Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 1 -
- 2 - Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP Reitor Prof. Dr. Pe. Pedro Rubens Ferreira Oliveira, S. J. Vice-reitor Prof. Dr. Pe. Delmar Cardoso, S. J Pró-reitor Administrativo Prof. Dr. Pe. Carlos Fritzen, S. J. Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação Profa. Dra. Valdenice José Raimundo Pró-reitor de Graduação Prof. Dr. Degislando Nóbrega de Lima Assessoria de Extensão e Educação Continuada Karine Rizzardi Cajueiro Prof. Msc. João Elton de Jesus (Assessor) Wilson Miguel da Silva Raimunda Ferreira da Silva Edição e Diagramação Prof. Msc. João Elton de Jesus Revisão Os autores
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 3 - Este E-book está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Isso significa que é permitido compartilhar e adaptar o conteúdo, desde que seja dado o devido crédito aos autores e à Universidade Católica de Pernambuco como editora, mas o uso para fins comerciais não é permitido. Para mais informações, consulte: https://creativecommons
- 4 - CONSELHO EDITORIAL Alan Campos Araújo (UNICAP) Andrea de Lima Trigueiro de Amorim (UNICAP) Andrea Melo Lins Storch (UNICAP) Breno José Andrade de Carvalho (UNICAP) Carmen Lúcia Borba Cavalcanti (UNICAP) Clovis Macedo Bezerra Filho (UNICAP) Daniela Gargantini – Universidade de Córdoba (Argentina) Delânio Horácio dos Santos (UNICAP) Dyego da Silva Digiandomenico (UNICAP) Eduardo Antonio Maia Lins (UNICAP) Graziela Brito de Almeida (UNICAP) Héctor Opazo Carvajal – Universidad Católica Silva Henríquez- (Chile) Jaqueline Martins Vasconcelos (IG – GO) Jessiklécia Josinalva de Siqueira –(FPS) José Ivaldo Araújo de Lucena – (UCB) Judith Pete - Tangaza University (Quênia) Lea Maria Bomfim Andrade Medeiros – (UCSAL) Leticia Ivonne López Villarreal – Universidad de Monterrey (Mexico) Luis Duarte Vieira (UEG) Neeta Gerosa Pereira - St. Joseph's College of Bangalore – (India) Paola Nascira – Universidad San Francisco de Quito (Equador) Rafael Campos Rangel (UNICAP) Rezende Bruno de Avelar (UEG) Shalimar Michele Gonçalves (UNICAP) Suzane Brust de Jesus (UNICAP) Valdênia Brito Monteiro (UNICAP) COMITÊ CIENTÍFICO Andrea Melo Lins Storch (UNICAP) Clovis Macedo Bezerra Filho (UNICAP) Fabio José Pedrosa (UFPE) Héctor Opazo Carvajal – Universidad Católica Silva Henríquez- (Chile) José Ivaldo Araújo de Lucena – (UCB) Lea Maria Bomfim Andrade Medeiros – (UCSAL) Luis Duarte Vieira (UEG) Paola Nascira – Universidad San Francisco de Quito (Equador) Cada um dos capítulos deste livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 5 - Sumário APRESENTAÇÃO ........................................................................................ 9 CAPÍTULO 1 ............................................................................................. 12 O papel da Extensão Universitária da UNICAP no alcance do ODS 3: Saúde e Bem-estar João Elton de Jesus D.O.I.: 10.5281/zenodo.17094741 EIXO PSICOLOGIA CAPÍTULO 2 ............................................................................................. 29 Ação extensionista junto a mulheres em situação de extrema pobreza: articulações possíveis a partir da fenomenologia hermenêutica Fernanda Melo Pereira da Silva; Maria Clara Loureiro Barbosa Tinôco Pires; Elissa Rafaelle Neves dos Santos; Danielle de Fátima da Cunha Cavalcanti de Siqueira Leite D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095059 CAPÍTULO 3 ............................................................................................. 45 Cuidando de quem cuida: um olhar para o profissional de saúde no serviço residencial terapêutico Gisela Gabriely Barbosa da Cruz Cardoso; Bárbara Jenifer de Santana Nascimento; Maria Beatriz Sá Mendonça da Silva; Clovis Macêdo Bezerra Filho D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095149 CAPÍTULO 4 ............................................................................................. 64 Ações extensionistas junto a pessoas em situação de rua: desdobramentos possíveis para a clínica psicológica e a formação de futuros psicólogos Maria Clara Loureiro Barbosa Tinôco Pires; Adne Jéssica da Silva Oliveira Alves; Fernanda Melo Pereira da Silva; Elissa Rafaelle Neves dos Santos; Danielle de Fátima da Cunha Cavalcanti de Siqueira Leite D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095228
- 6 - EIXO FISIOTERAPIA E NUTRIÇÃO CAPÍTULO 5 ............................................................................................. 81 Experiência extensionista em Fisioterapia e Educação em saúde para mulheres marisqueiras Cristiana Machado da Rosa e Silva Almeida Áurea Beatriz Barros De Melo; Cyntia Melo Carneiro Leão Loreto; Giovanna Villarouco de Andrade Henrique; Letícia Vitorya Santana de Santana de Paula; Yasmim Fátima Moura de Souza D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095333 CAPÍTULO 6 ............................................................................................. 99 Fisioterapia Pélvica na Saúde do Homem e da Mulher Ana Kecia Monteiro Gomes; Bianca Maria Barros Cavalcanti; Larissa Barbosa da Silva; Rebeca Silvestre Ferreira de Oliveira; Valéria C. Passos de Carvalho; Vitória Rebeca Isaac dos Santos Santana D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095440 CAPÍTULO 7 ........................................................................................... 112 Dialogando com cuidadores de crianças com deficiência Cristiana Maria Macedo de Brito; Aissa Mendes Paes Barreto; Ana Roberta da Silva Magina; Brenda de Pádua Nascimento; Maria Elisabete Stephany Benevides da Silva; Mel Carolyne Angeiras Santos D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095501 CAPÍTULO 8 ........................................................................................... 126 Meu corpo & Eu: promoção da educação em saúde para estudantes do ensino médio de escolas públicas Cristiana Machado da Rosa e Silva Almeida; Acsa Rebeca Cândido de Amorim; Ana Roberta da Silva Magina; Giovana Nogueira Diniz; Larissa Raiane Souza Vieira; Nicolle Gomes dos Santos D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095521
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 7 - CAPÍTULO 9 ........................................................................................... 143 Liga acadêmica de fisioterapia neurofuncional da Universidade Católica de Pernambuco Ana Karoline Cabral Soares; Ana Luisa Rocha de Melo Araújo; Danilo José Lima Ribeiro; Douglas Roberto de Sena Lins; Sueny Hayashi Lamour Bezerra; Ana Karolina Pontes de Lima D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095606 EIXO FONOAUDIOLOGIA CAPÍTULO 10 ......................................................................................... 155 Grupos de convivência de sujeitos com Afasia, Alzheimer e Gagueira Nadia Pereira da Silva Gonçalves de Azevedo; Isabele Brandão Silva; Yasmin de Melo Pereira Andrade; Thais Drielly Andrade da Silva; Maria Fernanda Ferrer de Albuquerque; Fernando Ramos Gonçalves D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095550 CAPÍTULO 11 ......................................................................................... 175 Escutando a comunidade: como a LAOTO-UNICAP transforma saúde em Impacto Social Sara Maria Soares McGill; Katiuscia Lucena Basílio; Larissa de Aquino Arruda Lima; Luis Gustavo Souza Mendes Lopes; Erideise Gurgel da Costa D.O.I.: 10.5281/zenodo.17095550 EIXO MEDICINA CAPÍTULO 12 ......................................................................................... 193 LUDEDUC em saúde: transformando conhecimento em cuidado através do lúdico Helena Pôrto de Assis; Luzilene Pereira de Lima ; Maria Eduarda Galvão Berenguer; Marina Guedes Almino Pessoa; Maysa Flora Barbosa Ramos e Silva; Shalom Pôrto de Oliveira Assis D.O.I.: 10.5281/zenodo.17100522
- 8 - CAPÍTULO 13 ......................................................................................... 212 Intervenção Acadêmica e Saúde Comunitária: A Liga de Cirurgia Cardiovascular e Ação em Saúde no Compaz Dom Hélder Câmara Vitória Fernanda Silva da Rocha; Mariana Araújo Honorato ; Maria Clara Teodio Albuquerque; Maria Eduarda de Lima Cabral; Pedro Rafael Salerno D.O.I.: 10.5281/zenodo.17100568 CAPÍTULO 14 ......................................................................................... 226 Projeto de Extensão Slow Medicine: por uma medicina sóbria, respeitosa e justa Vitória de Siqueira Oliveira Nunes ; Guilherme Víctor Santos Alves; Pedro Henrique Padilha Barros; Vitor Mendes Ferreira; Andréa de Melo Santos Danielle Gonçalves Seabra Peixoto Ramos; Josueida de Carvalho Sousa D.O.I.: 10.5281/zenodo.17100617 CAPÍTULO 15 ......................................................................................... 241 Intervenção social e bem-estar: palhaçoterapia e ações de saúde na escola municipal Santa Tereza Maria Clara Teodio Albuquerque; Vitória Fernanda Silva da Rocha; Suziane Menezes Rodrigues; Davi Mário da Silva Rocha; Alvaro Antônio Cabral Vieira de Mello D.O.I.: 10.5281/zenodo.17100643 CAPÍTULO 16 ......................................................................................... 255 Atendimento cardiovascular à população em situação de rua: intervenção acadêmica em saúde na Casa do Pão Evelyne Imidio Prestrelo Marinho; Lucas Rafael de Fátima Assis Carneiro Maria Cecília Muniz Cirne; Maria Michelle Silva de Araújo; Pedro Rafael Salerno D.O.I.: 10.5281/zenodo.17100691 CAPÍTULO 17 ......................................................................................... 269 Impacto do projeto de extensão em palhaçoterapia Brincart no período de enfermidade dos idosos internados no Hospital Santa Casa de Misericórdia Luisa Marinho Ramos Lima; Maria Eduarda de Lima Cabral; Maria Fernanda Azevedo Chagas; Milenna Pontes Cordeiro; Alvaro Antônio Cabral Vieira de Mello D.O.I.: 10.5281/zenodo.17632478 ÍNDICE REMISSIVO ................................................................................ 268
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 9 - APRESENTAÇÃO A universidade contemporânea é constantemente interpelada pelos desafios sociais, econômicos e culturais que atravessam nossas sociedades. Entre esses desafios, a Agenda 2030 da ONU, com seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propõe um horizonte comum: construir um mundo mais justo, solidário e sustentável. Nesse contexto, a extensão universitária surge não apenas como uma dimensão complementar da vida acadêmica, mas como espaço privilegiado de diálogo entre universidade e sociedade, entre ciência e vida, entre saberes e práticas. O ODS 3 – Saúde e Bem-Estar ocupa lugar central neste livro, mas sua realização só é possível em articulação com outros objetivos, como o combate à pobreza (ODS 1), a educação de qualidade (ODS 4), a redução das desigualdades (ODS 10) e a promoção da paz e da justiça (ODS 16). Ao reunir projetos de diferentes cursos da área da saúde, a Universidade Católica de Pernambuco reafirma que a promoção da vida exige uma abordagem integral e interdisciplinar, capaz de compreender a saúde não como ausência de doença, mas como direito, dignidade e bem-estar em todas as dimensões da existência. Esta coletânea nasce, portanto, da convicção de que a universidade não pode se fechar sobre si mesma. Ao contrário, ela se torna fiel à sua missão quando se abre ao encontro com as comunidades, ao diálogo com as necessidades concretas das populações e à escuta das vozes muitas vezes silenciadas. Cada capítulo deste livro é, nesse sentido, um testemunho da vocação transformadora da extensão universitária: transformar e ser transformada, ensinar e aprender, cuidar e ser cuidada. O livro está estruturado em eixos temáticos que evidenciam a diversidade e a riqueza das práticas de extensão na área da saúde. Essa organização permite que o leitor perceba não apenas a variedade das experiências,
- 16 - tanto estilos de vida não saudáveis quanto falhas no acesso a serviços de prevenção e acompanhamento (MALTA et al., 2019). Imagem 2 : Indicadores ODS 3. Fonte: IDSC, 2025 Outro ponto crítico é a saúde mental. O aumento dos casos de depressão, ansiedade e suicídio, associado à insuficiente oferta de serviços especializados, demonstra que a meta 3.4, voltada à promoção da saúde mental e ao bem-estar, está longe de ser alcançada. A situação se agrava quando se observa a juventude e as populações em situação de vulnerabilidade social, que encontram barreiras ainda maiores para acessar cuidados adequados (ONU BRASIL, 2020). A incidência de doenças como dengue, tuberculose e hepatites, por sua vez, reforça a necessidade de políticas permanentes de vigilância epidemiológica, em consonância com a meta 3.3, mas a precariedade na atenção primária compromete a eficácia desse enfrentamento. Esses dados evidenciam que os desafios do ODS 3 em Recife não se restringem ao setor da saúde. Eles revelam a interdependência entre saúde e determinantes sociais mais amplos, como moradia, saneamento básico, mobilidade urbana, escolaridade e renda. Como destaca Buss (2021), a promoção da saúde exige ações intersetoriais que integrem diferentes áreas das políticas públicas, bem como o engajamento de atores comunitários e acadêmicos. Assim, o desempenho limitado do município no ODS 3 deve ser interpretado como reflexo de desigualdades históricas e estruturais que atravessam a realidade urbana brasileira.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 17 - Diante desse cenário, o ODS 3 se apresenta não apenas como um compromisso global abstrato, mas como um horizonte ético-político que demanda esforços concretos no nível local. Em Recife, a persistência de indicadores frágeis reforça a necessidade de políticas públicas inovadoras, baseadas na prevenção, na promoção de saúde e na equidade. Ao mesmo tempo, evidencia-se a importância de atores não estatais, como as universidades, que desempenham um papel estratégico ao articular ensino, pesquisa e extensão com as demandas reais da sociedade. O fortalecimento da atenção básica, a ampliação da saúde mental comunitária e a educação em saúde são exemplos de campos em que a articulação entre Estado, sociedade civil e instituições acadêmicas pode contribuir para reduzir as lacunas de desigualdade e aproximar a cidade das metas do ODS 3. A extensão universitária como eixo estratégico para os ODS A universidade, desde suas origens modernas, assumiu a dupla função de formar quadros profissionais e produzir conhecimento científico. No entanto, ao longo do século XX, consolidou-se a percepção de que essas funções não bastavam para atender às complexas demandas sociais. Foi nesse contexto que emergiu a noção da extensão universitária, concebida como um movimento de abertura da universidade à sociedade e de articulação entre saberes acadêmicos e populares. No Brasil, essa perspectiva ganhou força sobretudo a partir da Reforma Universitária de Córdoba, em 1918, que proclamou a necessidade de democratizar o conhecimento e aproximar a vida acadêmica da realidade social (PAULA, 2017). Segundo Freire (1996), a educação só se realiza plenamente quando está em diálogo com a experiência concreta dos sujeitos e com a transformação social. A extensão, nessa perspectiva, constitui-se como o espaço privilegiado em que o saber acadêmico se coloca a serviço do povo, ao mesmo tempo em que se enriquece no encontro com a prática
- 18 - comunitária. Por isso, a Política Nacional de Extensão Universitária define a extensão como um processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e sociedade (FORPROEX, 2012). Trata-se de uma dimensão indissociável do ensino e da pesquisa, mas que possui especificidade: enquanto a pesquisa busca produzir conhecimento e o ensino transmite saberes, a extensão cria uma via de mão dupla, em que o aprendizado acadêmico se confronta com os problemas sociais e se compromete com soluções coletivas. Nos últimos anos, com a crescente importância da Agenda 2030, a extensão universitária passou a ser reconhecida como um campo estratégico para a concretização dos ODS. Isso porque ela possibilita não apenas a disseminação do conhecimento científico, mas a sua aplicação prática na melhoria das condições de vida da população. Como observa Ribeiro (2021), “a extensão se torna espaço privilegiado de operacionalização dos ODS, porque conecta diretamente as metas globais com os territórios locais e com a vida concreta das comunidades”. Nesse sentido, as universidades têm sido convocadas a assumir o compromisso de alinhar seus projetos e programas aos objetivos da sustentabilidade, integrando a missão acadêmica com a responsabilidade social. No Brasil, esse movimento se fortaleceu a partir da Emenda Constitucional nº 85/2015 e, sobretudo, da Resolução nº 7/2018 do Conselho Nacional de Educação, que estabeleceu a curricularização da extensão. De acordo com a norma, todas as instituições de ensino superior devem destinar pelo menos 10% da carga horária de seus cursos de graduação a atividades de extensão, articuladas ao projeto pedagógico (BRASIL, 2018). Essa mudança normativa não apenas reforça a centralidade da extensão, mas a coloca como requisito para a formação integral dos estudantes. A intenção é garantir que a formação universitária não se restrinja ao domínio técnico, mas inclua a dimensão ética, cidadã e social do exercício profissional.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 19 - No entanto, para além da curricularização obrigatória, existe um vasto campo de iniciativas de caráter voluntário, movidas pelo protagonismo discente e pela sensibilidade dos estudantes diante das demandas sociais. É o caso dos projetos analisados neste estudo, realizados por alunos da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), entre fevereiro e agosto de 2025, a partir da sistematização da Assessoria de Extensão e Educação Continuada. Trata-se de iniciativas que não se enquadram na exigência legal da curricularização, mas que revelam um movimento espontâneo de engajamento. Esse aspecto é relevante, pois mostra que a juventude universitária não se limita a cumprir obrigações formais, mas busca vivenciar a universidade como espaço de compromisso com a sociedade. Esse protagonismo estudantil encontra respaldo em autores como Furco (2011), que afirma que experiências de aprendizagem baseada no serviço (service-learning) ampliam não apenas competências técnicas, mas também valores de solidariedade, empatia e cidadania ativa. No mesmo sentido, Tapia (2006) ressalta que o engajamento voluntário dos estudantes em práticas extensionistas fortalece a responsabilidade social universitária e contribui para o desenvolvimento de lideranças comprometidas com a transformação da realidade. Nesse cenário, a extensão se mostra não apenas como uma estratégia pedagógica, mas como uma prática ética que conecta a formação acadêmica às lutas sociais e às metas globais de desenvolvimento. A integração entre extensão universitária e ODS adquire especial relevância no campo da saúde, eixo central do ODS 3. Isso porque os problemas de saúde, como demonstrado na parte anterior deste artigo, não podem ser resolvidos apenas por ações governamentais centralizadas; eles requerem a mobilização comunitária, a educação em saúde, a prevenção de doenças e o fortalecimento de redes locais de cuidado. Nesse sentido, os projetos extensionistas atuam como pontes entre os serviços formais de saúde e as comunidades, promovendo tanto a disseminação de
- 20 - informação científica quanto a valorização de saberes populares e práticas culturais de cuidado. Para além de sua contribuição imediata, esses projetos produzem impactos de longo prazo, ao formar profissionais sensíveis às desigualdades sociais e preparados para atuar em contextos complexos. Como observa Jacoby (2015), a extensão “não apenas conecta estudantes com comunidades, mas transforma a maneira como esses estudantes entendem sua profissão, levando-os a perceber que o conhecimento só adquire sentido pleno quando se traduz em serviço ao outro”. Essa visão encontra eco na proposta de uma educação integral, defendida pela UNESCO (2021), segundo a qual o ensino superior deve articular o desenvolvimento de competências cognitivas, técnicas, sociais e éticas. Portanto, ao analisar a contribuição da extensão universitária para os ODS, especialmente para o ODS 3, é possível afirmar que se trata de uma dimensão estratégica e insubstituível da missão social da universidade. Ela se configura como espaço de tradução das metas globais para o cotidiano local, de diálogo entre ciência e sociedade e de formação de sujeitos comprometidos com a promoção da vida e do bem-estar coletivo. A análise dos projetos realizados pela UNICAP, tal como veremos a seguir, revela que a extensão não é apenas uma prática complementar, mas um eixo estruturante para alinhar a universidade com a Agenda 2030 e, ao mesmo tempo, com os desafios concretos de sua comunidade. O impacto dos projetos de extensão no ODS 3: saúde e bem-estar O estudo se debruçou sobre os projetos de extensão desenvolvidos por estudantes da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) que evidenciam a centralidade do ODS 3 - Saúde e Bem-Estar como eixo estruturante das práticas extensionistas. Tais projetos foram cadastrados ou renovados cadastrados ou renovados no período de fevereiro a agosto de
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 21 - 2025. Foram excluídos aqueles que se iniciaram em 2024 e que, embora ainda vigentes, não foram renovados no período informado. Assim, a partir de planilha obtida com a Instituição, foram identificadas 36 iniciativas relacionadas a esse objetivo, contemplando diferentes cursos e modalidades de atuação, com destaque para Medicina, Fisioterapia, Psicologia, Ciências Biológicas e Fonoaudiologia. Esse conjunto expressa tanto a diversidade de áreas de conhecimento quanto a unidade de propósito em torno da promoção da saúde e do bem-estar coletivo. De acordo com dados sistematizados pela Assessoria de Extensão e Educação Continuada da UNICAP, as ações abrangeram desde atividades de educação em saúde e prevenção de doenças até atendimentos clínicos especializados e projetos de fortalecimento comunitário. Tal diversidade dialoga com a concepção de saúde defendida pela Organização Mundial da Saúde, segundo a qual “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade” (WHO, 1946). Essa definição, embora muitas vezes criticada por sua amplitude, continua a inspirar iniciativas que buscam integrar dimensões físicas, psíquicas e sociais do cuidado. No campo da Medicina, identificaram-se vinte projetos, configurando o maior número entre os cursos analisados. Esse protagonismo é compreensível, uma vez que a formação médica é historicamente associada ao compromisso social com a saúde pública (GIOVANELLA; MENDES, 2019). Projetos como os de Patologia e Otorrinolaringologia não se limitaram a práticas laboratoriais ou clínicas, mas buscaram articular ensino e prevenção, levando informação e atendimentos à comunidade. Outro exemplo é o Projeto de Extensão em Dor, voltado para o manejo da dor crônica, que promoveu tanto atividades teóricas quanto atendimentos especializados. Tal iniciativa dialoga diretamente com a meta 3.4 do ODS, que propõe reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis e promover o bem-estar físico e mental. Além disso, favorece uma concepção humanizada do cuidado, na medida em que reconhece a
- 22 - dor como fenômeno biopsicossocial e não apenas como sintoma clínico isolado. A Fisioterapia aparece como segunda área em número de projetos, com oito iniciativas. Muitas delas se direcionaram à saúde do trabalhador, à prevenção de lesões e à promoção do bem-estar físico. O projeto “Ergonomia e Saúde do Trabalhador” exemplifica essa abordagem ao realizar palestras educativas, identificar riscos ocupacionais e elaborar materiais de apoio. Essa ação se conecta às metas do ODS 3 na medida em que contribui para reduzir a incidência de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, prevenindo agravos que impactam a saúde e a qualidade de vida. Outro destaque é a Liga Acadêmica de Fisioterapia Esportiva (LIFE), que desenvolveu atividades voltadas a atletas, com foco em prevenção e reabilitação. Ao promover práticas seguras no esporte, a LIFE favorece não apenas o desempenho físico, mas também a saúde integral, alinhando-se à meta 3.6, que busca reduzir mortes e lesões relacionadas a acidentes e práticas de risco. No âmbito da Psicologia, três projetos estiveram voltados para a promoção da saúde mental, dimensão cada vez mais reconhecida como indissociável da saúde integral (OMS, 2020). A Liga de Estudos Psicanalíticos e Subjetividades representa um exemplo importante, ao articular grupos de estudo, seminários e práticas de escuta voltados para o sofrimento psíquico. Essas iniciativas são de grande relevância, considerando que o Brasil figura entre os países com maiores índices de ansiedade e depressão no mundo (WHO, 2017). Além disso, ao se relacionarem com as metas 3.4 e 3.5, que tratam da prevenção de transtornos mentais e do fortalecimento de políticas contra o uso nocivo de substâncias, tais projetos ampliam a rede de apoio em saúde mental, contribuindo para um campo ainda insuficientemente contemplado nas políticas públicas brasileiras. A Ciências Biológicas também se fez presente, com projetos voltados à educação em saúde e à promoção da saúde reprodutiva. O projeto Desvendando o Corpo Humano, por exemplo, promoveu visitas guiadas e
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 23 - elaboração de materiais educativos em escolas, fortalecendo a alfabetização científica de jovens e adolescentes. O Projeto Primavera, voltado para gestantes e puérperas, promoveu rodas de conversa, práticas de autocuidado e atividades de arte gestacional. Tal experiência dialoga diretamente com a meta 3.7 do ODS 3, que estabelece a necessidade de assegurar o acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo planejamento familiar, informação e educação. Nesse sentido, evidencia-se o papel da extensão na difusão de informações qualificadas, que empoderam mulheres e famílias em momentos decisivos do ciclo da vida. Por fim, a Fonoaudiologia contribuiu com projetos que abordaram a comunicação e a inclusão como dimensões da saúde. A Liga Acadêmica de Fonoaudiologia, ao atuar na promoção do desenvolvimento da fala e da audição, amplia a compreensão da saúde como condição de funcionalidade, autonomia e dignidade. Essa perspectiva se articula com a meta 3.8, que propõe assegurar cobertura universal em saúde, com acesso a serviços essenciais de qualidade. Ao oferecer suporte à comunicação, esses projetos favorecem não apenas a inserção social, mas também a qualidade de vida, ressaltando que o bem-estar depende de condições integrais de participação e expressão. Um aspecto de especial relevância em todo o conjunto analisado é o papel das ligas acadêmicas como espaços de protagonismo estudantil e de articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Essas organizações, frequentemente lideradas por discentes, favorecem a continuidade das ações, evitam a fragmentação dos projetos e promovem um aprendizado mais ativo e autônomo. Como observa Tapia (2006), a aprendizagem-serviço solidário só se consolida quando se enraíza em experiências duradouras e significativas, nas quais os estudantes assumem responsabilidade direta pelo processo de transformação social. No caso da UNICAP, as diversas ligas dos variados cursos ligados à saúde ilustram a potência
- 24 - de iniciativas que não apenas disseminam conhecimento, mas formam sujeitos críticos e comprometidos com a saúde comunitária. A análise dos projetos vinculados ao ODS 3 demonstra que a extensão universitária não se restringe a atividades complementares, mas constitui um espaço estruturante da missão acadêmica, capaz de traduzir metas globais em práticas concretas e transformadoras. Ao atender demandas de saúde da população, os projetos promovem impacto imediato na qualidade de vida, mas também geram efeitos duradouros ao formar profissionais com sensibilidade ética e compromisso social. Essa dimensão formativa é destacada por Jacoby (2015), ao afirmar que a extensão “transforma a maneira como os estudantes compreendem sua profissão, ao revelar que o conhecimento só adquire sentido pleno quando se traduz em serviço ao outro”. Assim, pode-se concluir que o impacto dos projetos de extensão da UNICAP no ODS 3 ultrapassa a dimensão da prestação de serviços. Ele reside, sobretudo, na formação de uma cultura acadêmica voltada ao cuidado integral, na construção de redes solidárias e na promoção de justiça social no acesso à saúde. Em um contexto como o de Recife, marcado por desigualdades históricas, a extensão universitária aparece como uma ponte entre as metas globais da Agenda 2030 e a realidade concreta das comunidades locais, reafirmando a universidade como espaço de compromisso ético-político com a vida e o bem-estar coletivo. Considerações Finais A análise empreendida ao longo deste artigo evidencia que o ODS 3 - Saúde e Bem-Estar ocupa um lugar central nos debates contemporâneos sobre desenvolvimento sustentável, por estar diretamente vinculado à qualidade de vida e à dignidade humana. Sua concretização, contudo, enfrenta desafios globais e locais significativos, como a persistência de desigualdades sociais, a fragilidade das políticas públicas, a insuficiência de
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 25 - investimentos em saúde e as barreiras que limitam o acesso equitativo a serviços de qualidade. No caso do Brasil, e particularmente de Recife, os indicadores analisados revelam um cenário que, embora marcado por avanços pontuais, ainda carece de estratégias integradas capazes de articular políticas sociais, atenção básica e promoção da saúde de forma inclusiva e eficaz. Nesse contexto, a extensão universitária se apresenta como uma via estratégica para o enfrentamento dos obstáculos que se interpõem ao cumprimento das metas do ODS 3. Ao colocar o saber acadêmico em diálogo com as demandas concretas da sociedade, a extensão transforma a universidade em espaço de mediação entre ciência e realidade, articulando ensino e pesquisa com o compromisso social. Tal perspectiva confirma a visão freireana de que a educação só se realiza plenamente quando orientada por uma prática transformadora e dialógica (FREIRE, 1996). Assim, a universidade não apenas transmite conhecimento, mas o ressignifica na interação com os sujeitos e comunidades que enfrentam, cotidianamente, os desafios da saúde e do bem-estar. Os 36 projetos de extensão identificados na UNICAP entre fevereiro e agosto de 2025 demonstram, de forma concreta, como a universidade pode ser protagonista na promoção de saúde integral. A diversidade de iniciativas , que abrange desde a prevenção de doenças crônicas até o fortalecimento da saúde mental, da saúde reprodutiva e da inclusão comunicacional, mostra que o ODS 3 não é uma pauta distante, mas uma realidade que pode ser transformada por meio da ação acadêmica e comunitária. O protagonismo discente, materializado sobretudo nas ligas acadêmicas, revela-se um fator decisivo para a continuidade e a sustentabilidade dessas práticas, garantindo que o compromisso com a saúde coletiva não se restrinja a projetos pontuais, mas se consolide como cultura institucional. Conclui-se, portanto, que a extensão universitária é capaz de produzir um duplo impacto no avanço do ODS 3. De um lado, responde a necessidades
- 32 - perspectiva fenomenológica existencial contribui para a problematização das questões contemporâneas que atravessam o fazer clínico psicológico e possibilita uma formação e prática psicológica atentas às especificidades e demandas da nossa época, sem necessitar corresponder a um modo tecnicista e imediatista. A partir das ações desenvolvidas no projeto, aqui, nos propomos a refletir sobre as ações desenvolvidas junto a mulheres em situação de extrema pobreza. Ação realizada por extensionistas a partir de uma parceria com a ONG Mulotus. A ONG Mulotus atende mulheres das comunidades de Iputinga, bairro da cidade do Recife-PE. Ao entrarmos em contato com esse público, nos defrontamos com a condição existencial de mulheres sobrecarregadas pelo cuidado assumido com os outros, com a ausência de rede de apoio e a invisibilização de seus sofrimentos. Frente a esse horizonte, nossos objetivos com o projeto são: proporcionar uma escuta e acolhimento a essas mulheres, promover a construção de vínculos, validar seus sofrimentos e compreender as diversas violências que as perpassam - enquanto mulher em situação de extrema pobreza. Aqui, busca refletir sobre as ações e compreensões que já se mostram para a gente nessa situação de estar junto a essas mulheres. Apresentação do Problema/Desafio Os estudos e problematizações sobre questões de gênero, a condição de ser mulher e os papeis sociais que lhes são atribuídos não é uma novidade da contemporaneidade. Em “O Segundo Sexo” (1967), ainda na metade do século XX, a filósofa Simone de Beauvoir já discorria sobre como a ideia de “ser mulher” é uma construção social e histórica, marcada pela incorporação de valores e normas impostas por aqueles que ocupam posições de poder: os homens brancos. Esses, ao longo da história, se apresentaram como o modelo universal do ser humano. Nesse contexto, as
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 33 - mulheres foram, por séculos, subjugadas em uma sociedade dominada por homens brancos que detinham o controle sobre o poder e o saber. Um exemplo evidente dessa dominação pode ser encontrado nas produções científicas que, durante muito tempo, tentaram justificar a suposta inferioridade feminina com base no sexo. Por meio de uma ciência biologizante, foram sustentados estereótipos que enquadraram as mulheres como o ‘sexo frágil’ ou, como Beauvoir bem definiu em sua obra, o segundo sexo (BEAUVOIR, 1967). Antes mesmo das questões de gênero tornarem-se tema nas academias, a luta por equidade de gênero tem perdurado e construído por movimentos sociais e políticos como o feminismo e o sufrágio feminino. Especialmente nas primeiras ondas do feminismo, centradas na Europa, é evidente a luta por direitos políticos básicos, como o do voto, direito ao trabalho que rompesse com as paredes do espaço doméstico e pela igualdade de bens no casamento. Nesse sentido, ao estudarmos a história dessas mobilizações, de maneira hegemônica, percebemos tratar-se dos interesses de mulheres brancas e burguesas, isto é, mulheres que eram privilegiadas economicamente. Sem a intenção de invalidar essas conquistas, é importante ressaltar que foi esse privilégio de classe que possibilitou o avanço dos direitos de uma parcela da população feminina. No entanto, esses primeiros movimentos não estavam preocupados na luta das mulheres negras e em vulnerabilidade socioeconômica, uma vez que os avanços conquistados se limitavam a um pequeno grupo de mulheres (RIBEIRO; NOGUEIRA; MAGALHÃES, 2021). Apesar das tentativas de apagamento da cultura negra, assim como suas lutas, o feminismo negro conseguiu se consolidar e, na verdade, foi pioneiro em diversas iniciativas de emanicapação feminina e problematizações sobre as questões de gênero. Em outras palavras, em meados do século XIX, a abolicionista e ativista Sojourner Truth já questionava o ser mulher e discursava na defesa dos direitos das mulheres. A partir do contexto
- 34 - norte-americano, colocou em pauta as diferenças de tratamento entre a mulher branca e a mulher negra (DAVIS, 2016). No contexto brasileiro, uma das ativistas mais importantes no movimento feminista negro é a filósofa Lélia González, onde a questão do ser mulher relacionada de maneira instríseca à raça e classe já se mostrava em seus diversos ensaios teóricos. González colocou em destaque a interseccionalidade, mesmo sem usar esse nome, ao compreender que o movimento feminista pode excluir multíplas existências, uma vez que sua gênese é eurocêntrica, isto é, pensada na mulher branca e burguesa. Nesse sentido, a filósofa ressalta a importância do movimento negro ao enxergar as especificidades do ser mulher negra. Especialmente quando se trata de um país fruto da escravização e invisibilização dos povos afrodescendentes, como o Brasil. As disparidades não ficam restritas ao gênero, mas se interseccionam com fatores raciais e de classe (GONZÁLEZ, 2020). Ao pensar esses entrelaçamentos, Grada Kilomba (2019, p. 94) afirma que: “Raça” não pode ser separada do gênero nem o gênero pode ser separado da “raça”. A experiência envolve ambos porque construções racistas baseiam-se em papéis de gênero e vice-versa, e o gênero tem um impacto na construção de “raça” e na experiência do racismo. O mito da mulher negra disponível, o homem negro infantilizado, a mulher muçulmana oprimida, o homem muçulmano agressivo, bem como o mito da mulher branca emancipada ou do homem branco liberal são exemplos de como as construções de gênero e de “raça” interagem. Diante do exposto, entendemos que o sexismo e o racismo constroem juntos disparidades, no qual reproduzem estereótipos violentos e sofrimentos diversos. Para a compreensão profunda e o combate das opressões que as mulheres enfrentam, é inquestionável lançar o olhar para a complexidade da existência humana, que não se resume a uma coisa ou outra, mas a vários fatores entrelaçados ao mesmo tempo. Autoras e ativistas como Angela Davis (2016), Lélia González (2020), Grada Kilomba
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 35 - (2019) e tantas outras foram e continuam sendo fundamentais no rompimento de saberes que invisibilizam existências e justificam violências. Apesar do extenso período de discussão desse assunto, a sua relevância permanece com o passar dos tempos, uma vez que as repercussões desse contexto não foram erradicadas da contemporaneidade. Em outras palavras, no Brasil, mais de 18 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência física, sexual ou verbal, apenas no ano de 2022, dentre as vítimas, há uma prevalência de mulheres negras e mulheres com baixa escolaridade. (BUENO et al., 2023). As estatísticas reafirmam uma realidade cruel que é resultado direto da condição de mulheres, no qual a raça e a classe tornam-se agravantes. Como vimos, a compreensão da mulher como inferior ao homem como algo natural tem sido desconstruída, mas ainda persiste em diversas formas. Tais formas podem ser violências explícitas, como as apresentadas na estatística, mas também sutis. Sejam as divisões desiguais das tarefas domésticas ou através da desigualdade salarial. Como também a construção de limites do lugar que a mulher pode ocupar na sociedade, sendo colocada no papel de cuidadora. As implicações na vida dessas mulheres são inúmeras, com o estresse constante em ter que dar conta da rotina doméstica, assim como do trabalho fora de casa, pressões estéticas e a performatividade de todo um padrão do que é existir enquanto mulher, por exemplo (PEIXOTO; MAIO, 2021). Ao falarmos da mulher negra, essas pressões se duplicam com a imposição dos padrões da branquitude. Nesse sentido, as mulheres que sofrem com a imposição do ideal de mulher branca são desumanizadas por estereótipos de ‘mulher forte’, hipersexualizadas, inferiorizadas e lutam pela sobrevivência em subempregos (BARBOSA; BLACK; SILVA, 2024). Essas condições de (sub)existência muitas vezes as colocam em situação de desamparo frente ao sofrimento no qual são assujeitadas.
- 36 - Com a contextualização apresentada, fica evidente que as desigualdades de gênero, raça e classe estão profundamente enraizadas na estrutura social e continuam a impactar a vida das mulheres, especialmente das mulheres negras. Nesse contexto, com a psicologia, o nosso projeto lidou com tal realidade de perto e, a partir disso, desempenhou um papel fundamental não apenas no acolhimento e na escuta sensível das mulheres que enfrentam essas opressões e violências, mas também na problematização dos processos sociais e culturais que sustentam tais desigualdades. Apresentação do projeto Diante deste panorama, nos norteamos pela perspectiva da fenomenologia hermenêutica, a qual adota uma visão de ser humano e mundo enquanto singular e indeterminada. Nesse sentido, compreendemos que a existência se faz ao caminhar, no próprio caminho que é possível de ser traçado a cada instante, desviamo-nos, assim, da perspectiva tradicional em que se adota métodos pré-determinados e se segue um passo-apasso. Norteados pela fenomenologia hermenêutica, nos propomos a trilhar um “caminho metódico”, o qual é tecido com atenção para o “desvelamento de caminhos que guardem a abertura que constitui a própria existência humana, encaminhando-se de modo a aguardar ‘pacientemente’ que os fenômenos se revelem a partir do próprio vivido” (LEITE; BARRETO, 2018, p. 253). Nesta caminhada, buscamos nos aproximar dos fenômenos com atenção àquilo que se mostra em cada situação, seja existencial, seja na situação hermenêutica das ações. Nesta disposição, possibilidades são coletivamente construídas, destruídas e reconstruídas, na relação das estudantes entre si e entre estudantes e mulheres. Nesta caminhada atenta ao que se mostra, compreende-se o diálogo e a disposição afetiva como caminho para uma ação psicológica que se volta ao desencobrimento em
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 37 - vez da instrumentalidade (MELO, 2022). Há abertura para o desvelar dos fenômenos da existência, que busca acolher suas singularidades. Nessa direção, disponível a nos afetarmos junto às experiências vividas, fomos continuamente tecendo duas modalidades de prática clínica: grupo reflexivo e plantão psicológico. Os grupos reflexivos aconteceram sem determinações prévias, como um encontro entre inesperabilidades, apesar de termos semanalmente um dia e horário no qual o grupo estava a disposição para aquelas mulheres que procuraram pelo atendimento. Desprendido de instrumentalidades, o terapeuta adota uma postura disponível e questionadora frente àquilo que as mulheres atendidas partilham em grupo. Movimento que favoreceu o desvelamento de diferenças em meio ao encontro com singularidades em meio às pluralidades. Em consonância com Evangelista (2013), a dinâmica de relação se tornou central, facilitando que cada membro aproximasse de sua própria existência em conjunto com os demais. Assim, o lugar das estudantes consistiu em se colocar como pontes entre diferenças, as quais propiciam tessituras de sentidos singulares em meio ao reconhecimento dessas diferenças. As mulheres se apropriaram dos múltiplos sentidos possíveis das experiências segundo a partilha de perspectivas múltiplas. Movimento que evidenciou a pluralidade compreensiva que funda o mundo e propiciou a tessitura de respeito frente às diferenças. As compreensões trazidas possibilitaram a criação e fortalecimento de vínculos das mulheres com as mediadoras e entre si. No caso do plantão, não há restrição às configurações pré-determinadas de um setting terapêutico. Ele se dá como acontecência do encontro entre dois seres-humanos, como um abrigo que se propõe a tecer sentidos às vivências cotidianas (LIMA; RIBEIRO, 2018). É uma modalidade clínica a qual desenha-se às demandas, independentemente do local, o que viabiliza o desvelamento de sentidos do sofrimento que se apresenta naquela situação; no caso do projeto, demandas que emergem no grupo. Nessa configuração, o paciente não necessariamente precisa voltar, a demanda
- 38 - se inicia e termina naquele plantão. A dispensabilidade da volta ao atendimento e a flexibilidade do espaço a se fazer o plantão pareceu reconfigurar as tendenciosas intimidações das mulheres aos atendimentos. Orientado a aguardar pelo paciente, não há pressa da técnica (SILVA; LEITE; BARRETO, 2015). Tal prática favoreceu o re-colhimento de sentidos que emergiram no decorrer do grupo, como um refúgio para o reconhecimento de violências e a apropriação de sofrimentos invisibilizados. Impacto do Projeto Relação com os ODS As atividades do projeto impactaram o reconhecimento das necessidades do público feminino, problematizando o cuidado de si e de outras mulheres a sua volta mais atento às históricas discriminações possíveis de seres vivenciadas enquanto mulher. Nessa direção, o trabalho alinha-se com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5 da ONU, que visa “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”, buscando promover a superação de todas as formas de discriminação contra o gênero feminino, implicando-se a participação plena e efetiva das mulheres atendidas em todas as esferas da vida política. A partilha de vivências em grupo de mulheres para mulheres refletiu na desnaturalização de sofrimentos cotidianamente banalizados. Ouvir relatos que se aproximavam e distanciavam da própria experiência de outras mulheres, sem a tentativa de alcançar metas pré-determinadas, possibilitou a ampliação de horizontes de sentido possíveis frente a absurdos sofridos, bem como possíveis convocações aos seus direitos e deveres. Com a implicação das facilitadoras como singularidade que também compõe a pluralidade grupal, observou-se uma maior aderência ao serviço oferecido, aspecto que impulsionou essas mulheres a buscarem novos caminhos e perspectivas para além do ciclo de violência vivenciado em suas cotidianidades e, por vezes, naturalizados em seus horizontes.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 39 - Esses impactos ficaram evidentes ao perguntarmos às mulheres como era participar do projeto e testemunharmos enunciações como “alivia o coração”, “é se priorizar mais” e “se distrair”, dentre outros na mesma direção. Assim, com o reconhecimento do espaço como sendo um lugar de cuidado zeloso para com elas mesmas e de suporte. Com as ações houve o cultivo de uma rede de apoio em que no movimento de se questionar sobre suas diferenças, apropriaram-se das discriminações e violências sofridas. Impacto na Formação Profissional e Pessoal dos Estudantes A supervisão e os grupos de estudo presentes no projeto surgem como espaço de articulação entre ação clínica e compreensões filosóficas importantes para a tecitura de um saber-fazer atento às singularidades de cada situação. A indeterminação quanto às ressonâncias do cuidado oferecido propiciou aos estudantes o reconhecimento dos limites em sua prática e uma contínua convocação das mulheres assistidas para a elaboração em conjunto dos encontros. Ainda em relação ao profissional, tivemos a possibilidade de nos apropriarmos do trabalho em rede, uma vez que construímos e realizamos nossas atividades sempre em grupo, seja com as mulheres ou entre os próprios estudantes. Além disso, o projeto impactou na nossa caminhada de descoberta de possíveis horizontes de ação, o que favorece o entendimento do que faz mais sentido em nossa jornada profissional. Ter esse contato e essas reflexões durante a graduação torna-se um privilégio. Em relação ao impacto pessoal, é reafirmado com o depoimento de uma das estudantes, no sétimo período do curso de Psicologia: “O que mais me marcou foi a transformação do olhar. Estar em contato direto com uma realidade tão dura, que atinge tantas mulheres, me fez enxergar além do que eu conhecia. Foi como sair de um lugar seguro e me deparar com histórias de luta, resistência e dor que antes pareciam distantes. Percebi o
- 40 - quanto a nossa visão sobre o que é ser mulher é limitada por experiências individuais e construções sociais prontas” (SIC – fala de uma das autoras). Em outras palavras, entrar em contato com uma realidade que, infelizmente, abarca grande parte do Brasil, transforma percepções e visões de mundo. Isso porque ocorreu o movimento de sair de uma ‘bolha’ privilegiada que nos encontramos no cotidiano e mergulhamos em contextos de extrema vulnerabilidade estrutural e emocional. Além disso, nos impactou em desconstruir sentidos prontos do que era ser mulher em situação de extrema pobreza. Com o projeto, o nosso horizonte de sentido se ampliou e compreendemos a partir das vivências, múltiplas maneiras de ser mulher, em sua complexidade e singularidade. Considerações finais A experiência do projeto de extensão Clínica Fenomenológica e Demandas Contemporâneas reafirmou a necessidade de uma ação clínica que não se reduza a uma instrumentalidade técnica, mas que esteja atenta à singularidade plural do próprio existir. Ao nos aproximarmos das mulheres atendidas pela ONG Mulotus, percebemos que suas vivências não podem ser enquadradas em categorias pré-definidas ou explicadas por diagnósticos prontos; ao contrário, cada encontro foi um convite à escuta sensível e ao reconhecimento da pluralidade de sentidos que atravessam a experiência daquelas mulheres em um contexto de extrema pobreza. Nesse cenário, os horizontes abertos pelo diálogo com a fenomenologia hermenêutica se mostrou frutífero, pois possibilitou um olhar atento ao desvelamento dos sentidos das experiências compartilhadas, sem a imposição de uma normatividade que as restringe a um ideal de saúde. Ao longo do projeto, compreendemos que a psicologia, no diálogo com a fenomenologia hermenêutica, pode atuar como um espaço de abertura para que o Dasein possa se apropriar de sua existência e encontrar caminhos singulares para lidar com o sofrimento. Isto é, desnaturalizando
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 41 - sofrimentos e desigualdades construídas socialmente, novos horizontes existenciais podem ser cultivados. Longe de uma abordagem imediatista e normativa, buscamos construir um espaço de acolhimento onde as mulheres pudessem validar suas experiências e ampliar suas possibilidades de existência. Essa postura permitiu tanto a ressignificação de sofrimentos invisibilizados quanto o fortalecimento de redes de apoio, elementos fundamentais para romper com os ciclos de violência e exclusão que historicamente marcaram suas trajetórias. Em relação às implicações futuras, o projeto pode se ampliar em diferentes direções. Uma delas é a iniciativa para atender um número maior de mulheres, aprofundando a articulação com políticas públicas e serviços de assistência social. Outro aspecto promissor está na construção de redes de colaboração entre universidades, coletivos feministas e organizações sociais, fomentando o desenvolvimento de pesquisas e intervenções que problematizem os atravessamentos de gênero, raça e classe na saúde mental. Dessa forma, reafirmamos que a psicologia, ao se afastar da tentativa de enquadrar o ser humano em estruturas padronizadas, pode realmente contribuir para a construção de caminhos mais próprios e emancipatórios, tanto para as mulheres atendidas quanto para os profissionais em formação. Referências Evangelista, P. E. R. A. (2013). O método fenomenológico na condução de grupos terapêuticos. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, 16(1), 150–165. https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.16.319 Barbosa, E. M. da S., Black, T. L. de P., & Silva, K. V. P. da. (2024). Gênero, raça e saúde mental da população negra: abordagem sócio-histórica. Revista Remecs, 2(Esp.), 3–10. https://doi.org/10.24281/rremecs2024.2.esp.310 Beauvoir, S. de. (1967). O segundo sexo (S. Milliet, Trad.). Editora Globo.
- 48 - Terapêuticas são moradias comunitárias voltadas para indivíduos egressos de longos períodos de internação psiquiátrica e que não possuem vínculo familiar ou suporte social. Essa abordagem se caracteriza como um serviço substitutivo, que visa promover a reintegração social e garantir o direito de ir e vir dessas pessoas, rompendo com o modelo manicomial. No entanto, é fundamental que a discussão não se limite ao usuário dos serviços de saúde mental. Muito se fala sobre as necessidades dos pacientes, mas pouco se aborda o impacto que a sobrecarga de trabalho pode ter sobre os profissionais de saúde envolvidos no atendimento nessas residências. A pressão e o estresse decorrentes da responsabilidade de cuidar de indivíduos com transtornos mentais podem afetar tanto a saúde física quanto o bem-estar emocional dos profissionais. A sobrecarga de profissionais, frequentemente em equipes reduzidas, não só prejudica a qualidade do atendimento prestado aos moradores, mas também pode gerar um ambiente de trabalho exaustivo, resultando em desgaste emocional e físico dos cuidadores. Além disso, a escassez de profissionais capacitados para lidar com as complexas demandas dessas residências agrava ainda mais esse problema. A falta de recursos humanos adequados compromete a qualidade do cuidado, expondo os trabalhadores a um processo constante de desgaste. Nesse contexto, é urgente a implementação de projetos e políticas públicas voltados à capacitação e ao apoio desses profissionais, com o objetivo de melhorar a qualidade do atendimento e promover um ambiente de trabalho mais saudável, equilibrado e sustentável, refletindo, por consequência, no cuidado prestado aos moradores, visto que durante o exercício de suas funções, esses profissionais estão frequentemente expostos ao adoecimento mental devido às condições laborais precárias, ao contato constante com diferentes tipos de doenças e transtornos provenientes dos pacientes, e ao enfrentamento de situações de crise. Esses fatores estressores, somados às tensões inerentes à profissão, podem
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 49 - comprometer tanto a capacidade laboral quanto a saúde física e mental dos profissionais (ROSA et al., 2021). Os profissionais da equipe multiprofissional além de lidarem com as crises dos usuários que usufruem dos serviços de saúde, lidam também com as crises entre os próprios membros da equipe nos diversos ambientes de trabalho, o que acaba tornando a sua profissão mais maçante, desgastante e estressante possível, podendo desenvolver problemas sérios nesses profissionais (ROSA et al., 2021). Isso tende a acarretar negativamente na saúde desses profissionais, que acabam sendo afetados por esse fator de trabalho, resultando em vários tipos de transtornos mentais e psíquicos. Tais situações, ocasionadas em sua atuação, geram intenso sofrimento psíquico, que engloba transtorno de ansiedade generalizada, distúrbios do sono, estresse pós-traumático, medo de adoecer, entre outros transtornos (SILVA E PEGORARO, 2023). O reconhecimento no ambiente de trabalho é uma resposta esperada pelos profissionais diante das experiências de sofrimento, pois representa uma forma de valorização e retribuição simbólica. Esse reconhecimento exerce um papel fundamental, sendo compreendido como um processo psicodinâmico e intersubjetivo, que se constroi a partir das relações sociais e do olhar do outro. É por meio dele que o sofrimento pode ser ressignificado e convertido em prazer. Para tanto, torna-se crucial fornecer suporte emocional e psicológico aos profissionais de saúde mental para evitar o isolamento e desamparo, reduzindo o risco de distúrbios mentais e melhorando a eficácia no trabalho. Estratégias organizacionais que promovam a escuta e ofereçam condições de trabalho adequadas são essenciais (MELO et al., 2020). Para mitigar os desafios e distúrbios no trabalho, é sugerido melhorar as condições de trabalho, contratar mais profissionais, implementar políticas de segurança rigorosas e adotar tecnologias que facilitem o trabalho remoto e a gestão de casos. Essas medidas podem ajudar a reduzir a sobrecarga e a pressão sobre os profissionais (ROCHA et al., 2020).
- 50 - Oferecer suporte psicológico contínuo aos profissionais de saúde é crucial para promover sua saúde mental e bem-estar. Programas de psicoeducação, manejo do estresse e escuta ativa são essenciais, assim como intervenções precoces para identificar e tratar sintomas de distúrbios mentais, comprovadamente eficazes (MELO et al., 2020). Além disso, oferecer atividades de lazer, programas de mindfulness e criar espaços de descontração podem reduzir o estresse e melhorar o bem-estar dos profissionais. Essas medidas promovem um ambiente de trabalho saudável e produtivo (MELO et al, 2020). Apresentação do projeto Para atender a essas necessidades, surgiu a proposta de desenvolver um projeto focado no fortalecimento da equipe de uma Residência Terapêutica localizada na Zona da Mata Norte de Pernambuco, sob responsabilidade da prefeitura. A iniciativa ocorreu no âmbito da disciplina Projeto Integrador I, orientada pelo professor Clovis Macedo Bezerra Filho, e teve como foco a realização de ações em saúde —não atendimentos diretos— voltadas para o aprimoramento da comunicação e do relacionamento entre os profissionais da unidade. Os principais objetivos do projeto foram promover diálogos abertos e dinâmicas voltadas às necessidades dos profissionais; incentivar um ambiente de trabalho integrado, com foco na comunicação assertiva e na empatia; fortalecer a inteligência emocional, a autoconsciência e a gestão emocional em situações de pressão; possibilitando que estes possam estar desenvolvendo seu trabalho, trabalhando em prol da saúde da comunidade sem descuidar da sua própria saúde. A metodologia do projeto foi composta por cinco etapas fundamentais (Figura 1): mapeamento inicial da Residência Terapêutica, elaboração das intervenções, organização dos encontros, realização das atividades e, por fim, análise das informações obtidas por meio da escuta sensível. Na
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 51 - etapa de mapeamento inicial, buscou-se compreender os principais desafios e necessidades da equipe do SRT, com o intuito de embasar estratégias voltadas ao fortalecimento dos vínculos interpessoais e ao aprimoramento da comunicação. Além da roda de conversa, foi aplicado um questionário com perguntas simples, não invasivas e sem fins de pesquisa acadêmica, com o objetivo exclusivo de subsidiar a análise das demandas da equipe de forma ética e cuidadosa. A partir dessas informações, foram organizados três encontros, com periodicidade mensal, totalizando três meses de duração. O primeiro abordou as relações interpessoais e intrapessoais, destacando a importância de vínculos saudáveis para um ambiente de trabalho harmonioso. O segundo encontro tratou da autoestima e da regulação emocional, essenciais para a saúde mental e as relações institucionais. Já o terceiro teve como foco a resiliência e a Comunicação Não Violenta, promovendo a gestão de conflitos e uma comunicação mais assertiva. Além das rodas de conversa, as atividades incluíram práticas de meditação guiada e exercícios de respiração, voltados ao bem-estar emocional e à redução dos impactos do estresse no cotidiano laboral. No primeiro contato com os profissionais, durante a análise situacional, foi realizada uma roda de conversa para estimular a escuta ativa e a troca de experiências entre os participantes. Como complemento, foi aplicado um questionário intitulado Competências Pessoais e Profissionais, sem fins acadêmicos, com o objetivo de subsidiar o diagnóstico situacional e promover a autorreflexão sobre habilidades e atitudes no ambiente de trabalho. Esse questionário foi construído com base em quatro eixos norteadores: 1. Como os profissionais da equipe percebem e exercem a comunicação interpessoal no ambiente de trabalho? 2. De que maneira os colaboradores lidam com situações de conflito e quais estratégias preferem utilizar para resolvê-las?
- 52 - 3. Qual é o nível de desenvolvimento da inteligência emocional entre os membros da equipe e como isso influencia suas relações profissionais? 4. Como os trabalhadores enfrentam adversidades e lidam com a pressão no contexto institucional? Com base nas reflexões suscitadas pela roda de conversa e nos dados do questionário, foram elaboradas intervenções mais alinhadas às demandas da equipe. Ainda assim, constatou-se que a roda de conversa foi o instrumento mais efetivo de análise situacional, por favorecer a expressão espontânea e a escuta sensível Figura 1 - Síntese metodológica / Fonte: Os autores Um desafio significativo na equipe multidisciplinar é a falta de comunicação e integração eficaz entre os membros. Isso pode resultar em duplicações de esforços, inconsistências no cuidado e menor qualidade no atendimento ao paciente (Rocha et al., 2020). Paralelamente a isso, a assertividade é crucial no contexto profissional, pois permite que a informação seja transmitida de maneira clara e eficaz, evitando mal-
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 53 - entendidos e promovendo um ambiente mais colaborativo. Além disso, favorece o respeito mútuo, melhora a resolução de conflitos, fortalece a credibilidade entre os profissionais e reduz o estresse. No primeiro encontro, o foco foi o relacionamento interpessoal e intrapessoal, destacando a importância do vínculo saudável entre os profissionais para a construção de um ambiente de trabalho mais harmonioso. Nessa conjuntura, a proposta de rodas de conversas tem sido um dos meios de consolidar de maneira congruentemente a fim educativos e sistemáticos, desde de uma dinâmica, que posteriormente estipula um vasto quadro de saberes, como um espaço seguro para o aprimorar a comunicação assertiva. Figura 2 - Encontro I / Fonte: Os autores De maneira geral, as rodas de conversa referem-se à disposição em círculos e/ou rodas com o intuito de proporcionar a abertura ao diálogo a partir de uma provocação temática (figura 2). Há também uma entonação no protagonismo dos participantes das rodas, visando o compartilhamento de experiências, conhecimentos e práticas, e uma análise sobre vivências pessoais e coletivas, de modo que a valorização dos diferentes
- 54 - conhecimentos e a promoção de um ambiente de trabalho colaborativo são, portanto, essenciais para a eficácia das equipes multidisciplinares nos serviços de saúde (Santos et al., 2022) Desse modo, foram implementadas rodas de conversa para estimular a intercomunicação, uma vez que a roda de conversa visa a criação de novas possibilidades, promovendo um processo contínuo de perceber, refletir, agir e transformar. Nesse ambiente, os indivíduos têm a oportunidade de se reconhecer como protagonistas de suas ações, ampliando a compreensão sobre si mesmos e sobre sua prática, e se abrindo à possibilidade de 'ser mais' em suas jornadas profissionais e pessoais (figura 3). A roda de conversa se torna, assim, um espaço de troca e crescimento, aliada a aplicação de dinâmicas como a Dinâmica do Presente, que trabalhou a valorização do outro e a escuta ativa, e a Dinâmica do Balão, que ilustrou a necessidade de equilíbrio emocional e suporte mútuo entre os integrantes da equipe. A autoestima e a regulação emocional foram temas centrais no segundo encontro, pois esses fatores impactam diretamente a saúde mental e a qualidade das relações interpessoais. Estudos indicam que o bem-estar subjetivo está relacionado à presença de emoções positivas e à satisfação com a vida, enquanto sua ausência pode estar associada à depressão, rejeição interpessoal e comportamentos agressivos. A autoestima é definida como o sentimento de satisfação pessoal baseado no reconhecimento das próprias qualidades e potencialidades, promovendo segurança e confiança. Já a regulação emocional refere-se aos processos pelos quais os indivíduos modulam suas emoções, influenciando a forma como as vivenciam e expressam. Considerando a importância desses aspectos no ambiente profissional, foram realizadas atividades que estimulam a autoconfiança e o autocuidado, como a Dinâmica do Espelho, que incentivou uma autoimagem positiva, e a Dinâmica do Copo Descartável, que simbolizou a necessidade de eliminar crenças limitantes para abrir espaço para novas perspectivas.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 55 - Figura 3 - Encontro II / Fonte: Os autores No terceiro e último encontro, foi abordada a resiliência e a Comunicação Não Violenta (CNV), destacando estratégias para a gestão de conflitos e o aprimoramento da comunicação assertiva (figura 4). A CNV, desenvolvida por Marshall Rosenberg, propõe um modelo de comunicação baseado na empatia e no respeito, estruturado em quatro componentes fundamentais: observação, que consiste em registrar fatos sem julgamentos; sentimento, que envolve a identificação e expressão das emoções geradas pela situação; necessidade, que busca compreender as demandas por trás dos sentimentos; e pedido, que deve ser expresso de forma clara e objetiva. A CNV não visa evitar conflitos, mas sim impedir o uso de violência nas interações interpessoais, promovendo relações mais saudáveis e construtivas. Durante o encontro, foram trabalhadas os 4 A´s, ou ainda, as quatro fases da comunicação assertiva: Autocontrole, que se relaciona com a observação da CNV ao evitar julgamentos precipitados; Atenção às necessidades do outro, que permite validar sentimentos e demandas; Antecipação de conflitos, que envolve a escuta ativa e o reconhecimento das emoções para evitar reações impulsivas; e Ação resolutiva, que corresponde ao pedido da CNV, garantindo clareza e objetividade na comunicação. Além disso, foi aplicada a Técnica dos 4A’s (Aceitação, Análise, Ação e Adaptação), que incentiva a aceitação do ponto de vista do outro, a
- 56 - análise sem julgamentos, a ação baseada na empatia e a adaptação para manter um diálogo produtivo. Figura 4 - Encontro III / Fonte: Os autores Ao longo dos encontros, observamos uma maior abertura dos profissionais para o diálogo, bem como um engajamento progressivo nas dinâmicas propostas. Os relatos coletados indicaram que as atividades proporcionaram reflexões significativas sobre a importância da comunicação assertiva e do cuidado emocional no ambiente de trabalho. O projeto demonstrou que pequenas intervenções podem gerar impactos positivos no clima organizacional, promovendo maior integração entre os profissionais da saúde. A continuidade dessas ações pode contribuir para um ambiente mais harmonioso e produtivo, beneficiando tanto os trabalhadores quanto os pacientes atendidos na unidade. Dessa forma, a experiência reforçou a relevância do diálogo assertivo como ferramenta essencial para fortalecer as relações interpessoais e a qualidade do atendimento em instituições de saúde, o que reflete uma tentativa de mitigar os desafios enfrentados pelas equipes de SRTs, sendo um exemplo de como políticas e
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 57 - ações de apoio podem contribuir para a construção de um modelo de cuidado mais eficaz e humanizado. Impacto do projeto O projeto de extensão está alinhado diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o ODS 3 - Saúde e Bem-estar. Este objetivo visa garantir uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. As ações desenvolvidas, como rodas de conversa, dinâmicas de grupo e treinamentos em comunicação não-violenta, foram essenciais para melhorar a qualidade das relações interpessoais e reduzir a sobrecarga emocional desses profissionais. Além disso, o projeto também impacta o ODS 8 - Trabalho Decente e Crescimento Econômico, ao criar um ambiente mais saudável e colaborativo, promovendo condições de trabalho mais dignas e sustentáveis. Os encontros mensais abordaram aspectos cruciais para a manutenção da saúde mental no trabalho, enfatizando o desenvolvimento da resiliência e da empatia, fundamentais para uma equipe coesa e eficiente. Dessa forma, a iniciativa contribuiu para metas específicas dos ODS, como a redução de doenças relacionadas ao estresse ocupacional e a promoção da saúde mental e do bem-estar psicossocial. A participação dos estudantes no projeto de extensão foi fundamental para o aprimoramento de habilidades teóricas e práticas, contribuindo tanto para a formação acadêmica quanto para o crescimento pessoal. O contato direto com os desafios enfrentados pelos profissionais da saúde permitiu que os alunos desenvolvessem competências essenciais, como comunicação assertiva, mediação de conflitos e escuta ativa. A experiência proporcionou não apenas uma aplicação prática dos conhecimentos adquiridos em sala de aula, mas também uma nova perspectiva sobre a importância do suporte emocional e da colaboração no ambiente de trabalho. O projeto possibilitou a vivência de conceitos teóricos de maneira
- 64 - CAPÍTULO 4 AÇÕES EXTENSIONISTAS JUNTO A PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA: DESDOBRAMENTOS POSSÍVEIS PARA A CLÍNICA PSICOLÓGICA E A FORMAÇÃO DE FUTUROS PSICÓLOGOS D.O.I.: https://doi.org/10.5281/zenodo.17095228 Maria Clara Loureiro Barbosa Tinôco Pires Adne Jéssica da Silva Oliveira Alves Fernanda Melo Pereira da Silva Elissa Rafaelle Neves dos Santos Danielle de Fátima da Cunha Cavalcanti de Siqueira Leite Este capítulo a presenta a experiência do projeto de extensão “Clínica Fenomenológica e Demandas Contemporâneas”, desenvolvido na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), que oferece atendimento psicológico a pessoas em situação de rua (PSR) na Casa do Pão, no Recife. A iniciativa se baseia na fenomenologia hermenêutica para construir uma prática clínica que rompe com o tecnicismo e as abordagens patologizantes, propondo um cuidado atento, ético e situado. São oferecidos atendimentos individuais no formato de plantão psicológico e oficinas de criatividade em grupo, compreendendo a clínica como espaço relacional e político. O trabalho também analisa os impactos na formação dos estudantes extensionistas, que vivenciam a escuta, o cuidado e a abertura ao outro como elementos centrais na prática clínica. O projeto se alinha ao ODS 16, ao promover inclusão, acesso à informação e fortalecimento da autonomia das PSR, destacando a potência transformadora da extensão universitária como campo de reinvenção do fazer clínico e da formação em Psicologia. Palavras-chave: Psicologia, Extensão Universitária, Fenomenologia Hermenêutica, Pessoas em Situação de Rua, Clínica Ampliada, ODS 16.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 65 - Introdução Situados em uma formação acadêmica norteada predominante pela perspectiva tecnicista a qual nos tornamos reféns até mesmo no contexto clínico (DUTRA, 2004), a extensão “clínica fenomenológica e demandas contemporâneas” propõe o oferecimento do tripé ensino, prática e supervisão, buscando refletir sobre as contribuições da fenomenologia hermenêutica para o fazer clínico psicológico no contexto contemporâneo. O projeto contempla dois públicos: mulheres em vulnerabilidade socioeconômica de duas comunidades do Recife e pessoas em situação de rua (PSR) acolhidas por uma instituição da cidade do Recife. Nessa perspectiva, neste trabalho, compreenderemos as ressonâncias deste serviço junto às pessoas em situação de rua. Segundo Rocha e Oliveira (2020), o trabalho da psicologia com este público demanda por modalidades clínicas que rompam com perspectivas individualistas de um ambiente controlado. Aproxima-se, nessa direção, da compreensão de “ação clínica” enquanto um espaço aberto, para além de uma sala fechada, uma atitude e disponibilidade a oferecer um olhar atento e compreensivo com aquilo que surge no dia a dia, um modo compreensivo de afinar o encontro entre existências (MELO; SANTOS, 2022). Compreende, assim, o fazer clínico muito mais na direção de uma ação do que na perspectiva de um lugar ou modo específico de agir. Ao assumir essa perspectiva acerca da clínica psicológica, busca-se a semeadora de possíveis inauguração e reinauguração de olhares outros daquele pré-estabelecido acerca das PSR — os quais propulsionam préconceitos violentos. Nesta direção, compreendemos que a articulação entre a clínica psicológica e o horizonte da perspectiva fenomenológica apresenta-se como um campo fetil à clínica psicológica com PSR. Nesta articulação, propomos o afastamento das interpretações biologizantes e da perspectiva tecnicista na qual toma o psiquismo como uma substancialidade capaz de determinar o modo de ser do ser humano
- 66 - (FEIJOO, 2016). Para tanto, nos aproximamos da perspectiva trazida pela autora supracitada, em que podemos compreender a constituição do ser humano como uma contínua tessitura de sentidos rigorosamente articulados com a época vivida. Nessa direção, é o horizonte histórico de constituição de sentidos que “traz marcas dos elementos que nos constituem, dada a nossa indeterminação originária” (FEIJOO, 2016, p. 48), não há como pré-determinar o modos de ser de cada PSR, afinal, para a fenomenologia hermenêutica, o ser humano se mostra enquanto pura indeterminação. Todavia, importa compreender que não somos destituídos de mundo, ou alheios ao nosso horizonte histórico-político-social-econômico-familiar - ou seja existencial -, de modo que aquilo que é possível a cada existência singular revela-se articulada à pluralidade do que é possível naquele horizonte de mundo no qual essa existência encontra-se situada a cada instante. Nesse panorama, é possível nos atentarmos e, sobretudo, problematizar o horizonte histórico que envolve as PSR - no contexto brasileiro, nordestino - e em todas as suas violações de direitos. De modo a estarmos com aqueles que atendemos e que se encontram em tal situação a semearcom-eles caminhos singulares à sua vivência no mundo. O que não implica na romantização da ação ou mesmo na minimização da situação de precariedade e violação de direitos na qual eles se encontram, mas na possibilidade, de mesmo diante de toda a situação restritiva em que estão, possam co-construírem caminhos possíveis de estar / lidar com os endereçamentos que tal situação os impõem. O campo no qual vamos semeando caminhos é a Casa do Pão do Recife, que é fruto de uma parceria entre a Prefeitura do Recife e a Arquidiocese de Recife e Olinda. A Casa oferece, diariamente, refeições e higiene pessoal para PSR, além de atendimento médico, jurídico e psicológico. Semanalmente, oferecemos atendimentos para além das quatro paredes, com um público predominantemente adulto do sexo masculino, além de crianças e adolescentes. Nesse contexto, buscamos pensar em
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 67 - “psicologias mais acessíveis” às PSR e na articulação com a fenomenologia para repensar a prática psicológica clínica. O que nos possibilita assumir uma clínica psicológica para além das quatro paredes, direcionada para a compreensão das solicitações de um grupo populacional que pouco ou quase nunca tem acesso ao atendimento psicológico. Panorama da saúde com pessoas em situação de rua Estima-se que, em 2022, existiam cerca de 281.472 pessoas em situação de rua no nosso país. Nesta pesquisa, o Instituto de Pesquisa de Normas Técnicas (IPEA, 2022) pontua como o tratamento das PSR no Brasil é historicamente marcado por repressão e invisibilização. Para o autor, há uma negligência quando se trata de políticas públicas para as PSR que fica evidente com o fato de que apenas em 2009 houve a primeira contagem das PSR; posteriormente, apenas em 2010 a população em situação de rua foi incluída como segmento específico no Cadastro Único, enquanto o acesso aos serviços do SUS sem comprovante de residência só ocorre no ano seguinte, em 2011 (ibid.). Segundo Oliveira e Martins (2024), os movimentos de exclusão encontram suas raízes no período da escravização e está intrinsecamente articulado com o racismo no país. Para os autores, a ‘abolição da escravatura’ não foi acompanhada de políticas públicas que garantem direitos que contemplassem as necessidades das pessoas escravizadas, o que acabou construindo, um número expressivo de “livres e libertos”, que, sem emprego, moradia e condições de subsistência, devido à ausência de políticas de integração, vagavam pelas cidades como mendigos, praticando pequenos furtos e se submetendo a condições subumanas de trabalho, oferecendo sua força de trabalho livre, porém concorrendo de forma desigual com os brancos e
- 68 - imigrantes. Sendo assim, o fim da escravidão relegou escravos libertos a viverem nas ruas, sem condições dignas de sobrevivência” (p. 409). Tal articulação entre as PSR e escravização — a qual não é amplamente reconhecida socialmente — indica um encobrimento das condições primeiras do caminho das PSR no Brasil. Ainda que ‘livres’, os escravizados não tinham direitos para construírem caminhos dignos para existir, e o mesmo acontece hoje, em que mesmo ‘livres’, não são contempladas com políticas públicas de acordo com suas necessidades. A falta de amparo no que tange às políticas públicas fica evidente com a supracitada constatação de que pessoas em situação de rua só foram contabilizadas pela primeira vez há 16 anos, e tal movimento foi fundamental não só para o mapeamento das próprias necessidades a serem atendidas por políticas públicas, como para o reconhecimento dos direitos e deveres dessas existências em sociedade. Diante desse contexto excludente, buscamos continuamente problematizar de quais modos podemos pensar e cultivar cuidado para as PSR? Quais caminhos a psicologia pode trilhar em direção da reivindicação de direitos e deveres das PSR, bem como uma apropriação destes? Para tanto, nos sustentamos nas reflexões de Fraga, Modena e Silva (2024) acerca do acesso das PSR aos serviços de saúde. Em seus escritos, as autoras destacam a marginalização que corpos em situação de rua sofrem, devido a reprodução de estigmas que configuram uma imagem negativa a qual chega antes mesmos das suas histórias. Tais estigmas que se antepõem as existências são chamadas de “barreiras imaginárias”, as quais fazem alusão a uma recusa ou distanciamento dos indivíduos em situação de rua em relação aos serviços de saúde, expressão
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 69 - do preconceito real sofrido ao longo da vida ao acessar estabelecimentos públicos. As repetidas barreiras de acesso fomentam as barreiras simbólicas que resultam em falta de confiança, insatisfação com os serviços e, consequentemente, desistência e distanciamento dos serviços públicos de saúde (Fraga; Modena; Silva, 2024, p. 8). Em meio às barreiras construídas historicamente desde a escravização, a confiança surge como um desafio e um caminho fértil quando compreendida enquanto uma fiadura conjunta. A compreensão de escravizados enquanto pessoas inferiores reverbera até hoje, desencadeando um tratamento distanciado oferecido pela sociedade, bem como pelos profissionais de saúde. Nesse sentido, compreendemos a urgência de se pensar caminhos alternativos e historicamente contextualizados para o cultivo contínuo de direções da psicologia junto às PSR. Ao longo da caminhada, a semeadura conjunta dos extensionistas entre si, bem como entre extensionistas e PSR surge como caminho fértil para reinventar o relacionamento entre PSR e profissionais da saúde. Pensando e cultivando juntos às PSR, nos movimentamos em direção a um deslocamento mínimo do distanciamento que todo um sistema constrói com frequência. Para tanto, compreendemos sobretudo que não se trata de um trabalho para as PSR, mas com as PSR. Pensamos em como a psicologia proporciona uma tessitura conjunta e pode inaugurar um caminho fértil para a reivindicação e apropriação de espaços para vozes que são cotidianamente silenciadas. Uma oportunidade de construir em conjunto uma ruptura com uma cotidianidade invisibilizadora, uma forma de desenhar e redesenhar compreensões próprias e historicamente contextualizadas.
- 70 - Qual a dinâmica do projeto? Aqui buscaremos esclarecer quais os objetivos do projeto em questão, assim como explorar um pouco da metodologia utilizada, levando em consideração as atividades planejadas e executadas, a partir das demandas observadas junto às PSR. A base metodológica do projeto é norteada pela perspectiva da fenomenologia hermenêutica, a qual norteia a contínua compreensão de sentidos para o projeto. Direcionados por esta perspectiva, concordamos com Leite e Barreto (2018) na compreensão da existência como radicalmente singular e indeterminada, logo, não nos orientamos por simples métodos em que há compreensões pré-estabelecidas. Compreendemos que é caminhando que se cultiva o caminho. Assim, continuamente tecemos junto às PSR modos possíveis de compreender as demandas que surgem e junto a elas construir, destruir e reconstruir modos de cuidado de si e de ser junto aos outros. Adotamos a clínica psicológica enquanto “uma relação concebida como reveladora e formadora de sentidos, e a qual expressa e desvela os modos-de-ser num determinado tempo e história das existências” (DUTRA, 2004, p. 384). Portanto, temos como objetivo compreendermos o atendimento à PSR conjuntamente a esta população, norteados por uma postura que orienta-se pelas trilhas reveladas na singularidade existencial, ou seja em cada modo de ser e poder ser si mesmo que se abre em cada existência e que se encontra, sempre e fundamentalmente, situada no mundo, o qual é co-originário a si. Rocha e Oliveira (2020) tecem pontuações acerca dos estigmas que envolvem o oferecimento de atendimento no âmbito da saúde para as PSRs, e, diante deste contexto, pontua a necessidade de o profissional de psicologia adotar uma busca ativa das PSR. Não se espera que a demanda chegue, mas nos estendemos até eles para, juntos, compreendermos possíveis demandas, oferecendo espaço para que suas vozes ecoem em “em nós”. Nessa perspectiva, iniciamos nossa caminhada nos estendendo ativamente à “Casa do Pão”, buscando modos de nos aproximar das PSR.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 71 - Nessa busca ativa, os gestos foram compreendidos enquanto uma “práxis, uma forma de estar e ser-no-mundo agindo (...) o gesto abre o mundo e faz dele o ‘aí’ do ser” (BORGES-DUARTE, 2019, p. 23), onde cada gesto ou olhar dos extensionistas gestavam possíveis modos de cuidado. Gestação esta que foi continuamente co-respondida pelas PSR, destacandose o movimento recorrente das PSR rasgarem um pedaço dos próprios papelões e nos oferecerem para sentarmos junto a eles no chão. Nessa extensão mútua entre PSR e extensionistas, gestamos conjuntamente o plantão como primeira modalidade clínica possível naquele espaço. O plantão “busca esclarecer, junto àquele que sofre, uma demanda a partir dela mesma, na tentativa de abrir possibilidades para que ele se responsabilize pelo seu próprio cuidado” (MORATO, 2017 , p. 19). Para além das quatro paredes, o plantão acontece quando há uma sombra onde parar e respirar, e, aí, pode-se problematizar sobre demandas possíveis. Desde a calçada e corredores da instituição às suas salas, buscamos tecer junto à PSR uma pausa em uma cotidianidade de luta por sobrevivência, para nos atentarmos às experiências que se mostram a cada pausa. Nessa configuração, os extensionistas despedem-se como uma árvore oferecendo uma guarida, um respiro em que as PSR olhem para si de modo mais atento. Longe de se ter o intuito de encobrir sofrimentos a fim de aliviá-los, mas sim de des-cobrir sentidos próprios frente às suas experiências, sobretudo no que diz respeito às violações de direitos convenientemente encobertas através das invisibilização e, muitas vezes, já naturalizadas na medida que “sempre foi assim”. Com o plantão, em um movimento de construções, destruições e reconstruções de sentidos singulares, as PSR não necessariamente retornam para o atendimento, a demanda se inicia e termina naquela oportunidade de apropriação dos seus direitos, deveres, sofrimentos, alegrias etc., decidindo por si próprios encaminhamentos existenciais, mesmo que provisórios, para si. Nesta tecitura conjunta de possíveis modos de cuidado, surgiu também a demanda por encontros grupais, bem como, tornou-se recorrente a
- 72 - solicitação pela realização de pinturas. Diante das convocações, nos aproximamos também das discussões e direções das Oficinas de Criatividade (CUPERTINO, 2006), compreendendo-a como uma outra possibilidade da clínica dar-se nesse contexto. Uma vez que a situação demandava pelo formato de grupos abertos com rotatividade semanal, sem temas pré-estabelecidos, e, muitas vezes, com a presença de recursos expressivos, que rompem com a linguagem em sua dimensão representacional. Para Cupertino (2006), as oficinas usam “recursos expressivos de natureza artística. A produção por meio desses recursos torna explícitos sentimentos, valores e preconceitos dos participantes, que podem assim ser discutidos e elaborados” (p. 1). Nessa direção, nos grupos oferecemos materiais e nos demoramos nas produções artísticas junto aos usuários. As oficinas foram tecidas no refeitório compartilhado, o que nos indicou uma aproximação de PSR que mostravam dificuldade em se expressar oralmente. Com essa aproximação, formaram-se grupos que, com a facilitação dos extensionistas, semeou-se um caminho fértil para se deparar com as diferenças. Uma possibilidade relacional nova que permitiu compreensões outras daquele espaço cotidianamente compartilhado. Dessa forma, amparados na fenomenologia hermenêutica tecemos junto às PSR caminhos possíveis em que se possa olhar singularidades em meio às pluralidades. Podemos oferecer um espaço, para além do sentido físico, como uma guarida em que se respire do constante estado de alerta que a situação de rua convoca. Juntos, tecemos possibilidades de descobrir sentidos possíveis sobre si e para si, assim como sobre e para o mundo. Tal horizonte nos aponta que a ação tem possibilitado impactos que estão articulados aos objetivos de desenvolvimento sustentável propostos pela ONU, o que apresentaremos a seguir.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 73 - Impacto do projeto: relação com os ODS O plantão propicia a apropriação e responsabilização que se mostra a cada encontro daqueles que enfrentam dificuldades no acesso à saúde, alinhando-se com o objetivo geral do ODS 16 em promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. O plantão não apenas oferece suporte psicológico, mas também se torna um espaço de fortalecimento da autonomia das pessoas atendidas, cultivando um olhar mais atento para suas condições de vida e suas possibilidades de mudança. Esse impacto se reflete na compreensão dos próprios atendidos sobre seus possíveis espaços na sociedade, bem como as sistemáticas da sociedade. Movimento que nos indica um incentivo a implicações com políticas públicas e serviços essenciais, além de fomentar um ciclo de apoio comunitário e solidário. Essa implicação, se alinha diretamente ao sub-objetivo 16.7, que visa garantir uma tomada de decisão responsiva, inclusiva e participativa em todos os níveis. Ao oferecer às PSR um espaço para um cuidado de si mais atento, a iniciativa cria condições para que esses sujeitos reconheçam sua própria capacidade de influenciar e transformar a realidade em que estão inseridos. Dessa forma, não apenas são incentivados a participar ativamente das decisões que ressoam em suas histórias, mas também encontram suporte para desenvolver estratégias que ampliem sua presença nos espaços sociais e institucionais, os quais muitas vezes o são negados. Esse movimento favorece uma maior confiança na busca por seus direitos e no fortalecimento das redes de apoio, contribuindo para a consolidação de uma sociedade mais justa e equitativa. O plantão também propõe um acesso à informação sobre saúde mental e direitos, além de uma reflexão acerca do assunto, alinhando-se ao subjetivo 16.10, que propõe assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais. Esse movimento amplia a compreensão de
- 80 - Fernanda Melo Pereira da Silva Graduanda em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Atualmente é vice-presidente do projeto de extensão Clínica Fenomenológica e Demandas Contemporâneas. Tem interesse nos estudos e na prática da Psicologia de perspectiva fenomenológica, além de se dedicar a temas como gênero, decolonialidade, interseccionalidade e saúde pública. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8971921883209715 Orcid: https://orcid.org/0009-0001-2686-7011 E-mail: fernandamelo[email protected]m Elissa Rafaelle Neves dos Santos Mestranda em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Possui graduação em Psicologia pela mesma instituição (2019). Tem experiência em Psicologia Clínica, com ênfase na clínica fenomenológica, atuando principalmente em temas como escola, clínica, Hannah Arendt e saúde mental. Também desenvolve atividades em meio social, especialmente em Plantões Psicológicos. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6394455675567781 Orcid: https://orcid.org/0009-0002-6112-8027 E-mail:
[email protected] Danielle de Fátima da Cunha Cavalcanti de Siqueira Leite Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP, 2016) e mestre pela mesma instituição (2011). Atualmente é professora adjunta da UNICAP, atuando na graduação e no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia Clínica. Integra o GT 96 da ANPEPP – Psicologia Fenomenológico-Hermenêutica e questões contemporâneas. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0770157584873529 Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9437-0031 E-mail:
[email protected]
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 81 - CAPÍTULO 5 EXPERIÊNCIA EXTENSIONISTA EM FISIOTERAPIA E EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA MULHERES MARISQUEIRAS D.O.I.: https://doi.org/10.5281/zenodo.17095333 Cristiana Machado da Rosa e Silva Almeida Áurea Beatriz Barros De Melo Cyntia Melo Carneiro Leão Loreto Giovanna Villarouco de Andrade Henrique Letícia Vitorya Santana de Santana de Paula Yasmim Fátima Moura de Souza O projeto de extensão "Fisio na Ilha", desenvolvido por estudantes do curso de Fisioterapia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), teve como objetivo promover ações de educação em saúde junto às marisqueiras da comunidade da Ilha de Deus, no Recife, com foco na prevenção de distúrbios osteomusculares e na promoção do bem-estar físico e mental. Inserido na proposta da curricularização da extensão e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o projeto realizou atividades como anamnese individualizada, oficinas de alongamento, massoterapia e fisioterapia aquática. Os resultados apontaram melhorias significativas na mobilidade, redução da dor e aumento da conscientização sobre práticas de autocuidado. A ação contribuiu tanto para a qualidade de vida das mulheres atendidas quanto para a formação humanizada e crítica dos acadêmicos envolvidos. O projeto demonstrou a relevância da extensão universitária como elo entre conhecimento científico e transformação social em comunidades vulneráveis. Palavras-chave: Extensão Universitária; Fisioterapia; Saúde da Mulher; Distúrbios Osteomusculares; Autocuidado; Ilha de Deus.
- 82 - Introdução A curricularização da extensão deve ser compreendida como um processo de inclusão de atividades de extensão curricular nos cursos de graduação, considerando a indissociabilidade do ensino e da pesquisa. Com o objetivo de oferecer uma formação integral dos estudantes para sua atuação profissional e estimulá-los a promover a transformação social desde o seu processo de graduação (BRASIL, 2018). Nesta proposta, a Escola de Saúde e Ciências da Vida da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) passou a oferecer uma disciplina interdisciplinar para os cursos de saúde, a partir do 2° período, denominada “Projeto Integrador”, que tem como objetivo fomentar a criação de projetos de extensão como este, viabilizando ações de educação em saúde destinadas a um público-alvo que enfrenta escassez de oportunidades. Neste contexto, um grupo de acadêmicos do Curso de Fisioterapia da UNICAP, orientado pelo docente responsável pela disciplina, planejou e desenvolveu o Projeto "Fisio na Ilha", com duração de um ano de meio (2023.2 até 2024.2), voltado para a realidade de uma comunidade específica: Ilha de Deus. Esta é formada por pescadores e marisqueiras e localiza-se no bairro do Pina, zona sul do Recife, Pernambuco. É uma comunidade que se desenvolveu no estuário da Bacia do Pina que enfrenta condições adversas de trabalho e tem passado por significativas transformações sociais e ambientais. É considerada uma das maiores áreas de mangue em zona urbana do Brasil, tendo a pesca como atividade econômica predominante (AUTORIDADE NOTICIÁRIA DA PESCA ARTESANAL, 2024). A região, que está inserida em uma das áreas mais críticas do Recife, foi marcada por altos índices de violência, falta de infraestrutura básica e pouca perspectiva de desenvolvimento sustentável. No entanto, projetos de revitalização têm surgido com o objetivo de transformar a realidade local, como é o caso de Ação Integrada de Investimentos para a Zona
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 83 - Especial de Interesse Social (ZEIS) que promove desenvolvimento social, inclusão e preservação ambiental (BRASIL, 2001). Diversas ações e movimentos da própria comunidade, como a Ciranda de Mulheres promovidas pela Ação Comunitária Caranguejo Uçá se preocupam com a fragilidade em que as mulheres enfrentam, resultado de desigualdade, violência, sobrecarga do trabalho, impedindo que elas cuidem de si mesmas (AUTORIDADE NOTICIÁRIA DA PESCA ARTESANAL, 2024). Atividades extensionistas interdisciplinares tem sido desenvolvida por algumas instituições com temas voltados à saúde da mulher, com temáticas voltadas para orientação a métodos contraceptivos, violência de gênero, planejamento familiar, suas percepções sobre o que é ser mulher e como isso afeta a dinâmica do trabalho dentro da comunidade (SILVA et al, 2024). Dentro desse contexto, o objetivo do Projeto extensionista foi aprimorar a qualidade de vida e o bem-estar dos moradores da região, garantindo uma eficaz disseminação de informações ligadas à manutenção e promoção de uma boa saúde, tornando-se uma prática de cuidados no âmbito da rotina dos moradores que enfrentam o trabalho intenso. Salienta-se que os pescadores costumam passar horas em dias de maré alta coletando mariscos, um trabalho pouco valorizado que exige grande esforço e oferece baixa remuneração para sustentar suas famílias. As mulheres, como esposas e filhas, também se dedicam à coleta e seleção dos mariscos, passando longos períodos sentadas de forma inadequada, o que tem provocado fortes dores em diversas regiões da coluna, punhos e joelhos. Nota-se também um perfil sedentário e de doenças associadas, como Hipertensão Arterial Sistêmica, Diabetes e outras condições. Por isso, o objetivo final do projeto não é apenas trazer alívio da dor pontual, mas promover conscientização e auto responsabilização para que as marisqueiras adotem práticas contínuas de autocuidado, promovendo uma melhora sustentável na qualidade de vida.
- 84 - Salienta-se que, a busca por um desenvolvimento sustentável é um desafio crucial para garantir melhores condições de vida para seus moradores. Nessa perspectiva, o projeto visou discutir os objetivos de desenvolvimento sustentável aplicados à realidade da comunidade e os desafios enfrentados, com especial atenção à saúde e bem-estar da população, bem como, às condições de trabalho das marisqueiras. A iniciativa foi marcada pela análise de busca, por meio de ações coletivas, empoderamento local, proporcionando hábitos de vida saudável para os moradores da Ilha de Deus, promovendo conscientização sobre a saúde física e mental e práticas fisioterapêuticas para mitigar os impactos da atividade laboral na saúde. Diante do exposto, é evidente a relevância de iniciativas como esta, que evidenciam a possibilidade de alcançar uma qualidade de vida superior em face das circunstâncias atuais. Essas ações não apenas assistem aqueles que necessitam, mas também promovem a disseminação de conhecimentos, ressaltando a importância de auxiliar o próximo, combatendo a marginalização e favorecendo um estilo de vida mais digno. Apresentação do problema As marisqueiras, como gostam de ser chamadas, são mulheres trabalhadoras autônomas, donas de casa, mães, avós, tias, irmãs e sobrinhas, todas em prol de um só trabalho, a limpeza dos mariscos e sururu para tirar o seu sustento. Elas exercem uma atividade exaustiva de trabalho, sem pausas e sentadas com escassez de mecanismo de regulação da sobrecarga musculoesquelética, resultando em aumento e desordem de Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - DORT (VIEIRA; KUMAR, 2004). O trabalho hábil com as mãos em tirar o molusco da casca acontece na beira da maré ou na porta de casa, sentadas em um banco de madeira improvisado, consistindo, portanto, em uma rotina árdua e cansativa, que
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 85 - começa logo cedo e se estende até o final do dia, sem interrupção, favorecendo a negligência de suas necessidades fisiológicas, com consequências biopsicossociais e posturais. Diante dessa situação, o trabalho exercido de forma repetitiva e insalubre tem um papel central em consequências expressivas de ‘’dano’’ na evolução saúde-doença das trabalhadoras, sendo compatível aos fatores de riscos do manual de procedimentos para os serviços de saúde sobre doenças relacionadas ao trabalho do ministério da saúde. Porém, permanecem invisíveis e negligenciadas epidemiologicamente (BRASIL; 2001; PENA et al., 2010). A negligência de procura e ensino sobre o autocuidado dessa população, além da priorização do trabalho em massa faz com que o intensivo capital seja mais importante do que sua saúde e o bem-estar. Sendo assim, elas ultrapassam seus limites fisiológicos e cognitivos, não tomando devidas precauções e concentrando períodos de tempos de esforços em músculos, articulações e tendões (da região cervical e lombar) e sem práticas de atividades físicas, alimentação saudável, exames regulares e proteção solar, o que se reflete na presença de doenças cardiovasculares, osteoarticulares, hormonais e dores crônicas, nessa comunidade (BRASIL, 2001). A atuação da Fisioterapia, por meio de visitas e atendimentos de acadêmicos na Ilha de Deus, é crucial para avaliar o ambiente de trabalho e torná-lo mais adequado às necessidades das marisqueiras. São desenvolvidos projetos para resolver problemas no espaço físico de trabalho, promover a saúde da mulher e prevenir distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. No entanto, a alta carga de trabalho e a falta de tempo dificultam a realização de avaliações regulares, sendo um obstáculo adicional ao cuidado das mulheres, muitas vezes sobrecarregadas fisicamente e mentalmente. Diante disso, considera-se o projeto crucial no âmbito da atenção à saúde e bem-estar dessas mulheres, considerando todos os desgastes físicos relativos a uma rotina baseada em aumento de produtividade e lucros.
- 86 - Metodologia / apresentação do projeto Para compreender os desafios e oportunidades, foi realizada uma análise sobre os impactos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 3): Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas as pessoas, em todas as idades. Além de entrevistas com moradores, líderes comunitários e especialistas. Foram investigadas iniciativas, que abordam saúde e bem-estar, como programas de atendimento, práticas de saneamento sustentável e ações educativas voltadas à prevenção de doenças e promoção da qualidade de vida (SANTANA, 2018). Nessa perspectiva, o projeto "Fisio na Ilha", desenvolvido por estudantes de Fisioterapia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atuou diretamente com as mulheres marisqueiras, produzindo atividades, que incluíram anamnese individualizada, oficinas de alongamento, massagens terapêuticas e Fisioterapia Aquática, visando minimizar os impactos negativos das condições de trabalho e incentivar o autocuidado. Além disso, o projeto se propôs a analisar as posturas adotadas, durante o processo de coleta e seleção de marisco e identificar as queixas de dor mais frequentes; compreender a relação entre as condições de trabalho e o impacto na saúde, com a meta principal de saúde e bem-estar (SOUZA, 2021). Com base nos resultados obtidos, foram propostas intervenções voltadas para a redução do impacto das condições de trabalho sobre a saúde das marisqueiras através de atividades de educação em saúde. Desta forma, ofertaram-se orientações sobre ergonomia, incluindo a postura correta ao sentar a importância de realizar pausas para alongamentos e a escolha de um mobiliário mais adequado, como bancos e mesas de altura adequada para cada mulher. Além disso, foram ensinadas técnicas de alongamento e exercícios de fortalecimento muscular com ajuda da Liga Acadêmica de Fisioterapia em Ergonomia do Trabalhador – LIF-Erg/UNICAP. Salienta-se
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 87 - que uma Liga Acadêmica é formada por estudantes e orientada por professores, com objetivo de aprofundar conhecimentos em uma área específica, promovendo atividades de pesquisa, palestras, eventos científicos, projetos de extensão e práticas profissionais. Nesse contexto, a LIFErg/UNICAP atua na temática de saúde do trabalhador sobre as diversas funções que podem comprometer a funcionalidade do indivíduo (SANTANA et al., 2018; SOUZA, 2021). As intervenções propostas visam não apenas o alívio imediato da dor, mas também, a promoção da saúde a longo prazo, cujas ações planejadas incluem: 1. Anamnese individualizada: Com avaliação detalhada do histórico de saúde, queixas específicas de dor e condições físicas de cada trabalhadora; permitindo a personalização das abordagens de acordo com as necessidades individuais. Tratando-se de mulheres casadas, com faixa etária de 25 a 60 anos, com filhos, pouco ou nenhum nível de escolaridade. Foi avaliado que a maioria tem hipertensão arterial e dores crônicas (BRASIL, 2016). 2. Sessões de alongamento: Através de exercícios direcionados aos principais grupos musculares sobrecarregados durante o trabalho, com o objetivo de melhorar a flexibilidade, reduzir a tensão muscular e prevenir lesões por esforço repetitivo (SOUZA, 2021). 3. Massoterapia: Direcionada para o alívio de tensões musculares e dores crônicas, com ênfase em pontos de tensão identificados nas avaliações iniciais, contribuindo para a melhora da circulação sanguínea e o relaxamento muscular (SILVA, 2019). 4. Fisioterapia Aquática: Realizada na piscina terapêutica aquecida localizada nos Laboratórios Especializados de Fisioterapia da Unicap – Corpore Sano, aproveitando os benefícios do ambiente
- 88 - aquático para reduzir a sobrecarga articular e facilitar a execução de dinâmicas e exercícios de fortalecimento muscular, alongamento e relaxamento com menor impacto e maior conforto (SILVA; PEREIRA; SOUZA, 2008) Abaixo, seguem registros das ações realizadas (Figuras 1 a 5). Figura 1 - Visita e análise do ambiente de trabalho. Fonte: Arquivo próprio das pesquisadoras. Figura 2 - Oficinas de alongamentos e massoterapia / Fonte: Arquivo próprio das pesquisadoras.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 89 - Figura 3 - Oficinas de autocuidado. Fonte: Arquivo próprio das pesquisadoras. Figura 4 - Anamnese individualizada. Fonte: Arquivo próprio das pesquisadoras.
- 96 - oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/4 Organização das Nações Unidas. (n.d.-c). Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos. https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/8 Pena, P. G. L., Reis, E. J. F. B., & Barbosa, A. M. G. (2010). Relação entre trabalho e saúde: tópicos iniciais. Faculdade de Medicina da Bahia, Departamento de Medicina Preventiva e Social. Santana, R. R., Santana, C. C. A. P., Costa Neto, S. B., & Oliveira, Ê. C. (2021). Extensão universitária como prática educativa na promoção da saúde. Educação & Realidade, 46(2). https://www.scielo.br/j/edreal/a/qX3KBJghtJpHQrDZzG4b8XB/ Santana, V. S., et al. (2018). Lesões por esforços repetitivos em marisqueiras do litoral nordestino. Ciência & Saúde Coletiva, 23(12), 4115–4126. https://www.scielo.br/j/csc/a/LzQLcj4srhm8VMK3nz5xTPJ/ Silva, A. M., Pereira, M. G., & Souza, R. R. (2008). Efeitos fisiológicos e evidências científicas da hidroterapia: uma revisão. Revista Movimenta, 1(1), 23–30. https://www.revista.ueg.br/index.php/movimenta/article/download/7235/4994/26266 Silva, L. C., Santos, M. A. M., Martins, A. K. M., Eleotério, S. S., & Nepomuceno, M. M. (2024). Conversando sobre gênero, fortalecendo pontes: vivência de um projeto de extensão na Ilha de Deus. Revista Extensão e Cultura da UFRB, 25(1). Souza, C. A., & Viana, J. E. (2021). Benefícios da hidroterapia na redução da dor e na melhora da função física em indivíduos com lombalgia: uma revisão de literatura. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 7(10), 2173–2185. https://doi.org/10.51891/rease.v7i10.2774 Souza, G. (2021). A prevalência de distúrbios musculoesqueléticos em pescadores artesanais e atuação da fisioterapia preventiva: revisão bibliográfica. https://revistaft.com.br/a-prevalencia-de-disturbios-musculoesqueleticos-empescadores-artesanais-e-atuacao-da-fisioterapia-preventiva-revisao-bibliografica
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 97 - Vieira, E. R., & Kumar, S. (2004). Esforço físico ocupacional e saúde musculoesquelética. In XIII Congresso Brasileiro de Ergonomia (CD-ROM). Abergo. Autoridade Noticiária da Pesca Artesanal. (2024). Ilha de Deus: O caminho das águas no coração do Recife. https://www.anf.org.br/ilha-de-deus-o-caminhodas-aguas-no-coracao-do-recife/ SOBRE OS AUTORES Cristiana Machado da Rosa e Silva Almeida Docente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto Aggeu Magalhães – FIOCRUZ/PE. Coordenadora dos cursos de Fisioterapia e Fonoaudiologia da UNICAP, do Projeto de Extensão “Estação Fisio” e professora colaboradora da Liga Acadêmica de Fisioterapia Neurofuncional. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/5173391765455779 ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9341-6926 Áurea Beatriz Barros de Melo Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Graduanda em Fisioterapia. Participou de simpósios, congressos e cursos na área. Atuou em ONG com ações voltadas à comunidade. Interessa-se por fisioterapia ginecológica, obstétrica e dermatofuncional. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/4384950817236819
- 98 - Cyntia Melo Carneiro Leão Loreto Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Graduada em Direito. Atualmente cursa Fisioterapia. Participou de fóruns, congressos e minicurso em ventosaterapia. É extensionista no projeto “Dialogando com cuidadores de crianças com deficiência”. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/2950080899702988 Giovanna Villarouco de Andrade Henrique Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Graduanda em Fisioterapia. Participa da Liga Acadêmica de Cardiorrespiratória e Terapia Intensiva. Foi monitora de Anatomia Humana. Interessa-se por neurologia, terapia manual e fisioterapia desportiva. E-mail: giovanna.000008[email protected] Lattes: https://lattes.cnpq.br/5484719900322633 Leticia Vitorya Santana de Paula Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) Vice-presidente da Liga Acadêmica de Fisioterapia Cardiorrespiratória. É extensionista do projeto “Desvendando o Corpo Humano”. Interessa-se por fisioterapia cardiorrespiratória, intensiva e neurologia. E-mail:
[email protected] Lattes: https://lattes.cnpq.br/9686143492832746
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 99 - CAPÍTULO 6 FISIOTERAPIA PÉLVICA NA SAÚDE DO HOMEM E DA MULHER D. O. I.: https://doi.org/10.5281/zenodo.17095440 Ana Kecia Monteiro Gomes Bianca Maria Barros Cavalcanti Larissa Barbosa da Silva Rebeca Silvestre Ferreira de Oliveira Valéria C. Passos de Carvalho Vitória Rebeca Isaac dos Santos Santana A Liga de Fisioterapia Pélvica (LAFIP) busca disseminar conhecimento relevante e promover conscientização sobre questões intrínsecas à saúde pélvica. Por meio de ações planejadas e executadas, ela se envolve ativamente com as comunidades, desempenhando um papel fundamental na disseminação de informações cruciais sobre as disfunções que atingem o assoalho pélvico feminino e masculino. Os membros buscam desmistificar concepções equivocadas, ao passo que fornecem esclarecimentos abrangentes acerca das causas subjacentes, manifestações clínicas e modalidades terapêuticas destinadas a mitigar seus efeitos. As ações desenvolvidas pela Liga também compreendem a distribuição de cartilhas informativas. Tais documentos elucidativos desempenham um papel vital ao fornecerem orientação prática sobre medidas a serem adotadas para abordar as disfunções. Os acadêmicos recebem orientação e capacitação para a implementação de exercícios específicos voltados a conscientização e fortalecimento da musculatura pélvica. Desta forma transcenderam o âmbito didático, estendendo-se a intervenções pragmáticas em prol da conscientização comunitária. Nesse contexto, os membros da Liga não apenas compartilham conhecimento através de sessões expositivas, mas também promovem a interatividade e participação, oferecendo demonstrações práticas dos exercícios pélvicos recomendados. Palavras-chave: Saúde da Mulher; Saúde do Homem; Fisioterapia; Assoalho Pélvico.
- 100 - Introdução A Fisioterapia Pélvica atingiu tamanha importância no contexto da saúde da mulher, assim como no tratamento de homens e crianças, vem sendo apontada como procedimento de primeira escolha no tratamento das disfunções urogenitais, postergando procedimentos cirúrgicos (FONSECA ET AL,2014; STEIN ET AL, 2018). É uma área que vem ganhando cada vez mais destaque na, atuando na promoção, prevenção e tratamento das disfunções do assoalho pélvico, com crescentes evidências científicas respaldando sua eficácia (Bø ET AL, 2015). As disfunções do assoalho pélvico são condições que acometem homens e mulheres em idades variadas, que podem levar essa população a enfrentar diversos problemas na realização das suas atividades de vida diária e/ou profissional e desta forma influenciar na qualidade de vida. Diversos são os fatores etiológicos que favorecem o aparecimento de transtornos no assoalho pélvico, e entre os principais distúrbios podemos citar: Incontinência Urinária; Disfunções sexuais; Hiperatividade Vesical; Incontinência Fecal; Dor pélvica Crônica; Constipação, entre outros (CENTEMERO ET AL, 2010; BERTOLDI, GHISLERI, £ PICCININI, 2014; STEIN ET AL, 2018). É importante lembrar que os problemas uroginecológicos afetam grande parte da população. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) os problemas do assoalho pélvico chegam a atingir 20% da população do Brasil, no qual as mulheres representam 70% dos casos. As causas mais comuns são: gravidez; menopausa; constipação; cirurgias no baixo ventre, etc. Nos homens o fator principal é o aumento da próstata. Porém tanto homens quanto mulheres na terceira idade durante o processo de envelhecimento, estão sujeitos a vários problemas de disfunção no assoalho pélvico (OLIVEIRA ET AL,2010). Devido ao impacto negativo na qualidade de vida, aos altos custos pessoais e governamentais e à sua prevalência, uma maior importância tem
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 101 - sido dada ao tratamento das disfunções do assoalho pélvico nos últimos anos, tanto no que diz respeito à criação de serviços específicos para atendimento à população quanto ao desenvolvimento de pesquisas científicas que possam nortear o eficiente manejo de tais disfunções (BERTOLDI, GHISLERI, £ PICCININI, 2014; STEIN ET AL, 2018). A fisioterapia pélvica desempenha um papel crucial nas diferentes fases da vida da mulher, como gestação, parto e climatério. Por isso, não deve ser vista apenas sob o aspecto do tratamento após o problema instalado, mas também como importante ferramenta de prevenção de diversas disfunções (MARQUES E FREITAS, 2005; BORBA, 005; LELIS, BRÊTAS, 2008). Em relação a saúde dos homens, é essencial na reabilitação dos pacientes submetidos à prostatectomia e suas repercussões. O aumento da próstata é um fator principal que leva a disfunções do assoalho pélvico, muito comum nos homens na terceira idade, durente o processo do envelhecimento. Adicionalmente pode-se atuar na dor pélvica crônica masculina e nas disfunções sexuais (CENTEMERO ET AL, 2010). Os projetos de extensão de fisioterapia pélvica têm um impacto significativo na comunidade, proporcionando acesso a cuidados especializados que muitas vezes não estão disponíveis em áreas periféricas. Estudos demonstram que esses projetos melhoram a qualidade de vida dos participantes ao tratar disfunções do assoalho pélvico, como incontinência urinária, disfunções sexuais e dor pélvica crônica ( BARBOSA ET AL, 210; LACERDA e RIBEIRO, 2015; MADUENHO ET AL,2022). Além disso, a educação em saúde promovida por esses projetos aumenta a conscientização sobre a importância da saúde pélvica, permitindo que os indivíduos adotem práticas preventivas e busquem tratamento adequado quando necessário (BOEIRA ET AL, 2021). A implementação de projetos de extensão de fisioterapia pélvica também fortalece a formação dos estudantes envolvidos, proporcionando-lhes experiência prática e desenvolvimento de habilidades socio-emocionais. A
- 102 - interação direta com a comunidade permite que os alunos compreendam melhor as necessidades dos pacientes e desenvolvam empatia e sensibilidade. Além disso, esses projetos promovem a colaboração entre diferentes profissionais de saúde, criando um ambiente interdisciplinar que enriquece o aprendizado e melhora a qualidade do atendimento prestado ( BARBOSA ET AL, 210; LACERDA e RIBEIRO, 2015; MADUENHO ET AL,2022). Em resumo, os projetos de extensão de fisioterapia pélvica beneficiam tanto a comunidade quanto os futuros profissionais de saúde, contribuindo para um sistema de saúde mais inclusivo e eficaz. Ressalta-se tambem como intenção deste projeto a ampliação da atuação fisioterapêutica dentro das unidades de saúde tende a ser mais proveitosa quando os profissionais envolvidos também tomam consciência de sua importância neste cenário. Quanto maior for o trabalho de informação sobre o valor da Fisioterapia Pélvica junto ao público, aos gestores e às demais áreas da saúde, maior será o campo de trabalho e maior será o seu alcance na reabilitação dos pacientes que dela necessitam e ainda a desconhecem. Bem como, promover ações de promoção à saúde, prevenção das disfunções do assoalho pélvico para homens e mulheres que possam se beneficiar destas ações. E por fim, é importate ressaltar que esse projeto tem um potencial de intervenção que pode melhorar a saúde de mulheres e homens, oferecendo benefícios significativos na promoção à saúde, prevenção e tratamento das disfunções do assoalho pélvico, com base em evidências científicas, para contribuir na melhoria da qualidade de vida e bem-estar da população, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)3,4 e 5, ao promover saúde, educação e igualdade de gênero.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 103 - Metodologia A LAFIP desenvolveu três linhas de ação; 1.Atividades De Extensão: Foram realizadas ações de promoção à saúde através da montagem de oficinas, palestras educativas, bem como, orientações e tratamentos necessários para a população feminina e masculina sobre as principais disfunções que podem ocorrer no assoalho pélvico durante a sua vida. Estas atividades foram realizadas através de postagens nas redes sociais, LIVES ou outras atividades diretas nas comunidades como por exemplo entre idosos, na caravana da saúde, com orientações e entregas de cartilhas educativas, além de promover um Aulão Relâmpago intitulado de Atuação da Fisioterapia Pélvica na Gestação, Parto e Pós-Parto em 2023 com palestrante convidada e ações para o público gestante através do projeto Chá de Bênçãos promovida pelas ligantes em 2024. Figura 2. Chá de bênçãos, 2024 Figura 1. Aulão relâmpago, 2023
- 104 - 2. Atividades de ensino: Foram realizados encontros entre os LIGANTES, no intuito de promover debates e atualização científica do arsenal fisioterapêutico que podem ser utilizados para a confecção de artigos científicos, participação em eventos científicos da área de atuação da LIGA, as atividades serão realizadas através de Meetings, realização de eventos científicos abertos ao público como palestras, simpósios e congressos. 3. Atividades de apoio a pesquisa: Foram realizadas ações no sentido de promover a busca do conhecimento sobre a área de desenvolvimento da LIGA, através da busca ativa junto aos professores da área, de artigos já produzidos sobre as disfunções do assoalho pélvico e assim formar um clube de leitura e discussão de casos clínicos para o aprofundamento e incentivo a criação de novos produtos científicos na área. A atividade deve ocorrer pelo menos uma vez por mês junto aos LIGANTES de forma a poder criar artigos que possam ser compartilhados e publicados nos diversos meios científicos (revistas, congressos, seminários, simpósios, páginas da web da LIGA). Como produto, houve a publicação de um capítulo no E-book –A extensão universitária em tempos de pandemia – Título do Capítulo: COVID e seu impacto no assoalho pélvico feminino e masculino. Foram apresentados dois trabalhos no III Congresso Nacional de Fisioterapia na Saúde da Figura 3. 21ª Semana de Integração da UNICAP (SIUCS), palestras explicativas, atividades de mobilidade e produção de cartilhas
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 105 - Mulher e do Homem (CONEFISMH) / VIII Encontro Nordestino de Fisioterapia na Saúde do Homem (ENFISH)/ XV Encontro Nordestino de Fisioterapia na Saúde da Mulher (ENFISM) e no ano de 2023 foi publicado um capítulo nos Anais Eletrônicos da 1ª Jornada Unicap, Extensão e Comunidade – Título do Capítulo: Fisiotarapia Pélvica na Saúde do Homem e da Mulher - página 76-82. Impactos O impacto positivo são as repercussões da informação e conscientização, estabelecendo junção igualitárias e identificando os principais problemas da população. A transformação social pode ser observada através da aplicação do conhecimento acerca da Fisioterapia Pélvica para a população masculina e feminina promovendo benefícios à saúde e qualidade de vida, promovendo benefícios à saúde e qualidade de vida, alinhados ao ODS3:Saúde e Bem-estar. Fundamentando essa ODS3 com atividades de prevenção as disfunções do assoalho pélvico, como Incontinência urinária e fecal, que afetam a qualidade de vida dos indivíduos, assim, essa intervenção pode melhorar a saúde geral e bem-estar dos pacientes. Além disto provoca efeitos assertivos aos discentes, docentes e comunidade, cooperando no processo emancipatório seja na promoção, prevenção e/ou reabilitação, conforme os princípios da ODS4: Educação de Figura 4. Participação na elaboração do E-book com 10º Capítulo; anais da 1ª jornada Unicap extensão e apresentação de dois trabalhos em congresso
- 112 - CAPÍTULO 7 DIALOGANDO COM CUIDADORES DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA D.O.I.: ttps://doi.org/10.5281/zenodo.17095501 Cristiana Maria Macedo de Brito Aissa Mendes Paes Barreto Ana Roberta da Silva Magina Brenda de Pádua Nascimento Maria Elisabete Stephany Benevides da Silva Mel Carolyne Angeiras Santos O projeto de extensão “Dialogando com Cuidadores de Crianças com Deficiência”, promovido pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), tem como objetivo oferecer suporte físico, emocional e social a cuidadores informais de crianças atendidas na clínica-escola de Fisioterapia Corpore Sano. Esses cuidadores, em sua maioria familiares, assumem uma rotina intensa de cuidados, frequentemente sem apoio ou preparo adequado, o que acarreta sobrecarga emocional, dores físicas e isolamento social. O projeto realiza atividades semanais orientadas por estudantes de Fisioterapia sob supervisão docente, envolvendo exercícios físicos, dinâmicas de grupo e momentos de relaxamento, visando à melhoria da qualidade de vida desses cuidadores. Os resultados mostram benefícios significativos, como alívio de tensões físicas, maior socialização e fortalecimento emocional. Além disso, a experiência extensionista proporciona aos estudantes uma formação integral, despertando empatia, proatividade e sensibilidade social. O projeto se alinha ao ODS 3 da Agenda 2030, promovendo saúde e bem-estar para todos. Palavras-chave: Cuidadores Informais; Deficiência Infantil; Extensão Universitária; Fisioterapia; Qualidade de Vida.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 113 - Introdução O projeto dialogando com cuidadores de crianças com deficiência surgiu com o objetivo de dar reconhecimento e visibilidade aos cuidadores informais de crianças atípicas, atendidas no setor de Fisioterapia nos Laboratórios de Fisioterapia e Terapia Ocupacional Corpore Sano da UNICAP. Salienta-se que, um cuidador informal (CI) é aquela pessoa que cuida e dá assistência necessária para que o indivíduo consiga suprir as necessidades básicas e diárias, não sendo remunerada por isso. Além disso, o cuidador precisa adaptar seu cotidiano ao da criança, e muitas vezes, acabam negligenciando a si mesmo, acarretando adversidades ligadas à sobrecarga emocional dessa rotina de cuidados (Silva et al., 2022). Outrossim, em alguns casos, o cuidado não vem acompanhado por um preparo prévio, o que pode levar a conflitos e afetar negativamente a saúde do cuidador, bem como, interferir no tratamento da criança. Isso pode ser explicado pela frequência de queixas de estresse, dores musculoesqueléticas, afastamento de membros da família e depressão. Além disso, esses cuidadores, muitas vezes, são negligenciados pelo sistema, não tendo seus esforços valorizados, nem no âmbito familiar, nem na sociedade como um todo (Martins; Ribeiro; Garret, 2003; Sousa et al., 2008). Tendo em vista esse contexto, a Fisioterapia é essencial como um meio de promoção à saúde a fim de fornecer suporte necessário às famílias de crianças com algum nível de dependência funcional, influenciando de maneira positiva o bem-estar geral e a qualidade de vida dessa população, que dedica sua vida ao ato de cuidar (Custódio et al., 2007). Diante desse contexto, o projeto “Dialogando com cuidadores de crianças com deficiência” tem como objetivo oferecer assistência e promover saúde aos cuidadores das crianças que são atendidas na clínica-escola de Fisioterapia Corpore Sano, da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), de forma voluntária, atuando no sentido de mitigar a sobrecarga e o impacto emocional negativo, intrínseco ao ato de cuidar,
- 114 - favorecendo o autocuidado dessa população e consequentemente sua qualidade de vida. Apresentação do problema/desafio Crianças com deficiência tendem a ser mais dependentes dos seus cuidadores, desempenhando menos atividades de forma independente, quando comparadas com crianças típicas. Essa dependência está diretamente associada à gravidade da limitação, que é apresentada pela criança. Esse fator varia de caso a caso e afeta diretamente a qualidade de vida de seus cuidadores (Mancini, et al., 2004; Oliveira et al., 2008; Camargos et al., 2009; Vasconcelos et al., 2009; Silva et al., 2022). Por conseguinte, devido ao nível de envolvimento nos cuidados com a criança, o cuidador é levado a incorporar uma nova realidade ao seu cotidiano, moldando-se à realidade da criança. Isso reflete uma rotina muitas vezes cansativa, e assim, quase sempre negligenciam suas necessidades pessoais, podendo ocasionar consequências biopsicossociais na vida dessas pessoas (Cattania; Girardon-Perlini, 2004; Almeida, et al., 2007). Nesse contexto, esses cuidadores acabam colocando sua saúde em segundo plano para priorizar a integridade e os tratamentos da criança, não tomando as devidas precauções no que se diz respeito à atividade física, alimentação e saúde mental. Isso pode ser evidenciado pelo índice considerável desses cuidadores com depressão, ansiedade e síndrome de Burnout (Martins; Ribeiro; Garrett, 2003; Sousa, et al., 2008). Ressalta-se que, na clínica escola Corpore Sano, as crianças com deficiência realizam semanalmente sessões de Fisioterapia, ficando o restante do tempo aos cuidados de pais ou responsáveis em domicílio, sendo orientados pelos terapeutas como dar continuidade ao tratamento em casa. Contudo, por conta da demanda dos atendimentos, há uma dificuldade do acompanhamento específico para esses cuidadores, no que diz
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 115 - respeito à forma como estão lidando, tanto fisicamente como mentalmente, com a situação na qual eles e as crianças estão inseridas. Desse modo, o projeto tem sido crucial na verificação da presença de desgastes físicos e mentais no cotidiano desse público, além de identificar dores musculoesqueléticas, por conta da sobrecarga muscular, durante os manuseios e as transferências dessas crianças. No âmbito socioemocional, um dos pontos chaves das intervenções é exercer a escuta ativa desses cuidadores, bem como fornecer informações sobre a existência de associações e grupos de apoio. Isso se reflete em uma grande relevância, visto que propicia uma maior visibilidade a essa população, bem como, um ambiente acolhedor, haja vista, que são constantemente invisibilizados pela sociedade. Metodologia O projeto de extensão "Dialogando com os cuidadores de crianças com deficiência", proposto pelo curso de Fisioterapia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), oferece assistência aos cuidadores familiares das crianças com deficiência atendidas nos Laboratórios de Fisioterapia e Terapia Ocupacional Corpore Sano da UNICAP, no sentido de favorecer o bem-estar geral dos cuidadores e melhorar sua qualidade de vida, fazendo uso de diversos tipos de recursos fisioterapêuticos e atividades lúdicas. As atividades são desenvolvidas pelos alunos voluntários, sob a supervisão da Professora Doutora Cristiana Maria Macedo de Brito, uma vez por semana, em dois grupos com duração de uma hora cada grupo, atendendo a um público de cerca de seis participantes para cada horário. Os objetivos do projeto consistem em: proporcionar atividades aos cuidadores de crianças com deficiência, bem como orientação quanto aos cuidados a serem realizados em domicílio, além de orientá-los com relação
- 116 - à patologia que a criança apresenta; fornecer assistência à saúde do cuidador com relação à sobrecarga física ao lidar com a criança deficiente; conscientizar e incentivar a participação da família no processo de evolução da criança; proporcionar diversas atividades físicas e dinâmicas de grupo; oferecer momentos de descontração e prazer, minimizando a sobrecarga do cuidar em tempo integral da criança com deficiência. Para esse propósito, a cada encontro, são realizados alongamentos; exercícios para os membros superiores, inferiores e tronco; circuito de marcha com obstáculos; atividades lúdicas, manuais e com jogos, estimulando a cognição, memória e raciocínio; dinâmicas de grupo; e finalmente, um momento de relaxamento. Para tanto, são usados os materiais disponíveis na clínica escola como bastão, colchonete, bola suíça, bola cometa, som, halter, faixa elástica, bambolê, entre outros. As atividades são programadas em etapas, que consistem em: - Alongamentos: a fim de flexibilizar a musculatura de membros superiores, inferiores e tronco, preparando-a para os exercícios. Imagem 1: alongamento da musculatura do membro superior - Exercícios: com a finalidade de fortalecer a musculatura e estimular a movimentação ativa, bem como, circuito de marcha, favorecendo o equilíbrio estático e dinâmico, além de coordenação motora.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 117 - Imagem 2 e 3: exercícios para membros inferiores e circuito de marcha -Dinâmicas de grupos: para favorecer a socialização, por meio de descontração e interação social, na qual são realizadas brincadeiras de percepção motora e de equilíbrio. Imagem 4: dinâmica de grupo com interação social) -Relaxamento: a fim de aliviar a tensão muscular e promover o bem-estar, sendo realizado por meio de práticas de meditações, massagens relaxantes ou técnicas de respiração.
- 118 - Imagem 5: relaxamento muscular com bola Suíça Salienta-se que, a promoção do bem-estar é sempre pauta dos encontros semanais, e o desenvolvimento interpessoal é outro fator primordial, visto que, é necessário atender cada cuidador de acordo com suas necessidades e capacidades, olhando para ele como pessoa, e não só como cuidador. O sentimento de pertencimento e confiança é adquirido ao longo das semanas, a partir do momento que os cuidadores entendem que o motivo principal das atividades desenvolvidas é proporcionar bem-estar e melhorar a qualidade de vida deles. Resultados obtidos Os cuidadores do nosso projeto são priorizados com uma atenção especial, considerando que o cuidador informal é totalmente responsável pela rotina diária da criança com deficiência, se importando, muitas vezes, mais com a criança do que consigo mesmo, além de incorporar uma realidade desgastante, que envolve estresse, diminuição do contato familiar, fadiga e depressão, como relatado pela literatura (Martins; Ribeiro;Garrett, 2003; Cattani; Girardon-PerliniI, 2004; Almeida, et al., 2007; (Sousa, et al., 2008). Dessa forma, com a realização das atividades propostas pelo projeto, é possível observar semestralmente uma melhora das condições de saúde física, evidenciadas pelo fortalecendo muscular, melhora da mobilidade
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 119 - articular e das condições posturais; como também, dos aspectos emocionais, relacionados a uma maior interação social entre os participantes, além de maior desenvoltura, descontração e sensação de acolhimento, revelando um bem-estar geral dos participantes. Impacto do projeto Em acordo com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (Saúde e Bem-estar), o qual, relata a importância de “assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos em todas as idades”, o presente projeto extensionista atua ativamente na promoção da saúde e do bem-estar dos participantes, incentivando os cuidadores a se movimentarem por meio de atividades conduzidas pelos alunos de Fisioterapia, na clínica escola Corpore Sano. Nesse sentido, a meta do projeto é motivar essa população a adotar um estilo de vida mais saudável e equilibrado, o que pode resultar na redução do uso de medicamentos, consultas médicas e procedimentos clínicos. Além dos benefícios para a saúde, o projeto também muda a realidade do contexto de sala de aula dos estudantes, indo para além do aprendizado acadêmico. Isso se reflete no desenvolvimento da empatia e sensibilidade, visto que, o contato com diferentes realidades amplia a compreensão das necessidades da comunidade. Salienta-se ainda, a melhoria da comunicação e a abordagem do trabalho em equipe, na medida que este jovem gera consigo a autoconfiança e a proatividade, fazendo com que ele aprenda a lidar com desafios reais e capacidade de tomada de decisões, essencial para uma vivência acadêmica de excelência. Por fim, o propósito da extensão também gera um impacto social significativo na vida dos cuidadores, fortalecendo vínculos com os encontros semanais, que proporcionam um espaço de troca de experiências, relatos
- 120 - e desabafos sobre suas necessidades, de maneira leve e acolhedora, promovendo uma relação harmoniosa entre participantes e voluntários. Outro aspecto relevante é que, após a participação no projeto, alguns cuidadores relatam uma maior disposição para sair, interagir socialmente e ampliar seu nível de envolvimento com a comunidade, fortalecendo sua inclusão social e qualidade de vida. A fim de ilustrar os impactos na formação pessoal e profissional dos estudantes extensionistas, bem como, da percepção das cuidadoras, seguem alguns depoimentos de participantes do projeto Dialogando, no semestre 2024.2. “Fazer parte do Dialogando com cuidadores de crianças com deficiência foi uma experiência gratificante e transformadora. Ao longo dessa jornada, tive a oportunidade de aprender não apenas sobre o trabalho em equipe, mas também sobre o estudo dos movimentos e a importância da escuta ativa. O estudo dos movimentos me fez enxergar como cada pequeno gesto pode ser significativo no desenvolvimento e bem-estar de alguém. Ficou ainda mais claro o quanto o exercício físico é fundamental também para os cuidadores. Cuidar do próprio corpo e bem-estar não é um luxo, mas uma necessidade para quem dedica tanta energia e amor ao outro. O movimento não apenas fortalece fisicamente, mas também alivia tensões, reduz o estresse e melhora a disposição para enfrentar os desafios diários. Saio dessa experiência com um olhar ampliado e a certeza de que pequenas ações podem fazer uma grande diferença na vida de muitas famílias.” Adriene Cecile de Souza Alves (Acadêmica do terceiro período do curso de Fisioterapia). “O projeto Dialogando foi uma etapa na minha jornada acadêmica de grande importância e encorajamento. Através desse projeto, pude ver que o cuidado com pessoas por meio da Fisioterapia vai além dos conhecimentos sobre a prática fisioterapêutica, pois também se trata de uma conexão com o paciente. No
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 121 - projeto, pude vivenciar isso de forma palpável, o que me fez crescer como pessoa e como aluna. Todos os exercícios, alongamentos e momentos de relaxamento, junto com as cuidadoras e alunos do projeto, me ensinaram várias coisas, como: as adaptações para cada tipo de paciente, a ter um ouvido disposto a escutar aquelas pessoas e aliviar suas dores físicas, na medida do possível, possibilitando uma melhor qualidade de vida. Sendo assim, sou grata ao projeto por me ensinar a ser uma aluna e consequentemente profissional, bem equipada e com um olhar mais abrangente para a Fisioterapia”. Vitória Silvestri de Paula Lopes (Acadêmica do quinto período do curso de Fisioterapia). “Eu agradeço demais poder participar desse projeto, que me faz tão bem. Muito obrigada pela dedicação de todos que fazem esse projeto com tanto carinho. Me trouxe muitos benefícios durante esse ano. Vocês são maravilhosos.” Vandecir (Mãe participante do projeto). Considerações Finais A realização desse projeto permite uma atenção especial aos cuidadores de crianças com deficiência, de forma acolhedora, auxiliando as suas demandas por meio de atividades semanais, otimizando o tempo de espera, enquanto suas crianças são atendidas na sessão de Fisioterapia na clínica escola da Unicap. Ademais, fornece uma atenção individualizada a esse cuidador, que passa a ser chamado pelo nome e atendido de acordo com suas necessidades e potencialidades, o que normalmente não acontece em sua rotina, pois é tido apenas como o responsável pela criança. Ressalta-se que, cuidar dessa população, que é habituada a cuidar do outro, é muito mais que proporcionar bem-estar físico e emocional, consiste
- 128 - em consonância com a ODS-3, que propõe assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Assim, o projeto tem como principal motivação proporcionar aos estudantes um maior entendimento sobre o funcionamento do corpo humano, auxiliando na construção de uma percepção mais consciente de sua saúde e bem-estar, além de contribuir para a prevenção de doenças e incentivar hábitos saudáveis. Apresentação do problema/desafio O autoconhecimento é definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a habilidade de reconhecer a si próprio, incluindo seu caráter, pontos fortes e limitações, desejos e desapontamentos. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1997). Com isso em mente, foi identificado no nosso público parceiro a necessidade de incentivar o autoconhecimento, tanto físico como mental, no sentido de promover a saúde e conscientizar acerca de doenças relacionadas às partes específicas do corpo e suas consequências na esfera biopsicossocial. O cuidado com o corpo, durante o neurodesenvolvimento da criança, é essencial para que ela possa expressar sua identidade e linguagem corporal por meio do movimento corpóreo, de forma que a compreensão da criança sobre sua individualidade e limites torna-a mais segura e confiante consigo mesma. Da mesma forma, a falta desse conhecimento pode ocasionar maior vulnerabilidade às adversidades, como é o caso do abuso sexual. Nessa perspectiva, considerando essa relevância, os voluntários do projeto verificaram a necessidade de esclarecer melhor sobre os temas do corpo humano e do autocuidado para crianças e adolescentes em condições de vulnerabilidade social, nas instituições parceiras da disciplina de extensão curricularizada da Universidade Católica de Pernambuco. Dentre os aspectos observados no decorrer do projeto, indubitavelmente a
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 129 - saúde mental, alimentação e exercícios físicos foram os pontos chaves para o planejamento das intervenções. No cenário pós-pandemia, a Organização Pan-Americana da Saúde (2022) afirma que a incidência de casos de ansiedade e depressão aumentou em 25%, afetando adversamente o cotidiano de milhões de indivíduos, sobretudo jovens. Nosso público-alvo apresentou indicativos desses transtornos da saúde mental, o que é corroborado pelo contexto social no qual está inserido. Isso pode ser exemplificado pelas diversas questões ligadas à incerteza quanto ao vestibular, bem como à autocobrança, tão frequente nas turmas de ensino médio. Na literatura, é evidenciado que a prática de exercícios físicos culmina em uma melhora significativa no âmbito psicológico e orgânico do indivíduo (BATISTA; OLIVEIRA, 2015). A efetividade desse fato independe da modalidade, intensidade e/ou frequência de forma que o essencial é o jovem estar numa atividade de sua escolha e preferência, aumentando, portanto, seu interesse (ROCHA et al., 2019). Sendo assim, atividades voltadas para os jovens das escolas parceiras foram adaptadas e feitas para atingir os objetivos traçados pelo projeto, de modo que fossem interessantes e benéficas para eles. Ademais, outro desafio, o qual o projeto buscou atender nas escolas, foi em relação à alimentação saudável, buscando compreender como isso afetava a vida cotidiana dos alunos, como a rotina de sono e o rendimento escolar. Atualmente, no Brasil, existem políticas públicas voltadas a essa questão, como por exemplo o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Porém, o projeto idealizou mostrar na prática e integrar a alimentação com os sistemas corporais, na busca de promover conhecimento acerca desse aspecto. Com a integração do curso de Fisioterapia com o de Nutrição, foi possível que o projeto fosse se adaptando no decorrer das intervenções, à medida
- 130 - que as demandas e desafios fossem apresentados pelos jovens, buscando-se promover o bem-estar deles, da melhor maneira possível, tanto nas escolas, como nos Laboratórios da Escola de Saúde e Ciências da Vida da UNICAP. Apesar do engajamento dos estudantes, observou-se certa resistência inicial por parte que alguns participantes, no que diz respeito a participação nas dinâmicas de grupo. Contudo, isso foi atenuado ao longo das ações, ao passo que foi criado um espaço seguro entre os extensionistas e a população. No qual, buscou trazer esses jovens para perto e compreender o que eles necessitam, sem julgamentos, para que o conhecimento em saúde seja difundido de maneira leve e objetiva e impactar positivamente a vida desses jovens. Ficou evidente que há entraves na disseminação das informações para os jovens das escolas públicas. Além da resistência comum, em se trabalhar com adolescentes no ensino médio, foi notório em como o fator biopsicossocial também influencia na formação e na maneira que esses estudantes se percebem em sociedade. Muitos relataram pouca perspectiva ao futuro, por não acreditarem no ingresso em uma universidade, devido a sua questão socioeconômica. Já outros fazem alusão ao mundo do crime e drogas, por estarem inseridos em um contexto que banaliza estas questões. Isso são exemplos que ilustram a necessidade urgente de políticas públicas que aproximem esses jovens ainda mais das escolas, que sejam orientados e informados devidamente. Com a finalidade de mitigar os impactos dessa desigualdade social e desinformação, na formação acadêmica e pessoal, destes jovens. Apresentação do projeto O projeto “Meu Corpo & Eu”, realizado pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) surgiu com a disciplina denominada Projeto Integrador, que propõe vivência extensionista, e estimula os alunos a realizarem
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 131 - projetos voltados para educação em saúde na comunidade de caráter interdisciplinar aos currículos dos cursos da Escola de Saúde e Ciências da Vida. Nesse sentido, o projeto em questão foi desenvolvido ao longo de três semestres (Projeto Integrador I, II e III). Sendo assim, o objetivo principal foi fomentar a conscientização sobre o corpo humano e suas características, ressaltando a importância do autocuidado desde as primeiras fases da vida. Ressalta-se que uma das metas traçadas durante o desenvolvimento do projeto foi o fato de levar conhecimentos para os alunos de baixa renda das Escolas Públicas do Estado de Pernambuco acerca de assuntos relacionados à anatomia e fisiologia do corpo humano. Foram abordados também assuntos relacionados a doenças e disfunções, que podem estar relacionadas com essas partes do corpo humano. Atividades foram realizadas nos espaços das escolas, como auditório, bibliotecas e até mesmo a própria sala de aula, com momentos de troca com os alunos e professores responsáveis pelas turmas, conversando e identificando problemáticas pertinentes para serem abordadas pelo projeto. Foi estimulado um ambiente acolhedor e divertido, para que pudéssemos transmitir aquilo que foi proposto no plano de trabalho traçado anteriormente nas reuniões entre os alunos extensionistas. Primeiramente, foi planejada a realização de uma anamnese com o público-alvo, para o qual foi distribuído um formulário em sala contendo perguntas sobre perspectivas de futuro, vestibular, conceitos básicos sobre saúde pública e alimentação. Uma dinâmica chamada “Quem sou eu?” Foi aplicada a fim de conhecer mais os estudantes e identificar os desafios e problemáticas, já citados acima. Após essa primeira interação, realizou-se uma reunião para avaliar o planejamento das atividades e discutir as propostas que poderíamos apresentar aos participantes e dar continuidade ao projeto. Durante a execução das atividades, era solicitado que, ao final de cada encontro, eles compartilhassem suas impressões sobre o dia, sugerissem melhorias e
- 132 - apontassem suas expectativas para os próximos encontros. Com isso, organizou-se um cronograma, intercalando ações e focando tanto em nutrição como em fisioterapia, a fim de desenvolver os conhecimentos de ambas as áreas. E para isso, utilizaram-se os espaços das escolas, bem como os laboratórios da UNICAP. Nas escolas, foram realizadas ações como o Quiz sobre Alimentação Saudável, com o intuito de promover a conscientização sobre hábitos alimentares. De forma dinâmica, estimulou-se a participação dos estudantes nas atividades propostas ao longo dos semestres. Além de propor atividades laborais, como alongamentos, mobilidade e relaxamento no intervalo entre as aulas. Para este tipo de ação em específico, foi utilizado o material de educação física fornecido pela instituição parceira, como bambolês, cordas, colchonetes e bastões. E assim, estimular a prática de exercícios físicos e alívio do estresse de forma leve e simples e fornecer informações sobre postura e formas de realizar aquelas atividades em casa com outros materiais. Por exemplo, ao invés de um bastão, em casa, pode ser utilizado um cabo de vassoura. Foi realizado um tour pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), permitindo que os participantes conhecessem os serviços oferecidos pela instituição. Além da participação dos alunos na Semana de Integração Universidade Católica e Sociedade (SIUCS), que tem como principal objetivo favorecer a troca entre os saberes acadêmico e popular, por meio da promoção de um espaço amplo para apresentações culturais e artísticas, debates sobre produção de conhecimento e diálogo entre vários setores das sociedades. Além de fornecer serviços, dentre eles está o Polo Saúde. Esse no qual os alunos puderam participar de diversas atividades. Incluindo, consulta com médico hebiatra, teste de audiometria, ação educativa sobre a identificação do Acidente Vascular Encefálico (AVC), entre outras ações realizadas. Além da visita à clínica de fisioterapia Corpore Sano, na qual os participantes interagiram com a Liga
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 133 - Acadêmica de Fisioterapia Neurofuncional (LAFNEURO) e aprenderam mais sobre a profissão do fisioterapeuta e suas áreas de atuação. O encerramento das atividades do semestre 2024.2 ocorreu com uma prática no Laboratório do Curso de Nutrição, na qual todos prepararam pizza caseira e foram instruídos sobre como identificar e diferenciar os componentes nutricionais das embalagens. Para assim conscientizar acerca da alimentação saudável e alertar sobre os malefícios intrínsecos ao consumo de ultraprocessados e industrializados. Ao final das ações, eram realizadas rodas de conversa para receber o feedback dos participantes, bem como questionar sobre suas percepções, a relevância das atividades e como se sentiram ao decorrer das atividades. Após isso, ficou evidenciado que foi uma experiência enriquecedora e benéfica para ambas as partes. Ademais, o projeto teve como ideia central trazer o conhecimento de uma maneira lúdica e leve na conscientização sobre a anatomia, bem como refletir sobre a importância de prevenir doenças associadas às diversas partes do corpo humano. Assim, o projeto teve a intenção de propor e fornecer assistência adequada a essa população com base nas suas necessidades e contribuindo para uma melhora de sua qualidade de vida, a partir do incentivo às melhorias nas condições de saúde física, mental e social. Em suma, foram realizadas atividades com diversos materiais e recursos a fim de que os jovens pudessem explorar, se distrair e relaxar, de forma lúdica e dinâmica, por meio de exercícios de alongamento muscular, atividade laboral, dinâmicas de interação e rodas de conversa, gerando interação social e possibilidade de dirimir as possíveis dúvidas. Isso possibilitou que eles se sentissem como “personagens principais” e tomassem à frente da atividade, como por exemplo a realização das pizzas.
- 134 - Figura 1 - Visita a Universidade Católica de Pernambuco na semana de integração. Fonte: Registros dos discentes envolvidos Figura 2 – Atividade Laboral. Fonte: Registros dos discentes envolvidos
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 135 - Figura 3 – Visita a Clínica de Fisioterapia-Corpore Sano da Unicap. Fonte: Registros dos discentes envolvidos Figura 4 – Realização de mini pizzas nos laboratórios de nutrição da Unicap Fonte: Registros dos discentes envolvidos
- 136 - Impacto do projeto Tendo em vista os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especificamente a ODS-3 , no presente projeto foi possível observar um impacto direto nesse sentido ao oferecer à comunidade informações e orientações práticas sobre alimentação equilibrada e atividade física. Por meio de uma abordagem interdisciplinar, que contou com a participação de estudantes das áreas de Nutrição e Fisioterapia, foi garantida uma visão ampla e integrada da saúde. O impacto positivo do projeto foi evidenciado pela melhora no nível de interesse dos alunos sobre os temas abordados, refletindo na interação ativa e no engajamento com as atividades. Quando falávamos sobre a Universidade e as formas de se inserir nela, era perceptível um despertar de desejo misturado com esperança. Com isso, conseguimos fazê-los refletir sobre a visão deles em se colocarem incapazes de ingressar em uma universidade particular, por conta de sua situação socioeconômica. Foram passadas informações acerca do Prouni (Programa Universidade para Todos) e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que são programas do governo federal que ajudam estudantes a ingressar no ensino superior. Para assim atenuar essa ideia equivocada, que é agravada pelo sistema socioeconômico vigente. A visita à clínica escola de Fisioterapia Corpore Sano, permitiu uma experiência agregadora, na qual houve a oportunidade de conhecer o espaço e presenciar o atendimento de algumas especialidades. A participação da Liga Acadêmica de Fisioterapia Neurofuncional (LAFNEURO) apresentou seus projetos e abriu um bate-papo sobre dúvidas do curso de fisioterapia e suas áreas de atuação. Durante a roda de conversa, foi possível perceber que esse encontro despertou muitas curiosidades e interesses diante desses adolescentes. Já no laboratório de nutrição, os alunos vivenciaram a produção de uma pizza caseira, além de aprender sobre as etapas de cada alimento
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 137 - presente na receita. Todas as metas estipuladas foram atingidas com sucesso, sendo a receptividade do público-alvo extremamente positiva. Os participantes demonstraram grande interesse e satisfação com as atividades propostas, evidenciando o impacto positivo do projeto na disseminação de conhecimentos essenciais para a qualidade de vida. A interação entre os estudantes universitários e a comunidade também se mostrou um ponto forte da iniciativa, permitindo uma troca de experiências enriquecedora e o fortalecimento do papel da universidade como agente de transformação social. Ressalta-se que o projeto é essencial para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade psicossocial, proporcionando um impacto positivo em suas vidas. Ao focar nas necessidades dessa faixa etária, a proposta visa promover o bem-estar físico e psicológico, estimulando também a autonomia e a interação social. A iniciativa tem como propósito oferecer o suporte necessário a esse grupo, levando em consideração suas demandas específicas e contribuindo para a melhoria das suas condições de vida, por meio do estímulo a melhorias nas esferas da saúde, do bemestar emocional e das relações sociais. Depoimento das integrantes e beneficiados do projeto: Participar desse projeto foi uma experiência transformadora para mim e para todas as integrantes envolvidas. Ao trabalhar diretamente com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade psicossocial, aprendemos a importância de olhar para cada um de forma única, considerando suas necessidades e desafios específicos. A partir dessa perspectiva, conseguimos oferecer o suporte necessário para promover melhorias não apenas na saúde física, mas também no bem-estar emocional e social dos jovens atendidos” Larissa Raiane: Fisioterapia 5º período " Ao incentivá-los a desenvolver essas habilidades, conseguimos criar um ambiente mais saudável e positivo, tanto para eles quanto para nós, que também crescemos com essa troca”.
- 144 - Introdução A Liga acadêmica de Fisioterapia Neurofuncional da Universidade Católica de Pernambuco (LAFNEURO - UNICAP) é uma organização, de caráter extracurricular, sem fins lucrativos, de ordem educacional, filantrópica e comunitária, organizada e coordenada por docentes e discentes do curso de Fisioterapia da UNICAP. A LAFNEURO é voltada para o desenvolvimento de pesquisas, medidas de intervenção social e vivências nas temáticas da saúde do desenvolvimento neurológico e das disfunções que podem acometer o sistema nervoso central e periférico. A liga tem como objetivo aprofundar os conhecimentos teórico-prático na área de fisioterapia neurológica e estimular o desenvolvimento de projetos e pesquisa na referida área, incentivando o envolvimento em atividades pedagógicas. Nesse sentido, contribuiu para a formação acadêmica dos alunos de fisioterapia na área de neurologia. O sistema nervoso (SN) é complexo, sendo dividido por sistema nervoso central e periférico, além do autônomo. Estas divisões anatômicas compõem um único sistema responsável por funções motoras e sensoriais do corpo humano, que captam informações do ambiente e geram respostas para tais estímulos. Além disso, exerce função sobre a coordenação e equilíbrio e nos cinco sentidos do corpo (visão, audição, tato, olfato e gustação (RIBAS, 2006). Diante de uma lesão do sistema nervoso, as funções sensitivo-motoras do indivíduo são afetadas e a intensidade dos sinais e sintomas depende da localização e extensão da lesão. Sendo que, independentemente da causa, os agravos ao SN comprometem as funções anatômicas da área afetada (LUNDY-EKMAN, 2008). Estas alterações da capacidade sensitivo-motora podem ser avaliadas através de testes e exames, que fornecem informações significativas para determinar a intervenção adequada para cada paciente, sendo utilizados
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 145 - para medir as deficiências e incapacidades do indivíduo, além de fornecer medidas para o estabelecimento de metas de tratamento efetivas (LAZARO, ROLLER e UMPHRED, 2004). A ocorrência de distúrbios neurológicos no mundo tem se apresentado em números maiores na atualidade. Estima-se em 2022 que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), um bilhão de indivíduos no mundo tenham sofrido algum problema neurológico como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson, o Acidente Vascular Cerebral (AVC), demência, paralisia cerebral, meningite e traumatismo crânio encefálico. O AVC, por exemplo, pode ser causado por predisposição genética, hábitos de vida inadequados, obesidade, hipertensão arterial sistêmica, hipercolesterolemia e sedentarismo. Para prevenir, é importante o uso correto de medicamentos para controle da hipertensão e hipercolesterolemia, além de mudanças no hábito de vida com ingestão de alimentos saudáveis e realização de exercícios diários (MACHADO et al., 2022). Nos últimos anos, os pesquisadores observaram um notável progresso na capacidade do sistema nervoso de se curar e se adaptar após uma lesão, levando em conta a neuroplasticidade, que é a capacidade dos neurônios de alterar sua função, perfil químico ou sua estrutura, constituindo um conceito essencial para aqueles que planejam a reabilitação do paciente. A partir do conhecimento de neuroplasticidade, é possível que, sendo feita a reabilitação adequada seguindo o período da lesão e tipo, o paciente seja possibilitado de retornar à funcionalidade habitual, tornando-o mais independente nas Atividades de Vida Diárias (AVD’s) (STEHNOBITTEL, 2008; UMPHRED, 2007). A avaliação é fundamental para a descoberta de uma possível disfunção neuromotora. O profissional de fisioterapia deve ter o conhecimento necessário sobre cada etapa, para que se possa avaliar, identificar e tratar possíveis atrasos e desvios motores, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida desses indivíduos (WILLRICH, et al, 2000).
- 146 - Diante disso, a liga tem como objetivo aprofundar os conhecimentos teórico-prático na área de fisioterapia neurológica, estimular o desenvolvimento de projetos e pesquisas na referida área e incentivar o envolvimento em atividades pedagógicas como seminários, cursos, palestras e simpósios. Com esses objetivos a LAFNEURO acredita contribuir para a formação acadêmica dos alunos de fisioterapia, além de prestar um serviço a sociedade levando em consideração como a educação na saúde pode prevenir diversos agravos. Apresentação do problema/desafio A fisioterapia neurofuncional reveste-se de extrema importância para a sociedade, bem como para a comunidade acadêmica e os funcionários da UNICAP, uma vez que frequentemente ocorre uma sobrecarga no atendimento prestado pelo sistema público de saúde, dificultando a obtenção de consultas ou atendimentos fisioterapêuticos. Ademais, nas clínicas particulares, essas consultas podem apresentar um custo elevado, o que dificulta ainda mais o acesso à fisioterapia. O profissional fisioterapeuta atua nos níveis de prevenção, promoção e reabilitação das afecções do sistema nervoso central e periférico. Atualmente, entre as doenças neurológicas, o AVC é a segunda maior causa de morte e a principal causa de incapacidade no Brasil, deixando sequelas motoras, sensoriais e cognitivas nos indivíduos acometidos. Nesse contexto, a LAFNEURO pode atuar na comunidade como agente de prevenção, fornecendo orientações sobre como prevenir o AVC e destacando a importância da atividade física como medida preventiva. Além disso, a LAFNEURO promove a saúde, como ocorreu na SIUCS 2025, através de orientações simples que podem ser realizadas a nível domiciliar. Os principais desafios da liga dizem respeito a insuficiência de informações sobre distúrbios neurológicos, abrangendo desde a prevenção até o tratamento. Além disso, dificuldades financeiras impedem a execução de
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 147 - projetos dentro da liga acadêmica, exemplificado pela não publicação da versão física do livro digital sobre inclusão social, devido aos elevados custos. Outro obstáculo é a aquisição de materiais necessários para a realização dos projetos. Apresentação do projeto A liga tem como objetivo promover projetos de pesquisa, eventos científicos, simpósios, ação social, bem como artigos científicos e elaboração de resumos. Além disso, organização de atividades/aulas práticas nos laboratórios especializado Corpore Sano, e criação de recursos para distribuir informações educativas sobre estruturas anatômicas e funções do sistema nervoso, bem como suas disfunções, para conscientizar e ensinar formas de prevenção e tratamento. Em específico, realizar também palestras e elaborar eventos com temas atualizados de grande relevância na área neurofuncional. As atividades foram divididas em 3 grandes eixos: 1. Atividades de ensino: foram desenvolvidas bancas de estudos (Figura 1) sobre determinados temas realizadas e preparadas pela diretoria, sendo algumas com a ajuda de profissionais da área, onde, eram convidados para ministrar as aulas como por exemplo; aula de estimulação sensorial com a fisioterapeuta Taís Arcanjo (convidada), osteopatia em pediatria com a fisioterapeuta Daniela Jamir (convidada), anatomia do sistema nervoso com o Professor André (professor da UNICAP e convidado), relato de experiência sobre o BOBATH com a ex-aluna e fisioterapeuta Maria Luiza Coutinho, e entre outros.
- 148 - Figura 1: Primeira aula da LAFNEURO organizada pela diretoria para os ligantes. Fonte: autores. Também foram realizados estudos de casos clínicos para os ligantes de forma presencial e online, realização de encontros abertos ao público sobre temas relevantes na área, tanto em pediatria como em adultos e a criação de um e-book infantil (Figura 2) com o intuito de educar e conscientizar a população sobre a inclusão social, com ênfase na área de neurologia e com enfoque em crianças a partir de 6 anos de idade. Figura 2: Capa do ebook da LAFNEURO. Fonte: autores.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 149 - 2. Atividades de pesquisa: foram desenvolvidas pesquisas na área de fisioterapia neurofuncional adulto e pediátrico com o intuito de se aprofundar nas doenças relacionadas e seu devido tratamento, promovendo conteúdos dinâmicos nas redes sociais. Também foram realizadas atividades elaboradas pela diretoria para os ligantes com prazo de entrega, sendo postadas na plataforma Teams da LAFNEURO. 3. Atividades de extensão: após a criação do e-book infantil, foram realizadas visitas a instituições de ensino (Figura 3) e clínicas de reabilitação com finalidade de aproximar o público a inclusão social, possibilitando aquisição do conhecimento acerca da importância do tema abordado, além de proporcionar aprendizado em relação ao AVC, com criação e distribuição de cartilhas de orientação sobre sinais e sintomas, prevenção e tratamento da doença realizados na Semana de Integração (Figura 4). Também foi possível realizar visita a centros de reabilitação com objetivo de fazer exercícios que englobem o corpo todo e estimulação cognitiva com atividades de pintura e memória, como exemplo, em pacientes com doença de Parkinson. Figura 3: Visita ao colégio LICEU para apresentação do ebook com dinâmica interativa. Fonte: autores.
- 150 - Figura 4: Cartilha educativa elaborada para a Semana de Integração da Universidade. Fonte: autores. Impactos e Aprendizados Essa atividade extensionista, em relação ao desenvolvimento sustentável da ONU, teve como objetivo garantir o acesso a saúde de qualidade e bem estar para todas as faixas etárias e comunidade no geral, ampliando a qualidade de vida dos pacientes e trazendo orientações sobre: prevenção, manutenção e reabilitação da saúde, assim reduzindo a taxa de mortalidade e promovendo acessibilidade a comunidade além da diminuição de custos relacionados a rede pública de saúde, diminuição no tempo de internação dos pacientes e diminuição no impacto biopsicossocial e emocional. Os integrantes da liga se tornaram mais aptos a solucionar casos clínicos cada vez mais complexos e hábeis durante a realização prática dos procedimentos, além disso, perceberam o crescimento científico da área junto aos profissionais de saúde.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 151 - Vale ressaltar o desenvolvimento das competências e habilidades profissionais de cada integrante, sendo possível vivenciar dentro da liga o crescimento do perfil em relação a liderança e boa relação interpessoal, comunicação e responsabilidade. Foi possível evidenciar de forma científica os diversos protocolos, procedimentos e intervenções utilizadas pela fisioterapia neurofuncional e como contribuir para a comunidade aspectos relacionados à educação em saúde. Além disso, levar este conhecimento para um público maior, no que se trata ao processo de prevenção de doenças neurológicas, com meios educativos sobre mudança de hábitos de vida e alimentação, e consequentemente diminuindo o número de pessoas acometidas por tais doenças. Considerações finais A liga acadêmica contribuiu de modo positivo na formação acadêmica, além do embasamento científico que foi continuamente incentivado. Foi preconizado o comprometimento com o outro, para uma formação profissional pautada no respaldo científico e humanista. Referências Lázaro, R. T., Roller, M., & Umphred, D. A. (2007). Diagnóstica diferencial fase 2: exame e avaliação das incapacidades e deficiências. In D. A. Umphred (Ed.), Reabilitação neurológica (4ª ed.). Manole. Lundy-Ekman, L. (2008). Introdução à neurociência. In L. Lundy-Ekman, Neurociência: fundamentos para a reabilitação (3ª ed.). Saunders Elsevier. Machado, D. O. Q., et al. (2022). O impacto das patologias clínicas neurológicas para a saúde pública. Brazilian Journal of Health Review, 5(4), 13774–13787.
- 152 - South Florida Publishing LLC. https://doi.org/10.34119/bjhrv5n4-190 (incluir o DOI, se disponível) Ribas, G. C. (2006). Considerações sobre a evolução filogenética do sistema nervoso, o comportamento e a emergência da consciência. Revista Brasileira de Psiquiatria, 28(4), 326–338. https://doi.org/10.1590/S1516-44462006000400013 Stehno-Bittel, L. (2008). Neuroplasticidade. In L. Lundy-Ekman, Neurociência: fundamentos para a reabilitação (3ª ed.). Saunders Elsevier. Umphred, D. (2007). Procedimentos terapêuticos. In D. Umphred & C. Carlson, Reabilitação neurológica prática. Guanabara Koogan. Willrich, A., Azevedo, F. C. C., & Fernandes, O. J. (2000). Desenvolvimento motor na infância: influência dos fatores de risco e programas de intervenção. Revista Neurociências, 17(1), 51–56. INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES Ana Karoline Cabral Soares Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Formada em Fisioterapia, é presidente da LAFNEURO. Está se preparando para a residência em Fisioterapia Neurofuncional Adulto e Pediátrico e, posteriormente, para a pós-graduação na mesma área. Tem interesse em aprimorar técnicas de tratamento individualizado para cada paciente, buscando constante atualização em evidências científicas e cursos livres de capacitação. E-mail:
[email protected] Lattes: https://lattes.cnpq.br/3939809050570693 Ana Luisa Rocha de Melo Araújo Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Formada em Fisioterapia, é integrante na área de secretaria da LAFNEURO. Atualmente, dedica-se ao aperfeiçoamento profissional por
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 153 - meio de cursos de capacitação e atualização contínua. E-mail:
[email protected] Lattes: https://lattes.cnpq.br/1992259063505062 Danilo José de Lima Ribeiro Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Estudante do último ano de Fisioterapia, é integrante da área de pesquisa e extensão da LAFNEURO. Busca manter-se atualizado sobre os avanços da fisioterapia e investe em cursos livres de capacitação profissional. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/5902057505883502 Douglas Roberto de Sena Lins Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Formado em Fisioterapia pela UNICAP, é vice-presidente da LAFNEURO. Tem interesse na área de fisioterapia neurofuncional e busca constante atualização por meio de artigos científicos e cursos de capacitação. E-mail:
[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/5498814651561393 Sueny Hayashi Lamour Bezerra Discente de Fisioterapia – Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Formada em Fisioterapia, atua na área de comunicação e marketing da LAFNEURO. Atualmente cursa pós-graduação em Fisioterapia Neurofuncional Adulto e Pediátrico. Mantém-se atualizada por meio de leituras científicas e cursos livres de capacitação. E-mail:
[email protected] Lattes: https://lattes.cnpq.br/3940143084345022
- 256 - Introdução Nos últimos anos, tem-se observado um crescimento expressivo da população em situação de rua no Brasil, atingindo cerca de 281 mil pessoas (IPEA, 2022). Essa realidade reflete um aumento das desigualdades sociais e do acesso precário a serviços essenciais, incluindo a saúde. Diante desse cenário, essa parcela da população enfrenta diversas vulnerabilidades que comprometem diretamente a sua saúde, tendo em vista que populações menos privilegiadas socioeconomicamente são propícias de virem a óbito por doenças cardiovasculares (ISHITANI et al., 2006). O Sistema Único de Saúde (SUS) preconiza a universalidade e integralidade do cuidado, mas há desafios significativos na implementação de políticas públicas que garantam efetivamente o atendimento adequado a essa população. Dessa maneira, iniciativas acadêmicas tornam-se uma estratégia importante para complementar as ações do poder público, minimizando as barreiras assistenciais e ofertando cuidados que possam impactar positivamente a saúde dessas pessoas, ao mesmo tempo em que promovem a formação de futuros profissionais de saúde mais preparados para lidar com desigualdades sociais e sanitárias de forma mais empática e solidária. Em Recife, onde há uma significativa concentração dessa população em áreas centrais, observa-se uma demanda crescente por serviços de saúde acessíveis e adaptados às suas necessidades específicas. Porém, assim como outras grandes cidades brasileiras, enfrenta dificuldades estruturais na oferta de serviços de assistência à população em situação de rua. Esse contexto evidencia a necessidade de ações interdisciplinares que integrem diferentes setores da sociedade, incluindo universidades, para desenvolver intervenções que garantam acesso digno e qualificado à saúde.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 257 - Diante dessa realidade, essa ação ocorreu na Casa do Pão, um espaço de acolhimento e suporte social localizado no bairro São José, no centro do Recife, com o intuito de promover a dignidade social às pessoas em situação de rua. A instituição é um Gesto Concreto do 18⁰ Congresso Eucarístico Nacional de 2022 e tem como finalidade colaborar para diminuir as desigualdades sociais. Contando com serviços como marmitas, banho, lavanderias, roupas e atendimentos em saúde. Essa instituição conta com o auxílio de voluntários independentes e vinculados à universidades, como a Universidade Católica de Pernambuco. Foto 1: Prédio da Instituição Beneficente Casa do Pão. Fonte: Google imagem
- 258 - Apresentação do Problema/Desafio De acordo com o Censo Pop Rua, da Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas sobre drogas, realizado em 2023, a cidade do Recife possui 1.806 moradores de rua, dos quais quase 60% nunca deixaram de estar nessa situação. Dentro desse contexto de extrema vulnerabilidade, apenas 40% dão prioridade às questões de saúde. Viver na rua traz consigo diversos entraves para a questão da saúde básica, como a territorialidade, já que se torna muito difícil que o indivíduo se vincule à uma única Unidade Básica de Saúde (UBS), visto que ocorrem problemas nas ruas principalmente em relação à drogas e formação de grupos. Além disso, o preconceito dentro das unidades de saúde é uma realidade a ser encarada. Há também uma problemática em relação à adesão aos tratamentos já que na maioria das vezes se tratam de pessoas usuárias de drogas, que não aceitam viver com as regras dos abrigos, o que acaba os expondo às ruas e aos roubos constantes, inclusive de medicamentos nas ruas. Diante da situação de saúde que essa população apresenta, convém uma atenção no processo saúde e doença de forma diferenciada, sendo esse entendimento importante para a formação de ações pelos serviços de saúde (CARNEIRO, JUNIOR.1988). Ademais, a exposição constante a situações de violência abalam fortemente na questão psicológica e física, pois mesmo que o indivíduo tenha percepção do seu estado de saúde, agressões ou até mesmo a insalubridade podem fazê-lo perder o sentido da vida. Esse público é acometido gravemente por situações de saúde mais complexas que requerem cuidado especializado, como doenças crônicas, dependência química, transtornos de ordem psicológica, que são potencializados pelo estado de subnutrição latente.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 259 - É importante salientar também a escassez de recursos e estrutura voltados para a mobilidade dessa população. Essa situação se potencializa pela omissão institucional quando se trata desse público, que, por vezes, necessita de uma atenção multidisciplinar. O vínculo com unidades de saúde não é estabelecido e até mesmo Consultórios na Rua encontram limitações nesse acompanhamento já que a população de uma região está em constante mudança. Esse público se destaca como um grande desafio de saúde pública e demanda cuidados especiais. Diante desses desafios, a intervenção foi realizada na Casa do Pão, no bairro de São José, dia 14 de dezembro de 2025, em parceria com o Projeto de Extensão Reconstrua da Universidade Católica de Pernambuco. A Liga de Cirurgia Cardiovascular (LCCV) foi convocada para realizar atendimentos voltados para indivíduos que possuíam queixas de dor torácica, formigamentos, taquicardia. Os serviços oferecidos incluíram a aferição de pressão arterial, exame físico cardiovascular, orientações em caso de alterações identificadas e outros atendimentos cardiovasculares básicos. Esses procedimentos são fundamentais para a prevenção e identificação precoce de patologias cardiovasculares. Pessoas em situação de rua são negligenciadas quanto ao acesso à saúde de qualidade e frequentemente expostas a diversos fatores de risco que propiciam o desenvolvimento de complicações, tornando ainda mais essencial a abordagem preventiva e educativa promovida pela ação. Impacto do Projeto A ação realizada representa uma iniciativa de grande relevância tanto para a população assistida quanto para a formação acadêmica dos estudantes. Para a população atendida, o impacto da ação ultrapassa o aspecto clínico. Muitas dessas pessoas enfrentam barreiras significativas quando
- 260 - se trata do acesso à serviços de saúde devido à falta de documentação e estigma social, por exemplo. Assim, a ação oferecendo cuidados de forma humanizada não só promove a saúde cardiovascular, mas também resgata a dignidade dessas pessoas. Ademais, ao receberem informações sobre prevenção e autocuidado, os beneficiários se tornam mais capacitados para monitorar e compreender sua própria saúde dentro do possível. Para os estudantes envolvidos, a experiência representa uma oportunidade de aprendizado prático e desenvolvimento de importantes habilidades como a empatia, o acolhimento, a abordagem integral do paciente e até mesmo a reflexão quanto a necessidade de promoção da equidade em saúde. Além disso, a necessidade de realizar exames clínicos e fornecer orientações de maneira clara e acessível aprimora a comunicação e a capacidade de tomada de decisão por parte dos estudantes. A relação da iniciativa com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas) com início em 2015 é evidente. O ODS 1, que busca acabar com todos os tipos de pobreza, foi abordado, no caso, se tratando da pobreza quanto ao acesso à saúde. O ODS 3, que visa garantir uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, é diretamente impactado pela ação, que leva assistência médica a uma população negligenciada. O ODS 10, que trata da redução das desigualdades, também é contemplado, pois a atividade busca minimizar as disparidades no acesso à saúde. O ODS 11, que trata de tornar as cidades mais inclusivas, também foi contemplado através da inclusão de uma parcela da população socialmente negligenciada nos serviços de saúde. Além disso, o ODS 4, relacionado à educação de qualidade, se reflete no aprendizado prático e na formação humanizada dos estudantes de medicina.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 261 - Dentre os depoimentos coletados após a consulta, houve um que chamou a atenção dos extensionistas de forma positiva: “É, a doutora falou que eu tenho que ir ‘pro’ CAPS ver esse meu vício e que essas dores ‘é’ por conta da droga. É, vou tentar ver ‘pra’ me cuidar. E mudar de vida, assim dá mais não” o depoente não quis se identificar. A estudante de Medicina Evelyne Imídio também deixou um depoimento marcante: “Participar dessa intervenção foi uma experiência transformadora. Desde o primeiro atendimento, percebi o impacto que a medicina pode ter na vida de quem mais precisa. Muitos chegaram cheios de receios e insegurança, mas aos poucos, com escuta e cuidado, fomos criando um ambiente seguro que eles se sentiam acolhidos de verdade. Muito além de aferir a pressão e orientar sobre doenças cardiovasculares, ouvi histórias de luta que me marcaram profundamente. Vi como a falta de acesso à saúde e a solidão afeta diretamente a qualidade de vida dessas pessoas. Isso que a gente faz, esses pequenos gestos, uma explicação clara ou um simples ‘como você está?’, fizeram toda a diferença para mim e espero que tenha acrescido um pouco na dura rotina que eles possuem. Viver isso reforçou o meu compromisso com uma medicina mais humana e, principalmente, acessível. Aprendi que tratar um paciente vai muito além de exames e diagnósticos, que, infelizmente, não tivemos acesso aqui e muitos pacientes não possuem nem documentos para acessar esses serviços mais especializados. É complicado e necessita de uma escuta ativa e empática. Saí dessa experiência com o coração cheio de gratidão e a certeza de que escolhi o caminho certo. Espero levar esses aprendizados para toda a minha trajetória profissional”.
- 262 - Foto 2: Extensionistas colaborando com a distribuição do café da manhã Fonte: autores Foto 3: Extensionistas e especialista em um dos consultórios Fonte: autores
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 263 - Apresentação do projeto O presente projeto de ação em saúde foi realizado pelas ligas acadêmicas Liga de Cirurgia Cardiovascular (LCCV) e Reconstrua, vinculadas à Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). O objetivo central da ação consistiu na promoção da saúde e do bemestar dos integrantes da comunidade e dos frequentadores da Casa do Pão, mediante a oferta de atendimento médico especializado em cardiologia de forma gratuita e orientações acerca dos cuidados com a saúde. A atividade foi organizada com a colaboração das duas ligas acadêmicas da universidade, objetivando o envolvimento do corpo discente e docente da UNICAP com a comunidade. A LCCV contou com a participação de oito acadêmicos e dois profissionais especializados, juntamente com o médico já vinculado, os acadêmicos ficaram responsáveis pela aferição da pressão arterial, da frequência cardíaca, da oximetria de pulso e pela realização da ausculta cardíaca e respiratória dos pacientes. Para assegurar a precisão dos exames, utilizaram-se equipamentos adequados, como oxímetros, estetoscópios e esfigmomanômetros, os quais foram fornecidos pelos próprios integrantes. A ação foi realizada na Casa do Pão, situada no bairro de São José, um espaço de convivência e apoio comunitário, no qual a parte de atenção à saúde é composta por dois consultórios que possuem medicamentos, tais como remédios para analgésicos, anti-inflamatórios, anti parasitários adquiridos através de doações. Nesse contexto, aproximadamente 20 pessoas, entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias, participaram da triagem e receberam atendimento especializado de acordo com as demandas passadas pela instituição beneficente. Durante os atendimentos, foi coletada a queixa principal dos pacientes, possibilitando uma análise mais aprofundada dos sintomas. Ademais, os
- 264 - extensionistas explicavam de forma clara e acessível os resultados obtidos na aferição da pressão arterial, oferecendo orientações quanto aos cuidados necessários para a manutenção da saúde. Encaminhamentos à Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e orientações acerca dos prejuízos causados pelas drogas ao sistema cardiovascular. A justificativa para a realização dessa ação está ancorada na necessidade de ampliar o acesso a serviços de saúde para grupos socialmente vulneráveis. A realização de atividades como essa não apenas beneficia a população em situação de rua, mas também contribui para a formação acadêmica e humanística dos extensionistas. Assim, a experiência adquirida por meio dessa ação reforça a importância de uma formação médica voltada para a promoção da equidade e da justiça social no cuidado à saúde. Foto 4: Todos os discentes e docentes envolvidos. Fonte: autores
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 265 - Considerações Finais Em síntese, a vulnerabilidade da população em situação de rua evidencia a urgência de políticas e práticas que garantam o acesso a serviços de saúde dignos e inclusivos. A ação realizada na Casa do Pão exemplifica como parcerias entre universidades, instituições sociais e o poder público podem minimizar barreiras assistenciais, promovendo cuidados humanizados e preventivos. Essa experiência não só impactou positivamente a saúde dos assistidos, mas também contribuiu para a formação de profissionais mais sensíveis e comprometidos com a promoção da equidade em saúde. Ao alinhar-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a ação reforça a necessidade de ampliar e fortalecer outras ações que resgatem a dignidade de indivíduos marginalizados. Nesse sentido, a obra “Vida que ninguém vê” de Eliane Brum, sintetiza de forma poética e humanista as histórias intensas e muitas vezes invisíveis daqueles que vivem à margem da sociedade. Assim como o livro nos convida a refletir sobre empatia, solidariedade e justiça social, a ação feita pela Liga de Cirurgia Cardiovascular ressalta a importância de enxergar e valorizar cada vida, independentemente de sua condição social. Portanto, a integração de práticas de saúde com uma abordagem humanizada não apenas transforma a experiência dos assistidos, mas também fomenta a reflexão e a formação de profissionais comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
- 272 - No Hospital Santa Casa de Misericórdia, um dos locais onde o projeto está em funcionamento, o BRINCART tem demonstrado um impacto significativo, especialmente no cuidado dos pacientes geriátricos. Ao proporcionar momentos de alegria, distração e conexão, o projeto contribui para a criação de vínculos afetivos que ajudam a combater a solidão e o sofrimento que muitos idosos enfrentam durante a internação. As intervenções dos palhaços criam um espaço de acolhimento emocional, oferecendo não apenas momentos de diversão, mas também um canal para que os idosos possam expressar suas emoções e, de certa forma, encontrar alívio para os medos e angústias que muitas vezes acompanham a internação. Além disso, o BRINCART também desempenha um papel educativo valioso na formação dos futuros profissionais de saúde. Ao interagir diretamente com os pacientes de maneira sensível e empática, os estudantes aprendem a enxergar o paciente não apenas como um ser doente, mas como uma pessoa com uma história de vida, com emoções e com necessidades psicológicas que vão além da medicina convencional. Essa experiência contribui para a formação de profissionais da saúde mais humanizados, atentos às dimensões emocionais do cuidado e capazes de integrar práticas artísticas no processo de cura. O projeto, portanto, não só impacta positivamente os pacientes internados, mas também molda a futura prática médica, tornando-a mais sensível e empática. Apresentação do Problema/Desafio O envelhecimento é uma fase da vida que traz consigo diversas mudanças e desafios, tanto físicos quanto emocionais e sociais. Com o avanço da idade, muitos idosos enfrentam condições de saúde mais delicadas, tornando a hospitalização uma realidade frequente. No entanto, estar internado em um ambiente hospitalar pode ser uma
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 273 - experiência difícil, não apenas pelos aspectos clínicos da doença, mas também pelo impacto psicológico e social que essa situação acarreta. A internação muitas vezes representa um afastamento da rotina, da família e dos círculos sociais, levando a sentimentos de solidão, ansiedade e, em alguns casos, até depressão. Além disso, a hospitalização, em sua essência, geralmente não é vista pelos pacientes como uma situação agradável, pois está associada ao processo de adoecimento, à dependência e à vulnerabilidade. No caso dos idosos, essa realidade pode ser ainda mais marcante, visto que muitos já enfrentam limitações na autonomia e na mobilidade. Assim, o ambiente hospitalar, que deveria ser um local de recuperação e cuidado, pode se tornar um espaço de angústia e sofrimento emocional. Diante desse cenário, é fundamental que as instituições de saúde adotem práticas humanizadas que minimizem os impactos negativos da internação e promovam o bem-estar dos pacientes. No entanto, um dos principais desafios dentro desse processo de humanização é compreender que cada paciente possui sua própria história, experiências e formas de lidar com a hospitalização. Cada idoso vivencia sua internação de maneira única, com diferentes níveis de aceitação e enfrentamento da doença. Dessa forma, a humanização do atendimento hospitalar deve ir além dos protocolos médicos e incluir abordagens personalizadas, que respeitem a individualidade de cada paciente e busquem tornar sua experiência mais leve e acolhedora. Nesse sentido, o projeto BRINCART surge como uma estratégia para transformar a experiência hospitalar dos idosos, utilizando a palhaçoterapia como uma ferramenta de humanização e ressignificação do ambiente hospitalar. O desafio do projeto está em minimizar os impactos negativos da internação, oferecendo momentos de leveza, interação e conexão, de maneira individualizada, para os pacientes geriátricos internados no Hospital Santa Casa de Misericórdia. Mais do que proporcionar entretenimento, a atuação dos estudantes-palhaços
- 274 - busca reduzir a ansiedade e contribuir para uma percepção mais positiva do ambiente hospitalar. Fonte: Autores. Apresentação do Projeto Criado em 2016, o BRINCART é um projeto de extensão vinculado à Universidade Católica de Pernambuco, sob a coordenação do professor Dr. Alvaro Antônio Cabral Vieira de Mello. A iniciativa utiliza a palhaçoterapia como principais ferramentas para promover atividades em ambientes hospitalares, alcançando pacientes de diferentes faixas etárias. O BRINCART tem como propósito proporcionar momentos de leveza e bem-estar a pacientes hospitalizados e seus acompanhantes, utilizando elementos lúdicos e interativos. Por meio de dinâmicas de humor, escuta ativa e interação, o projeto busca transformar o ambiente hospitalar em um espaço mais acolhedor e humanizado.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 275 - Além do impacto positivo na rotina dos pacientes, a experiência também oferece aos estudantes de graduação uma oportunidade única de aperfeiçoar habilidades interpessoais e desenvolver uma abordagem humanística na relação com os pacientes. Dessa forma, o projeto não apenas contribui para o bem-estar dos internados, mas também enriquece a formação dos futuros profissionais da saúde, incentivando uma prática mais sensível e empática no cuidado com o outro. Fonte: Autores. Impacto do Projeto Atualmente, a palhaçaria no ambiente hospitalar atua como um bom método para distrair e diminuir o desconforto dos pacientes e seus familiares durante o período de hospitalização. Devido às suas funções empáticas e humorísticas, a intervenção do palhaço em hospitais, entretém as pessoas, aliviando o sentimento de apreensão e ansiedade proporcionado pelo período de enfermidade (Diogini et al., 2023). O projeto em palhaçoterapia BRINCART apresenta um impacto direto na promoção da saúde e do bem-estar social, um dos principais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) no Brasil até o ano de 2030, visando o acolhimento e cuidado integral do idoso. A partir do desenvolvimento desse ODS, é esperado que os envolvidos na atuação
- 276 - do projeto também participem da crescente paz e prosperidade do país por meio da empatia e desenvolvimento da escuta ativa. As atuações do projeto em hospitais na Região Metropolitana do Recife (RMR), em especial no Hospital Santa Casa de Misericórdia (HSCM), os integrantes do projeto participam ativamente das interações com pacientes geriátricos, criando vínculos e diminuindo o estresse psicológico provocado pelo internamento hospitalar. A principal repercussão esperada dessas atuações é restaurar o simples ato de brincar dos idosos por meio das risadas, da satisfação e da perspectiva positiva de cada situação. O objetivo principal do projeto é estimular de forma integral o envolvimento do paciente na forma lúdica das conversas, permitindo a abertura e a liberdade do paciente em expor seus sentimentos sejam eles positivos ou negativos, visando sempre seu bem estar. A partir da perspectiva “brincalhona” e muitas vezes despreocupada do palhaço, os pacientes idosos se sentem mais confortáveis em expor seus pensamentos que muitas vezes são reprimidos pelo medo e distância emocional entre esses pacientes geriátricos e os profissionais de saúde. Desse modo, o acolhimento é o ponto primordial para todas as ações do BRINCART, visto que pode auxiliar o paciente a exprimir pensamentos de angústia associados ao internamento. Fonte: Autores.
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 277 - A interação dos integrantes do projeto, bem como a disponibilidade e o interesse dos idosos e seus familiares são fundamentais na construção dos vínculos na atuação da palhaçoterapia. No Hospital Santa Casa de Misericórdia, os pacientes geriátricos apresentam-se de modo geral disponíveis e dispostos à interação, o que contribui para que o objetivo da palhaçoterapia seja efetivo e o paciente geriátrico se sinta melhor e menos aflito. Apesar da palhaçaria visar um impacto no bem-estar próprio do paciente, as ações oferecem um impacto direto, positivo e pessoal na vida do estudante e integrante do projeto. As experiências vividas tornamse lembranças e exemplo vivo da expectativa nas futuras práticas médicas dos profissionais que serão formados após o período de graduação. Dado isso, segue relato de Luisa Marinho Ramos Lima, estudante do 3º período de Medicina da Universidade Católica de Pernambuco, atual integrante do Projeto de Extensão BRINCART: “A maioria das minhas ações na palhaçoterapia aconteceu no Hospital Santa Casa de Pernambuco e, sinceramente, nunca imaginei a palhaçaria funcionando com adultos, especialmente idosos. No entanto, fui surpreendida de forma muito positiva. Uma das experiências mais marcantes ocorreu quando entrei em uma enfermaria com pacientes bastante idosos. Assim que chegamos, todos ficaram visivelmente felizes, com os olhos brilhando, apesar da fragilidade e das condições de saúde. Em outra ação, ao entrar em um quarto, percebi um senhor que estava silencioso, apenas observando nossa interação com os demais pacientes. Quando estávamos saindo, decidi me aproximar de seu leito. Ele ficou tão feliz que me disse palavras que me marcaram profundamente. No final, ele saiu tocado pela experiência, e eu também”, relatou a integrante do projeto. A participação dos estudantes no projeto de palhaçoterapia BRINCART permite o amadurecimento de uma escuta ativa e a formação de profissionais empáticos dispostos a ouvir o próximo. A interação e o
- 278 - vínculo construído na interação com os idosos do Santa Casa de Misericórdia são compostos por trocas culturais e de cuidado, favorecendo a um futuro exercício da profissão médica com mais empatia e acolhimento. Considerações finais O projeto BRINCART demonstra a importância da palhaçoterapia como uma ferramenta essencial para a humanização do cuidado hospitalar, especialmente no atendimento a idosos internados. A abordagem lúdica e interativa dos integrantes não apenas contribui para a redução do estresse e da ansiedade dos pacientes geriátricos do Hospital Santa Casa de Misericórdia, mas também fortalece vínculos e proporciona momentos de leveza e alegria em um ambiente frequentemente marcado pela vulnerabilidade e pelo sofrimento. Dessa forma, o projeto se destaca como um recurso valioso para a promoção do bem-estar emocional dos pacientes, oferecendo um suporte que vai além dos aspectos clínicos do tratamento. Além do impacto direto na recuperação emocional e psicológica dos idosos, a participação dos estudantes tem um papel fundamental na construção de uma prática profissional mais sensível e humanizada. A interação com os pacientes permite o desenvolvimento de habilidades como a escuta ativa, a empatia e a comunicação eficaz, aspectos essenciais para um atendimento mais acolhedor e centrado na pessoa. Assim, o projeto não apenas transforma o ambiente hospitalar, tornandoo mais leve e humano, mas também contribui para a formação de futuros profissionais da saúde mais atentos às necessidades subjetivas dos pacientes
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 279 - . Fonte: Autores. Dessa maneira, o BRINCART não se limita a ser uma iniciativa de entretenimento dentro do hospital, mas representa uma mudança significativa na forma como o cuidado é prestado. Ao unir arte, saúde e educação, ele reafirma o papel da humanização como um pilar indispensável na assistência hospitalar, deixando uma marca tanto para os pacientes atendidos quanto para os estudantes que vivenciam essa experiência. Referências Auerbach, S. (2017). Are clowns good for everyone? The influence of trait cheerfulness on emotional reactions to a hospital clown intervention. Frontiers in Psychology, 8. Catapan, S. de C., Oliveira, W. F. de, & Rotta, T. M. (2019). Palhaçoterapia em ambiente hospitalar: Uma revisão de literatura. Ciência & Saúde Coletiva, 24(9), 3417–3429.
- 280 - Diogini, A., et al. (2023). Do clowns really taste funny? An investigation of the relationship between humor and playfulness in clown doctors. Behavioral Sciences. Dionigi, A., & Canestrari, C. (2016). Clowning in health care settings: The point of view of adults. Europe’s Journal of Psychology, 12(3), 473–488. Melo, A. L. F. V., & Oliveira, I. C. C. de. (2019). Terapia do riso com idosos no cenário hospitalar: Relato de experiência. In Tópicos em Ciências da Saúde (Vol. 10). Editora Poisson. Moreira, J. V., et al. (2021). A arte do palhaço na educação médica. Revista Brasileira de Educação Médica, 45(3). Rutz, D. P., et al. (2024). A influência da arte clown nos níveis de felicidade de idosos institucionalizados. Peer Review: Emerging Trends and Key Debates in Undergraduate Education, 6(15), 69–83. Silva, C. P. R., da Conceição, A. P., & Chagas, A. P. dos S. (2017). Clown: O palhaço como intervenção e humanização em saúde. Journal of Health & Biological Sciences, 5(4), 352–359. INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES Luisa Marinho Ramos Lima Graduanda em Medicina pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atualmente no 3º período. Integra o Projeto de Extensão BRINCART, atuando em palhaçoterapia. Lattes: https://lattes.cnpq.br/9185595290620791 ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6755-6277 E-mail:
[email protected]
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 281 - Maria Eduarda de Lima Cabral Graduanda em Medicina pela Universidade Católica de Pernambuco (2023–2029). Participa do Projeto de Extensão BRINCART e é membro da Liga Acadêmica de Cirurgia Cardiovascular (LCCV). Lattes: https://lattes.cnpq.br/5980025036766807 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0348-441X E-mail:
[email protected] Maria Fernanda Azevedo Chagas Acadêmica de Medicina pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atualmente no 6º período. Atua no Projeto de Extensão em palhaçoterapia BRINCART e no Projeto de Extensão Medicina em Cores (MEC). Lattes: https://lattes.cnpq.br/9307425684420624 ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3783-2183 E-mail:
[email protected] Milenna Pontes Cordeiro Acadêmica de Medicina pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atualmente no 6º período. Integra o Projeto de Extensão em palhaçoterapia BRINCART e o Projeto de Extensão em Ginecologia e Obstetrícia da UNICAP. Lattes: https://lattes.cnpq.br/6970671642124755 ORCID: https://orcid.org/0009-0004-3685-6414 E-mail:
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- 288 - Saúde infantil — 197, 206, 209, 240, 242–243, 250 Saúde introdução — 29, 45, 81, 99, 143, 155, 175, 193, 241, 255 Saúde mental — 12–13, 15–16, 21, 24, 27, 40, 43–50, 53, 56–61, 72, 74, 79, 113, 125, 128, 137, 166, 208 Saúde mulher — 80, 82, 84, 98–99, 104, 107, 109, 209, 239 Saúde prevenção — 18, 20, 101, 142, 180, 201, 226 Saúde projeto — 118, 166, 198, 204, 212, 225 Saúde pélvica — 98, 100, 105–108 Saúde pública — 20, 25–26, 42, 60, 79, 108, 130, 142, 150, 175, 187, 189, 196, 217–218, 258, 265 Saúde qualidade — 21, 93, 104–105, 149, 181, 201, 205–206, 258 Serviços saúde — 22, 45–48, 53, 59, 67, 84, 177, 181, 213–214, 219, 222, 242–243, 247, 254–255, 257, 259, 263–265 Situação vulnerabilidade — 15, 125, 193, 209, 211–212, 240–241, 247 T Terapia — 90, 97, 112, 114, 119, 122, 140–141, 152–153, 163, 167, 169– 170, 186 Tratamento — 33, 66, 89, 92, 94, 99–101, 108–109, 112–113, 144–146, 148, 155, 175, 177, 180, 187, 212, 217 Tratamentos — 13, 102, 105–107, 113, 142, 176, 181, 219, 226, 257 U Universitária — 1, 3–7, 9, 11, 13, 15–19, 21, 23–29, 31, 33, 35, 37, 39, 41, 43–45, 47, 49, 51, 53, 55, 57, 59, 61, 63, 65, 67, 69, 71, 73, 75, 77, 79–81, 83, 85, 87, 89, 91, 93–95, 97, 99, 101, 103, 105, 107, 109, 111, 113, 115, 117, 119, 121, 123, 125, 127, 129, 131, 133, 135, 137, 139, 141, 143, 145, 147, 149, 151, 153, 155, 157, 159, 161, 163, 165, 167, 169–171, 173–175, 177, 179, 181, 183, 185, 187, 189–193, 195, 197, 199, 201, 203, 205–207, 209, 211, 213, 215, 217, 219, 221, 223, 225, 227, 229, 231, 233, 235, 237, 239–241, 243, 245, 247, 249, 251, 253–255, 257, 259, 261, 263, 265, 267 Universitária saúde — 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27, 29, 31, 33, 35, 37, 39, 41, 43, 45, 47, 49, 51, 53, 55, 57, 59, 61, 63, 65, 67, 69,
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 289 - 71, 73, 75, 77, 79, 81, 83, 85, 87, 89, 91, 93, 95, 97, 99, 101, 103, 105, 107, 109, 111, 113, 115, 117, 119, 121, 123, 125, 127, 129, 131, 133, 135, 137, 139, 141, 143, 145, 147, 149, 151, 153, 155, 157, 159, 161, 163, 165, 167, 169, 171, 173, 175, 177, 179, 181, 183, 185, 187, 189, 191, 193, 195, 197, 199, 201, 203, 205, 207, 209, 211, 213, 215, 217, 219, 221, 223, 225, 227, 229, 231, 233, 235, 237, 239, 241, 243, 245, 247, 249, 251, 253, 255, 257, 259, 261, 263, 265, 267 V Vulnerabilidade — 15, 28, 32, 39, 41, 64, 77, 125–127, 136, 138, 193, 209, 211–212, 240–242, 247, 250, 257, 264–265 Vulnerabilidade social — 15, 125–127, 138, 193, 240, 242, 265
- 290 - Este E-book está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Isso significa que é permitido compartilhar e adaptar o conteúdo, desde que seja dado o devido crédito aos autores e à Universidade Católica de Pernambuco como editora, mas o uso para fins comerciais não é permitido. Para mais informações, consulte: https://creativecommons
Extensão Universitária Unicap: ODS 3 “Saúde e Bem-Estar” - 291 - Este livro reúne experiências extensionistas da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), articuladas ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS 3) – Saúde e Bem-Estar. A obra parte da convicção de que a universidade cumpre sua missão social quando se abre ao diálogo com a sociedade, colocando o conhecimento acadêmico a serviço da vida, da dignidade e da justiça social. Organizado em quatro eixos temáticos — Psicologia, Fisioterapia e Nutrição, Fonoaudiologia e Medicina — o e-book apresenta projetos que evidenciam a saúde em sua dimensão integral: física, mental, social e comunitária. Mais do que uma coletânea de relatos, a obra é um testemunho da vocação transformadora da extensão universitária: promover impacto social imediato e, ao mesmo tempo, formar profissionais comprometidos com a ética do cuidado e com os desafios da Agenda 2030. Cada capítulo demonstra que os ODS não são metas distantes, mas práticas concretas que se realizam nos territórios locais. Assim, o e-book convida estudantes, professores, profissionais de saúde e sociedade em geral a reconhecerem que a promoção da saúde é tarefa coletiva, exigindo corresponsabilidade e engajamento.