(1)
(2) Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP Reitor Prof. Dr. Pe. Pedro Rubens Ferreira Oliveira, S. J. Vice-reitor Prof. Dr. Pe. Delmar Cardoso, S. J Pró-reitor Administrativo Prof. Dr. Pe. Carlos Fritzen, S. J. Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação Profa. Dra. Valdenice José Raimundo Pró-reitor de Graduação Prof. Dr. Degislando Nóbrega de Lima Comitê Editorial e Científico Prof. Dr. Alan Campos Araújo Profa. Dra. Andrea de Lima Trigueiro de Amorim Profa. Dra. Andrea Melo Lins Storch Prof. Dr. Breno José Andrade de Carvalho Profa. MSc. Carmen Lúcia Borba Cavalcanti Prof. Dr. Clovis Macedo Bezerra Filho Prof. Dr. Delânio Horácio dos Santos Prof. Ms. Dyego da Silva Digiandomenico Prof. Dr. Eduardo Antonio Maia Lins Prof. Dr. Fabio José Pedrosa Profa. Dra. Graziela Brito de Almeida Prof. MSc. Rafael Campos Rangel Profa. Dra. Shalimar Michele Gonçalves Profa. Dra. Suzane Brust de Jesus Profa. Dra. Valdênia Brito Monteiro
(3) Equipe Assessoria de Extensão e Educação Continuada Karine Rizzardi Cajueiro Prof. Dr. João Elton de Jesus Wilson Miguel da Silva Raimunda Ferreira da Silva Edição e Diagramação Prof. Dr. João Elton de Jesus Este E-book está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Isso significa que é permitido compartilhar e adaptar o conteúdo, desde que seja dado o devido crédito aos autores e à Universidade Católica de Pernambuco como editora, mas o uso para fins comerciais não é permitido. Para mais informações, consulte: https://creativecommons
(4) APRESENTAÇÃO A Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) entende a Extensão Universitária como expressão concreta de sua missão social e de sua fidelidade ao projeto de uma educação integral, crítica e transformadora. É por meio dela que o conhecimento acadêmico se abre à realidade social, encontrando nas comunidades um espaço de diálogo, aprendizado mútuo e compromisso ético. Nessa perspectiva, a extensão não é apenas um eixo curricular, mas uma pedagogia de transformação, capaz de unir ensino, pesquisa e serviço em torno da justiça social e da dignidade humana. A integração com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) fortalece esse compromisso. A Agenda 2030 da ONU representa um chamado global à construção de sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis, e a UNICAP, ao articular suas práticas extensionistas a esses objetivos, reafirma seu papel de universidade cidadã, comprometida com a erradicação da pobreza, a defesa do meio ambiente, a promoção da paz e a garantia dos direitos humanos. Este eBook reúne experiências de extensão que ilustram, de modo plural e interdisciplinar, como a UNICAP tem contribuído de forma concreta para a realização dos ODS a partir de iniciativas locais. Cada capítulo revela um aspecto desse compromisso: • O Capítulo 1, a experiência da UNICAP na integração entre Aprendizagem e Serviço e os ODS, situando a extensão no centro de uma pedagogia inovadora. • O Capítulo 2, discute a plasticidade como inovação e sustentabilidade, explorando o diálogo entre indústrias criativas e desenvolvimento sustentável. • Os Capítulos 3 e 4 trazem o olhar da Arquitetura: Andréa Lins Storch e equipe apresentam um estudo sobre a pesca artesanal e cartografias sociais; já Carmen Cavalcanti e Rafael Rangel
(5) refletem sobre comunidades pela arquitetura aberta, mostrando a potência do design participativo. • No Capítulo 5, é abordado o Projeto Comunicarq, analisando a visibilidade, a ética profissional e a comunicação nas redes sociais. • O Capítulo 6 propõe um diálogo inovador entre planejamento urbano e neurocirurgia, destacando os impactos da cidade na saúde e no bem-estar, numa perspectiva interdisciplinar. Na interface com a sustentabilidade alimentar, temos: • O Capítulo 7, com o projeto Jardim Solidário onde Valdenice Raimundo e Cirlene Silva fazem importantes reflexões sobre a fome no século XXI. • O capítulo 8, com o relato do grupo “Alimentando o Bem”, promovendo sustentabilidade alimentar. • O Capítulo 9, que mostra como transformar desperdício em oportunidade, aproveitando integralmente os alimentos. A dimensão ambiental ganha força com: • O Capítulo 10, que reflete sobre a coleta seletiva de óleo como estratégia de impacto ambiental positivo. • O Capítulo 11, que problematiza a sustentabilidade dos kits cirúrgicos, mostrando dilemas éticos e ambientais na saúde. • O Capítulo 12, que apresenta as ações do LIMCS junto à Educação Ambiental e Climática. Na comunicação e cultura, temos: • O Capítulo 13, em que Filipe Falcão apresenta o LabCom como espaço de experimentação e práticas no curso de Jornalismo.
(6) • O Capítulo 14, que traz os Encontros Bíblicos na UNICAP, mostrando a articulação entre espiritualidade, comunidade e vida acadêmica. • O Capítulo 15, de Manoel Moraes e equipe, que aborda a resistência ao relativismo histórico e os espaços de memória, preservando o direito à verdade sobre a ditadura militar no Brasil. • O Capítulo 16, que fecha o eBook, apresenta o Projeto Horizonte, com sua longa trajetória de acolhida, descobertas e construção de vínculos educativos transformadores. Cada capítulo, à sua maneira, reafirma a Extensão como ponte entre universidade e sociedade, gerando impacto social e ampliando o horizonte de formação integral dos estudantes. Esta obra testemunha que a UNICAP, ao integrar a extensão universitária aos ODS, não apenas responde aos desafios do presente, mas também contribui para a construção de um futuro mais justo, inclusivo e sustentável. Boa Leitura.
(7) SUMÁRIO CAPÍTULO 1 ................................................................................. 10 Extensão universitária com aprendizagem e serviço e os objetivos de desenvolvimento sustentável: a experiência da UNICAP João Elton de Jesus CAPÍTULO 2 ................................................................................. 27 Plasticidade como inovação e sustentabilidade: diálogo entre indústrias criativas e os objetivos de desenvolvimento sustentável Albérico Paes Barreto Barros; Dyego da Silva Digiandomenico; Rafael Campos Rangel CAPÍTULO 3 ................................................................................. 43 Arquiteturas para pesca artesanal no Cais Sinhá Menezes, Recife-PE a partir de cartografias Andréa Melo Lins Storch, Carmem Cavalcanti, Dyego Digiandomenico, Vera Christine Cavalcanti Freire CAPÍTULO 4 ................................................................................. 61 Comunidades pela Arquitetura Aberta Carmen Lucia Borba Cavalcanti; Rafael Campos Rangel CAPÍTULO 5 ................................................................................. 80 Estratégias de visibilidade, comunicação e ética profissional: Projeto Comunicarq nas redes sociais Igor Villares de Carvalho; Rafael Campos Rangel; Paula Maria Wanderley Maciel do Rêgo Silva
(8) CAPÍTULO 6 ................................................................................. 94 Os desafios do planejamento urbano e seus impactos na neurocirurgia: uma abordagem sobre a ótica dos objetivos do desenvolvimento sustentável Ana Júlia Oliveira Siqueira; David Plácido Lopes; Fábio Lopes de Barros Correia Filho; Maria Izabella Silva Damasceno; Nathália Carvalho Figuerêdo; Rubem Ferreira da Silva Filho CAPÍTULO 7 ............................................................................... 111 Sementes de solidariedade: reflexões sobre a fome no século XXI Valdenice José Raimundo; Cirlene Sales da Silva CAPÍTULO 8 ............................................................................... 127 Um relato de experiência na promoção à sustentabilidade alimentar do grupo de extensão “alimentando o bem: sabores sustentáveis". João Guilherme Caribé Bastos Gonçalves; Lorena Barros Cavalcanti ; Natália Carvalho Montenegro de Vasconcelos CAPÍTULO 9 ............................................................................... 140 Transformando desperdício em oportunidade: um relato de experiência do projeto “Alimentando o bem: sabores sustentáveis”, com aproveitamento integral de alimentos Amanda Domingos Mendonça; Gabriela Veríssimo Alves da Trindade; Natália Carvalho Montenegro de Vasconcelos; Tainá Arana Moraes de Vasconcelos; Talyta da Silva Tavares; Thayná Vitória Buarque Bezerra CAPÍTULO 10 ............................................................................. 154 ODS 12 na prática: a importância da coleta seletiva de óleo na redução de impactos ambientais Manfred Tabosa Correia Lima; Larissa de Aquino Arruda Lima; Everton Leonardo da Silva; Thaís Torres Borba; Dra. Adriene Siqueira de Melo
(9) CAPÍTULO 11 ............................................................................. 172 Sustentabilidade e eficiência: o dilema dos kits cirúrgicos Alan Vitor Vasconcelos Maciel; Manfred Tabosa Correia Lima; Thacyana Michely Gomes da Silva; Dr. Alessandro Peixoto de Araújo CAPÍTULO 12 ............................................................................. 188 Extensão universitária e ação climática: a Jornada de Inov-ação Socioambiental e Climática como experiência de educação transformadora Breno José Andrade de Carvalho; Cynthia Carneiro de Albuquerque Suassuna; Eduardo Antônio Maia Lins; Fábio José de Araújo Pedrosa; João Elton de Jesus; Valdeci Monteiro Dos Santos; Valdenice José Raimundo CAPÍTULO 13 ............................................................................. 208 Labcom: a extensão como plataforma de atividades práticas e experimentação para o curso de jornalismo Filipe Falcão CAPÍTULO 14 ............................................................................. 226 Encontros bíblicos na UNICAP Cláudio Vianney Malzoni; Karoline da Silva Menezes; Rita Maria Gomes CAPÍTULO 15 ............................................................................. 239 Resistência ao relativismo histórico: o papel dos espaços de memória na preservação do direito à memória e à verdade sobre a ditadura militar no Brasil Manoel Severino Moraes de Almeida; Larissa Almeida de Albuquerque; Maria Elizabete Dias de Souza Vicente CAPÍTULO 16 ............................................................................. 254 Projeto horizonte - uma jornada de conexões e descobertas Shalimar M G Silva Reis
(16) comunidades e organizações e permitindo que o conhecimento produzido na universidade dialogue com demandas concretas. Do ponto de vista da formação estudantil, a participação em atividades extensionistas favorece o desenvolvimento de competências técnicas, sociais e éticas, estimulando o protagonismo do estudante em seu próprio processo formativo e ampliando sua consciência cidadã. Já na dimensão da relação universidade-sociedade, a integração se concretiza quando o saber produzido no espaço acadêmico é colocado a serviço do bem comum, respondendo a desafios sociais relevantes e construindo soluções de impacto junto às comunidades. Dessa forma, a extensão, articulada ao Aprendizagem e Serviço, reafirma-se como eixo estruturante da missão social da educação superior. Dessa forma, a extensão universitária no Brasil consolidou-se como espaço de diálogo entre saberes, de democratização do conhecimento e de promoção de transformações sociais. A incorporação da Aprendizagem e Serviço Solidário como metodologia articuladora desse processo potencializa ainda mais a formação integral dos estudantes e o compromisso social das universidades, configurando-se como eixo estruturante da educação superior contemporânea. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2030 Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 2015, constituem um pacto global em favor de um modelo de desenvolvimento mais justo, inclusivo e sustentável. Ao todo, são 17 objetivos e 169 metas, que orientam políticas públicas, ações empresariais, iniciativas sociais e acadêmicas até o ano de 2030, compondo uma agenda universal que busca integrar dimensões econômicas, sociais, culturais e ambientais (ONU, 2015). A gênese dos ODS encontra-se nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), definidos no ano 2000, que estabeleceram oito metas
(17) globais voltadas principalmente para a erradicação da pobreza extrema, a universalização da educação primária, a promoção da igualdade de gênero e o combate a doenças como o HIV/AIDS. Embora importantes, os ODM foram alvo de críticas por apresentarem metas limitadas, com pouca adaptação às realidades regionais e baixa participação dos países no processo de formulação (SEN, 2010). Como resposta a essas limitações, e após amplo processo de consulta envolvendo governos, sociedade civil e academia, foi aprovada a Agenda 2030, que ampliou significativamente o escopo e a transversalidade das metas. Os ODS abrangem temas centrais para a humanidade, incluindo erradicação da pobreza, segurança alimentar, saúde, educação de qualidade, igualdade de gênero, acesso à água potável, energia limpa, trabalho decente, inovação, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, enfrentamento das mudanças climáticas, preservação da vida marinha e terrestre, fortalecimento das instituições democráticas e parcerias globais. Diferentemente dos ODM, os ODS possuem caráter universal, aplicando-se tanto a países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, e reconhecem que desafios como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais são problemas globais interdependentes. Para Sachs (2015), os ODS representam “um avanço em relação aos ODM, pois incorporam as três dimensões do desenvolvimento sustentável – a econômica, a social e a ambiental – além da cultural” (p. 32). Essa característica amplia seu alcance e legitima sua adoção como referência internacional. Entre os principais benefícios da Agenda 2030, destaca-se, em primeiro lugar, a integração de políticas públicas, uma vez que suas metas interconectadas estimulam soluções de caráter sistêmico e favorecem a superação da fragmentação setorial. Outro aspecto relevante é a ênfase na participação social e acadêmica, já que a Agenda convoca governos, setor privado, organizações da sociedade civil e universidades a atuarem de maneira conjunta e corresponsável. Soma-se a isso o foco na equidade, que coloca no centro do debate global a necessidade de enfrentar
(18) desigualdades sociais, de gênero, raciais e territoriais, fortalecendo o compromisso com a justiça social (LEITE, 2020). Por fim, merece destaque a mobilização internacional inédita gerada pela Agenda 2030, que, ao definir metas mensuráveis e acompanhadas por indicadores globais e locais, estabeleceu um compromisso coletivo entre as nações e inaugurou um novo paradigma de cooperação internacional (ALMEIDA; VENTURINI, 2021). Apesar de seu caráter transformador, os ODS ainda enfrentam desafios significativos. A implementação desigual entre países e regiões revela disparidades estruturais que limitam a efetividade da Agenda 2030. Além disso, muitos países em desenvolvimento carecem de recursos financeiros, tecnológicos e institucionais para executar as metas propostas. Outro ponto crítico é o caráter voluntário da Agenda, que dificulta a cobrança efetiva dos compromissos assumidos. Como observa Sachs (2015), os ODS mantêm ainda “forte ligação com a lógica do crescimento econômico, sem questionar suficientemente os modelos produtivos e de consumo vigentes” (p. 41). No campo da educação superior, os ODS dialogam diretamente com a missão social das universidades, ao reforçar a importância de formar cidadãos críticos e de aproximar o conhecimento científico das necessidades da sociedade. Para Ribeiro (2019), “os ODS oferecem uma oportunidade ímpar para que a universidade reafirme sua função social e se comprometa com agendas globais a partir de sua inserção local” (p. 67). Essa perspectiva é particularmente relevante no Brasil, país marcado por profundas desigualdades estruturais, onde a universidade pode atuar como agente estratégico de transformação social. Nesse sentido, a Extensão Universitária constitui um campo privilegiado para a concretização da Agenda 2030, pois possibilita a articulação entre teoria e prática, academia e comunidade, global e local. A conexão entre ODS e extensão amplia a legitimidade das ações universitárias, fortalece o protagonismo estudantil e promove impactos sociais efetivos. Ao assumir os ODS como horizonte, a extensão contribui não apenas para o
(19) cumprimento de metas internacionais, mas também para o fortalecimento da função pública da universidade, ancorada nos princípios da justiça social, da sustentabilidade e da cidadania global. Extensão, Aprendizagem e Serviço e ODS na Unicap A Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), ao longo de seus mais de 80 anos de história, consolidou-se como uma instituição que articula de forma indissociável ensino, pesquisa e extensão, assumindo como missão o compromisso com a formação integral dos estudantes e com a transformação social. Muito antes da curricularização da extensão ser instituída pela Resolução CNE/CES nº 7/2018, a Unicap já se destacava por iniciativas pioneiras, como a Clínica Escola de Psicologia (1964), a primeira do Nordeste; a ASTEP (1974), que presta assessoria jurídica gratuita a populações em situação de vulnerabilidade; e o Museu de Arqueologia (1987), voltado para a preservação da memória e o acesso democrático à cultura. Essas ações revelam uma trajetória marcada pelo compromisso com a justiça social e com a construção de pontes entre universidade e comunidade. A Política de Extensão da Unicap, publicada em 2022, reforçou esse compromisso ao associar sistematicamente cada iniciativa extensionista aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Essa decisão institucional não apenas legitima as ações da universidade no cenário global, mas também orienta as práticas pedagógicas e sociais em direção a um horizonte comum de transformação. Como afirma o documento: a extensão deve ser compreendida como um processo de “co-criação, co-laboração e co-desenvolvimento, no qual universidade e sociedade aprendem juntas, partilhando conhecimentos, experiências e habilidades em prol da construção de um mundo melhor, sobretudo para aqueles em maior vulnerabilidade socioambiental” (UNICAP, 2022, p. 7).
(20) Nesse escopo, o presente estudo adotou uma abordagem quanti-qualitativa, de modo a articular a mensuração da presença dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nas disciplinas extensionistas da Unicap, no semestre 2025.1, que corresponde ao período de fevereiro a julho de 2025, com a interpretação crítica de seus significados pedagógicos e sociais. Essa escolha metodológica se justifica pela necessidade de compreender a extensão universitária não apenas como dado numérico ou registro administrativo, mas como espaço formativo e de impacto social, o que demanda a integração entre análise estatística e análise interpretativa (CRESWELL, 2014). A base empírica da pesquisa foi composta pela planilha institucional Cadastro de Plano de Trabalho, fornecida pela Assessoria de Extensão da Unicap, que reúne as disciplinas registradas como extensionistas no período em questão. Essa fonte permitiu identificar variáveis como o título das iniciativas, o curso responsável, a disciplina vinculada, o programa institucional e os ODS selecionados pelos proponentes como metas impactadas. Os dados foram organizados em um processo de normalização textual, seguido pela codificação dos 17 ODS em variáveis binárias, o que possibilitou quantificar a frequência de cada objetivo no conjunto analisado. Na dimensão qualitativa, optou-se por destacar projetos emblemáticos capazes de ilustrar de maneira concreta a relação entre extensão universitária, Aprendizagem e Serviço Solidário e Agenda 2030. A seleção desses exemplos levou em conta sua pertinência ao ODS declarado, a coerência com as diretrizes do FORPROEX, bem como seu potencial formativo e comunitário. Nesse sentido, a análise não se restringiu à descrição das iniciativas, mas buscou situá-las no debate teórico e pedagógico sobre extensão. Cumpre destacar algumas limitações do estudo. Em primeiro lugar, a identificação dos ODS está baseada em autodeclaração dos coordenadores, o que pode gerar lacunas ou imprecisões. Além disso, a análise se
(21) concentrou em um recorte temporal específico (2025.1), não permitindo generalizações de caráter longitudinal. Por fim, a pesquisa avaliou o alinhamento temático das iniciativas aos ODS, mas não mensurou o impacto social concreto junto às comunidades atendidas. Ainda assim, os procedimentos adotados conferem ao estudo rigor, transparência e reprodutibilidade, uma vez que a codificação por ODS, os cálculos estatísticos e a interpretação qualitativa foram realizados de forma sistemática e fundamentada. Os achados são interpretados em diálogo com a literatura sobre extensão (FORPROEX, 1987; BRASIL, 2018), sobre a pedagogia da Aprendizagem e Serviço (FURCO, 1996; TAPIA, 2006; JACOBY, 2015) e sobre os marcos da Agenda 2030 (SACHS, 2015), permitindo compreender de maneira crítica como a Unicap vem articulando sua prática extensionista ao horizonte global do desenvolvimento sustentável. A análise realizada sobre as disciplinas extensionistas do semestre 2025.1 evidencia a amplitude e a diversidade dessas ações. Ao todo, foram contemplados como prioritários 12 dos 17 ODS, confirmando o caráter abrangente e interdisciplinar da extensão universitária. Vale destacar que esse número poderia ser maior caso outras ODS indiretamente impactadas fossem levadas em conta na investigação. Entre os objetivos colocados como principais para cada projeto, destacam-se: • ODS 4 – Educação de Qualidade, com 94 ocorrências, reafirmando a centralidade da missão educativa da Unicap; • ODS 10 – Redução das Desigualdades, com 28 iniciativas, refletindo o compromisso da universidade com a justiça social e a equidade; • ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, com 25 registros, evidenciando a força das ciências da saúde no contexto institucional; • além do ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes (18 iniciativas) e do ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis (12
(22) iniciativas), que consolidam a inserção em pautas democráticas e ambientais. O protagonismo do ODS 4 é ilustrado por iniciativas como “História e educação antirracista”, do curso de Filosofia, que promove a formação crítica para o enfrentamento do racismo nas escolas; “Robótica inclusiva”, do curso de Ciência da Computação, que integra inovação tecnológica e inclusão social; e “Matemática em Movimento”, da Pedagogia, que valoriza metodologias lúdicas no ensino básico. Esses projetos demonstram como a extensão, articulada ao ensino, fortalece a educação como bem público e direito humano. O ODS 10, por sua vez, revela-se em projetos como “Direito e Relações Raciais” e “Vozes Negras pela Democracia”, ambos vinculados ao curso de Direito, que atuam no enfrentamento do racismo estrutural e na valorização da memória política da população negra. Iniciativas como “Tecnologia para Todos: inclusão e letramento digital”, no curso de Fotografia, e “Entre Cais e Pontes: reconhecimento da pesca artesanal”, em Arquitetura e Urbanismo, mostram que a redução das desigualdades perpassa tanto o acesso à tecnologia quanto a valorização de modos de vida tradicionais. Já o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar é materializado em ações como o “Recomeço Rosa”, da Nutrição, voltado ao cuidado alimentar de mulheres em tratamento oncológico; “Autocuidado, relações interpessoais e saúde mental”, da Psicologia, que promove o bem-estar emocional; e “Colorindo Sonhos”, da Enfermagem, que humaniza o cuidado a crianças hospitalizadas. Além disso, clínicas-escola e projetos de atenção primária em saúde, realizados por cursos como Medicina, Farmácia e Fonoaudiologia, reafirmam a vocação da universidade para uma prática extensionista voltada ao cuidado integral da vida. Embora menos frequentes, objetivos como o ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis e o ODS 13 – Ação Climática aparecem como áreas de oportunidade para expansão futura. A baixa incidência desses temas
(23) sugere a necessidade de fortalecer a dimensão ambiental da extensão, criando novas práticas pedagógicas e comunitárias que dialoguem com os desafios ecológicos contemporâneos. Dessa forma, a experiência da Unicap demonstra que a integração entre Extensão Universitária, Aprendizagem e Serviço Solidário e ODS não apenas amplia a função social da universidade, mas também a insere em um movimento global de transformação. A curricularização da extensão, ao tornar obrigatória a participação estudantil em atividades socialmente relevantes, potencializa o protagonismo dos estudantes, promove uma formação crítica e cidadã e reforça a contribuição da universidade para a construção de sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis. Considerações finais A análise realizada permitiu compreender que a extensão universitária, quando articulada à metodologia da Aprendizagem e Serviço Solidário e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), constitui um eixo estratégico para o fortalecimento da missão social da educação superior no Brasil. No caso da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), os resultados evidenciam um processo institucional consistente de integração entre ensino, pesquisa e extensão, ancorado em uma tradição histórica de compromisso comunitário e renovado pelas diretrizes da Agenda 2030. O levantamento das disciplinas extensionistas do semestre 2025.1 revelou que 12 dos 17 ODS foram contemplados, confirmando o caráter abrangente e interdisciplinar das iniciativas. Os destaques recaem sobre o ODS 4 – Educação de Qualidade, o ODS 10 – Redução das Desigualdades e o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, que juntos concentram a maior parte das ações. Esses resultados evidenciam uma vocação institucional para o fortalecimento da formação educacional, da justiça social e do cuidado
(24) integral à vida, valores coerentes com a identidade humanista e transformadora da Unicap. Os exemplos de projetos analisados demonstram que a extensão não se restringe à mera transferência de conhecimento, mas se configura como espaço de diálogo, de cocriação e de transformação social. Todavia, a pesquisa também revelou áreas de oportunidade, sobretudo na ampliação das ações relacionadas ao ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis e ao ODS 13 – Ação Climática. A baixa incidência desses objetivos sugere a necessidade de fortalecer a dimensão ambiental da extensão universitária, incorporando de forma mais incisiva práticas educativas e comunitárias voltadas à sustentabilidade ecológica e à adaptação às mudanças climáticas. Do ponto de vista científico, o estudo contribui ao oferecer uma metodologia replicável para o monitoramento do alinhamento entre extensão universitária e Agenda 2030, integrando estatísticas descritivas, categorização temática e análise qualitativa de projetos. Do ponto de vista social, reforça a importância da curricularização da extensão como oportunidade histórica para aproximar a universidade das demandas concretas da sociedade e para formar estudantes protagonistas, críticos e socialmente comprometidos. Em síntese, pode-se afirmar que a Unicap, ao associar a extensão universitária à Aprendizagem e Serviço Solidário e aos ODS, reafirma seu compromisso de ser uma universidade comunitária, inclusiva e transformadora. Esse processo a insere em um movimento mais amplo, em que a educação superior se reconhece não apenas como produtora de conhecimento técnico, mas como força ativa de transformação social e de construção de futuros sustentáveis.
(25) Referências ALMEIDA, M.; VENTURINI, A. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a cooperação internacional: perspectivas e desafios. Revista de Políticas Públicas, v. 25, n. 2, p. 85-98, 2021. BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 28 ago. 2025. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Institui as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 19 dez. 2018. CRESWELL, J. W. Research design: qualitative, quantitative, and mixed methods approaches. 4. ed. Thousand Oaks: SAGE, 2014. FORPROEX. Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras. Conceito de Extensão, 1987. Brasília: MEC, 1987. FRANCISCO, Papa. Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo Global. Vaticano, 2019. Disponível em: https://www.educationglobalcompact.org/. Acesso em: 28 ago. 2025. FREIRE, P. Extensão ou comunicação?. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. FURCO, A. Service-learning: a balanced approach to experiential education. In: TAYLOR, B.; CORPORATION FOR NATIONAL SERVICE (ed.). Expanding boundaries: serving and learning. Washington, DC: Corporation for National Service, 1996. p. 2-6. JACOBY, B. Service-learning essentials: questions, answers, and lessons learned. San Francisco: Jossey-Bass, 2015. LEITE, A. C. A Agenda 2030 e a equidade como princípio global. Revista Brasileira de Políticas Públicas, v. 10, n. 1, p. 110-125, 2020. ONU. Organização das Nações Unidas. Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015. Disponível em: https://www.un.org/sustainabledevelopment/pt/. Acesso em: 28 ago. 2025.
(32) Figura 2 – Universidade como Ecossistema. Fonte: PlastiCidade, 2025 Além de seus benefícios ambientais, o projeto contribui para a formação de estudantes, capacitando-os com conhecimentos técnicos e habilidades práticas relacionadas à produção de materiais reciclados. Essa capacitação prepara os participantes para atuar em setores criativos e sustentáveis, ampliando suas oportunidades no mercado de trabalho e fomentando a criação de cadeias produtivas alinhadas com os princípios da inovação e da sustentabilidade. Apresentação do projeto Os procedimentos metodológicos do projeto PlastiCidade são estruturados para promover sustentabilidade e engajamento comunitário. O projeto começa com o mapeamento e engajamento de parceiros internos e externos, como setores da universidade e comerciantes locais, através de reuniões para estabelecer cooperação. Em seguida, são realizadas campanhas de conscientização e arrecadação, criação de materiais educativos e promoção de eventos para mobilizar a comunidade acadêmica e o entorno. Pontos de coleta são instalados em locais estratégicos de grande circulação. (Figura 3).
(33) Figura 3 – Pontos de Coleta do PlastiCidade instalados em pontos estratégicos do campus da UNICAP. Fonte: PlastiCidade, 2025 Com o apoio de parceiros, principalmente no compartilhamento de maquinários, as tampas de garrafas plásticas são limpas, trituradas e prensadas a quente para produzir chapas reutilizáveis, que passam por testes de qualidade. Na sequência, inicia-se o desenvolvimento de produtos e protótipos baseados nas necessidades locais, como por exemplo mobiliário urbano, envolvendo estudantes e professores em oficinas de design colaborativo. (Figura 4).
(34) Figura 4 – Diagrama fluxo do projeto. Fonte: PlastiCidade, 2025 Por fim, busca-se a sustentabilidade e expansão do projeto por meio de financiamentos, replicação em outras comunidades e planejamento a longo prazo, assegurando o impacto positivo contínuo do PlastiCidade na promoção da sustentabilidade ambiental e social. Impacto do projeto PlastiCidade consolidou-se como uma iniciativa de impacto tangível, integrando sustentabilidade, inovação e cooperação comunitária. Em seus primeiros meses de operação, o projeto já registrou resultados expressivos: 1. Infraestrutura de Coleta: • Oito pontos de coleta instalados no campus da Universidade Católica de Pernambuco e em estabelecimentos do entorno. • Mais de 2.000 tampinhas plásticas arrecadadas nos primeiros meses, destinadas à produção de chapas recicladas. (Figura 5). • Pesquisa e desenvolvimento para novos coletores, maiores, interativos e mais resistentes. 2. Parcerias Confirmadas:
(35) • Casa Criatura de Olinda-PE: Parceria formalizada para uso de equipamentos e expertise técnica no processamento das tampas plásticas. • Cadastramento como Projeto de Extensão: Credenciamento oficial pela universidade, com professores e alunos vinculados como pesquisadores responsáveis. 3. Eventos e Reconhecimento: • Premiação em 2º lugar na Exposição de Inovação e Sustentabilidade (2024) promovida pela Semana Socioambiental da UNICAP, validando a relevância do projeto. (Figura 6). Próximos Passos 1. Workshop Internacional Recife-Antuérpia: • Participação confirmada para a elaboração de artefatos urbanos a partir do material reciclado. • Envolvimento de alunos brasileiros e belgas, com a participação do RECENTRO. 2. Expansão do Projeto: • Ampliação dos pontos de coleta para outras comunidades e instituições de ensino. • Busca de financiamento por meio de editais públicos e privados.
(36) Figura 5 – Impactos e Aprendizados pelo PlastiCidade. Fonte: PlastiCidade, 2025 Figura 6 – Exposição PlastiCidade na Exposição de Inovação e Sustentabilidade – 2024. Fonte: PlastiCidade, 2025 O projeto PlastiCidade, foi premiado em segundo lugar na Exposição de Inovação e Sustentabilidade - 2024, refletindo sua relevância como resposta aos desafios globais de degradação ambiental e mudanças
(37) climáticas. O impacto da iniciativa se estende ao fortalecimento dos laços entre universidade e comunidade, incentivando uma cultura de sustentabilidade e inovação que beneficia a todos. Relação com os ODS • O PlastiCidade impacta diretamente os seguintes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): • ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura): Desenvolvimento de infraestrutura sustentável por meio da transformação de resíduos plásticos em chapas recicladas. • ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis): Instalação de mobiliário urbano produzido com material reciclado em espaços públicos. • ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis): Reciclagem de mais de 2.000 tampinhas plásticas nos primeiros meses de implantação. • ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação): Colaboração com a Casa Criatura de Olinda, responsável pelo processamento e fabricação das chapas, e integração com entidades locais e internacionais. Considerações finais O projeto PlastiCidade, desenvolvido por alunos e professores da Universidade Católica de Pernambuco em parceria com a comunidade acadêmica, comerciantes locais e instituições especializadas, consolidou-se como um modelo prático de inovação socioambiental. A integração com as Indústrias Criativas reforça a importância no design colaborativo, inovação e valor social. Ao transformar tampas plásticas
(38) descartadas em matéria-prima para mobiliário urbano e equipamentos de infraestrutura, a iniciativa não apenas mitigou impactos ambientais, mas também reforçou a importância da economia circular e da cooperação multissetorial. Os resultados alcançados nos primeiros meses de operação — como a instalação de oito pontos de coleta, a arrecadação de mais de 2.000 tampas plásticas e a parceria com a Casa Criatura de Olinda para processamento técnico — evidenciam a viabilidade de soluções que unem criatividade, tecnologia acessível e engajamento comunitário. A relevância do projeto vai além da dimensão ambiental. Ao vislumbrar integrar estudantes, professores e moradores do entorno em oficinas de design colaborativo, o PlastiCidade torna-se uma ferramenta pedagógica poderosa. Participantes como Luana Silva, aluna do curso de Arquitetura e extensionista no projeto, relatam que o projeto "transformou a maneira como enxergamos o lixo, mostrando que ele pode ser recurso, não problema". Essa mudança de perspectiva é fundamental para a construção de uma cultura de sustentabilidade, especialmente em um contexto nacional onde apenas 4% do plástico pós-consumo é reciclado (Abrelpe, 2022). Além disso, a referida premiação na Exposição de Inovação e Sustentabilidade (2024) reforçou a credibilidade da iniciativa, atraindo apoio de entidades como Secretarias e Gabinetes do Estado. O alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) destaca o caráter transversal do projeto. No âmbito do ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), o PlastiCidade demonstrou que infraestruturas resilientes podem ser construídas a partir de materiais reciclados, reduzindo a dependência de recursos virgens. Já o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) foi fortalecido com a instalação de bancos e lixeiras produzidos a partir das chapas plásticas, melhorando espaços públicos e servindo como símbolos tangíveis de consumo responsável. O ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) foi atendido por meio da reciclagem de resíduos e da educação ambiental, enquanto o ODS 17 (Parcerias) ganhou vida na colaboração com a Casa Criatura de Olinda e na futura participação no Workshop Internacional Recife-Antuérpia, que
(39) conectará alunos brasileiros e belgas em prol de soluções sustentáveis. Os desafios enfrentados pelo projeto — como a dificuldade inicial de mobilizar a comunidade e a limitação de equipamentos — estão sendo superados por estratégias como a capacitação de estudantes em técnicas de reciclagem e a formalização de parcerias técnicas. Essas lições destacam a importância de modelos flexíveis e adaptáveis, capazes de integrar conhecimento acadêmico e saberes locais. O credenciamento do PlastiCidade como projeto de extensão universitária foi um marco, pois garantiu o acesso a recursos institucionais e a participação de 7 alunos voluntários, que desenvolveram habilidades práticas em design sustentável e gestão de resíduos. Visando em novas ações, o PlastiCidade possui um potencial significativo de escalabilidade. A replicação do modelo em outras universidades e municípios, adaptando-o a realidades locais (como o uso de resíduos específicos de cada região), pode ampliar seu impacto. A participação no Workshop Internacional Recife-Antuérpia (2024) será uma oportunidade para testar a aplicação das chapas recicladas em artefatos urbanos complexos, como placas de sinalização e abrigos de ônibus, além de fortalecer redes globais de inovação sustentável. Paralelamente, pesquisas (Iniciação Científica - PIBIC) em andamento buscam avaliar a durabilidade e resistência do material em diferentes condições climáticas, visando certificações técnicas que permitam seu uso em larga escala. Em um mundo marcado pela urgência climática e pela desigualdade social, iniciativas como o PlastiCidade mostram que a sustentabilidade não é um ideal abstrato, mas um caminho viável quando aliado à criatividade, ao rigor científico e à colaboração. A economia circular, longe de ser um conceito teórico, ganha vida em projetos que transformam resíduos em oportunidades — seja na forma de mobiliário urbano, na geração de renda para comunidades ou na formação de profissionais conscientes. O desafio agora é garantir que essas experiências inspirem políticas públicas e modelos de negócios que priorizem a regeneração
(40) ambiental e a inclusão social. O PlastiCidade, portanto, busca deixar evidente que a universidade não é apenas um espaço de formação, mas um ecossistema capaz de catalisar mudanças reais. Ao unir ensino, pesquisa e extensão, o projeto reforça o papel das instituições de ensino enquanto como agentes de transformação “criativos”, conectando salas de aula às ruas, teorias à prática e problemas locais a soluções globais. Referências Abrelpe. (2022). Panorama dos resíduos sólidos no Brasil 2022. Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. https://panorama.solutions/en/organisation/abrelpe-associacao-brasileira-de-empresasde-limpeza-publica-e-residuos-especiais Barros, A. P. B. (2020). Os clusters criativos e as transformações no território: O Porto Digital e o Bairro do Recife [Dissertação de mestrado, Universidade Católica de Pernambuco]. Ellen MacArthur Foundation. (2015). Towards a circular economy: Business rationale for an accelerated transition. Cowes, Reino Unido: Ellen MacArthur Foundation. Governo de Pernambuco. (2020). Plano estadual de resíduos sólidos de Pernambuco. Recife: Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Grossi, M. (2014). Sustentabilidade: O futuro do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Elsevier. Landry, C. (2013). Origens e futuros da cidade criativa. São Paulo: SESI-SP Editora. Manzini, E. (2015). Design, when everybody designs: An introduction to design for social innovation. Cambridge, MA: MIT Press. Sachs, I. (2007). Rumo à ecossocioeconomia: Teoria e prática do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Garamond. UNESCO. (2013). Creative economy report 2013: Widening local development pathways. Paris: UNESCO.
(41) Webster, K. (2015). The circular economy: A wealth of flows. Cowes, Reino Unido: Ellen MacArthur Foundation Publishing. WWF Brasil. (2021). Relatório: Impactos da poluição plástica no Brasil. https://www.wwf.org.br/ SOBRE OS AUTORES Albérico Paes Barreto Barros Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, 1988). Pós-graduado em Arquitetura Contemporânea pela UNICAP (2011) e Mestre em Indústrias Criativas (UNICAP, 2020). Sócio da Rangel Moreira Arquitetura desde 1994, com atuação na área de projetos imobiliários e comerciais. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2471405726887412 ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1103-1091 E-mail:
[email protected] Rafael Campos Rangel Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela UNICAP (2009), com Láurea e prêmio Opera Prima (2010). Especialista em Metodologia e Técnicas de Análise na Arquitetura Contemporânea (UNICAP, 2010) e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE (2018). Atua em ensino, pesquisa e extensão. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9252161757954405 ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1112-3826 E-mail:
[email protected]
(48) improvisou na área um espaço para oficina e manutenção das embarcações e das redes de pesca, além de áreas de banheiro, depósito de freezers e combustíveis, utilizando inclusive o espaço entre vigas estruturais da Ponte do Limoeiro. Tais improvisos acentuam a insegurança no cotidiano de trabalho, com materiais reaproveitados, gambiarras elétricas, de esgoto e de água. Apesar do cenário de improviso, eles demandam o reconhecimento territorial 1 para a oficialização da sede da organização, pois permitirá que a Associação seja formalmente reconhecida como pessoa jurídica. Esse fato é essencial para que eles possam pleitear, receber e participar de programas e ações sociais, sejam eles institucionais ou nãogovernamentais e assim, fomentar e equipar a associação. Nesse contexto, quarenta e oito estudantes da disciplina de Atelier de Projeto 4, buscaram contribuir com a problemática sobre a invisibilidade dos pescadores, e ampliaram seus conhecimentos sobre estruturas físicas espaciais e sociais, compreendendo a relação intrínseca e complexa entre esses aspectos como prerrogativa fundamental para 1 Os pescadores artesanais do Recife estão perdendo o acesso ao seu território e à pesca, conforme relata uma reportagem de 2017 da Revista Marco Zero. A regularização de suas terras e a garantia do direito de viver da profissão, herdada de gerações passadas, têm mobilizado 11 comunidades da capital e uma de Olinda. Essas comunidades vêm pressionando a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado contra o avanço da especulação imobiliária, a poluição dos rios do Recife como o Capibaribe, a falta de atenção à saúde nas áreas ribeirinhas e o aumento da violência. Em setembro daquele ano, representantes dessas comunidades, como Brasília Teimosa, Bode, Ilha de Deus, Coelhos, Coque, Vila São Miguel, Caranguejo Tabaiares, Vila da Imbiribeira, Vila Tamandaré, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência (Recife) e Ilha do Maruim (Olinda), organizaram o Primeiro Encontro de Pescadores e Pescadoras do Recife, às margens do Rio Capibaribe, no Memorial de Medicina de Pernambuco. Durante o encontro, foi elaborada a "Carta dos Pescadores e Pescadoras na Luta em Defesa de Direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais", que define esses territórios como espaços compostos por elementos concretos e subjetivos. Além das águas dos rios, mangues e mares, esses territórios incluem as terras onde vivem e trabalham, e envolvem profundas relações históricas e identitárias das pessoas com os lugares ribeirinhos.
(49) concepção do projeto de arquitetura de um pequeno atracador para auxiliar suas atividades pesqueiras. Essa contribuição vem apoiar a resistência desse grupo social por permanecer nessa localidade visto que os processos de ocupação (e desocupação) mais recentes das frentes d'água da cidade do Recife muitas vezes respondem, quase que exclusivamente, as intencionalidades do mercado imobiliário como foi o caso da implementação do Novotel no centro histórico do Recife (figura 02) ignorando e excluindo as pessoas que interagem com o ecossistema ribeirinho como lugar de habitar e produzir. Fig. 02 Realidades antagônicas: à esquerda, o hotel marina e seus fingers privados sobre a Bacia do Pina; à direita, o atracadouro dos pescadores artesanais da Ponte do Limoeiro. Fonte: Consórcio Porto Novo Recife/Divulgação e Vera Freire, agosto de 2024. A partir do panorama apresentado, este trabalho teve os seguintes objetivos: Objetivo Geral: Desenvolver uma cartografia crítica das condições dos pescadores da pesca artesanal como meio de mostrar outras texturas da realidade que estão invisíveis nos mapas oficiais do Recife. Objetivos Específicos: 1. Envolver os estudantes na realidade oculta do grupo social dos pescadores artesanais localizados no território ribeirinho do rio
(50) Capibaribe no centro norte do Recife a fim promover a luta pelo seu reconhecimento; 2. Elaborar postais (imagens e palavras) e cartografias críticas que versem sobre seus valores sócio culturais ocultos, visando contribuir para sua visibilidade junto aos poderes governamentais e à sociedade 3. Incorporar as ODS 10 e 11 para fundamentar a formação do arquiteto urbanista como sujeito da transformação social e ambiental. Para responder aos objetivos postos, foram colocados os seguintes procedimentos metodológicos: 1. Imersão territorial a partir de visitas em campo, do Levantamento fotográfico, da Roda de conversa com os pescadores; 2. Métodos imagéticos para percepção dos lugares; 4. Pesquisas de cartografias críticas preexistentes como referencial de tipos de representações; 5. Elaboração das cartografias críticas; 6. Debates e compartilhamento e, 7. Avaliação. A partir do desenvolvimento desses passos metodológicos é fato dizer que se chegou a resultados muito importantes para um provável seguimento deste projeto. Sendo assim, faz importante detalhar melhor os referidos passos. A imersão no território onde vivem essas pessoas exige, desde o início, uma aproximação, o que se configurou como o primeiro passo dado pelos estudantes para reconhecer o lugar (Augé, 1994) dos pescadores artesanais, com o objetivo de contribuir para os seus direitos à cidade e para a promoção de uma geografia mais humanista. Através de visitas de campo, rodas de conversa com os pescadores artesanais, registos fotográficos, discussões em sala, definição de palavras significativas e oficinas, foi possível preparar a construção de "cartografias da invisibilidade".
(51) A compreensão de um território expressa por imagens e palavras integra a diversidade de recursos analíticos de determinado território e cidade que intenta expressar questões culturais, políticas e simbólicas e identitárias de um lugar. Segundo Henri Lefebvre (1968) não há como interpretar um território sem considerar as estruturas sociais, as pessoas e grupos que habitam determinado lugar, tornando assim mais complexa a interpretação do espaço urbano. O teórico do direito à cidade expõe sobre a necessidade de diversos instrumentos metodológicos para compreensão dos fenômenos urbanos, e suas complexidades, e inclui a escrita e leitura, o significante e o significado, a linguagem e a metalinguagem; analisando não só a matéria construída como as relações sociais. “Ao lado da escrita, existe a fala do urbano, ainda mais importante; essas palavras expressam a vida e a morte, a alegria ou a desgraça.” (LEFEBVRE, 1968.p.68). Lefebvre (1968), Santos (1996) Tuan (1983) oferecem críticas profundas aos modelos convencionais de urbanismo e, consequentemente, às cartografias produzidas por instâncias de poder. A cartografia crítica surge como um suporte essencial para os processos investigativos sobre determinado território, contribuindo para o ensino e aprendizagem voltados à prospecção do lugar e à construção de uma representação imagética. Na figura 03, apresentam-se registros da imersão territorial. Fig.03 Registros da primeira visita de campo ao Cais Sinhá de Menezes, guiada pelos pescadores da Associação Ponte do Limoeiro. Fonte: Vera Freire, agosto de 2024
(52) Após a imersão no território, foram realizadas oficinas em sala de aula para os estudantes escolherem palavras sínteses para a identificação coletiva das representações elaboradas pelos próprios estudantes. O passo posterior foi de reunir os conteúdos recorrentes de modo a identificar significados para a construção de narrativas resultantes das percepções dos grupos. Os estudantes se organizaram em grupo de 3 (três) para a realização das oficinas, ocasião em que os professores solicitaram que selecionassem: 9 (nove) imagens; 3 (três) palavras; 1 (um) espaço. Tudo isso para se identificar os lugares com suas identidades ocultas. Pediu-se ainda que os estudantes organizassem esse conteúdo em cartazes diagramados para facilitar os consequentes debates e trocas. Na figura 04 pode-se verificar alguns dos cartazes elaborados. Fig. 04: cartazes dos discentes para a Oficina com: 9 imagens, 3 palavras e 1 espaço. Fonte: Grupos de estudantes de Atelier de Projeto 4 da UNICAP, setembro de 2024. Após essa etapa, foi apresentado aos estudantes um referencial de cartografias críticas que desafiam as tais representações tradicionais e
(53) hegemônicas, também denominada de contracartografia. A finalidade é de questionar a pretensa neutralidade dos mapas convencionais e em algum sentido, buscar desnaturalizar as formas com que operam as mídias locativas e os sistemas de geolocalização. Compreende-se então que a contracartografia pode oferecer uma visão crítica e inovadora sobre a representação de territórios e espaços sensibilizando o olhar do estudante sobre estruturas sociais invisibilizadas contribuindo fortemente com a percepção do lugar, das experiências, da política e de como a arquitetura pode vir a contribuir com idealização de equipamentos voltados para esses grupos. Diante desse referencial, os estudantes escolheram algumas que pudessem orientá-los na produção das suas autorais. É importante ressaltar que na elaboração das contracartografias a disciplina de Atelier de Projeto 4 trabalhou em conjunto com a de Computação Gráfica III, do mesmo período e com os mesmos alunos, de modo a integrar o conteúdo das duas disciplinas de forma complementar. A computação gráfica ajudou, por exemplo, na disponibilização dos referenciais cartográficos e respectivas narrativas críticas e políticas, além de apresentar softwares diversos para o desenvolvimento gráfico das peças contracartográficas. O passo final que inclui a posterior avaliação e autoavaliação foi a elaboração das cartografias críticas pelos grupos de estudantes e a melhor forma de narrar esse passo é mostrar alguns exemplares que por si revelam os significados ocultos às cartografias tradicionais desse território do bairro de Santo Amaro tão perto do Bairro do Recife, o mais antigo da Cidade e onde se localiza a instância governamental municipal, a sede da Prefeitura. Foram elencadas quatro contracartografias (Figura 05) que versaram sobre a afirmação de pertencimento do território aos pescadores artesanais e também revelaram outras estruturas sociais que se relacionam com aquele lugar. A utilização de palavras, substantivos e adjetivos, foi um dos recursos para dar visibilidade ao conteúdo humano sobre a base de cartografia, diagramada e representada pelas quatro
(54) equipes de formas diferentes, seja utilizando o referencial geométrico do mapa convencional ou interferindo na mesma para provocar um caráter orgânico ressaltando o ambiente natural e das pessoas que ali habitam. Fig. 05: Quatro contracartografias selecionadas da atividade de Atelier de Projeto 4 e Computação Gráfica III sobre o território dos pescadores artesanais do Cais Sinhá de Menezes. No canto superior: Cartografia 01, à esquerda e Cartografia 02, à direita. No canto inferior: Cartografia 03, à esquerda e Cartografia 04 à direita. Fonte: Grupos de estudantes de Atelier de Projeto 4, curso de Arquitetura e Urbanismo da UNICAP. Novembro, 2024
(55) Cartografia 01: recebeu o título de “Vozes do Mangue”, elaborada pelas estudantes: Júlia Vasconcelos, Maria Luísa Mesquita e Milena Britto. De acordo com as autoras o trabalho foi desenvolvido a partir de um processo cuidadoso de diálogo com os pescadores locais, além de matérias e vídeos que abordam a vida de pessoas no mangue. Histórias, percepções e memórias sobre o território foram colhidas e traduzidas para a cartografia. Cada relato contribuiu para compor um retrato vivo e autêntico da relação da comunidade com o mangue e o rio. Cartografia 02: “O ir e vir da Maré”, foi desenvolvido pelos alunos: Lucas Câmara, Mariana Gadelha, Maurício Makoto, Marília Porto, Mayara Melo e Thaís Costa. Baseado na contracartografia Informatio Overload as definições geométricas do mapa tem seus vetores substituídos por palavras, mais uma vez, um exemplo de utilização da escrita e palavras como essencial para visualização do conteúdo humano em determinado território. A equipe focou em sobrecarregar as informações sobre o leito do rio com palavras destacadas pelos próprios pescadores e por outras advindas das percepções dos estudantes. Cartografia 03: “Ponte do Limoeiro, 2024” foi elaborada pelas alunas: Brenda da Cunha, Gabriela Landim, Julia Maia, Kamila Lopes, Letícia Negromente e Maria Eduarda de Lima. A cartografia é tratada como um postal no qual o traçado urbano é gerado por fragmentos de formas irregulares que transmitem a ideia de contraposição ao tecido urbano regular do território adjacente à área natural onde os pescadores possuem suas instalações. Cada fragmento é constituído de uma imagem do lugar com destaque aos rostos como marcos referenciais de determinados lugares. A interferência de uma linha enfatiza a ideia de costura entre esses fragmentos que constituem a cidade. Cartografia 04: o “Mapa para Sede dos Pescadores” elaborado pelos estudantes: Lucas Thomas, Manuela Mindêllo e Rafael Rosado; representa a partir de camadas que convergem para o território estudado símbolos, artefatos, elementos edificados e naturais e palavras coletadas na troca de conversas dos estudantes com os pescadores. Todas os
(56) registros foram discutidos e organizados em três camadas: o contexto urbano, o potencial do território e a luta dos pescadores. O resultado desta cartografia se destaca pela potência motriz que os elementos e as camadas podem influenciar sobre a sede dos pescadores, como uma engrenagem de temas que por ora ressoam aspectos frágeis do território mas que os mesmos anunciam e justificam uma ação social para o território em questão com os pescadores artesanais como protagonistas principais. De forma transversal, as quatro contracartografias apresentadas buscaram desconstruir a ideia do mapa como instrumento contendor de informações suficientes para apreensão sobre os lugares. Os trabalhos refletem que é possível dar um enfoque determinado para uma cartografia, no entanto, é impossível esgotar todas as informações sobre o que constitui determinado espaço e lugar, principalmente ao levar em consideração o conteúdo humano. Nesse ínterim, considerando a causa dos pescadores artesanais, o enfoque foi interpretado e revelado de diversas formas, muitas vezes abstraindo a geometria rígida que define leitos de vias e o parcelamento fundiário da cidade dos mapas convencionais e adotando formas irregulares e orgânicas, além de palavras extraídas a partir dos diálogos realizados com os pescadores. Impacto do projeto O impacto esperado foi trazer à tona a problemática da pesca artesanal que acontece nas margens dos rios do Recife a mais pessoas que pensam, projetam e gerem a cidade. As cartografias críticas que ressaltam os valores das comunidades em situação de vulnerabilidade e que sem apoio se tornam invisíveis podem fomentar esse debate para melhoria das cidades e promover as comunidades sustentáveis, respondendo à ODS 11, assim como contribuir da redução das desigualdades conforme a recomendação da ODS 10, figura 06. A
(57) publicitação dessas cartografias será o passo posterior a ser realizado em outro semestre dessa disciplina de modo a ganhar maior visibilidade. Considerações finais O relato presente neste trabalho discorreu sobre uma experiência específica e significante referente as singularidades do grupo de pescadores artesanais que vivem há muito tempo em um território ribeiro importante do Recife e que estão prestes a ser removidos. Trabalhar com esses grupos sociais e ambientais em condições de vulnerabilidade é sempre um desafio, principalmente quando de pretende alinhar os conteúdos teóricos e propositivos para desenvolver um projeto de arquitetura em um semestre. Todavia, a cada experiência identificasse um ganho qualitativo, visto que o aprofundamento realizado adveio de um dimensionar melhor do recorte de trabalho que caracteriza a prática de extensão. Compreende-se cada vez mais que é possível contribuir com pouco quando se considera a complexidade do problema tratado, mas que é de grande relevância para diversas das comunidades envolvidas, para o crescimento profissional e pessoal dos estudantes e professores. Assim, as atividades de extensão curricularizadas reafirmam a importância também do desenvolvimento de projetos arquitetônicos coletivos. Dentre suas consequências, ressalta-se a promoção de competências de aprendizagem comportamentais, conhecidas como transversais, tais como o trabalho em equipe, o respeito e a responsabilidade com o outro, especialmente com sujeitos sociais em condições de vulnerabilidade. Nesse processo, os estudantes assumem um papel central em sua própria formação, envolvendo-se diretamente com questões concretas e desenvolvendo uma postura mais crítica e engajada diante dos desafios socioambientais. Afinal, a compreensão da profissão de arquiteto urbanista vai além do simples desenho de edifícios; ela envolve uma responsabilidade social significativa. Arquitetos e urbanistas têm o potencial de contribuir para a justiça social ao planejar
(64) surgimento de problemas de saúde, como doenças respiratórias, decorrentes da má ventilação e umidade nas residências, além de impactar negativamente o bem-estar mental e físico da população. A insegurança também é uma preocupação constante, uma vez que a infraestrutura deficiente e a iluminação inadequada tornam a comunidade mais vulnerável a crimes. A diversidade cultural é uma característica marcante da ZEIS Pilar, formada por pessoas de diferentes histórias, origens socioeconômicas e expressões artísticas. Essa pluralidade, embora enriquecedora, também apresenta desafios relacionados à coesão social e à integração entre os moradores. No entanto, a comunidade tem demonstrado um notável empoderamento e participação ativa, fomentando também ações e projetos, visando o desenvolvimento sustentável e à melhoria da qualidade de vida. Essas iniciativas reforçam a importância do trabalho coletivo e da união para superar as dificuldades e construir novas oportunidades para os envolvidos. Apresentação do projeto A introdução do Arquitetura Aberta na disciplina de Arquitetura de Interiores do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) representa uma confluência entre a prática acadêmica e a realidade social. Esta integração foi realizada através da formalização do Projeto de Extensão, o que facilitou a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos em sala de aula. Disponibilizada aos estudantes do último ano do curso de arquitetura e urbanismo, a referida disciplina tem como objetivo capacitar os alunos no planejamento, projeto e análise do espaço interior das edificações. Os encontros com os estudantes e professores aconteciam semanalmente no período da tarde. [Figura 01]
(65) Figura 01 – Registros dos encontros com os estudantes durante os assessoramentos em sala de aula. Fonte: Autores, 2025. Para cada momento, o conteúdo programático era apresentado e discutido, e todo o planejamento da disciplina durante o semestre letivo era divulgado de forma antecipada para programação e produção das atividades com todos os envolvidos. O plano de ensino da disciplina abrange um conteúdo com três importantes direcionamentos, sendo o primeiro o Desenvolvimento do Planejamento do Espaço Interior, visando as atividades humanas nos seus aspectos físicos, psíquicos e sociais. O segundo, como a Análise do Espaço, considerando aspectos técnicos e compositivos, abordando questões e condicionantes projetuais relacionados à estrutura, instalações, materiais empregados e conforto ambiental e, em terceiro, os Métodos de Ensino, através das aulas expositivas, pesquisas orientadas, seminários, visitas técnicas e aulas ministradas por profissionais visitantes. A disciplina, assim, enfatiza a importância de compreender e responder às necessidades dos usuários dos espaços interiores, levando em conta fatores técnicos e humanos. (CAVALCANTI; RANGEL, 2021) Um dos principais desafios enfrentados na disciplina foi a necessidade de aplicar os conhecimentos acadêmicos com o exercício prático. Nesse
(66) sentido, o Projeto de Extensão Arquitetura Aberta, atuou como um facilitador, rompendo um status quo e exemplificando como a academia pode atuar como um agente transformador na sociedade, não favorecendo apenas o enriquecimento da formação dos alunos enquanto futuros profissionais, como será apontado no próximo tópico, mas também contribuindo positivamente para o desenvolvimento social e urbano dessas comunidades. As atividades do Projeto de Extensão incluíram: (i) intervenções arquitetônicas através do planejamento e execução de melhorias em espaços comunitários; (ii) atividades multidisciplinares a partir do envolvimento de diversas áreas do conhecimento, como Fotografia e Jornalismo, para um impacto mais amplo e integrado; (iii) participação direta dos moradores, incentivando a participação ativa nas decisões e processos de intervenção, promovendo um sentido de pertencimento e sustentabilidade nas soluções propostas. A estruturação do projeto Arquitetura Aberta para a disciplina acadêmica se deu a partir de uma série de procedimentos metodológicos que visam a integração de estudantes universitários com a comunidade, proporcionando um aprendizado prático e significativo. A disciplina acadêmica serviu como base para o desenvolvimento das atividades, orientando os alunos através de um processo estruturado que inclui diagnóstico, oficinas, projetos e intervenções. Os tópicos a seguir detalham cada etapa adotada no projeto: a) Convocatória e Inscrição da Comunidade A primeira etapa teve como objetivo convocar a Comunidade do Pilar para a realização da plenária inicial, onde aconteceria na própria comunidade e estariam reunidos os estudantes, professores e os moradores. Na ocasião, apresentou-se a proposta do projeto Arquitetura Aberta e a importância da participação ativa. Para tanto, ao longo da semana, o evento foi
(67) divulgado através de panfletos e cartazes, grupo nas redes sociais da comunidade, além de bicicletas com alto-falantes anunciando diariamente a convocação. Toda articulação se deu a partir do fortalecimento do relacionamento com as lideranças comunitárias, garantindo que as ações do projeto fossem alinhadas com as expectativas e necessidades da comunidade. Portanto, não houve nenhum tipo de imposição para participação dos moradores, pois todo o processo e engajamento do projeto foi opcional. [Figuras 02] Figura 02 – Registro dos beneficiários que optaram por participar do Arquitetura Aberta. Fonte: Autores, 2025.
(68) b) Levantamento de Necessidades e Diagnóstico A segunda etapa do projeto envolveu a realização de visitas à Comunidade do Pilar para levantar informações detalhadas sobre as condições de moradia, infraestrutura e demandas específicas dos moradores. Este diagnóstico foi essencial para entender a realidade local e identificar as principais necessidades de intervenção. c) Oficinas e Capacitações A terceira etapa envolveu a realização de oficinas e capacitações para os moradores do Pilar. Estas atividades foram projetadas para transferir conhecimentos e habilidades práticas que possam ser aplicadas diretamente na melhoria das condições de vida da comunidade. Os temas abordados incluem técnicas de construção de baixo custo, sustentabilidade, acessibilidade, comunicação, entre outros. Os ministrantes podem ser profissionais da área, facilitadores e estudantes universitários, promovendo uma troca de conhecimentos e experiências. Na ocasião, as oficinas para a Comunidade do Pilar foram postergadas para o semestre vindouro, considerando questões técnicas e, simultaneamente, acadêmicas. d) Projetos de Arquitetura e Intervenções Por fim, como última etapa, foram desenvolvidos projetos arquitetônicos voltados para a Comunidade do Pilar, considerando as necessidades levantadas e os recursos disponíveis. Para tanto, foram elaborados
(69) formulários 1 para captar informações detalhadas das necessidades e preferências dos moradores, facilitando a criação de soluções personalizadas. Simultaneamente, aulas expositivas foram realizadas para orientação e assessoramento das propostas priorizando intervenções de baixo custo, trabalhando com princípios de sustentabilidade e viabilidade econômica, considerando como preparação dos estudantes para o entendimento da situação e desenvolvimento comportamental adequado para trabalhar com a comunidade. Impacto do projeto Na busca por alcançar seus objetivos e resoluções, o Arquitetura Aberta promove diálogos constantes com a sustentabilidade e a cidadania, de modo a gerar impactos sociais, fundamentado pelas seguintes variáveis: (i) o cumprimento da Lei Nº 11.888/2008 (ATHIS), que assegura o direito das famílias de baixa renda à assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social, integrando o direito social à moradia; (ii) a iniciativa de fornecer, mediante atendimento individualizado e coletivo, projetos arquitetônicos de qualidade, permitindo o acesso a serviços técnicos especializados; (iii) capacitação dos beneficiários por meio do fortalecimento do capital humano e social a partir de oficinas temáticas para reutilização de resíduos, ampliação da vida útil de bens materiais e confecção de produtos para uso próprio ou oportunidades de negócio; (iv) promoção da mobilização comunitária, a partir 1 O formulário utilizado no projeto Arquitetura Aberta coleta informações sobre as condições habitacionais e as necessidades específicas de cada morador. Ele abrange aspectos como número de pessoas, uso dos espaços, condições estruturais, além de identificar demandas relacionadas à ventilação, iluminação e acessibilidade. Também registra as preferências estéticas dos moradores e possíveis limitações financeiras para a execução das melhorias. Esse levantamento, permite criar projetos personalizados, promovendo soluções habitacionais eficientes e sustentáveis.
(70) da integração comunitária participativa, com adultos, jovens e crianças, capacitando-os a acompanhar e registrar as transformações do processo e a narrar essas mudanças a partir de seu próprio ponto de vista e, por fim, (v) o fortalecimento da cidadania, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS-ONU), em especial a ODS - 11, por tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis contribuindo para serviços essenciais e uma vida digna. O projeto de extensão Arquitetura Aberta, ao integrar ensino, pesquisa e extensão com uma abordagem participativa e sustentável, não apenas promove a qualidade de vida das comunidades de baixa renda, mas contribui para a formação de futuros profissionais conscientes e socialmente comprometidos, evidenciando o papel da arquitetura como instrumento de transformação social. (PAIVA, BELTRÃO, CAVALCANTI, & LOUREIRO, 2019) A elaboração parcial das atividades do projeto Arquitetura Aberta, até o momento, tem gerado resultados positivos e valiosas aprendizagens, tanto para a Comunidade do Pilar quanto para os estudantes envolvidos. Apesar da prorrogação das oficinas de capacitação, o projeto já atendeu até o momento 25 famílias, fornecendo-lhes projetos arquitetônicos personalizados para suas respectivas residências. Esta intervenção inicial revelou aspectos importantes sobre a dinâmica comunitária e a preparação dos futuros arquitetos e arquitetas. Os estudantes envolvidos no projeto demonstraram aprimoramento em habilidades práticas e teóricas relacionadas aos conhecimentos acadêmicos em situações reais, o que favoreceu suas habilidades em design sustentável e práticas de construção de baixo custo. [Figura 03]
(71) Figura 03 – Registros das apresentações dos projetos pelos alunos para os beneficiários. Fonte: Autores, 2025. Na comunidade do Pilar, a participação ativa da comunidade nos processos de planejamento e implementação também fortaleceu o tecido social e aumentou a coesão comunitária, contribuindo para um ambiente mais integrado. No entanto, um dos principais desafios enfrentados foi o envolvimento tímido e, por vezes, desinteressado de parte da comunidade. Muitos moradores ainda desacreditam na possibilidade de retorno efetivo das ações propostas, devido às experiências malsucedidas prometidas pelos Órgãos Governamentais e que não resultaram em melhorias concretas. Esse ceticismo, em parte, dificultou a mobilização e o engajamento total necessários para o pleno sucesso do projeto. Por outro lado, uma parte dos estudantes, por sua vez, enfrentam inseguranças naturais ao projetar espaços para um público real, temendo, por exemplo, estimular expectativas sem garantias de realização. No entanto, a crença no poder transformador da arquitetura e na materialização de sonhos continua a ser um forte motivador. Essa tensão entre a insegurança e a aspiração a realizar sonhos torna-se um terreno fértil para o crescimento profissional e pessoal dos estudantes. [Figura 04]
(72) Figura 04 – Registro da entrega do projeto de arquitetura para os beneficiários. Fonte: Autores, 2025. Apesar dos desafios, reconhece que o projeto Arquitetura Aberta pode proporcionar e gerar um impacto social significativo. A documentação das atividades e a elaboração de relatórios detalhados podem servir como instrumentos para influenciar e fomentar políticas públicas e chamar a atenção para as necessidades reais das comunidades de baixa renda. O envolvimento dos moradores cresceu à medida em que eles começaram a receber os projetos arquitetônicos personalizados, inclusive, compartilhando e divulgando suas propostas entre eles e, com isso, se certificaram dos benefícios tangíveis das intervenções e a importância papel da arquitetura na transformação de suas residências. As oficinas e capacitações planejadas, quando implementadas, deverão fortalecer o capital humano e social da comunidade, promovendo habilidades práticas e consciência sobre a importância do planejamento arquitetônico. Nesse cenário, oito pontos foram considerados principais para competências e habilidades dos estudantes ao longo da disciplina e enaltecidas através de alguns depoimentos: O (i) aprendizado prático e aplicado esteve diretamente relacionado à experiência de campo, pois os alunos tiveram a oportunidade de aplicar os
(73) conhecimentos teóricos adquiridos ao longo do curso em um contexto real, enfrentando desafios concretos e desenvolvendo soluções práticas. Ainda, o trabalho com projetos reais permitiu aos estudantes aprimorarem o desenvolvimento de suas habilidades técnicas e comunicativas, como planejamento de espaço, escolha de materiais e técnicas de construção apropriadas para diferentes contextos, sobretudo o de baixa renda. Esse ponto esteve presente no depoimento de um dos estudantes: ...o trabalho me apresentou a possiblidade de projetar para um cliente de forma livre e autônoma, seguindo meu ritmo e permitindo experimentar outras ideias para o layout e decoração do apartamento. Autonomia que não tive durante o estágio. Participar do processo completo desde o briefing até a entrega do produto para o cliente nunca me ocorreu e pude exercitar minha capacidade de comunicação e de interpretação dos gostos das clientes. Projetar para a comunidade não foi diferente de projetar para um cliente do escritório, mas particularmente sinto que a satisfação de entregar o projeto foi maior tendo em vista que foi um projeto inteiramente desenhado por mim; e ver as pessoas animadas recebendo seus respectivos produtos foi um lembrete do porquê fiz esse trabalho. (DANTAS, BEATRIZ. 2024.) Quanto à questão do (ii) Impacto Social, notadamente os estudantes buscaram alcançar melhorias da qualidade de vida da comunidade através das intervenções pontuais, proporcionando ambientes adequados, seguros e saudáveis, com novos arranjos espaciais e layout diversificado. O depoimento a seguir reforça a questão do impacto social: ...o processo de criação dos projetos foi muito desafiador pela questão do espaço extremamente limitado, reaproveitamento de móveis já existentes e orçamento de obra reduzido, mas foi uma experiência muito enriquecedora, onde pude aprender bastante a desenvolver projetos inteligentes e multifuncionais, além de ter
(80) CAPÍTULO 5 ESTRATÉGIAS DE VISIBILIDADE, COMUNICAÇÃO E ÉTICA PROFISSIONAL: PROJETO COMUNICARQ NAS REDES SOCIAIS D.O.I.: https://doi.org/10.5281/zenodo.17021638 Igor Villares de Carvalho Rafael Campos Rangel Paula Maria Wanderley Maciel do Rêgo Silva O projeto de extensão ComunicArq, do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNICAP, tem como objetivo fortalecer a visibilidade institucional e ampliar o diálogo entre universidade e sociedade por meio da comunicação digital. A iniciativa atua na divulgação de práticas acadêmicas, pedagógicas e profissionais em redes sociais e repositórios digitais, promovendo engajamento, transparência e disseminação do conhecimento. Estruturado em etapas que incluem pesquisa bibliográfica, mapeamento de eventos, produção e circulação de conteúdos digitais, o projeto contribuiu para registrar metodologias inovadoras e aproximar a comunidade acadêmica de diferentes públicos externos. Além disso, promoveu a formação de estudantes para o uso ético, crítico e estratégico das mídias digitais, em consonância com a LGPD e com as diretrizes do CAU/BR. Os resultados demonstram impactos significativos: desenvolvimento de competências como criatividade, comunicação, trabalho em equipe e pensamento crítico, além do fortalecimento da interação entre universidade e sociedade. Alinhado ao ODS 4 – Educação de Qualidade, o ComunicArq constitui uma experiência transformadora ao integrar ensino, pesquisa e extensão em um processo que alia ética profissional, inovação e responsabilidade social, preparando futuros arquitetos e urbanistas para os desafios do século XXI. Palavras-chave: Extensão Universitária; Comunicação Digital; Arquitetura; Redes Sociais; ODS 4.
(81) Introdução A comunicação digital tornou-se um elemento indispensável para a disseminação de conhecimento e a construção da identidade institucional no âmbito acadêmico e profissional. No ensino superior, estratégias de visibilidade e divulgação são fundamentais para ampliar o impacto das atividades pedagógicas e acadêmicas junto à comunidade. Nesse contexto, o projeto ComunicArq, iniciativa do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), alinha-se à missão da instituição de consolidar-se como uma Universidade Comunitária de interesse público (UNICAP, 1995). O projeto busca fortalecer a visibilidade do curso e da instituição, promovendo a divulgação de atividades acadêmicas, pedagógicas e profissionais de forma acessível e interativa. Por meio do uso estratégico de redes sociais, como o Instagram, e outras plataformas digitais, o projeto visa ampliar o alcance das práticas inovadoras desenvolvidas pelo curso, destacando sua notoriedade acadêmica, visão humanista e metodologias ativas. O público-alvo do projeto é diversificado, abrangendo estudantes, entusiastas, profissionais da área, instituições públicas e privadas interessadas em parcerias estratégicas. Ainda, o ComunicArq busca evidenciar os diferenciais oferecidos pela UNICAP, posicionando-se como uma ponte entre a academia e a sociedade, promovendo uma comunicação ativa e engajadora. A fundamentação do projeto reforça a importância de integrar as práticas acadêmicas e profissionais da Arquitetura e Urbanismo ao uso ético das redes sociais, em conformidade com as diretrizes do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU Brasil, 2013A, 2013B, 2014, 2022). Destaca-se, ainda, o caráter educacional do Guia Ético do Arquiteto e Urbanista nas Mídias Sociais (CAU Brasil, 2022), que apresenta princípios e boas
(82) práticas para a comunicação digital, enfatizando o respeito e a aderência aos valores éticos da profissão. Dessa forma, ao aplicarem essas diretrizes desde a formação acadêmica, os estudantes desenvolvem uma postura alinhada aos valores da profissão, promovendo um diálogo responsável e qualificado no ambiente digital. É nesse viés que o ComunicArq busca assumir um papel formador e transformador, incentivando futuros profissionais a utilizarem as mídias digitais de maneira estratégica e alinhada aos princípios éticos da profissão, se posicionando como um catalisador para a construção de uma imagem profissional sólida e responsável, reforçando, portanto, o compromisso da UNICAP e do Curso de Arquitetura e Urbanismo com a inovação e a excelência acadêmica e profissional. Apresentação do problema A comunicação na contemporaneidade vem enfrentando desafios significativos devido à dinamicidade e ao volume crescente de informações disseminadas nas redes sociais (RECUERO, 2009). No contexto acadêmico e profissional da Arquitetura e Urbanismo, a necessidade de comunicarse de forma eficaz e ética torna-se ainda mais urgente. As plataformas digitais transformaram a maneira como o conhecimento é compartilhado, exigindo dos profissionais e estudantes uma compreensão aprofundada sobre estratégias de visibilidade e engajamento. No entanto, a falta de diretrizes claras e de capacitação específica para o uso dessas ferramentas pode resultar em comunicação ineficaz, superficialidade nas interações e, em casos mais graves, na disseminação de informações imprecisas ou antiéticas. Estudantes interessados em aplicar para o vestibular do curso de arquitetura, familiares ou mesmo organizações que queiram firmar parcerias, muitas vezes, recorrem apenas à visitas pontuais ao campus ou diálogos
(83) com representantes do curso para conhecerem os atributos acadêmicos da instituição. Porém, tais ações podem não ser suficientes e, portanto, reconhece-se a importância da elaboração de um repositório digital como facilitador para registrar, documentar, acompanhar e divulgar práticas pedagógicas e metodologias para comunidade. Além de facilitar a visibilidade acadêmica para a comunidade, através das redes sociais, o ComunicArq surge como contribuidor para amenizar determinadas problemáticas, promovendo a capacitação de estudantes para o uso consciente – acadêmico e profissional – das redes sociais. Por meio de um processo estruturado, o projeto aborda a comunicação como ferramenta de articulação ao desenvolver estratégias que fortalecem a interação entre o público-alvo e os conteúdos acadêmicos, garantindo a perenidade das informações compartilhadas. Apresentação do projeto O ComunicArq é uma iniciativa colaborativa que envolve alunos voluntários e professores coordenadores, atuando em diferentes eixos do projeto. Os estudantes contribuem ativamente, sob a supervisão e orientação dos professores, registrando e enviando semanalmente materiais, peças gráficas, layouts, como fotos e vídeos, ou marcando o perfil oficial do curso em publicações no Instagram e/ou Whatsapp, que são analisadas e frequentemente compartilhadas, ampliando o alcance e a visibilidade das atividades realizadas. Esse trabalho oferece uma oportunidade prática para o desenvolvimento de habilidades técnicas e criativas, além de fortalecer a interação entre teoria e prática. As atividades do projeto estão apoiadas nos três pilares da formação acadêmica (ensino, pesquisa e extensão) e compreendidos a partir dos seguintes eixos temáticos: (Figura 1)
(84) Figura 1 – Eixos temáticos do ComunicArq. Fonte: Autores, 2024 O ComunicArq enfatiza o conhecimento e cumprimento da Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados - LGPD), destacando a importância de uma abordagem responsável no uso de informações digitais, especialmente em peças gráficas e publicações nas redes sociais. O projeto ainda incorpora, de forma central, os princípios e diretrizes das Resoluções nº 52/2013, 67/2013 e 75/2014 do Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU/BR, que tratam, respectivamente, do Código de Ética e Disciplina, dos Direitos Autorais na Arquitetura e Urbanismo e da responsabilidade técnica em projetos, obras e serviços. Tais documentos são introduzidos aos alunos ainda na graduação de forma apropriada, para que conheçam os meandros da prática profissional regulamentar. Essa combinação de orientações éticas e legais fortalece a formação dos estudantes, preparando-os para atuar com integridade no mercado profissional na era da comunicação digital. As ações desenvolvidas proporcionam aos estudantes oportunidades de explorar a potencialidade das redes sociais para engajamento, divulgação de serviços e construção de sua imagem profissional. Além disso, a interação digital estimula uma compreensão consciente e aprofundada
(85) do papel do "mass-media" na comunicação contemporânea, permitindo que os participantes desenvolvam competências fundamentais, como criatividade, estratégia e adaptação às demandas do mercado, essenciais para uma atuação profissional qualificada e responsável. (Figura 2): Figura 2 – Produção do conteúdo: eventos, diversidade, ações inclusivas, acadêmicas. Fonte: Autores, 2024 Metodologicamente, o ComunicArq se estrutura em cinco etapas: a) Pesquisa bibliográfica: investiga a comunicação como ferramenta de articulação entre academia e sociedade, abordando princípios de ética e responsabilidade digital. b) Mapeamento de eventos e atividades: identifica e organiza eventos acadêmicos e profissionais relevantes para a construção de produtos midiáticos. c) Produção de conteúdo digital: utiliza softwares de design e edição para transformar as práticas acadêmicas e profissionais em materiais visuais e interativos. d) Divulgação nas redes sociais: promove o engajamento do públicoalvo por meio de plataformas como Instagram e WhatsApp.
(86) e) Criação de um repositório digital: organiza e disponibiliza os materiais desenvolvidos, garantindo transparência e acessibilidade. (Figura 3). Figura 3 – Parte do repositório digital. Página inicial do Instagram do curso. Fonte: Autores, 2024 Impacto do projeto O ComunicArq contribui diretamente para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovendo uma Educação de Qualidade (ODS 4) (Figura 4). O desafio da contemporaneidade quanto à inovação de práticas e metodologias na educação tem sido um tema recorrente, sobretudo no campo universitário. As práticas educacionais e as ações exploradas pelo curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco favoreceram à comunidade ao oferecer um panorama e conhecimento sobre a qualidade da formação de um estudante de arquitetura para atuação no campo profissional.
(87) Como reflexo, as ações do projeto foram direcionadas para o engajamento da comunidade na participação de eventos educacionais, promovendo o reconhecimento e a facilitação do acesso às práticas pedagógicas e metodológicas por meio do repositório digital das ações acadêmicas que envolvem ensino, pesquisa e extensão. Os ODS conectam o mundo digital e a educação ao promover inclusão, acesso ao conhecimento e conscientização global. No digital, ampliam debates sobre sustentabilidade, ética e inovação. Na educação, orientam práticas para formar cidadãos críticos, alinhados a um futuro mais justo e sustentável (ONU, 2015). Figura 4 – ODS 4 – Educação de Qualidade como direcionamento do ComunicArq. Fonte: ONU (2015), modificado pelos autores A interação entre estudantes e professores no desenvolvimento das atividades vem ampliando habilidades como trabalho em equipe, empatia, criatividade e comunicação. A aplicação de tecnologias e ferramentas digitais no contexto acadêmico reforça a capacidade de planejar, executar
(88) e avaliar conteúdos éticos e de impacto social. Os estudantes são incentivados a desenvolver uma visão crítica do uso das redes sociais a fim de evitar distorcer informações ou divulgar conteúdos que possam prejudicar a imagem da profissão ou de terceiros, como práticas de concorrência desleal ou a disseminação de dados sensíveis sem autorização. Os números gerados a partir das análises gráficas, considerando o crescimento mensal de inscritos/seguidores (mais de três mil em 2024) nas redes sociais, seguem contribuindo para o entendimento e compreensão da realidade acadêmica (Figura 5). O que antes apresentava um cenário questionável, hoje revelou aos alunos extensionistas a potencialidade de se trabalhar com o "outro-digital". A interação não é dada diretamente com o público de modo presencial; no entanto, a interatividade por meio de diálogos digitais permitiu o entendimento mais amplo do alcance das informações prestadas. A experiência vem proporcionando ainda uma compreensão prática dos desafios e oportunidades do ambiente digital, preparando os alunos para utilizá-lo como extensão de suas competências profissionais. Figura 5 – Principais conteúdos com base no alcance. Mais de mil visualizações. Fonte: Autores, 2024 Destacamos a importância da participação dos alunos no trabalho, como exemplo trazemos o relato de uma aluna voluntária:
(89) Participar deste projeto foi uma experiência incrível e enriquecedora em vários aspectos. Em nível pessoal eu aprimorei minhas habilidades interpessoais, minha comunicação e o trabalho em equipe. Em nível acadêmico eu vi o quanto é importante a comunicação como principal ferramenta estratégica na interação da academia com a sociedade. A participação na elaboração de um repositório digital e conteúdo, não apenas reforçou minha compreensão prática, mas também me deu uma experiência valiosa em gerenciamento de informações contribuindo significativamente para minha vida profissional. (Dados coletados pelos autores) Ressaltamos também o impacto da participação de um dos docentes do projeto. O que ilustra a contribuição de um arquiteto urbanista atuante no campo da comunicação visual e redes sociais: Participar deste projeto trouxe aos alunos uma experiência incrivelmente enriquecedora em diversos aspectos. Primeiramente no nível pessoal, testemunhei um aprimoramento notável de sua comunicação e capacidade de trabalho em equipe. No âmbito acadêmico, destaco a importância da comunicação como ferramenta estratégica fundamental na interação entre a academia e a sociedade externa. Este projeto de extensão possibilita um contato com ferramentas de comunicação importantes, a relação sociedade e universidade se estreitam e a participação dos docentes é fundamental neste processo. (Relato coletado pelos autores) E, por fim, a dinâmica do “Fala Comunidade”, realizada pelos extensionistas, quando estes abrem uma pergunta ou comentário para interação
(96) energia. Além desses, o ODS 10 que busca combater disparidades econômicas, sociais e políticas, promovendo a inclusão de grupos marginalizados, garantindo oportunidades iguais e melhorando a regulamentação dos mercados financeiros globais para maior equidade e, por fim, o ODS 11 que destaca a necessidade de tornar as cidades mais seguras, resilientes e sustentáveis, com planejamento urbano que priorize a mobilidade segura e a qualidade de vida. Ao explorar a relação entre o mau planejamento urbano, o aumento dos acidentes automobilísticos e o consequente crescimento da demanda por atendimentos neurocirúrgicos, sob a perspectiva dos ODS, buscamos não apenas identificar as causas e os impactos desses problemas, mas também propor soluções alinhadas aos princípios do desenvolvimento sustentável. Ao longo deste capítulo, discutiremos como a ineficiente implementação de medidas de planejamento urbano pode afetar a saúde pública, refletindo para a alta incidência de traumas neurocirúrgicos. A partir de dados relevantes e de exemplos práticos, será demonstrado que investir em cidades mais seguras e sustentáveis não é apenas uma questão de infraestrutura, mas um passo essencial para alcançar os objetivos globais de desenvolvimento sustentável e garantir um futuro mais saudável e equitativo para todos. Apresentação do problema/desafio A traumatologia considera que os desfechos dos acidentes automobilísticos obedecem a uma curva trimodal de distribuição das mortes, sendo a primeira curva aquela das mortes imediatas e inevitáveis e que acontecem na cena do trauma. Nessa fase, independentemente da qualificação dos profissionais, da eficiência dos serviços de resgate, da precisão dos algoritmos de triagem ou da disponibilidade de recursos nos centros de referência, o impacto da assistência médica é limitado, pois os óbitos decorrem diretamente da gravidade do acidente. Diante desse cenário, a estratégia mais eficaz para reduzir essa curva não está no atendimento pré-
(97) hospitalar, mas na implementação de políticas públicas eficientes e na educação da população, promovendo a prevenção e a segurança viária (ATLS, 2018). A segunda curva, que compreende as mortes ocorridas nos minutos a horas subsequentes ao evento do trauma é denominada, na traumatologia, a hora de ouro: os primeiros sessenta minutos após o trauma em que as lesões orgânicas estão recentes o suficiente para serem sanadas e as lesões secundárias do organismo ainda não se instalaram, sendo oportunidade para a equipe médica agir e, com as intervenções adequadas, a agilidade dos serviços de emergência e a estratégia dos algoritmos de triagem se estabeleça o melhor desfecho possível (ATLS, 2018). O deficiente planejamento urbano dos centros brasileiros fomenta um ambiente propício a acidentes automobilísticos, pois aumenta os riscos no deslocamento pelo território, alterando significativamente a primeira curva da traumatologia. Diante disso, é imperioso compreender a epidemiologia dos sinistros de trânsito e seu impacto no sistema de saúde, com enfoque nos serviços de neurocirurgia. a) A cidade: Com o progresso técnico e a chegada da civilização industrial, a visão tradicional é superada por problemas que a cidade se depara: crescimento demográfico, condições de trabalho da classe operária e enriquecimento global da cidade, em que cada um se beneficia de um espaço mínimo cada vez mais significativo, maior quantidade de objetos materiais e crescente prestação de serviços (HAROUEL, 2004) . A mobilidade urbana é causa e consequência do desenvolvimento econômico e social, da expansão urbana e da distribuição espacial das atividades em uma cidade. O direito à mobilidade urbana, portanto, é um dos componentes do direito à cidade, a qual deve permitir a circulação das pessoas e cargas em condições harmoniosas, dotada de um adequado sistema de mobilidade. Esse sistema deve ser estruturado de modo a
(98) garantir a todo cidadão autonomia nos deslocamentos desejados dentro do espaço urbano, respeitada a legislação em vigor (MPPR, 2011). A circulação está ligada aos fatores de mobilidade e acessibilidade, com relação entre condições físicas pessoais e capacidade de pagamento dos custos por cada usuário. Depende da disponibilidade de tempo por parte das pessoas, adequado com os horários de funcionamento das atividades urbanas e ofertas de meios de transporte (FOLLADOR, 2011). E numa cidade como Recife, que foi durante muito tempo a segunda capital mais desigual do país - com um índice de Gini de 0,556 em 2022 -, é lógico pensar que seus fluxos também serão desiguais e determinantes para fomentar a insegurança no trânsito. Os acidentes de transporte podem ocorrer em diversos contextos, mas é pelo seu impacto à saúde em que este texto se concentra. A necessidade humana por locomoção em curto espaço de tempo, a evolução da produção industrial em massa de veículos, a garantia de empregos e arrecadações fiscais aos governos, a precarização do transporte coletivo, criaram o "fenômeno" dos acidentes de trânsito (SCAVARDA; HAMACHER, 2011; SANT’ANNA, 2012). Os incidentes são decorrentes geralmente de mais de uma razão concomitante, porém existem os fatores considerados mais importantes: ambiente inadequado de circulação; o uso do álcool ou drogas; velocidade excessiva (a energia cinética dos veículos aumenta exponencialmente com a velocidade); condições da pista e da sinalização; estado de manutenção dos veículos (VASCONCELLOS, 2012). Aproximadamente 1,2 milhão de pessoas por ano no mundo morrem vítimas dos acidentes de trânsito e no Brasil, o número de mortos e feridos graves ultrapassa 150 mil pessoas, sendo que mais de 90% das mortes ocorrem em países de baixa e média renda. A Organização Mundial da Saúde - OMS estima que as perdas anuais mundiais devido aos acidentes ultrapassem US$ 500 bilhões, e no Brasil, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA estima que os custos totais dos acidentes sejam de R$ 28 bilhões ao ano.
(99) A espacialização dos acidentes de trânsito é importante por fornecer subsídios para o planejamento e para a execução de políticas públicas, aumentando sua eficácia e eficiência na redução e na prevenção desses agravos. O primeiro acidente de trânsito registrado no Brasil ocorreu em 1897, quando José do Patrocínio importou um veículo da França e o deu para o escritor Olavo Bilac dirigir. O motorista, o qual não possuía habilitação, bateu em uma árvore quando estava a uma velocidade de 3 quilômetros por hora na Rua da Passagem, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Nessa época ainda não se imaginava que este, o acidente de trânsito, seria um dos maiores problemas sociais do País (VASCONCELLOS, p. 127, 2012). b) O trabalho: As profissões de "motoboy" ou "moto-taxista", praticadas em sua maioria por adultos jovens do sexo masculino, foram consolidadas e regulamentadas pela Lei n° 12.009, de 29/07/2009, que exige idade mínima de 21 anos, possuir habilitação por pelo menos dois anos na categoria e ter sido aprovado em curso especializado para o exercício. A motocicleta empregada como veículo de trabalho é frequentemente relacionada com o aumento do número de vítimas motociclistas, e, assim sendo, os motoboys apresentam elevado risco para sofrer acidentes de trânsito devido às exigências da profissão, como pressão para realização de entregas rápidas, pressão psicológica por maior produtividade e remuneração por ela, jornadas extensas com turnos de trabalho que ultrapassam as dez horas diárias, condições precárias, ausência de contratos formais, estresse, baixos rendimentos (BACCHIERI; BARROS, 2011). Além disso, com a uberização do trabalho, cresceu nos centros urbanos outra modalidade de trabalho com as motocicletas: os entregadores e motoristas de aplicativo, com a particularidade de que eles não respondem à legislação trabalhista vigente pois as empresas que fornecem suas plataformas de trabalho, embora devam responder à legislação brasileira,
(100) não tem sede no país, portanto, não há vínculo trabalhista, o que os torna trabalhadores informais. Há vários anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece os acidentes de trânsito urbanos como um sério problema de saúde pública em todo o mundo, em virtude de serem acompanhados por elevado índice de morbimortalidade. Aproximadamente 1,2 milhão de mortes por ano no mundo são consequências de acidentes de trânsito. Dessas mortes, 90% ocorrem em países de baixa e média renda. O Brasil está entre os países que lideram a mortalidade por acidentes de trânsito urbanos. A maioria dos óbitos e internações por esse agravo é observada no sexo masculino, na raça/cor da pele negra, nos adultos jovens, em indivíduos com baixa escolaridade e entre motociclistas (MENDONÇA, 2017). c) A(s) vítima(s): O SAMU, componente pré-hospitalar móvel fundamental da Política Nacional de Atenção às Urgências, lançada em 2004, é um serviço gratuito, que funciona 24 horas, por meio da prestação de orientações e do envio de veículos tripulados por equipe capacitada, acessado por um número de telefone e acionado por uma Central de Regulação das Urgências. Atualmente, o SAMU atende a 75% da população brasileira. No Recife, o SAMU foi inaugurado em 21 de dezembro de 2001. A capital pernambucana é sede da Central de Regulação Médica do SAMU Metropolitano do Recife; nela, também são reguladas as ligações de 17 municípios da Região Metropolitana (MENDONÇA, 2017). Considerando a natureza do acidente, em aproximadamente 60% dos casos a causa foi colisão. Com relação ao meio de locomoção da vítima, as motos representaram a maioria entre os veículos envolvidos em acidente de trânsito urbano (MENDONÇA, 2017). O sexo masculino e os adultos jovens merecem destaque quanto à realização de ações de promoção e prevenção de acidentes de trânsito urbano, visto que esses grupos são os mais acometidos por esse agravo. Esse dado pode ser consequência de uma maior exposição da população
(101) masculina e jovem no trânsito: com base em comportamentos sociais e culturais, esse grupo assume mais riscos na condução de veículos, como alta velocidade, manobras inadequadas e uso de álcool. Potenciais despesas previdenciárias podem ser geradas, elevando os custos aos cofres públicos, devido à impossibilidade de trabalho das vítimas, que convivem com a necessidade de reabilitação. Os horários que concentram os maiores números de atendimentos possivelmente estão relacionados com o horário de pico ou rush da cidade, isto é, o horário em que há um maior número de veículos circulando devido a ida e volta do trabalho, faculdade e escola. d) O serviço de saúde: Inaugurado em 1967 como Hospital de Pronto-Socorro, somente em 31 de dezembro de 1969, durante o governo Paulo Guerra, em nova inauguração, passou a atender à população pernambucana. Apenas em 1971, a unidade de saúde recebeu o nome de Hospital da Restauração (HR), batizado por causa das comemorações do tricentenário da expulsão definitiva dos holandeses do Estado, que ficou conhecida como Restauração Pernambucana. A partir de 26 de abril de 2012, a instituição recebeu o nome atual, em homenagem ao ex-governador Paulo Pessoa Guerra. O Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra é a maior unidade da rede de saúde pública de Pernambuco, com 833 leitos registrados no Ministério da Saúde. Na unidade, atuam mais de 4 mil profissionais, dos quais cerca de 3 mil são profissionais de saúde. É num serviço de tal magnitude, que é referência em ortopedia-traumatologia, neurocirurgia, cirurgia geral e cirurgia bucomaxilofacial, que se recebe o maior número de politraumatizados oriundos não só da Região Metropolitana do Recife (RMR), mas como de municípios de todo o interior do estado de Pernambuco, sendo parcela significativa desses politraumatizados vítimas de sinistros de trânsito.
(102) No escopo da neurocirurgia somente, pacientes que sofrem trauma raquimedular (TRM) ou trauma cranioencefálico (TCE) contribuem significativamente para os índices de morbimortalidade. Os pacientes jovens que sofrem TCE ou TRM são os que mais causam internações e custos médicos com hospitalizações em unidade de terapia intensiva, reabilitação, cirurgias, fisioterapia e, depois, custos previdenciários à União. Os pacientes de neurocirurgia que necessitam de cirurgia por algum evento agudo, têm a vida drasticamente impactada e oneram a sua família e a sociedade (CAMPOS, 2008). As internações prolongadas ainda contribuem para complicações clínicas, acrescendo morbidez como: infecção respiratória, úlceras de decúbito, trombose venosa e embolia pulmonar. Há, também, uma longa fase de reabilitação para a reintegração do indivíduo à sociedade. A melhor conduta, portanto, passa a ser a prevenção, daí o grande valor aos estudos epidemiológicos e das políticas públicas de segurança. Evidenciamos que lesões graves como as cervicais, em que há maior risco de invalidez, ocorrem em indivíduos jovens que representam força de trabalho significante da sociedade, elevando, portanto, os gastos públicos no suporte a tais vítimas (CAMPOS, 2008). Apresentação do projeto e impactos na formação pessoal e profissional dos estudantes O projeto de extensão, intitulado como Liga Acadêmica de Neurocirurgia da Universidade Católica de Pernambuco (LANC), foi desenvolvido a fim de complementar a formação acadêmica de estudantes que se interessam pela área neurocirúrgica, através de atividades acadêmicas teóricas e práticas. Para isso, o projeto busca a participação ativa de seus integrantes nas ações propostas que são construídas baseadas em metodologias integrativas, visando à formação de um conhecimento amplo e multidisciplinar. Assim, o objetivo geral do projeto consiste em gerar, difundir e compartilhar conhecimentos e técnicas no campo da Neurocirurgia. Assim,
(103) promovendo o pensamento crítico-reflexivo em conhecimentos teóricos e práticos no âmbito cirúrgico. Além disso, o projeto também visa complementar a formação do estudante de medicina com valores como ética, sustentabilidade e justiça. Dentre os objetivos específicos, enfatizam-se a oportunidade de participação acadêmica efetiva nos campos de conhecimento e atuação da Neurocirurgia, a partir de estratégias eficientes e criativas, ressaltando também uma prática médica centrada no paciente; o incentivo à produção científica acerca de assuntos relevantes na Neurocirurgia e suas subespecialidades, estando sempre de acordo com os parâmetros e normas técnicas e éticas preconizadas pela universidade; e o estímulo à paz, equidade, solidariedade, aproximação e troca de experiências entre acadêmicos de medicina, médicos cirurgiões e demais profissionais de saúde, promovendo o caráter inter e multiprofissional da especialidade cirúrgica. Acerca da metodologia de desenvolvimento das atividades do projeto, estas são baseadas no tripé universitário compreendido pelas áreas de ensino, pesquisa e extensão. No ensino, os estudantes participam de discussões técnico-científicas, mediadas por especialistas, acerca dos principais temas da Neurocirurgia. A realização regular dessas aulas permite a formação de uma base teórica consistente e a interação entre os alunos. Na área da pesquisa, os integrantes são divididos em grupos que são responsáveis pela discussão de temas intrínsecos à neurocirurgia, e pela fomentação de ideias para pesquisas acadêmicas relevantes, através do desenvolvimento de estudos como revisões, artigos originais e relatos de casos. Por fim, por meio da extensão, a LANC consegue levar suas atividades internas para além dos limites da universidade, conseguindo assim, transformar o conhecimento em uma ferramenta para ajudar a comunidade. Com isso, a realização de campanhas, como a corrida noturna interligas, a panfletagem contra o AVC, entre outros eventos executados, estimulam a prevenção em saúde e a conscientização por parte da população. Dessa forma, a LANC se torna um meio para que os alunos possam desenvolver e aprimorar habilidades teóricas e práticas, trocar experiências
(104) com médicos neurocirurgiões e outros alunos, além de utilizar o conhecimento adquirido para contribuir com o meio social. Impacto do projeto Planejamento urbano e saúde pública O planejamento urbano consiste no processo de elaboração de soluções que buscam melhorar ou requalificar uma área urbana preexistente ou em vigência de criação. Seu principal objetivo é proporcionar uma melhor qualidade de vida aos habitantes ao enfrentar desafios decorrentes da alta densidade demográfica, como congestionamento, acidentes de trânsito, poluição e impactos ecológicos. Para isso, o planejamento urbano é essencial para elaborar medidas que abranjam os eixos de transporte, segurança, saneamento, acesso à espaços públicos, acessibilidade, interação com meio ambiente natural, entre outros (SANTOS, 2012). Nesse cenário, é imprescindível destacar o planejamento urbano como fator de influência na saúde mental e principalmente física dos habitantes de uma cidade. Em um contexto de uma urbanização mal gerida, por exemplo, a ausência de água potável pode acarretar no adoecimento e aumento de mortalidade da população em vulnerabilidade, da mesma forma que um maior índice de ocorrência de acidentes de trânsito está relacionado com congestionamentos e o não planejamento do trânsito urbano (ÁNGEL CÁRDENAS, 2023; SANTOS, 2012). Impactos do planejamento urbano na neurocirurgia O neuro-urbanismo é o campo de estudo que busca compreender a estreita relação entre a pesquisa urbana e a saúde. Este segmento do saber ocupa-se com a proposição de teorias que avaliem o impacto da disposição dos elementos constituintes da cidade no componente neurológico e psíquico do indivíduo. De acordo com o antropólogo Michel Agier (2015), a cidade é essencialmente dinâmica. Nesse sentido, o planejamento urbano deve contemplar tal aspecto, com constantes aprimoramentos técnicos no intuito de promover o urbanismo saudável.
(105) No cenário atual em que o planejamento urbano não constitui-se uma prioridade, a disposição inadequada de elementos aumenta significativamente a incidência de quedas e acidentes automobilísticos conforme foi largamente discutido no presente estudo. Para a neurocirurgia, portanto, em sendo o acidente automobilístico a principal causa de TCE (LADEIRA, 2017), a correta aplicabilidade do urbanismo com o fito de preveni-los constitui mister interesse, reduzindo custos para os cofres públicos e morbi-mortalidade nacional. Assim, o projeto de extensão universitária em Neurocirurgia, em especial a LANC, tem um papel fundamental na orientação da população sobre a prevenção de traumas cranianos, no fortalecimento do vínculo entre a academia e as políticas públicas. Iniciativas voltadas à educação sobre acidentes podem ajudar a reduzir a sobrecarga dos serviços neurocirúrgicos causada por incidentes urbanos e diminuir a mortalidade na primeira hora após o evento traumático. Além disso, esses projetos promovem a interação entre estudantes, profissionais da saúde, favorecendo pesquisas e contribuindo para o desenvolvimento de estratégias eficazes na reorganização dos espaços urbanos, com foco na redução de riscos neurológicos. Relação com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) Os objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) consistem em um plano de ação, elaborado pelos 193 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), durante a conferência Rio+20, realizada em 2012. O plano envolve 17 objetivos globais, que englobam 169 metas a serem cumpridas até o ano de 2030. Implementados em 1° de janeiro de 2025, os ODS integram a Agenda 2030 e visam à erradicação da fome e da pobreza, garantia dos direitos da mulheres, promoção de saúde e bem-estar, proteção ambiental, efetivação da paz e justiça, entre outros propósitos que proporcionem o crescimento e cooperação de todos os países sem comprometimento das gerações futuras (CAMARA et al., 2024).
(112) Introdução "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome" (Carolina Maria de Jesus) A extensão compõe a tríade que estrutura as universidades brasileiras. O ensino, a pesquisa e a extensão, são componentes fundamentais para o processo formativo dos (as) estudantes. Para o Ministério da Educação (MEC), a extensão universitária é um processo que coloca em relação às dimensões: educativa, cultural, social e científica, em articulação com a pesquisa e o ensino. Ou seja, a extensão é potencialmente responsável pela produção e difusão de conhecimento. É um espaço de troca entre a sociedade e a universidade. É através da extensão que os aprendizados elaborados na sala de aula se materializam. A extensão aproxima as necessidades que estão postas na realidade das comunidades da universidade, desafiando-a a responder de forma criativa, inovadora e eficiente tais demandas. A extensão é um convite ao pesquisador (a) ao compromisso de a partir de seus estudos e pesquisas estabelecer um diálogo com questões concretas, resolvendo problemas reais. Para as (os) estudantes envolvidas (os) a extensão pode proporcionar uma experiência completamente nova, ao colocá-las (os) em contato com uma realidade, muitas vezes, desconhecida. A intervenção na realidade tem o poder de possibilitar a produção de reflexões críticas, mediadas pelo conhecimento acumulado em sala de aula. É, sem dúvida, um espaço de difusão de conhecimento, propício para o fomento de novas (os) pesquisadoras (es). Neste sentido, a extensão universitária é um ambiente promotor de transformação da realidade. No entanto, se faz necessária uma compreensão dessa capacidade, visando um envolvimento maior das (os) docentes e
(113) em consequência das (os) estudantes em experiências extensionista. Não perceber a importância da extensão na relação entre a sociedade e a universidade, coloca em risco a garantia da indissociabilidade entre os demais elos que sustentam a vida acadêmica. Entendemos que a realidade de desigualdade social, que impossibilita o acesso da população empobrecida a bens e serviços, tem demandado que a extensão universitária deixe o lugar periférico, muitas vezes a ela relegado, e, ganhe visibilidade, a partir de propostas capazes de alterar contextos de injustiças. Para o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (2010), as universidades cumprem uma função social que demanda um compromisso social estratégico, promovendo a interação transformadora com setores da sociedade. É com essa compreensão que surge o Jardim Solidário, em um contexto de retorno do Brasil ao Mapa da Fome, após a pandemia da Covid 19. Em 2020, a COVID-19 foi qualificada pela Organização Mundial da Saúde – OMS como uma pandemia, devido ao crescimento e desenvolvimento da doença em diversos países do mundo. O jardim solidário é desenvolvido na Universidade Católica, uma universidade comunitária 1 , ou seja, é uma universidade com caráter público nãoestatal, abrigada pela Lei 12881/13. Dentre suas características, a Unicap apresenta o compromisso social de olhar a extensão como uma oportunidade de proporcionar aos envolvidos uma consciência crítica acerca das desigualdades e das estratégias para o seu enfrentamento, em ações concretas nos territórios. Consideramos que as práticas extensionistas não podem ser separadas da pesquisa e do ensino. Sendo assim, é necessário assumir o 1 Lei nº 12.881 de 12 de novembro de 2013, de 12 de novembro de 2013. Dispõe sobre a definição, qualificação, prerrogativas e finalidades das instituições comunitárias de educação superior - ices, disciplina o termo de parceria e dá outras providências.
(114) compromisso de transmitir o conhecimento acadêmico-científico-tecnológico-inovador à comunidade e, a partir dos saberes por ela compartilhados, refletir sobre novas perspectivas, quem contribua com a reelaboração do pensar acadêmico. São universidades comprometidas com o ensino de elevada qualidade, sendo referência na produção de conhecimento científico, tecnológico e na inovação. Também são exemplares em atender as necessidades das comunidades que as cercam. Neste cenário, o Projeto de Extensão Jardim Solidário é muito importante, pois se propôs a contribuir com a solução de um problema real para a comunidade de Coqueiral. As professoras, alunas e voluntários envolvidos na proposta, passaram a olhar criticamente para a situação de desigualdade socioeconômica, produtora da fome e da insegurança alimentar. Da semente à colheita: caminhos cultivados “Para quem não sabe, um jardim é uma floresta” Provérbio Africano O Projeto Jardim Solidário tem sido um espaço de reflexão e acolhida. Primeiramente, a ideia de jardim, que nomeia o Projeto de Extensão: Jardim Solidário 1 , surge por entender ser o jardim um espaço onde a vida, na sua pluralidade, pulsa. É um pequeno território, no qual os seres vivos fauna e flora) resistem. Quem cuida do jardim não cultiva apenas plantas: também cultiva fé, esperança e saúde mental. O jardim tem a capacidade de renovar o clima e o oxigênio, acolher a chuva e restaurar a terra. Tudo em um movimento que articula e integra a diversidade, fortalecendo os diferentes ecossistemas. Não podemos esquecer que é também um espaço de cultivo da beleza, expressa nas flores, abelhas, borboletas e pássaros que visitam o 1 Este projeto dialoga com outras ações de extensão, desenvolvidas pelo Centro Universitário de Patos – UNIFIP e pelas Universidades Amílcar Cabral (UAC) e a Faculdade de Direito de Bissau de Guiné-Bissau, no continente africano.
(115) ambiente. Nele, as sementes são acolhidas no seu processo de germinação. Quem se dedica ao jardim e se relaciona com as sementes sabe que cada uma carrega uma floresta, carrega alimento, carrega novas e múltiplas possibilidades. Fig. 1 – Uma das plantas do projeto. Fonte: As autoras. A escolha pelo Jardim se dá em uma analogia com a vida. Somos diversos, habitamos a mesma Casa comum 1 , sendo assim responsáveis pelas pessoas deste território comum. Porque, como as sementes, cada um de nós carrega múltiplas possibilidades. Neste contexto, não é justo que um só ser sinta fome ou tenha acesso limitado à alimentação. Em relação ao Solidário, a escolha se deu por entendermos que a solidariedade implica na acolhida entre os humanos. A solidariedade é extremamente necessária na garantia da sobrevivência, de forma cooperativa e recíproca. O Jardim Solidário é um espaço de cooperação. O projeto consiste na troca de mudas de plantas por alimentos. Quem chega com um item não perecível pode escolher uma muda. Os alimentos são então doados a quem está com fome ou em situação de insegurança alimentar. 1 Refere-se a um conceito cunhado pelo Papa Francisco e traz a ideia de que o planeta é o lar de todos os seres vivos.
(116) O projeto passou por diversas fases. Inicialmente, ele foi desenvolvido na comunidade de Coqueiral, localizada na Região Político-Administrativa do Recife - RPA5. Cortado pelo Rio Tejipió 1 , Coqueiral é um território periférico em situação de vulnerabilidade econômica e social. Em seu entorno existem diversos bairros na mesma situação, ou seja, em condições socioeconômicas atravessadas por manifestações da desigualdade. Na comunidade de Coqueiral está situado o Instituto Solidare 2 que desenvolve uma série de ações, por meio de projetos e programas para a comunidade, no intuito de alterar a situação de uma população sem acesso aos direitos. Em uma parceria estabelecida do Instituto com a Universidade Católica de Pernambuco, fomos à comunidade e implementamos a proposta do Jardim Solidário, acolhida com entusiasmo. Logo o projeto ganhou uma logomarca, um espaço, página no Instagram e voluntárias, vinculadas ao Instituto. Um fato a destacar é que em 2022 uma das enchentes do Rio Tejipió inundou a comunidade de Coqueiral e o espaço do projeto foi bastante impactado. As mudas ficaram cobertas por lama, mas foi possível recuperar a maior parte delas. O alimento arrecadado (itens não perecíveis) era entregue ao Instituto, que se encarregava de doar às famílias já cadastradas nos projetos existentes. No processo de troca, as pessoas podiam escolher uma muda de cactos, suculentas, orquídeas, rosa do deserto, plantas ornamentais, 1 O rio Tejipió é um curso d’água que banha a Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco, no Brasil. Nasce no município de São Lourenço da Mata, tendo apenas 20 quilômetros de extensão. Serve como divisa entre os municípios de Recife e Jaboatão. Passa pelos bairros Curado, Cavaleiro, Coqueiral, Tejipió, Totó, Barro, Areias, Caçote, Ibura, Imbiribeira e Vila do Ipsep. Deságua no Rio Capibaribe. Corre nas divisas do sul – nos limites entre Jaboatão e Recife (Curado e Cavaleiro) – e, prosseguindo, recebe o ribeiro Pacheco. Depois, adentra pelas terras dos antigos engenhos Peres, Uchoa e Ibura, onde passa a receber água do riacho Jiquiá. Daí, segue serpenteando até Afogados, até desaguar no Rio Capibaribe. 2 O Instituto Solidare é uma organização da sociedade civil de direito privado, do segmento da assistência social. Tem como missão promover o desenvolvimento social, político e pedagógico, de crianças e adolescentes, a partir de suas famílias, sem distinção de sexo, etnia e credo; contribuindo para formação cidadã
(117) entre outras. Além de trocar por alimentos, as plantas também eram vendidas e, com o valor arrecadado, comprávamos comida para doar. Fig.2 - Equipe do Projeto. Professora, estagiária e voluntárias. Fonte: registro pessoal. O projeto tem a coordenação das professoras Valdenice Raimundo e Cirlene Sales. Contamos, além das voluntárias, com uma bolsista do Programa Pernambuco na Universidade 1 (Prouni-PE), Maria Augusta Batista de Lucena, aluna do curso de Serviço Social. O Projeto participou de feiras, atividades em empresas, eventos na universidade e na igreja Batista em Coqueiral, que abriga o Instituto Solidare. O Jardim solidário, além de contribuir com as ações de enfrentamento a fome, atua ainda em outras áreas importantes, tais como: 1 É destinado à concessão de bolsas de estudo do ensino superior para alunos vinculados a Instituições de Ensino Superior – IES. O PROUNI-PE tem por objetivo a formação de pessoas em nível superior, prioritariamente nos cursos de áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, através da concessão de subsídio financeiro e do atendimento às demandas dos setores econômicos do Estado de Pernambuco, propiciando melhor qualificação de recursos humanos para a sociedade e inclusão social e laboral para os bolsistas.
(118) • Autocuidado – cuidar de plantas pode ser uma atividade terapêutica, ajuda no autocuidado, reduzindo o estresse e a ansiedade, ao promover tranquilidade. É um lugar de estímulo à criatividade. • Relação com a natureza – trazendo benefícios como o fortalecimento do sistema imunológico, a redução do stress e melhora a qualidade do sono; • Promover reflexões acerca de uma proposta de desenvolvimento sustentável que colabore com a transformação da sociedade; • Solidariedade – ser sensível a necessidade da outra pessoa, nos humaniza. Essas contribuições ampliam os objetivos do projeto, com impactos sobre as famílias beneficiadas, nas pessoas que trocam o alimento por uma plantinha e, ainda, todos e todas que desenvolvem a proposta. Todas ações são regularmente planejadas, implementadas, monitoradas e avaliadas por todos os envolvidos. Em 2024 o projeto passou a integrar uma rede internacional, dialogando com ações de outras universidades, como já mencionado anteriormente. Nesta rede há um compartilhamento das experiências, visando perceber o que temos em comum, o que é específico de cada experiência e o podemos aprender uns com os outros. As ações do Jardim solidário e o diálogo com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável As ações desenvolvidas pelo Jardim Solidário dialogam com o Plano de Ação Global, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015. Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) visam erradicar a pobreza, a proteção do planeta e a garantia da paz e da prosperidade para todos até 2030. Contudo, entendemos que isso só será possível por meio do enfrentamento às desigualdades sociais, econômicas e ambientais.
(119) A fome e a insegurança alimentar não podem ser entendidas apenas como ausência de alimento, como já dissemos anteriormente, envolve a profunda desigualdade social, a pobreza e a falta de acesso justo aos recursos ambientais. O conjunto das desigualdades é produzido por um sistema focado no lucro e racista. Podemos afirmar que enquanto houver fome, nenhum outro aspecto da vida será sustentável. Estamos diante de um desafio multidimensional à Agenda 2030, pois a fome é transversal aos demais objetivos. Como exemplo, podemos destacar que o ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, dialoga com o ODS 1 - Erradicação da Pobreza, com o ODS 10 - Redução das Desigualdades. A fome é um fenômeno que afeta a saúde (ODS 3), a educação (ODS 4), a igualdade de gênero (ODS 5) e a paz (ODS 16). É preciso destacar que, na realidade brasileira, o racismo aprofunda todas as questões aqui trabalhadas. O racismo estrutural tem, historicamente, relegado pessoas negras e pardas ao não acesso à alimentação adequada, o que tem como consequência uma maior insegurança alimentar e o pior estado nutricional para esses grupos, enfatizando que para os lares chefiados por mulheres negras a questão se agrava. Diante disto, podemos afirmar que as iniciativas extensionistas, traduzidas em ações concretas, podem contribuir para o fortalecimento dos compromissos globais. Da trajetória aos resultados: caminhos percorridos e aprendizados construídos Os resultados aqui apresentados não são quantitativos e sim qualitativos. Entendemos como resultado, deste projeto de extensão, o que concretamente foi gerado a partir das ações realizadas com foco na alteração da realidade social e no fortalecimento do vínculo entre a universidade e a comunidade. Diante disto, elencaremos alguns resultados:
(120) 1. Inferimos que diante dos itens alimentícios doados, houve mudanças, por menor que tenha sido, na qualidade de vida das pessoas beneficiadas. Entendemos que a questão da fome está vinculada a uma questão estrutural e política, logo nossas ações, podem ser entendidas como paliativas, mas também como um canal de sensibilização e denúncia da ausência de uma ação estatal que possa erradica-la. 2. Espaço de geração de saberes aplicados e surgimento de novos saberes, com base na vivência e no diálogo entre conhecimento acadêmico e comunitários. 3. As/os estudantes e voluntários envolvidas/os puderem desenvolver valores como empatia e leitura crítica desta realidade. 4. Fortalecimento das instituições e universidades envolvidas. Diante do exposto, ponderando os benefícios promovidos pelo projeto, foi possível observar que as ações atenderam emergencialmente às pessoas atendidas, bem como conseguiram motivar os estudantes, voluntários e coordenação do projeto a estarem atentos as desigualdades sociais e entenderem que não são naturais. O retorno quanto à participação da bolsista Prouni-PE foi muito positivo, uma vez que contribuiu para o seu desenvolvimento individual e o fortalecimento da sua formação profissional. O projeto, portanto, possibilitou a relação entre a universidade e a comunidade, ao desenvolver atividades indissociáveis entre extensão, ensino e pesquisa. Entendemos que a fome é uma Problemática que precisa ser lembrada. Trindade (1944) 1 já dizia: Trem sujo da Leopoldina Correndo, correndo, parece dizer: Tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome... A fome e a insegurança alimentar têm marcado a vida de diversas pessoas e grupos no Brasil. A fome é resultado da desigualdade produzida pela 1 Esse poema permaneceu inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel Trindade.
(121) organização social capitalista, geradora de produção de riqueza não acessada pelas pessoas que a produzem. O Brasil é um país continental e as injustiças sociais e sua distribuição impactam as regiões de formas diferentes. A história de quase quatro séculos de escravidão e nosso largo passado colonial criaram profundas clivagens entre regiões, pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens. Tal distanciamento marcou a forma com a qual organizamos nossa sociedade, nossa economia e nosso Estado, diminuindo sua capacidade redistributiva. Em outras palavras, não só nossa economia beneficia poucos, mas também nosso Estado e nossa organização social contribuem para perpetuar desigualdades (Oxfam, 2017. p. 39). É muito contraditório que um país com acesso a avanços tecnológicos como a Internet das Coisas, a Inteligência Artificial, robótica na saúde, bioinformática, drones e outras descobertas, tenha, ao mesmo tempo, pessoas sem acesso regular à alimentação e outras sem ter o que comer. Ou seja, elas têm negado um direito essencial. E, nesse ponto, é preciso compreender a fome como uma questão de ordem econômica e política. Fig. 3 - Projeto sendo apresentado na Unicap para a população idosa, da UNICAP PRATA. Fonte: Unicap/Imagem.
(128) Introdução A insegurança alimentar é um dos principais desafios globais, afetando milhões de pessoas diariamente. Esse problema não se limita à qualidade dos alimentos, mas diz respeito também à incerteza sobre o acesso regular à alimentação. O Brasil ainda enfrenta altos índices de pobreza, o que impacta diretamente na segurança alimentar da população. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2024), houve uma redução de 85% nos casos de insegurança alimentar severa. No entanto, a fome e o desperdício de alimentos continuam sendo questões preocupantes. Diante desse cenário, o projeto de extensão "Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis" surge como uma alternativa para incentivar o aproveitamento integral dos alimentos e reduzir o desperdício alimentar. Composto por estudantes de Nutrição da Unicap do terceiro e quarto período, o projeto promove oficinas em eventos universitários e comunitários voltados para práticas sustentáveis na cozinha. Essas atividades visam engajar a sociedade no combate ao desperdício, aliando educação, nutrição e sustentabilidade. Durante a IV edição do Congresso Nacional de Biotecnologia, Ambiente, Saúde e Educação (IV CONBASE), o projeto realizou uma oficina que uniu teoria e prática sobre o consumo sustentável de alimentos. Nessa oficina, os participantes externos do congresso tiveram a oportunidade de aprender e praticar receitas que utilizam partes não convencionais dos alimentos, como bolo de casca de banana, muffin de talo de agrião, suco da casca de abacaxi e o tempero caseiro a base de casca de limão desidratada. Além de promover a conscientização sobre o valor nutricional dos alimentos, o projeto fortalece a comunidade em torno de práticas que beneficiam o meio ambiente, a economia e a saúde pública, garantindo mais formas de atingir segurança alimentar. Iniciativas como essa são essenciais para construir um futuro mais sustentável e justo.
(129) Este artigo busca analisar a importância do aproveitamento integral dos alimentos no combate ao desperdício alimentar e sua contribuição para a sustentabilidade, com foco nas atividades desenvolvidas no IV CONBASE e sua relação com os princípios da alimentação sustentável e os desafios contemporâneos da segurança alimentar. O projeto também está diretamente alinhado à Agenda 2030 da ONU e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos para o Brasil. Em especial o (ODS) 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável e ODS 12 – Consumo e Produção Sustentáveis. Nesse contexto, o aproveitamento integral dos alimentos, que é o principal tema do projeto de extensão, surge como uma estratégia relevante para a redução do desperdício e para a promoção de uma alimentação mais sustentável e nutritiva. No Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, observa-se um paradoxo: enquanto uma parcela significativa da população enfrenta insegurança alimentar, grandes quantidades de alimentos são descartadas, muitas vezes em condições próprias para consumo. Segundo a o site do Embrapa (2024), com base em dados da FAO, aproximadamente 28% dos alimentos que chegam ao final da cadeia em países latino-americanos são desperdiçados. Nesse contexto, o aproveitamento integral dos alimentos surge como uma estratégia relevante para a redução do desperdício e para a promoção de uma alimentação mais sustentável. O curso de Nutrição abrange aspectos que vão além da tradicional prescrição de dietas em clínicas. “Devendo-se destacar que nosso país convive com enfermidades típicas de países subdesenvolvidos, cuja causa é a fome e a desnutrição, resultado de uma associação de má alimentação e nutrição, bem como de um inadequado estilo de vida” (GEUS et al., 2011). Devido a essa realidade, uma das áreas que mais demanda atenção é aquela em que o nutricionista atua no combate à desnutrição de uma comunidade, uma vez que esse termo carrega um significado oposto à essência do curso. Enquanto a Nutrição tem como objetivo garantir a ingestão adequada de nutrientes, promovendo saúde e bem-estar, a
(130) desnutrição representa a consequência patológica da falta desses cuidados promovidos pelo profissional de Nutrição. Diante da importância do combate à desnutrição, o projeto de extensão "Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis" surge com uma proposta efetiva de atuação, ensinando e incentivando o consumo de alimentos em sua totalidade. É importante destacar que cascas, talos e sementes são frequentemente descartados no preparo tradicional dos alimentos, porém, esses alimentos ainda possuem um ótimo valor nutricional. Essas partes podem e devem ser reaproveitadas de maneira adequada na culinária para reduzir o desperdício e enriquecer e aumentar a alimentação das pessoas. O aproveitamento integral dos alimentos visa difundir boas práticas, especialmente entre a população mais carente, que já enfrenta algum nível de desnutrição e/ou insegurança alimentar. Esse cenário se agrava devido à diminuição do poder de compra da população, associada ao aumento dos preços dos alimentos e à baixa renda média. Além de garantir o aproveitamento máximo dos nutrientes, essa iniciativa também promove a economia doméstica para muitas pessoas, sabendo que a pobreza no Brasil ainda afeta cerca de 59 milhões de brasileiros (IBGE, 2024). Apresentação do projeto Criado no ano de 2024 e, contemplado na 3ª chamada do edital "Extensão Universitária e Aprendizagem e Serviço", da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), através do programa UNISERVITATE, iniciativa da Porticus e coordenado pelo Centro Latino-Americano de Aprendizagem em Serviço Solidário (CLAYSS), que tem o objetivo gerar uma mudança sistêmica nas Instituições Católicas de Ensino Superior (ICES) por meio da institucionalização da Aprendizagem e Serviço (A+S). O projeto de extensão “Alimentando o bem: sabores sustentáveis” surgiu da necessidade de tornar conhecido e incentivar a população a realizar o
(131) aproveitamento integral dos alimentos, utilizando as partes menos convencionais dos alimentos, tendo em vista o seu potencial nutritivo. Sob a coordenação da Profa. Dra. Natália Carvalho, o projeto conta com a atuação de 09 estudantes do curso de graduação em Nutrição da UNICAP, que se reúnem periodicamente para o planejamento de ações para serem realizadas ao longo do semestre. Dentre as ações, estão oficinas culinárias, palestras, e ao fim do projeto, a criação de um E-book com as receitas desenvolvidas pelos estudantes, para que possa ser divulgado com os interessados. O público-alvo contempla a população de comunidades, escolas e projetos locais que apresentarem o interesse de incorporar estes conhecimentos, com o objetivo de contribuir com melhor aporte nutricional, superando as desigualdades sociais. Impacto do projeto No que diz respeito à atuação do projeto de extensão, o grupo participou do evento promovido pela Unicap entre os dias 06 e 08 de novembro de 2024, o IV Congresso Nacional de Biotecnologia, Ambiente, Saúde e Educação (IV CONBASE), cujo tema foi “Desafios e Soluções para um Futuro Sustentável”. A oficina foi planejada pela orientadora do projeto e teve início com uma apresentação expositiva em slides sobre a sustentabilidade na utilização dos alimentos, direcionada aos congressistas. Em seguida, foi realizada a parte prática na cozinha do curso de Nutrição, onde os participantes tiveram contato com os alimentos e as receitas sustentáveis propostas. No momento da prática culinária, foram preparadas quatro receitas sustentáveis, supervisionadas pela professora orientadora e monitoradas por dois integrantes do grupo de extensão. As receitas incluíram: muffin de talo de agrião, bolo de casca de banana, suco da casca de abacaxi e lemon pepper caseiro.
(132) As receitas foram testadas previamente pelos alunos do projeto e executadas em conjunto com os congressistas, sob a orientação da professora. O momento de preparo das receitas sustentáveis promoveu integração entre monitores e participantes, criando um ambiente dinâmico e interativo. Cada monitor iniciou a preparação de uma das receitas, e os congressistas foram divididos em dois grupos para acompanhar o processo. Durante a execução, houve muita interação e troca de experiências, com os participantes circulando entre as bancadas de preparo para acompanhar diferentes técnicas culinárias. Além do ambiente amistoso e colaborativo, ao final de cada receita, os congressistas expressaram grande surpresa e entusiasmo ao experimentar os pratos preparados. Entre as frases mais ouvidas durante a oficina, destacam-se: “Nossa, o suco da casca de abacaxi tem o gosto do abacaxi!” “Nunca imaginaria que o bolo de casca de banana teria gosto da fruta em si.” “Esse muffin de talo de agrião está muito bom, parece até de frango!” “O cheiro do lemon pepper caseiro está muito bom!” Esses comentários demonstram a aceitação positiva das receitas e reforçam a importância do aproveitamento integral dos alimentos como alternativa sustentável e viável na alimentação cotidiana. O objetivo nessa ocasião do IV CONBASE foi difundir essas receitas e práticas sustentáveis foi atingido com aproveitamento, impactando positivamente a sociedade, incentivando hábitos que reduzam o desperdício de alimentos.
(133) Figura 1 - Parte teórica do minicurso de Aproveitamento integral dos alimentos realizado no IV CONBASE. Fonte: os autores. Durante o minicurso, primeiramente foi realizado o aporte teórico sobre o tema, com a verificação do nível de conhecimento dos participantes, seguido de uma discussão mais aprofundada do assunto e as principais atualizações científicas sobre o impacto da dessas escolhas alimentares (Figura 1). Logo após, foi realizada a parte prática, conduzida pelos monitores da oficina, integrantes do projeto de extensão, com a execução de quatro receitas criativas, todas aproveitando integralmente os alimentos (Figura 2). Figura 2 - Oficina de Aproveitamento integral dos alimentos, durante minicurso realizado no IV CONBASE. Fonte: os autores.
(134) A primeira receita foi o bolo de casca de banana, uma alternativa saudável, já que essa parte da fruta é rica em fibras e minerais, contendo mais nutrientes que a própria polpa. A casca da banana possui potássio, cálcio, luteína, ômega-3, ômega-6 e magnésio, tornando-se um ingrediente altamente nutritivo (Figura 3). Figura 3 - Elaboração de receita do bolo de casca de banana, pelos alunos inscritos na Oficina de Aproveitamento integral dos alimentos, promovida pelo projeto de extensão Alimentando o bem: sabores sustentáveis, durante minicurso realizado no IV CONBASE. Fonte: os autores. A segunda receita preparada foi o muffin de talo de agrião (Figura 4). Nesse preparo, foi possível transformar a parte do agrião que normalmente seria descartada em uma massa rica em vitamina C, vitamina A e flavonoides, compostos bioativos com ação antioxidante e anti-inflamatória.
(135) Figura 4 - Muffin de talos de agrião e bolo de casca de banana, produzidos durante a oficina de Aproveitamento integral dos alimentos, promovida pelo projeto de extensão Alimentando o bem: sabores sustentáveis, durante minicurso realizado no IV CONBASE.Fonte: os autores A terceira preparação foi o suco de casca de abacaxi, que contém vitamina C e bromelina, uma enzima com propriedades anti-inflamatórias que também auxilia no funcionamento intestinal. Além disso, foi elaborado um tempero caseiro à base da casca do limão desidratada, amplamente utilizado na culinária brasileira: o lemon pepper. Esse condimento possui vitamina C, ácido cítrico, folato, magnésio, fósforo, potássio e ferro, agregando sabor e benefícios nutricionais às preparações. Essas receitas não apenas proporcionam um maior
(136) aproveitamento dos alimentos, mas também geram mudanças de comportamento nos congressistas, que se tornaram multiplicadores do conhecimento ao demonstrarem assimilação do conteúdo ministrado e um comprometimento genuíno em modificar seus hábitos e influenciar as práticas alimentares das pessoas ao seu redor. O projeto é pertinente tanto para a comunidade acadêmica quanto, principalmente, para o público externo, que é o principal alvo das ações do projeto de extensão. Esse aprendizado promove uma mudança de mentalidade e comportamento. Além disso, o projeto e suas intervenções estão intrinsecamente ligados à Organização das Nações Unidas e à sua Agenda 2030, assinada por 193 países, incluindo o Brasil, que prevê melhorias no desenvolvimento sustentável em nível global. A Agenda 2030 da ONU representa um esforço coletivo para enfrentar os principais desafios globais, como as mudanças climáticas, as desigualdades sociais e econômicas e a escassez de recursos naturais. Segundo as Nações Unidas (2015), os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram estabelecidos para orientar ações globais que promovam a erradicação da pobreza, a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável. O projeto de extensão "Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis" contribui para essas metas ao promover práticas que combatem o desperdício de alimentos e incentivam sua utilização sustentável. A abordagem desenvolvida pelo grupo é fundamental para a construção de um futuro mais sustentável, alinhando-se diretamente aos ODS da ONU. Em particular, destacam-se os ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável e o ODS 12 – Consumo e Produção Sustentável. O ODS 2 visa erradicar a fome e garantir o acesso universal a alimentos nutritivos, um objetivo essencial que o projeto busca atingir por meio de soluções efetivas e práticas. Já o ODS 12 propõe a redução do desperdício e o consumo responsável de recursos, o que também está diretamente relacionado às boas práticas sustentáveis na cozinha, ensinadas e abordadas como temática central na intervenção realizada pelo grupo do projeto de extensão.
(137) Considerações finais Após a experiência relatada no projeto de extensão "Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis" na IV CONBASE, é possível afirmar que o projeto atingiu seus objetivos de maneira significativa, promovendo o aproveitamento integral dos alimentos e contribuindo para a redução do desperdício, ao mesmo tempo em que disseminou práticas alimentares sustentáveis. A abordagem criativa nas receitas e a metodologia adotada pelo grupo demonstraram grande eficácia na transformação do comportamento dos participantes, que mostraram um engajamento significativo durante as oficinas. Esse impacto positivo foi evidente tanto no meio acadêmico quanto na comunidade externa. Além disso, o alinhamento do projeto com a Agenda 2030 da ONU, com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, e ODS 12 – Consumo e Produção Sustentáveis, reforça sua relevância não apenas no contexto nacional, mas também global. Isso é especialmente importante em um cenário onde a insegurança alimentar continua sendo um desafio em várias regiões do mundo. As experiências adquiridas ao longo do projeto ressaltam a importância das extensões universitárias como ferramentas poderosas para a transmissão do conhecimento acadêmico à comunidade, ao mesmo tempo que contribuem para a formação prática e cidadã dos estudantes. Este tipo de iniciativa, além de gerar benefícios diretos para os participantes, cumpre um papel essencial no fortalecimento da conexão entre universidade e sociedade, oferecendo soluções práticas para problemas sociais urgentes.
(144) Devido a esse contexto, já existem investimentos para que haja a redução do desperdício ao longo da cadeia de produção, visto que, não é um fato isolado do Brasil. Sendo assim, é de suma importância que o país trabalhe em busca de medidas concretas para o aumento da segurança alimentar, sendo uma dessas, o aproveitamento integral dos alimentos como forma de diminuir as disparidades alimentícias e o desperdício como um todo. Ademais, ter esse pensamento como um dos pilares da diminuição das disparidades socioeconômicas é extremamente notável, justamente pelo direito humano à alimentação estar assegurado na Constituição Federal de 1988. Art. 6ºSão direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição (Brasil, 1988). Infelizmente, na maioria das vezes, isso se torna uma convicção utópica. Por não ser a realidade vista ao longo dos anos, o que se tem de algo concreto são pessoas com realidades socioeconômicas muito altas com uma abundância de alimentos desperdiçando. Enquanto pessoas de camadas mais abastadas sem ter com o quê se alimentar. Dessa forma, debater sobre como os desperdícios alimentares têm influência direta nas questões socioeconômicas da população brasileira – mais precisamente nas pessoas que sentem fome – se torna imprescindível. Porém, a atenção para esse tópico não é amplamente discutida no Brasil, uma vez que, ano após ano, os índices de perda de alimentos se mantêm altos enquanto 64 milhões de pessoas têm acesso restrito à comida (dados do IBGE). A segurança alimentar vai além do simples acesso aos alimentos, abrangendo a garantia de que estes sejam seguros, nutritivos e suficientes para atender às necessidades da população. Ela se baseia em quatro pilares fundamentais: disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade. Para que a segurança alimentar seja efetiva, é essencial que os alimentos
(145) estejam fisicamente disponíveis, que as pessoas tenham condições de adquiri-los, que sejam consumidos de maneira adequada para suprir as necessidades nutricionais e que essa disponibilidade seja estável ao longo do tempo. O aproveitamento integral dos alimentos, que consiste na utilização de partes usualmente descartadas, como cascas, talos e sementes, surge como uma estratégia eficaz para reduzir o desperdício e promover a segurança alimentar. Essa prática não apenas diminui o volume de resíduos orgânicos encaminhados aos aterros sanitários, mas também contribui para a preservação dos recursos naturais e a sustentabilidade ambiental. O desperdício de alimentos é um problema global que impacta não apenas a segurança alimentar, mas também o meio ambiente, uma vez que a decomposição de resíduos orgânicos emite gases de efeito estufa, como o metano, contribuindo para as mudanças climáticas. Além dos benefícios ambientais, o aproveitamento integral dos alimentos enriquece a dieta com nutrientes essenciais presentes em partes frequentemente desprezadas. Por exemplo, cascas e talos são ricos em fibras, vitaminas e minerais que podem fortalecer o sistema imunológico e prevenir doenças crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares. Sementes e bagaços de frutas, muitas vezes descartados, podem ser utilizados em preparações culinárias, fornecendo antioxidantes e compostos bioativos que favorecem a saúde. Estudos apontam que o reaproveitamento de partes não convencionais dos alimentos pode ser uma alternativa viável para combater deficiências nutricionais, especialmente em populações em situação de vulnerabilidade social. Para que o aproveitamento integral seja seguro, é crucial seguir práticas adequadas de manipulação e higienização dos alimentos, garantindo que não haja contaminação e que os nutrientes sejam preservados. Técnicas como a higienização com hipoclorito de sódio, o armazenamento adequado e o cozimento correto são essenciais para evitar riscos à saúde. Além disso, a criatividade na culinária é uma ferramenta poderosa para incentivar essa prática, tornando os alimentos mais atrativos e saborosos.
(146) A adoção de políticas públicas que incentivem o aproveitamento integral dos alimentos é essencial para a promoção da segurança alimentar. Projetos que conscientizem a população sobre a importância de consumir os alimentos em sua totalidade podem resultar em benefícios nutricionais e econômicos, além de contribuir para a sustentabilidade ambiental. Programas de educação alimentar e nutricional em escolas, campanhas de conscientização e incentivos fiscais para empresas que reduzam o desperdício são algumas das medidas que podem ser implementadas para fortalecer essa abordagem. Em suma, a segurança alimentar e o aproveitamento integral dos alimentos são interdependentes e fundamentais para a construção de um sistema alimentar sustentável, saudável e acessível a todos. Ao reduzir o desperdício e promover uma alimentação mais nutritiva e consciente, é possível garantir não apenas o direito à alimentação adequada, mas também a preservação dos recursos naturais para as futuras gerações. Apresentação do projeto Criado no ano de 2024 e, contemplado na 3ª chamada do edital "Extensão Universitária e Aprendizagem e Serviço", da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), através do programa UNISERVITATE, iniciativa da Porticus e coordenado pelo Centro Latino-Americano de Aprendizagem em Serviço Solidário (CLAYSS), que tem o objetivo gerar uma mudança sistêmica nas Instituições Católicas de Ensino Superior (ICES) por meio da institucionalização da Aprendizagem e Serviço (A+S). O projeto de extensão “Alimentando o bem: sabores sustentáveis” surgiu da necessidade de tornar conhecido e incentivar a população a realizar o aproveitamento integral dos alimentos, utilizando as partes menos convencionais dos alimentos, tendo em vista o seu potencial nutritivo.
(147) Sob a coordenação da Profa. Dra. Natália Carvalho, o projeto conta com a atuação de 09 estudantes do curso de graduação em Nutrição da UNICAP, que se reúnem periodicamente para o planejamento de ações para serem realizadas ao longo do semestre. Dentre as ações, estão oficinas culinárias, palestras, e ao fim do projeto, a criação de um E-book com as receitas desenvolvidas pelos estudantes, para que possa ser divulgado com os interessados. O público-alvo contempla a população de comunidades, escolas e projetos locais que apresentarem o interesse de incorporar estes conhecimentos, com o objetivo de contribuir com melhor aporte nutricional, superando as desigualdades sociais. Impacto do projeto Durante a Semana de Integração Universidade Católica e Sociedade (SIUCS), tivemos a oportunidade de palestrar sobre a importância do aproveitamento integral dos alimentos, trazendo alternativas sustentáveis para o uso integral dos alimentos. O objetivo foi demonstrar, de forma prática e acessível, como pequenas mudanças podem gerar impacto positivo tanto na alimentação quanto no meio ambiente. Ao longo da apresentação, explicamos como partes dos alimentos que geralmente são descartadas podem ser reaproveitadas de maneiras criativas e saborosas. Dois exemplos que foram desenvolvidos para apresentação foram o lemon pepper caseiro, feito a partir da casca do limão, e as sementes de abóbora torradas, que foram servidas à população que interagiu com a equipe durante o evento (Figura 1).
(148) Figura 1. Lemon pepper e pepita de jerimum torrada, distribuídos na apresentação do grupo durante a SIUCS. Com papel educativo, além da distribuição dos alimentos elaborados, foi criada uma gincana, de perguntas e respostas sobre o tema do projeto, a fim de conhecer o entendimento das pessoas sobre o aproveitamento integral de alimentos, aproveitando a oportunidade para contribuir com novas informações (Figura 2). Figura 2. Gincana interativa: roleta do jogo de perguntas e respostas sobre aproveitamento integral dos alimentos, produzido pelos estudantes do projeto de extensão.
(149) Para estender o alcance do projeto e atrair novos públicos, foi criada uma conta no Instagram, com o intuito de compartilhar todas as informações pertinentes sobre a iniciativa. A conta foi atualizada com conteúdos que demonstram o caráter e os objetivos do projeto, possibilitando que um número maior de pessoas conhecesse sua proposta e fosse impactado por seus ideais (Figura 3). Figura 3. Captura de tela da conta do Instagram do projeto. Considerações finais A execução deste projeto demonstra o potencial da educação em fomentar mudanças significativas, sensibilizando a comunidade acadêmica e a sociedade para práticas alimentares mais sustentáveis. O incentivo ao uso de partes menos convencionais dos alimentos contribui não apenas para minimizar o desperdício, mas também para ampliar o acesso a mais
(150) fontes de nutrientes, contribuindo com uma maior segurança alimentar e nutricional. Enfrentar esses desafios exige um esforço coletivo, envolvendo governo, setor privado, academia e sociedade civil para implementação de ações e políticas públicas eficazes, investimentos estratégicos e ações educativas voltadas para a conscientização e a transformação de práticas alimentares saudáveis. Dessa forma, o projeto reforça a necessidade de integrar conhecimento acadêmico e ação social na busca por soluções que tornem os sistemas alimentares mais eficientes e sustentáveis. O compromisso contínuo com essa pauta é essencial para avançarmos na construção de um futuro mais justo, equitativo e ambientalmente responsável. Referências Brasil. (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Brasil. (2025). Perda de alimentos não se configura apenas na esfera doméstica. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/perdas-e-desperdicio-de-alimentos Castro, J. de. (2008). Geografia da fome: o dilema brasileiro – pão ou aço (10ª ed.). Editora Civilização Brasileira. CNN Brasil. (2025). Brasil virou celeiro do mundo e já lidera as exportações mundiais de sete alimentos, diz BTG. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/brasil-virou-celeiro-do-mundo-e-ja-lidera-exportacoesmundiais-de-sete-alimentos-diz-btg/ Embrapa. (2024). Ciência e tecnologia tornaram o Brasil um dos maiores produtores mundiais de alimentos. https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/75085849 FAO. (2019). O desperdício de alimentos no mundo. http://www.fao.org/foodloss-and-food-waste/en/
(151) FIAN Brasil. (2020). Direito Humano à Alimentação Adequada. https://fianbrasil.org.br/o-que-fazemos/direito-humano-a-alimentacao-adequada/ Fiocruz. (2023). Aproveitamento integral dos alimentos. https://cogic.fiocruz.br/aproveitamento_integral_alimentos.pdf Garcia, A. L. A. (2024, julho 24). 31 milhões de brasileiros deixam a insegurança alimentar, mas Brasil segue no mapa da fome da ONU. O Globo. https://oglobo.globo.com IBGE. (2023). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Segurança Alimentar. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/17270-pnad-continua.html?edicao=39836 IBGE. (2025). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. https://www.ibge.gov.br/ Oxfam Brasil. (2025). Fome no mundo: um direito básico violado. https://www.oxfam.org.br/blog/fome-no-mundo-um-direito-basico-violado/ Olhe Para a Fome. (2025). Olhe para a fome. https://olheparaafome.com.br/ Pereira, M. G., & Silva, T. R. (2024). Os benefícios do aproveitamento integral dos alimentos: redução do desperdício alimentar. ResearchGate. https://www.researchgate.net/publication/379907339 PNUMA. (2018). Como o desperdício de alimentos está destruindo o planeta. https://www.unep.org/pt-br/noticias-e-reportagens/reportagem/como-o-desperdicio-de-alimentos-esta-destruindo-o-planeta PNUMA. (2024). Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos 2024. https://www.unep.org/pt-br/resources/publicacoes/relatorio-do-indice-de-desperdicio-de-alimentos-2024 PNUMA. (2025). Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. https://www.unep.org/pt-br Santos, K. L., Panizzon, J., Cenci, M. M., Grabowski, G., & Jahno, V. D. (2020). Food losses and waste: reflections on the current brazilian scenario. Brazilian Journal of Food Technology, 23, e2019134. https://doi.org/10.1590/19816723.13419
(152) SESC Mato Grosso do Sul. (2024). Desperdício zero: a importância do aproveitamento integral dos alimentos. https://sesc.ms/artigo/desperd%C3%ADciozero-import%C3%A2ncia-do-aproveitamento-integral-dos-alimentos Senado Federal. (2024, outubro 16). Paim alerta para desperdício de alimentos no Brasil. Agência Senado. https://www12.senado.leg.br 123 Ecos. (2024). Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) – O que é, pilares e tipos. https://123ecos.com.br/docs/seguranca-alimentar/ WWF Brasil. (2021). Perda e desperdício de alimentos. https://www.wwf.org.br/natureza_brasil/questoes_ambientais/producao_sustentavel/alimentos/perda_desperdicio_alimentos/ SOBRE AS AUTORAS Amanda Domingos Mendonça Discente de Nutrição – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Membro do Diretório Acadêmico de Nutrição Josué Apolônio de Castro. Extensionista no projeto Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis. Atuou como monitora na disciplina de Histologia I. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/0294862099746880 Gabriela Veríssimo Alves da Trindade Discente de Nutrição – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Estudante do 3º período e integrante do Diretório Acadêmico de Nutrição Josué Apolônio de Castro. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/9897758381814167 Natália Carvalho Montenegro de Vasconcelos Professora Assistente II – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Graduada em Nutrição (UFPE), mestre e doutora pelo Programa de Pós-
(153) Graduação em Nutrição da UFPE. Coordenadora dos cursos de Nutrição, Enfermagem e Farmácia da UNICAP. Integra o Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Inovação e Cuidado em Saúde (GPTICS/UNICAP) e o Núcleo de Apoio Pedagógico (NAP). E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/9697796357008242 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5508-6214 Tainá Arana Moraes de Vasconcelos Discente de Nutrição – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Estudante do 4º período, com dedicação à formação acadêmica e prática na área da Nutrição. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/0963353530940217 Talyta da Silva Tavares Discente de Nutrição – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Cursa o 4º período de Nutrição, com desenvolvimento de competências teórico-práticas para atuação profissional. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/7380542247984382 Thayná Vitória Buarque Bezerra Discente de Nutrição – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Estudante do 4º período e integrante do projeto de extensão Alimentando o Bem: Sabores Sustentáveis. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/5321833867763680
(256) Cada atividade é um convite à autoexpressão, um espaço seguro para ser e aprender. A necessidade de um projeto como o Horizonte se faz ecoar em dados que nos chamam à reflexão. O INEP e o MEC nos mostram que a distorção idade-série entre estudantes da Educação Especial ainda é um desafio a ser superado – taxas de 44,9% em 2019, caindo para 36,6% em 2021, mas ainda muito acima das médias da educação básica geral. Esses números não são apenas estatísticas; são vozes que clamam por um olhar mais atento, por um apoio que faça a diferença na trajetória de cada estudante. Eles reforçam a urgência de ações extensionistas como a nossa, que buscam tecer uma educação de qualidade para todas e todos, onde cada dificuldade é vista como uma oportunidade de um novo caminho, um novo método, um novo abraço. No aconchego da sala 309 do Bloco B, da Universidade Católica de Pernambuco/UNICAP, o Projeto Horizonte oferece esse apoio pedagógico no contraturno, um oásis onde o aprendizado acontece no ritmo de cada um. Nossa metodologia é um carinho, um convite a explorar o conhecimento de forma individualizada, amenizando os tropeços com paciência e inovação. E não estamos sozinhos nessa jornada: alunos de pedagogia e outras licenciaturas se juntam a nós como voluntários, trazendo sua energia e aprendendo na prática a arte da ludicidade e do atendimento humanizado a quem tem dificuldades de aprendizagem ou intelectual. É um intercâmbio de saberes e afetos que enriquece a todos. Nosso público é um mosaico de vidas: jovens e adultos e que vivem com a dificuldade intelectual, às vezes acompanhada de outras. Muitos deles estão conosco há mais de uma década, construindo uma história de confiança e amizade que transcende o tempo. Para que mais pessoas possam fazer parte dessa família, divulgamos nossos convites para novos participantes e voluntários através das redes sociais institucionais e dos nossos próprios canais, espalhando a semente da inclusão.
(257) Assim, o Projeto Horizonte se propõe a ser um agente de transformação, tecendo práticas educativas que elevem o nível de aprendizado de cada pessoa nas áreas de linguagem e raciocínio lógico-matemático. Para isso, nossa essência se concentra em três pilares que se entrelaçam como um abraço: 1) usar metodologias que tocam o coração e a mente, 2) criar estratégias que celebrem a interação e a socialização, e 3) abrir portas para que a capacidade criativa de cada um floresça no campo das linguagens artísticas. Metodologia: Desenhando Caminhos com Leveza e Cuidado Nossa metodologia é um convite à experiência, um mergulho no universo da ludicidade. As atividades são um fluxo contínuo de jogos e brincadeiras que fazem o aprendizado brotar de forma leve e significativa. Mas o aprendizado não se limita às quatro paredes; levamos nossos participantes para visitas externas a museus, parques e jardins, transformando cada passeio em uma aula viva, cheia de descobertas e encantamento. Fig.1Festa das Crianças/2024 - Plantio na Semana da Arvore no canteiro/ Unicap – Visita ao Museu
(258) A leitura e a escrita ganham vida através da magia da contação de histórias e da liberdade de criar poemas e músicas, onde cada palavra é um passo em direção à autoexpressão. E o corpo também fala: a música, a dança e a brincadeira abrem um palco para a expressão corporal, fortalecendo a confiança e a alegria de se comunicar. Fig.2 - Semana de Integração da Unicap/2024 - Cantata Natalina na Biblioteca da Unicap/2024 Um dos segredos do nosso sucesso reside na parceria constante com os alunos voluntários. Regularmente, sentamos juntos para planejar e avaliar as ações, trocando ideias, ajustando rotas, sempre com o olhar atento às necessidades de cada participante. E ao final de cada semestre, fazemos uma pausa para avaliar o impacto do projeto, não apenas em números, mas nas histórias de vida que ele ajuda a reescrever. É um ciclo de cuidado e aprimoramento contínuo. Fig.3 - Reunião de avaliação das ações realizadas e planejamento das ações futuras
(259) Resultados Alcançados: Histórias de Superação e Olhos que Brilham Os ecos das ações do Projeto Horizonte ressoam em inúmeras histórias de superação e em olhares que brilham de orgulho. Vemos o florescer das capacidades argumentativas, onde cada um encontra sua voz e a confiança para se expressar. A desinibição é uma conquista diária, com sorrisos que se abrem e medos que se desfazem. A habilidade de trabalhar em grupo se manifesta na alegria de compartilhar, de construir juntos, de respeitar as diferenças. E a criatividade explode, revelando artistas, inventores e sonhadores. Fig.4 - Atividades artísticas: colagem com massa de modelar e colagem com palitos de picolé O público que acolhemos demonstra um interesse genuíno, uma alegria contagiante, uma criatividade pulsante e um raciocínio que se aguça a cada dia, ampliando seu vocabulário e sua compreensão do mundo. Ver essa transformação é a nossa maior recompensa.
(260) Fig.5 - Atividade lógico-matemática: desenho no tablet - Construção de figuras geométricas E os voluntários? Eles são a alma do projeto! São jovens envolvidos, com um entusiasmo que irradia, uma criatividade que inspira e uma sensibilidade que se aprofunda diante dos desafios de aprendizagem e sociais que encontram. Para eles, o Projeto Horizonte é uma escola de vida, um convite à empatia e à construção de um futuro mais justo e humano. Fig.6 - Apresentação do Projeto Horizonte na Jornada Unicap Extensão e Comunidade pelos alunos voluntários e Festa das Crianças/2023
(261) Considerações Finais: O Horizonte de um Abraço que Transforma A ludicidade no Projeto Horizonte é mais que um método, é a essência de um abraço que transforma. Ela permite que cada desafio se converta em brincadeira, em um brinquedo que abre portas para novas experiências, novos conhecimentos e o desenvolvimento pleno de cada pessoa. A brinquedoteca, nosso espaço de luz, não é apenas um local com cores e formas; é um santuário de criatividade, sociabilidade e, acima de tudo, de aprendizado. Neste universo lúdico, onde a imaginação não tem limites, adolescentes e adultos que convivem com a neurodivergência encontram um refúgio. Ali, eles soltam suas imaginações, expressam sua criatividade e se manifestam de forma livre, sem a preocupação de julgamentos, apenas a alegria de ser. E para os jovens voluntários, o Projeto Horizonte é um presente: a oportunidade de exercitar a nobre prática de doar uma parte de seu tempo ao outro, refletindo sobre o imenso significado da educação inclusiva e da responsabilidade social. É a certeza de que a educação, quando feita com o coração, não apenas ensina, mas transforma vidas, tecendo um futuro mais inclusivo e cheio de esperança para todos. Referências Bibliográficas FRIDAN, A. et. All. O direito de brincar: a brinquedoteca. São Paulo: Scritta/Abrinq,1992. VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Portal Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/indicadores-educacionais
(262) INFORMAÇÕES SOBRE A AUTORA Shalimar Michele Gonçalves da Silva Reis Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com especialização em Administração Escolar e Planejamento Educacional (UFPE). É mestre em Ciências da Linguagem pela UNICAP e doutora em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (Portugal). Atua como coordenadora educacional na Secretaria Municipal de Educação do Jaboatão dos Guararapes (coordenando o Programa de Correção de Fluxo – parceria com o Instituto Ayrton Senna), além de ser professora no curso de Pedagogia presencial e a distância da UNICAP, e coordenadora do Curso de Especialização em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica da mesma instituição. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0343230562392387 E-mail:
[email protected]
(263) Este E-book está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Isso significa que é permitido compartilhar e adaptar o conteúdo, desde que seja dado o devido crédito aos autores e à Universidade Católica de Pernambuco como editora, mas o uso para fins comerciais não é permitido. Para mais informações, consulte: https://creativecommons
(264) .org/licenses/by-nc/4.0/ A Extensão Universitária é a expressão da missão social da UNICAP, lugar onde conhecimento e vida se encontram para transformar realidades. Por meio dela, a universidade dialoga com comunidades, constrói soluções inovadoras e promove uma formação integral, ética e cidadã. Este eBook reúne 16 capítulos que apresentam experiências diversas — da arquitetura à saúde, da psicologia à comunicação, da sustentabilidade alimentar à memória histórica — sempre em diálogo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. São relatos que evidenciam a extensão como espaço de criação, solidariedade e impacto social. Mais do que um registro de práticas, esta obra é um convite a reconhecer o papel da universidade como protagonista na construção de um futuro mais justo, inclusivo e sustentável, reafirmando a importância da Extensão e dos ODS no horizonte educativo da UNICAP.