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DO DIRETÓRIO AO COREN, A POLÍTICA COMEÇA ANTES DO CONSELHO: RELATO DE EXPERIÊNCIA

Centro Universitário de João Pessoa

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59 DO DIRETÓRIO AO COREN, A POLÍTICA COMEÇA ANTES DO CONSELHO: RELATO DE EXPERIÊNCIA José Simplício da Silva Neto (E-mail: n[email protected]) José Madson Medeiros Souza DOI 10.5281/zenodo.17675034 Resumo Objetivo: Descrever a experiência de atuação no Diretório Acadêmico de Enfermagem como espaço de formação política e liderança estudantil. Metodologia: Relato de experiência de abordagem qualitativa, baseado em registros pessoais, documentos institucionais e memórias reflexivas do autor. Relato da experiência: A participação no Diretório possibilitou o desenvolvimento de habilidades de liderança, mediação de conflitos e articulação institucional, além de estreitar vínculos com o COREN-PB, evidenciando que o protagonismo político na Enfermagem inicia-se ainda na graduação. Considerações finais: A vivência no Diretório consolidou a compreensão de que a política na Enfermagem se constrói desde os espaços estudantis, preparando lideranças conscientes, éticas e socialmente comprometidas. Descritores: Enfermagem; Liderança; Estudantes de Enfermagem; Participação Política. Introdução A Enfermagem, enquanto profissão comprometida com o cuidado, a ética e a defesa da saúde coletiva, também se constitui como um campo político que demanda participação ativa de seus profissionais desde a formação acadêmica. A atuação política na Enfermagem não se restringe aos espaços institucionais formais, como os conselhos de classe, ela inicia-se nas bases da organização estudantil, como os Diretórios Acadêmicos, que contribuem na construção da cidadania, liderança e representação profissional (Gaidzinski et al., 2012). 60 O Conselho Regional de Enfermagem (COREN) é a entidade responsável por fiscalizar o exercício profissional da Enfermagem nos estados, assegurando o cumprimento do Código de Ética e da legislação da profissão, com a missão de garantir um cuidado seguro e de qualidade à sociedade. Instituído pela Lei nº 5.905/1973, o COREN integra o Sistema COFEN/CORENs, que regulamenta e normatiza o exercício profissional da Enfermagem no Brasil (BRASIL, 1973). Já os Diretórios Acadêmicos são órgãos estudantis que representam os interesses dos discentes perante as instâncias institucionais, promovendo o diálogo entre alunos, docentes e gestores universitários. Ambos os espaços, ainda que em níveis distintos, compartilham o propósito de fortalecer a representatividade e a defesa dos direitos da categoria. Além de atuar como representação estudantil, o Diretório Acadêmico constitui um espaço privilegiado de formação política, ética e identitária, no qual os futuros enfermeiros exercitam o protagonismo, a gestão de conflitos e a construção coletiva de soluções para desafios institucionais. Segundo Ellis e Hartley (2012), essas experiências promovem o desenvolvimento de competências interpessoais, essenciais para o exercício da liderança. A política, na Enfermagem, manifesta-se como uma prática cotidiana que ultrapassa as esferas partidárias e formais, estando intrinsecamente ligada às ações que visam garantir a equidade, o acesso à saúde e a defesa dos direitos humanos. Para Abbasinia, Ahmadi e Kazemnejad (2020), a prática da advocacia na Enfermagem envolve a proteção dos interesses dos pacientes, bem como o engajamento nas decisões institucionais e sociais que impactam o cuidado. Este relato de experiência tem como objetivo descrever e refletir sobre o processo de atuação no Diretório Acadêmico de Enfermagem enquanto espaço de engajamento político e liderança estudantil, discutindo as interfaces entre a representação acadêmica e o exercício 61 político-profissional que podem culminar na atuação em entidades de classe, como o COREN. Metodologia Este estudo caracteriza-se como um relato de experiência, de abordagem qualitativa e natureza descritiva, tendo como base a vivência do autor na atuação como membro e presidente do Diretório Acadêmico de Enfermagem de uma instituição de ensino superior privada, localizada na cidade de João Pessoa, Paraíba. O relato está inserido nas atividades de representação estudantil, envolvendo processos de liderança, mediação de conflitos, articulação institucional e participação em instâncias coletivas da Enfermagem, incluindo interações com o Conselho Regional de Enfermagem (COREN-PB). A construção deste relato foi realizada a partir de registros pessoais e memórias reflexivas acumuladas ao longo do período de atuação no Diretório Acadêmico, durante os semestres de 2023.2 a 2024.2. As reflexões foram baseadas em literatura científica sobre liderança, política e representação na Enfermagem, buscando dialogar com autores que abordam a formação crítica e o papel político do enfermeiro. Por se tratar de uma experiência vivida e narrada pelo próprio autor, sem coleta de dados de participantes externos nem exposição de informações pessoais identificáveis, a pesquisa não demandou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme os parâmetros da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Relato da experiência Ingressar no Diretório Acadêmico de Enfermagem não foi um plano pensado anteriormente, mas uma resposta ao chamado coletivo. Desde 62 o início da graduação, o ambiente acadêmico apresentava desafios: colegas desmotivados, dificuldades comuns da vida universitária e o desejo de ter mais participação nos rumos da própria formação. Nesse cenário, a decisão de compor uma chapa para o Diretório surgiu como uma alternativa para supercar os desafios. A eleição, ocorrida no semestre de 2023.2, marcou o início de uma fase de liderança formal e institucional Ao assumir a presidência do Diretório Acadêmico, liderando inicialmente uma equipe composta por 11 membros, o principal desafio foi construir legitimidade perante a comunidade acadêmica. Persistiam estigmas sobre a atuação do Diretório, frequentemente visto como um espaço de “rebeldia” ou “conflito com a gestão”. Com diálogo e ações concretas, a nova gestão promoveu reuniões com os estudantes e representantes de turma, ouviu demandas coletivas e pessoais, mediou conflitos e levou pautas relevantes ao colegiado do curso, coordenação e reitoria. Com o passar dos meses, o Diretório tornou-se um canal legítimo de escuta e representação, fortalecendo sua atuação interna e ampliando sua equipe. Em 2024.1, acolheram-se mais 13 membros honorários, totalizando 24 integrantes comprometidos com a construção de um ambiente acadêmico mais participativo e inclusivo. A aproximação com o Conselho Regional de Enfermagem da Paraíba (COREN-PB) destacou-se como um marco importante da trajetória. Desde os primeiros meses, estabeleceu-se uma parceria institucional com a presidente do conselho, que se colocou como escuta atenta às demandas do Diretório e apoiadora das iniciativas estudantis. Essa interlocução possibilitou a abertura de portas para futuras colaborações e reforçou a percepção de que a política na Enfermagem não se restringe aos conselhos profissionais, mas se constrói de maneira contínua, desde os primeiros espaços de representação estudantil. 63 A experiência no Diretório mostrou que liderar não é ocupar um cargo, mas estar disponível ao outro. Não foi sobre status ou reconhecimento, mas sobre estar presente: ouvir os colegas, acolher as angústias da turma, mediar conflitos e construir soluções coletivas, mesmo diante das limitações. Nesse caminho, descobriu-se que a política na Enfermagem não começa com o diploma, nem com a posse em um conselho de classe: a política começa antes do conselho. Ela nasce no chão da graduação, nos pequenos atos de liderança cotidiana, na disposição para transformar realidades, ainda que em pequena escala. Esse caminho aponta que as competências políticas desenvolvidas no ambiente universitário (a negociação, a mediação de conflitos, a liderança colaborativa e o senso de responsabilidade coletiva) são as mesmas exigidas na atuação em conselhos profissionais e espaços de decisão da categoria. Nesse sentido, o Diretório Acadêmico representou além de uma instância de representação estudantil, um verdadeiro laboratório formativo da política que antecede o conselho, preparando lideranças dispostas a ocupar os espaços da profissão com ética, consciência crítica e compromisso social. Não existe “depois” para se envolver: o tempo da política é agora, mesmo enquanto estudante. A experiência no Diretório Acadêmico mostra que o protagonismo político na Enfermagem é construído na base, com escuta ativa, compromisso social e responsabilidade coletiva. E, se a política começa antes do conselho, que ela possa continuar muito além dele. O Diretório não foi um ponto final – foi uma abertura para compreender a liderança como prática ética, coletiva e transformadora. Considerações finais A experiência vivida no Diretório Acadêmico de Enfermagem foi, ao mesmo tempo, um exercício de cidadania, de cuidado coletivo e de 64 formação crítica. Estar em um espaço de representação durante a graduação desenvolveu habilidades de liderança e comunicação, bem como expandiu minha compreensão sobre o papel político da Enfermagem na sociedade. Mais do que resolver demandas internas, representar é um ato de responsabilidade social e ética. Perceber que a atuação política na Enfermagem não começa com o diploma ou com a posse em um conselho profissional é um aprendizado que levarei para além da graduação. A política, na Enfermagem, começa quando nos colocamos à disposição do outro, quando escolhemos agir, quando decidimos transformar, mesmo que em pequena escala, os espaços que ocupamos. Se a história da Enfermagem brasileira é marcada por lutas coletivas, por movimentos organizados e por resistências estratégicas, é urgente que os estudantes compreendam o seu papel dentro dessa continuidade. Que cada diretório acadêmico seja uma semente de representatividade futura. Que cada estudante entenda que, sim, a política começa muito antes do conselho — e que é ali, na base, que ela se fortalece. Referências ABBASINIA, M.; AHMADI, F.; KAZEMNEJAD, A. Patient advocacy in nursing: A concept analysis. Nursing Ethics, v. 27, n. 1, p. 141-151, 2020. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/333244319_Patient_advocac y_in_nursing_A_concept_analysis. Acesso em: 29 abril 2025. BRASIL. Lei nº 5.905, de 12 de julho de 1973. Cria os Conselhos Federal e Regionais de Enfermagem e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 jul. 1973. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/lei-n-590573-de-12-de-julho-de-1973/. Acesso em: 29 abril 2025. ELLIS, J. R.; HARTLEY, C. L. Nursing in today’s world: trends, issues, and management. 10. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer Health, 2012. 65 GAIDZINSKI, R. R. et al. Advocacy na enfermagem: em busca de um conceito. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 65, n. 6, p. 933938, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/GGqjwRVMsCVtLz8gqLPjRbf/. Acesso em: 1 maio 2025.