93 | Uma reflexão sobre as publicações científicas e a aderência brasileira ao paradigma da indústria 4.0 A Revista Processando o Saber (eISSN: 2179-5150) é publicada pela FATEC Praia Grande Multidisciplinar - Revisão por pares - Acesso aberto - www.fatecpg.edu.br/revista - revi[email protected].br eISSN 2179-5150 FATEC Praia Grande • fatecpg.edu.br/revista submetido: Jan/2021 • aceito: Mar/2021 • publicado: Jun/2021 Uma imagem contendo Interface gráfica do usuário Descrição gerada automaticamente O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil The incorrect use of the insecticide fipronil and its influence in the death of bees in southern Brazil Renan do Carmo Marinho Silva Fatec Praia Grande [email protected] Priscila Aparecida Della Torre Fatec Praia Grande
[email protected] Janara de Camargo Matos Fatec Praia Grande [email protected]om.br RESUMO As abelhas são seres vivos de elevada importância para a manutenção do ecossistema em que nós, seres humanos, estamos inseridos. Através deste estudo são levantadas questões que envolvem o uso do fipronil, princípio ativo de diversos agroquímicos, que são aliados à crescente demanda da agricultura. O fipronil é um inseticida sistêmico letal aos insetos causando hiperexcitação neural, e vem sendo apontado como um dos responsáveis por quase meio bilhão de mortes de abelhas entre o fim do ano de 2018 e início de 2019, principalmente na região sul do Brasil devido ao seu uso incorreto por meio de pulverização aérea ou em época de floração, e aos impactos ambientais causados na fauna e flora onde estes agroquímicos são pulverizados, além do risco a saúde de quem os manuseia e da população que reside próxima as lavouras. A partir dos dados obtidos, utilizando como metodologia o Arco de Maguerez, foi possível observar que existem problemas relacionados ao uso de defensivos agrícolas nas lavouras brasileiras que influenciou nas mortes das abelhas, sugerindo ações que possam ser aplicadas visando minimizar os danos e instruir quanto ao uso correto e o manuseio de produtos químicos destinados a agricultura. Serão apresentados informações e fatos que comprovem a influência do uso incorreto e indiscriminado de inseticidas à base de fipronil na morte das abelhas no Sul do Brasil e dados estatísticos de morte de abelhas na região e período de estudo, os efeitos da molécula de fipronil nos insetos e no meio ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Abelhas. Fipronil. Meio ambiente.
94 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 ABSTRACT Bees are living beings of high importance for the maintenance of the ecosystem in which we humans are inserted. Through this study, questions are raised that involve the use of fipronil, active ingredient of several agrochemicals, which are allied to the growing demand of agriculture. Fipronil is a systemic insecticide lethal to insects causing neural hyperexcitation, and has been identified as one of the responsible for almost half a billion bee deaths between the end of 2018 and early 2019, mainly in the southern region of Brazil due to its incorrect use by means of aerial spraying or in flowering season, and the environmental impacts caused on the fauna and flora where these agrochemicals are sprayed, in addition to the risk to the health of those who handle them and of the population that resides close to the crops. From the data obtained, using the Maguerez Bow methodology, it was possible to observe that there are issues related to the use of pesticides in Brazilian crops that influenced bee deaths, suggesting actions that can be applied to minimize the damage and instruct on correct use and handling of chemicals intended for agriculture. Information and facts that prove the influence of the incorrect and indiscriminate use of insecticides based on fipronil on the death of bees in southern Brazil will be presented and statistical data on bee death in the region and period of study, the effects of the fipronil molecule on insects and the environment. KEY-WORDS: Bee. Fipronil. Environment. INTRODUÇÃO O agronegócio é uma das principais atividades econômicas no Brasil atualmente, representando pouco mais de 20% de todo o PIB brasileiro (BRASIL AGRO, 2020). Esse valor significativo só foi alcançado após décadas de estudos em tecnologia e pesquisas, existindo ainda muitos desafios a serem superados, como o uso inadequado de agroquímicos, os quais oferecem riscos à saúde e ao meio ambiente (EMBRAPA, 2020). Os agroquímicos podem ser utilizados na agricultura para diversas finalidades, uma delas é impedir que insetos e pragas prejudiquem a lavoura, sendo possível através da aplicação de inseticidas. Um dos princípios ativos dos inseticidas protagonistas pela morte das abelhas no período estudado é o fipronil, utilizado em muitas das lavouras no Brasil, principalmente em plantações de soja no sul do país por pulverização aérea, o que é proibido, além de ser aplicado na terra e nas sementes (BRASIL AGRO, 2019). O fipronil, de fórmula molecular C12H4Cl2F6N4OS, é um inseticida de amplo espectro que danifica o sistema nervoso central do inseto, bloqueando a passagem de íons de cloro e causando uma "super-excitação" dos músculos e nervos dos insetos contaminados, levando-os a morte (RAYMOND-DELPECH V. et al 2005). Estudos com a abelha sem ferrão da espécie Scaptotrigona postica mostraram reações adversas ao pesticida, incluindo convulsões, sendo extremamente tóxico para a as abelhas em geral (JACOB, et al 2013). Segundo o site da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas, em cerca de 80% de todas as plantas com flores, alguns animais são os responsáveis pela polinização e, entre os
95 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 animais polinizadores, nenhum é mais eficiente do que a abelha (A.B.E.L.H.A., 2019). Fipronil e Neonicotinóides foram responsáveis por milhões de mortes de abelhas no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso do Sul e em São Paulo entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019 (REPÓRTER BRASIL; AGÊNCIA PÚBLICA, 2019). De acordo com Projeto Colmeia Viva® (2018) em parceria com a Universidade Estadual Paulista - Unesp e Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, através de uma pesquisa feita entre agosto de 2014 e agosto de 2017, foi constatada a presença de fipronil entre outros defensivos agrícolas, em 59 casos dos 88 que foram analisados nas abelhas da espécie Apis melifera. A pesquisa foi realizada no Estado de São Paulo, mas com contatos de perdas em outros Estados como Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Goiás. O Objetivo Geral do trabalho é apresentar informações e fatos que comprovem a influência do uso incorreto e indiscriminado de inseticidas à base de fipronil na morte das abelhas no sul do Brasil, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Os Objetivos Específicos consistem em levantar os dados estatísticos de morte de abelhas na região e período de estudo, pesquisar os efeitos da molécula de fipronil nos insetos e no meio ambiente, relacionar estes dados com a mortandade de abelhas ocorrida no sul do Brasil e propor soluções de menor impacto, tanto para as abelhas como também para o meio ambiente. 1. REFERENCIAL TEÓRICO De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (2019) o Brasil é o maior consumidor mundial de produtos agroquímicos, embora exista a Lei nº 7.802, de julho de 1989, que regulamenta o uso e a comercialização no país. Indústria e governo garantem que os defensivos agrícolas são seguros se aplicados corretamente (O GLOBO, 2019), mas admitem que há excessos, mau uso e barreiras na fiscalização. Segundo o Ministério da Saúde, no último balanço divulgado, entre 2007 a 2015 foram registrados mais de 84 mil casos de intoxicação por agroquímicos. Na conta, entram venenos de uso nas lavouras, doméstico e raticidas. Vários estudos recentes deixam claro a ação prejudicial do uso de defensivos agrícolas na vida do ser humano, bem como no organismo de insetos polinizadores, como é o caso das abelhas, causando a morte de muitas delas.
96 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 O que acontece é que as abelhas precisam buscar néctar e pólen das flores e elas acabam visitando as plantações, e esse uso de agroquímicos, que aqui no Brasil está se tornando cada vez mais intenso e prejudicial, acaba por levar à morte essas abelhas (FRANCOY, 2019, entrevista dada ao jornal da USP). 1.1 AS ABELHAS Quando o assunto é “abelha” alguns temas como mel e ferroadas podem surgir rapidamente, porém a discussão pode ir muito além disso, principalmente quando falamos de polinização e a origem desses seres. Não se sabe ao certo quando que as abelhas surgiram, mas foi no período cretáceo com o surgimento das primeiras flores, cerca de 76 a 146 milhões de anos atrás. Até então, os vegetais existentes reproduziam-se basicamente por meio de esporos, como as samambaias, que o fazem até os dias atuais. Por outro lado, o fóssil de abelha mais antigo que se tem conhecimento possui pelo menos 74 milhões de anos, mas já se trata de uma abelha operária da espécie denominada Trigona prisca, hoje extinta (FREITAS, 2020). Existem diversas espécies de abelhas pelo mundo e nem todas vivem em colônias, apenas as abelhas “sociáveis” que vivem nas chamadas colmeias. As abelhas produtoras de mel são divididas em três classes: as operárias, que providenciam a alimentação; a rainha que põe os ovos e o zangão que se acasala com a rainha. Uma colônia mediana tem uma rainha, aproximadamente cem zangões e por volta de sessenta mil operárias, e podem viver até três anos (DINIZ FILHO/MALASPINA, 1995). As espécies nativas brasileiras não possuem ferrão (ou é atrofiado) e a maioria é sociável. As mais conhecidas segundo Dinis Filho/Malaspina (1995) são: • Abelha Mulata ou Uruçu (Schwarziana quadripunctata), figura 1; • Abelhão ou Mamangaba (Bombinae); • Abelha Jataí (Tetragonisca angustula); • Jandaia (Melipona interrupta). Figura 1 - Abelha Mulata Fonte: Fio Cruz/ Abelhas (2020)
97 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 Outras espécies posteriormente foram introduzidas em nosso bioma pelo homem: • Abelha europeia (Apis melifera): Originárias da Ásia e Europa, possuem ferrão e são pouco agressivas, foram introduzidas no Brasil por ingleses e espanhóis em 1839 para suprir apiários, e hoje encontramos tanto em nossa fauna quanto em criadouros. • Abelha africana (Apis melifera Adamson Lactar): Originárias da África do Sul, possuem ferrão, são extremamente agressivas, foram introduzidas no Brasil para pesquisas científicas em 1956 para aumentar e melhorar a produção de mel, mas acabaram escapando do cativeiro e, no cruzamento com as abelhas europeias, surgiu um híbrido que passou a ser chamado de Abelha Africanizada (DINIZ FILHO/MALASPINA,1995). 1.1.1 A Importância das Abelhas para a humanidade As abelhas têm importância fundamental para a vida como um todo no planeta Terra, pois são responsáveis por grande parte da polinização, garantindo a produção de frutos e sementes, e pela produção de mel, própolis, geleia e cera. Cerca de 80% de todas as plantas com flores que temos no planeta dependem da polinização das abelhas, e uma pequena parte é feita por pássaros e outros insetos (A.B.E.L.H.A., 2019). Segundo a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, 2013), a proteção da espécie é essencial, dada a sua importância no ecossistema e na cadeia alimentar, e com a crescente mortandade das abelhas o planeta pode entrar em colapso em poucos anos, gerando um efeito dominó na cadeia alimentar, sendo que a extinção das abelhas também levaria a extinção da maior parte dos seres vivos. A preocupação com as polinizadoras nativas é cada vez maior, pois com as abelhas criadas por apicultores existe a possibilidade da elaboração de um relatório das mortes e mapeamento do desaparecimento, já com as abelhas silvestres esse controle não existe (NOCELLI, 2019). “Ninguém conta estas abelhas, ninguém sabe se elas estão morrendo ou não. E a tendência é que estejam em situação igual ou pior que as abelhas de criatórios. Porque no manejo que o apicultor faz ele alimenta e fortalece as colmeias.” (Nocelli, 2019, entrevista para ECO). Ainda segundo Nocelli, não há um uso 100% seguro dos defensivos agrícolas para as abelhas, mas a aplicação correta é primordial para reduzir as mortes. Alguns produtos que deveriam, por exemplo, ser aplicados somente nas folhas, são pulverizados com avião ou aplicados na época de floração.
98 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 1.2 DEFENSIVOS AGRÍCOLAS E SUA UTILIZAÇÃO NO BRASIL Segundo o artigo 1º, inciso IV do Decreto Federal Brasileiro nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002, entendem-se por defensivos agrícolas: Produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou plantadas e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores do crescimento das plantas. Os primeiros compostos foram criados como armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da guerra os compostos foram manipulados para uso na agricultura e no pós-guerra, surgiu a Revolução Verde. Com a expansão populacional e econômica a agricultura deu um salto em sua produção e, com isso, o surgimento de novos e mais potentes agroquímicos para assegurar uma colheita satisfatória (ROSA, 2017). O uso de agroquímicos está intimamente associado a problemas ambientais e de saúde, segundo pesquisas feitas pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2019), onde sua classificação é feita por classe de toxicidade e segundo os efeitos à saúde humana, como mostra a Figura 2. Figura 2 – Classificação dos Agroquímicos Fonte: Mundo Educação (2020) Os tipos de defensivos agrícolas também estão associados à natureza da praga que será combatida, ao grupo químico à qual pertencem, bem como aos danos relacionados ao meio ambiente e à saúde humana, de modo geral, e conforme publicado em Brasil Escola (2020), podem ser classificados da seguinte forma:
99 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 • Inseticidas – usados para combater insetos; • Fungicidas – usados para combater fungos; • Herbicidas – usados no controle contra ervas daninhas; • Desfoliantes – usados contra folhas indesejadas; • Fumigantes – usados para combater bactérias presentes no solo. Conforme a figura 3, só no ano de 2018 foram registrados 450 novos agroquímicos no Brasil, um recorde histórico, sendo que apenas 52 são considerados de baixa toxicidade. Figura 3 – Gráfico de registro de agroquímicos por ano - Brasil Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2018) 1.3 AÇÃO DOS INSETICIDAS NO ORGANISMO DOS INSETOS Segundo Malaspina et al. (2008) os inseticidas afetam os insetos de três maneiras: por contato, ingestão e fumigação. Levando as abelhas à morte instantânea por dose letal ou a longo prazo por dose sub letais, comprometendo a colônia e sua longevidade. Por se tratar de um inseticida sistêmico, o fipronil é letal aos insetos, incluindo as abelhas que vão forragear as flores a procura de pólen. Atua bloqueando os receptores gama-aminobotírico (GABA), um inibitório presente no sistema nervoso central e, devido a acumulação do neurotransmissor nas junções sinápticas, o inseto é levado à hiperexcitação neural (CASTILHOS, 2018). O ácido gama-aminobotírico, onde se encontra o fluxo de íons Cl− dentro da célula nervosa, que estabelece um efeito calmante; com a ação do fipronil a entrada de íons Cl− no neurônio é bloqueada, ocasionando uma hiper excitação. Ao afetar o sistema nervoso das abelhas, estas ficam desorientadas, se perdem e as poucas que voltam a colônia acabam por contaminá-la. Ao produzir o mel com o pólen contaminado, toda a colônia é afetada, diminuindo o tempo de vida das abelhas que vão eclodir. (PEREIRA, 2010). A dose média letal
100 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 (DL 50) do fipronil para as abelhas varia de espécie para espécie, mas estudos mostram que uma DL 50 acima de 2,0 µg/abelha já é letal para as polinizadoras (SOUZA, 2009). Em caso de contaminação subletal, seus efeitos acabam se tornando letais a curto prazo, já que o fipronil tem uma maneira específica de agir no metabolismo dos insetos, dificultando o processo de aprendizagem e memória, alterando seu comportamento. O olfato e o paladar são sentidos primordiais das abelhas, mas devido a exposição ao inseticida esses sentidos são drasticamente afetados. Outro atributo essencial das abelhas é a precisão para o forrageamento, que é prejudicado pelo inseticida, afetando navegação, diminuindo este instinto ou induzindo a mais voos. O fipronil é altamente tóxico à todas as espécies de abelhas, incluindo as nativas (CASTILHOS, 2018). 1.4 FIPRONIL E SUA APLICAÇÃO O Fipronil tem fórmula molecular C12H4Cl2F6N4OS como mostra a figura 4, pertence a classe dos Inseticidas e foi introduzido no Brasil em 1999 conforme o Ministério do Meio Ambiente, pela Lei n° 7,802, de 11 de julho de 1989, regulamentado pelo Decreto n° 40.047/2002 que substituiu os Decretos de n° 24.114/1934 e n° 98.816/1990. Figura 4 - Fórmula estrutural Fipronil (C12H4Cl2F6N4OS) Fonte: Molview.org (2021) - Adaptação dos Autores Fipronil pertence ao grupo químico Pirazol, um composto aromático, sua classificação toxicológica é Classe II e tem uso agrícola com aplicação de solo, foliar, semente, muda e água de irrigação, dependendo da cultura (ANVISA, 2019). De acordo com uma pesquisa realizada
101 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 em 2004 pela EMBRAPA, o fipronil geralmente é aplicado no Brasil em pulverização aérea, o que segundo sua bula, não é recomendado. Ventos fortes podem contribuir para espalhar o composto, atingindo áreas distantes, descartando também sua aplicação com ventos acima de 10km/h. O fato de sua aplicação ser realizada por aviões ainda é confirmado por Osmar Malaspina, Doutor em ciências biológicas, pesquisador de abelhas há 40 anos e por Aldo Machado, coordenador da Câmara Setorial de Apicultura do Rio Grande do Sul (CANAL RURAL, 2019). Seu uso varia entre culturas como algodão, arroz, amendoim, batata, milho, trigo e soja, este último o mais visitado pelas abelhas, e é proibido pelo Tribunal Geral da União Europeia em vários países da Europa desde 2004, sendo anuladas algumas restrições para o uso do fipronil em 2018. Porém, por ser solúvel em gordura, a Agência Europeia de Segurança Alimentar proíbe seu uso em animais como gado e aves, destinados ao consumo humano, pois contaminaria o leite, carnes e ovos (GLOBO RURAL, 2008). Em janeiro de 2019 no Estado de Santa Catarina foi realizado um teste pela CIDASC (Companhia Integrada de Desenvolvimento agrícola de Santa Catarina) que acabou revelando que cerca de 50 milhões de abelhas morreram devido ao uso do Fipronil (BRASIL AGRO, 2019).Segundo a Repórter Brasil (2019) o fipronil em sua maior parte junto com outros inseticidas derivados de nicotina, segundo laudo realizado entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, feito pelas secretárias de cada Estado que participou do estudo, aponta que 80% das abelhas continham estas substâncias em seu organismo. A quantidade de mortes consta no quadro 1. Quadro 1 – Morte das Abelhas Rio Grande do Sul 400 milhões de mortes Mato Grosso do Sul 45 milhões de mortes São Paulo 07 milhões de mortes Fonte: Repórter Brasil (2019) adaptação própria O professor e agrônomo Rubens Onofre Nodari da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), faz um alerta de que com quase meio bilhões de abelhas mortas no Brasil em 3 meses, as abelhas silvestres não entraram nesta somatória (BRASIL AGRO, 2019).
108 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 GLOBO RURAL. Tribunal da UE confirma proibição de inseticidas que afetariam abelhas. Disponível em: https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/noticia/2018/05/tribunal-da-ueconfirma-proibicao-de-inseticidas-que-afetariam-abelhas.html Acesso em: 24 jun. 2020. GRANZOTO, M. R. Toxidade do fipronil sobre Enchytraeus crypticus em solo natural tropical: Tese multigerencial, 2018. 69 f. Tese (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Tecnologia, Campinas 2018. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/339132/1/Granzoto_MarianaRolim_M.pdf Acesso em: 22 out. 2020 INCA, Instituto Nacional do Câncer. Agrotóxicos. Disponível em: https://www.inca.gov.br/exposicao-no-trabalho-e-no-ambiente/agrotoxicos Acesso em: 20 set. 2020. JACOB, C.R.O.; SOARES, H.M., CARVALHO, S.M. Acute Toxicity of Fipronil to the Stingless Bee Scaptotrigona postica Latreille. Bull Environ Contam Toxicol 90, 69–72 2013. JEPPSON, L. R.; KEIFER, H. H.; BAKER, E. W. Mites injurious to economic plants. Berkeley: University of California Press, 1975. 614 p. JORNAL EXTRA CLASSE. Mortandade das abelhas está ligada à agrotóxicos. Disponível em: https://www.extraclasse.org.br/ambiente/2019/01/mortandade-de-abelhasesta-ligada-a-agrotoxicos/ Acesso em: 18 mar. 2020. MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e abastecimento. Agricultura. Disponível em: www.gov.br/agricultura Acesso em: 17 abr. 2020. MUNDO EDUCAÇÃO. Agrotóxicos. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/agrotoxicos.htm Acesso em: 24 jun. 2020. MOLVIEW. Molécula de fipronil. Disponível em: https://molview.org/?cid=3352 Acesso em: 2 abr. 2021. NOCELLI, Roberta. ASSOCIAÇÃO O ECO. Governo registra mais três agrotóxicos associados a mortandade de abelhas. Disponível em: https://www.oeco.org.br/reportagens/governo-registra-mais-tres-agrotoxicos-associados-amortandade-deabelhas/#:~:text=%E2%80%9CNingu%C3%A9m%20conta%20estas%20abelhas%2C%20nin gu%C3%A9m,as%20colmeias%E2%80%9D%2C%20afirma%20Nocelli Acesso em: 22 mai. 2020. PEREIRA, A. M. Efeitos de inseticidas na sobrevivência e no comportamento de abelhas, 2010. 125 f. Tese (doutorado)- Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Biociências, Rio Claro, 2010. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/106530/pereira_am_dr_rcla.pdf?sequence =1 Acesso em: 10 set. 2020.
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110 | O uso incorreto do inseticida fipronil e sua influência na morte das abelhas no sul do Brasil Revista Processando o Saber - v.13 - p. 93-110 - 2021 SOUZA, T. F. Efeitos das doses subletais do fipronil para abelhas africanizadas (Apis Mellifera L.) por meio de análises morfológicas e comportamentais, 2009. 49 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Biociências, Rio Claro, 2009. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/87734/souza_tf_me_rcla.pdf;jsessionid=3 2BD23141AEA4670FCBF2B350E40EE79?sequence=1 Acesso em: 22 nov. 2020. UNASUS. Arco de Maguerez. Disponível em: https://unasus2.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/6808/mod_resource/content/3/un03/top03p01.ht ml Acesso em: 12 set. 2020.