Full text
GUIA INFORMATIVO
ÂMBITO Este documento serve como guia informativo e foi desenvolvido no âmbito do projeto C-Land (CEXC/4647/2024contrato n.º 547), cujo objetivo foi estimar o potencial de armazenamento de carbono em algumas das zonas húmidas do Algarve. A aplicação deste guia permitirá uma análise objetiva e consistente da evolução de zonas húmidas e do potencial de armazenamento de carbono azul no Algarve, contribuindo para a tomada de decisões informadas e sustentáveis no âmbito da gestão costeira regional. AUTORES A. Rita Carrasco João Duarte Marta Silva Ana Matias Inês Carneiro Katerina Kombiadou Ana Sousa Óscar Ferreira CITAÇÃO Carrasco, A.R., Duarte, J., Silva, M., Matias, A., Carneiro, I., Kombiadou., K., Sousa, A., Ferreira, Ó. (2025). Impulsionando a Sustentabilidade - Recomendações para a conservação de Zonas Húmidas Costeiras e armazenamento de Carbono Azul no Algarve. CIMA/ARNET – Centro de Investigação Marinha e Ambiental/Rede de Investigação Aquática, Universidade do Algarve, Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, Portugal, 60p. Zenodo. doi.org/10.5281/zenodo.17207757 GRAFISMO, ILUSTRAÇÃO João T. Tavares FOTOGRAFIAS João Batista / pexel: pp. 48-49; @A. Rita Carrasco: pp. 11,14,15,20,21,23,24,25,37, 38,47,51,52; Arne Müseler / arne-mueseler.com / CC-BY-SA-3.0/ https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/ de/deed.de / Wikicommons: pp. 18-19 @Lara Talavera: pp. 6,7,8,54; ©João T. Tavares: pp. 26,27,34,38,39,53; Nico Tappero / Wikicommons CC-BY-SA-4.0: pp. 32,35,55; pxhere.com CC0 1.0 Universal: pp. 10. FINANCIAMENTO O guia foi desenvolvido no âmbito do concurso Science4Policy 2023 (S4P-23): Concurso de Estudos de Ciência para as Políticas Públicas, uma iniciativa do PLANAPP - Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas em parceria com a Fundação para a Ciência e Tecnologia, I. P. (FCT), financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Outubro 2025 Os autores agradecem à Direção-Geral do Território pela disponibilização da informação LiDAR (Light Detection And Ranging) utilizada na presente análise. COPYRIGHT Impulsionando a Sustentabilidade - Recomendações para a conservação de Zonas Húmidas Costeiras e armazenamento de Carbono Azul no Algarve © 2025 por A. Rita Carrasco, João Duarte, Marta Silva, Ana Matias, Inês Carneiro, Katerina Kombiadou, Ana Sousa, Óscar Ferreira. Licença Creative Commons 4.0 CC BY-NC-ND 4.0 ISBN 978-989-9244-36-8 [Suporte: Impresso]; 978-989-9244-37-5 [Formato: PDF / PDF/A] DEPÓSITO LEGAL 556878/25
3 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
4 GUIA INFORMATIVO
5 Este Guia contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13, 14 e 15. Contribui para o ODS 13 na medida em que pretende aumentar a consciencialização e a capacidade humana e institucional sobre medidas de mitigação, adaptação, redução de impacto e alerta precoce no que respeita às alterações climáticas. Contribui ainda para o ODS 14, através do estímulo à conservação de habitats em zonas marinhas costeiras e marinhas. Por fim, no âmbito do ODS 15, propõe medidas para a conservação, recuperação e uso sustentável de ecossistemas de zonas húmidas, em conformidade com as obrigações decorrentes dos acordos internacionais. IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
6 O carbono azul refere-se ao carbono capturado e armazenado em ecossistemas oceânicos e costeiros, como sapais, mangais e pradarias marinhas. Estes ecossistemas sequestram carbono a taxas até dez vezes superiores, por unidade de área, quando comparados com os ecossistemas terrestres. Sendo os ecossistemas de zonas húmidas sumidouros de carbono a longo termo, as ações relativas à sua conservação, restauro ecológico e gestão sustentável, afiguram-se estratégias fundamentais na mitigação e adaptação climáticas. A subida do nível médio do mar e os efeitos das intervenções humanas, são duas das principais ameaças ao património natural dos ecossistemas de zonas húmidas costeiras na região do Algarve, alterando a sua distribuição espacial e, também, a sua capacidade para sequestro e armazenamento de carbono. Este guia informativo fornece uma visão geral dos efeitos da subida do nível médio do mar nos ecossistemas de zonas húmidas do Algarve, até 2100, usando as mais recentes ferramentas científicas para estimar a variabilidade espacial dos habitats e dos serviços prestados por estes ecossistemas. Foram usadas imagens de alta resolução dos satélites Sentinel-2 (que integram a missão da Agência Espacial Europeia) para a cartografia do estado atual dos habitats intertidais, em 2025, em três ecossistemas de zonas húmidas principais no Algarve: Ria Formosa, Ria de Alvor e Estuário do Guadiana (zona húmida de Castro Marim). A cartografia serviu de referência para prever a evolução destas zonas húmidas até 2100, associada a vários cenários de subida do nível médio do mar. Os resultados indicam que num cenário pessimista, irá ocorrer uma perda pronunciada de área de sapal (15%) até 2100, especialmente na Ria Formosa a partir de 2060, mas também nos outros ecossistemas de zonas húmidas. As alterações previstas têm implicações no equilíbrio ecológico destes ecossistemas, por perda muito significativa do habitat de sapal alto, comprometendo o funcionamento pleno da zona húmida e podendo levar à diminuição de biodiversidade nestes locais. Na Ria Formosa e na Ria de Alvor, entre 2025 e 2100, em função de perdas de habitat no sapal, prevê-se uma redução no stock de carbono orgânico de 2% e 3%, respetivamente. Enquanto em Castro Marim, prevê-se um acréscimo pouco significativo. As perdas são reduzidas porque, embora haja redução de áreas de sapal, há aumento das áreas de rasos de maré, onde se instalam as pradarias marinhas, que também contribuem para a captura de carbono azul. RESUMO GUIA INFORMATIVO
7 Para os referidos ecossistemas de zonas húmidas foi feito um mapeamento de áreas artificializadas que se encontram atualmente inativas. Trata-se de um total de 1 164 ha com potencial para restauro ecológico. Se levado a cabo, o restauro/renaturalização destas áreas, pode garantir-se o aumento das áreas de sapal baixo em 80% (931 ha) face ao atual, e consequentemente, contribuir para a maximização do stock de carbono orgânico (potencial de carbono azul) em cerca de 11,3%. A percentagem de áreas artificializadas inativas é particularmente relevante na zona húmida de Castro Marim. Neste ecossistema, as áreas artificializadas inativas correspondem a 536 ha e, se renaturalizadas, podem contribuir com mais de cerca de 94% do stock de carbono orgânico, face ao atual. Assim, afigura-se importante que as autoridades de gestão local adotem, antecipadamente, estratégias de gestão integradas, robustas e eficazes, que garantam a conservação das áreas húmidas atuais e a recuperação das áreas artificializadas, permitindo a continuidade da sua sucessão ecológica, serviços dos ecossistemas proporcionados e maximizando o armazenamento de carbono azul. O presente guia dirige-se a decisores costeiros locais e regionais, e a promotores de projetos e iniciativas de carbono azul, como ministérios e agências relevantes/gestores costeiros. Também poderá ser útil a organizações da sociedade civil, academia e representantes do setor privado que procuram oportunidades para reforçar as suas iniciativas de responsabilidade social corporativa. O guia proporciona uma análise objetiva e consistente da evolução espacial dos ecossistemas de zonas húmidas costeiras e do potencial de armazenamento de carbono no futuro, contribuindo para a tomada de decisões informadas e políticas mais sustentáveis, focadas na conservação da natureza. IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
8 GUIA INFORMATIVO 8 GUIA INFORMATIVO
9 CONTEXTO DO GUIA O termo carbono azul foi criado há cerca de uma década para descrever a contribuição dos ecossistemas oceânicos e costeiros para a captura e armazenamento de carbono global. Atualmente, o papel do carbono azul na mitigação e adaptação às alterações climáticas tem alcançado proeminência nas agendas e políticas internacionais, sendo reconhecida a sua importância no combate às alterações climáticas. 1–3 Para além do seu potencial para a captura e armazenamento de carbono, as zonas húmidas proporcionam outros benefícios, como proteção costeira, purificação de água e renovação de nutrientes, entre outros4. No entanto, esse potencial poderá estar ameaçado pelos efeitos das próprias alterações climáticas, e as estimativas atuais de sequestro e armazenamento de carbono azul podem não se manter válidas no futuro. Tornou-se, assim, uma prioridade, no âmbito da gestão costeira, compreender com precisão e profundidade, como as alterações climáticas afetam as zonas húmidas e o respetivo armazenamento de carbono nestes ecossistemas, sejam eles naturais ou restaurados/ renaturalizados. É crucial enter a dinâmica dos fatores que afetam o sequestro de carbono azul, a proveniência desse carbono, as ameaças que colocam as zonas húmidas em risco e, principalmente, valorizar a sua importância ambiental. Para além do conhecimento aprofundado sobre o estado atual dos sistemas, as abordagens atuais de gestão precisam também de maior precisão na quantificação das tendências de evolução de longo prazo e suas implicações para os serviços dos ecossistemas. Este guia informativo foi elaborado no âmbito do projeto C-Land e tem como objetivo informar os decisores políticos da região do Algarve acerca da importância da conservação dos ecossistemas de zonas húmidas e da sua capacidade de armazenamento de carbono azul. Pretende, ainda, identificar os processos naturais responsáveis pelo desenvolvimento dos ecossistemas e as ameaças aos mesmos; caracterizar a situação de referência na região e avaliar cenários futuros de evolução do stock de carbono orgânico, decorrentes da subida do nível médio do mar; e sugerir oportunidades de restauro/renaturalização de ecossistemas dessas zonas húmidas, com efeitos no potencial de carbono azul da região (Destaque 1). O alcance deste guia supera o estado da arte atual, ao partir de uma abordagem holística, que integra os processos ecogeomorfológicos a múltiplas escalas temporais (variando de anos a décadas) e espaciais (de metros a quilómetros quadrados). Ao adotar uma perspetiva temporal, permite identificar tendências de evolução e pontos de viragem nos ecossistemas em análise. IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE 9IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
16 17 Esquema da classificação de cinco zonas de vegetação nas zonas húmidas costeiras ao longo de um gradiente vertical de exposição à maré (ou frequência de inundação). A sucessão ecológica nas zonas húmidas implica uma transição entre zonas com diferentes tipos de vegetação e tolerância salina, desenvolvendo-se ao longo de um gradiente de exposição à maré, em função do período de inundação e topografia, incluindo (da maior para a menor elevação) o sapal alto, o sapal médio, o sapal baixo e o raso de maré. A sucessão ecológica de várias zonas húmidas no mundo ocorre de forma relativamente semelhante. A figura abaixo ilustra a sucessão ecológica típica de um ecossistema de zona húmida. As alterações nas zonas (ou na composição florística da vegetação) destes ecossistemas resultam normalmente (1) da destruição de toda ou parte da vegetação existente por agentes patogénicos, herbívoros ou pelo homem; (2) de alterações nas condições físicas ou químicas do habitat (p. ex., mudanças nos níveis de água ou nutrientes) que favorecem o crescimento de algumas espécies em detrimento de outras; (3) de interações entre as plantas (competição, alelopatia); ou (4) da invasão e estabelecimento de novas espécies. A compreensão dos processos de arranjo florístico natural e de sucessão ecológica, é essencial para prever os efeitos das perturbações humanas, das alterações climáticas e das espécies invasoras, na biodiversidade, no funcionamento e nos serviços dos ecossistemas. Destaque 3 | Sucessão ecológica nas zonas húmidas costeiras Cymodocea nodosa Zostera noltei Sporobolus maritimus Esquema da classificação de cinco zonas de vegetação nas zonas húmidas costeiras ao longo de um gradiente vertical de exposição à maré (ou frequência de inundação). A sucessão ecológica nas zonas húmidas implica uma transição entre zonas com diferentes tipos de vegetação e tolerância salina, desenvolvendo-se ao longo de um gradiente de exposição à maré, em função do período de inundação e topografia, incluindo (da maior para a menor elevação) o sapal alto, o sapal médio, o sapal baixo e o raso de maré. A sucessão ecológica de várias zonas húmidas no mundo ocorre de forma relativamente semelhante. A figura ao lado ilustra a sucessão ecológica típica de um ecossistema de zona húmida. As alterações nas zonas (ou na composição florística da vegetação) destes ecossistemas resultam normalmente (1) da destruição de toda ou parte da vegetação existente por agentes patogénicos, herbívoros ou pelo homem; (2) de alterações nas condições físicas ou químicas do habitat (por exemplo, mudanças nos níveis de água ou nutrientes) que favorecem o crescimento de algumas espécies em detrimento de outras; (3) de interações entre as plantas (por exemplo, interferência bioquímica de um organismo nos restantes); ou (4) da invasão e estabelecimento de novas espécies. A compreensão dos processos de arranjo florístico natural e de sucessão ecológica, é essencial para prever os efeitos das perturbações humanas, das alterações climáticas e das espécies invasoras, na biodiversidade, no funcionamento e nos serviços dos ecossistemas. Destaque 3 | Sucessão ecológica nas zonas húmidas costeiras Cymodocea nodosa Zostera noltei Sporobolus maritimus Atriplex portulacoides Suaeda vera Arthrocnemum macrostachyum Juncus acutus Pinus pinea GUIA INFORMATIVO IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
18 MAIS BENEFÍCIOS, MAIOR VALOR Os ecossistemas de zonas húmidas oferecem mais do que a função de sequestro ou armazenamento de carbono. O recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) identificou os ecossistemas de zonas húmidas como uma estratégia biológica de remoção de CO2 que pode, simultaneamente, promover a biodiversidade e proporcionar serviços dos ecossistemas (benefícios), como por exemplo ser a base de suporte para meios de subsistência das comunidades locais (Figura 2).7 Embora a diversidade de espécies vegetais seja geralmente baixa, as zonas húmidas costeiras abrigam uma biodiversidade única, adaptada aos habitats de transição entre a terra e o oceano, frequentemente salgados e inundados.19 Estes ecossistemas ajudam a manter a resiliência costeira perante a subida do nível médio do mar, a ocorrência de tempestades e outros eventos extremos, além de melhorarem a qualidade da água, entre outros benefícios.20 Por outro lado, se não forem resilientes às mudanças físicas naturais e humanas, muitos ecossistemas de zonas húmidas poderão ser erodidos ou submersos.21 Benefícios dos ecossistemas de zonas húmidas Providenciam habitat e alimento para aves e peixes. Aumentam a resiliência costeira face à subida do nível médio do mar, estabilizando o sedimento e servindo de barreira de atenuação a inundações e ondulação provocadas por tempestades. Servem também de reservatórios para sequestro de carbono. Melhoram a qualidade da água, removendo e retendo o excesso de nutrientes e poluentes. Apoiam as economias locais e formas de subsistência das comunidades costeiras, apoiadas em actividade de pesca, aquacultura e património natural. Facultam atividades culturais, recreativas, suportam atividades educativas e de investigação científica, facilitando a conexão entre a comunidade e a natureza. 18 Figura 2. Benefícios dos ecossistemas de zonas húmidas. GUIA INFORMATIVOGUIA INFORMATIVO
19 ZONAS HÚMIDAS - PRINCIPAIS AMEAÇAS Os ecossistemas de zonas húmidas são peças transformadoras no jogo do combate às alterações climáticas, mas também estão eles próprios ameaçados por elas. A vulnerabilidade no armazenamento de carbono azul decorrente das alterações climáticas, ou da intervenção humana, resulta do grau de exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação destes ecossistemas, a diferentes escalas temporais, aos processos físicos que lhe estão subjacentes, ou que afetam a sua evolução.22 Os ecossistemas de zonas húmidas costeiras podem sofrer perdas significativas devido ao aumento da temperatura, variação nos gradientes de salinidade, mas também erosão localizada, consequente dos efeitos de dragagem de canais, criação de aterros, drenagem e construção humana, entre outros (Destaque 4). Estes ecossistemas são também afetados negativamente por modificações no uso do solo, provocadas por atividades humanas, como a conversão de zonas húmidas para aquacultura, salicultura ou terrenos agrícolas, práticas de pesca destrutivas (por exemplo, danos causados por redes de arrasto ou ancoragem) e/ou o desenvolvimento de infraestruturas costeiras (Destaque 5).8,23,24 Os ecossistemas de zonas húmidas na região do Algarve foram alvo de algumas destas alterações físicas no passado recente23, observando-se recuo localizado em zonas de sapal baixo.5 As plantas invasoras também podem impactar os ecossistemas de zonas húmidas e o ciclo do carbono, através da alteração na composição da vegetação costeira, competindo com espécies nativas por recursos essenciais como espaço, nutrientes, água e luz, o que leva à redução da biodiversidade de plantas nativas. Quando comparadas com as espécies nativas, algumas plantas invasoras podem modificar a qualidade da água e diminuir a produtividade primária, impactando a cadeia alimentar e os processos de sequestro de carbono, enquanto outras podem aumentar o potencial de sequestro ao criar biomassa adicional 25, embora este seja um processo incomum. 19 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
20 Ilustração gráfica da absorção de carbono pelos ecossistemas de carbono azul através da fotossíntese, subsequente respiração e sequestro de longo termo na biomassa ou no solo. Modificado a partir IUCN (2021).15 A erosão envolve a perda de sedimento e vegetação nestes ecossistemas e consequente recuo. Pode decorrer (1) da subida do nível médio do mar e insuficiente fornecimento sedimentar; (2) da influência das ondas e correntes, (3) da perda de solo e sedimentos; (4) da degradação ou remoção da vegetação; (5) do impacto das chuvas e/ou outros fluxos de água; e (6) da degradação ambiental do ecossistema (por exemplo em resultado de atividades humanas). A fotografia abaixo ilustra o estado de erosão e recuo de uma das margens de sapal baixo junto ao canal do Ramalhete (zona Oeste da Ria Formosa). Destaque 4 | Erosão nos ecossistemas de zonas húmidas costeiras Zona de sapal em recuo na Ria Formosa GUIA INFORMATIVO
21 Os ecossistemas de zonas húmidas no Algarve, e muitas outras zonas húmidas no mundo, poderão estar particularmente ameaçados pela subida do nível médio do mar, já que contactam na margem terrestre com obstáculos naturais e artificiais que impedem que as zonas húmidas façam a sua migração natural para o interior. 26 Este fenómeno é conhecido como compressão costeira (coastal squeeze).27,28 A compressão costeira e o conjunto multidimensional de ameaças aos ecossistemas de carbono azul resultaram, desde 1970, na perda de 20 a 35% da sua extensão global. 7 O relatório de avaliação global da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES) em 201929, destaca o declínio acentuado na biodiversidade e da extensão dos ecossistemas de zonas húmidas, sublinhando a necessidade urgente de mudanças políticas transformadoras para proteger estes sistemas naturais essenciais. A degradação e perda destes ecossistemas leva a emissões significativas de gases de efeito de estufa para a atmosfera, que estavam retidos nos sedimentos. A nível global, estima-se que cerca de mil milhões de toneladas (1 giga-tonelada, Gt) de CO2 são libertadas anualmente, por degradação de ecossistemas de carbono azul, o que corresponde a cerca de 19% das emissões resultantes da desflorestação tropical.30 Embora a magnitude e a localização das mudanças permaneçam incertas, estudos globais com recurso a deteção remota, indicam que entre 2000 e 2019, cerca de 720 km² de área de sapal foi perdida, resultando em emissões de aproximadamente 16 Tg CO2 (ou seja, 16 milhões de toneladas de CO2), no período analisado.31 Transplante de Sporobolus maritimus IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
22 Esquema da classificação dos efeitos da subida do nível médio do mar e das intervenções humanas, a várias escalas espaciais e temporais. As duas principais ameaças apontadas para a perda de ecossistemas de zonas húmidas são a subida do nível médio do mar e as intervenções humanas, que operam a várias escalas temporais e espaciais. A resiliência das zonas húmidas a estas ameaças é determinada pela qualidade das próprias zonas húmidas, sendo condicionada tanto por condições físicas (por exemplo, o fornecimento de sedimentos e o grau de compressão costeira) como por condições ecológicas (por exemplo, as interações entre espécies que operam desde a escala local até à escala global).19 As ameaças locais e globais podem ocorrer simultaneamente, ou sequencialmente ao longo de períodos que variam de dias a centenas de décadas, e interagir de forma aditiva, sinérgica ou antagónica, afetando a extensão e a qualidade das zonas húmidas costeiras. À escala global, a subida do nível médio do mar é impulsionada pelas alterações climáticas globais e pode ter reflexos nas zonas húmidas, tanto no global (milhares de km2), como no local (dezenas km2). Os efeitos da subida do nível médio do mar são observados a curto prazo (poucas dezenas de anos), por aumento do tempo de inundação, alteração na vegetação e consequente mudança na dinâmica ecogeomorfológica. Podem também ser observados a longo prazo (dezenas a centenas de anos), através da migração de habitats de zonas húmidas, libertação de gases de efeito de estufa e diminuição do potencial de outros serviços dos ecossistemas. Ao longo de décadas a centenas de anos, também as intervenções humanas se têm desenvolvido a escalas locais e globais, reduzindo a extensão e a qualidade das zonas húmidas costeiras. A curto prazo esses efeitos resultaram no desaparecimento de habitats, na libertação de gases de efeito de estufa, na perda local de biodiversidade e benefícios dos ecossistemas. A longo prazo, a uma escala global, traduzem-se em perdas significativas de habitats de zonas húmidas e de serviços dos ecossistemas. As múltiplas atividades humanas podem até interagir, amplificando os efeitos da ameaça e diminuindo a resiliência das zonas húmidas costeiras. O esquema abaixo ilustra os principais efeitos da subida do nível médio do mar e das intervenções humanas em zonas húmidas. Destaque 5 | Ameaças físicas às zonas húmidas e carbono azul Escala de atuação Efeitos de curto prazo (<10 anos) Efeitos de longo prazo (>10 anos) SUBIDA DO NÍVEL MÉDIO DO MAR LOCAL Aumento do tempo de inundação Alteração de vegetação/paisagem Alteração na dinâmica ecogeomorfológica GLOBAL Migração e desaparecimento do habitat (compressão costeira) Libertação de CO2 armazenado Perda de biodiversidade Diminuição do potencial de outros serviços dos ecossistemas INTERVENÇÕES HUMANAS GLOBAL Perda global de habitats Perda global de outros serviços dos ecossistemas LOCAL Desaparecimento do habitat Libertação de CO2 armazenado Perda de biodiversidade Perda local do serviço do ecossistema GUIA INFORMATIVO
23 A IMPORTÂNCIA DO RESTAURO ECOLÓGICO DE ZONAS HÚMIDAS Existindo já uma significativa porção de ecossistemas de carbono azul degradados ou mesmo perdidos em todo o mundo, afigura-se indispensável reverter a sua degradação como forma de mitigar as alterações climáticas. Algumas organizações internacionais, como o IPCC e a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), têm cada vez mais reconhecido a necessidade de conservação e restauro dos ecossistemas de carbono azul como uma solução natural para a mitigação das alterações climáticas por ajudarem de forma eficaz a atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris (assinado em 2015). Contudo, demora cerca de três décadas até que um sistema restaurado atinja valores próximos de sequestro de carbono de um sistema natural equivalente, evidenciando um longo período de recuperação ecogeomorfológica, neste tipo de ambientes.32 A conservação dos ecossistemas passa por proteger, gerir e restaurar os ecossistemas naturais e os recursos que eles fornecem, com o objetivo de manter a sua integridade, funcionalidade e a biodiversidade que neles existe. Dentro do âmbito da conservação, o restauro ecológico visa devolver um ecossistema, que está em condição perturbada ou totalmente alterada, a um estado natural ou previamente existente. O restauro pode ser passivo ou ativo e é uma ferramenta prática, preponderante para recuperar ambientes intertidais que foram perdidos ou destruídos, juntamente com os seus serviços do ecossistema. O sucesso dos esforços de restauro é geralmente avaliado comparando a zona húmida restaurada e um local de referência não danificado (i.e., zona natural). O restauro passivo é uma abordagem de recuperação ambiental que consiste em retirar a pressão humana que causa degradação, permitindo que o ecossistema se regenere naturalmente ao longo do tempo, por exemplo a remoção de diques em zonas de aquacultura ou em salinas. Exemplos de operações de restauro ativo em zonas húmidas incluem, restauro usando plantas de viveiro; transplante usando plantas de locais dadores; adição de fertilizantes para potencial o crescimento de plantas; restauro a partir de sementes; e restauro da conectividade hidrológica num ambiente degradado. A aplicação de restauro ecológico contribui para as metas avançadas pela recente Lei do Restauro da Natureza. Essas metas estão também alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e para a Década dos Oceanos. Restauro ecológico passivo numa aquacultura inativa em Bias, concelho de Olhão IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
24 O Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, adotado por 196 nações em 2022, estabeleceu metas globais para proteger pelo menos 30% dos ecossistemas costeiros e restaurar pelo menos 30% dos ecossistemas degradados até 2030.19 As ações de conservação e restauro de zonas húmidas contribuem, também, para o cumprimento de outras diretrizes e estratégias, como a Estratégia da União Europeia (UE) para a Biodiversidade até 2030, a Lei do Clima da União Europeia, o Pacto Ecológico Europeu (Green Deal), a Estratégia Marinha da UE e a Diretiva Habitats. Além disso, estas ações de conservação podem apoiar a Estratégia da UE para a Economia Circular e a Gestão Sustentável dos Recursos Naturais, se promoverem a gestão sustentável dos recursos naturais e soluções baseadas na natureza, alinhando-se com os objetivos de sustentabilidade, economia circular e conservação ambiental da Europa. Os esforços de restauro de zonas húmidas costeiras podem incluir a gestão adequada das zonas lagunares existentes, a introdução de legislação para proteger habitats ecologicamente importantes, a redução de pressão humana na zona costeira e a recuperação de áreas degradadas (por exemplo, abandonadas e/ou degradadas). O processo de implementação de restauro de zonas húmidas é relativamente simples, no entanto, requer reavaliação e ajuste contínuo (Figura 3). Antes da implementação destas ou de outras medidas, é essencial avaliar os possíveis benefícios e desvantagens da sua implementação de forma tecnicamente suportada. Dever-se-á avaliar sua eficácia no presente caso e fornecer dados que possam apoiar a recomendação ou o desaconselhamento em situações futuras. Podem também ser implementados pequenos projetos de carbono azul relacionados com o mercado de carbono, no entanto, nem todos os projetos conseguirão gerar e comercializar créditos de carbono, e nem sempre é vantajoso registar um projeto num padrão de certificação (i.e., resultando na geração de créditos de carbono que podem ser comercializados num mercado voluntário).15 Durante o período de implementação destes projetos podem surgir adversidades resultantes de mudanças na política de governança (resultando em prioridades e políticas alteradas), e/ou redução de recursos públicos para apoiar estes projetos (Destaque 6). Restauro ecológico ativo de mancha de Sporobolus maritimus GUIA INFORMATIVO
25 Figura 3. Etapas de planeamento, implementação e monitorização de restauro em ecossistemas de zonas húmidas, passível de aplicação na região do Algarve. Adaptado de IUCN (2021).15 Etapas de planeamento, implementação e monitorização de restauro ecológico em ecossistemas de zonas húmidas Desenho e conceptualização da intervenção de restauro: definir objetivos de conservação de habitat ou stock de carbono orgânico. Planeamento e programação: escolha do local para restauro e situação de referência para redefinir objetivos . Desenvolvimento do projeto e análise de viabilidade: identificação de prioridades e medidas; programação e documentação dos processos. Implementação do restauro e uso de gestão adaptativa: monitorização avaliação– resposta–implementar de ações. Resultados: monitorização de longo prazo e conservação da zona restaurada. 1 2 3 4 5 Amostragem sedimentar na Ria Formosa IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
26 O QUE FALTA SABER SOBRE A EVOLUÇÃO DE ZONAS HÚMIDAS E DO POTENCIAL DE CARBONO AZUL? A falta de conhecimento científico detalhado sobre os efeitos das ameaças aos ecossistemas de zonas húmidas, a várias escalas temporais e espaciais, frequentemente dificulta a definição de estratégias eficazes de gestão e conservação. Consequentemente, a mitigação das emissões de carbono recorrendo a ecossistemas costeiros não pode ser abordada da mesma maneira que outros métodos de mitigação e sequestro de CO2. Os modelos atuais de previsão devem incluir explicitamente os efeitos cumulativos das principais ameaças físicas à manutenção das zonas húmidas costeiras.33 O potencial de adaptação e migração dos ecossistemas de carbono azul perante a subida do nível do mar é também uma questão crucial, que necessita ainda de estudos detalhados para que se compreendam as suas repercussões à escala local, sendo esse um dos motivos para o desenvolvimento do presente guia. A compreensão da dinâmica de migração, da resistência natural dos ecossistemas e dos processos ecogeomorfológicos que dão origem a perdas e ganhos de habitat, é fundamental para estimar a resiliência destes ecossistemas e definir estratégias de conservação e restauro que garantam a sua sobrevivência ao longo de décadas a centenas de anos. • A gestão sustentável dos ecossistemas de zonas húmidas oferece benefícios ambientais, sociais e económicos, além da ação climática, incluindo a resiliência costeira. • Ações de proteção de capital de carbono azul correspondem a intervenções de conservação ou restauro, que devem ser financiadas por diversos mecanismos estratégicos. • A gestão de ecossistemas de carbono azul implica fortalecer os mecanismos de governança local, o seguimento de boas práticas na conservação dos recursos naturais, mas também o envolvimento das comunidades locais. • Uma colaboração inclusiva e equitativa entre decisores regionais, instituições científicas, setor privado e comunidades locais é fundamental para o sucesso de tais práticas. Destaque 6 | Conservação dos ecossistemas de zonas húmidas GUIA INFORMATIVO
33 O mapeamento obtido com a classificação das imagens de satélite foi validado com base na colheita de dados de campo (por exemplo, topografia) em pequenas áreas piloto nos ecossistemas em análise. Com base na colheita de dados de campo e na literatura existente, foi também possível mapear a biomassa aérea para os sistemas em análise. A biomassa aérea é um indicador que pode ser usado de forma complementar para caracterizar o potencial de sequestro de carbono azul (Tabela 2). Corroborando a literatura, a vegetação no sapal alto apresenta, na sua generalidade, maior biomassa aérea, quando comparada com as pradarias marinhas (Tabela 2). Por exemplo, na Ria Formosa, o sapal alto inclui a maior quantidade de biomassa aérea e o maior stock de carbono orgânico na biomassa, em comparação com as pradarias marinhas. Não obstante, as pradarias marinhas têm a maior contribuição para o stock de carbono orgânico no sedimento (Tabela 3). O padrão inverso de contribuições para stock de carbono orgânico da biomassa e do sedimento, observado na Ria Formosa, pode ser transposto para os outros dois ecossistemas, Ria de Alvor e Castro Marim. Os stocks de carbono orgânico, considerando o somatório dos 2 compartimentos, biomassa e sedimento, é superior nas pradarias marinhas, seguido do sapal baixo e depois do sapal alto. Tabela 1. Área ocupada em 2025 pelos habitats intertidais nos três ecossistemas analisados, com base na classificação de imagens Sentinel-2 efetuada neste estudo. Ecossistema Raso de maré não vegetado (ha) Raso de maré vegetado – pradarias marinhas (ha) Sapal baixo (ha) Sapal alto (ha) Total de raso de maré (ha) Total de sapal (ha) Total do sistema de zonas húmidas intermareais (ha) Ria de Alvor 304 Não detectável 41 76 304 116 421 Ria Formosa 4006 469* 3083 827 4475 3910 8385 Estuário do Guadiana (Castro Marim) 372 Não detectável 122 185 372 307 679 Total 4682 469* 3246 1088 5152 4333 9485 *Valor menor face ao real, devido a altura da maré na imagem usada para classificação na Ria Formosa Tabela 2. Biomassa aérea (g/m2) nos habitats da Ria Formosa. Habitats Biomassa aérea (peso seco) (g/m2) Espécies consideradas (nome científico) Local Fonte de dados Sapal alto 1775 Arthrocnemum macrostachyum Junto ao Ramalhete (Ria Formosa) Estudo atual Sapal baixo 495 Spartina maritima Junto ao Ramalhete (Ria Formosa) Estudo atual Raso de maré vegetado (pradarias marinhas) 113 Zostera noltei Junto ao Ramalhete (Ria Formosa) Estudo atual Tabela 3. Estimativas de stock de carbono orgânico no sedimento e na biomassa (Mg CO/ha, i.e., toneladas de CO por hectare) nos habitats da Ria Formosa, depois de realizadas as conversões necessárias para a estandardização dos dados e com base das fontes citadas.. Habitats Stock de carbono orgânico no sedimento (Mg CO/ha) Stock de carbono orgânico na biomassa (Mg CO/ha) Local Fonte de dados Sapal alto 18,7 21,2 Ria Formosa 13 Sapal baixo 58,8 5,5 Ria Formosa 13 Raso de maré vegetado (pradarias marinhas) 90,0 1,2 Ria Formosa 13 Raso de maré não vegetado 54,9 Não aplicável Ria Formosa 24 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
34 GUIA INFORMATIVO
3535 Evolução dos ecossistemas de zonas húmidas e carbono azul IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADEIMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
36 Os cenários de evolução futura dos três ecossistemas de zonas húmidas no Algarve, e do potencial de armazenamento de carbono, foram definidos com base no ajuste ecogeomorfológico dos habitats intertidais, decorrente de um incremento gradual no período de inundação, para os próximos cerca de 70 anos (até 2100). Estes ajustes ecogeomorfológicos foram simulados com base na aplicação do modelo SLAMM (Sea Level Affecting Marshes Model).41 Este é um modelo simplificado de alteração de paisagem de zonas húmidas (ou seja, alterações na sucessão ecológica), em função de alterações nos períodos de inundação (Figura 5). Para mais detalhes acerca do funcionamento do modelo consultar Glick et al. (2013) e Carrasco et al. (2021).5,42 Utilizaram-se como projeções de subida futura do nível médio do mar, dois dos recentes cenários definidos pelo IPCC: a Trajetória Socioeconómica Partilhada 8.5 (SSP5-8.5, prevendo um aumento de 79,6 cm até 2100) e a Trajetória Socioeconómica Partilhada 1.9 (SSP1-1.9, prevendo um aumento de 43,5 cm até 2100). O cenário SSP5-8.5 representa a perspetiva de evolução mais pessimista (que assume o contínuo aumento das emissões sem esforços significativos de mitigação), e o cenário SSP1-1.9 representa a perspetiva de evolução mais otimista (que assume a diminuição das emissões com esforços de mitigação), respetivamente (Destaque 7).43 Figura 5. Metodologia simplificada para projetar a evolução dos ecossistemas de carbono azul até 2100, em resposta à subida do nível médio do mar. Modelo Digital de Terreno Dados Matriciais Iniciais Classificação dos habitats Modelo Digital de Declives Parâmetros Iniciais Indicadores Ecogeomorfológicos Dinâmica passada e futura do nível médio do mar Amplitude da maré Taxas de acreção e erosão Limites da elevação dos habitats Ajuste dos Parâmetros do SLAMM Limites da elevação dos habitats (referidos ao nível médio do mar) Ria Formosa raso de maré: -1,7 a 0,2m sapal baixo: 0 a 1m sapal alto: 0,8 a 2m Ria de Alvor raso de maré: -1,4 a 0,4m sapal baixo: 0,4 a 1,4m sapal alto: 0,8 a 2,3m Castro Marim raso de maré: -1,1 a 0,7m sapal baixo: 0,7 a 1,6m sapal alto: 1,2 a 2,3m Processamento SLAMM Modelação simplificada com o "Sea Level Affecting Marshes Model" Potencial da evolução dos ecossistemas de carbono azul até 2100 GUIA INFORMATIVO
37 O último relatório do IPCC (AR6)44 define cenários de evolução de variáveis ambientais, em função de possíveis trajetórias de desenvolvimento futuro da sociedade humana, considerando o uso de combustíveis fósseis, fatores sociais e económicos resultantes, bem como diferentes níveis de dificuldade na aplicação de medidas de mitigação e adaptação.44 A estas possíveis trajetórias dá-se o nome de Trajetórias Socioeconómicas Partilhadas (Shared Socio-economic Pathway - SSP), sendo definidos cinco cenários principais, com distintos desafios. O cenário mais otimista é o SSP1, que considera um futuro baseado em desenvolvimento sustentável, no qual ocorrem esforços de mitigação e adaptação, minimizando consideravelmente a emissão de gases com efeito de estufa (GEE). 43 O cenário mais pessimista é o SSP5, que considera um futuro com utilização intensiva de recursos, no qual não ocorrem esforços de mitigação, mas apenas de adaptação, aumentando a emissão de GEE. Para mais informações acerca dos cenários, consultar o relatório IPCC (2023).44 A figura abaixo ilustra as previsões de subida do nível médio do mar no marégrafo de Lagos, tendo por base as projeções avançadas pelo IPCC (2023) para os cenários mais otimista e pessimista. Previsão de subida do nível médio do mar no marégrafo de Lagos, em centímetros, até 2100, considerando dois cenários diferentes: a azul escuro, o cenário SS1-1.9, mais otimista; e a azul claro, o cenário SSP5-8.5, mais pessimista (fonte IPCC).44-47 210020902080207020602050204020302020 0 80 60 40 20 SSP1-1.9SSP1-1.9 SSP5-8.5SSP5-8.5 Destaque 7 | Os cenários de subida do nível médio do mar do IPCC Dos dados de entrada do modelo fazem parte dados matriciais, compostos por: (a) um modelo digital de terreno (MDT) de 2024 (combinado com dados de outro MDT de 2011), obtido a partir de tecnologia LiDAR e disponibilizado pela Direção Geral do Território; (b) um modelo de declives obtido a partir do MDT de 2024; e (c) a classificação da distribuição espacial dos ambientes de raso de maré, sapal baixo e sapal alto no ano de 2025, obtida através da classificação das imagens do satélite Sentinel-2 (seguindo a metodologia anteriormente descrita na Figura 4). Os dados introduzidos e, consequentemente, os resultados devolvidos pelo modelo, apresentam uma resolução espacial de 10 metros. Consideram-se ainda como dados de entrada no modelo simplificado, indicadores ecogeomorfológicos do ecossistema. Estes indicadores incluem as tendências de evolução/dinâmica do passado para algumas variáveis ambientais, nomeadamente o nível médio do mar, a amplitude da maré, as taxas de acreção e erosão, e os limites de elevação dos habitats intertidais simulados (Figura 5). Foi considerada uma tendência histórica da subida do nível do mar de 2,4 mm/ano; a amplitude de maré máxima para a região de 3,5 m; e taxas de acreção do raso de maré, sapal baixo e sapal alto, correspondentes a 1,6 mm/ano, 4,4 mm/ano, e 3,1 mm/ano, respetivamente. O SLAMM não possibilita modelar separadamente a evolução do raso de maré vegetado e não vegetado, pelo que a estimativa futura de área destes habitats intertidais na Ria Formosa foi calculada tendo por base as proporções atuais, i.e., 88% - raso maré vegetado e 12% - raso de maré não vegetado. Na Ria de Alvor e em Castro Marim, o habitat raso de maré vegetado não foi considerado, em função das limitações espaciais anteriormente descritas. Subida do nível médio do mar (cm) IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
38 EFEITOS DA SUBIDA DO NÍVEL MÉDIO DO MAR NOS HABITATS DAS ZONAS HÚMIDAS Na Ria Formosa quando consideramos o cenário otimista de subida do nível médio do mar (SSP1-1.9), observamse perdas de área pouco significativas nos habitats de zonas húmidas, nomeadamente no sapal alto de 8% (-54 ha), no sapal baixo de 0,1% (-2 ha) e nos rasos de maré de 1% (conjuntamente -13 ha), até 2100 (Figura 6). Quando consideramos o cenário pessimista de subida do nível médio do mar SSP5-8.5, observa-se uma redução muito acentuada de sapal (-556 ha), que incluí uma perda no sapal alto na ordem dos 31% (-203 ha), e no sapal baixo na ordem dos 12% (-353 ha), relativamente a 2025 (Figura 6). Observase, simultaneamente, um aumento na área total do raso de maré (não vegetado e vegetado) de cerca de 8,7% (360 ha), face a 2025. Esta expansão de raso de maré é explicada pela conversão do sapal baixo em raso de maré. No total para o SSP5-8.5, é esperada uma perda de 3% (-196 ha) de área de zona húmida (Figura 6). As previsões de redução de sapal alto são mais proeminentes a partir de 2060 e levam a crer que este pode até desaparecer em alguns locais junto à margem terrestre, até 2100. Globalmente, a diminuição significativa da área de sapal alto será um ponto de viragem ecológica no ecossistema, dado que se esperaram mudanças locais na cobertura das espécies de plantas e biodiversidade. Nos outros dois ecossistemas, de menor dimensão, projetam-se mudanças relativamente inferiores na área ocupada por cada habitat, ainda que com um balanço final negativo quando considerado um cenário pessimista (Figuras 7 e 8). Na Ria de Alvor, para o cenário otimista de subida do nível médio do mar SSP1-1.9, observam-se perdas em área do sapal alto de 19% (-5 ha), enquanto o sapal baixo e o raso de maré aumentam (+3 ha e +1 ha em área, respetivamente), até 2100 (Figura 7). Se se considerar o cenário pessimista de subida do nível médio do mar SSP5-8.5, observa-se uma perda no sapal alto de 50% (-13 ha), em oposição a um esperado ganho no sapal baixo de 47% (+8 ha). O raso de maré observa uma perda em área de 3% (-9 ha). Para o SSP5-8.5, é esperada uma perda total de 5% de área de zona húmida (-14 ha; Figura 7). Novamente, e ainda em maior percentagem que na Ria Formosa, há perda significativa do habitat de sapal alto. Em Castro Marim, quando se considera o cenário otimista de subida do nível médio do mar SSP1-1.9, observa-se uma perda em área no sapal alto de 16% (-22 ha), enquanto o sapal baixo e o raso de maré aumentam (+11 ha e +2 ha, respetivamente), até 2100 (Figura 8). Quando consideramos o cenário pessimista de subida do nível médio do mar SSP5-8.5, prevê-se uma redução na área de sapal alto de 48% (-65 ha) e um aumento em área de sapal baixo de 31% (+37 ha). O raso de maré irá ter um aumento de 3% (+8 ha). No total para o SSP5-8.5, é esperada uma perda de 4% de área de zona húmida (-20 ha; Figura 8). Tal como na Ria Formosa e na Ria de Alvor, é o habitat de sapal alto que apresenta redução significativa de área, podendo chegar a quase metade da sua extensão, em comparação com 2025 (Destaque 8). GUIA INFORMATIVO
39 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
40 41 Figura 6. Evolução futura dos habitats intertidais na Ria Formosa (área total em hectares), entre 2025 e 2100, considerando as projeções de subida do nível médio do mar previstas nos cenários SSP1-1.9 e SSP5-8.5. Na figura à esquerda (cenário otimista, SSP1-1.9), ocorre perda de área de sapal alto (-54 ha até 2100) e perda de área de sapal baixo (-2 ha até 2100). No fim do período de análise, os rasos de maré perderam 13 ha em área. Na figura à direita (cenário pessimista, SSP5-8.5), observa-se perda significativa de área de sapal alto (-203 ha até 2100), mais acentuada após 2060, e perda de área de sapal baixo (-353 ha). No fim do período de análise, os rasos de maré aumentaram 360 ha. Figura 7. Evolução futura dos habitats intertidais na Ria de Alvor (área total em hectares), entre 2025 e 2100, considerando as projeções de subida do nível médio do mar previstas nos cenários SSP1-1.9 e SSP5-8.5. Na figura à esquerda (cenário otimista, SSP11.9), ocorre perda de área de sapal alto (-5 ha até 2100) e aumento de área de sapal baixo (+3 ha até 2100). No fim do período de análise, o raso de maré aumentou 1 ha. Na figura à direita (cenário pessimista, SSP5-8.5), observa-se perda de área de sapal alto (-13 ha até 2100), mais acentuada após 2060, e aumento da área de sapal baixo (+8 ha). No fim do período de análise, o raso de maré perdeu 9 ha. Figura 8. Evolução futura dos habitats intertidais em Castro Marim (área total em hectares), entre 2025 e 2100, considerando as projeções de subida do nível médio do mar previstas nos cenários SSP1-1.9 e SSP5-8.5. Na figura à esquerda (cenário otimista, SSP1-1.9), ocorre perda progressiva de área de sapal alto (-22 ha até 2100) e aumento de área de sapal baixo (+11 ha até 2100). No fim do período de análise, o raso de maré aumentou 2 ha em área. Na figura à direita (cenário pessimista, SSP5-8.5), observa-se perda de área de sapal alto (-65 ha até 2100), mais acentuada após 2080, e aumento da área de sapal baixo (+37 ha), também acelerado após 2080. No fim do período de análise, o raso de maré aumentou cerca 8 ha em área. OPTIMISTA PESSIMISTA Variação de área total (ha)Variação de área total (ha)Variação de área total (ha) 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 2025-2040 2040-2060 2060-2080 2080-2100 GUIA INFORMATIVO IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
42 Exemplos de mudanças nos habitats, entre 2025 e 2100 Zoom para área de pormenor na Ria Formosa, registando mudanças nos ecossistemas de zonas húmidas até 2100, decorrentes de subida do nível médio do mar previsto assumindo o cenário SSP5-8.5. A área coberta a azul-escuro identifica locais onde houve uma mudança de habitats de raso de maré para canal (água), enquanto a área coberta a azul claro identifica locais onde houve uma mudança de habitats de sapal para raso de maré. A área coberta a rosa-escuro identifica locais onde houve uma mudança de habitats de sapal alto para sapal baixo. Zoom para área de pormenor na Ria de Alvor, registando mudanças nos ecossistemas de zonas húmidas em até 2100, decorrentes de subida do nível médio do mar previsto assumindo o cenário SSP5-8.5. Zoom para área de pormenor em Castro Marim, registando mudanças nos ecossistemas de zonas húmidas em até 2100, decorrentes de subida do nível médio do mar previsto assumindo o cenário SSP5-8.5. Habitats inalterados Água (baixa-mar) Raso de maré Sapal baixo Sapal alto Mudanças Raso de maré para água Sapal baixo para raso de maré Sapal alto para sapal baixo Ria Formosa Ria de Alvor Castro Marim GUIA INFORMATIVO
43 Quando considerado um cenário de subida do nível médio do mar mais otimista, i.e., cenário SSP1-1.9, a variação da área total nos três ecossistemas é relativamente reduzida (<2% do total de área intertidal). Quando considerado o cenário pessimista SSP5-8.5, o ecossistema mais afetado é a Ria do Alvor, com uma perda de 5% (-14 ha) dos habitats intertidais, face a 2025 (Figura 9). Depois, Castro Marim apresenta uma perda de 4% (-20 ha), e por último, a Ria Formosa, perde 3% (-196 ha). Em oposição a uma redução mais drástica no sapal alto, num cenário pessimista, observa-se um aumento das áreas de raso de maré (vegetado e não vegetado) na Ria Formosa (+9%) e em Castro Marim (+3%, Figura 9). Globalmente, considerando as três zonas húmidas analisadas, prevê-se que até 2100 irá ocorrer uma perda acentuada de áreas de sapal alto (-34%, face a 2025). Esta perda de sapal alto, deve-se à sua substituição pelo habitat de sapal baixo e está relacionada com o processo de compressão costeira, anteriormente descrito como ameaça à sobrevivência dos ecossistemas de zonas húmidas. As tendências observadas permitem avançar que iremos assistir no futuro a um fenómeno de alteração de habitats (e sucessão ecológica), no contexto destas zonas húmidas, cuja magnitude dependerá da aceleração da subida do nível do mar. No caso específico da Ria Formosa, prevê-se degradação pronunciada de habitats de sapal alto junto à margem terreste, nos limites superiores do sistema lagunar, com comprometimento da sua capacidade individual de atuar como sumidouros de carbono. Figura 9. Variação da área ocupada por cada ambiente e no total, entre 2025 e 2100, nos três ecossistemas de zonas húmidas analisados (em % face a 2025), considerando a projeção de subida do nível médio do mar prevista no cenário pessimista (SSP5-8.5). Variação da área ocupada entre 2025 e 2100 (% da respetiva classe) -4% -11% 48% 31% 3% -5% -12% 50% 47% -3% -3% -15% 31% -12% 9% -60% -40% -20% 0% 20% 40% -60% Raso de maré Sapal baixo Sapal alto Sapal total Total Ria Formosa Ria de Alvor Castro MarimRia Formosa Ria de Alvor Castro Marim - - - IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
50 51 Os resultados aqui apresentados indicam que, até 2100, poderemos observar uma redução acentuada nas áreas de sapal nos três ecossistemas em análise, que para além de causar um desequilíbrio ecogeomorfológico nas zonas húmidas, terá também implicações na biodiversidade local. De maior relevância é a grande diminuição do sapal alto que têm como consequências uma menor área de nidificação e invernada para várias aves aquáticas (por exemplo, o colhereiro) e um quase desaparecimento da diversidade florística (por exemplo., o salgado e a barrilha) e faunística (por exemplo, algumas cobras). Até 2100 não se esperam perdas significativas nos stocks de carbono orgânico, pois as perdas relacionadas com as reduções nas áreas do sapal baixo e alto poderão ser em parte compensadas por ganhos em zonas de pradarias marinhas. Contudo, é possível contrapor estas perdas, e até maximizar o potencial de carbono da região, através da execução de restauro ecológico, considerando a recuperação/renaturalização de áreas húmidas artificializadas inativas, nos três ecossistemas em análise. Identificaram-se previamente diversas áreas inativas, abandonadas/degradadas (por exemplo, antigas aquaculturas, salinas abandonadas, etc.), com potencial para restauro ecológico, nos três ecossistemas de zonas húmidas. Esta identificação teve por base o mapeamento preciso avançado por Furtado et al. (2021)48 para a Ria Formosa e Ria de Alvor, acrescido de um novo mapeamento para Castro Marim, que consistiu na delimitação de áreas inativas sobre os ortofotomapas de 2023, disponibilizados pela DGT. Áreas artificializadas que se encontram abandonadas e/ou degradadas nos ecossistemas de zonas húmidas em estudo GUIA INFORMATIVO IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
52 As áreas artificializadas inativas identificadas representam aproximadamente 283 ha na Ria de Alvor, 345 ha na Ria Formosa e 536 ha em Castro Marim, somando um total de 1164 ha na região do Algarve (Figura 11). Estas áreas correspondem a 79% da área intertidal atual em Castro Marim, 67% na Ria de Alvor e 4% na Ria Formosa. No total, é equivalente a 12% dos habitats intertidais nos três ecossistemas, em 2025. Testaram-se duas possibilidades de restauro/renaturalização, - 50% e 80% das áreas inativas para sapal baixo, e avaliou-se o respetivo impacte a nível de stock de carbono orgânico. O restauro ecológico das áreas artificializadas inativas identificadas para sapal baixo das três zonas húmidas, permitiria acrescer o atual stock de carbono em cerca de 7,3% (+37 422 Mg CO), no caso de se optar por renaturalizar 50% das áreas inativas, e cerca de 11,7% (+59 875 MgCO), no caso de se optar por renaturalizar 80% das áreas inativas (Figura 12). O restauro ecológico iria permitir sobretudo garantir a manutenção do equilíbrio na sucessão ecológica destes ecossistemas e respetivos serviços dos ecossistemas. Castro Marim revela- -se o local com maior potencial para maximização do stock de carbono orgânico, em função das extensas áreas inativas passíveis de restauro, o que permitiria um aumento do stock de carbono orgânico entre 59% (+17 240 MgCO), no caso de optar por renaturalizar 50% das áreas inativas) e cerca de 94% (+27 584 MgCO), no caso de optar por renaturalizar 80% das áreas inativas; Figura 12). 1164 ha 536 ha 345 ha 283 ha Total Castro Marim Ria de Alvor Ria Formosa GUIA INFORMATIVO Figura 11. Áreas artificializadas inativas nos ecossistemas de zonas húmidas analisados: Ria Formosa, Ria de Alvor, Castro Marim e o total dos três sistemas.
53 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE Figura 12. Stock de carbono orgânico nos três ecossistemas de carbono azul, considerando o restauro para sapal baixo de 50% e 80% das áreas artificializadas inativas, e respetivo aumento percentual do stock de carbono orgânico, face ao stock da área intertidal em 2025. 59875 27584 14533 17757 37422 17240 9083 11098 11,7% 93,9% 88,6% 3,8% 7,3% 58,7% 55,4% 2,4% 0%50%100% 0 20000 40000 60000 Total Castro Marim Ria de Alvor Ria Formosa Aumento do stock CO (%) 50 % 80 % 50 % 80 % Stock de carbono orgânico (Mg CO) 53 IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE Cobertura por sapal baixo
54 GUIA INFORMATIVO
55 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente guia indica que, até 2100, numa perspetiva pessimista de subida do nível médio do mar, pode não ocorrer uma grande redução no stock de carbono orgânico, mas poderá haver uma perda de área de sapal (-15%), nos três ecossistemas de zonas húmidas analisados, especialmente na Ria Formosa. A perda de sucessão ecológica nas zonas húmidas aqui reportada implica uma diminuição da biodiversidade local e a perda de valores económicos, socias e culturais. Os resultados obtidos demonstram que a expansão dos ecossistemas de carbono azul através do restauro de áreas inativas poderia aumentar o stock de carbono orgânico atual, especialmente na Ria de Alvor e Castro Marim, com acréscimos de 55,4% a 93,9%. Na Ria Formosa, o restauro de áreas inativas resultaria num aumento pouco significativo do stock de carbono orgânico, variável entre 2,4% e 3,8%, dependente da percentagem de restauro considerada (50% a 80%, respetivamente). Os ganhos aqui reportados, representam uma importante oportunidade para a região do Algarve posicionar-se na vanguarda dos esforços nacionais que visam incorporar o carbono azul nas estratégias de mitigação das emissões de GEE, criando uma agenda regional estratégica focada na conservação do património natural das zonas húmidas e na preservação dos serviços que oferecem à sociedade. Ao desenvolver uma estratégia integrada de preservação das zonas húmidas ameaçadas pela subida do nível médio do mar, a região do Algarve terá a oportunidade de fortalecer o seu capital natural, contribuir para a salvaguarda da biodiversidade na zona costeira e gerar benefícios adicionais para o setor do turismo no futuro. Para isso, talvez seja necessário criar uma legislação específica de âmbito nacional (e de transposição regional) que regulamente a implementação de ações de conservação e restauro ecológico de ecossistemas, no contexto da ação climática. Face ao estado atual do conhecimento sobre a resposta dos ecossistemas de zonas húmidas no Algarve às alterações climáticas, torna-se relevante adaptar e integrar as atuais políticas de gestão territorial (por exemplo, o Plano Estratégico para a Requalificação e Valorização da Costa, os Planos de Ordenamento da Orla Costeira, o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Ria Formosa, entre outros), de modo a incorporar medidas que reduzam o risco de perda de habitats intertidais de zonas húmidas, definindo metas temporais (por exemplo, 2060, 2080, 2100). As estimativas de compressão costeira de habitats de zonas húmidas, em áreas urbanas, em função da subida do nível médio do mar devem ser articuladas com outros instrumentos de planeamento territorial urbano utilizados pelos municípios. Qualquer estratégia de gestão integrada deverá incluir uma monitorização dos recursos naturais (incluindo áreas de habitats intertidais e stock de carbono orgânico), que deve ser alcançada de forma colaborativa com as comunidades, a academia e as organizações não governamentais. Por fim, todas as estratégias de gestão de território regional, dedicadas à preservação dos ecossistemas de zonas húmidas, deverão ser participativas, implementadas em colaboração com comunidades locais e incluindo ações de capacitação para vários atores locais. IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
56 BIBLIOGRAFIA 1. Macreadie PI, Anton A, Raven JA, Beaumont N, Connolly RM, Friess DA, et al. The future of Blue Carbon science. Nat Commun. 2019;10(1):1–13. doi:10.1038/s41467-01911693-w. 2. Spivak AC, Sanderman J, Bowen JL, Canuel EA, Hopkinson CS. Global-change controls on soil-carbon accumulation and loss in coastal vegetated ecosystems. Nat Geosci. 2019;12(9):685–92. doi:10.1038/s41561-019-0435-2. 3. Lovelock CE, Reef R. Variable Impacts of Climate Change on Blue Carbon. One Earth. 2020; 3(2):195–211. doi:10.1016/j. oneear.2020.07.010. 4. Davidson NC, Van Dam AA, Finlayson CM, McInnes RJ. Worth of wetlands: Revised global monetary values of coastal and inland wetland ecosystem services. Mar Freshw Res. 2019;70(8):1189–94. doi:10.1071/MF18391. 5. Carrasco AR, Kombiadou K, Amado M, Matias A. Past and future marsh adaptation: Lessons learned from the Ria Formosa lagoon. Sci Total Environ. 2021;790 (148082). doi:10.1016/j.scitotenv.2021.148082. 6. Duarte CM, Losada IJ, Hendriks IE, Mazarrasa I, Marbà N. The role of coastal plant communities for climate change mitigation and adaptation. Nat Clim Chang. 2013;3(11):961– 8. doi:10.1038/nclimate1970. 7. Murray LS, Milligan B, Ashford OS, Bonotto E, Cifuentes-Jara M, Glass L, et al. The blue carbon handbook: Blue carbon as a naturebased solution for climate action and sustainable development. Report. London: High Level Panel for a Sustainable Ocean Economy; 2023. 84 p. 8. Howard J, Hoyt S, Isensee K, Pidgeon E, Telszewski M, editors. Coastal Blue Carbon methods for assessing carbon stocks and emissions factors in mangroves, tidal salt marshes, and seagrass meadows. Conservation International, Intergovernmental Oceanographic Commission of UNESCO, International Union for Conservation of Nature. Arlington, Virginia, USA; 2014. 184 p. 9. Bijak AL ,Smyth, AR, BSC, RLK. What Is Blue Carbon? IAEA Bulletin. 2024;65(4):34–5. doi:10.32473/edis-ss743-2025. 10. Krauss KW, Noe GB, Duberstein JA, Conner WH, Stagg CL, Cormier N, et al. The Role of the Upper Tidal Estuary in Wetland Blue Carbon Storage and Flux. Global Biogeochem Cy. 2018;32(5):817–39. doi:10.1029/2018GB005897. 11. Van de Broek M, Vandendriessche C, Poppelmonde D, Merckx R, Temmerman S, Govers G. Long-term organic carbon sequestration in tidal marsh sediments is dominated by old-aged allochthonous inputs in a macrotidal estuary. Glob Chang Biol. 2018;24(6):2498–512. doi:10.1111/gcb.14089. 12. Sousa AI, Santos DB, Silva EF Da, Sousa LP, Cleary DFR, Soares AMVM, et al. ‘Blue Carbon’ and Nutrient Stocks of Salt Marshes at a Temperate Coastal Lagoon (Ria de Aveiro, Portugal). Sci Rep. 2017;7:1–11. doi:10.1038/srep41225. 13. Santos R, Ito P, de los Santos CB. Os 10 principais ecossistemas de carbono azul em Portugal continental Relatório produzido no âmbito do projeto Gulbenkian Carbono Azul. Centro de Ciências do Mar. Faro; 2023. 140 p. 14. Breithaupt JL, Hurst N, Steinmuller HE, Duga E, Smoak JM, Kominoski JS, et al. Comparing the Biogeochemistry of Storm Surge Sediments and Pre-storm Soils in Coastal Wetlands: Hurricane Irma and the Florida Everglades. Estuaries Coasts. 2020;43(5):1090–103. doi:10.1007/s12237-019-00607-0. 15. IUCN. Manual for the creation of Blue Carbon projects in Europe and the Mediterranean. Otero M, editor. 2021. 144 p. 16. Costa JC, Lousã M, Espírito-Santo MD. A vegetação do Parque Natural da Ria Formosa (Algarve, Portugal). Studia Botanica. 1996;15: 69–157. 17. Townend I, Fletcher C, Knappen M, Rossington K. A review of salt marsh dynamics, Water and Environ J. 2011; 25:477–88. doi:10.1111/j.1747-6593.2010.00243.x. 18. Castillo JM, Figueroa E. Restoring salt marshes using small cordgrass, Spartina maritima. Restor Ecol. 2009;17(3):324–6. doi:10.1111/j.1526-100X.2008.00465.x. 19. He Q, Li Z, Daleo P, Lefcheck JS, Thomsen MS, Adams JB, et al. Coastal wetland resilience through local, regional and global conservation. Nat Rev Biodivers. 2025;1(1):50–67. doi:10.1038/s44358-024-00004-x. 20. Palacios M, Costa M, Wartman M, Ebrahim A, Macreadie P. Seychelles’ Blue Carbon Roadmap. Deakin University, Australia: Submitted to the Seychelles Conservation & Climate Adaptation Trust. Blue Carbon Lab, Deakin University, Australia; 2022. 44 p. 21. Kirwan ML, Walters DC, Reay WG, Carr JA. Sea level driven marsh expansion in a coupled model of marsh erosion and migration. Geophys Res Lett. 2016;43. doi: 10.1002/2016GL068507. 22. Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). The Ocean and Cryosphere in a Changing Climate. Cambridge University Press; 2022. 23. Sousa CAM, Cunha ME, Ribeiro L. Tracking 130 years of coastal wetland reclamation in Ria Formosa, Portugal: Opportunities for conservation and aquaculture. Land use Policy. 2020;94. doi:10.1016/j.landusepol.2020.104544. 24. Casal-Porras I, de los Santos CB, Martins M, Santos R, Pérez-Lloréns JL, Brun FG. Sedimentary organic carbon and nitrogen stocks of intertidal seagrass meadows in a dynamic and impacted wetland: Effects of coastal infrastructure constructions and meadow establishment time. J Environ Manage. 2022;322;115841. doi:10.1016/j. jenvman.2022.115841. 25. Neves JP, Simões MP, Ferreira LF, Madeira M, Gazarini LC. Comparison of biomass and nutrient dynamics between an invasive and a native species in a Mediterranean saltmarsh. Wetlands. 2010;30(4):817–26. doi:10.1007/s13157-0100080-4. 26. Nicholls RJ, Wong PP, Burkett VR, Codignotto JO, Hay JE, McLean RF, et al. Coastal systems and low-lying areas. In: M.L. Parry, Canziani OF, Palutikof JP, van der Linden PJ, Hanson CE, editors. Climate Change 2007: Impacts, Adaptation and Vulnerability Contribution of Working Group II to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge, UK: Cambridge University Press; 2007. p. 315–56. 27. Hanley ME, Bouma TJ, Mossman HL. The gathering storm: Optimizing management of coastal ecosystems in the face of a climate-driven threat. Ann Bot. 2020;125(2):197–212. doi:10.1093/aob/mcz204. 28. de Souza de Lima, A., Cassalho, F., Miesse, T.W. et al. Assessing the potential long-term effects of sea-level rise on salt marsh’s coastal protective capacity under GUIA INFORMATIVO
57 different climate pathway scenarios. Environ Monit Assess. 2024;196(817). doi:10.1007/s10661-024-12961-z. 29. IPBES. Global assessment report on biodiversity and ecosystem services of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. Brondizio ES, Settele K, Díaz S, Ngo HT, editors. Bonn, Germany; 2019. 1148 p. 30. Pendleton L, Donato DC, Murray BC, Crooks S, Jenkins WA, Sifleet S, et al. Estimating Global ‘Blue Carbon’ Emissions from Conversion and Degradation of Vegetated Coastal Ecosystems. PLoS One. 2012;7(9). doi:10.1371/journal. pone.0043542. 31. Campbell AD, Fatoyinbo L, Goldberg L, Lagomasino D. Global hotspots of salt marsh change and carbon emissions. Nature. 2022. doi:10.1038/s41586-022-05355-z. 32. McMahon L, Ladd CJT, Burden A, Garrett E, Redeker KR, Lawrence P, et al. Maximizing blue carbon stocks through saltmarsh restoration. Front Mar Sci. 2023;10. doi:10.3389/ fmars.2023.1106607. 33. Valentine K, Mariotti G. Wind-driven water level fluctuations drive marsh edge erosion variability in microtidal coastal bays. Cont Shelf Res 2019;176; 76–89. doi:10.1016/j. csr.2019.03.002. 34. Yang Z, D’Alpaos A, Marani M, Silvestri S. Assessing the fractional abundance of highly mixed salt-marsh vegetation using random forest soft classification. Remote Sens 2020;12(19):1–25. doi:10.3390/rs12193224. 35. Yang Z, Blount T, Lester C, Blackford N, D’Alpaos A, Marani M, et al. Unmixing marsh vegetation species across multiple sensors and spatial scales. GISci Remote Sens. 2025;62(1). doi:10.1080/15481603.2025.2481689. 36. Kumar M, Boski T, González-Vila FJ, de la Rosa JM, GonzálezPérez JA. Discerning natural and anthropogenic organic matter inputs to salt marsh sediments of Ria Formosa lagoon (South Portugal). Environmental Science and Pollution Research. 2020;27(23):28962–85. doi:10.1007/s11356-02009235-9. 37. Cunha AH, Santos RP. The use of fractal geometry to determine the impact of inlet migration on the dynamics of a seagrass landscape. Estuar Coast Shelf Sci. 2009;84(4):584– 90. doi:10.1016/j.ecss.2009.07.030. 38. Almeida D, Neto C, Esteves LS, Costa JC. The impacts of land-use changes on the recovery of saltmarshes in Portugal. Ocean Coast Manag. 2014;92:40–9. doi:10.1016/j. ocecoaman.2014.02.008. 39. Mateus M, Almeida D, Simonson W, Felgueiras M, Banza P, Batty L. Conflictive uses of coastal areas: A case study in a southern European coastal lagoon (Ria de Alvor, Portugal). Ocean Coast Manag. 2016;132:90–100. doi:10.1016/j. ocecoaman.2016.08.016. 40. Neves JP, Ferreira LF, Simoes MP, Gazarini LC. Primary Production and Nutrient Content in Two Salt Marsh Species, Atriplex portulacoides L. and Limoniastrum monopetalum L., in Southern Portugal. Estuaries Coasts. 2007;30(3):459–68. 41. Craft C, Clough J, Ehman J, Joye S, Park R, Pennings S, et al. Forecasting the effects of accelerated sea-level rise on tidal marsh ecosystem services. Front Ecol Environ. 2009;72:73– 78. doi:10.1890/070219. 42. Glick P, Clough J, Polaczyk A, Couvillion B, Nunley B. Potential Effects of Sea-Level Rise on Coastal Wetlands in Southeastern Louisiana. J Coast Res. 2013;SI 63:211–233. doi:10.2112/SI63-0017. 43. Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Climate Change 2021 – The Physical Science Basis. Cambridge University Press; 2023. 44. Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva, Switzerland; 2023. 35–115 p. 45. Garner, G. G., T. Hermans, R. E. Kopp, A. B. A. Slangen, T. L. Edwards, A. Levermann, S. Nowikci, M. D. Palmer, C. Smith, B. Fox-Kemper, H. T. Hewitt, C. Xiao, G. Aðalgeirsdóttir, S. S. Drijfhout, T. L. Edwards, N. R. Golledge, M. Hemer, G. Krinner, A. Mix, D. Notz, S. Nowicki, I. S. Nurhati, L. Ruiz, J-B. Sallée, Y. Yu, L. Hua, T. Palmer, B. Pearson, 2021. IPCC AR6 Sea Level Projections. Version 20210809. Dataset accessed [2025-0601] at https://doi.org/10.5281/zenodo.5914709. 46. Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Ocean, Cryosphere and Sea Level Change. In: Climate Change 2021 – The Physical Science Basis. Cambridge University Press; 2023. p. 1211–362. 47. Kopp RE, Garner GG, Hermans THJ, Jha S, Kumar P, Reedy A, et al. The Framework for Assessing Changes To Sealevel (FACTS) v1.0: a platform for characterizing parametric and structural uncertainty in future global, relative, and extreme sea-level change. Geosci Model Dev. 2023 Dec 21;16(24):7461–89. doi:10.5194/gmd-16-7461-2023 48. Furtado A, Gaspar P, Correia S. Levantamento Cartográfico e Sugestões para a Recuperação/Reconversão de Áreas Artificializadas Degradadas. APA/ARH; 2021. 19 p. 49. Santos R, Ito P, de Los Santos CB. Relatório Científico I: Avaliação dos ecossistemas de carbono azul em Portugal continental. Projeto Gulbenkian Carbono Azul. Centro de Ciências do Mar; 2023. 56 p. IMPULSIONANDO A SUSTENTABILIDADE
58 GLOSSÁRIO • Adaptação climática - Inclui ações e estratégias, levadas a cabo para minimizar os impactos das alterações climáticas, ajustando os sistemas sociais, económicos e ambientais de forma a torná-los mais resilientes às alterações do clima; por exemplo, utilizar ecossistemas costeiros vegetados para proteção contra os efeitos dos fenómenos climáticos extremos. • Armazenamento de carbono orgânico - Refere-se à capacidade de um reservatório natural, como o solo, florestas, oceanos ou outros ecossistemas, de absorver e armazenar dióxido de carbono (CO2) atmosférico, convertendo-o em matéria orgânica, de forma prolongada no tempo. • Biomassa - A biomassa viva é um dos reservatórios de carbono orgânico em ecossistemas de carbono azul, e pode ser epígea (biomassa aérea, i.e., folhas, ramos e talos) ou hipógea (biomassa subterrânea, i.e., raízes). Apresenta-se como o peso da matéria orgânica vegetal existente numa dada área.8,49 • Carbono azul - Refere-se ao carbono orgânico que é capturado e armazenado pelos oceanos e ecossistemas costeiros, em particular os vegetados: pradarias marinhas, sapais e mangais1, durante centenas a milhares de anos nos oceanos e zonas costeiras.3 • Carbono orgânico alóctone - corresponde à matéria orgânica, como folhas e resíduos vegetais, que se origina em uma dada área e é depois transportada para outra, por processos naturais, como o transporte pelos rios e correntes de água. • Compressão costeira - Perda de habitats naturais ou deterioração da sua qualidade, que ocorre quando existe uma estrutura (ou ação) humana rígida que impede a transgressão/migração para terra desses habitats. • Mitigação climática - Refere-se à ação humana no sentido de reduzir emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera ou potenciar a sua remoção; por exemplo, restauro ecossistemas de carbono azul para potenciar o sequestro de carbono a longo termo. • Sequestro de carbono no sedimento - Refere-se à absorção de carbono da atmosfera na forma de dióxido de carbono (CO2, um dos principais gases de efeito estufa) através da fotossíntese e seu subsequente sequestro, a longo termo, no solo, na forma de carbono orgânico. 15 • Stock de carbono orgânico - Refere-se à soma dos stocks de carbono orgânico na vegetação (biomassa) e no solo, por área, num ecossistema. • Stock de carbono orgânico na vegetação - Refere-se ao carbono orgânico armazenado na biomassa da vegetação. Encontra-se na biomassa aérea (folhas, caules) e na biomassa subterrânea (raízes). • Stock de carbono orgânico no solo - Refere-se ao carbono orgânico armazenado no sedimento, proveniente de organismos vivos ou de matéria orgânica não viva, como folhas e raízes mortas. A quantidade de carbono orgânico sequestrado no solo depende das características geomorfológicas e hidrodinâmicas do ecossistema. 8,9,49 • Soluções baseadas na natureza - corresponde a soluções inspiradas e apoiadas pela natureza, que são economicamente viáveis, proporcionam simultaneamente benefícios ambientais, sociais e económicos e ajudam a construir resiliência. GUIA INFORMATIVO