Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 1 ANÁLISE DA CONTAMINAÇÃO PARASITOLÓGICA EM ALFACES (LACTUCA SATIVA L.) COMERCIALIZADAS NA FEIRA LIVRE DE GUARAÍ – TO ANALYSIS OF PARASITOLOGICAL CONTAMINATION IN LETTUCES (LACTUCA SATIVA L.) SOLD AT THE GUARAÍ – TO OPEN-AIR MARKET Geovanna Guimarães NUNES ORCID: https://orcid.org/0009-0004-2520-340X Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E-mail:
[email protected] Verônica Mendes MARTINS ORCID: https://orcid.org/0009-0004-0910-2115 Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E-mail:
[email protected] Drielly Lima SANTANA ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7971-350X Instituto Educacional Santa Catarina Faculdade Guaraí (IESC/FAG) E-mail:
[email protected] RESUMO O consumo de alimentos naturais, como as hortaliças, tem aumentado na dieta da população, destacando-se a alface (Lactuca sativa L.) pelo seu valor nutricional e baixo teor calórico. Apesar de seus benefícios nutricionais, esse alimento pode atuar como veículo de transmissão de parasitas, especialmente quando cultivado e comercializado sem controle sanitário. O presente estudo teve como objetivo identificar a presença de parasitas em amostras de alfaces comercializadas na feira livre do município de Guaraí–TO. Foram analisadas dez amostras provenientes de cinco produtores rurais, todas coletadas na feira comunitária local. A análise parasitológica foi realizada pelos métodos de Hoffman, Ritchie e Direto a Fresco. Todas as amostras apresentaram contaminação por estruturas parasitárias, com destaque para Giardia lamblia (53%) e Balantidium coli (32%). O elevado índice de positividade demonstra falhas nas condições higiênico-sanitárias durante o cultivo e comercialização das hortaliças. Conclui-se que medidas preventivas, como a higienização adequada e o uso de água tratada na irrigação, são essenciais para garantir a segurança alimentar da população. PALAVRAS-CHAVE: Parasitologia. Alface. Giardia lamblia. Balantidium coli. ABSTRACT The consumption of natural foods, such as vegetables, has increased in the population's diet, with lettuce (Lactuca sativa L.) standing out for its nutritional value and low caloric content. Despite its nutritional benefits, this food can act as a vehicle for the transmission of parasites, especially when cultivated and marketed without sanitary control. This study aimed to identify the presence of parasites in lettuce samples sold at the open-air market in the municipality of Guaraí–TO. Ten samples from five rural producers were analyzed, all collected at the local community market. Parasitological analysis was performed using the Hoffman, Ritchie, and Direct Fresh methods. All samples showed contamination by parasitic structures, with Giardia lamblia (53%) and Balantidium coli (32%) being the most prominent. The high positivity rate demonstrates failures in hygienic and
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 2 sanitary conditions during the cultivation and marketing of vegetables. It is concluded that preventive measures, such as proper hygiene and the use of treated water for irrigation, are essential to ensure the food security of the population. KEYWORDS: parasitology; lettuce; Giardia lamblia; Balantidium coli. INTRODUÇÃO No Brasil, os hábitos alimentares mudaram significativamente em todo o país, com maior valorização do consumo de alimentos naturais e frescos. Entre esses alimentos, destacam-se as hortaliças, que passaram a ser incorporadas com mais frequência na dieta da população. A alface, por exemplo, é uma das hortaliças mais consumidas pelos brasileiros, por ser rica em nutrientes e apresentar propriedades benéficas à saúde. Pertencente ao gênero Lactuca, faz parte da família Asteraceae e, desde 500 a.C., é amplamente cultivada e consumida pela população. Suas folhas possuem proteínas, cálcio, ferro, fósforo, potássio e vitamina C; além disso, apresentam baixo teor calórico e contribuem para uma alimentação equilibrada (SILVA, 2020). Apesar de seus benefícios nutricionais, a alface pode atuar como veículo de doenças parasitárias intestinais, sendo provocadas pela ingestão de alimentos contaminados por protozoários e helmintos, cuja transmissão pode ser desenvolvida por ovos, larvas, oocistos e cistos. Um exemplo é a giardíase, doença comum em crianças, que causa diarreia aquosa e fortes cólicas abdominais, e a balantidiose, causadora de infecções em adultos, principalmente em imunossuprimidos. Nesse sentido, compreender o ciclo desses microrganismos é de extrema importância, principalmente os parasitas que possuem relevância clínica médica (SILVA, 2020). De maneira geral, a falta de higienização dos alimentos antes do consumo tem levado, muitas vezes, ao desenvolvimento das DTHA (doenças de transmissão hídrica e alimentar). Assim, a alface, embora amplamente consumida, tem sido alvo de estudos parasitológicos devido ao seu contato direto com o solo e à possibilidade de contaminação durante o cultivo e a comercialização tornando-se, quando não higienizada adequadamente, um potencial veículo de transmissão de doenças parasitárias e um risco direto à saúde do consumidor (SANTOS, GOMES E SILVA, 2020). Considerando essa realidade, a ausência de higienização adequada dessas hortaliças antes da comercialização em feiras públicas pode favorecer a contaminação de enteroparasitas, seja pela prática de irrigação com águas contaminadas ou pelo uso de adubo de material fecal. Por isso, é importante destacar o papel dos saneantes na higienização de hortaliças, pois a higienização correta é suficiente para reduzir o risco de contaminação por microrganismos. Esse processo inclui a retirada e o descarte das partes danificadas, lavagem com água potável para retirar substâncias minerais e orgânicas (terra, poeira, insetos e outras sujidades), desinfecção com agentes saneantes e novo enxágue em água potável corrente (BRASIL, 2004). A cidade de Guaraí, localizada no estado do Tocantins, possui uma feira pública para a comercialização de diversos alimentos, com maior foco nas hortaliças. Os feirantes ofertam suas mercadorias em bancas de metal ou pallets, mantendo os vegetais folhosos cobertos com lona ou tecido, em sua maioria úmidas. Grande parte das hortaliças comercializadas tem origem no povoado Matinha, localizado nas proximidades da cidade de Guaraí. O povoado apresenta características rurais, com infraestrutura sanitária limitada e práticas agrícolas artesanais, fatores que podem favorecer a contaminação do solo e da água utilizada na irrigação das hortaliças.
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 3 Diante desse cenário, considerando a importância das feiras livres para o abastecimento e a alimentação da comunidade, especialmente em cidades pequenas, torna-se essencial investigar se os alimentos comercializados nesses locais estão realmente seguros para o consumo humano. Assim, a pesquisa teve como objetivo identificar parasitas em amostras de alfaces comercializadas na feira livre do município de Guaraí-TO, avaliando os riscos sanitários associados à comercialização e ao consumo dessas hortaliças, bem como a vulnerabilidade relacionada às condições de higienização e saneamento. METODOLOGIA O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de campo, de abordagem quali-quantitativa de caráter descritivo e experimental, desenvolvida com o objetivo de identificar estruturas parasitárias em amostras de alface (Lactuca sativa L.) comercializadas na feira comunitária do município de Guaraí, estado do Tocantins, sendo desenvolvida no período de agosto a outubro de 2025, com abordagem observacional e experimental, utilizando amostras obtidas diretamente de produtores locais. Local da pesquisa O trabalho foi conduzido no município de Guaraí, localizado na região centro-norte do estado do Tocantins que possui área de 2.106,75 km² e população estimada em 26.775 habitantes (IBGE, 2023). O município apresenta clima tropical úmido, com períodos de chuvas intensas, o que pode favorecer a disseminação de formas parasitárias no solo e na água de irrigação, influenciando as condições sanitárias das hortaliças cultivadas. A feira comunitária selecionada para o estudo está situada na Avenida Bernardo Sayão com Avenida Presidente Dutra, no centro da cidade, local onde ocorre a comercialização de hortaliças produzidas por agricultores da região. As análises das amostras selecionadas foram realizadas no Laboratório de Análises Clínicas da Faculdade Guaraí (IESC/FAG). Como critério de inclusão, foram incluídas amostras que apresentavam origem confirmada na região de Guaraí, apresentando aspecto fresco e íntegro, sem sinais visíveis de deterioração, murchamento ou mofo. Foram excluídas amostras de alfaces industrializadas, previamente higienizadas ou embaladas, bem como hortaliças com presença de terra excessiva, pragas visíveis ou em decomposição, fatores que poderiam comprometer as análises. Coleta das amostras Durante a coleta, observou-se o tipo de exposição das hortaliças, as condições de higiene das bancas e o material de exposição (madeira, metal ou pallet). Foram selecionados cinco produtores distintos, no qual foram coletadas duas amostras de alface, totalizando dez amostras, sendo avaliadas as variedades crespa e lisa. Após a coleta, cada amostra foi acondicionada individualmente em sacos plásticos esterilizados, devidamente identificados com o número correspondente ao produtor e a data da coleta. O transporte até o laboratório foi realizado em caixa térmica contendo gelo reciclável, mantendo a temperatura entre 4°C e 8°C, para evitar degradação das estruturas parasitárias. As amostras que não foram processadas imediatamente eram armazenadas sob refrigeração controlada até o momento das análises laboratoriais (LUZ, 2023).
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 4 Análise laboratorial A análise parasitológica foi realizada por meio de três técnicas clássicas: o método Direto a Fresco, o método de Ritchie (centrífugo-sedimentação) e o método de Hoffman, Pons e Janer (sedimentação espontânea). Essas técnicas foram selecionadas de forma a contemplar diferentes princípios físicos de detecção de parasitas, ampliando a sensibilidade e a confiabilidade diagnóstica. Todas as análises foram desenvolvidas em duplicatas, a fim de garantir maior confiabilidade da pesquisa. Método Direto a Fresco O exame parasitológico Direto a Fresco é uma técnica simples e eficiente para detecção de parasitas permitindo o diagnóstico de protozoários (trofozoítos e cistos) e helmintos (ovos e larvas). Trata-se de um método qualitativo amplamente utilizado em laboratórios de análises clínicas por ser de baixo custo e apresentar boa sensibilidade para helmintos e protozoários (CUNHA, 2021). Conforme o protocolo da EMBRAPA, para determinação de enteroparasitos em hortaliças (2017), de cada amostra, 50 g de folhas inteiras foram pesadas em balança de precisão. Em seguida, as amostras foram submetidas à lavagem inicial com 300 mL de água deionizada em um béquer esterilizado de 1000 mL, utilizando-se uma escova estéril para a remoção de sujidades aderidas à superfície foliar. Após 15 minutos de repouso, o líquido proveniente da lavagem foi filtrado em gaze dobrada em quatro camadas, e o filtrado transferido para um cálice cônico para sedimentação. O sedimento obtido foi coletado com pipeta de Pasteur, sendo depositada uma gota sobre uma lâmina de microscopia, juntamente com uma gota de solução de Lugol (iodo), e coberta com lamínula. As lâminas foram examinadas em microscópio óptico nas objetivas de 10x e 40x, identificando-se e registrando-se as estruturas parasitárias observadas. Todas as análises foram realizadas em duplicata para cada amostra, a fim de garantir a reprodutibilidade e confiabilidade dos resultados. Método de Ritchie Conforme Pinheiro et al. (2023), o Método de Ritchie baseia-se em um processo de centrífugo-sedimentação eficiente para a identificação de cistos, ovos e larvas de parasitas, apresentando alta sensibilidade e ampla aplicação em estudos parasitológicos. No entanto, o uso de reagentes tóxicos, como éter e formaldeído, limita sua aplicação ambientalmente segura. Diante disso, este estudo utilizou uma adaptação do método, conforme Anécimo (2006), com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e preservar a precisão diagnóstica em amostras de alface provenientes de feiras livres. A técnica foi padronizada com base no procedimento Método de Ritchie Modificado por Régis Anécimo (2006), com ajustes para uso em matrizes vegetais. Inicialmente, preparou-se água morna a 45 °C em banho-maria, utilizando Erlenmeyer e termômetro de controle. Em seguida, 50 g de folhas inteiras foram lavadas com 300 mL de água destilada em um béquer esterilizado de 1000 mL, empregando-se uma escova estéril para remover sujidades. Após 15 minutos de repouso, o líquido de lavagem foi filtrado em gaze dobrada em quatro camadas, sendo o filtrado transferido para um tubo cônico de 15 mL e centrifugado a 2500 rpm por 1 minuto. O sedimento obtido foi ressuspenso com água morna e detergente neutro, submetido a nova centrifugação e utilizado para o preparo das lâminas microscópicas. Uma gota da amostra foi depositada sobre a lâmina, juntamente com uma gota de Lugol, coberta com lamínula e observadas em microscópio óptico em objetivas de 10x e 40x, em duplicata.
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 5 Método de Hoffman O método de Hoffman, Pons e Janer (1934), também conhecido como método de sedimentação espontânea, é amplamente utilizado em análises parasitológicas por permitir a identificação de ovos e larvas de helmintos e cistos de protozoários. Trata-se de uma técnica simples, de baixo custo operacional e alta confiabilidade, amplamente empregada em laboratórios de análises clínicas e estudos ambientais (SANTOS et al., 2022). Para análise das amostras pelo método de Hoffman, Pons e Janer, foram pesadas 50 g de folhas de alface, lavadas com 300 mL de água destilada em béquer esterilizado com auxílio de escova estéril. Após 15 minutos de repouso, a solução foi filtrada em gaze dobrada e transferida para cálices cônicos, completados com água destilada e deixados em sedimentação espontânea por 24 horas (ALVES et al., 2021; OLIVEIRA E DOLABELLA, 2022). Após o período de sedimentação, o sobrenadante foi cuidadosamente descartado, preservando o sedimento concentrado no fundo do cálice. Com auxílio de uma pipeta de Pasteur, uma gota do sedimento foi colocada sobre uma lâmina de microscopia, adicionando-se uma gota de solução de Lugol e cobrindo com lamínula. As preparações foram examinadas ao microscópio óptico nas objetivas de 10x e 40x, em duplicata para cada amostra, conforme metodologia adaptada de Alves et al. (2021) e Oliveira e Dolabella (2022), garantindo maior confiabilidade. Todas as análises foram realizadas utilizando lâminas e reagentes novos a cada amostra, sendo observadas por dois examinadores independentes, a fim de assegurar reprodutibilidade e minimizar possíveis vieses de interpretação. Durante o desenvolvimento das análises parasitológicas, todas as etapas do processo laboratorial foram devidamente registradas, desde a coleta até a observação microscópica, a fim de garantir a rastreabilidade e a padronização metodológica do estudo. As imagens a seguir ilustram as principais etapas realizadas no Laboratório de Análises Clínicas da Faculdade Guaraí (IESC/FAG), contemplando o transporte, preparo e processamento das amostras pelos diferentes métodos empregados. Figura 1. Etapas iniciais do processamento das amostras de alface. (A) Coleta e transporte das amostras até o laboratório; (B) Identificação e preparo para início da análise parasitológica. Fonte: Autoras, 2025.
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 6 Figura 2. Procedimentos laboratoriais de análise parasitológica. (A) Preparo das amostras pelo método de Hoffman, Pons e Janer; (B) Preparo das amostras pelo método de Ritchie; (C) Preparo das amostras pelo método Direto a Fresco. Fonte: autoras, 2025. Análise estatística Os resultados obtidos foram registrados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel, onde os dados foram tabulados e organizados em tabelas e gráficos para facilitar a visualização e a interpretação. A análise estatística foi conduzida de forma descritiva, considerando a frequência absoluta e relativa das estruturas parasitárias identificadas em cada técnica e entre os diferentes produtores. RESULTADOS E DISCUSSÃO Ao final das coletas realizadas com os cinco produtores, foram obtidas dez amostras de alface (Lactuca sativa L.), sendo duas de cada produtor, contemplando as variedades crespa e lisa. Os resultados das análises parasitológicas estão apresentados na Tabela 1, que demonstra os parasitas identificados em cada produtor e amostra analisadas em duplicata, de acordo com os diferentes métodos laboratoriais aplicados (Hoffman, Ritchie e Direto a Fresco). Observou-se contaminação em 100% das amostras analisadas por diferentes formas evolutivas, como cistos, trofozoítos e ovos de parasitas, com destaque para Giardia lamblia e Balantidium coli, o que indica um elevado índice de positividade para estruturas parasitárias. Tabela 1. Formas parasitárias identificadas em amostras de alface (Lactuca sativa L.) comercializadas por produtores da feira livre de Guaraí–TO, segundo os métodos laboratoriais aplicados. Produtor Amostra Método de Hoffman Método de Ritchie Método Direto a Fresco Produtor 1 01 Giardia lamblia, Endolimax nana Giardia lamblia Ausente Produtor 1 02 Giardia lamblia, Fasciola hepatica Giardia lamblia Ausente
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 7 Produtor 2 01 Giardia lamblia Giardia lamblia Ausente Produtor 2 02 Giardia lamblia Ausente Ausente Produtor 3 01 Balantidium coli, Giardia lamblia Giardia lamblia Balantidium coli, Produtor 3 02 Giardia lamblia, Balantidium coli Balantidium coli Giardia lamblia, Balantidium coli Produtor 4 01 Balantidium coli, Giardia lamblia Giardia lamblia Giardia lamblia Produtor 4 02 Balantidium coli, Giardia lamblia Ausente Giardia lamblia Produtor 5 01 Balantidium coli Balantidium coli Giardia lamblia Produtor 5 02 Giardia lamblia, Balantidium coli, Entamoeba histolytica Balantidium coli Ausente Fonte: Autoras, 2025. A distribuição individual por produtor, conforme demonstra a Tabela 1, permite observar diferenças no perfil de contaminação entre as hortaliças comercializadas, evidenciando as variações nas condições de cultivo e manipulação, conforme observado por Alves et al. (2021), que identificaram diferenças significativas na presença de Giardia lamblia e Balantidium coli em alfaces provenientes de diferentes propriedades rurais, atribuindo tais variações ao tipo de água utilizada na irrigação e à origem do adubo empregado. Após a análise individual por produtor, as Figuras 3A e 3B ilustram as principais estruturas parasitárias observadas nas amostras analisadas, destacando os protozoários Giardia lamblia e Balantidium coli, identificados com maior frequência no presente estudo. Figura 3. Estruturas parasitárias observadas em amostras de alface (Lactuca sativa L.). (A) Cisto de Giardia lamblia identificado em microscopia óptica (40x); (B) Trofozoíto de Balantidium coli observado em lâmina corada com Lugol (40x). Fonte: autoras, 2025.
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 8 Esses resultados apontam falhas significativas nas condições higiênico-sanitárias das hortaliças comercializadas na feira livre do município de Guaraí-TO, demonstrando vulnerabilidade sanitária tanto na etapa de produção quanto na manipulação e exposição para venda. Observou-se também que não houve diferença expressiva entre os feirantes que utilizavam lonas, panos úmidos ou bancas de madeira e metal, pois a contaminação esteve presente em todas as amostras. Assim o Gráfico 1 destaca a maior frequência de contaminação por Giardia lamblia (53%), evidenciando a ampla distribuição desse protozoário nas amostras analisadas. Em seguida, a presença de Balantidium coli em 32% das amostras, representando o segundo agente mais detectado. Já Fasciola hepatica, Endolimax nana e Entamoeba histolytica apresentaram menor ocorrência, com 5% cada. Esses achados indicam uma predominância de protozooses em relação às helmintoses, o que pode estar relacionado às condições higiênico-sanitárias do ambiente de cultivo e manipulação das hortaliças. Gráfico 1: Nível de contaminação encontrada nas amostras analisadas. Fonte: Autoras, 2025. A elevada frequência de Giardia lamblia (53%) observada nas amostras constitui um achado relevante, considerando que este protozoário é um importante agente de transmissão hídrica e fecal-oral. A espécie apresenta caráter zoonótico e possui múltiplos reservatórios, incluindo o ser humano e animais domésticos e de produção, como cães, gatos, suínos, bovinos, caprinos e ovinos, os quais podem contribuir para a contaminação de áreas de cultivo e de fontes de irrigação de hortaliças. Conforme demostrado por Efstratiou et al. (2017), cistos de Giardia lamblia podem permanecer viáveis por longos períodos em água e solo, sobretudo em locais com limitações de saneamento básico, aumentando o risco de contaminação de alimentos consumidos crus. No contexto do Povoado Matinha, a utilização de água de superfície e a proximidade entre áreas de plantio e criação de animais domésticos podem ter favorecido a prevalência observada neste estudo. Em sequência, destaca-se também a expressiva presença de Balantidium coli (32%), nas amostras analisadas, configurando o segundo agente parasitário mais prevalente no estudo. Esse protozoário ciliado possui reconhecida importância epidemiológica em
Revista Novos Desafios - v. 5, n. 2, 2025, p. 01-15 ISSN 2764-1724 DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17633592 9 ambientes de produção agrícola que utilizam adubação orgânica de origem animal, especialmente em regiões onde há criação de suínos e manejo inadequado de seus dejetos. A identificação significativa de Giardia lamblia e Balantidium coli torna fundamental compreender os fatores ambientais e produtivos que possam contribuir para a ocorrência desses protozoários nas hortaliças analisadas, particularmente no Povoado Matinha, onde se concentram parte das áreas de cultivo destinadas à feira livre do município (HATAMNAHAVANDI et al., 2023). Conforme Marques et al. (2022), fertilizantes de origem animal podem atuar como importantes vetores ambientais de cistos e oocistos de protozoários, especialmente quando utilizados sem tratamento prévio ou compostagem adequada. Essa realidade observada em pequenos sistemas agrícolas familiares assemelha-se ao contexto da região estudada, principalmente ao povoado Matinha, onde a produção vegetal ocorre em proximidade às áreas de criação de animais. Além disso, Santomauro et al. (2024) destacam que a associação entre a ausência de saneamento e o manejo inadequado de resíduos animais aumenta o risco de contaminação de hortaliças por parasitas intestinais, incluindo Giardia lamblia e Balantidium coli. Situação semelhante pode ocorrer no Povoado Matinha, onde a proximidade entre áreas de cultivo e currais favorece a circulação de agentes patogênicos no solo e na água utilizada na irrigação, reforçando os achados deste estudo. A suinocultura, em particular, desempenha papel epidemiológico relevante. Segundo Hatam-Nahavandi et al. (2023), os suínos constituem o principal reservatório de Balantidium coli e podem contaminar o ambiente agrícola quando resíduos da suinocultura não são devidamente manejados. Esse aspecto é coerente com a prevalência observada na comunidade analisada, sugerindo que o uso de fertilizantes orgânicos de origem suína pode ter contribuído para a permanência de cistos no ambiente rural. Adicionalmente, Pinto-Ferreira et al. (2019) destacam que a adoção de sistemas orgânicos, apesar de ambientalmente vantajosa, requer controle rigoroso do solo e da irrigação, pois a presença de fertilizantes orgânicos e água contaminada pode favorecer a persistência de agentes parasitários. No Povoado Matinha, a ausência de barreiras sanitárias e o uso de água de superfície para irrigação aumentam essa vulnerabilidade, situação também reforçada por Maia et al. (2023), que evidenciaram em revisão sistemática a necessidade de práticas de compostagem adequada e monitoramento microbiológico na produção de hortaliças. Já o gráfico 2 apresenta a distribuição percentual das espécies parasitárias identificadas nas amostras de alface comercializadas na feira livre de Guaraí–TO. Observase que Giardia lamblia apresentou a maior frequência relativa, sendo detectada em praticamente todas as amostras analisadas, seguida por Balantidium coli, que também apresentou ocorrência expressiva. As demais espécies, Endolimax nana, Fasciola hepatica, Entamoeba histolytica, foram identificadas em menor proporção, configurando registros pontuais.