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BRAZILIAN JOURNAL OF ORAL AND SYSTEMIC HEALTH DOI doi.org/10.5281/zenodo.17674803 http://bjoshealth.com.br ISSN 3085-8097 A RELAÇÃO DE PATÓGENOS PERIODONTAIS E DOENÇAS RESPIRATÓRIAS: REVISÃO DE LITERATURA The Relationship Between Periodontal Pathogens and Respiratory Diseases: Literature review Volume 1 Número 2 Jul-Dez 2025 REVISÃO DE LITERATURA Danielle Lays Szydlowski1; Beatriz Helena Eger Schmitt1; Pablo Cornélius Comelli Leite1 RESUMO O microecossistema oral é um ambiente altamente complexo, formado pelo microbioma bucal, pelas estruturas anatômicas da cavidade oral, pela saliva e pelas múltiplas interações estabelecidas entre a microbiota e o hospedeiro. A dinâmica desse ecossistema desempenha papel fundamental na manutenção da saúde bucal e sistêmica, sendo crescente o interesse científico em compreender como alterações nesse equilíbrio podem repercutir em outros sistemas do organismo. Nesse contexto, esta revisão de literatura tem por objetivo investigar o que está descrito na literatura recente sobre a relação entre periodontopatógenos e doenças respiratórias, considerando especialmente a influência dos processos inflamatórios e da migração microbiana. A doença periodontal, caracterizada por um processo inflamatório crônico nos tecidos de suporte dos dentes desencadeado pelo acúmulo de biofilme bacteriano, tem sido amplamente estudada como potencial fator contribuinte para alterações pulmonares. Para este trabalho, realizou-se uma busca sistematizada de artigos científicos nas bases de dados PubMed, Google Scholar e Portal de Periódicos CAPES. A pesquisa ocorreu entre setembro e novembro de 2025, totalizando dois meses de levantamento bibliográfico, e incluiu estudos publicados entre 2019 e 2025. Como resultado, observou-se que diversos estudos apontam que a doença periodontal e os microorganismos a ela associados podem exercer influência sobre diferentes doenças respiratórias, como pneumonia, asma, COVID-19 e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Entre os principais mecanismos propostos destacam-se a resposta inflamatória sistêmica decorrente da periodontite e a possível aspiração de bactérias orais para o trato respiratório inferior, contribuindo para agravamento ou predisposição às doenças pulmonares. Apesar das evidências emergentes, torna-se evidente a necessidade de mais estudos, com maior rigor metodológico e acompanhamento longitudinal, para que seja possível compreender, delimitar e confirmar de maneira consistente a relação direta entre periodontopatógenos e doenças respiratórias ao longo do tempo. 1 – Autor(a) independente, Blumenau, Santa Catarina, Brazil Autor de Correspondência: Danielle Lays Szydlowski email: [email protected] Palavras-chave: Doença periodontal, Doenças pulmonares, Doenças respiratórias.
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 539 ABSTRACT The oral microecosystem is a highly complex environment, formed by the oral microbiome, the anatomical structures of the oral cavity, saliva, and the multiple interactions established between the microbiota and the host. The dynamics of this ecosystem play a fundamental role in maintaining oral and systemic health, and there is growing scientific interest in understanding how alterations in this balance can affect other systems of the organism. In this context, this literature review aims to investigate what is described in recent literature about the relationship between periodontopathogens and respiratory diseases, especially considering the influence of inflammatory processes and microbial migration. Periodontal disease, characterized by a chronic inflammatory process in the supporting tissues of the teeth triggered by the accumulation of bacterial biofilm, has been widely studied as a potential contributing factor to pulmonary alterations. For this work, a systematic search of scientific articles was carried out in the PubMed, Google Scholar, and CAPES Periodicals Portal databases. The research took place between September and November 2025, totaling two months of bibliographic review, and included studies published between 2019 and 2025. As a result, it was observed that several studies indicate that periodontal disease and the microorganisms associated with it can influence different respiratory diseases, such as pneumonia, asthma, COVID-19, and chronic obstructive pulmonary disease (COPD). Among the main proposed mechanisms, the systemic inflammatory response resulting from periodontitis and the possible aspiration of oral bacteria into the lower respiratory tract stand out, contributing to the aggravation or predisposition to pulmonary diseases. Despite the emerging evidence, the need for more studies, with greater methodological rigor and longitudinal follow-up, is evident in order to understand, delimit, and consistently confirm the direct relationship between periodontopathogens and respiratory diseases over time. Keywords: Periodontal disease, Pulmonary diseases, Respiratory diseases INTRODUÇÃO O microecossistema oral é um ambiente altamente complexo, composto pelo microbioma bucal, pelas estruturas anatômicas da cavidade oral, pela saliva e pelas interações entre a microbiota e o hospedeiro (Dong et al. 2022 [4]) Evidências científicas têm demonstrado uma ligação relevante entre esse microecossistema e diversas doenças respiratórias (Verma et al. 2022 [13]). A doença periodontal, caracterizada por um processo inflamatório crônico nos tecidos de suporte dos dentes, decorrente do acúmulo de biofilme bacteriano (Moeintaghavi et al. 2022 [9]), tem sido associada a condições pulmonares como pneumonia (Yang et al. 2020 [16] e Berg et al. 2023 [3]), DPOC (Satyanarayana et al. 2023 [11] e Li et al. 2024 [6]), asma (Moeintaghavi et al. 2022 [9], Park et al. 2023 [10] e Brasil-Oliveira et al. 2021 [2]), COVID-19 (Marouf et al. 2021 [8], Anand et al. 2022 [1] e Marouf et al. 2024 [7]) e câncer de pulmão (Shi et al. 2021 [12] e Vogtmann et al. 2022 [14]). Essa relação ocorre por meio do chamado eixo oral-pulmão, no qual microrganismos e mediadores inflamatórios provenientes da cavidade oral podem ser aspirados ou disseminados para os pulmões, favorecendo infecções e agravando quadros respiratórios (Imai et al. 2021 [5]). Dessa forma,
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 540 a inflamação periodontal pode contribuir para o aumento da inflamação pulmonar, a ocorrência de infecções e a piora da função respiratória, evidenciando a influência direta da saúde bucal sobre a saúde sistêmica (Verma et al, 2022 [13]). O objetivo desta revisão é analisar a relação entre os patógenos periodontais e as doenças pulmonares, buscando compreender seus mecanismos de ação e possíveis implicações clínicas. MATERIAIS E MÉTODOS Este estudo consiste em uma revisão de literatura realizada nas bases de dados PubMed, Google Scholar e Portal de Periódicos CAPES. A busca foi conduzida no período de setembro a novembro de 2025, totalizando dois meses de levantamento bibliográfico. Os artigos utilizados abrangeram como ano de publicação o período de 2019 a 2025. Para a estratégia de pesquisa, foram utilizadas as seguintes palavras-chave, isoladas e combinadas entre si: “doenças periodontais”, “doenças respiratórias” e “doenças pulmonares”. Foram incluídos artigos originais publicados em inglês e português, sem restrição de país de origem, que abordassem a relação entre patógenos periodontais e doenças respiratórias. Foram excluídos da análise cartas ao editor e estudos com dados incompletos ou sem acesso ao texto completo. Inicialmente, os títulos e resumos foram avaliados para verificar a adequação aos critérios de inclusão; em seguida, os textos completos dos estudos potencialmente relevantes foram lidos para confirmação. Os dados extraídos dos artigos selecionados incluíram: autores, ano de publicação, tipo de estudo, população analisada, patógenos periodontais investigados, tipo de doença respiratória estudada e principais resultados. REVISÃO DE LITERATURA A periodontite é uma inflamação crônica dos tecidos de suporte dos dentes (periodonto), resultante de uma infecção bacteriana (Moeintaghavi et al. 2022 [9]). Evidências crescentes oriundas de estudos em epidemiologia, microbiologia e biologia molecular têm demonstrado uma correlação significativa entre o equilíbrio desse microecossistema e a fisiopatologia de diversas doenças respiratórias (Wang, 2019 [15]). Diversas pesquisas têm evidenciado uma relação significativa entre micro-organismos periodontopatogênicos e distúrbios respiratórios, incluindo pneumonia, asma, COVID-19 e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Verma et al. (2022) [13] realizaram um estudo para avaliar a saúde periodontal em pacientes hospitalizados com problemas respiratórios não tuberculosos. Foram selecionados 200
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 541 participantes portadores de DPOC e com o diagnóstico de câncer de pulmão, levando em consideração que fossem dentados ou parcialmente edêntulos, sendo que os mesmos estavam hospitalizados por doenças respiratórias não tuberculosas. Os critérios de exclusão foram: pacientes com tuberculose, alcoólatras, diabetes, distúrbios cardiovasculares, artrite reumatóide, colite ulcerativa, parto prematuro com baixo peso ao nascer, mulheres lactantes ou gestantes e pacientes que não deram consentimento. A avaliação periodontal incluiu índice de placa, profundidade de sondagem e nível de inserção. Estes pacientes apresentaram doenças periodontais severas, com índice de placa elevado e perda de inserção clínica. Concluiu-se que a doença periodontal por si só não causa doenças respiratórias, mas quando em associação com fatores ambientais como tabagismo ou fatores genéticos, há uma maior chance na piora e progressão de alterações pulmonares. Para que seja possível explorar uma relação causa efeito entre patógenos periodontais e doenças pulmonares, vamos correlacionar as condições individualmente. Pneumonia A pneumonia é uma das infecções respiratórias mais comuns, caracterizada por um processo inflamatório que afeta o parênquima pulmonar. Pesquisas indicam que a doença periodontal, amplamente disseminada na população mundial, pode aumentar a vulnerabilidade e a gravidade dos casos de pneumonia (Yang et al. 2020 [16]). Estudos recentes também sugerem que uma condição bucal deficiente está relacionada a um maior risco de desenvolvimento da doença. Essa associação tem sido explorada por meio de investigações que analisam o estado de saúde oral, demonstrando que desequilíbrios na microbiota bucal podem influenciar a ocorrência de infecções respiratórias (Berg et al. 2023 [3]). Um estudo de coorte realizado por Yang et al. (2020) [16] buscou relacionar a diminuição da pneumonia com a realização efetiva do tratamento periodontal. Utilizaram uma grande base populacional de Taiwan. Incluíram 49.400 pacientes com idade igual ou superior a 20 anos diagnosticados com periodontite crônica e que receberam tratamento dentro de 1 ano após diagnóstico. Foram selecionados 49.400 pacientes entre 2000 e 2013 sem histórico de doença periodontal como grupo controle. Foram comparados em idade, sexo, renda mensal, grau de urbanização e comorbidades importantes. Após análises e acompanhamento médio de 7,5 anos, o resultado demonstrou que pacientes com periodontite que receberam tratamento periodontal (raspagem, curetagem, cirurgia de retalho) apresentaram menor incidência de pneumonia hospitalar (5,1 vs 6,8 por 1000 pessoas-ano) e redução do risco ajustado de pneumonia. Tratamentos mais intensivos, como cirurgia de retalho, foram associados a redução maior segundo os autores. O risco de pneumonia era maior em pacientes mais velhos. Os autores concluíram que o tratamento periodontal reduz o risco de desenvolvimento da pneumonia, recomendando atenção clínica e possíveis implicações de política pública. Mais estudos prospectivos com medidas clínicas detalhadas e controle de fatores são necessários.
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 542 O estudo longitudinal de Berg et al. (2023) [3] foi realizado em um centro médico/odontológico em Wisconsin entre 2007 e 2019. Os indivíduos possuíam idade igual ou superior a 21 anos. Para inclusão, levaram em consideração o número de dentes ausentes (exceto terceiros molares) devido a doença periodontal avançada ou cárie, percentual de dentes com profundidade de sondagem superior ou igual a 5mm, o estágio da doença periodontal, percentual de dentes com sangramento a sondagem e percentual de dentes com restaurações devido a cárie dentária. Foram excluídos pacientes que apresentaram pneumonia nos últimos 90 dias, para evitar presença de pneumonia em curso. Foram incluídos 68.863 indivíduos no estudo, sendo que destes, 29.777 apresentavam de 0 a 1 dentes ausentes, 23.038 apresentavam de 2 a 7 dentes ausentes e 16.048 apresentavam 8 ou mais dentes ausentes. Eles correlacionaram o maior número de dentes ausentes com uma maior chance de desenvolver pneumonia por perda óssea associada a infecção, correlacionando a mesma com doença periodontal avançada. A idade avançada também foi um fator significativo para associação de pneumonia e doença periodontal quando paciente apresenta alterações no periodonto. O presente estudo também evidenciou que o acesso a conhecimento e orientações de higiene aos pacientes são de extrema importância para uma melhora na saúde periodontal e diminuição no risco de desenvolvimento de pneumonia associada, principalmente para indivíduos com menor acesso aos cuidados odontológicos. O treinamento correto de profissionais para identificação de alterações significativas na cavidade oral diminuem o risco de desenvolvimento de pneumonia associada a periodontopatógenos. Asma Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a asma é uma doença crônica das vias aéreas que, em 2019, atingiu aproximadamente 262 milhões de pessoas em todo o mundo e foi responsável por 461 mil mortes. Em 2019, a asma foi responsável por incapacitar 21,6 milhões de pessoas, isso representa 20,8% de todos os casos de doenças respiratórias crônicas, com uma incidência de 37 milhões de novos casos em 2019, representando um aumento de 13% em relação a 2010 (Park et al. 2023 [10]). Brasil-Oliveira et al. (2021) [2] realizaram um estudo transversal utilizando 125 pacientes, dos quais 40 apresentavam asma grave, 35 apresentavam asma leve a moderada e 50 não apresentavam asma. Nestes indivíduos, foram determinados o índice de dentes cariados, perdidos e obturados (CPOD) e índice de triagem e registro das condições periodontais (TRP) através da sondagem no sulco gengival, avaliando a profundidade em seis sítios por dente, exceto em terceiros molares. Foi avaliado sangramento gengival durante a sondagem, recessão gengival e cálculos. Após avaliações, notou-se que a periodontite foi mais comum em pacientes com asma grave dos que nos com asma leve e moderada ou sem asma. O índice de CPOD não diferiu significativamente entre os grupos, porém, o número médio de dentes perdidos foi maior também no grupo com asma grave. A asma grave parece estar associada a saúde bucal comprometida e piora na qualidade de
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 543 vida. Devido as limitações do grupo estudado, mais estudos devem ser realizados a fim de adquirir resultados mais amplos quanto a influência da periodontite na piora da asma e vise-versa. Moeintaghavi et al. (2022) [9] investigaram a associação de doenças periodontais e pacientes recém diagnosticados com asma. O estudo foi conduzido com 70 pacientes com asma brônquica, no período de 2020 e 2021, no Irã. Todos os pacientes possuíam diagnóstico recente de asma, idade entre 20 e 50 anos e dentes naturais. A exclusão incluiu pacientes que faziam uso de próteses dentárias, anti-inflamatórios não esteroides nos últimos três meses, tabagismo, dependência de ópio, histórico de diabetes mellitus, doenças vasculares, doenças reumáticas, epilepsia e convulsões, doenças cardiovasculares, hipertensão, doenças da tireoide, hiperlipidemia, insuficiência renal crônica, cirrose hepática, distúrbios hematológicos, neoplasias e doenças endócrinas. O grupo controle foi composto por pacientes saudáveis, sem asma brônquica, dentes naturais e idade entre 20 e 50 anos. Após análises, o presente estudo constatou que há um maior risco de desenvolver doença periodontal em pacientes com asma recém diagnosticada. Além disso, houve maior índice de placa, profundidade de bolsa e perda de inserção. Devido a doença, pacientes apresentaram maiores índices de xerostomia, o que agrava a doença periodontal. Com essas descobertas, evidencia-se a importância de um controle maior na higiene e cuidados bucais em pacientes que possuem asma, principalmente em casos mais graves. Park et al. (2023) [10] estudaram a relação da asma com doença periodontal na população adulta coreana entre 2004 e 2016. Foram selecionados 173.209 pacientes, dos quais 44.954 foram excluídos por diversos fatores, como os sem registro de altura e peso, tabagistas, alcoólatras ou com ausência de histórico de asma e periodontite. Dos restantes, 128.255 foram grupo de controle e 2.380 pacientes com asma, divididos em asma bem controlada, em tratamento ou sem tratamento. O histórico de periodontite foi examinado separadamente. Como resultado do estudo, os pacientes asmáticos eram mais velhos quando comparados ao do grupo controle, além de mais propensos a obesidade, com renda mais baixa, não fumantes ou alcoólatras. A periodontite apresentou-se 13,1% maior do que em pacientes não asmáticos (7,3%), corroborando com o estudo de Moeintaghavi et al. (2022) [9]. Este estudo apresentou diversas limitações, como o histórico de periodontite e asma tendo-se baseado apenas na resposta do paciente em questionários prévios. De todo modo, o estudo demonstrou que pacientes com controle da asma apresentam um risco menor de desenvolver doença periodontal quando comparado aos pacientes sem controle da doença. Odontólogos e Médicos devem estar cientes do risco aumentado para desenvolvimento de doença periodontal em pacientes asmáticos. Para que esta relação seja um parâmetro geral aplicado a população coreana, estudos com melhores controles ou padronizações devem ser realizados. COVID-19
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 544 A COVID-19 está relacionada a uma intensa resposta inflamatória, com graves consequências. Da mesma forma, a periodontite se caracteriza por um processo inflamatório sistêmico marcante (Anand et al. 2021 [1] e Marouf et al. 2021 [8]). Por conta disso, Marouf et al. (2021) [8] investigaram a associação da periodontite e complicações da COVID-19 no Catar. Os dados foram coletados entre fevereiro e julho de 2020, sendo inclusos 568 pacientes com idade igual ou superior a 18 anos com alta hospitalar ou falecimento devido a COVID-19 com pelo menos uma avaliação odontológica periodontal no ano anterior a pandemia. Destes, 40 apresentavam complicações da COVID e 528 receberam alta sem complicações. Foram excluídos 508 pacientes menores de 18 anos sem presença de periodontite e sem radiografias. Após análises, os autores observaram que pacientes com complicações eram mais velhos e apresentavam comorbidades. Mais de 80% dos pacientes que tiveram complicações apresentavam periodontite, contra 43% que não possuíam complicações. No total dos 568 pacientes, 258 apresentaram periodontite e destes, 33 apresentavam complicações, enquanto 7 dos 310 pacientes sem periodontite apresentavam complicações da COVID-19. Este estudo concluiu que o risco de complicações da COVID é significativamente maior em pacientes com periodontite moderada a grave em comparação com aqueles com periodontite mais leve ou sem periodontite. O estudo possui limitações pois apenas avaliou a perda óssea interdental, necessitando de pesquisas futuras mais aprofundadas e com maiores critérios de avaliação. O estudo caso-controle de Anand et al. (2021) [1] realizado na Índia, no período de agosto de 2020 a fevereiro de 2021 procurou determinar se a periodontite e a higiene bucal inadequada estão associadas à COVID-19. Foram incluídos 150 pacientes (79 / 71 controle) com 18 anos ou mais e com pelo menos 20 dentes em boca, separados por idade, sexo, presença ou ausência de sintomas de COVID-19, presença ou ausência de qualquer doença sistêmica, consumo de tabaco e hábitos de higiene bucal. Realizou-se um exame periodontal completo, registrando índices de placa, cálculo, mobilidade dentária, sangramento gengival, profundidade de sondagem, recessão gengival e nível de inserção clínica. Após análises, os pacientes com COVID-19 apresentaram maior índice de placa, mobilidade, sangramento, profundidade de sondagem, recessão gengival e nível de inserção clínica comparados ao grupo controle. O estudo concluiu que existe associação entre periodontite e COVID-19, onde a prevalência e a gravidade da periodontite e higiene oral podem agravar as infecções causadas pela doença. Marouf et al. (2024) [7] realizaram um estudo observacional no Catar para testar se a presença de periodontite apical poderia estar associada ao risco aumentado de complicações da COVID-19. Foram incluídos pacientes adultos com idade igual ou superior a 18 anos, diagnosticados com COVID-19 entre fevereiro e dezembro de 2020, desde que apresentassem radiografia panorâmica realizada previamente a infecção, que receberam alta ou faleceram da doença antes do estudo ser finalizado, além de apresentarem periodontite apical. Foram excluídos pacientes edêntulos, com imagens de má qualidade, pacientes com tratamento ortodôntico ativo ou com exames radiográficos fora do período estabelecido. Após critérios de
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 545 eliminação, foram incluídos indivíduos que evoluíram com complicações graves da COVID-19, como internação em UTI, necessidade de ventilação mecânica e óbito, enquanto os pacientes do grupo controle corresponderam a pacientes que se recuperaram sem intercorrências. A amostra final compreendeu 949 pacientes, dos quais 63 apresentavam complicações da COVID. Observou-se que 552 pacientes tinham pelo menos uma lesão periapical. Pacientes do sexo masculino e portadores de diabetes tiveram presença significativamente maior de lesão periapical. Pacientes com complicações mais graves tenderam a ter menos dentes saudáveis e mais lesões apicais quando comparado a pacientes com complicações leves ou sem complicações, além de demonstrarem menor frequência de consultas odontológicas. Pacientes com lesões periapicais apresentaram quase três vezes mais probabilidade de desenvolver formas graves da doença. A periodontite apical também se mostrou significativamente associada a necessidade de ventilação mecânica e admissão em UTI, embora não tenha sido fortemente associada ao risco de óbito. A combinação de lesão periapical e periodontite mostrou efeito cumulativo, aumentando o risco para desenvolver complicações da COVID-19 e elevando marcadores inflamatórios. De modo geral, o estudo demonstrou que a periodontite apical está associada a casos graves da COVID-19, havendo um risco maior de internação na UTI e necessidade de ventilação mecânica. Esses resultados reforçaram a possível influência de infecções odontogênicas crônicas na gravidade da COVID-19, destacando a relevância da saúde bucal na evolução de doenças sistêmicas. DPOC (Doença pulmonar obstrutiva crônica) A doença periodontal e a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) compartilham processos histo e citopatogênicos semelhantes, marcados pela ativação de citocinas inflamatórias e pela ação de neutrófilos, os quais promovem danos teciduais progressivos e contribuem para um quadro inflamatório e degenerativo de longa duração. Satyanarayana et al. (2023) [11] realizaram um estudo com intuito de analisar a saúde periodontal de pacientes portadores de DPOC. O estudo contou com 285 pacientes, com idade superior a 30 anos e pelo menos 20 dentes naturais, diagnosticados com DPOC. O grupo controle foi compostos por pacientes sem comorbidades com idade similar. Foram excluídos pacientes que realizaram tratamento periodontal nos últimos 3 meses, histórico médico desfavorável ou que fizessem uso de medicamentos que pudessem comprometer os resultados. A idade média dos pacientes com DPOC foi de 49,89 para 50,06 do grupo controle. A DPOC foi dividida em leve (24,56%), moderada (58,25%) e casos graves (17,19%). Pacientes com DPOC demonstraram piores condições periodontais quando comparados com os pacientes do grupo controle. Os pacientes com DPOC demonstravam uma higiene bucal regular ou ruim, além de uma maior profundidade de sondagem. Os autores concluíram que há uma forte associação entre a doença periodontal e a DPOC.
Brazilian Journal of Oral and Systemic Health, vol.1 n2, Publication date Nov 25, 2025 ISSN 3085-8097 A Relação de Patógenos Periodontais e Doenças Respiratórias: Revisão de Literatura Szydlowski DL; Schmitt BHE; Leite PCC 546 Li et al. (2024) [6] realizaram um estudo microbiológico com 33 camundongos, separando-os em 3 grupos. 12 deles receberam o Porphyromonas gingivalis (grupo Pg), 12 receberam o Fusobacterium nucleatum (grupo Fn) e 12 não receberam infecção oral, sendo este caracterizado como grupo controle (grupo C). Após estudos e análises, observou-se que houve uma maior reabsorção óssea alveolar no grupo Fn, seguido pelo Pg e por fim o grupo C, sendo os dois últimos grupos com uma discreta e similar reabsorção. Quanto as manifestações histológicas do tecido pulmonar, o grupo C não apresentou alterações inflamatórias, enquanto o grupo Pg e Fn apresentaram danos significativos na parede alveolar pulmonar. Adicionalmente o grupo Fn apresentou uma expressiva quantidade de células inflamatórias. Os autores concluíram que após 3 meses de infecção com Pg e Fn, houve a presença das bactérias nos pulmões dos camundongos, diminuindo função pulmonar, aumentando fatores inflamatórios e danos teciduais com alterações patológicas que são semelhantes e características da DPOC. A bactéria Fn demonstrou ser mais destrutiva do que a Pg, sugerindo que a migração dessas bactérias ao tecido pulmonar possui grande efeito nocivo. O estudo sugere que o controle da saúde periodontal pode prevenir a DPOC. Câncer de pulmão Shi et al. (2021) [12] investigaram a associação da microbiota oral com o risco de câncer de pulmão em 156 pacientes com câncer que foram comparados com 156 casos controle utilizando amostras de enxaguante bucal dos mesmos. Os pacientes foram comparados por raça, sexo, tabagismo e data da coleta da saliva. Pacientes com histórico de HIV, outros tipos de câncer, diabetes, AVC ou infarto do miocárdio foram excluídos. Os pacientes selecionados bochecharam vigorosamente por 45 segundos 10ml de enxaguante que continha 15% de álcool. Os resultados mostraram que não houve diferenças significativas na diversidade geral das bactérias entre os dois grupos. Alguns tipos de bactérias (principalmente do grupo Firmicutes) apareceram um pouco mais em pessoas sem câncer, sugerindo uma possível relação com menor risco da doença, mas essas diferenças não foram estatisticamente significativas depois de aplicar testes mais rigorosos. Da mesma forma, os patógenos periodontais também não mostraram associação clara com o risco de câncer de pulmão. O estudo de Vogtmann et al. (2022) [14] investigou a associação entre o microbioma oral e o câncer de pulmão. Os pesquisadores analisaram dados de três grandes coortes para investigar se a composição das bactérias orais está associada ao risco de desenvolver câncer de pulmão. As amostras de microbiota oral foram processadas no programa QIIME 2, gerando perfis genéticos das bactérias encontradas. Calcularam a quantidade e variedade de bactérias em cada pessoa e diferenças entre indivíduos. Aplicaram análises estatísticas para avaliar se a diversidade bacteriana e a abundância de certos gêneros estavam associadas ao risco de câncer de pulmão, ajustando para fatores como idade, sexo, etnia, escolaridade, álcool