www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 57 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 58 DOR CRÔNICA E SUBJETIVIDADE: PERCEPÇÃO DE MULHERES COM ENDOMETRIOSE EM ACOMPANHAMENTO MULTIPROFISSIONAL Clara Wirginia de Queiroz Moura 1 Veronice Rodrigues Nunes da Cruz 2 André Sousa Rocha3 Douglas Rodrigo Cursino dos Santos4 Maysa Mariana Furtado Moreira5 Resumo O estudo buscou compreender os significados atribuídos à dor crônica por mulheres com diagnóstico de endometriose, analisando como essa experiência é vivida e interpretada em suas dimensões física, emocional e social. A pesquisa, de abordagem qualitativa, utilizou entrevistas semiestruturadas com cinco mulheres atendidas em uma clínica-escola no interior do Ceará, todas com diagnóstico clínico confirmado de endometriose. As participantes tinham entre 20 e 35 anos e formação superior. A análise dos dados foi realizada por triangulação metodológica, combinando análise lexical no IRaMuTeQ e análise de conteúdo temática, permitindo identificar padrões discursivos e organizar categorias emergentes. Os achados revelaram três eixos principais: caracterização e localização da dor, frequentemente intensa, incapacitante e presente dentro e fora do período menstrual; impactos emocionais e sociais, como ansiedade, medo, isolamento, dificuldades laborais e repercussões nas relações afetivas; e experiências com o tratamento, que incluíram terapias hormonais e intervenções cirúrgicas, com respostas distintas entre as participantes. As narrativas destacam que a dor ultrapassa a dimensão física, constituindo experiência subjetiva complexa. Conclui-se que a dor da endometriose exige compreensão ampliada e práticas de cuidado multiprofissionais que considerem aspectos subjetivos, sociais e clínicos, contribuindo para abordagens mais humanas e integradas. Palavras-chave: Dor Crônica; Endometriose; Saúde da Mulher; Subjetividade. Abstract The study aimed to understand the meanings attributed to chronic pain by women diagnosed with endometriosis, analyzing how this experience is lived and interpreted across physical, emotional, and social dimensions. This qualitative research used semi-structured interviews with five women receiving care at a teaching clinic in the interior of Ceará, all with a confirmed clinical diagnosis of endometriosis. Participants were between 20 and 35 years old and had higher education. Data analysis was conducted through methodological triangulation, combining lexical analysis using IRaMuTeQ and thematic content analysis, which enabled the identification of discursive patterns and the organization of emerging categories. The findings revealed three main axes: the characterization and localization of pain, often intense, disabling, and present both during and outside the menstrual period; emotional and social impacts, such as anxiety, fear, isolation, work-related difficulties, and effects on interpersonal relationships; and treatment experiences, which included hormonal therapies and surgical interventions, with varying responses among participants. The narratives highlighted that pain transcends the physical dimension, constituting a complex subjective experience. In conclusion, pain related to endometriosis requires a broadened understanding and multiprofessional care practices that consider subjective, social, and clinical aspects, contributing to more humanized and integrated approaches. Keywords: Chronic Pain; Endometriosis; Subjectivity; Women’s Health. 1 Docente do Centro Universitário INTA (UNINTA). Mestra em Saúde da Família. E-mail: [email protected] 2 Fisioterapeuta pelo Centro Universitário INTA (UNINTA). E-mail: [email protected] 3 Doutorando em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). E-mail:
[email protected] 4 Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura pela Universidade da Amazônia (UNAMA). E-mail: [email protected]. 5 Docente do Centro Universitário INTA (UNINTA). Especialista em Terapias Cognitivas. E-mail: [email protected]
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 59 INTRODUÇÃO O presente estudo investiga a vivência da dor em mulheres com endometriose, compreendendo-a como a combinação de sintomas clínicos e uma experiência complexa e sensível, que envolve dimensões físicas, emocionais e sociais. Caracterizada pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina, a endometriose é uma condição inflamatória crônica que afeta mulheres em idade reprodutiva. Seus principais sintomas incluem dor pélvica e infertilidade, gerando impacto significativo na qualidade de vida. A relevância social e científica do tema justifica este estudo, uma vez que a endometriose configura-se como um problema de saúde pública global. A condição é frequentemente marcada por diagnóstico tardio e manejo inadequado da dor. As mulheres acometidas enfrentam limitações biopsicossociais, reforçando a necessidade de compreender a dor não apenas em sua dimensão biológica, mas também em suas expressões subjetivas e simbólicas. Nesse sentido, a investigação das narrativas dessas mulheres pode contribuir para a ampliação do cuidado multiprofissional e para o aprimoramento das práticas de atenção em saúde voltadas à experiência feminina da dor crônica. Considerando a complexidade da endometriose e o impacto que a dor exerce sobre a vida cotidiana das mulheres, a questão central desta pesquisa é: como as mulheres com endometriose percebem, vivenciam e significam a dor em seus contextos de vida e tratamento? O objetivo geral da investigação é compreender os significados atribuídos à dor por mulheres com endometriose em acompanhamento fisioterapêutico, a partir de suas narrativas individuais. Como objetivos específicos, pretende-se descrever as características e a localização da dor relatadas pelas participantes, analisar os impactos da dor na vida cotidiana e compreender as vivências relacionadas ao tratamento e às estratégias de enfrentamento. Para tanto, trata-se de uma pesquisa empírica, de natureza qualitativa, com delineamento descritivo e abordagem fenomenológico-descritiva. Participaram do estudo mulheres com diagnóstico clínico de endometriose em acompanhamento fisioterapêutico em uma clínica-escola no interior do Ceará. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, complementadas por um questionário sociodemográfico. A análise dos dados foi conduzida com o auxílio do software IRaMuTeQ, utilizando as técnicas de nuvem de palavras e análise de similitude para a exploração lexical do corpus, além da análise de conteúdo temática, que permitiu identificar e interpretar os núcleos de sentido emergentes nas falas das participantes. O texto está organizado em cinco seções. A primeira apresenta a introdução e a contextualização da pesquisa. A segunda seção desenvolve o referencial teórico, abordando os principais conceitos
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 60 relacionados à endometriose, dor crônica e vivências femininas no adoecimento. A terceira descreve os procedimentos metodológicos adotados. Na quarta seção, são apresentados e discutidos os resultados, com base nas análises qualitativas realizadas. Por fim, a quinta seção reúne as considerações finais, destacando as contribuições científicas e práticas do estudo, bem como suas implicações para o cuidado multiprofissional à mulher com endometriose. REFERENCIAL TEÓRICO A endometriose é uma doença inflamatória crônica, dependente de estrogênio, que afeta cerca de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva, especialmente entre 25 e 45 anos, e está frequentemente associada à infertilidade, dor pélvica crônica e prejuízos funcionais (ROLIM et al., 2020; SMOLARZ; SZYŁŁO; ROMANOWICZ, 2021). Caracteriza-se pela presença de tecido semelhante ao endometrial implantado fora da cavidade uterina, podendo acometer ovários, tubas uterinas, peritônio, intestino e bexiga, gerando um processo inflamatório persistente que repercute de forma significativa na vida cotidiana das mulheres. No Brasil, dados recentes apontam que 55% das mulheres com endometriose desconhecem a doença e 66% não conseguem relacionar seus sintomas à condição, o que reforça os desafios persistentes para o diagnóstico precoce (MIGUEL et al., 2023). A complexidade da endometriose, evidenciada pelos desafios clínicos, reflete-se na sua etiologia multifatorial. Diversas teorias foram propostas ao longo dos anos para explicar a origem da endometriose. A teoria mais clássica e amplamente aceita na literatura é a da menstruação retrógrada, proposta por Sampson (1927), segundo a qual células endometriais migrariam pelas tubas uterinas para a cavidade peritoneal. Além dessa hipótese, evidências apontam outras possibilidades fisiopatológicas, como indução celular, disseminação linfática ou hematogênica, alterações imunológicas e participação de células-tronco (KONINCKX et al., 2021; SILVA et al., 2021). Essas múltiplas teorias sugerem que a endometriose é uma condição multifatorial, ainda sem etiologia plenamente esclarecida. O sintoma mais frequente é a dor pélvica crônica, que pode se manifestar como dismenorreia progressiva, dor na relação sexual (dispareunia), disquesia e desconforto urinário cíclico. Em muitos casos, à medida que a doença evolui, a dor deixa de ser exclusivamente cíclica e passa a ocorrer de forma contínua (AGARWAL et al., 2019). Entretanto, a intensidade da dor não está necessariamente relacionada ao estágio da doença, podendo haver casos de dor severa em quadros considerados leves (MADEIRO; ARAÚJO, 2021). Tal fenômeno pode ser explicado pelos mecanismos de sensibilização periférica e central, nos quais o sistema nervoso passa a responder de forma amplificada a estímulos dolorosos.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 61 Essa dissociação entre intensidade da dor e estágio da doença leva à compreensão de que a percepção da dor é subjetiva e influenciada por múltiplos fatores biopsicossociais. A International Association for the Study of Pain define a dor como uma experiência sensorial e emocional complexa, o que evidencia sua natureza multidimensional (IASP, 2020). Essa perspectiva dialoga fortemente com o conceito de “dor total”, proposto por Saunders (1964), que reconhece a inter-relação entre sofrimento físico, psicológico, social e espiritual. Pesquisas demonstram que mulheres com endometriose frequentemente apresentam ansiedade, depressão, hipervigilância à dor, fadiga e sensação de desamparo, agravadas por diagnósticos tardios e vivências de deslegitimação médica (DONATTI, 2014; OLIVEIRA et al., 2023; TREEDE et al., 2019). Ademais, fatores socioculturais, como a normalização da dor menstrual, dificultam a busca por atendimento e contribuem para atrasos diagnósticos entre cinco e 10 ano (ROOMANEY et al., 2018). Além dos desafios clínicos e subjetivos, a endometriose é reconhecida como um problema relevante de saúde pública, não apenas pelas manifestações clínicas, mas também pelo impacto econômico, social e laboral. Estudos europeus estimam que os custos anuais associados à doença variam de 0,8 a 12,5 bilhões de euros, valores comparáveis aos de outras condições crônicas, como a diabetes (SAUNDERS; HORNE, 2021). Como resultado, mulheres frequentemente enfrentam queda na produtividade profissional, afastamentos e prejuízos nas relações familiares e afetivas. Nesse cenário de alto impacto e longos períodos de sofrimento, o diagnóstico da endometriose é baseado na história clínica, no exame físico e em exames complementares, especialmente a ultrassonografia transvaginal com mapeamento de endometriose e a ressonância magnética (SILVA et al., 2021). Apesar dos avanços tecnológicos, a videolaparoscopia permanece como padrão-ouro por permitir a visualização direta e o tratamento cirúrgico das lesões. Contudo, desigualdades no acesso a esse procedimento fazem com que muitas mulheres enfrentem longos períodos de sofrimento até receberem o diagnóstico correto (CHAPRON et al., 2019; MENDONÇA et al., 2021). Para mitigar os impactos e superar os desafios diagnósticos, o manejo da endometriose exige uma abordagem ampla e interdisciplinar, que integre terapias farmacológicas, intervenção cirúrgica, acompanhamento psicológico, práticas integrativas e reabilitação física. No contexto brasileiro, programas multiprofissionais envolvendo Psicologia, Fisioterapia, Nutrição, Educação Física e Enfermagem têm se mostrado eficazes para reduzir a dor, na melhorar o bem-estar e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento (SANTOS KANEMATSU et al., 2022; PONTES et al., 2022; SILVA et al., 2023). A literatura aponta que intervenções como acupuntura, ioga, fisioterapia pélvica, exercícios regulares e suporte psicológico podem contribuir para a redução da dor e para a melhora da qualidade de
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 62 vida (NORMAN et al., 2021; RAMOS et al., 2018). Em situações de dor persistente, tratamentos hormonais e cirúrgicos são utilizados, embora muitas mulheres ainda relatem limitações após essas intervenções (VERCELLINI et al., 2014). METODOLOGIA Tipo de estudo Trata-se de uma pesquisa de campo, de natureza qualitativa, com delineamento descritivo e caráter exploratório (GUÊDELHA, 2025). A abordagem qualitativa foi escolhida por possibilitar a compreensão aprofundada de experiências subjetivas, sociais e simbólicas relacionadas à vivência da dor crônica na endometriose. Segundo Olmos-Vega et al. (2022), esse tipo de abordagem permite interpretar os significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências e contextos, considerando a reflexividade do pesquisador e a construção compartilhada do conhecimento, aspectos essenciais para investigar fenômenos complexos nas ciências sociais aplicadas à saúde. Além disso, a adoção dessa abordagem segue recomendações internacionais de rigor, credibilidade e verificabilidade em pesquisas qualitativas (ZAINAL et al., 2024). Para operacionalizar essa abordagem e o foco na experiência, a pesquisa utilizou a investigação empírica de narrativas como método central. Isso ocorreu por meio do uso de instrumentos de coleta e análise desenhados para priorizar a interpretação de sentidos. Consequentemente, configura-se como um estudo qualitativo de cunho fenomenológico-descritivo, focado na análise da experiência vivida e na produção de significados inerentes aos discursos das participantes. Lócus da pesquisa O estudo foi desenvolvido na Clínica Escola do Centro Universitário INTA – (UNINTA), Campus Itapipoca, situada no município de Itapipoca, Estado do Ceará. A unidade constitui-se como um espaço multiprofissional de formação e cuidado, oferecendo atendimentos nas áreas de Nutrição, Enfermagem e Fisioterapia, com foco na promoção da saúde integral. O setor de Fisioterapia conta com atendimentos especializados em Urologia, Ginecologia e Obstetrícia, o que favorece o acolhimento qualificado de mulheres com diagnóstico de endometriose.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 63 Participantes Participaram do estudo cinco mulheres com diagnóstico de endometriose, selecionadas por conveniência entre aquelas que se encontravam em acompanhamento ativo na clínica escola da instituição mencionada. O número de participantes correspondeu à totalidade das mulheres com diagnóstico clínico confirmado em atendimento no serviço durante o período da pesquisa (outubro a novembro de 2024). Embora a amostra seja numericamente reduzida, a escolha mostrou-se adequada aos pressupostos da abordagem qualitativa, uma vez que buscou à exploração aprofundada das experiências subjetivas e sociais das participantes, favorecendo a construção de categorias analíticas significativas para os objetivos do estudo. A definição do tamanho amostral baseou-se no princípio da saturação teórica, considerando o momento em que as entrevistas passaram a revelar recorrências nos discursos e ausência de novas informações substanciais, o que indicou suficiência na densidade dos dados (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008; MINAYO, 2001). Nessa perspectiva, o foco não recaiu sobre a quantidade de participantes, mas sobre a profundidade e a riqueza das narrativas, assegurando a consistência teóricometodológica do estudo. Os critérios de inclusão compreenderam: (a) ter 18 anos ou mais; (b) possuir diagnóstico clínico de endometriose confirmado por exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal com mapeamento da endometriose ou ressonância magnética; e (c) estar em acompanhamento clínico regular no momento da coleta. Foram excluídas mulheres com déficit cognitivo que comprometesse a compreensão das entrevistas e aquelas portadoras de outras patologias ginecológicas ou abdominais capazes de interferir na análise dos dados. Instrumentos A coleta de dados foi realizada por meio de dois instrumentos complementares. O primeiro foi um questionário sociodemográfico, desenvolvido para caracterizar o perfil das participantes, incluindo idade, estado civil, escolaridade, ocupação, tempo de diagnóstico e histórico de tratamento. Esse instrumento teve como finalidade contextualizar as entrevistas e oferecer informações de apoio à análise qualitativa. O segundo instrumento consistiu em uma entrevista semiestruturada composta por 15 questões abertas, organizadas em três blocos temáticos: o primeiro abordou a caracterização e localização da dor, incluindo intensidade, frequência, duração, locais acometidos e fatores desencadeantes; o segundo explorou os impactos da dor no cotidiano, investigando repercussões nas dimensões física, emocional,
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 64 social e profissional; e o terceiro tratou das vivências relacionadas ao tratamento, abrangendo o uso de terapias medicamentosas, cirúrgicas e integrativas, além da percepção de eficácia das estratégias utilizadas. As entrevistas foram gravadas em áudio, com autorização das participantes, e posteriormente transcritas na íntegra para compor o corpus textual da pesquisa. A estrutura do roteiro foi previamente avaliada por duas pesquisadoras com experiência em estudos qualitativos, garantindo a validade aparente, a coerência entre os blocos temáticos e a pertinência das questões ao objeto de investigação. Procedimentos de coleta de dados Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição responsável, sob o parecer nº 7.0966.622, iniciou-se o processo de coleta de dados, realizado entre os meses de outubro e novembro de 2024. As participantes foram indicadas pela equipe de atendimento da clínica escola, com base nos critérios clínicos previamente definidos. O primeiro contato ocorreu presencialmente, nas dependências da própria unidade, ocasião em que foram apresentados os objetivos da pesquisa e agendadas as entrevistas, de acordo com a disponibilidade de cada participante. As entrevistas foram conduzidas em sala privativa, em ambiente reservado e acolhedor, assegurando condições de conforto, privacidade e sigilo. Todas as entrevistas seguiram o roteiro semiestruturado previamente elaborado e foram conduzidas pela pesquisadora principal. Mediante consentimento livre e esclarecido, os relatos foram gravados em áudio e, posteriormente, transcritos na íntegra, preservando-se a fidelidade das narrativas para análise qualitativa. Os dados primários consistiram nas transcrições das falas das participantes e nas informações sociodemográficas obtidas por questionários. Já os dados secundários foram coletados exclusivamente dos prontuários da clínica-escola, visando apenas confirmar o diagnóstico clínico de endometriose e a vinculação ao serviço. Não se recorreu a bases de dados externas. Procedimentos éticos Este estudo respeitou integralmente as diretrizes e normas éticas estabelecidas pela Resolução nº 466/12 e pela Resolução nº 510/16, ambas do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que regulam as pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil. Tais diretrizes asseguram a proteção dos direitos, da dignidade, da privacidade e do bem-estar das participantes, bem como o sigilo e a confidencialidade das informações obtidas.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 65 As participantes foram informadas sobre os objetivos da pesquisa, os procedimentos envolvidos, os riscos e benefícios esperados, e sobre sua liberdade para recusar ou desistir da participação a qualquer momento, sem prejuízo de qualquer natureza. A concordância com a participação foi formalizada por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), elaborado conforme as exigências legais e éticas. Procedimentos de análise de dados As análises dos dados foram realizadas com o auxílio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), que permite identificar a estrutura e a organização do discurso e realizar análises estatísticas de textos (NASCIMENTO et al., 2024). Foram empregadas duas técnicas complementares: a Nuvem de Palavras, que agrupou e representou graficamente os termos mais recorrentes do corpus, considerando palavras com frequência igual ou superior a 10; e a Análise de Similitude, que possibilitou identificar as coocorrências e conexidades entre os vocábulos, permitindo visualizar as associações semânticas predominantes nas narrativas. Essas análises contribuíram para a identificação de padrões lexicais e campos de sentido, orientando a posterior interpretação qualitativa. Na sequência, as transcrições foram submetidas à análise de conteúdo temática, conforme os procedimentos descritos por Bardin (1977). O processo envolveu três etapas: (1) pré-análise, com leitura flutuante e organização inicial do material; (2) exploração do conteúdo, com codificação dos núcleos de sentido e categorização das unidades de registro; e (3) tratamento e interpretação dos resultados, articulando as categorias emergentes aos objetivos do estudo. As categorias foram definidas de forma indutiva, a partir da recorrência e da relevância dos significados expressos nos discursos, preservando a singularidade das experiências das participantes. A triangulação entre pesquisadoras foi utilizada como estratégia de validação interna, ampliando a confiabilidade e a coerência da análise interpretativa. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados foram organizados em três eixos temáticos emergentes da análise de conteúdo: (1) Experiência da Dor, (2) Impactos da Endometriose na Vida Cotidiana, e (3) Percepções sobre Diagnóstico e Tratamento. As análises lexicais (nuvem de palavras e grafo de similitude) contribuíram para compreender a centralidade semântica das experiências relatadas, reforçando a natureza multidimensional dos relatos das participantes.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 72 CHAPRON, C. et al. “Rethinking mechanisms, diagnosis and management of endometriosis”. Nature Reviews Endocrinology, vol. 15, n. 11, 2019. COELHO, Y. T. et al. “Endometriose: Uma revisão sobre as opções terapêuticas e seus impactos na qualidade de vida das pacientes”. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, vol. 10, n. 9, 2024. DEJOURS, C. A loucura do trabalho: Estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Editora Cortez, 1992. DONATTI, L. Endometriose, um estudo correlacional: Estratégias de enfrentamento (coping), depressão, stress e dor (Dissertação de Mestrado em Psicologia). São Paulo: PUCSP, 2014. FALCONE, T.; FLYCKT, R. “Clinical management of endometriosis”. Obstetrics and Gynecology, vol. 131, n. 3, 2018. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Conceitos de sensibilização central em pacientes com endometriose. São Paulo: FEBRASGO, 2018. FEBRASGO - Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Endometriose: Protocolo FEBRASGO. São Paulo: FEBRASGO, 2021. FONTANELLA, B. J. B.; RICAS, J.; TURATO, E. R. “Amostragem por saturação em pesquisas qualitativas em saúde: contribuições teóricas”. Cadernos de Saúde Pública, vol. 24, n. 1, 2008. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1979. GUÊDELHA, D. V. G. et al. “Aspectos psicossociais da pandemia da covid-19 entre idosos chilenos e espanhóis: estudo das representações sociais”. Boletim de Conjuntura (BOCA), vol. 22, n. 65, 2025. IZZO, J. M. et al. “O impacto da dor crônica na qualidade de vida e na capacidade funcional de pacientes oncológicos e de seus cuidadores”. BrJP, vol. 2, 2019. KONINCKX, P. R. et al. “Pathogenesis based diagnosis and treatment of endometriosis”. Frontiers in Endocrinology, vol. 12, 2021. MADEIRO, A. P. S.; ARAÚJO, V. S. A percepção de mulheres com endometriose sobre os benefícios do exercício físico funcional para a qualidade de vida (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Educação Física). Fortaleza: UFC, 2021. MEIJUEIRO, I. “A importância de uma equipe multidisciplinar na cirurgia de endometriose”. Portal Meijueiro [2019]. Disponível em: <www.meijueiro.com.br>. Acesso em: 12/06/2025. MENDONÇA, M. F. M. et al. “Endometriose: Manifestações clínicas e diagnóstico – Revisão bibliográfica”. Brazilian Journal of Health Review, vol. 4, n. 1, 2021. MIGUEL, S. A. et al. Mulheres com endometriose: Conhecimento e vivências. São Paulo: Seven Editora, 2023. MUELLER, C. et al. “Multidisciplinary surgical management of severe posterior compartment endometriosis”. Surgical Endoscopy, vol. 32, 2024.
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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 75 BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista|2025 http://www.ioles.com.br/boca Editor chefe: Elói Martins Senhoras Conselho Editorial Antonio Ozai da Silva, Universidade Estadual de Maringá Vitor Stuart Gabriel de Pieri, Universidade do Estado do Rio de Janeiro Charles Pennaforte, Universidade Federal de Pelotas Elói Martins Senhoras, Universidade Federal de Roraima Julio Burdman, Universidad de Buenos Aires, Argentina Patrícia Nasser de Carvalho, Universidade Federal de Minas Gerais Conselho Científico Claudete de Castro Silva Vitte, Universidade Estadual de Campinas Fabiano de Araújo Moreira, Universidade de São Paulo Flávia Carolina de Resende Fagundes, Universidade Feevale Hudson do Vale de Oliveira, Instituto Federal de Roraima Laodicéia Amorim Weersma, Universidade de Fortaleza Marcos Antônio Fávaro Martins, Universidade Paulista Marcos Leandro Mondardo, Universidade Federal da Grande Dourados Reinaldo Miranda de Sá Teles, Universidade de São Paulo Rozane Pereira Ignácio, Universidade Estadual de Roraima Caixa postal 253. Praça do Centro Cívico. Boa Vista, RR, Brasil. CEP 69601-970.