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INTERNACIONALIZAÇÃO DA ENFERMAGEM: EXPERIÊNCIA NA UNIVERSIDAD DE SALAMANCA E HOSPITAL UNIVERSITÁRIO

Centro Universitário de João Pessoa

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66 INTERNACIONALIZAÇÃO DA ENFERMAGEM: EXPERIÊNCIA NA UNIVERSIDAD DE SALAMANCA E HOSPITAL UNIVERSITÁRIO José Simplício da Silva Neto (E-mail: n[email protected]) Deborah Helena Batista Leite DOI 10.5281/zenodo.17675060 Resumo Objetivo: relatar a experiência acadêmico-cultural vivenciada na Universidad de Salamanca, com ênfase na visita extra programática ao Hospital Universitário, visando assim observar as práticas e as impressões gerais sobre o local de que os estudantes da área da saúde da Universidad de Salamanca têm a oportunidade de estagiar. Metodologia: trata-se de um relato de experiência qualitativa e descritiva, baseado em observação direta e registro reflexivo, durante intercâmbio linguístico realizado em janeiro de 2025, na cidade de Salamanca, Espanha. A visita ao hospital foi intermediada pela coordenação internacional da universidade e contou com a participação de estudantes brasileiros. Relato da experiência: a visita permitiu observar setores como enfermarias, emergência e UTI. Destacaram-se aspectos como a organização física dos espaços, uso intensivo de tecnologia, sistemas informatizados de cuidado, e a autonomia institucional dos enfermeiros espanhóis, que participam ativamente de decisões clínicas e gerenciais. Considerações finais: a experiência proporcionou um olhar ampliado sobre o exercício profissional da Enfermagem em outro contexto sociocultural, reforçando a importância da formação crítica, do intercâmbio de saberes e da valorização da autonomia da categoria. Descritores: Enfermagem; Educação em Saúde; Cooperação Internacional; Hospitais Universitários; Sistemas de Saúde. Introdução A internacionalização do saber em Enfermagem emerge como ferramenta potente para a ampliação das competências profissionais, culturais e humanas do enfermeiro em formação. A experiência em 67 outros contextos geossociais, como o europeu, revela nuances diferenciadas da prática e da formação em saúde, desvelando potenciais de ressignificação do cuidado. A Espanha, notadamente, apresenta uma estrutura consolidada no ensino da Enfermagem, cuja regulamentação é pautada na Ley de Ordenación de las Profesiones Sanitarias (LOPS), que confere à profissão reconhecimento acadêmico pleno, com ênfase na autonomia científica e técnica dos profissionais (España, 2003). No Brasil, embora os avanços legislativos e formativos tenham fortalecido a Enfermagem enquanto ciência e profissão, os desafios estruturais e sociais permanecem como entraves à equidade no acesso e à valorização profissional. Em contraponto, o modelo espanhol — especialmente aquele implementado em instituições de renome como a Universidad de Salamanca — favorece a formação crítica, tecnológica e ética dos enfermeiros, promovendo o intercâmbio científico e a produção de conhecimento internacionalmente reconhecido (Padilha et al., 2019) Fundada em 1218, a Universidad de Salamanca é uma das mais antigas do mundo ocidental e símbolo do pensamento humanista e científico da Europa. Seu curso de Enfermagem é vinculado à Facultad de Enfermería y Fisioterapia, com forte atuação na pesquisa em cuidados avançados e parcerias interinstitucionais. A universidade integra consórcios acadêmicos com instituições da América Latina e foi agraciada com o Prêmio Nacional de Excelência Educacional da Espanha (Usal, 2024). Nesta perspectiva, a experiência relatada não se configurou como uma imersão formal em práticas clínicas, mas como um olhar reflexivo e analítico sobre o cuidado em saúde no ambiente hospitalar espanhol, mais precisamente no Hospital Universitário de Salamanca. A visita foi intermediada pelo reitor e pelo coordenador dos cursos internacionales 68 da Universidad, e realizada por mim— discente de Enfermagem — juntamente com quatro colegas brasileiros do curso de Medicina, no contexto de um intercâmbio voltado ao aprendizado da língua espanhola. Este artigo tem como objetivo relatar a experiência acadêmicocultural vivenciada na Universidad de Salamanca, com ênfase na visita extra programática ao Hospital Universitário, visando assim observar as práticas e as impressões gerais sobre o local de que os estudantes da área da saúde da Universidad de Salamanca têm a oportunidade de estagiar. Metodologia Este relato de experiência caracteriza-se como uma abordagem qualitativa de natureza descritiva, com ênfase na narrativa autobiográfica de uma vivência educacional internacional, situada no campo da formação crítica em Enfermagem. A experiência ocorreu no contexto de um intercâmbio cultural e linguístico realizado na cidade de Salamanca, Espanha, no mês de janeiro de 2025, com duração de três semanas. A principal atividade prevista foi a imersão na língua espanhola por meio de curso intensivo na Universidad de Salamanca. No entanto, por meio de articulação com o reitor da instituição e com o coordenador dos cursos internacionais, viabilizou-se uma visita guiada ao Hospital Universitário de Salamanca, a qual foi realizada em conjunto com quatro estudantes brasileiros do curso de Medicina. Essa visita ocorreu de forma extra programática, no período vespertino, e possibilitou o contato observacional com o ambiente hospitalar, os fluxos de cuidado e a dinâmica da equipe de Enfermagem espanhola. 69 A construção do relato baseia-se em registros pessoais, memórias da experiência e reflexões críticas ancoradas em literatura científica, especialmente nos fundamentos freirianos da educação dialógica e emancipatória. A vivência não exigiu parecer do Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que não envolveu coleta de dados com seres humanos de forma sistemática, mas sim observação livre de práticas institucionais públicas, sem intervenção. Relato da experiência Durante as três semanas de intercâmbio acadêmico-cultural na cidade de Salamanca, na Espanha, participei de um curso intensivo de língua espanhola promovido pela Universidad de Salamanca, instituição secular reconhecida internacionalmente pela excelência acadêmica e pela produção científica de vanguarda. A residência foi realizada em um hotel situado em frente ao Hospital Universitário de Salamanca, o que, desde os primeiros dias, despertou a curiosidade e o desejo de conhecer o funcionamento interno da instituição, especialmente enquanto estudante de Enfermagem brasileira. Por intermédio do reitor da universidad e do coordenador dos cursos internacionais, foi autorizada uma visita extra programática ao hospital, acompanhada por quatro colegas brasileiros do curso de Medicina. A visita ocorreu em período vespertino, sendo conduzida por profissionais do hospital que nos apresentaram as principais estruturas físicas e organizacionais da instituição. O Hospital Universitário de Salamanca é uma referência em atendimento terciário, vinculado diretamente ao Sistema Nacional de Saúde da Espanha, e integra o complexo assistencial e formativo da universidade, oferecendo ensino, pesquisa e assistência integrada, com forte investimento em tecnologia e humanização. 70 Visitamos áreas administrativas, enfermarias clínicas, setor de emergência, refeitório dos profissionais, lavanderia automatizada e uma unidade de terapia intensiva (UTI), embora sem adentrar nos leitos por questões de biossegurança. As enfermarias, em sua maioria, apresentavam quartos individuais ou duplos com estrutura tecnológica avançada: painéis digitais, sistemas automatizados de chamada, tablets acoplados às camas e dispositivos para monitoramento contínuo. Os profissionais utilizavam uniformes padronizados por cores, conforme sua função, o que facilitava a organização visual das equipes. A Enfermagem se apresentou como protagonista no cenário hospitalar: enfermeiros com ampla autonomia atuavam na gestão dos setores, na prescrição de cuidados e na coordenação dos fluxos assistenciais. Além disso, observou-se o uso extensivo de prontuários eletrônicos com registros em tempo real, incluindo indicadores de qualidade e segurança do paciente. A comparação com a realidade brasileira tornou-se inevitável: apesar dos avanços em legislação e formação, a Enfermagem no Brasil ainda enfrenta barreiras institucionais e culturais quanto à sua autonomia plena (Padilha et al., 2019). A visita não apenas reforçou a relevância da internacionalização como processo formativo, mas também reafirmou a necessidade de reflexão crítica sobre os desafios locais da profissão. Embora a visita tenha sido breve, ela permitiu a construção de reflexões profundas acerca das distintas formas de organização do trabalho em saúde e do lugar da Enfermagem nesses sistemas. Em diálogo com os princípios freirianos, a experiência reafirma a importância de uma formação crítica e aberta ao mundo, capaz de romper com a lógica bancária do ensino e valorizar o intercâmbio de saberes como prática libertadora. Como afirma Freire (1996, p. 68), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. 71 Considerações finais A experiência vivenciada na Universidad de Salamanca e, em especial, a visita ao Hospital Universitário, revelou-se uma oportunidade enriquecedora de ampliação dos horizontes acadêmicos, culturais e profissionais. Embora o foco do intercâmbio fosse o aprendizado linguístico, o contato com o sistema de saúde espanhol e, particularmente, com a atuação da Enfermagem naquele contexto, possibilitou reflexões sobre a formação e o exercício profissional no Brasil. O modelo espanhol, pautado na valorização técnica e na autonomia dos enfermeiros, evidencia a importância de políticas institucionais e educacionais que fortaleçam o protagonismo da categoria. A observação das práticas assistenciais, da estrutura organizacional e do uso intensivo de tecnologias no cuidado reforçou a percepção de que a internacionalização da Enfermagem não se restringe à mobilidade geográfica, mas configura-se como instrumento de crítica, comparação, qualidade de trabalho e avanço epistêmico. Assim, vivências como essa reafirmam o papel do estudante como sujeito ativo e reflexivo do processo formativo, alinhado aos princípios da práxis freiriana e ao compromisso ético com a transformação da realidade. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS: documento base. 4. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_humaniz acao.pdf. Acesso em: 01 maio 2025. ESPAÑA. Ley 44/2003, de 21 de noviembre, de ordenación de las profesiones sanitarias (LOPS). Boletín Oficial del Estado, n. 280, 22 nov. 2003. Disponível em: https://www.boe.es/buscar/doc.php?id=BOE-A2003-21340. Acesso em: 01 maio 2025. 72 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. PADILHA, M. I. et al. Enfermagem: história de uma profissão. São Caetano do Sul: Difusão, 2019. UNIVERSIDAD DE SALAMANCA. Facultad de Enfermería y Fisioterapia. Salamanca: USAL, 2024. Disponível em: https://enfermeriayfisioterapia.usal.es/. Acesso em: 01 maio 2025.