any intention of just fulfilling a formal curriculum, but as an assumed attitude towards the implicit training engendered in the Curriculum Laws. KEYWORDS: University Education. Authorship. Curriculum Acts. 48 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 INTRODUÇÃO “Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN” é o tema deste artigo e encontra no Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010) os sentidos reverberados no processo formativo como estudante do curso de pedagogia na universidade pública. Temos como objetivo compreender os sentidos da formação instituindo-se pelos/nos atos de currículo em uma postura acadêmica que favorece o desenvolvimento de uma itinerância formativa experiencial, percebendo as vivências como possibilidade de uma formação existencial autorizante. Como discente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN aprendemos, por meio do exercício da autoria e responsabilização pela formação, a olharmos para a instituição como possibilidade de transgressão e emancipação por meio das discussões tecidas no cotidiano, em aulas, nos programas formativos, no movimento estudantil, e principalmente, através do protagonismo discente. Portanto, é a partir destas intensas vivências que marcamos um ponto de partida para esta tessitura, questionando: que sentidos são atribuídos ao “viver a universidade” como postura formativa experiencial/autorizante no curso de Pedagogia da UERN? O interesse em desenvolver um estudo envolvendo vivências universitárias e formação justifica-se pela itinerância de uma estudante do curso de pedagogia, que desconhecendo o ambiente acadêmico, autoriza-se a desbravá-lo, percebendo os significativos impactos desta escolha no processo formativo ainda durante este caminhar. Partimos das compreensões de que formar-se educador(a) extrapola os sentidos de conquistar um diploma ao final de um curso de graduação, pois a prática educativa não restringe-se ao domínio de um "saber-fazer'', mas que educar está diretamente relacionado ao "saber-ser” humano, sendo indispensável reconhecer a importância do processo formativo, e não apenas da conclusão da graduação em Pedagogia, em um caminhar em que “[...] ir ao encontro de si visa à descoberta e a compreensão de que a viagem e viajante são apenas um (JOSSO, 2004, p.58). Portanto, o que é viver a universidade? Quais as contribuições do pressuposto desta postura? Como assumi-la contribui para uma formação existencial na universidade? Organizamos este artigo em sessões, são elas: introdução, fundamentação teórica, metodologia, discussão, considerações finais e referências. Na fundamentação, dialogamos com os autores que inspiram o processo de compreensão de reflexão e escrita autoral a partir das abordagens das Histórias de Vida (JOSSO, 2004) e formação e da Multirreferencialidade 49 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 (ARDOINO, 1998). Na metodologia buscamos aludir sobre o Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010), dispositivo de autoformação utilizado para tessitura das narrativas autorais que compõe o artigo, além de evidenciar as demais fontes de pesquisa utilizadas, como o Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia, livros, artigos e dissertações. Na discussão, buscamos compreender o processo de formação para docente no curso de Pedagogia, trazendo as noções e vivências que contribuíram para a assunção da postura de viver a universidade, como os diálogos em componentes curriculares do curso, aprendizagens que se constituíram a partir de ações, relações e interações no cotidiano da UERN, por meio da Comissão de Comunicação da Faculdade de Educação – COMFE e Centro Acadêmico de Pedagogia – CAPED. Além disso, evidenciamos os aspectos instituídos que transversalizam a formação no curso de Pedagogia e contribuem para a postura do viver a universidade possibilitando o instituir-se, como o Projeto Pedagógico do Curso – PPC. Portanto, será nas considerações finais que retomamos as reflexões feitas ao longo do artigo, compreendendo o “viver a universidade” como uma postura acadêmica que possibilita o desenvolvimento de uma itinerância formativa experiencial e formação existencial. Entretanto, seria postura inócua e limitante crer que esgotamos o assunto, tendo em vista que o processo de formação é único e perdura ao longo de toda vida. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Encontramos inspiração na Abordagem Multirreferencial, discutida por autores como Ardoino (1998), Barbosa (1998) e Macedo (2009), possibilitando a compreensão das realidades chamadas complexas. Essa complexidade trata-se da condição de ser humano, dos “saberes de si", das relações de alteridade e alteração entre os sujeitos, para as quais uma tentativa de explicação não daria conta de compreender todos os sentidos produzidos através das aprendizagens existenciais/experiênciais aqui partilhadas (JOSSO, 2004). Ademais, pensar/fazer a formação inspirada na abordagem multirreferencial amplia a noção de sala de aula como “todo e qualquer espaço onde se pode estabelecer relações entre pessoas, onde, de fato, a aprendizagem e a formação ocorrem" (BARBOSA; RIBEIRO, 2019, p.16) contribuindo diretamente com a compreensão de que a sala de aula é apenas mais um dos inúmeros espaços formativos na universidade. Neste sentido, na referida abordagem, compreensão e/ou escuta envolvem “uma leitura plural de seus objetos (práticos ou teóricos), leitura a partir de diferentes 50 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 pontos de vista, sistemas de referência distintos, não redutíveis uns aos outros, visões específicas e linguagens apropriada" (BORBA, 2013, p.24). Sendo assim, as fontes de pesquisa que contribuem para a criação do banco de dados discutidos na presente pesquisa comungam de um Rigor outro (MACEDO, 2009), que parte do pressuposto de que os padrões acadêmicos instituídos para fazer pesquisa científica, e utilizados para explicar as ditas "ciências duras”, já não dão conta de compreender a realidade entendida como complexa, trazida pelas “ciências do humano”, pois diz respeito aos sujeitos enquanto seres em formação, da "apreensão de si e da condição humana incluindo o poético, filosófico, o literário, enfim, as múltiplas incertezas e o próprio vazio que compõe o viver" (BARBOSA; RIBEIRO, 2019, p.25). Portanto, ao assumir este percurso metodológico, promove-se uma ruptura teórico-metodológica com os procedimentos e práticas avaliativas quase sempre reproduzidas, que tomam "nos cenários educacionais, o conhecimento dito, a priori, formativo, fundado na lógica disciplinar" como mais importante e "na frente do conhecimento construído pela experiência na formação" (MACEDO, 2010, p.61). A abordagem multirreferencial e das histórias de vida concebem a formação como postura de um sujeito, sendo, fazendo, acontecendo, portanto, pensar/fazer a formação em uma abordagem multirreferencial é implicar-se com a razão, a emoção, o vivido, o sentido. Dessa maneira, instituem um lugar de oposição à visão cartesiana e positivista que transversalizam pesquisas acadêmicas ao redor do mundo, pois o nosso objetivo não é produzir verdades, mas atribuir e compreender sentidos. Enquanto seres sociais intrínsecos a sociedade de regras e normatizações, somos condicionados ao instituído, ou seja, tudo que está posto/pré-determinado pelas instituições. Mas, enquanto sujeitos pensantes e conscientes da própria presença no mundo, somos capazes de estabelecer uma relação que extrapola a adaptação, assumindo a postura de instituinte e podendo criar e incluir os próprios pensamentos/ideias/sentidos ao vivido. Desta maneira, se faz presente o tríptico agente-ator-autor, de tal maneira que saímos do papel de agente-ator, que apenas reproduz um roteiro produzido por outrem e vive mecanicamente, para assumir o papel de autor de si mesmo, implicando-se, revelando vontades enquanto sujeito desejante, crítico e autorizando-se no processo (ARDOINO, 1998). Percebemos esta “autorização” como uma noção que diz da ideia de permitir-se, de tornar-se autor da própria vida em comunhão com os sujeitos, ou seja, “de fazer-se a si mesmo, ao menos, co-autor do que será produzido socialmente. Se o ator é sempre, mais ou menos, explicitamente, portador de sentido, o autor é fonte e produtor de sentido” (ARDOINO, 1998, p.122). 51 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 O processo de tornar-se co-autor de si mesmo é uma postura da formação que se faz autorizador, e, portanto, multirreferencial, em que há múltiplas formas de se obter conhecimento, fazer pesquisa e caminhar/compreender-se enquanto ser humano. A partir desta abordagem epistemológica, é possível atribuir um olhar plural para a formação inicial de professora, caracterizado pela capacidade de ver duplamente, ou seja, não esquecer que, por trás de um problema, há o sujeito que problematiza. É olhar constantemente, no âmbito da exterioridade, para o objeto de estudo, e “si dobrar” para o interno enquanto sujeito autorizado. Dessa forma, adotar a autoria e a multirreferencialidade como jeito de caminhar na itinerância formativa, e consequentemente na vida, inclui ultrapassar os limites de ser simplesmente objeto, assumindo o lugar de sujeito do próprio caminhar na formação (BARBOSA, 2010). As abordagens permitem que nós, enquanto sujeitos do e no itinerário formacional, sejamos capazes de narrar aspectos da vida interior, pois cada um de nós é um "novo continente" a descobrir, e isso se faz ao passo que partilhamos com os outros o que pensamos, sentimos, nossas dúvidas, dilemas, angústias, questões, incompreensões, nossos estados da alma, nossos sonhos. Caracteriza-se também como uma contribuição à pesquisa-formação, que trata-se de admitir que há um pesquisador em cada um de nós, e que este pesquisador só avança na medida em que é capaz de aprender, em função ou não, das interações com os outros, o que deve fazer consigo mesmo e com os demais sujeitos ao seu redor, para formular suas questões de pesquisa, os seus métodos, suas fontes de informação, e finalmente, ser autônomo em cada uma de suas ações. Portanto, narrar de si contribui com o olhar/viver/sentir sob uma perspectiva outra, percebendo o cotidiano como relevante para autoformação de cidadãos profissionais autores de si (JOSSO, 2004; BARBOSA, 2010). Com essas inspirações, não olhamos apenas para o produto final do curso de graduação em Pedagogia, objeto deste artigo, mas para a formação, atribuindo real importância aos “andaimes”, ou seja, a tudo aquilo que faz parte da construção do sujeito, mas que são ocultados ao final do processo formativo (BARBOSA, 2010). 3. METODOLOGIA A abordagem metodológica empregada fundamenta-se na história de vida e formação, a qual o narrar de si se constitui em dispositivo de formação crítica, criativa e reflexiva, permitindo que o sujeito aprendente aproprie-se da condução, da direção e da significação que atribui à sua vida e formação (JOSSO, 2004), perspectiva muito bem expressa pela autora ao 52 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 dizer “[...] uma mediação do conhecimento de si em sua existencialidade, que oferece à reflexão de seu autor oportunidades de tomada de consciência sobre diferentes registros de expressão e de representações de si, assim como sobre as dinâmicas que orientam sua formação” (JOSSO, 2004, p.7). E ainda, mobilizamos o Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010) como dispositivo de autoformação, atuando em tripla perspectiva, a saber: formação para a pesquisa; para a escrita e formação de si. O Diário de Pesquisa (BARBOSA, 2010) é um dispositivo metodológico potencializador do processo de autoformação em uma tríplice perspectiva: formação para pesquisa, formação para escrita, e principalmente, formação de si enquanto autor dos próprios caminhos. Por meio de uma escrita íntima e implicada, ou seja, em que estamos “dobrados para dentro”, somos possibilitados de olhar para nós mesmos enquanto atores sociais e “si ver passar”, criando possibilidades de compreensão das transformações que sofremos ao longo da itinerância formativa (BORBA, 2001, p. 103-113). A formação para a escrita acontece de maneira gradativa com a prática do Diário de Pesquisa (DP) como atividade cotidiana na vida dos sujeitos. Em função da constância, expor os sentidos e ideias sobre algo de forma compreensível para aquele que lê e escreve potencializa a formação para pesquisa, e tende a tornar-se autoral/autorizante, já não havendo necessidade de copiar e replicar o que foi outrora produzido e/ou medo de expor as próprias ideias. Além disso, a prática do DP contribui para a capacidade de observar, refletir, questionar e elaborar os próprios sentidos ao vivido, características inerentes ao ser pesquisador e ao autor-cidadão. A prática do DP necessita apenas de instrumentos para o registro das ideias, como caderno e caneta ou computador/notebook. Atualmente já temos outros dispositivos sendo acionados na elaboração do DP, inclusive com utilização de recursos multimodais e interfaces digitais, como apresentam Barbosa, Santos e Ribeiro (2017) na sua pesquisa sobre o diário online por meio do WhatsApp. Para os autores, “o aplicativo permite diálogos textuais, por voz e a conversão da voz em texto. Assim, podemos utilizar tanto o recurso da conversa escrita quanto a narrativa por voz” (p.252). Além disso, para fins de organização e compreensão do que foi escrito, é interessante que se delimite uma área da vida para cada diário, e em se tratando deste estudo, escrevemos sobre as experiências universitárias como graduanda em Pedagogia. A perspectiva de formação trazida pelo DP é aquela que se faz no cotidiano, não havendo segregação entre a vida e o processo formativo, sendo visceralmente integrados e acontecendo a partir das experiências dos seres. Ao fazer registros escritos dos momentos vivenciados em determinada área da vida, é possível “deixar a si mesmo no papel”, se 53 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 debruçando sobre sentimentos, emoções, dilemas, questionamentos, angústias que nos transversalizaram no momento em que passamos pelos episódios da vida em interação com o outro - de acordo com Borba (2001, p.28) "Se formar não é instruir...É primeiro refletir, é pensar uma experiência vivida". Neste sentido, a partir do distanciamento entre o ser que viveu e o ser que registra o fato vivido proporcionado pela escrita, é possível compreender, reelaborar e recriar novos sentidos sobre os mesmos fatos, agindo como sujeitos capazes de refletir, questionar e “si autorizar”, em que “ a autorização torna-se o fato de autorizar-se, quer dizer, a intenção e a capacidade conquistada de tornar-se a si mesmo seu próprio co-autor, de querer situar-se explicitamente na origem de seus atos e, por conseguinte, dele mesmo enquanto sujeito” (BARBOSA,1998, p.28). Desse modo, a presente pesquisa aproxima-se do caráter qualitativo, em que “o pesquisador se torna aprendiz de si mesmo na relação de pertença com a totalidade vivente de seu mundo de relações materiais e mentais” (MACEDO; GALEFFI; PIMENTEL, 2009, p.58) Mas em que momentos, “viver a universidade” se constitui o jeito de caminhar na formação? É caminho opcionado? É caminho oportunizado? 4. DISCUSSÃO 4.1. NARRAR DE SI: UMA POSTURA AUTORIZANTE A formação constitui-se dos processos que afetam as nossas identidades e a subjetividade, indicando, assim, caminhos para que o sujeito (re)oriente, com lucidez, as próprias aprendizagens e o seu processo formacional. Esta compreensão parte da abordagem das histórias de vida e formação, que é capaz de estabelecer uma relação entre as experiências formadoras do sujeito e o seu caminho formativo. Estas experiências formadoras, ou “recordações-referência”, são aquelas que acontecem em determinado momento da vida e são capazes de gerar transformações internas, alterando nosso modo de ver, pensar, agir e que poderão ser exteriorizadas através dos nossos comportamentos. Ademais, “as experiências, de que falam as recordações-referência constitutivas das narrativas de formação, contam não o que a vida lhes ensinou, mas o que se aprendeu experiencialmente nas circunstâncias da vida” (JOSSO, 2004, p.43). Neste sentido, escrever sobre experiências formadoras é contar para si mesmo a própria história, evidenciando situações que possuem uma intensidade particular, pois foram capazes 54 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 de se impor a consciência e permitem a reflexão sobre as próprias ações e ideias do sujeito. Sendo assim, “às experiências formadoras são tanto as que alimentam a autoconfiança como as que alimentam as questões, as dúvidas e as incertezas” (JOSSO, 2004, p.44). Mas como se constitui um processo formativo autorizante, se a formação instituída se apresenta, na maioria das vezes, exterodeterminada? Na Universidade são muitas as experiências formativas extrapoladoras do currículo instituído e da sala de aula física e estática, como os eventos desenvolvidos pela organização da própria instituição, encontros e culminâncias proporcionados pelo corpo docente e discente que constituem projetos de pesquisa, extensão e o movimento estudantil, bem como outros atos de currículo engendrados no cotidiano formativo. Portanto, neste artigo, buscamos dialogar sobre o processo de autorizar-se instituindo atos de currículo em um viver a universidade em uma relação plural com sua interioridade e exterioridade, é o que apresentamos a seguir em um narrar de si da graduanda em Pedagogia e coautora deste artigo. 4.2 VIVER A UNIVERSIDADE: ATOS DE CURRÍCULO E FORMAÇÃO AUTORAL O processo formativo universitário não acontece de maneira unilateral e solitária, havendo a necessidade intrínseca de interagir, trocar experiências e conviver com o outro. O ser humano é social e político, aprendendo e si desenvolvendo enquanto ser cidadão a cada instante de alteração com os demais indivíduos do grupo social que integra. Neste sentido, as experiências formadoras acontecem a partir destas interações, contribuindo sobremaneira com a (trans)formação dos sujeitos e caracterizando uma heteroformação. De acordo com Macedo (2020, p. 32), a hetero-formação é a experiência de "aprender-com-o-outro, ou seja, com professores, autores, simposistas, grupos de pesquisa e todos os dispositivos presenciais e online à nossa disposição”. Percebendo currículo como tudo que envolve o itinerário formacional do sujeito, indo para além de competências e habilidades adquiridas através de conteúdos transferidos em sala de aula física e estática, logo compreendemos a necessidade de um projeto que organize, fundamente e regulamente as ações realizadas no curso de graduação. Nessa perspectiva, evidenciamos o Projeto Pedagógico de Curso desenvolvido para o curso de Pedagogia, um instrumento político, pedagógico e teórico-metodológico que, objetivando proporcionar uma formação significativa, é instituído diante de docentes e discentes da Faculdade de Educação. 55 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 As trocas com as professoras durante o curso dos componentes curriculares do primeiro período do curso de Pedagogia foram cruciais para o afloramento de uma percepção mais crítica da realidade, possibilitando o descobrimento de uma capacidade de intervenção nas situações, despertando a vontade de desbravar os inúmeros espaços universitários existentes, fazendo surgir uma curiosidade diante deste universo que se constitui a academia. Sendo assim, evidenciamos o instituído no Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia, que apresenta a ideia de “quão prazeroso é desvendar o mundo, o outro, a experiência interativa do cotidiano” (EDUCAÇÃO, 2019, p. 33). 4.3. ATOS DE CURRÍCULO: CAMINHOS PARA O VIVER A UNIVERSIDADE O curso de Pedagogia – UERN criou possibilidades para que fosse instituído um lugar para construir conhecimentos, para ser humano, ao passo que caminhávamos os primeiros passos da formação para a docência. O laboratório destes saberes foram todos os espaços da academia onde nos foi proporcionada a oportunidade de aprender algo novo através dos atos de currículo planejados e instituídos por professores e estudantes. Um dos primeiros eventos que pudemos participar na universidade foi o “trote”. A turma do 2º período mobilizou-se para organizar este momento com o novo primeiro período. A organização dialogou conosco, evidenciando a importância de aproveitar cada momento durante a graduação, ocupando todos os espaços possíveis, disparando uma frase que impactou diretamente o jeito de estar na universidade: “Vivam a UERN, vivam a universidade". Deste minuto em diante, o conselho para “viver a universidade” e sobre a importância de aproveitar cada oportunidade de aprendizado oferecida tornaram-se marcantes, criando um momento disparador de uma itinerância formativa experiencial, que ultrapassou as salas de aula e os muros da UERN. Portanto, a postura autônoma adotada pelos estudantes do segundo período e a possibilidade de participar de espaços formativos nos faz perceber e querer usufruir de autonomia e buscar, por si, o conhecimento. Nesse contexto, surge o projeto “Retratos da Escola”, que tinha como principal objetivo mostrar para sociedade a realidade da escola pública. Cada estudante deveria visitar uma instituição do seu município e registrar os espaços, entrevistar professores, gestores e estudantes para perceber os sentidos que atribuíam à escola. Através desta experiência vivida em campo, o desejo para compreender os "porquês", para interferir nesta realidade e agir foram tornando- 62 | Viver a universidade: narrativas de uma formação autorizante no curso de Pedagogia – UERN Revista Processando o Saber - v.15 - p. 47-62 - 2023 JOSSO, Marie-Christine. Experiências de Vida e Formação. São Paulo: Cortez Editora, 2004. JOSSO, Marie-Christine. O corpo biográfico: corpo falado e corpo que fala. Porto Alegre: Educação e Realidade, v. 37, n. 1, 2012. Disponível em: https://www.ufrgs.br/edu_realidade/. Acesso em: 04 nov. 2022. MACEDO, Roberto Sidnei; GALEFFI, Dante; PIMENTEL, Álamo. Um rigor outro: sobre a questão da qualidade na pesquisa qualitativa. Salvador: EDUFBA, 2009. MACEDO, Roberto Sidnei. A pesquisa como heurística, ato de currículo e formação universitáriaExperiências transingulares com o método em Ciências da Educação/ Roberto Sidnei Macedo; Prefácio de Denise Guerra. - 1.ed.- Campinas, SP: Pontes Editores, 2020. 168 p.