CARIACICA em sua jornada política (1930–1984) – [Texto CAR]
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CARIACICA em sua jornada política (1930–1984) [ Texto CAR ] Francisco Guilherme Emmerich
CARIACICA em sua jornada política (1930–1984) (Texto CAR) Francisco Guilherme Emmerich Vitória – 2025
Copyright © 2025 by Francisco Guilherme Emmerich Todos os direitos reservados ao autor. Conforme a Lei de Direito Autoral nº 9.610/1998, nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida, por qualquer meio ou forma, sem autorização prévia e por escrito do autor. Este e-book, de autoria de Francisco G. Emmerich, intitulado “CARIACICA em sua jornada política (1930–1984)” — referido como “Texto CAR” no livro Caneta de Ouro: Poesia e Trajetória de Vida de Obéd Emmerich — integra o Material Suplementar Eletrônico (MSE) do referido livro, publicado em 2025. O conteúdo deste e-book está relacionado aos Capítulos 3 e 5 do livro. A primeira versão desta obra está depositada na plataforma internacional Zenodo (URL: https://doi.org/10.5281/zenodo.17305941).
Dedicatória Dedico esta obra à população de Cariacica e à memória de meu pai, Obéd Emmerich, que, com sensibilidade e sabedoria, comprometeu-se profundamente com as cidades em que viveu, nos âmbitos social, político e cristão. Para os leitores que desejarem conhecer mais sobre seu legado, sua trajetória está narrada em detalhes no livro Caneta de Ouro: Poesia e Trajetória de Vida de Obéd Emmerich (Emmerich, 2025).
5 Agradecimentos A realização desta obra contou com o apoio e a colaboração de muitas pessoas e instituições, às quais, de uma forma geral, expresso meus sinceros agradecimentos por suas contribuições diretas ou indiretas. À irmã Ângela Maria Emmerich Tobio, que me acompanhou em entrevistas e em pesquisas em arquivos públicos, além de contribuir com discussões e opiniões. À Dalva Oresmir Laranja Pinto, Edísio Correa Pinto (in memoriam), Thales Barbosa (in memoriam), Dailson Laranja, Joaquim Batista de Souza – Sr. Guaçuí (in memoriam) –, Gibson Barcelos Reggiani, Arildo Gimenes Rodrigues, Solange Santos, Carlos Délio Ferreira, Anilton Salles Garcia, Orlandina Dalapícola e Fernando Cesar Laranja Pinto, pelos esclarecimentos e apoios fornecidos. À OpenAI e ao Google, pelo uso do ChatGPT e do Gemini, respectivamente, pela ajuda com sugestões de revisões de português ou correções em partes do texto. À Prefeitura Municipal de Cariacica e à Câmara Municipal de Cariacica por disponibilizarem a “Legislação Online”, bem como o Observatório de Indicadores Cariacica — Cariacica em Mapas. Ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) pelo apoio e auxílio nas pesquisas aprofundadas nos microfilmes do Diário Oficial do Espírito Santo/Diário da Justiça e dos jornais A Gazeta e A Tribuna, e à Biblioteca Pública Estadual do ES pela consulta a alguns microfilmes de A Gazeta. Ao Departamento de Imprensa Oficial do ES e ao Arquivo Público Municipal de Vitória, pelo auxílio na consulta a exemplares físicos do Diário Oficial do Espírito Santo/Diário da Justiça e dos jornais A Tribuna e A Gazeta.
6 Objetivos da obra O objetivo desta obra é fornecer um panorama geral conciso, mas bem documentado — em termos das candidaturas e dos resultados das eleições — sobre a jornada política do município de Cariacica desde 1930 (final da Primeira República e o início da Era Vargas) até 1984 (final do período Vicente Santório–Aldo Prudêncio).
7 Apresentação O presente e-book, intitulado “CARIACICA em sua jornada política (1930– 1984)” — referido como “Texto CAR” no livro Caneta de Ouro: Poesia e Trajetória de Vida de Obéd Emmerich (Emmerich, 2025) — é mais detalhado, em termos políticos, do que o referido livro, pois o complementa em diversos aspectos desse tema. Como optamos por manter tanto esta obra (Texto CAR) quanto o livro Caneta de Ouro autossuficientes para os leitores, alguns trechos do material aqui apresentado também constam no livro — e vice-versa. Assim, as repetições são intencionais, visto que muitos leitores podem consultar apenas uma das obras. Embora mais detalhada no âmbito político do que o livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025), esta obra é, ainda assim, um texto introdutório, que relata os fatos mais relevantes, os nomes, as votações e os partidos dos políticos eleitos e não eleitos para os cargos de vereador e prefeito em Cariacica entre 1930 e 1984. A obra está dividida em quatro capítulos: o primeiro é introdutório (sobre o município) e os três seguintes abordam a jornada política propriamente dita. O Capítulo 1 é conciso, trazendo apenas uma breve descrição do município de Cariacica, dos prédios que abrigaram a prefeitura, do ponto geográfico mais importante — o Monte Mochuara — e, em seguida, mapas das 14 regiões administrativas com os nomes dos respectivos bairros. Optamos por apresentar a jornada política em três partes, dispostas nos Capítulos 2, 3 e 4, que abrangem, respectivamente, os períodos de 1930–1947, 1948–1966 e 1967–1984. As justificativas para essas divisões são apresentadas no início de cada um dos capítulos. Foi feito um grande esforço para apresentar não apenas os nomes e números de votos dos candidatos eleitos a prefeito e a vereador em Cariacica, mas também dos não eleitos. Essa tarefa foi desafiadora, pois o TSE só passou a divulgar os dados completos das eleições municipais a partir de 1994. Ainda assim, conseguimos reunir informações de diversas eleições, embora, em alguns casos, os resultados obtidos tenham sido parciais. As razões dos êxitos e das lacunas são explicadas caso a caso. Estamos cientes de que existem inúmeras informações que poderiam complementar e/ou corrigir os fatos e dados aqui apresentados, aprimorando esta obra. Por exemplo, seria possível compilar e adicionar possíveis listas de metas propostas e as metas realizadas pelos prefeitos eleitos em seus respectivos mandatos. Contudo, tal empreitada está fora do escopo deste trabalho e é deixada para outros autores. Em relação aos fatos vivenciados pelos diversos personagens políticos do período, é natural que esta obra contenha mais detalhes sobre a participação de Obéd Emmerich, cuja trajetória foi pesquisada minuciosamente para o livro Caneta de Ouro. Assim, deixamos como sugestão que outros
8 autores/pesquisadores se debrucem sobre outros personagens, além de Obéd, para que a história do município de Cariacica seja mais bem contada e não se perca. De qualquer forma, como grande parte do material aqui reunido é inédito, esperamos que ele seja útil a pesquisadores e leitores interessados em conhecer melhor a história política de Cariacica. Esperamos que os leitores apreciem o material aqui apresentado. Estamos cientes de possíveis falhas na elaboração desta obra, bem como da existência de histórias e análises ainda não exploradas. Você, leitor, pode contribuir conosco. Teremos prazer em receber seus comentários pessoalmente ou por e-mail, no endereço eletrônico livro.caneta.de.our[email protected] . Vitória-ES, novembro de 2025. Francisco Guilherme Emmerich
9 SUMÁRIO Dedicatória .............................................................................................. 4 Agradecimentos ..................................................................................... 5 Objetivos da obra .................................................................................. 6 Apresentação .......................................................................................... 7 CAPÍTULO 1 – Breve visão sobre o Município de Cariacica ..... 11 1.1 Aspectos gerais do Município de Cariacica ......................................... 11 1.2 Principais lideranças de Cariacica no período anterior a 1930 ........... 11 1.3 Prédios da Prefeitura Municipal de Cariacica ...................................... 12 1.4 Monte Mochuara ................................................................................. 14 1.5 As 14 Regiões municipais de Cariacica e os seus bairros ................... 16 CAPÍTULO 2 – Política de Cariacica de 1930 a 1947 .................... 27 2.1 Sobre a cronologia e os principais periódicos consultados ................. 27 2.2 Contexto histórico do Brasil e do Espírito Santo de 1930 a 1947 ...... 29 2.3 Governadores e Interventores Federais do ES de 1930 a 1947 ........... 33 2.4 Lista dos Prefeitos de Cariacica de 1930 a 1947 ................................. 33 2.5 Adalberto Barbosa – prefeito de 1929 a 24/10/1930 .......................... 35 2.6 Eclosão da Revolução de 1930 no Espírito Santo ............................... 43 2.7 Junta Governativa de Cariacica ........................................................... 49 2.8 Prefeitos (nomeados) de Cariacica de 1930 a 1935 ............................ 50 2.9 O mandato de Olympio Cunha e a conflituosa eleição de 1935 ......... 69 2.10 Roberto Couto em 1936–1937 como prefeito eleito ......................... 82 2.11 Prefeitos (nomeados) de Cariacica de 1937 a 1947 .......................... 94 2.12 “Dança de Cadeiras” na Prefeitura de Cariacica em 1946–1947 ...... 109 CAPÍTULO 3 – Política de Cariacica de 1947 a 1966 .................... 113 3.1 Preâmbulo ............................................................................................. 113 3.2 Informações do Brasil e do Espírito Santo de 1947 a 1964 ................ 113 3.3 Prefeitos de Cariacica de dez. 1947 a jan. 1967 .................................. 114 3.4 A política e as eleições em Cariacica de 1947 a 1951 ........................ 114
Capítulo 1 16 1.5 As 14 Regiões municipais de Cariacica e os seus bairros Apresentamos aqui um panorama atualizado até 2025, com mapas que identificam as Regiões e os Bairros de Cariacica, conforme os limites disponibilizados pela Secretaria de Desenvolvimento da Cidade e Meio Ambiente (SEMDEC). Os mapas a seguir, muito bem elaborados pela Prefeitura de Cariacica, estão disponíveis ao público na plataforma Observatório de Indicadores Cariacica — Cariacica em Mapas —, aqui referenciado como Cariacica (2025), através do endereço https://observa.cariacica.es.gov.br/diretorio/9. Acesso em 07 jul. 2025. Agradecemos e parabenizamos a Prefeitura por esse trabalho. Cariacica e suas 14 Regiões Administrativas (mostrando também os limites com os municípios vizinhos) Fonte: Cariacica (2025), com inclusões do autor. Observações em relação ao mapa acima: 1) Inserimos números grandes, de 1 a 14, no mapa original para compor o mapa acima, de forma a destacar bem as localizações geográficas de cada Região Administrativa. 2) A Foz do Rio Bubu — localizada à direita do mapa — também faz parte da Região 13 — localizada na parte central —; por isso, incluímos uma ligação tracejada entre ambas.
Capítulo 1 17 Região 1 – Aparecida, Flexal I, Flexal II, Nova Canaã, Porto Novo, Porto de Santana, Presidente Médici, Retiro Saudoso. Fonte: Cariacica (2025). Região 2 – Bubu, Campo Verde, Cangaíba, Graúna, Planeta, Santana, Santo Antônio, Serra do Anil, Tabajara e Vila Prudêncio. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 18 Região 3 – Itacibá, Itanguá, Nova Brasília, Nova Valverde, Oriente, Rio Branco e Tucum. Fonte: Cariacica (2025). Região 4 – Campo Grande, Cruzeiro do Sul, Dom Bosco, Morada de Santa Fé, Santa Cecília, São Conrado, São Francisco, São Geraldo, Vera Cruz, Vila Capixaba e Vila Palestina. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 19 Região 5 – Alto Boa Vista, Alto Lage, Expedito, Itaquari e Sotema. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 20 Região 6 – Bandeirantes, Bela Aurora, Boa Sorte, Jardim América, Sotelândia, Vale Esperança, Vasco da Gama e Vista Mar. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 21 Região 7 – Alzira Ramos, Bela Vista/Santa Catarina, Caçaroca, Castelo Branco, Chácaras União, Jardim Botânico, Jardim de Alah, Rio Marinho, Santa Paula e Vista Linda. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 22 Região 8 – Nova Esperança, Nova Rosa da Penha, Padre Matias/Pica-Pau, Porto das Pedras, Porto Engenho e Vila Cajueiro. Fonte: Cariacica (2025). Região 9 – Alice Coutinho, Antônio Ferreira Borges, Cariacica Sede, Porto de Cariacica, Prolar, Santa Luzia, São João Batista e Vila Merlo. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 23 Região 10 – Mucuri, Nova Campo Grande, Novo Brasil, Novo Horizonte, Operário, Piranema, São Gonçalo, Vale dos Reis, Vila Independência e Vista Dourada. Fonte: Cariacica (2025). Região 11 – Campo Belo, Itapemirim, Maracanã, Rosa da Penha, São Benedito, São Geraldo II e Vila Isabel. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 24 Região 12 – Campina Grande, Formate, Jardim Campo Grande, Padre Gabriel, Parque Gramado, Santa Bárbara, Santo André, Tiradentes. Fonte: Cariacica (2025).
Capítulo 1 25 Região 13 – Duas Bocas, Foz do Rio Bubu, Maricará, Mochuara, Mungaba, Roda D'Água, Serra do Anil e Sertão Velho. Fonte: Cariacica (2025), com acréscimos do autor. Observações em relação ao mapa acima: 1) Inserimos os nomes das localidades mais conhecidas no mapa original da Zona Rural da Região 13 para que os leitores examinem as suas localizações. 2) Deve-se observar que a Foz do Rio Bubu — desconectada espacialmente da Zona Rural — também está destacada na cor verde, pois faz parte da Região 13.
Capítulo 2 32 censura prévia de informações, permitiu a fundação de partidos políticos e convocou eleições para dezembro de 1945, para escolha do presidente da República, de dois terços do Senado e dos membros da Câmara dos Deputados. Em 8 de maio de 1945, a Alemanha se rendeu incondicionalmente, encerrando a Segunda Guerra Mundial na Europa. A guerra continuou no Oceano Pacífico e só terminou em 15 de agosto de 1945, quando o Japão se rendeu incondicionalmente após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Com o retorno vitorioso da FEB, as pressões políticas e militares contra Getúlio Vargas se intensificaram, levando à sua deposição em 29 de outubro de 1945 por um golpe militar sem resistência (Fausto, 2021, p. 214-215), encerrando, assim, o Estado Novo. 2ª parte: de 29 de outubro de 1945 a 30 de novembro de 1947 Os três principais partidos políticos estabelecidos em 1945, que perduraram até 1965, foram o Partido Social Democrático (PSD), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e a União Democrática Nacional (UDN). Juntos, PSD e PTB formavam o bloco pró-getulista, contrapondo-se à UDN (Fausto, 2021, p. 213). Em 2 de dezembro de 1945, 35 dias após a deposição de Getúlio Vargas, ocorrida em 29 de outubro de 1945, realizaram-se as tão esperadas eleições diretas para presidente da República, dois terços do Senado Federal e para a Câmara dos Deputados. O candidato à presidência pelo PSD, general Eurico Gaspar Dutra, apoiado por Getúlio Vargas, conquistou 55,4% dos votos válidos, derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, que obteve 34,7%. Eurico Gaspar Dutra tomou posse como presidente em 31 de janeiro de 1946. Uma nova Constituição foi elaborada e promulgada em 18 de setembro de 1946, marcando o início da República de 1946, também chamada de Quarta República ou República Populista. As eleições diretas para um terço do Senado, governadores estaduais e deputados estaduais foram marcadas para 19/01/1947, e as de prefeitos e vereadores para 30/11/1947. No Espírito Santo, Carlos Lindenberg, do PSD, venceu para governador, obtendo 59.008 votos (64,9%), contra 31.968 votos (35,1%) de Attilio Vivacqua. Até a posse dos governadores eleitos, em março de 1947, os interventores federais foram nomeados pelo presidente Eurico Gaspar Dutra. Os prefeitos, por sua vez, eram inicialmente nomeados pelos interventores federais e, posteriormente, pelos governadores eleitos. Somente com a posse dos prefeitos e vereadores, no final de 1947, o país passou a ter todos os seus representantes eleitos diretamente pelo voto popular, sob a égide da Constituição de 1946. Como as datas de posse dos prefeitos e vereadores eleitos variaram, dependendo das apurações nos municípios, e considerando que 30 de novembro de 1947 foi a data única da eleição em todo o país, finalizamos a cronologia desta seção nesse marco.
Capítulo 2 33 2.3 Governadores e Interventores Federais do ES de 1930 a 1947 Embora os interventores federais nomeados não tivessem um mandato com datas de início e término previamente estabelecidas, utilizaremos, a seguir, o termo “mandato” para nos referirmos aos respectivos períodos de gestão. Governador/Interventor Federal: Mandato: Nomeado por ou Eleito: Aristeu Borges de Aguiar 30/06/1928 a 16/10/1930 Eleito em 1928 José Armando R. de Paula 16/10/1930 a 18/11/1930 Washington Luís Junta Governativa do ES 4 19/10/1930 a 21/11/1930 J. Gov. Provis. 5 João Punaro Bley 22/11/1930 a 15/04/1935 Getúlio Vargas João Punaro Bley 15/04/1935 a 10/11/1937 Eleito p/ ALES João Punaro Bley 10/11/1937 a 21/01/1943 Getúlio Vargas Jones dos Santos Neves 21/01/1943 a 27/10/1945 Getúlio Vargas José Rodrigues Sette 27/10/1945 a 06/11/1945 Getúlio Vargas Otavio de Carvalho Lengruber 06/11/1945 a 27/02/1946 José Linhares Aristides Alexandre Campos 27/02/1946 a 14/10/1946 Eurico G. Dutra Moacyr Ubirajara M. da Silva 14/10/1946 a 29/03/1947 Eurico G. Dutra Carlos F. Monteiro Lindenberg 29/03/1947 a 30/01/1951 Eleito em 1947 2.4 Lista dos Prefeitos de Cariacica de 1930 a 1947 Cabe esclarecer que, na bibliografia consultada, não foi encontrada uma compilação com as datas precisas de início e término dos períodos de gestão dos prefeitos de Cariacica nesse período. Além disso, dois prefeitos, Ernani Abreu e Sócrates Moreira da Cunha, não foram mencionados em algumas publicações (Bezerra, 2009, p. 71; A Gazeta, 24/06/1991, p. 8-9; Silva, 2017, p. 123). Dessa forma, a lista de prefeitos que será apresentada na presente seção é inédita e foi elaborada com base em fontes primárias ou secundárias confiáveis. Embora os prefeitos nomeados não tivessem um mandato com datas de início e término previamente estabelecidas, utilizaremos, no quadro a ser apresentado, o termo “mandato” para nos referirmos aos respectivos períodos de gestão. 4 A Junta Governativa do Espírito Santo em 1930 era composta por: João Manuel de Carvalho, Afonso Correia Lírio e cap. João Punaro Bley. 5 A Junta Governativa Provisória (Federal) de 1930 era composta pelo General Augusto Tasso Fragoso, Almirante José Isaías de Noronha e General João de Deus Mena Barreto.
Capítulo 2 34 Para os prefeitos Adalberto Barbosa e Roberto Couto, eleitos em 1928 e 1935, respectivamente, foram adotadas como início de suas gestões as datas de posse registradas no Diário da Manhã de 01/01/1929 e 31/01/1936. No caso dos prefeitos nomeados, optamos por utilizar, no quadro abaixo, as datas de publicação dos decretos de nomeação e exoneração no Diário Oficial do Espírito Santo como referência para o início e o término de suas gestões. Embora os decretos sejam assinados de um a quatro dias antes, sua validade só se efetiva a partir da data de publicação no Diário Oficial. Além disso, as posses dos prefeitos nomeados, apesar de ocorrerem algum tempo após a publicação dos decretos, nem sempre são noticiadas na imprensa. Assim, para manter a uniformidade e evitar lacunas entre as gestões, adotamos como critério as datas de publicação no Diário Oficial. Prefeito: Mandato: Nomeado por: Adalberto Barbosa 01/01/1929 a 24/10/1930 Eleição 02/12/1928 Junta Governativa de Cariacica 6 24/10/1930 a 26/11/1930 Junta Gov. do ES Manoel Monteiro de Moraes 27/11/1930 a 30/01/1932 João Punaro Bley Genesio Cardoso 30/01/1932 a 24/06/1933 João Punaro Bley Hilario Sigismundo Soneghet 24/06/1933 a 06/10/1934 João Punaro Bley Ernani Abreu 06/10/1934 a 20/12/1934 Wolmar C. Cunha 7 Socrates Moreira da Cunha 20/12/1934 a 04/04/1935 João Punaro Bley Olympio Moreira da Cunha 04/04/1935 a 30/01/1936 João Punaro Bley Roberto Couto 30/01/1936 a 03/12/1937 Eleição 15/12/1936 Roberto Couto 03/12/1937 a 02/06/1942 João Punaro Bley Alvaro Schwab Gimenes 02/06/1942 a 12/04/1946 João Punaro Bley Licério Ferreira Duarte 12/04/1946 a 18/03/1947 Aristides Campos Alvaro Schwab Gimenes 23/04/1947 a 31/05/1947 Carlos Lindenberg Lafayette Cardoso Resende 31/05/1947 a 23/12/1947 Carlos Lindenberg 6 A Junta Governativa de Cariacica era composta por Apolonio Fernandes Rodrigues de Miranda, Alfredo do Couto Teixeira e Socrates Moreira da Cunha. 7 Wolmar Carneiro da Cunha foi Interventor Federal interino na gestão de João Punaro Bley.
Capítulo 2 35 2.5 Adalberto Barbosa – prefeito de 1929 a 24/10/1930 Adalberto Barbosa foi o prefeito de Cariacica antes da vitória da Revolução de 1930. Até recentemente, o autor acreditava possuir uma imagem do dia da posse de Adalberto, pois seu pai, Obéd Emmerich, havia guardado uma fotografia relativamente grande com diversas pessoas em trajes formais de solenidades cívicas e políticas. Essa foto, armazenada em um envelope, trazia a seguinte anotação manuscrita por Obéd: “fotografia da posse do ex-Prefeito de Cariacica – Adalberto Barbosa – em 1929”, conforme mostrado abaixo: Como não havia identificação das pessoas na fotografia, buscamos, ao menos, identificar Adalberto Barbosa. Para isso, consultamos descendentes do Sr. Theologo Gaudio Barbosa, que talvez fossem parentes de Adalberto, além de algumas pessoas idosas de Cariacica Sede. No entanto, não obtivemos sucesso. Felizmente, ao pesquisar exemplares da revista Vida Capichaba e do jornal Diário da Manhã no site da Biblioteca Nacional fomos bem-sucedidos. Encontramos quatro imagens com a presença de Adalberto Barbosa (uma de 1927 e três de 1930), além de notícias sobre sua ocupação em 1927, antes de se tornar prefeito, e outras de 1929 e 1930, quando já ocupava o cargo. Em 1927, Adalberto Barbosa era um contador de destaque na empresa Serviços Reunidos de Vitória (SRV), concessionária dos serviços de luz, força, bondes e telefones em Vitória, Vila Velha, Cariacica e localidades vizinhas (Vida Capichaba de 09/05/1927, p. 76-78/162 [N° 92]). Com mais de 16 anos de trabalho na SRV (Vida Capichaba de 28/02/1927, p. 29/52 [N° 87]), é provável que residisse em Vitória. Considerando seu tempo de serviço em 1927 e sua aparência nas fotografias, estima-se que tivesse entre 35 e 45 anos na época. Cabe repetir que, conforme detalhado na seção 1.1, os números de edição entre colchetes, no parágrafo acima e nos subsequentes, permitem que os leitores acessem rapidamente o conteúdo integral das matérias publicadas. Como Adalberto provavelmente não residia em Cariacica, seu nome não estava associado a nenhum cargo ou candidatura no município antes de 1928. Surge, então, a pergunta: por que Adalberto, com aproximadamente 40 anos, foi escolhido como candidato a prefeito de Cariacica no final de 1928? Para conjecturar e tentar responder a essa questão, é importante considerar o contexto da época, marcado pelo sistema oligárquico predominante, no qual paulistas e mineiros, através dos partidos republicanos paulista (PRP) e mineiro (PRM), se alternavam na presidência da República. Esse mesmo modelo
Capítulo 2 36 oligárquico — em que o poder era concentrado em um pequeno grupo de pessoas de um mesmo partido, classe ou família — era replicado nos estados. O governador do Espírito Santo na época era Aristeu Borges de Aguiar, que assumiu o cargo em 30/06/1928. Aristeu era casado com Nair de Freitas Barbosa e, provavelmente, conhecia Adalberto Barbosa. Como integrante do Partido Republicano, hegemônico no estado e nos municípios, Aristeu provavelmente buscou um bom candidato de consenso para a prefeitura de Cariacica. Nesse contexto, Adalberto Barbosa, um funcionário de destaque na principal concessionária de serviços do estado, foi escolhido como candidato a prefeito durante o segundo semestre de 1928. Sua eleição trouxe impactos muito positivos ao município, como será demonstrado posteriormente. Segundo o jornal Diário da Manhã de 16/12/1928, p. 9 [N° 1009], importante fonte oficial de notícias da época, Adalberto Barbosa foi eleito diretamente em 02/12/1928, obtendo 132 votos. Ele foi o único candidato votado, o que evidencia a hegemonia do poder oligárquico exercido pelo Partido Republicano em Cariacica. Adalberto tomou posse em 01/01/1929, com a notícia de sua posse destacada no página do Diário da Manhã de 01/01/1929, p. 1 [N° 1021] e também na edição de 10/01/1929, p. 4 [N° 1028]. Considerando que seus antecessores, Andrônico Pinto Duarte (1823-1824) e Walfredo Ferreira de Paiva (1825-1828), tiveram mandatos de dois ou quatro anos, o mesmo seria esperado para Adalberto Barbosa. De acordo com Bezerra (2009, p. 70), Adalberto Barbosa fez uma boa administração dentro das possibilidades da época. Entre suas obras, destacou-se a ampla reforma da praça de Cariacica Sede, conhecida como Pracinha de Cariacica. A praça foi redesenhada e reurbanizada em um belo formato, com boa iluminação noturna, bancos confortáveis, um chafariz e um coreto de cimento armado, usado para apresentações musicais, comícios e outros eventos. Esse coreto permaneceu até meados da década de 1960. As pesquisas realizadas no jornal Diário da Manhã e na revista Vida Capichaba confirmaram com precisão as informações apresentadas no livro de Bezerra (2009, p. 70) sobre a boa administração de Adalberto Barbosa. O Diário da Manhã, pouco mais de três meses após o início de seu mandato, em sua edição de 12/04/1929, p. 1 [N° 2004], destacou os melhoramentos previstos para Cariacica durante a gestão de Adalberto, conforme transcrição a seguir: “Melhoramentos em Cariacica A nossa rede de estradas de rodagem tornou várias localidades que eram consideradas do interior em subúrbios da capital, por assim dizer. Tal é o que aconteceu com Cariacica, onde agora se vai em menos de meia hora de automóvel. Compreendendo bem a importância que hoje tem essa pitoresca vila, resolveu o jovem e operoso prefeito municipal, sr. Adalberto Barbosa,
Capítulo 2 37 realizar diversos melhoramentos, entre os quais podemos destacar, pela brevidade com que serão atacados, a reforma do jardim público, do mercado e do matadouro. Desses serviços tivemos oportunidade de ver as respectivas plantas já aprovadas pelo chefe do Executivo municipal, a quem auguramos todo o êxito na execução do seu belo programa.” Fonte: Diário da Manhã de 12/04/1929, p. 1 [N° 2004]. -------------------------------------------------------------------------------------- Em 1929, outras matérias sobre Cariacica e seu prefeito foram publicadas no Diário da Manhã, como a de 12/04/1929, destacando aspectos positivos da cidade, incluindo seu clima, paisagem, localização, além da vida cultural, social e esportiva. O aniversário do primeiro ano de mandato de Adalberto, ocorrido em 01/01/1930, foi destacado na Vida Capichaba de 02/01/1930, p. 28-29/52 [N° 208]. Na matéria intitulada “Prefeitura de Cariacica / Uma Profícua Administração”, foram listados os melhoramentos realizados no município, com destaque especial à Pracinha de Cariacica Sede, mencionada duas vezes. O título e o retrato de Adalberto, no início da matéria, são reproduzidos a seguir: Apresentamos abaixo uma transcrição parcial do texto (grifos nossos) da notícia publicada na Vida Capichaba, N° 208, de 02/01/1930 (a transcrição completa documento é apresentada no Anexo A, ao final da obra): “PREFEITURA DE CARIACICA / UMA PROFÍCUA ADMINISTRAÇÃO Completou, ontem, o seu primeiro ano de administração. como prefeito do vizinho município de Cariacica, o nosso distinto conterrâneo Adalberto Barbosa. Espírito empreendedor e ativo, o jovem chefe daquela edilidade, nesse curto período, realizou melhoramentos consideráveis, que o tornaram alvo da simpatia e da confiança dos seus munícipes. Assumindo aquele cargo. fugindo à velha norma dos que põem a política em primeiro plano, S. Sa. adoptou por lema o trabalho e, com
Capítulo 2 38 escrúpulo no emprego do dinheiro público, vai, galhardamente, desenvolvendo o seu programa administrativo. Cariacica, a linda e saudável vila, que quase nada merecera até então, teve e tem tido do atual prefeito especiais cuidados, modernizando-a, melhorando-lhe consideravelmente as condições de conforto, ajardinandoa, iluminando-a, tornando a enfim, uma localidade perfeitamente habitável. ... Para melhor se avaliar o que tem sido a operosidade do jovem prefeito Adalberto Barbosa, damos abaixo uma súmula da sua administração no primeiro ano : Construção de um grande parque moderno, na praça da matriz daquela vila, com artístico coreto, fonte luminosa e iluminação subterrânea; ... concessão de auxílio à construção da estrada de automóvel Itaquari - Caçaroca; um pontilhão Areinha, ligando-a com a vila; 2 pontilhões com assoalho de peroba, no lugar Itanguá; concerto geral da ladeira que conduz à estação da Victoria a Minas; nivelamento das ruas; ... ; pagamento de grande parte da dívida com o Estado; pagamento do funcionalismo municipal, em atraso, bem como liquidação de quase todas as dívidas encontradas; ... Cogita o operoso chefe do executivo cariaciquense da reforma geral da iluminação da vila, de Itaquari e de Itanguá, ... Foram alistados, graças aos seus esforços, mais de 300 eleitores. ... Ontem, o ilustre prefeito recebeu as mais carinhosas provas de apreço pela sua brilhante e fecunda administração. Apresentamos a S.Sa. as nossas homenagens e votos para a continuação do esplendido progresso do importante município de Cariacica.” Fonte: Vida Capichaba de 02/01/1930, p. 28-29/52 [N° 208]. -------------------------------------------------------------------------------------- A matéria acima foi complementada quatro semanas depois, na Vida Capichaba de 30/01/1930, p. 24-25/52 [N° 212], com duas importantes fotografias tiradas durante o evento, onde houve um baile comemorativo de um ano de mandato (01/01/1930). Com base no retrato publicado na edição N° 208 da revista, foi possível identificar, sem sombra de dúvidas, que Adalberto Barbosa é a pessoa de terno branco, em destaque no centro das duas fotografias. Aqui, invertemos a ordem para mostrar primeiro a fotografia da p. 25/52 e, em seguida, a da p. 24/52 da edição N° 212. Na fotografia da p. 25/52, ele está sentado ao lado de vereadores e de um deputado. Considerando que a legenda possivelmente lista as pessoas da esquerda para a direita, e com o intuito de facilitar a identificação pelos leitores (já que diversas pessoas na foto não foram mencionadas na legenda), inserimos números para identificar Adalberto (1), os quatro vereadores (2 a 5), o deputado (6) e a esposa do prefeito (7).
Capítulo 2 39 Abaixo, segue a transcrição da legenda da foto (os números entre parênteses foram inseridos por nós): “O sr. prefeito Adalberto Barbosa (1), na noite do baile, rodeado dos vereadores municipais, srs. Roberto Couto (2), Manoel de Siqueira Dutra (3), José Azevedo Sarmento (4), Virgilio Schwab (5) e pelo deputado estadual, dr. Oscar Barauna (6), após a inauguração de seu retrato, oferecido pela Câmara municipal.” Fonte: Vida Capichaba de 30/01/1930, p. 25/52 [N° 212]. -------------------------------------------------------------------------------------- Inferimos que, provavelmente, a senhora posicionada atrás de Adalberto seja sua esposa, Sra. Anna Rosa Barbosa (7). A fotografia da página 24/52 da edição N° 212 da Vida Capichaba de 30/01/1930 foi uma grande surpresa para nós, pois é exatamente a mesma que Obéd havia guardado pensando tratar-se da posse de Adalberto em 1929. No entanto, conforme publicado neste exemplar da revista, a imagem é, na verdade, da cerimônia de aniversário de um ano de mandato em 1930. Apresentaremos primeiro a foto conforme saiu na revista, com números inseridos para identificar alguns dos presentes, e depois mostraremos a cópia guardada por Obéd. Apesar de apresentar defeitos, como dois rasgos, a cópia de Obéd é mais nítida que a publicada na revista.
Capítulo 2 40 Abaixo, a transcrição da legenda da foto (os números entre parênteses foram inseridos por nós): “Grupo apanhado por ocasião do baile oferecido na noite de 1° deste mês em Cariacica, ao operoso prefeito desse município, sr. Adalberto Barbosa (1), em regozijo pelo primeiro aniversário de sua fecunda administração.” Fonte: Vida Capichaba de 30/01/1930, p. 24/52 [N° 212]. -------------------------------------------------------------------------------------- Os números de 1 a 7 correspondem aos mesmos da foto anterior: Adalberto Barbosa (1), Roberto Couto (2), Manoel de Siqueira Dutra (3), José Azevedo Sarmento (4), Virgílio Schwab (5), Oscar Baraúna (6) e Anna Rosa Barbosa (7). Conforme uma das legendas anteriores, no dia em que essa fotografia foi tirada ocorreu a inauguração do retrato do prefeito, que é, com certeza, o retrato identificado como (9) na parte central, no alto da imagem. Trata-se da mesma foto de Adalberto que foi publicada na Vida Capichaba de 02/01/1930, p. 28/52 [N° 208] (cf. início da seção). A adolescente identificada como (8) é, muito provavelmente, Aracy Mendonça, futura esposa de Obéd, pois apresenta grande semelhança com fotos de Aracy Mendonça [Emmerich]. Além disso, no original guardado por Obéd, havia uma marcação em volta do rosto dessa moça, que aparenta ter cerca de 12 anos de idade, coincidindo com a idade de Aracy em 01/01/1930 (11 anos e meio). Abaixo, apresentamos a fotografia da solenidade de 1930 guardada por Obéd, mostrando o destaque, muito provavelmente, em Aracy:
Capítulo 2 41 Cabe comentar que, em 1929-1930, o prefeito Adalberto Barbosa teve a iniciativa de promover uma interessante divulgação do município, ofertando um terreno em Cariacica Sede para ser sorteado entre os leitores da revista Vida Capichaba. Essa ação gerou intensa divulgação de Cariacica, que começou em agosto de 1929 e se estendeu até junho de 1930, conforme demonstrado a seguir: Fonte: Vida Capichaba de 01/08/1929, p. 11/50 [N° 186].
Capítulo 2 48 Nomeações das Juntas Governativas Municipais Após a nomeação da Junta Governativa do Estado, iniciou-se a coordenação das ações nos diversos municípios do Espírito Santo. A Junta Estadual designou, em 24/10/1930, Juntas Governativas Municipais, incluindo a de Cariacica, conforme será detalhado na seção 2.7. Nomeação do Interventor Federal do Espírito Santo É importante comentar sobre quem Getúlio Vargas indicou para o cargo de Interventor Federal do Espírito Santo em novembro de 1930. De acordo com Lemos (2001), em novembro de 1930, os dois membros civis da Junta Governativa Estadual, João Manoel de Carvalho e Affonso Corrêa Lyrio, iniciaram uma intensa disputa para se tornarem Interventor Federal do Espírito Santo, apesar de ambos apoiarem os ideais da Revolução de 1930. A tentativa de influência junto ao chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, provavelmente foi feita por meio de terceiros. No entanto, Getúlio decidiu nomear o membro militar da Junta, capitão João Punaro Bley, como Interventor Federal do Espírito Santo em 14/11/1930, com o apoio da Associação Comercial de Vitória (Lemos, 2001). João Punaro Bley tomou posse em 22/11/1930, e sua posse foi noticiada em A Gazeta de 24/11/1930 (p. 1) e no Diário da Manhã de 23/11/1930 (p. 2). É importante ressaltar que Affonso Corrêa Lyrio e João Manoel de Carvalho não mantiveram rivalidades com João Punaro Bley após sua posse. Pelo contrário, ambos ocuparam cargos de destaque no governo do novo interventor. No dia da posse, os dois primeiros decretos assinados por João Punaro Bley foram as nomeações desses ex-membros da Junta. • Affonso Corrêa Lyrio foi nomeado Secretário do Interior e Justiça (Decreto N° 99), cargo equivalente ao atual Chefe da Casa Civil e considerado o mais importante do governo. • João Manoel de Carvalho foi nomeado Secretário da Instrução (Decreto N° 100). Esses decretos foram destacados na página 1 do Diário da Manhã de 23/11/1930. Além disso, João Manoel de Carvalho, que era juiz de direito, ascendeu na hierarquia do poder judiciário no início de 1931, tomando posse como desembargador no Tribunal Superior do Judiciário do Estado em 10/02/1931 (cf. Diário da Manhã, 11/02/1931, p. 2). Apesar disso, continuou exercendo o cargo de Secretário da Instrução.
Capítulo 2 49 2.7 Junta Governativa de Cariacica No dia 24/10/1930, a Junta Governativa do Estado mandou publicar, na página 2 de A Gazeta, a designação das juntas governativas de oito municípios do Espírito Santo, dentre elas, a de Cariacica, como mostrado a seguir: Transcrição da indicação da Junta Governativa de Cariacica: “JUNTAS GOVERNATIVAS PARA OS MUNICÍPIOS As diversas organizadas: / DE CARIACICA: Apolonio Fernandes Rodrigues de Miranda, Alfredo do Couto Teixeira, Socrates Moreira da Cunha” Fonte: A Gazeta de 24/10/1930, p. 2. -------------------------------------------------------------------------------------- A Junta Governativa de Cariacica permaneceu apenas 32 dias à frente do executivo municipal. Encontramos dois documentos no Diário da Manhã que registram sua atuação. No primeiro, publicado em 22/11/1930 (p. 1), a Junta divulga os dados apresentados pelo tesoureiro sobre as receitas e despesas do município no período de 31/12/1928 a 24/10/1930, correspondente à gestão de Adalberto Barbosa. O documento foi assinado pelos três membros da Junta (Apolonio Fernandes Rodrigues de Miranda, Alfredo do Couto Teixeira e Socrates Moreira da Cunha), além do tesoureiro Andronico Pinto Duarte. No segundo documento, de 25/11/1930 (p.2), dois integrantes da Junta, Apolonio Fernandes Rodrigues de Miranda e Socrates Moreira da Cunha, “delegaram poderes ao sr. Manoel Monteiro de Moraes para representá-los no ato da posse do sr. cap. João Punaro Bley no cargo de Interventor Federal”. Não sabemos por que Alfredo do Couto Teixeira não assinou o documento autorizando Manoel Monteiro de Moraes a representá-lo. Como poucos dias depois Manoel Monteiro de Moraes foi nomeado prefeito de Cariacica, é possível que Alfredo do Couto Teixeira não concordasse com essa indicação e tivesse interesse em assumir o cargo. No entanto, a distância temporal dos fatos dificulta a reconstituição precisa da verdade histórica, o que reforça a importância de documentar os acontecimentos do município e a trajetória das pessoas por escrito ou por outros meios indeléveis.
Capítulo 2 50 2.8 Prefeitos (nomeados) de Cariacica de 1930 a 1935 Quase todos os prefeitos de Cariacica entre 1930 e 1935 foram nomeados por decretos assinados pelo Interventor Federal João Punaro Bley, com exceção de um prefeito, nomeado em 1934 por Wolmar Carneiro da Cunha, que atuou como substituto interino de Bley. A seguir, apresentamos breves comentários sobre as gestões desses prefeitos, baseados principalmente no Diário Oficial do Espírito Santo e em edições do jornal Diário da Manhã, uma importante fonte oficial de notícias, que está digitalizada no site da Hemeroteca Digital Brasileira. Manoel Monteiro de Moraes Manoel Monteiro de Moraes foi nomeado prefeito de Cariacica, sucedendo a Junta Governativa de Cariacica. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto nº 111, de 26/11/1930, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário da Manhã de 27/11/1930, p. 1 [N° 2469], juntamente com as nomeações de prefeitos de outros municípios, conforme mostrado a seguir: Transcrição do Decreto nº 111 de 26/11/1930 (grifos nossos): “DECRETO N° 111 / Nomeia Prefeitos Municipais. O Interventor Federal do Estado do Espírito Santo, usando das atribuições que lhe são conferidas pelo art. 11 parágrafo 4° do decreto n° 19.398, de 11 de novembro do corrente ano, do Governo Provisório da Republica, resolve nomear para exercerem as funções do cargo de Prefeito dos municípios de Alegre, sr. Genaro Pinheiro; Veado [Guaçuí], sr. Demerval Amaral; Cachoeiro de Itapemirim, dr. Fernando de Abreu; Anchieta, sr. Adilio Valladão; Guarapari, sr. Joaquim Manoel de Miranda; Espírito Santo [Vila Velha], sr. Eugenio Queiroz; Cariacica, cel. Manoel Monteiro de Moraes; Vianna, sr. Ocarlino Moraes, Santa Leopoldina, cel. Porfirio Furtado; Santa Thereza, sr. Vicente Costa; Itaguaçu, sr. Antonio Martinho Barbosa; Riacho [Aracruz], sr. Philareto Carlos Loureiro; Serra, Olavo Ferreira Castello. Vitória, 26 de novembro de 1930. JOÃO PUNARO BLEY / Affonso Corrêa Lyrio” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 51 Observa-se que Manoel Monteiro de Moraes recebeu o tratamento de “coronel” (cel.) no Decreto. Consideramos relevante reportar o discurso de posse de Manoel publicado no Diário da Manhã de 28/11/1930, p. 2 [N° 2470], conforme a transcrição abaixo: “Interventores que se empossam Tomou posse ontem, às 15 horas, do cargo de prefeito do município de Cariacica, para o qual foi nomeado pelo exmo. sr. Interventor Federal, o cel. Manoel Monteiro de Moraes. Falaram por essa ocasião os srs. Heraclides Pereira Gonçalves e Clarício de Alcântara Ribeiro, que foram muito aplaudidos. Por último, o prefeito Manoel Moraes pronunciou o seguinte discurso:” “Exmos. Senhores membros da M. D. Junta Governativa deste Município. Minhas senhoras e meus senhores. Nomeado pelo exmo. capitão João Punaro Bley, m. d. Interventor Federal do Estado, para o honroso cargo de prefeito municipal de Cariacica, não sei como agradecer tamanha honra e distinção. Eu bem sei a responsabilidade que me veio pesar sobre os ombros nesta nova fase da vida administrativa deste torrão querido, para bem cumprir os ideais da revolução. Farei, entretanto, quanto me for possível para, dentro das forças econômicas de que dispomos, empenhar todas as energias em prol do bem comum. É verdade que as condições financeiras do município não permitem grandes realizações. Apesar de possuir doze contos de réis, mais ou menos, em caixa, deve o município 69:000$000, que nos legou a administração passada. Como se vê, em vez de saldo, temos uma dívida de 56:000$000, que, nas condições atuais, pesará bastante sobre nossa vida administrativa. Deposito, contudo, a maior confiança em nossas possibilidades econômicas para, com nossos próprios recursos, iniciarmos novos melhoramentos e concluirmos os antigos. Arrecadar com justiça, cobrar impostos com igualdade, aplicar as rendas com a máxima economia nas obras produtivas e incrementar novas fontes de receita — eis uma parte do programa que pretendo realizar durante minha gestão. Na parte moral, hei de empenhar também as forças de que disponho para o engrandecimento de nossa terra, no respeito à lei, na firmeza das instituições, na lealdade e na perseverança às causas nacionais, que são dever de cada cidadão. Eis, em resumo, o meu programa. Agradeço sinceramente à M. D. Junta Governativa, cuja missão acaba de terminar, pelos serviços prestados ao município durante os dias de sua permanência no poder.” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 52 Como após a Revolução de 1930, não mais havia vereadores para fiscalizar o executivo, Manoel Monteiro de Moraes criou, por decreto, em janeiro de 1931, um Conselho Consultivo. Este fato foi noticiado no Diário da Manhã de 05/02/1931, p. 8 [N° 2527], na seção “Diário dos Municípios”, conforme transcrição abaixo (grifos nossos): “Havendo o exmo. sr. prefeito municipal, cel. Manoel Monteiro de Moraes, nomeado, por decreto n° 15 de 27/01/1931, os cidadãos Alfredo do Couto Teixeira, tabelião Heraclides Pereira Gonçalves, farmacêutico Braulio José da Fonseca, Manoel Sarmento Firme e João José Domingues Ramos para comporem o Conselho Consultivo do Município, foi a posse desses cavalheiros dada pelo sr. prefeito, com a devida solenidade, a 31 do mesmo mês. Logo após a posse, foram eleitos os cidadãos Alfredo do Couto Teixeira e Heraclides Pereira Gonçalves para presidente e secretário do Conselho, respectivamente, ficando designado o primeiro sábado de cada mês, às 13 horas, para as suas reuniões periódicas.” Causou magnífica impressão a acertada escolha dos cidadãos acima nomeados, por isso que tratando-se de pessoas das mais representativas do município, os cariaciquenses depositam inteira confiança na atuação justiceira e honesta do nosso Conselho Consultivo.” -------------------------------------------------------------------------------------- Verificamos que Socrates Moreira da Cunha, ex-participante da Junta Governativa de Cariacica, atuou como secretário-tesoureiro na gestão do coronel Manoel (ver Diário da Manhã de 11/02/1931, p. 5 [N° 2532]). Cabe comentar que, além de suas funções como prefeito, Manoel Monteiro de Moraes exerceu, em 1931, a presidência da Junta de Alistamento Militar de Cariacica, conforme noticiado diversas vezes no Diário da Manhã (cf., por exemplo, em 31/03/1931, p. 6 [N° 2572]). Um fato marcante de gestão de Manoel Monteiro de Moraes ocorreu em maio de 1931, quando um ex-presidente da Câmara de Cariacica, anterior a Adalberto Barbosa, foi condenado pela Junta de Sanções do Governo Provisório. Optamos por não mencionar explicitamente o nome desse ex-presidente, pois a época era pós-revolucionária, e não há garantias de que ele tenha recebido um julgamento plenamente justo. Com base no Decreto nº 19.811, de 28/03/1931, a Junta de Sanções condenou o ex-presidente da Câmara de Cariacica à restituição de uma quantia de quase 22 contos de réis (22 milhões de réis) e à perda dos direitos políticos por cinco anos. A sessão da Junta de Sanções foi presidida pelo Interventor Federal João Punaro Bley e noticiada em destaque na primeira página do Diário da Manhã de 29/05/1931 [N° 2620], com a manchete: “CONDENADO O EX-PRESIDENTE DA CÂMARA DE CARIACICA”. A transcrição desse documento é apresentada no Anexo A.
Capítulo 2 53 No processo mencionado, os ex-vereadores Alfredo do Couto Teixeira, Manoel Monteiro de Moraes e Joaquim Maciel de Figueiredo foram advertidos por terem aprovado a prestação de contas do denunciado, referente ao ano de 1927, que envolvia despesas de cerca de um terço do total pelo qual o denunciado foi condenado. Contudo, os ex-vereadores não sofreram penas devido a circunstâncias atenuantes que lhes foram reconhecidas. Vale destacar que as contas de Adalberto Barbosa foram aprovadas integralmente, evidenciando não apenas a qualidade de sua administração, mas também sua lisura. Decisões como as tomadas pela Junta de Sanções certamente serviram, à época, como uma propaganda de caráter moralizador do novo governo, alinhandose aos ideais da Revolução de 1930, que defendiam o bom e transparente uso dos recursos públicos. A importância política dessa Junta era evidenciada pelo fato de ser presidida pelo mais alto dirigente do estado, o Interventor Federal. É importante observar que, no caso mencionado, nem mesmo Manoel Monteiro de Moraes, prefeito nomeado de Cariacica e apoiador da Revolução, foi poupado de críticas. Esse fato exemplifica uma aparente isenção do governo. Consideramos que as decisões da Junta de Sanções transmitiam, naquele momento, um recado claro: Quem não se comportar devidamente em termos de finanças públicas poderá ser punido. O período de gestão de Manoel Monteiro de Moraes encerrou-se em 30/01/1932. Ele permaneceu 1 ano e 2 meses como prefeito, e não há informações sobre o motivo de sua saída. O Decreto nº 1.983, de 28/01/1932, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 30/01/1932, menciona que sua exoneração ocorreu “a pedido”, sem fornecer explicações adicionais. Abaixo, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 1.983 / Exonera, a pedido, prefeito municipal.
Capítulo 2 54 O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando das atribuição que por lei lhe é conferida, resolve exonerar, a pedido, o sr. Manoel Monteiro de Moraes do cargo de prefeito municipal de Cariacica. Vitória, 28 de janeiro de 1932. JOÃO PUNARO BLEY / Affonso Corrêa Lyrio” -------------------------------------------------------------------------------------- Cabe esclarecer que inúmeras vezes as exonerações “a pedido” não refletem a vontade da pessoa em questão. É comum que a autoridade superior busque remover alguém do cargo por algum motivo, oferecendo a opção de que a saída seja formalizada como “a pedido”. O indivíduo exonerado, diante de tal situação, aceita essa designação, dando a falsa impressão de que a saída é voluntária e que não há nenhuma discórdia entre as partes. Quase todas as exonerações que iremos mostrar neste livro são “a pedido”. Genesio Cardoso Genesio Cardoso foi nomeado prefeito de Cariacica, sucedendo Manoel Monteiro de Moraes. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto nº 1.985, de 29/01/1932, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 30/01/1932. Abaixo, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 1.985 / Nomeia prefeito municipal. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição que por lei lhe é conferida, resolve nomear o sr. Genesio Cardoso para exercer o cargo de prefeito municipal de Cariacica. Vitória, 28 de janeiro de 1932. JOÃO PUNARO BLEY / Affonso Corrêa Lyrio” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 55 É interessante notar que Genesio Cardoso havia sido prefeito do município de Itapemirim antes de ser nomeado para Cariacica. Sua exoneração “a pedido” como prefeito de Itapemirim foi oficializada pelo Decreto nº 1984, de 29/01/1932, também assinado por João Punaro Bley. Esse decreto foi publicado imediatamente antes do Decreto nº 1985 de sua nomeação para Cariacica. A posse efetiva de Genesio Cardoso como prefeito de Cariacica ocorreu em 16/02/1932, sendo noticiada no Diário da Manhã nos dias 17 e 18/02/1932. O Secretário do Interior e Justiça, Affonso Corrêa Lima, compareceu à cerimônia representando João Punaro Bley. A reportagem mais detalhada foi publicada em 18/02/1932 (p. 4) [N° 2838], trazendo a transcrição do discurso de saudação feito por Heraclides Gonçalves, que elogiou, com grande eloquência, o novo prefeito: “DIÁRIO DOS MUNICÍPIOS / CARIACICA Em complemento à notícia que o "Diário da Manhã" estampou em sua edição de ontem, sobre a posse do prefeito deste município, sr. Genesio Cardoso, damos abaixo o discurso proferido pelo sr. Heraclides Gonçalves, tabelião naquela localidade:” “Exmos. srs. Minhas senhoras. É em nome da comissão central, organizadora da singelíssima mas sincera recepção acabamos de vos fazer, que uso da palavra. Não vou fazer um discurso, que me falham as indispensáveis qualidades para isto. São só duas palavras para dizer, em nome dos cariaciquenses mais representativos e mais influentes, dentre os quais não posso deixar de nomear – o cel. Francisco C. Schwab Filho, cel. Manoel Monteiro de Moraes, prefeito demissionário, Braulio Fonseca, Virgilio Schwab, Olybio Deutz, Mario Ferraz Apolonio Miranda, o que faço absolutamente sem cor política, para dizer, repito, a magnifica impressão de v. excia. para Governador deste município, por isto que o acertadíssimo ato do exmo. sr. cap. João Punaro Bley, digníssimo interventor federal no Estado não podia recair em pessoa de maiores qualidades e de maiores merecimentos. Porque o prefeito Genesio Cardoso, velho lutador de rija tempera, nascido ali ao pé do altaneiro Mestre Álvaro mas cujo caráter inamoldável foi formado e retemperado nas mais inclementes lutas políticas travadas no sul do Estado, é um digno herdeiro das invejáveis qualidades de espirito, inteligência, brio e dignidade do velho e saudoso Alexandre Cardoso nome sobejamente conhecido em todo o Estado. Sendo assim, senhores, Cariacica alimenta, as mais justas, as mais fagueiras esperanças na atuação administrativa do seu novo governador; Cariacica deposita nele a mais robusta, inquebrantável confiança; Cariacica se felicita a si mesma pela boa sorte que lhe deu para prefeito uma individualidade digna por todos os títulos de tão elevada investidura; Cariacica, recebendo de braços abertos e transbordando de júbilo a sua mais alta autoridade municipal, congratula-se com o exmo. sr. interventor federal
Capítulo 2 56 no Estado e faz os melhores votos pela felicidade pessoal de seu digno prefeito, de cuja capacidade e aptidão tudo espera. Prefeito Genesio Cardoso – seja bem-vindo!” “Em seguida falou a menina Dulce Miranda, que com palavras entrecortadas de emoção, disse da alegria da mocidade cariaciquense. (Correspondente)” -------------------------------------------------------------------------------------- Em meados de março de 1932, cerca de 30 dias após sua posse, Genesio Cardoso recebeu uma notícia positiva publicada no Diário da Manhã em 12/03/1932, p. 4 [N° 2858] e 15/03/1932, p. 2 [N° 2860]: a fundação do Centro Agrícola de Cariacica, com o competente apoio da prefeitura e da Associação Comercial de Vitória. No entanto, logo depois, ele deve ter enfrentado um período difícil. No Diário da Manhã de 16/03/1932, p. 1 [N° 2861] foi publicada uma denúncia relacionada ao “contrato de carnes verdes” firmado pela prefeitura de Itapemirim durante sua gestão naquele município, em 1931. Genesio respondeu com uma longa carta publicada em 17/03/1932, p. 2 [N° 2862], defendendo-se de todas as acusações. Segundo os relatos, ele conseguiu apresentar uma boa defesa, mas situações como essa não contribuem positivamente para a reputação de um administrador. Foi durante a gestão de Genesio Cardoso, em março-abril de 1932, que Obéd Emmerich, um dos protagonistas desta obra, chegou a Cariacica Sede, solteiro e com 22 anos, para trabalhar como professor primário. Embora fosse uma função acadêmica, seu temperamento levou-o a se envolver em questões políticas, conforme será explorado posteriormente. Seis meses após o início do mandato, ocorreu um fato curioso: em 19/08/1932, o prefeito Genesio Cardoso enviou um telegrama a João Punaro Bley, publicado no Diário da Manhã de 20/08/1932, p. 1 [N° B02992], que transcrevemos abaixo: “CARIACICA, 19 – Em homenagem a vossa senhoria e sábia administração, solicito a inclusão de meu nome na relação de voluntários, para combater a política regional e egoísta de São Paulo”. Respeitosas saudações – Genesio Cardoso -------------------------------------------------------------------------------------- Ou seja, ele se ofereceu para lutar contra os paulistas na Revolução Constitucionalista iniciada em julho de 1932 9 . 9 Em julho de 1932, o estado de São Paulo se revoltou contra o governo de Getúlio Vargas, exigindo eleições e uma nova Constituição. A demora de Vargas em atender essas demandas, aliada à nomeação de interventores considerados inadequados (Ribeiro, 2009), desencadeou a Revolução Constitucionalista de São Paulo. A revolta paulista foi rapidamente reprimida pelas forças federais, com apoio de outros estados, incluindo o Espírito Santo. Unidades militares capixabas, como o 3º BC do Exército e o 2º Batalhão do RPM, foram enviadas para o front em meados de julho de 1932, conforme noticiado pelo Diário da Manhã de 14/07/1932 , p. 1 [N° 2962] e 17/07/1932, p. 1 [N° 2965].
Capítulo 2 57 Podemos compreender, em parte, essa solicitação de inclusão de seu nome na relação de voluntários, pois o Ministério da Guerra havia convocado voluntários para o conflito. No entanto, essa convocação foi divulgada mais de um mês antes do telegrama do prefeito, quando foi publicada no Diário da Manhã de 15/07/1932, p. 1 [Nº 2963], a seguinte nota: Transcrição da convocação no Diário da Manhã de 15/07/1932, p. 1 [N° 2963]: Ministério da Guerra / VOLUNTARIADO Acha-se aberto, nesta data, até 2ª ordem, o voluntariado para o Exército, devendo os interessados se dirigir à atual sede do Comando desta Guarnição à rua Muniz Freire, 19 (3ª C.R.), das 8 às 10 e das 11 às 17, todos os dias úteis. -------------------------------------------------------------------------------------- Não há registros de que Genesio tenha sido mobilizado, provavelmente porque, de meados para o final de agosto de 1932, a derrota das tropas paulistas já era evidente. A Revolução Constitucionalista terminou em 02/10/1932, após diversos combates e cerca de duas mil mortes (Ribeiro, 2009). Em 29/08/1932, Genesio Cardoso recebeu um grupo de escoteiros em Cariacica. É possível que, nessa ocasião, ele tenha encontrado o professor Obéd Emmerich, que, segundo o Diário da Manhã de 04/09/1932, p. 4 [N° 3006], proferiu um discurso em praça pública com “palavras cheias de um sadio otimismo” e exaltou a juventude como “o futuro baluarte da nação brasileira”. Em 1933, o país começou a se modernizar, preparando-se para eleger uma Assembleia Nacional Constituinte. No estado, foi organizado o Partido Social Democrático (PSD) Espírito Santo, formado por apoiadores de Getúlio Vargas e João Punaro Bley, e consequentemente da Revolução de 1930. O Diário da Manhã de 10/02/1933, p. 1 [N° 3136] reportou a organização do PSD em vários municípios. Em Cariacica, uma reunião importante ocorreu no dia anterior. A seguir, transcrevemos grande parte da matéria:
Capítulo 2 64 pouco mais de um ano, até a edição de 07/10/1936, p. 4 [N° 3303], quando foi noticiado que ele estava “detido pela prática do comunismo”. Essa prisão está, certamente, relacionada aos eventos nacionais ocorridos entre 23 e 27 de novembro de 1935, quando a ANL tentou um levante contra o governo de Getúlio Vargas, sendo rapidamente contida pelo aparato policial e militar do governo. Como Ernani Abreu era uma das lideranças da ANL no Espírito Santo, sua detenção pode ser explicada dentro desse contexto. Socrates Moreira da Cunha Socrates Moreira da Cunha foi nomeado prefeito de Cariacica, sucedendo Ernani Abreu. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto nº 5.847, de 18/12/1934, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 20/12/1934. A seguir, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 5.847/ Nomeia prefeito municipal. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição que, por lei, lhe é conferida, resolve nomear o sr. Socrates Moreira da Cunha para exercer o cargo de prefeito municipal de Cariacica. Vitória, 18 de dezembro de 1934. JOÃO PUNARO BLEY / Wolmar Carneiro da Cunha” -------------------------------------------------------------------------------------- Ao que nos consta, cabe mencionar que, diferentemente dos demais prefeitos de Cariacica da época, Sócrates Moreira da Cunha não professava a religião católica. Ele era um cristão evangélico protestante — membro da Igreja Presbiteriana de Vitória, fundada em 1928. Segundo atas dessa igreja, datadas do final da década de 1920 e início da década de 1930, Sócrates era uma pessoa conceituada e bem avaliada pela congregação presbiteriana. Conforme apontado por Martha Zorzal e Silva (1986), havia grupos antagônicos dentro das forças governistas na gestão de Punaro Bley. Com o início do processo de redemocratização em 1934-1935, impulsionado pela promulgação
Capítulo 2 65 da nova Constituição em julho de 1934, essas divergências começaram a se tornar mais evidentes. Cabe lembrar que Sócrates Moreira da Cunha foi um dos membros da Junta Governativa de Cariacica, que esteve à frente do executivo municipal por 32 dias, entre outubro e novembro de 1930, além de ter exercido o cargo de secretáriotesoureiro da prefeitura durante a gestão de Manoel Monteiro de Moraes. Sua nomeação como prefeito no final de 1934 provavelmente ocorreu por fazer parte de um grupo político que apoiou a Revolução de 1930 desde o início e por sua experiência administrativa na prefeitura. No entanto, essa escolha pode não ter sido bem recebida por todas as correntes políticas. Pesquisando no Diário da Manhã, verificamos que, em 16 de janeiro de 1935, ocorreu uma importante reunião na sede da prefeitura de Cariacica, com a presença do prefeito Sócrates Moreira da Cunha, mas presidida pelo coronel Olympio Moreira da Cunha. Inicialmente, supomos que fossem irmãos, mas essa hipótese estava incorreta. O verdadeiro grau de parentesco foi esclarecido por meio de uma pesquisa que fizemos no FamilySearch, um dos mais importantes bancos de dados genealógicos do mundo. Encontramos o assento de nascimento de Natanael Ferreira Cunha (nascido em 1930 e registrado em 1953), que revelou que Natanael era filho de Sócrates Moreira da Cunha e neto paterno de Olympio Moreira da Cunha. Assim, ficou comprovado que Sócrates era filho de Olympio. A reunião de 16/01/1935 na prefeitura tratou da reorganização do Diretório do Partido Social Democrático (PSD) de Cariacica. O secretário do Diretório, Paulo Nascimento, redigiu um documento objetivo e bem estruturado, encaminhando duas cópias em 21/01/1935: uma ao redator do Diário da Manhã e outra ao Interventor Federal. Ambos confirmaram o recebimento, e o jornal publicou o documento nos dias 27/01/1935, p. 1 [N° 2911] e 03/02/1935, p. 2 [N° 2917]. A seguir, transcrevemos, com grifos nossos, a matéria, que o Interventor determinou que fosse publicada no Diário da Manhã de 03/02/1935, p. 2 [N° 2917] cujo conteúdo é praticamente idêntico ao da publicação de 27/01/1935. “O exmo. sr. Interventor Federal recebeu do sr. Paulo Nascimento, secretário do Diretório do P.S.D. de Cariacica, o seguinte ofício datado de 29 de janeiro próximo passado:” “Tenho a honra de comunicar a v. exa. que, em concorridíssima reunião política realizada a 16 do corrente, no edifício da Prefeitura Municipal e sob a presidência do sr. Cel. Olympio Moreira da Cunha, prestigioso e digno orientador da corrente governista neste município, foi reorganizado o Diretório do P.S.D. de Cariacica, o qual ficou constituído pelos seguintes dedicados amigos: Sócrates Moreira da Cunha (prefeito municipal), presidente; Heraclides Pereira Gonçalves, Manoel de Novaes, Esmeraldo Manoel Rodrigues de Freitas e Paulo Nascimento, Secretário.
Capítulo 2 66 Afirmando nossa irrestrita e decidida solidariedade à candidatura do exmo. sr. Cap. Punaro Bley para governador do Estado e as dos srs. Carlos Lindenberg e Fernando de Abreu para senadores, enviamos nossas mais Cordiais saudações. (ass.) Paulo Nascimento / Secretário” -------------------------------------------------------------------------------------- Essa mensagem sobre a reunião de 16/01/1935 em Cariacica foi enviada e publicada em um momento estratégico, pois, em abril de 1935, seria instalada em Vitória a Assembleia Legislativa Constituinte, que elegeria o governador constitucional do estado e os senadores do Espírito Santo. Como o Interventor Federal, João Punaro Bley, era um forte concorrente ao governo, a “irrestrita e decidida solidariedade” à sua candidatura representava um forte elogio político. Além disso, no final de 1935, ocorreriam eleições diretas para prefeito e, em Cariacica, o coronel Olympio Moreira da Cunha se apresentava como um “prestigioso e digno orientador da corrente governista” no município, dentro da legenda do PSD, partido ao qual Bley pertencia, demonstrando sua intenção de se candidatar à prefeitura. É interessante observar que nenhum dos membros do Diretório Municipal de Cariacica presentes na reunião de 16/01/1935 (Olympio Moreira da Cunha, Sócrates Moreira da Cunha, Heraclides Pereira Gonçalves, Manoel de Novaes, Esmeraldo Manoel Rodrigues de Freitas e Paulo Nascimento) participou da “grande convenção” estadual do PSD, realizada em 12/09/1934, quando Hilario Soneghet, era o prefeito, na qual estiveram presentes Hilário Soneghet, Roberto Couto, Accioly Firme, Álvaro Gimenes e Walfredo Paiva. Isso sugere que havia dois grupos distintos disputando a hegemonia do PSD em Cariacica. A ausência de qualquer interseção entre os dois grupos indica uma divisão política dentro do partido no município. Como veremos na próxima subseção, essa disputa resultará em um embate político e jurídico pela liderança do PSD de Cariacica, culminando na vitória de um dos grupos sobre o outro. Com base nos eventos posteriores, podemos conjecturar que, com a firme intenção de ser o futuro prefeito eleito de Cariacica, o coronel Olympio Moreira da Cunha considerou mais apropriado encaminhar sua candidatura não como o pai do prefeito em exercício, mas como o próprio prefeito em exercício. Essa estratégia se assemelhava à do Interventor Federal, que conduzia sua candidatura ao governo do Espírito Santo enquanto ocupava a chefia do governo do estado. Assim, entre o final de março e o início de abril de 1935, é provável que o coronel Olympio Moreira da Cunha, com a anuência de seu filho Sócrates Moreira da Cunha, tenha articulado junto ao Interventor Federal sua própria nomeação como prefeito de Cariacica, substituindo o filho por pelo menos cinco meses, período no qual sua candidatura já poderia estar registrada ou bem encaminhada para a aprovação. Provavelmente, como justificativa para a mudança, Sócrates recebeu uma licença para tratar de “interesses particulares”. Duas audiências com o Interventor corroboram essa hipótese: uma em 15/01/1935, com a presença de
Capítulo 2 67 Olympio e Sócrates, e outra, apenas com Olympio, em 02/04/1935; ver Diário da Manhã de 16/01/1935, p. 2 [N° 2901] e de 03/04/1935, p. 2 [N° 2911]. Nesse contexto, em 3 de abril de 1935, foram elaborados dois decretos: o nº 6.054, abordado nesta seção, e o nº 6.055, que será tratado na próxima subseção. O Decreto nº 6.054, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 04/04/1935, não menciona os termos “exoneração” ou “dispensa”, mas concede a Sócrates Moreira da Cunha uma licença de cinco meses para tratar de interesses particulares, conforme o Art. 59, letra C, da Lei nº 1.708, de 17/01/1929, do Espírito Santo. A seguir, apresentamos a imagem e, posteriormente, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 6.054/ Concede licença. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição que, por lei, lhe é conferida, resolve conceder ao sr. Socrates Moreira da Cunha, prefeito municipal de Cariacica, 5 meses de licença, para tratar de interesses particulares, na forma do art. 59, letra C, da Lei nº 1.708. Vitória, 3 de abril de 1935. JOÃO PUNARO BLEY / Wolmar Carneiro da Cunha” -------------------------------------------------------------------------------------- Dessa forma, o período de gestão de Sócrates Moreira da Cunha encerrou-se em 04/04/1935, sendo, portanto, bastante curto — apenas três meses e meio no cargo. Embora não tenhamos encontrado registros explícitos sobre os “assuntos particulares” mencionados no decreto, é provável que o principal motivo tenha sido o interesse político de seu pai em candidatar-se à prefeitura de Cariacica pelo PSD na eleição de dezembro de 1935, consolidando essa posição como prefeito em exercício. No entanto, essa razão não podia ser declarada explicitamente.
Capítulo 2 68 Olympio Moreira da Cunha Olympio Moreira da Cunha, geralmente referido como coronel (Cel.) Olympio Cunha pela imprensa e até mesmo pelo Diário Oficial, foi nomeado prefeito interino de Cariacica para suceder seu filho, Sócrates Moreira da Cunha, que solicitou e obteve licença para tratar de interesses particulares. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto nº 6.055, de 03/04/1935, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 04/04/1935. Abaixo, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 6.055/ Nomeia Prefeito, interinamente. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição que, por lei, lhe é conferida, resolve nomear, interinamente, o sr. Cel. Olympio Cunha para exercer o cargo de prefeito municipal de Cariacica. Vitória, 3 de abril de 1935. JOÃO PUNARO BLEY / Wolmar Carneiro da Cunha” -------------------------------------------------------------------------------------- É relevante destacar que, diferentemente de outros casos, Olympio Cunha foi nomeado prefeito de Cariacica em caráter interino, substituindo seu filho Sócrates Moreira da Cunha, que recebeu uma licença de cinco meses para tratar de interesses particulares. Teoricamente, Sócrates retomaria o cargo ao final desse período; no entanto, isso não ocorreu. O Cel. Olympio Cunha continuou no cargo até 30/01/1936, permanecendo cerca de dez meses como prefeito nomeado de Cariacica. Na parte final de sua gestão, houve uma acirrada disputa política entre dois grupos, cujo desfecho acabou definindo o rumo político do município pelos dez anos seguintes. Em vez de relatar a gestão de Olympio Cunha como prefeito de Cariacica até janeiro de 1936 – permanecendo na presente seção, como foi feito com os prefeitos anteriores – optamos por abrir uma nova seção, em razão da complexidade e da riqueza dos acontecimentos desse período.
Capítulo 2 69 2.9 O mandato de Olympio Cunha e a conflituosa eleição de 1935 Logo após o início do mandato do Cel. Olympio Cunha como prefeito de Cariacica, em 03/04/1935, o Interventor Federal João Punaro Bley foi eleito indiretamente governador pela Assembleia Legislativa, em uma eleição bastante acirrada, tomando posse três dias depois, em 15/04/1935. Politicamente, essa vitória representou uma grande conquista para Bley, garantindo-lhe estabilidade, reconhecimento e controle sobre a administração do estado. No entanto, a situação em Cariacica não foi de tranquilidade. Dois grupos disputavam a indicação para a candidatura à prefeitura pelo PSD na eleição de dezembro de 1935. De um lado, estava o grupo liderado pelo prefeito em exercício, coronel Olympio Cunha; do outro, o grupo encabeçado pelo exvereador Roberto Couto. Naquele período, o PSD era o partido hegemônico tanto no estado quanto no município, sendo o único com reais condições de eleger o prefeito de Cariacica. Assim, garantir a candidatura pelo partido significava, na prática, assegurar a vitória nas urnas. A estratégia do coronel Olympio Cunha para se tornar o candidato oficial do PSD à prefeitura de Cariacica foi aparentemente bem elaborada. Após 12 de abril de 1935, surgiram diversas manifestações de reverência e elogios ao recém-eleito governador João Punaro Bley, bem como ao próprio coronel e à sua administração em Cariacica. Essas matérias foram publicadas no Diário da Manhã nas edições de 18/04/1935, p. 1 [N° 2976]; 25/04/1935, p. 1 [N° 2980]; 01/05/1935, p. 3 [N° 2984]; 21/05/1935, p. 2 [N° 3000]; 07/06/1935, p. 1 [N° 3013]; 21/07/1935, p. 2 [N° A03049]; e 14/08/1935], p. 2 [N° A03067]. Repetimos que, conforme explicado na seção 1.1, os números entre colchetes permitem que os leitores acessem rapidamente o conteúdo integral das matérias publicadas em PDF. Para que os leitores conheçam parte do teor de tais matérias, transcrevemos, a seguir, com grifos nossos, trechos da que foi publicada no Diário da Manhã de 21/07/1935, p. 2 [Nº A03049]: “Pelos Municípios / CARIACICA ... Coincidindo com os festejos em honra de São Paulo e por iniciativa do benquisto e abastado agricultor, sr. João Lube, realizou-se às 2 horas da tarde do dia 9, em sua residência, uma concorridíssima reunião política na qual se fizeram representar o diretório do P.S.D. de Cariacica e o exmo. sr. cel. Olympio Cunha, prestigioso governador do município. Expondo os motivos da reunião, o sr. João Lube disse que, interpretando não só o seu próprio pensar como o de todos os presentes, sentia-se feliz pelo apoio que, com todos os seus amigos, vinha prestando ao P.S.D. desde a fundação dessa pujante agremiação política. Porque, acrescentou o orador, enfrentando e resistindo à campanha demolidora desencadeada contra a candidatura do exmo. sr. cap. João Punaro Bley à governança suprema do Estado — candidatura afinal vitoriosa — ele e seus amigos, que sempre obedeceram à orientação segura e sensata do exmo. sr. cel. Olympio Cunha, estão contentes e satisfeitos por haverem ficado ao lado da boa causa.
Capítulo 2 70 O orador fez ainda entusiástica alusão à serenidade, tolerância e probidade do exmo. sr. cap. Punaro Bley, preclaro governador do Estado que, cercando-se de auxiliares da elevação mental e operosidade dos exmos. srs. doutores Jorge Kafuri e Carlos Lindenberg, vinha fazendo uma administração de progresso e realizações só comparáveis às do quatriênio Jeronymo Monteiro. Hipotecando, pois, a sua irrestrita solidariedade política ao exmo. sr. cel. Olympio Cunha, probidoso prefeito do município, o orador estava certo de que assim o fazia no P.S.D. e ao exmo. sr. cap. João Punaro Bley, pelo que propunha fosse enviada ao honrado governador do município uma moção de aplauso e franco apoio político. Recebida com entusiasmo e palmas a lembrança do sr. João Lube, foi logo lavrada a moção, que recebeu as assinaturas de 175 eleitores presentes, moradores de São Paulo, Pau Amarelo, Encantado, Biriricas e Piahyba — prova irrefutável do irrefutável prestígio do cel. Olympio Cunha, valoroso chefe do P.S.D. no município de Cariacica. O sr. Paulo Nascimento, membro do diretório municipal e representante do cel. Olympio Cunha, que, por motivo de força maior, não pôde comparecer pessoalmente, usou da palavra agradecendo, em nome do seu digno representado, as confortadoras demonstrações de solidariedade política, confiança e estima pessoal que tão de público acabaram de ser dadas ao chefe regional; e fazendo um veemente elogio à disciplina e coesão do eleitorado da riquíssima região de São Paulo — Biriricas — Pau Amarelo etc., afirma que um dos mais palpitantes problemas do governo do município é atender às necessidades daquelas zonas, as mais produtivas do município ...” -------------------------------------------------------------------------------------- Observa-se que, na solenidade acima, o prefeito, cel. Olympio Cunha, por motivo de força maior, não pôde comparecer pessoalmente e foi representado pelo secretário do partido, Paulo Nascimento. Isso demonstra que Paulo Nascimento gozava da confiança do prefeito. Fizemos questão de sublinhar essa passagem na transcrição, pois essa relação de confiança sofrerá um grande abalo alguns meses depois, com sérias consequências políticas para o prefeito. Até setembro de 1935, as notícias sobre Olympio Cunha foram sempre positivas em sua relação com o PSD e com o governo estadual. Conforme noticiado no Diário da Manhã de 18/09/1935, p. 1 [Nº 3094], em 14 de setembro de 1935 o Diretório do PSD de Cariacica enviou um telegrama ao Dr. Carlos Gomes de Sá, parabenizando-o por sua nomeação como Secretário do Interior e Justiça do governo estadual — o posto mais importante depois do de governador. Assinaram o telegrama, em nome do Diretório: Olympio Cunha, Heraclides Gonçalves, Paulo Nascimento, Manoel Novaes e Esmeraldo Rodrigues.
Capítulo 2 71 Entretanto, a candidatura de Olympio Cunha não estava assegurada — muito pelo contrário! No dia 10/11/1935, o Diário da Manhã, na p. 1 [N° B03037], publicou uma notícia que deve ter sido avassaladora para ele. O secretário do Diretório do PSD, Paulo Nascimento, enviou uma carta ao jornal, datada de 09/11/1935, comunicando a chapa oficial do PSD de Cariacica para as eleições de prefeito e vereadores, que ocorreriam no final de 1935. O candidato a prefeito não era Olympio Cunha, mas sim Roberto Couto. Os candidatos a vereador eram: Pedro Paulo Rodrigues, Manoel Ferreira Paiva, Argeu Bermudes Leite, Álvaro Gimenes e Manoel Novaes. Pela importância da matéria, cujas consequências moldariam — de certa forma — o destino político de Cariacica nos 11 anos seguintes (até 1946), apresentaremos, a seguir, a imagem da matéria e sua transcrição. Transcrição do Diário da Manhã de 10/11/1935, p. 1 [N° B03037]: “A Política no Município de Cariacica Recebemos a seguinte carta: "Cariacica, 9 de novembro de 1935. Ilmo. Sr. Diretor do Diário da Manhã — Vitória — E. Santo.
Capítulo 2 72 Tenho a honra de comunicar a V. S. que o Diretório do Partido Social Democrático deste Município registrou, sob a legenda "Partido Social Democrático", os nomes para os cargos eletivos municipais, como seguem: Para Prefeito Municipal: Roberto Couto. Para Vereadores Municipais: Pedro Paulo Rodrigues, Manoel Ferreira Paiva, Argeu Bermudes Leite, Alvaro Gimenes, Manoel de Novaes. Para Juízes Distritais: Manoel Sarmento Firme, Olibio Lyra Deutz. Para Suplentes: Durval Vieira. Manoel Laurentino, Francisco Scarpino, Andrelino Leão Fraga. Nomes estes que exprimem a verdadeira expressão popular deste Município e de Conceitos firmados entre o eleitorado. Saudações. Paulo Nascimento / Secretário. " ” -------------------------------------------------------------------------------------- Cabe notar que essa péssima notícia para o Cel. Olympio Cunha partiu do secretário do Diretório do PSD, Paulo Nascimento, o mesmo que esteve com Olympio em todos os momentos do ano de 1935, desde a reorganização do Diretório do Partido em Cariacica em 16/01/1935 (Diário da Manhã de 27/01/1935 e 03/02/1935) até, pelo menos, o dia 14/09/1935 (Diário da Manhã de 18/09/1935), quando foi enviado o telegrama ao Dr. Carlos Gomes de Sá. Não sabemos os motivos exatos que levaram o secretário Paulo Nascimento a passar de uma postura elogiosa ao Cel. Olympio — afirmando, em janeiro de 1935, que ele era um “prestigioso e digno orientador da corrente governista” em Cariacica — para, em novembro de 1935, como secretário do Diretório, apoiar uma chapa de candidatos antagônica a Olympio. O Cel. Olympio Cunha, prefeito em exercício de Cariacica, não ficou nada – nada satisfeito com as articulações de seus adversários e, pelo que constatamos, a partir da primeira semana de novembro de 1935, travou uma árdua batalha política e também judicial para tentar fazer valer, dentro do PSD e na Justiça, a sua chapa e, por consequência, tentar impugnar a chapa liderada por Roberto Couto. Dois dias depois da notícia publicada com a primeira chapa, foi a vez de sair a forte resposta do grupo do Cel. Olympio, no Diário da Manhã de 12/11/1935, p. 1 [N° B03039]. Nessa resposta, ficou explicitado que Olympio Cunha era o candidato a prefeito da chapa, e os candidatos a vereador eram: Adalberto Barbosa, Nicacio Amorim, Servilio Innocencio de Gouvêa, Alfredo Couto Teixeira e João Lube. Também, pela importância da matéria e para esclarecer as argumentações do Cel. Olympio Cunha, apresentaremos, a seguir, a imagem da matéria e sua transcrição.
Capítulo 2 73 Transcrição do Diário da Manhã de 12/11/1935, p. 1 [N° B03039]: “Um protesto do Diretório do Partido Social Democrático em Cariacica Recebemos a seguinte comunicação: "Ilmo. sr. Diretor do "Diário da Manhã". O diretório do Partido Social Democrático no município de Cariacica, legalmente constituído, cumprindo a deliberação da Assembleia realizada no domingo, 10 do corrente, vem protestar contra a publicação feita por esse jornal sob o título "A política no Município de Cariacica", na qual foi publicada a organização de uma chapa constituída de elementos estranhos ao referido Partido. O próprio signatário da referida nota está destituído das funções que exercia no Partido, não só em consequência da reorganização do diretório promovida em assembleia, como em vista do que estabelece a letra "d" do artigo 24 dos Estatutos do P.S.D. Também o registro de candidatos, cujas indicações cabem ao diretório (letra "b" do artigo 10 dos Estatutos), só poderá ser promovido pelo delegado do Partido. E o delegado do Partido em Cariacica não é o sr. Hilário Soneghetti que, segundo consta, se utilizou indevidamente daquelas atribuições para se dirigir ao exmo. sr. Juiz Eleitoral, uma vez que aquele cavalheiro, não residindo mais em Cariacica, onde nem é eleitor, teve revogada a delegação que lhe foi conferida, tacitamente, em virtude das disposições contidas na letra "c" do artigo 24 dos Estatutos e, expressamente, pela nomeação do novo delegado, cel. Olympio Cunha, de
Capítulo 2 80 Transcrição do Diário da Manhã de 14/01/1936, p. 6 [N° 3088]: “Eleitorais / EDITAL O doutor Romulo Finamore, Juiz Eleitoral da 7ª Zona, Presidente da Junta Apuradora do 1° Círculo Eleitoral, etc., etc. FAZ saber aos que o presente edital virem, ou dele notícia tiverem, que, pelo sr. Olympio Cunha, candidato a Prefeito pelo Partido Governista de Cariacica e delegado do mesmo Partido, foi interposto recurso da decisão desta Junta que proclamou eleitos e mandou expedir diplomas aos seguintes candidatos no referido Município: Roberto Couto, Prefeito; Alvaro Gimenes, Manoel Novaes e Argeu Bermudes Leite, vereadores; Manoel Ferreira Paiva e Pedro Paulo Rodrigues, suplentes de vereador; Olibio Lyra Deutz, Juiz Distrital do 2° Distrito (Itaquari); Manoel Laurentino e Andrelino Leão Fraga, respectivamente 1º e 2º suplentes de Juiz Distrital do mesmo Distrito — todos candidatos registrados pela legenda do Partido Social Democrático; ficando assim os supra citados candidatos intimados para os fins do art. 174, § 2º do Código Eleitoral vigente. E, para que chegue ao conhecimento de todos, mandou passar o presente edital e publicá-lo na Imprensa Oficial. Dado e passado nesta Cidade de Vitória, Capital do Estado, aos treze dias do mês de janeiro de 1936. Eu, Publio Neves da Motta, Secretário, datilografei o presente e assino. (aa). Publio Neves da Motta / Romulo Finamore” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 81 A partir desta notícia, ficamos sabendo, primeiramente, que o Cel. Olympio Cunha interpôs um recurso para anular a diplomação dos candidatos indicados pelo PSD. Em segundo lugar, ficamos cientes do resultado eleitoral, com exceção dos nomes de dois vereadores. Como é interessante para os leitores terem uma listagem de todos os eleitos, iremos adiantar em um quadro que será mostrado mais abaixo os nomes desses dois vereadores, que foram encontrados em uma notícia publicada no final de janeiro de 1936 e que será apresentada posteriormente. De um total de 5 vereadores, o PSD elegeu 3 — já que 2 ficaram como suplentes —, e os outros 2 vereadores eleitos eram do PGC, completando uma Câmara com um total de 5 cadeiras. É muito provável que o percentual de votos dos dois partidos na eleição majoritária para prefeito tenha sido similar ao da eleição proporcional da Câmara. Ou seja, na eleição para prefeito, o PSD deve ter obtido cerca de 60% dos votos válidos e o PGC, cerca de 40%. Por outro lado, observa-se que o PSD elegeu apenas o Juiz Distrital do 2º Distrito (Itaquari) e, por consequência, o PGC deve ter elegido o Juiz Distrital do 1º Distrito, a Sede. Por essa votação, pode-se supor que o PSD teve mais votos no 2º Distrito, enquanto o PGC teve mais votos no 1º Distrito. Concluindo, podemos descortinar o seguinte quadro com os resultados dessa eleição: --------------------------------------------------------------------------------------------- MUNICÍPIO DE CARIACICA RESULTADOS da ELEIÇÃO DE 15/12/1935 PREFEITO Eleito: Roberto Couto (PSD): com ~ 60% dos votos válidos não eleito: Olympio Cunha (PGC): com ~ 40% dos votos válidos. VEREADORES Eleitos do PSD: Alvaro Gimenes, Manoel Novaes, Argeu Bermudes Leite. VEREADORES Eleitos do PGC: Adalberto Barbosa, Alfredo do Couto Teixeira VEREADORES SUPLENTES do PSD: Manoel Ferreira Paiva, Pedro Paulo Rodrigues. VEREADORES SUPLENTES do PGC: Nicacio Amorim, Servilio Innocencio de Gouvêa, João Lube. JUIZ DISTRITAL do 1° D. Eleito: Theologo Barbosa: – registrado pelo PGC, com os Suplentes: 1° Joaquim Maciel de Figueiredo, 2° Nominando Corrêa. JUIZ DISTRITAL do 2° D. Eleito: Olibio Lyra Deutz: – registrado pelo PSD, com os Suplentes: 1° Manoel Laurentino, 2° Andrelino Leão Fraga. Siglas: PSD: Partido Social Democrático; PGC: Partido Governista de Cariacica. ---------------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 82 Cabe explicar que, segundo nossas pesquisas, o quadro acima é inédito e, além disso, muito relevante, pois a alternativa mais viável para obter as informações nele contidas — bem como outras mais detalhadas — seria consultar o Diário Oficial do Espírito Santo / Diário da Justiça. Entretanto, em julho de 2025, entramos em contato com o Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) e com o Departamento de Imprensa Oficial do Espírito Santo (DIO-ES), que nos informaram, respectivamente, que não existem microfilmes nem exemplares físicos do Diário Oficial do Espírito Santo / Diário da Justiça relativos ao final de 1935 e ao início de 1936. Também não conseguimos localizar microfilmes ou exemplares físicos de A Gazeta ou de outro jornal do período. O jornal A Tribuna só foi criado em setembro de 1938. Não obstante todos os recursos judiciais interpostos, o Cel. Olympio Cunha não logrou êxito na justiça para anular a diplomação dos candidatos indicados pelo PSD. Existe uma série de notas oficiais do judiciário no Diário da Manhã — de 14/01/1936, p. 6; 15/01/1936, p. 5; 18/04/1936, p. 4; até 19/07/1936, p. 6 — que demonstram seu insucesso. Roberto Couto e os vereadores eleitos acabaram tomando posse em 30 de janeiro de 1936, mas isso será tratado na próxima seção. É interessante observar que essa complexidade e riqueza de acontecimentos relatados nesta seção só se verificam em um ambiente de normalidade democrática — proporcionada no curto período após a Constituição de 1934. Cabe destacar que a troca de prefeitos, após 1930, era um fato relativamente simples — dependia apenas da articulação do Interventor Federal com os políticos que o apoiavam, cabendo a última palavra ao próprio Interventor, que simplesmente fazia a nomeação. Pelo contrário, em um ambiente democrático, podem aflorar divergências, como as narradas nesta seção, existindo, ainda, veículos de imprensa de oposição (cf. mencionado no Diário da Manhã de 27/11/1935, p. 1), que dão voz a pontos de vista discordantes do governo. 2.10 Roberto Couto em 1936–1937 como prefeito eleito Roberto Couto tomou posse como prefeito eleito de Cariacica no dia 30 de janeiro de 1936. Nessa mesma data também foram empossados os vereadores eleitos. A cerimônia de posse foi noticiada com destaque no Diário da Manhã de 31/01/1936, p. 1 [nº 4002], conforme mostrado na imagem com o início e o fim da matéria a seguir, e com a transcrição integral na sequência:
Capítulo 2 83 Transcrição do Diário da Manhã de 31/01/1936, p. 1 [N° 4002]: “A posse do sr. Roberto Couto na Prefeitura de Cariacica Realizou-se ontem, às 16 e meia horas, na próspera vila de Cariacica, a posse do prefeito eleito sr. Roberto Couto. Foi uma solenidade festiva, para a qual muito concorreu o entusiasmo dos seus inúmeros correligionários, que acorreram a esse ato, enchendo a praça fronteira ao edifício da Prefeitura. Desta cidade seguiram muitas pessoas de destaque social e político para assistirem à transmissão do governo daquele adiantado município. Especialmente convidados para esse fim, seguiram para Cariacica o ilustre dr. Carlos Lindenberg, digno Secretário da Fazenda, por si e pelo exmo. sr. Governador, e sua exma. esposa; o tenente Arthur Bahia, representando o dr. Secretário do Interior; major Henrique Villa, comandante da Força Pública, e major Álvaro Coutinho; o deputado Nelson Monteiro; cel. Vicente Peixoto, inspetor dos Municípios; e o representante do Diário da Manhã. O Juiz Eleitoral dr. Eurípedes Queiroz do Valle, depois de convidar os srs. dr. Carlos Lindenberg e tenente Bahia para, com ele, formarem a mesa e dando por instalados os trabalhos, passou a receber os diplomas, findo o que conferiu ao novo prefeito e aos novos vereadores o compromisso regimental. Terminada essa cerimônia, ouviu-se demorada salva de palmas. Fez uso da palavra o dr. Eurípedes Queiroz do Valle, que pronunciou empolgante discurso, terminando por almejar para Cariacica uma época de paz, de concórdia e trabalho eficiente, desejando que todos esquecessem ressentimentos, para o bem e para o progresso do município.
Capítulo 2 84 Falou, a seguir, o vereador sr. Manoel Novaes, que, em breves palavras, que impressionaram bem, agradeceu ao povo de Cariacica a sua eleição e a de seus companheiros. Por último, falou o dr. Carlos Lindenberg, que, em nome do sr. Governador e em seu próprio, congratulava-se com o povo daquele município pela volta de Cariacica à constitucionalidade. Desejava que todos, prefeito e vereadores, de mãos dadas, trabalhassem pelo desenvolvimento sempre crescente daquela terra, e que todos, eleitos e vencidos, esquecessem, de uma vez, mágoas e ressentimentos e se esforçassem pela prosperidade moral, intelectual e material do município. Referindo-se ao prefeito Roberto Couto, disse que, da sua capacidade de trabalho, operosidade e energia, tudo esperava o povo de Cariacica. Encerrada a sessão e servida a champagne, foram trocados amistosos brindes. A Câmara ficou constituída pelos vereadores Adalberto Barbosa, Manoel Novaes, Alvaro Gimenes, Argeu Leite e Alfredo do Couto Teixeira. Durante todas essas solenidades, tocou a banda de música da Força Pública do Estado.” -------------------------------------------------------------------------------------- Observa-se que a posse foi uma solenidade festiva, encerrada com brindes amistosos com taças de champanhe. Esse evento marcou o início de um novo período em Cariacica — de grande calmaria após muitas desavenças nas eleições —, com o poder passando oficialmente da liderança do Cel. Olympio Cunha para Roberto Couto, que também contava com o apoio do governador João PunaroBley. Comprovando que o período anterior foi realmente de grande turbulência, dois dos três oradores mencionados na notícia falaram em esquecer o passado e voltarse para o futuro. O Juiz Eleitoral Eurípedes Queiroz do Valle terminou seu discurso almejando para Cariacica “uma época de paz, de concórdia e trabalho eficiente, desejando que todos esquecessem ressentimentos, para o bem e para o progresso do município.” Já o Secretário da Fazenda, Carlos Lindenberg, que falou em seu nome e em nome do governador, desejou que “todos, eleitos e vencidos, esquecessem, de uma vez, mágoas e ressentimentos e se esforçassem pela prosperidade moral, intelectual e material do município.” A administração do prefeito eleito, Roberto Couto, de 30 de janeiro de 1936 até 10 de novembro de 1937, ocorreu em um período de democracia no país e foi aparentemente tranquila. As notícias no Diário da Manhã eram sempre positivas — pois o jornal era ligado ao PSD —, mas esparsas. Às vezes, eram publicadas matérias sobre iniciativas da administração, como a fundação de uma cooperativa agrária (Diário da Manhã, 17/12/1936, p. 1 [N° 3361]), e também matérias políticas, como a eleição do Diretório do PSD (Diário da Manhã, 09/03/1937, p. 1 [N° A03425]) e
Capítulo 2 85 comícios (Diário da Manhã, 19/08/1937, p. 1 [N° 3555]). Mas o mais comum eram as notícias após solenidades cívicas, como o Dia da Pátria (Diário da Manhã, 25/09/1936, p. 7 [N° 3293]) e a Proclamação da República / Dia da Bandeira (Diário da Manhã, 28/11/1936, p. 2 [N° 3346] e 26/11/1937, p. 2 [N° B03433]). Também, às vezes, eram publicadas notícias envolvendo Cariacica, mas com um claro enfoque de propaganda para o governo do estado, como nas inaugurações de uma usina de fabricação de féculas de mandioca e preparo de farinha (Diário da Manhã, 17/04/1937, p. 1 e p. 8 [N° A03455]) e de instalações de um grupo escolar (Diário da Manhã, 15/10/1937, p. 1 [N° B03399]). Para que os leitores tenham uma melhor compreensão da forma e do teor de tais notícias, apresentaremos algumas dessas matérias, começando pela imagem e pela transcrição do Diário da Manhã, de 28/11/1936, p. 2 [N° 3346], que tratou das solenidades da Proclamação da República / Dia da Bandeira de 1936:
Capítulo 2 86 Transcrição do Diário da Manhã de 28/11/1936, p. 2 [N° 3346]: “O «Diário» dos Municípios – CARIACICA As datas de 15 e 19 de novembro tiveram nesta vila condigna comemoração. Homenageando o 47º aniversário da Proclamação da República, as Escolas Reunidas "Augusto Luciano" realizaram uma parada ao som dos tambores e cornetas do batalhão infantil, cantando a criançada canções e marchas patrióticas. Percorridas as principais ruas da nossa pequena "urbs", fez-se alto em frente ao edifício da Prefeitura Municipal, onde já se achavam reunidas autoridades, pessoas gradas e grande número de pessoas do povo. Feitas várias evoluções pela tropa colegial e metida esta em posição de sentido, usaram da palavra o sr. Dario Oliveira, secretário da Prefeitura, representando o exmo. sr. Roberto Couto, digno governador do município; professor Gilberto Nascimento, esforçado diretor das nossas Escolas Reunidas; e a professora Altair Barbosa, da Secção de Cultura Física, discorrendo todos, fluentemente, sobre a grande data da implantação do regime republicano no Brasil. Cantado a seguir o Hino Nacional pela criançada das escolas, professores e muitas pessoas componentes da grande assistência, a professora Altair Barbosa passou a fazer, com suas alunas dos 1.º, 2.º e 3.º graus, algumas demonstrações de educação física, que agradaram sobremaneira pela disciplina, inteligência e exatidão de movimentos das alunas. A seguir, e com grande animação, realizou-se a "Corrida de Estafetas" entre os partidos "Heitor Belache" e "Roberto Couto”, tendo saído vencedor da interessante prova o partido "Heitor Belache”, que recebeu prolongada salva de palmas, cabendo também à distinta professora Altair uma porção de aplausos. — * — Igualmente a 19 de novembro — o Dia da Bandeira — foi comemorado com ardor cívico e muito patriotismo pelas Escolas Reunidas "Augusto Luciano". Incorporadas, como no dia 15, todas as classes, devidamente chefiadas pelo diretor, professor Gilberto Nascimento, e professoras Ignez Mendes Pinheiro, Adalzira Osorio da Costa Motta, Dulce Garcia Ferreira, Olga Figueiredo Memelli, Ondina Benevath Duarte, Adelaide Schwab Ferreira, Alade Schwab e Altair Barbosa — foi o sagrado pavilhão nacional hasteado, exatamente ao meio-dia, na fachada do edifício da Prefeitura Municipal, ao som do hino pátrio, vibrantemente cantado por mais de duzentas vozes. Hasteada a bandeira, que fora coberta, no momento, por milhares de pétalas de rosas e confetes dourados, usaram da palavra o sr. Roberto Couto, operoso prefeito municipal, professor Gilberto Nascimento e sr. Obed Emmerich, chefe municipal da Ação Integralista em Cariacica, que todos souberam, com grande patriotismo, cantar glórias e proferir prolfaças [parabéns] ao estremecido "auriverde pendão da nossa terra".
Capítulo 2 87 Ainda por vários alunos de ambos os sexos foram recitadas poesias alusivas ao ato, arrancando nossos pequenos declamadores entusiásticos e vivos aplausos da numerosa assistência. Finalmente, com gallarda passeata pelas ruas da vila, ficaram encerradas as solenidades e homenagens prestadas pelas Escolas Reunidas "Augusto Luciano" ao abençoado Dia da Bandeira. Em 22 — 11 — 1936. / (Correspondente)” -------------------------------------------------------------------------------------- Conforme transcrito no penúltimo parágrafo da notícia acima, Obéd Emmerich, reportado como “chefe municipal da Ação Integralista em Cariacica”, foi um dos três oradores que usaram a palavra. Além dele, falaram apenas o prefeito Roberto Couto e o diretor das Escolas Reunidas "Augusto Luciano", que sediou a solenidade. Cabe mencionar que a participação de Obéd no evento e a inclusão de seu nome na notícia do Diário da Manhã de 28/11/1936 devem ter sido uma concessão que contou, provavelmente, com a aprovação do prefeito Roberto Couto, do PSD, já que, em princípio, ao que nos consta, os integralistas não participavam do governo municipal nem do estadual. Como, no início de 1938, estavam previstas eleições em âmbito federal, em março de 1937 o PSD de Cariacica tratou de formalizar a composição de seu Diretório, conforme reportado no Diário da Manhã de 09/03/1937, p. 1 [N° A03425]. Apresentamos a seguir a imagem e a transcrição dessa notícia.
Capítulo 2 88 Transcrição do Diário da Manhã de 09/03/1937, p. 1 [N° A03425]: “O PARTIDO SOCIAL DEMOCRÁTICO EM CARIACICA ELEITO O DIRETÓRIO DO MUNICÍPIO Anteontem reuniram-se na sede do município de Cariacica os diretórios do P.S.D. do 1º e do 2º distritos para a eleição do diretório central do município. Além dos membros componentes, foi grande a multidão de políticos que, com o seu sólido prestígio, dão pleno apoio à maior entidade política do Espírito Santo. Aberta a sessão, foi pelo sr. prefeito Roberto Couto explicado o fim daquela convocação. Em seguida tiveram início os trabalhos da eleição, tendo sido apurado o seguinte resultado para a Comissão Efetiva: Roberto Couto, Esmeraldo Manoel Rodrigues Freitas, Julião Miranda Pinto, Paulo Nascimento e Manoel de Novaes. Para suplentes foram escolhidos os seguintes correligionários: Pedro Paulo Rodrigues, Argeu Bermudes Leite e Olybio Lyra. Usando da palavra, o sr. Manoel de Novaes pediu permissão aos seus pares para que fossem indicados para presidente, vice-presidente e secretário, respectivamente, os srs. Roberto Couto, Esmeraldo Manoel Rodrigues Freitas e Julião Miranda Pinto. A proposta foi aceita, tendo sido eleitos aqueles pessedistas em meio das mais expressivas aclamações. Em seguida à reunião, foram trocadas ideias quanto ao alistamento eleitoral e propaganda do Partido, ao mesmo tempo que se firmava a mais perfeita solidariedade ao chefe do governo do Estado.” -------------------------------------------------------------------------------------- Para ilustrar uma das matérias com claro teor de propaganda do governo estadual, num período em que se aproximavam as eleições presidenciais, para o Senado e para a Câmara Federal, apresentamos a seguir a parte inicial e final da imagem da notícia sobre a inauguração das instalações do Grupo Escolar de Cariacica, publicada no Diário da Manhã de 15/10/1937, p. 1 [N° B03399]. Em seguida, será apresentada a transcrição completa.
Capítulo 2 89 Transcrição completa da extensa matéria do Diário da Manhã de 15/10/1937, p. 1 [N° B03399]: “As realizações da administração Bley Inauguração do Grupo Escolar de Cariacica No dia 12 do corrente foi solenemente inaugurado o Grupo Escolar de Cariacica. Com a realização de mais este importante empreendimento, dá a patriótica administração do nosso Estado, em boa hora confiada ao espírito progressista do exmo. sr. capitão Punaro Bley, mais uma inequívoca demonstração do seu interesse pelo desenvolvimento cultural da terra capixaba. Seguiram incorporados para a vila de Cariacica, com o intuito de tomar parte na inauguração do Grupo Escolar daquela tradicional localidade, recentemente mais moderna, os exmos. srs. capitão João Punaro Bley, governador do Estado; desembargador Celso Calmon Nogueira da Gama, secretário do Interior; dr. Arnulpho Mattos, secretário da Educação e Saúde Pública; dr. Carlos Lindenberg, secretário da Agricultura; dr. Augusto Seabra; dr. Mário Freire, diretor do Banco Agrícola do Estado; dr. Jordino Bragança, secretário da Governadoria; dr. Mário Corrêa de Lima, presidente da Assembleia Legislativa; deputados Álvaro Mattos e Jânio Freitas; cel. Vicente Peixoto, chefe da Assistência Técnica aos Municípios; major Bráulio Porto, comandante da Polícia Militar; capitães Anízio Pereira de Souza e Inácio de Souza; tenente Arthur Bahia; professor Placidino Passos, chefe da Inspetoria do Ensino Primário; Genésio Pimentel, chefe de seção da Secretaria da Instrução. A comitiva foi recebida em Cariacica pelos srs. prefeito, vereadores, professores, alunos das escolas públicas, autoridades locais e grande massa popular. No ato inaugural usaram da palavra, produzindo eloquentes discursos, os exmos. srs. capitão Punaro Bley e dr. Arnulpho Mattos, os quais foram entusiasticamente aplaudidos. Em seguida, oraram o sr. diretor do Grupo e a professora Dulce Garcia Ferreira, proferindo vibrantes alocuções alusivas ao ato festivamente comemorado. A inteligente menina Noêmia Ferreira, aluna do primeiro ano, pronunciou a seguinte oração: "Exmo. sr. Governador. Quis a bondade de minha professora escolher a mais nova das alunas desta vila para vos dizer algumas palavras nesta hora em que se inaugura o nosso Grupo Escolar. Pouco sabendo como os de minha idade, pouco vos direi, porque o silêncio é mais expressivo do que as palavras, mormente quando estas saem da boca de quem pouco sabe se exprimir em solenidades como esta. Somente vos direi que, nos nossos coraçõezinhos, ficará assinalado como um preito de gratidão o nome do administrador ilustre que ora dirige os nossos destinos, e que a inauguração deste Grupo Escolar lembrará sempre a pessoa do nosso grande benfeitor, o exmo. sr. governador Bley, bem como
Capítulo 2 96 ... CARIACICA, 4 — Apraz-me declarar a Vossência que a recondução do exmo. sr. Roberto Couto na chefia do Executivo Municipal de Cariacica repercutiu em todo o Município agradabilissimamente. Administrador probo, desapaixonado e operoso, a permanência do exmo. sr. Roberto Couto à frente dos públicos negócios cariaciquenses enche de indizível júbilo os corações de todos os seus munícipes, revelando, ao mesmo passo, mais um acertado ato de grande justiça com que Vossência vem cada vez mais se tornando credor da imensa e profunda admiração do povo capixaba. Com a mais irrestrita solidariedade ao benemérito Governo de Vossência, enviamos nossas respeitosas saudações. — Alvaro Gimenes; Manoel Novaes; Virgílio Schwab; Heraclides Gonçalves; Augusto Rosetti; Argeu Bermudes Leite; Paulo Nascimento; Lafayette Cardoso; Paulo” -------------------------------------------------------------------------------------- Um fato interessante que cabe comentar é que quatro dos nomes elencados no último parágrafo do telegrama se tornariam, no futuro, protagonistas na história da cadeira de prefeito de Cariacica. Dois deles acabaram sendo prefeitos nomeados em 1942 e 1947, e dois participaram como candidatos a prefeito em 1947 e 1950. Observa-se que o último nome que apareceu no telegrama foi simplesmente “Paulo”, sem menção ao sobrenome. Poderia ter sido um erro de repetição, caso se referisse a Paulo Nascimento, mas também poderia tratar-se do político do PSD Pedro Paulo Rodrigues, que residia no 2º distrito, ou do empresário Paulo Rodrigues, morador de Cariacica Sede e também ligado ao PSD. O esclarecimento dessa questão foi fornecido em uma edição do jornal publicada três dias depois, como será visto a seguir, e favorece a segunda hipótese: Paulo Rodrigues. A última matéria do ano de 1937 envolvendo Cariacica no Diário da Manhã foi publicada na página 2 da edição de 08/12/1937 [N° B03443]. Essa notícia apresenta um telegrama de Roberto Couto ao Interventor Federal, comunicando que prestou compromisso perante o Secretário do Interior — o que significa que assinou todos os documentos pertinentes — e agradecendo-lhe por sua nomeação. Abaixo desse telegrama do dia 7, o jornal repetiu a matéria publicada em 05/12/1937, com o telegrama enviado por cariaciquenses em 04/12/1937 congratulando Roberto Couto por sua posse. No entanto, desta vez, foi publicada a lista completa dos nomes que subscreveram o telegrama, corrigindo a versão truncada anteriormente divulgada. É provável que essa tenha sido a razão para a repetição. A seguir, apresentaremos a imagem da matéria do Diário da Manhã de 08/12/1937, p. 2 [N° B03443], e sua transcrição — com exceção do primeiro parágrafo do telegrama de 04/12, já transcrito na edição de 05/12/1937.
Capítulo 2 97 Transcrição parcial do Diário da Manhã de 08/12/1937, p.2 [N° B03443: “Interventoria Federal” [O Exmo. sr. Interventor Federal recebeu os seguintes telegramas:] ... “Cariacica, 7 — Tenho a honra de comunicar a Vossência que prestei ontem compromisso perante o Sr. Secretário do Interior para o cargo de Prefeito deste Município. Agradeço a Vossência a prova de confiança, reconduzindo-me ao referido cargo. Saudações. — Roberto Couto — Prefeito Municipal.” ... “Cariacica, 4 — Apraz-me declarar... [mesmo parágrafo que saiu em 05/12/1937] Com a mais irrestrita solidariedade ao benemérito Governo de Vossência, enviamos nossas respeitosas saudações. — Alvaro Gimenes — Manoel Novaes — Virgílio Schwab — Heraclides Gonçalves — Augusto Rosetti — Argeu Bermudes Leite — Paulo Nascimento — Lafayette Cardoso — Paulo Rodrigues — Carlos Schwab — Alfredo Couto Teixeira — Idalio Felicio — Manoel Firme — Manoel Paiva — Getulio Leite — Accioli Firme — Esmeraldo Rodrigues Freitas — Manoel Sarmento Firme — Gilberto Nascimento — Olybio Lyra Deutz — Clayde Cruz — Ignez Pinheiro — Dulce Ferreira — Ondina Duarte — Adelaide Schwab — Adalzira Motta — Eloah Gonçalves — Olga Figueiredo — Aida Firme — Alade Schwab — Isael Fraga — Theologo Barbosa — Theolinda Almeida Brandão — Alcebiades Sarmento — Pedro Sabino — Lindolpho Guterres — Mario Rosetti — José Maria Ferreira — Manoel Laurentino — Durval Vieira — José Jorge Simão — Esmeraldino Leite — José Furtado — Architriclino Leitão.” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 98 Como os leitores puderam verificar, o jornal Diário da Manhã, por estar disponível na internet por meio da Hemeroteca Digital Brasileira, foi uma fonte imprescindível de informações até este momento. Infelizmente, o último exemplar disponível na Hemeroteca Digital é o de 31/12/1937 [N° B03461]. Portanto, a partir do início de 1938, ficamos privados de suas notícias. Como o país vivia um regime de exceção, sem espaço para o contraditório, é muito provável que o Diário da Manhã deixou de ser necessário, pois não haveria mais eleições e tampouco a necessidade de defesa do governo perante outros jornais, como A Gazeta (criado em setembro de 1928) e A Tribuna (criado em setembro de 1938). Esses jornais, dificilmente, teriam a ousadia de criticar o governo — muito pelo contrário, a tendência natural dos periódicos que desejavam sobreviver era apoiar e elogiar o regime. Embora a obra Impressões Capixabas (Martinuzzo, 2005) não apresente a data de encerramento do Diário da Manhã, é provável que o jornal tenha sido extinto em 1938, uma vez que não há exemplares posteriores a 1937 disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira. São necessárias mais investigações para confirmar de forma cabal essa suposição. Conforme explicado na seção 2.1, está fora do escopo desta obra aprofundar pesquisas em A Gazeta, A Tribuna e outros jornais que não estão disponíveis em formato digital, para traçar os detalhes das administrações dos prefeitos de Cariacica a partir de 1938. Deixamos essa empreitada, que é relevante, para outros autores. Conforme também já explicado na seção 2.1, a partir deste ponto da história, com dedicação, iremos nos concentrar principalmente em pesquisas no Diário Oficial do Espírito Santo para apresentar aos leitores todas as nomeações e exonerações de prefeitos até 1947. Antes de passar ao final da administração de Roberto Couto, convém tratar de dois assuntos. O primeiro é sobre eventos ocorridos em maio de 1938, no Rio de Janeiro, que se refletiram um pouco no Espírito Santo e, em menor proporção, em Cariacica. O segundo refere-se a uma importante notícia envolvendo várias solenidades em Cariacica, em 1939, que felizmente foi possível obter por estar disponível na revista Vida Capichaba. Conforme relatado em detalhes na seção 3.9 do livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025), em 11 de maio de 1938 houve uma tentativa de golpe de integralistas contra o governo de Getúlio Vargas. Cerca de 80 integralistas atacaram o Palácio Guanabara (residência oficial do presidente) no Rio de Janeiro. A reação do Estado Novo a esse levante foi extremamente rigorosa e abrangente, estendendo-se por todo o país, não apenas no Rio de Janeiro. Cerca de 1.500 integralistas de todo o país foram presos (Menandro, 2001), mesmo sem participação direta ou indireta no golpe. Esse foi o caso, por exemplo, de ex-governadores e ex-chefes de núcleos integralistas da AIB no Espírito Santo, como Obéd Emmerich. Os detalhes do encarceramento de Obéd e de outros integralistas do Espírito Santo em maio de 1938 estão apresentados na obra citada.
Capítulo 2 99 As informações foram baseadas no Diário Oficial do Espírito Santo e em documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Em relação a Cariacica, cabe mencionar as prisões de Obéd e de Cícero Nunes de Oliveira, que foram reportadas no ofício do Delegado de Polícia da cidade ao Chefe de Polícia de Vitória, em 16 ou 17 de maio de 1938. Além de Obéd e Cícero, outros integralistas do município também foram presos. Segundo relatou Obéd (cf. seção 5.9 da obra já citada), João Francisco Rodrigues, conhecido como Jones, também foi preso, juntamente com seus filhos, em 1938. Cabe destacar que Jones – lavrador e morador do Morro do Óleo (zona rural situada entre Cariacica Sede e a Represa de Duas Bocas) – era um denodado integralista, amigo e companheiro de Obéd desde 1934. Obéd permaneceu como preso político por cerca de três meses, mas os eventos de sua prisão e dos outros de Cariacica – pessoas de pouca expressão do ponto de vista político – não geraram ou acarretaram praticamente nenhuma interferência na vida política do município. A última notícia desse período – obtida por meio da Hemeroteca Digital Brasileira – data de 1939. A revista Vida Capichaba de 30/06/1939, p. 32/40 [N° 481], reportou um importante dia na administração de Roberto Couto, envolvendo diversas solenidades que contaram com a presença de destaque do Interventor Federal, conforme a transcrição a seguir: “Município de Cariacica Inauguração do novo edifício municipal e outros melhoramentos públicos. Do Sr. Roberto Couto, dinâmico e prestigioso prefeito da vizinha cidade de Cariacica, recebemos convite para a solenidade de comemoração de diversos melhoramentos com que o Sr. Roberto Couto vem dotando o município, que tão proficientemente dirige. A essa solenidade compareceram o excelentíssimo Sr. Interventor Federal, Cap. João Punaro Bley, e dignos auxiliares, além de numeroso grupo de pessoas gradas. Foi o seguinte o programa das solenidades a que acima nos referimos: Às 8h30 – Recepção ao excelentíssimo Sr. Cap. Punaro Bley e comitiva na ponte do Rio Marinho; inauguração do Matadouro de Jardim América; trecho da estrada Alto Formoso a Campo Grande; e visitação ao cemitério da vila de Itaquari. Às 10h30 – Imponente missa campal no Parque Municipal. Às 11h – Inauguração do edifício municipal, onde foram expostos, com solenidade, os retratos do eminente chefe do Governo Federal, Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas, e do digno Interventor do Estado, Cap. Punaro Bley. Às 12h – Visitação ao novo cemitério público municipal da cidade. Às 12h30 – Churrasco genuinamente gaúcho, oferecido pelos agricultores do município, na Granja Chanaan, ao Exmo. Sr. Cap. Interventor e seu secretariado.
Capítulo 2 100 Esses festejos tiveram o abrilhantamento da Banda da Polícia. Agradecemos o convite.” -------------------------------------------------------------------------------------- A presença do Interventor Federal João Punaro Bley, principal líder do governo do estado, certamente deve ter influenciado a publicação dessa matéria de 1939 na revista Vida Capichaba, em um período de ditadura no qual, em geral, a imprensa tendia a apoiar, e não a contrariar, o governo. Mesmo com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1º de setembro de 1939, os eventos no começo da década de 1940 devem ter continuado a ocorrer em Cariacica de forma semelhante ao período de 1938–1939. O período de gestão de Roberto Couto encerrou-se em 02/06/1942. Ele permaneceu 4 anos e 6 meses como prefeito nomeado, e não há informações oficiais sobre o motivo de sua saída. O Decreto nº 13.563, de 01/06/1942, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 02/06/1942, menciona que sua exoneração ocorreu “a pedido”. Se somarmos o período anterior como prefeito eleito, de 1 ano e 10 meses, Roberto Couto exerceu o cargo de Prefeito de Cariacica por um total de 6 anos e 4 meses. A seguir, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto de exoneração: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 13.563/ Exonera, a pedido, prefeito municipal. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição constitucional, resolve exonerar, a pedido, Roberto Couto, do cargo de Prefeito Municipal de Cariacica. Vitória, 1 de junho de 1942. JOÃO PUNARO BLEY Celso Calmon Nogueira da Gama” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 101 Alvaro Schwab Gimenes Alvaro Schwab Gimenes – geralmente grafado como Alvaro Gimenes – foi nomeado prefeito de Cariacica, sucedendo Roberto Couto. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto nº 13.564, de 01/06/1942, assinado por João Punaro Bley e publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 02/06/1942. Abaixo, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto (grifos nossos): “DECRETO N° 13.564/ Nomeia prefeito municipal. O Interventor Federal no Estado do Espírito Santo, usando de atribuição constitucional, resolve nomear Alvaro Gimenes, para exercer o cargo de Prefeito Municipal de Cariacica. Vitória, 1 de junho de 1942. JOÃO PUNARO BLEY Celso Calmon Nogueira da Gama” -------------------------------------------------------------------------------------- Cabe destacar que, embora o nome completo do prefeito fosse Alvaro Schwab Gimenes, ele assinava simplesmente como Alvaro Gimenes. Em alguns documentos oficiais, seu nome aparecia completo e, em outros, como no decreto acima, grafado de forma simplificada. Segundo sua neta, Moema Gimenes Azevedo Cosme, ele fazia isso para valorizar o “Gimenes” e evitar ostentar o “Schwab”, como muitos faziam. Grande parte da gestão de Alvaro Gimenes ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, houve momentos de escassez de combustível e, após 1941, além dos veículos com combustíveis usuais, foram introduzidos no Brasil veículos movidos a gasogênio (Rodrigues, 2007, p. 53-55). Assim, em Cariacica, provavelmente no período de 1942 a 1945, a empresa Auto-Ônibus Cariacica Vitória, de propriedade de Paulo Rodrigues, cunhado de Alvaro Gimenes, utilizou veículos movidos a gasogênio, cujo combustível principal era o carvão vegetal, em substituição ao óleo diesel ou à gasolina. O carvão era queimado em uma fornalha especial, que gerava gases combustíveis para alimentar os motores de combustão interna dos ônibus. Esse fato é comentado por Bezerra (2009, p. 78) e detalhado por Rodrigues (2007, p. 53-55).
Capítulo 2 102 É interessante observar que, mesmo com três mudanças no comando do governo estadual após a saída de João Punaro Bley, em 1943, os três Interventores Federais seguintes mantiveram Alvaro Gimenes como prefeito de Cariacica. É muito provável que Alvaro Gimenes tenha conversado com os Interventores Federais Jones dos Santos Neves, José Rodrigues Sette e Otavio de Carvalho Lengruber, que iniciaram seus mandatos, respectivamente, em 21/01/1943, 27/10/1945 e 06/11/1945, colocando seu cargo de confiança de prefeito à disposição, mas eles o mantiveram no posto. Do ponto de vista legal, isso ocorreu porque os interventores não tomaram a iniciativa de efetivar sua exoneração por meio de decreto. Foi em julho de 1945, durante a gestão de Alvaro Gimenes, que Obéd Emmerich foi contratado para o cargo de secretário-tesoureiro da Prefeitura de Cariacica. Sendo um ex-integralista e preso político por três meses em 1938, essa contratação só foi possível após a anistia geral de presos políticos e exilados concedida por Getúlio Vargas em 18 de abril de 1945 (Decreto-Lei nº 7.474). Nessa época, o país passou a vivenciar uma nova fase, com Vargas perdendo força perante os militares e a nação. Assim, em tempos renovados, Obéd teve a oportunidade de assumir esse emprego. Os detalhes dessa contratação e de seu trabalho na Prefeitura estão descritos no livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025). A quarta mudança de Interventor Federal, após Punaro Bley, ocorreu em 27/02/1946. Aristides Alexandre Campos sucedeu Otavio de Carvalho Lengruber, sendo nomeado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra. Acreditamos que fosse provável que Alvaro Gimenes tivesse procurado conversar com o Interventor Federal Aristides Alexandre Campos para colocar seu cargo à disposição ou para verificar se o Interventor tinha intenção de mantêlo no posto, caso desejasse permanecer como prefeito. Consultamos o Diário Oficial do Espírito Santo e verificamos que Aristides Alexandre Campos assumiu em 27/02/1946 e fez diversas nomeações de prefeitos no mês de março de 1946, mas não em Cariacica. Ou seja, Alvaro Gimenes, inicialmente, manteve-se no cargo. Como o Diário Oficial registra as pessoas que tiveram audiência com o Interventor Federal e com o Secretário do Interior e Justiça, constatamos que quatro pessoas de Cariacica foram recebidas no gabinete do Interventor logo após sua posse: Evandro Figueiredo (20/03 e 10/04/1946), Heraclides Gonçalves (22/03/1946), Walfredo Paiva (25/03/1946) e Licério Duarte (30/03/1946). Notase que Alvaro Gimenes não consta nessa lista. Portanto, não sabemos se Alvaro Gimenes efetivamente conversou ou não com o Interventor, nem de que forma colocou o seu cargo à disposição, assim como desconhecemos o contexto exato da situação antes de sua exoneração, que ocorreu “a pedido”. Cabe observar que, embora Alvaro Gimenes não conste nos nomes dos que conversaram com o Interventor Federal, o seu sucessor, Licério Duarte, sim. Ou seja, a conversa pessoal era — e ainda é, no século 21, mesmo com todos os progressos das comunicações — um dos ingredientes fundamentais da política.
Capítulo 2 103 O período de gestão de Alvaro Gimenes encerrou-se em 12/04/1946. Ele permaneceu 3 anos e 10 meses como prefeito nomeado, e não há informações oficiais sobre o motivo de sua saída. O Decreto de 11 de abril de 1946 (sem numeração), publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 12/04/1946, menciona que sua exoneração ocorreu “a pedido”. Como esse decreto também trata da nomeação de seu sucessor, iremos apresentá-lo na próxima subseção. Licério Ferreira Duarte Licério Ferreira Duarte – às vezes grafado como Licério Duarte – foi nomeado prefeito de Cariacica, sucedendo Alvaro Gimenes. Sua nomeação ocorreu por meio do Decreto de 11 de abril de 1946 (sem numeração), que também formalizou a exoneração de Alvaro. O decreto, que deve ter sido assinado por Aristides Alexandre Campos, foi publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 12/04/1946. Abaixo, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto: “PODER EXECUTIVO / ATOS DO GOVERNO DECRETO DE 10 DE ABRIL DE 1946 O Interventor Federal no Estado resolve: ... DECRETO DE 11 DE ABRIL DE 1946 ... exonerar a pedido: ALVARO GIMENES – do cargo de Prefeito do município de Cariacica. nomear: LICÉRIO FERREIRA DUARTE – para exercer o cargo de Prefeito do município de Cariacica.” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 2 104 Embora não conste na publicação, o decreto deve ter sido assinado por Aristides Alexandre Campos, pois ele era o Interventor Federal da época. Quem também deve ter assinado, abaixo do nome do Interventor, foi o seu Secretário do Interior e Justiça, Ubaldo Ramalhete Maia. Cabe informar que, conforme reportado no Diário Oficial do Espírito Santo de 31/03/1946, p. 1, Licério Ferreira Duarte esteve no Palácio Anchieta em audiência com o Interventor Federal no dia 30/03/1946. Provavelmente, foi nessa ocasião que ele acertou os detalhes de sua futura posse como prefeito de Cariacica. Após a publicação de sua nomeação no Diário Oficial, ele foi ao Palácio no dia seguinte, 13/04/1946, onde conversou com o Interventor e prestou compromisso para exercer o cargo de prefeito perante o Secretário do Interior e Justiça (cf. DOES de 14/04/1946, p. 1), o que significa que assinou todos os documentos pertinentes. Após sua posse, o novo prefeito Licério Ferreira Duarte manteve Obéd no cargo de secretário-tesoureiro. No entanto, em 1º de julho de 1946, foi publicado o Decreto nº 27, registrando a exoneração “a pedido” de Obéd do cargo de secretário-tesoureiro da Prefeitura. A caligrafia presente no decreto comprova que foi o próprio Obéd quem redigiu sua exoneração. Ele também redigiu o Decreto nº 28, da mesma data, que nomeou seu sucessor no cargo, . Essa atitude de Obéd, mesmo após sua exoneração, sugere que a relação entre ele e o prefeito Licério Ferreira Duarte não se deteriorou completamente. No livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025) apresentamos duas conjecturas plausíveis, não excludentes, sobre os motivos da exoneração de Obéd. Comentamos aqui apenas a segunda conjectura, relacionada ao exercício do poder. Obéd foi nomeado secretário-tesoureiro pelo ex-prefeito Alvaro Gimenes. O novo prefeito, Licério Ferreira Duarte, que provavelmente não mantinha laços de amizade com o anterior, quis colocar alguém de sua confiança no cargo. Ele não efetuou a mudança imediatamente após sua posse, aguardando um momento mais oportuno para realizar a exoneração. A ação de Licério, no entanto, não se limitou a Obéd. Entre 1946 e o final de 1947, três prefeitos se sucederam em Cariacica, e a análise de seus decretos revela diversas exonerações e nomeações, incluindo cargos de secretário-tesoureiro, fiscal-geral e outros de menor graduação. Assim, de acordo com essa segunda conjectura, a exoneração de Obéd em 1946 fez parte de um processo mais amplo de mudanças na administração municipal, que pode ser descrito como uma “dança de cadeiras” 10 na Prefeitura de Cariacica, cujos detalhes serão apresentados na seção 2.12 —a última deste capítulo —, já que envolvem prefeitos que ainda serão tratados. 10 A “dança das cadeiras” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Dança_das_cadeiras) é uma brincadeira que envolve um círculo de cadeiras e um número de participantes maior que o número de cadeiras. Uma música é tocada enquanto os participantes circulam ao redor das cadeiras. Quando a música para, todos devem encontrar uma cadeira para se sentar. Aqueles que não conseguem uma cadeira são eliminados. O jogo prossegue em etapas, com a remoção de uma ou mais cadeiras a cada rodada. O vencedor é quem conseguir se sentar na última cadeira disponível.
Capítulo 2 105 Em termos figurativos, Obéd foi apenas um “peão” que caiu no “tabuleiro de xadrez”; muitos outros “peões” também caíram na Prefeitura de Cariacica entre 1946 e 1947. Alguns funcionários exonerados saíram definitivamente, enquanto outros foram nomeados para novos cargos ou permaneceram em funções de menor importância por já terem adquirido estabilidade 11 . Após sua exoneração em 01/07/1946, Obéd, com grande perseverança, conseguiu um emprego na Prefeitura de São Mateus em agosto do mesmo ano, permanecendo afastado de Cariacica por 2 anos e 4 meses. O período de gestão de Licério Ferreira Duarte encerrou-se em 18/03/1947. Ele permaneceu 11 meses como prefeito nomeado. O decreto de 17 de março de 1947 (sem numeração), publicado no Diário Oficial do Espírito Santo em 18/03/1947, menciona que sua exoneração ocorreu “a pedido”. A seguir, apresentamos a imagem e, em seguida, a transcrição do decreto: Transcrição do decreto: “DECRETOS DE 17 DE MARÇO DE 1947 O Interventor Federal no Estado, no uso de suas atribuições legais, RESOLVE: ... exonerar a pedido: LICÉRIO FERREIRA DUARTE – do cargo de Prefeito Municipal de Cariacica. designar: OFELINA PAIVA MORAES – Secretário-Tesoureiro da Prefeitura de Cariacica, para responder pelo expediente da mesma Prefeitura.” -------------------------------------------------------------------------------------- 11 A estabilidade na Prefeitura de Cariacica era regida pelo artigo 3º do Decreto nº 40/1937, de 02/01/1937, do prefeito Roberto Couto: “Fica estabelecido que qualquer funcionário que for admitido pela Prefeitura será designado como contratado, ... , e passará a ser efetivo, depois de haver prestado dois anos de serviço, ininterruptamente, provada a sua idoneidade e aptidão.”
Capítulo 2 112 Desdobramentos/fusões do cargo de secretário-tesoureiro Entre 01/02/1936 e 03/01/1938, a Prefeitura de Cariacica mantinha separados os cargos de secretário e de tesoureiro, situação que voltou a ocorrer a partir de 31/12/1947. A cronologia dos desdobramentos e fusões desses cargos é a seguinte: O Decreto nº 2, de 01/02/1936, do prefeito Roberto Couto, desdobrou o cargo de secretário-tesoureiro em dois: secretário e tesoureiro. O Decreto nº 40, de 03/01/1938, do mesmo prefeito, restabeleceu o cargo unificado de secretáriotesoureiro, que se manteve até 30/12/1947, quando foi novamente desdobrado pelo Decreto-Lei nº 14, de 30/12/1947, do prefeito Joaquim José Vieira. Assim, em 31/12/1947, Joaquim José Vieira exonerou o secretário-tesoureiro e nomeou um tesoureiro. Entretanto, o Decreto-Lei nº 14, de 30/12/1947, não definia claramente as atribuições dos cargos. Somente no Decreto nº 66, de 12/02/1949, foram estabelecidos os órgãos dos serviços públicos municipais e regulamentadas as atribuições dos funcionários, conforme transcrito parcialmente a seguir: “Artigo 3º Ao “Secretário” compete: ... Artigo 4º Ao “Assistente Geral” compete: ... Artigo 5º Compete ao Contador: ... Artigo 6º Compete ao “Tesoureiro”: ... Artigo 7º Ao “escriturário” lotado na Contadoria compete: ... Artigo 8º Ao “Contínuo” compete: ... Artigo 9º Ao “Fiscal de 1ª Classe” compete: ... Artigo 10 Compete ao “Fiscal da 2ª Classe”: ... Artigo 11 Enquanto não for criada a função ou cargo de “Fiscal de Obras”...” Como esse decreto é de 1949, será detalhado – com as instrutivas sentenças de seu preâmbulo – no Capítulo 3.
113 CAPÍTULO 3 – Política de Cariacica de 1947 a 1966 3.1 Preâmbulo A cronologia deste capítulo começa em 1947, e não em 1945 (queda do Estado Novo), pois apenas a partir de 30 de novembro de 1947 os prefeitos e vereadores voltaram a ser eleitos diretamente. Por outro lado, ela vai até 1966, e não até 30 de janeiro de 1967 — fim do mandato dos prefeitos e vereadores eleitos em 1962 —, pois o ano de 1967 marca o início de uma nova era na política de Cariacica. 3.2 Informações do Brasil e do Espírito Santo de 1947 a 1964 Embora a cronologia deste capítulo, que é baseada nos mandatos de prefeitos e vereadores, se estenda de 1947 a 1966, iremos focar nesta seção nos mandatos dos Presidentes da República, portanto, iremos apenas até 31 de março de 1964. No capítulo seguinte, trataremos do período posterior a 1964. Aqui seremos breves, informando apenas os partidos de maior relevância e os nomes dos presidentes da República e dos governadores de estado, com seus respectivos mandatos. Para leitores interessados em informações mais abrangentes sobre o Brasil e o Espírito Santo, recomendamos consultar o livro “História Concisa do Brasil”, de Boris Fausto (2021); as obras “Espírito Santo: Estado, interesses e poder”, de Marta Zorzal e Silva (1986) e “Carlos Lindenberg: um estadista e seu tempo”, de Amylton de Almeida (2010); bem como alguns sites da Wikipedia, conforme a Bibliografia. O período de 1947 a 31 de março de 1964 está inserido na chamada República de 1946, também denominada Quarta República Brasileira ou República Populista, que se iniciou em 18 de setembro de 1946, quando foi promulgada a Constituição de 1946. Partidos políticos de maior relevância (1945-1966): Partido Social Democrático (PSD), União Democrática Nacional (UDN), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Democrata Cristão (PDC), Partido Social Progressista (PSP), Partido Comunista do Brasil (PCB), Partido Republicano (PR), Partido de Representação Popular (PRP) e Partido Trabalhista Nacional (PTN). Presidentes da República (1945-1964): Eurico Gaspar Dutra (1946–1951), Getúlio Vargas (1951–1954), Café Filho (1954–1955), Juscelino Kubitschek (1955–1961), Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961–1964).
Capítulo 3 114 Governadores do Espírito Santo (1947-1966): Carlos Lindenberg (1947-1951), Jones dos Santos Neves (1951-1955), Francisco Lacerda de Aguiar (1955-1959), Carlos Lindenberg (1959-1962), Francisco Lacerda de Aguiar (1963-1966) e Rubens Rangel (1966-1967). 3.3 Prefeitos de Cariacica de dez. 1947 a jan. 1967 Prefeito: Mandato: Eleito em: Joaquim José Vieira 23/12/1947 a 30/01/1951 30/11/1947 Licério Ferreira Duarte 31/01/1951 a 30/01/1955 03/10/1950 Jocarly Gomes Salles 31/01/1955 a 30/01/1959 03/10/1954 Eduartino Silva 31/01/1959 a 30/01/1963 03/10/1958 Jocarly Gomes Salles 31/01/1963 a 30/01/1967 03/10/1962 3.4 A política e as eleições em Cariacica de 1947 a 1951 Eleição de 1947 em Cariacica: vitória da UDN As eleições municipais de 1947 ocorreram em 30 de novembro. O Partido Social Democrático (PSD), que detinha o controle do governo estadual, com Carlos Lindenberg, e do municipal, com Lafayette Cardoso Resende, deve ter procurado formar uma boa chapa, escolhendo o inteligente e prestigiado Cel. Virgílio Francisco Schwab como seu candidato a prefeito. Dentre os candidatos a vereador do PSD, havia os seguintes nomes, mencionados no Capítulo 2 desta obra: Alfredo do Couto Teixeira, Augusto Rosetti, Heraclides Gonçalves, Manoel Sarmento Firme e Lindolpho Guterres. Por outro lado, para a eleição municipal de 1947, a União Democrática Nacional (UDN) de Cariacica procurou aglutinar um amplo espectro de políticos, que ia desde o coronel Olympio Moreira da Cunha, Theologo Gaudio Barbosa e Floriano Varejão (com perfis conservadores ou de direita) até Jocarly Gomes Salles (trabalhista) e Antonio Ribeiro Granja (comunista). Cabe destacar que a presença do Cel. Olympio Cunha nesta frente seria uma grande oportunidade para ele se desforrar da sentida derrota que teve 12 anos antes – no final de 1935 – quando sua candidatura a prefeito foi preterida dentro do PSD. Na monografia de Machado (2014), há uma extensa e esclarecedora entrevista com Antonio Ribeiro Granja, que explicou como ocorreu a aglutinação da UDN. Para situar melhor essa explicação, é importante apresentar quem era Antonio Granja. Na eleição para governador e deputado estadual de 19 de janeiro de 1947,
Capítulo 3 115 Antonio Granja, do Partido Comunista do Brasil (PCB), que era um importante líder operário na Oficina de Vagões da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD, atualmente Vale) em Itacibá, ficou como terceiro suplente do deputado estadual Benjamim de Carvalho Campos, também do PCB. Entretanto, o registro do PCB foi cassado em 07/05/1947 e, assim, a orientação do partido foi para que seus membros procurassem participar do processo eleitoral municipal de 30/11/1947, candidatando-se por outros partidos. Nessa época, Antonio Granja namorava a sobrinha do empresário e pecuarista de Itaquari Floriano Varejão e, muito astutamente, o influenciou a entrar com força na política partidária, dizendo-lhe: “Floriano, vamos eleger o prefeito de Cariacica. Você é comerciante e progressista. Por que você não pega a UDN?”. E completou, ao entrevistador: “Com isso fizemos a política juntos” (Machado, 2014, p. 32). Esses movimentos são corroborados documentalmente em duas notícias publicadas na imprensa. Na primeira, de 30/07/1947, A Gazeta comentou uma reunião patrocinada pela UDN em Itacibá (exatamente onde Antonio Granja trabalhava), presidida por Theologo Gaudio Barbosa, com as presenças do coronel Olympio Cunha, Floriano Varejão e outros, reportando o seguinte: “No magnífico conclave, que ocorreu numa atmosfera de alta compreensão de responsabilidades e verdadeiro entusiasmo, cuidou-se da formação de uma ampla Coligação de partidos para disputarem com chapa conjunta as próximas eleições municipais”. A segunda matéria foi publicada em A Gazeta de 07/09/1947. Nela, é noticiada a reorganização do Diretório da UDN, colocando o coronel Olympio Moreira da Cunha como presidente e Floriano Varejão como seu vice; Theologo Gaudio Barbosa passou de presidente para secretário-geral. Portanto, Floriano Varejão passou a ajudar a comandar o partido, tendo Antonio Granja, nos bastidores, como seu grande conselheiro, já que não podia aparecer muito por ser um conhecido membro do proscrito PCB. Além do PSD e da UDN, um terceiro partido, o Partido Democrata Cristão (PDC), também entrou na disputa. As candidaturas a prefeito e a vereador foram definidas entre setembro e outubro e noticiadas de forma definitiva no Diário Oficial do Espírito Santo (DOES)/Diário da Justiça de 13/11/1947. Os candidatos a prefeito foram: Joaquim José Vieira – UDN, Virgilio Francisco Schwab – PSD; e João Pinheiro do Santos – PDC. Cada uma das chapas apresentou 9 (nove) candidatos a vereador, cujos nomes estão elencados a seguir:
Capítulo 3 116 UDN: Estevão Gonçalves de Freitas, Jocarly Gomes Salles, Veriato de Carvalho, Antonio Ribeiro Granja, Joaquim Cardoso, Francisco Brandão Subtil, Acioly Firme, Ferdinando Guzzo e Antonio Ribeiro Bessa; PSD: Alfredo do Couto Teixeira, Augusto Rosetti, Heraclides Pereira Gonçalves, Hugo Viola, José Maurilio Salomão, João Francisco Enoch da Silva, Lindolfo Correia Guterres, Manoel Sarmento Firme e Wilson Manoel de Freitas. PDC: Evandro de Figueiredo, José Carolino dos Santos, Americo Rodrigues, Ozéas Juvenal Campos, Maximo José Martins, Alvaro Pereira Ramalho, José Alvarenga de Almeida, Levindo Coelho Dias e José Barcelos Rangel. O nome de Joaquim José Vieira, conhecido como Nhonhô Vieira, como candidato a prefeito foi uma surpresa, pois seu nome não apareceu nas notícias sobre a UDN publicadas em A Gazeta de 30/07 e 07/09/1947. Segundo Antonio Granja, a escolha de Joaquim José Vieira como candidato a prefeito de Cariacica pela UDN em 1947 foi feita por Floriano Varejão. Na entrevista a Vinicius Oliveira Machado, Antonio Granja disse o seguinte sobre a escolha de Joaquim José Vieira: “O Floriano achou de botar ele. O Floriano era ... e turrão. Eu falava com ele: "Mas Floriano, poderia ter colocado uma pessoa mais ... ". E ele: "Não, não, não! Aqui em Cariacica, eu posso colocar até uma porca que ela se elege". E eu aproveitei e disse para ele: "Olha aí ó, você é igual a uma porca mesmo!" (risos)”. (Machado, 2014, p. 74) O embate maior foi entre a UDN e o PSD, cabendo ao PDC apenas um papel secundário. De certa forma, esse embate lembra a grande luta ocorrida na eleição de dezembro de 1935 pelo controle das candidaturas do PSD, entre as correntes de Olympio Cunha e de Roberto Couto. Em 1935, a corrente liderada por Roberto Couto foi vitoriosa e comandou o município de Cariacica de 1935 a 1947. De certa forma, essa corrente, com algumas defecções, tornou-se herdeira do PSD após a redemocratização de 1946. Mas, dessa vez, numa nova eleição municipal – em 1947 –, o desfecho seria diferente. A eleição municipal ocorreu em 30/11/1947. Embora o PSD fosse forte, contando com o apoio do prefeito em exercício, Lafayette Cardoso Resende, e do governador Carlos Lindenberg, a UDN foi vitoriosa, pois aglutinou seus integrantes com os do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e os do proscrito PCB, de forma muito bem articulada por Antonio Granja e Floriano Varejão. Como previa Floriano Varejão, Joaquim José Vieira acabou vencendo, e Antonio Granja foi o vereador mais votado em 1947. Não conseguimos obter o resultado final numérico dos votos. O resultado parcial mais avançado disponível para a eleição de prefeito foi publicado em A Gazeta e A Tribuna de 04/12/1947: Joaquim José Vieira – UDN – 712 votos Virgilio Francisco Schwab – PSD – 607 votos João Pinheiro do Santos – PDC – 98 votos
Capítulo 3 117 Embora não tenham sido divulgados os números da votação, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) publicou os nomes dos vitoriosos, em ordem decrescente das votações em seus respectivos partidos, no DOES/Diário da Justiça de 17/12/1947, conforme segue: MUNICÍPIO DE CARIACICA [RESULTADO da ELEIÇÃO DE 1947] “PREFEITO eleito: Joaquim José Vieira, da UDN VEREADORES eleitos: UDN: Antonio Ribeiro Granja, Antonio Ribeiro Bessa, Ferdinando Guzzo, Acioly Firme e Jocarly Gomes Salles; PSD: Lindolfo Correia Guterres, Heraclides Pereira Gonçalves e Augusto Rosetti; PDC: Evandro de Figueiredo.” Fonte: TRE (DOES/Diário da Justiça de 17/12/1947). -------------------------------------------------------------------------------------- Como a UDN elegeu cinco vereadores, o PSD três e o PDC um, podemos estimar que, na eleição para a Câmara de Vereadores, a UDN, o PSD e o PDC obtiveram, respectivamente, cerca de 55%, 34% e 11% dos votos válidos. Cabe informar que três dos vereadores, todos eleitos pela UDN, trabalhavam na CVRD [Vale]: Antonio Ribeiro Granja, Ferdinando Guzzo e Jocarly Gomes Salles. Porém, Antonio Granja, que tinha um antagonismo com Jocarly Gomes Salles, não continuou na Vale no final de 1947 (após a eleição). Ele relatou que foi demitido da empresa por perseguição política (Machado, 2014, p. 37). Gestão de Joaquim José Vieira (dez. 1947 – jan. 1951) Joaquim José Vieira iniciou seu mandato como prefeito de Cariacica em 23 de dezembro de 1947, conforme noticiado em A Gazeta e A Tribuna naquela data. Seu mandato estendeu-se até 30 de janeiro de 1951. Cabe registrar que, de modo geral, a monografia de Machado (2014) narra diversos episódios envolvendo o prefeito Joaquim José Vieira e o então vereador Antonio Ribeiro Granja, referentes ao período de 1947 até o término do mandato, em janeiro de 1951. Conforme relatado na seção 2.12, Joaquim José Vieira promoveu diversas mudanças de funcionários na Prefeitura de Cariacica logo após assumir, contribuindo para o que denominamos de “dança de cadeiras” na administração municipal. Algumas dessas mudanças provavelmente tiveram como objetivo adequar a nova gestão ao controle do grupo político vitorioso, que era oposição em relação à anterior.
Capítulo 3 118 Como observamos anteriormente, em dois de seus decretos (nº 50 e nº 56), o prefeito Joaquim José Vieira utilizou o termo “readmitir”, em vez de simplesmente “nomear”. Assim, de certa forma, deixou implícito que tais funcionários haviam sido exonerados indevidamente. Um dos funcionários que se enquadra nos dois casos acima – pois foi readmitido posteriormente, em 1949 – foi Obéd Emmerich. Antes de falar nessa readmissão, cabe relembrar que Obéd havia sido demitido em julho de 1946, no início da “dança de cadeiras” promovida pelo prefeito Licério Ferreira Duarte (cf. seção 2.9). Ele então procurou uma colocação e foi contratado pela Prefeitura de São Mateus em agosto de 1946. Suas intensas ações administrativas, políticas e jornalísticas em São Mateus, bem como em Cariacica, estão minuciosamente descritas no livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025). Em 21/10/1948, ainda em São Mateus, Obéd escreveu uma carta ao prefeito de Cariacica, Joaquim José Vieira, cumprimentando amigos e figuras importantes da cidade. Nela, sugeriu a criação de um posto de venda de ferramentas, sementes e mudas para agricultores pelo menor custo possível, apontando essa iniciativa como uma boa prática e, ao mesmo tempo, como a maior propaganda política que o prefeito poderia fazer. Em seguida, comentou diversos assuntos. Entre eles, mencionou a questão do matadouro de animais, já tratada na seção 2.5 – durante a gestão de Adalberto Barbosa – dizendo o seguinte: “E sobre o caso do matadouro você continua no propósito de lançar aquela gente toda que abate ali toda espécie de animais, de acordo com estimativa fornecida pela Prefeitura de Vitoria? Acho que será a única maneira de provocar uma decisão Judiciária definitiva sobre o assunto. Depois do fim do corrente ano a Prefeitura promoverá a cobrança judicial das dívidas inscritas, provocando a reação dos devedores e o competente pronunciamento da justiça.” Isso demonstra que, mesmo com todas as suntuosidades da inauguração, em 03/05/1930, do novo Matadouro Municipal de Vitória, localizado em Porto de Santana (bairro de Cariacica), mas pertencente à Prefeitura de Vitória (cf. seção 2.5), o problema não foi resolvido de forma permanente. Conforme se depreende do comentário de Obéd em 1948, o município de Vitória livrou-se de um problema, enquanto Cariacica passou a receber diversos impactos negativos, sobretudo ambientais e sanitários, sem, entretanto, arrecadar devidamente os impostos devidos ao funcionamento das instalações. Assim, os problemas sanitários acabaram sendo transferidos para Cariacica. Cabe acrescentar que os impactos ambientais e sanitários se estenderam, pelo menos, até a década de 1980 (Barbosa, 2007, p. 104 e 121). Em dezembro de 1948, Obéd Emmerich retornou a Cariacica e, em fevereiro de 1949, foi recontratado pela Prefeitura, a partir de 01/02/1949 (Decreto nº 60), para o cargo de “Assistente Geral” (na carteira profissional, consta “Assistente Técnico”). O decreto consignou a expressão “readmitir ao serviço público”, o que, de certa forma, o redimiu da exoneração ocorrida 30 meses antes.
Capítulo 3 119 Logo no início de seu trabalho, Obéd deve ter constatado que as atribuições dos cargos de secretário, tesoureiro e outros não eram claramente definidas na Prefeitura. Assim, provavelmente elaborou e manuscreveu o Decreto nº 66, de 12/02/1949, no qual foram fixados os órgãos dos serviços públicos municipais e regulamentadas as atribuições dos funcionários, conforme comentado no final do Capítulo 2. O original do Decreto nº 66, de 12/02/1949, está em sua caligrafia e, pelo conhecimento e competência de Obéd na área (cf. Capítulos 3, 4 e 5 do livro Caneta de Ouro), é provável que ele tenha elaborado e proposto o texto ao prefeito. O conteúdo e, principalmente, o preâmbulo do decreto sugerem essa autoria. A seguir, apresenta-se a imagem do início do original com a caligrafia de Obéd (o “Caneta de Ouro”) e, na sequência, a transcrição do preâmbulo do Decreto nº 66, de 12 de fevereiro de 1949. Transcrição do preâmbulo do Decreto nº 66 de 12 de fevereiro de 1949: “Decreto N° 66 Fixa os órgãos dos Serviços Públicos Municipais e Regulamenta as atribuições dos funcionários. O Prefeito Municipal de Cariacica, Estado do Espírito Santo, usando de suas atribuições legais e considerando que não há nos anais desta Prefeitura uma Lei ou Regulamento que fixe claramente os órgãos de que se compõem os Serviços Públicos Municipais e as funções específicas de cada funcionário; considerando que tal lacuna vem criando dificuldades à administração, resolve, além do estabelecido pelo Decreto N° 38 de 21/12/1936 e Portaria N° 23 de 23/04/1946 – , decretar o seguinte "Regulamento de Serviço dos Funcionários do Município de Cariacica": ...” --------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 3 120 A transcrição integral do decreto anterior está disponível em https://cariacica.legislacaocompilada.com.br/Arquivo/Documents/legislacao/htm l/D661949.html. Acesso em: 14 ago. 2025. Desde fevereiro de 1949, Obéd vinha atuando bem na Prefeitura e, em 01/01/1950, por meio do Decreto n° 85, assumiu oficialmente a função gratificada de secretário do prefeito Joaquim José Vieira. Cabe explicar que, sempre que se candidatava a um cargo político, ele se licenciava dessa função. Devido à indisponibilidade, na Hemeroteca Digital Brasileira, de periódicos expressivos de Cariacica e de Vitória para este período (ver seções 2.1 e 2.11), não é possível, no escopo desta obra, apresentar mais detalhes sobre a gestão de Joaquim José Vieira. Pesquisas em A Gazeta e A Tribuna — cujas coleções desse período ainda não estão digitalizadas —, bem como em outros jornais pertinentes, estão fora do escopo desta obra e são deixadas a outros autores. Eleição de 1950 em Cariacica: vitória do PSD e queda da UDN Por volta de 1950, os partidos mais fortes em Cariacica eram o PSD, o PTB e o PDC. O prefeito Joaquim José Vieira, da UDN, que iniciou o mandato no final de 1947, iria concluí-lo no início de 1951. Embora não tenhamos encontrado falhas evidentes em sua atuação administrativa, o mesmo não se pode dizer de sua condução política à frente da UDN, que pode ser avaliada como um fracasso. O fracasso da UDN em Cariacica nessa época é notável. Depois de ter sido o partido mais forte do município em novembro de 1947, a legenda esfacelou-se quase completamente em 1950: não apresentou candidatos nem a prefeito nem a vereador nas eleições daquele ano. Os vereadores eleitos pela UDN em 1947 deixaram o partido e se candidataram por outras siglas, ou não se candidataram. Assim, o prefeito Joaquim Vieira não demonstrou liderança política na condução da UDN entre o final de 1947 e 1950. Isso indica que os comentários negativos já mencionados, feitos por Antonio Granja, quando analisados sob o ponto de vista político (e não pessoal), tinham procedência. É provável que a ausência de Antonio Granja na articulação política — por seguir o PCB e, portanto, ser contrário à UDN — tenha pesado significativamente. Convém lembrar que a eleição de 1947, de âmbito exclusivamente municipal, era muito diferente da de 1950. Em 1947, Granja, junto com Floriano Varejão, articulou a UDN – aglutinando lideranças – para conquistar o poder municipal e eleger-se vereador. Em 1950, porém, o PCB, mesmo na ilegalidade, apoiou fortemente Getúlio Vargas, do PTB, para derrotar a UDN, um de seus maiores adversários. As eleições de outubro de 1950 foram gerais, abrangendo de vereador a presidente. Getúlio Vargas, que desde outubro de 1945 residia em São Borja no Rio Grande do Sul, candidatou-se pelo PTB e foi eleito presidente da República, derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Jones dos Santos Neves, da
Capítulo 3 121 coligação PSD/PTB, foi eleito governador, derrotando Afonso Schwab, da coligação PR/PRP/PST/UDN/PDC. Cabe registrar que Afonso Schwab, médico, nasceu em Cariacica em 11/05/1901. Era filho do conhecido e prestigiado cariaciquense Francisco Carlos Schwab Filho, Vice-governador do Estado do Espírito Santo no biênio 1918– 1920. Francisco Carlos Schwab Filho já foi mencionado no Capítulo 2 desta obra, bem como nos Capítulos 3 e 5 do livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025). Em 1950, o governador em exercício, Carlos Lindenberg, do PSD, candidatouse ao Senado e foi eleito, derrotando Asdrubal Soares Parra, da UDN. Para a Câmara Federal (bancada de sete), o PSD elegeu quatro deputados; PRP, UDN e PR elegeram, cada qual, um. Para a Assembleia Legislativa (bancada de 32), o PSD elegeu 14 deputados; a UDN, 7; o PTB, 6; o PR, 2; e o PRP, 2. Nesse pleito, Obéd candidatou-se a deputado estadual pela UDN e deve ter tido atuação direta apenas nessa eleição. Obteve 407 votos, ficando em 91º lugar entre 140 candidatos. Sua candidatura ajudou a UDN no quociente eleitoral, contribuindo para a formação de uma bancada de sete deputados na Assembleia Legislativa. Cabe esclarecer que, embora a UDN não tenha apresentado candidaturas no âmbito municipal, Obéd deve ter registrado sua candidatura a deputado estadual por meio do diretório estadual do partido. Com relação às eleições para prefeito e vereadores em Cariacica, em 1950, os partidos participantes foram PSD, PTB, PDC e Partido Social Progressista (PSP). Conseguimos identificar os nomes de todos os candidatos a prefeito e a vereador consultando o DOES/Diário da Justiça de 12 e 23/09/1950. Os candidatos a prefeito foram: Licério Ferreira Duarte – pelo PSD e PTB; e Augusto Rosetti – pelo PDC. Cada uma das chapas apresentou 12 (doze) candidatos a vereador, exceto a do pequeno PSP, que apresentou apenas 4 (quatro). Os nomes dos candidatos a vereador em 1950 estão elencados a seguir: PSD: Joaquim Cardoso, João Pinto Pestana, Ferdinando Guzzo, Estevam Gonçalves de Freitas, Manoel Candido, Claricio Gonçalves Rodrigues, José Vieira de Moraes, Wilson Cesar Nascimento, Heraclides Pereira Gonçalves, Antonio Ribeiro Bessa, Flodoaldo Rodrigues e Máximo José Martins; PTB: José Augusto Mendes, Onildo Nogueira Lopes, Manoel da Silva Viana, Omyr Leal Bezerra, Wilson Teles de Santa Rosa, Alfredo Alves do Espírito Santo, Mario Regiani, Jocarly Gomes Salles, Manoel Corrêa de Abreu, José de Oliveira Santos, Luiz Gonzaga Ribeiro da Silva e Celso Merlo; PDC: Antonio Coutinho, Otacilio Firme, Waldir Schwab, João Ferreira Lima, Manoel de Andrade Almeida, Lindolfo Correia Guterres, José Corrêa Guterres, José Frederico Tomaz, Celso Santos, Manoel Sarmento Firme, Luiz Bezerra Lima e Francisco Vetis;
Capítulo 3 128 Portanto, os líderes estaduais do PRP e os presentes à reunião, que queriam revigorar em Cariacica o PRP (e o integralismo) em 1955, escolheram um bem conhecido líder integralista local como presidente do Diretório, e o também integralista Alcidino, preso político em 1938, junto com Obéd, como vicepresidente. Na reunião seguinte, no bairro de Jardim América, em 10/06/1955, na residência do Sr. Francisco Decimo Gava (Rua Goiânia n° 4), foi criado o Diretório de Jardim América do PRP, elegendo-se o Sr. Francisco D. Gava como presidente. Fica muito claro que a intensa articulação da direção estadual do PRP em Cariacica visava reerguer o partido no município e, principalmente, fortalecer a candidatura de Plínio Salgado, o grande líder nacional do PRP (e do integralismo) na eleição de 1955 à Presidência da República. Isso é demonstrado em parte da ata da reunião de 10/06/1955, transcrita abaixo: “...Usaram, ainda, da palavra o deputado Antenor Herminio Bassini, Francisco Salles e Alberto Ceolim, todos tecendo considerações oportunas sobre a candidatura de Plínio Salgado à Presidência da República. Finalmente usou da palavra o presidente do diretório estadual, Sr. Oswaldo Zanello, que, em belas palavras, concitou os companheiros a trabalharem pela campanha e pelo reerguimento do PRP neste município.” Entretanto, Plínio Salgado não foi bem-sucedido na eleição presidencial de 1955, ficando em quarto lugar na disputa, com 8,3% dos votos em nível nacional. No Espírito Santo, porém, obteve 18%, percentual relativamente expressivo quando comparado ao seu desempenho nacional. Assim, o Diretório Municipal de Cariacica e o Diretório de Jardim América devem ter contribuído razoavelmente com a sua parte. As eleições presidenciais de 1955 foram vencidas por Juscelino Kubitschek (PSD), com 35,7% dos votos. De certa forma, os votos de Plínio Salgado (8,3%) em 1955 atrapalharam o general Juarez Távora, da UDN (30,3%). Depois das duas reuniões de 1955, não foram lavradas outras atas do Diretório Municipal do PRP em Cariacica naquele ano, nem ao longo de 1956. Entretanto, como em 1958 haveria importantes eleições em nível estadual, no início de 1957 o Diretório Municipal do PRP em Cariacica voltou a se manifestar oficialmente, como será visto dois parágrafos adiante. Em 1956–1957, conforme explicado no livro Caneta de Ouro, Obéd entendeu que poderia lançar-se candidato a prefeito de Cariacica nas eleições de 3 de outubro de 1958. Além da intenção de Obéd, é muito provável que o deputado Eurico Rezende (UDN) e outros líderes da UDN e do PRP — que, em 1958, se coligaram na eleição para governador — tenham sugerido e incentivado sua candidatura. Assim, Obéd elaborou um plano de governo para o município de Cariacica no quadriênio 1959–1962, denominado “Manifesto-Programa”. Os detalhes são apresentados no Capítulo 5 do livro Caneta de Ouro, com a transcrição integral no MSE.
Capítulo 3 129 Os principais pontos são fornecidos a seguir: 1) Fundação de um ginásio em Cariacica Sede e outro no 2º distrito; 2) Pavimentação da rodovia Vitória-Cariacica, com retificação do traçado; 3) Instalação da Comarca de Cariacica; 4) Apoio a iniciativas para a criação de jornais e estações de rádio locais; 5) Posicionamento contrário à elevação de impostos; 6) Posicionamento favorável a isenções tributárias para novas indústrias, durante um determinado período, até que se consolidem. Em seguida, Obéd convocou uma reunião — chamada “mesa redonda” — em 6 de janeiro de 1957, na sede social do Esporte Clube Brasil, na qual o ManifestoPrograma foi aprovado por unanimidade. Nessa reunião, lançou-se a base da União Renovadora de Cariacica (UNIRCA). Posteriormente, em 3 de fevereiro de 1957, o Diretório Municipal do PRP em Cariacica voltou a se manifestar oficialmente, em Convenção Municipal, com as presenças de Oswaldo Zanello e Pery da Silva Quintaes (presidente e vicepresidente do Diretório Regional do Espírito Santo), que dirigiram e secretariaram os trabalhos. Dessa vez, a Convenção teve por objetivo “reorganizar o Diretório Municipal e estudar a conveniência de o Partido apresentar candidato próprio às futuras eleições municipais, e a conveniência de sua escolha”. Na reorganização do Diretório, Obéd Emmerich e Alcidino Francisco Rodrigues foram reeleitos presidente e vice-presidente do Diretório Municipal. Ranulfo Fundão Coutinho foi eleito secretário, e mais 14 pessoas foram escolhidas como membros do conselho (vogais). No segundo ponto da pauta, ao se franquear a palavra, Alcidino Francisco Rodrigues encaminhou à mesa uma proposição para o lançamento da candidatura de Obéd a prefeito de Cariacica pelo PRP. Antes de submetê-la à votação, o presidente dos trabalhos da Convenção (Oswaldo Zanello) determinou a leitura, para conhecimento de todos, do Manifesto-Programa da União Renovadora de Cariacica, julgado plenamente de acordo com os postulados do PRP. Com relação à proposição de Alcidino, convém transcrever ipsis litteris a Ata: “julgou a Convenção por unanimidade ser interessante o lançamento imediato do candidato do PRP à Prefeitura de Cariacica. Submetida à votação secreta a escolha do candidato à Prefeitura, foi a unanimidade escolhido o Sr. Obéd Emmerich para disputar como candidato a Prefeito de Cariacica, nas eleições de 1958. Uma salva de palmas consagrou o resultado desta votação.” Assim, em fevereiro de 1957, a Convenção Municipal do PRP aprovou o Manifesto-Programa oficialmente, e lançou Obéd como candidato a prefeito de Cariacica pelo PRP para as eleições de outubro de 1958.
Capítulo 3 130 Pela ata da Convenção Municipal do PRP de fevereiro de 1957, coube ao integralista Alcidino Francisco Rodrigues apresentar o nome de Obéd para a candidatura a prefeito e ao deputado Oswaldo Zanello propor a leitura e a aprovação do Manifesto-Programa. Em geral, diversos acontecimentos e decisões não ocorrem espontaneamente. Muitas vezes, certas pessoas é que fazem as coisas acontecerem. No caso em questão, é razoável supor que o próprio Obéd tenha articulado, com seus companheiros e com o líder estadual Oswaldo Zanello, a série de encaminhamentos e deliberações aprovados na convenção. Observa-se que, tanto na mesa redonda de janeiro de 1957 quanto na convenção de fevereiro de 1957, as decisões foram unânimes, o que sugere um ambiente amplamente favorável a Obéd e/ou pouco propenso a discordâncias públicas. Eleição de 1958 em Cariacica: vitória de PSD Em 1958, no âmbito estadual, houve três candidaturas ao governo do Estado. O PSD lançou o forte candidato Carlos Lindenberg — ex-governador e então senador — pela coligação PSD/PSP. A UDN lançou o deputado estadual Eurico Rezende, pela Aliança Democrática UDN–PRP. E o PTB lançou o deputado federal Floriano Lopes Rubim, sem coligação oficial. Floriano foi o deputado federal mais votado do Estado na eleição de 1954. No âmbito municipal, em 1958, houve quatro candidaturas à Prefeitura de Cariacica. O forte PSD lançou Eduartino Silva — pessoa de bem, com importantes apoios locais e estaduais. O PTB lançou o vereador Francisco de Oliveira Soares, dentista, o mais votado do partido na eleição de 1954. O PDC lançou Evandro de Figueiredo, vereador na legislatura 1947–1951 e candidato a prefeito na eleição anterior (1954). A quarta candidatura foi a de Obéd Emmerich, do PRP, que, como já mencionado, apresentava um plano de governo para o município para o quadriênio 1959–1962. Dois dos candidatos, Eduartino e Obéd, moravam em Cariacica Sede — primeiro distrito —, e os outros dois, Francisco Soares e Evandro, residiam na região de Jardim América e Itaquari — segundo distrito. Três das quatro candidaturas municipais devem ter se articulado com as candidaturas ao governo do Estado. Eduartino Silva apoiou e foi apoiado por Carlos Lindenberg e, segundo Silva (2017, p. 123), aceitou ser candidato mediante o compromisso de asfaltamento da rodovia Cariacica–Vitória por parte de Lindenberg, caso eleito governador. Francisco de Oliveira Soares, que provavelmente recebeu o apoio do governador em exercício, Francisco Lacerda de Aguiar, deve ter apoiado e sido apoiado por Floriano Rubim.
Capítulo 3 131 No caso de Obéd, ele apoiou e recebeu apoio de Eurico Rezende. Como Eurico precisava do maior número possível de apoios em todos os municípios do Estado, a candidatura de Obéd em Cariacica, aprovada pelo PRP desde 1957, deve ter sido muito bem-vinda. Cabe informar que Eurico já era amigo de Obéd desde a década de 1940, quando este esteve em São Mateus, sendo inclusive seu padrinho de casamento em 1953. Os nomes de todos os candidatos a prefeito e a vereador de Cariacica na eleição de 1958 foram divulgados no DOES/Diário da Justiça de 24/09/1958. Observamos que, além de PSD, PTB, PDC e PRP, que apresentaram candidaturas a prefeito, a UDN, o PSP e o PR também participaram da eleição, mas lançando apenas candidatos a vereador. Os candidatos a prefeito foram: Eduartino Silva – pelo PSD; Francisco de Oliveira Soares – pelo PTB; Evandro de Figueiredo – pelo PDC; e Obéd Emmerich – pelo PRP. Os nomes dos candidatos a vereador em 1958, em ordem alfabética e listados por partido, na sequência em que foram publicados no DOES/Diário da Justiça de 24/09/1958, foram: PSD: Antonio Euclides dos Santos, Arisio Varejão Passos Costa, Aristides Moscon, Didacio Gonçalves, Honório Regiani, João Pinto Pestana, José Oliveira Santos, José Vieira de Moraes, Lamartine Cunha, Nivaldo de Siqueira, Paulo Valiate Pimenta e Temistocles Valentim; UDN: Angelo Uliana, Agenor Vieira, Arilton Rodrigues Raposo, Alfredo Borges Siqueira, Carlos Bonelli, Cecílio Maria e Waldemar Rodrigues; PSP: Antônio Neves, Armando Lopes dos Santos, Francisco Sá Rodrigues, Heráclito Lopes Patrício, Murilo Barros Moreira, Nilton Balestreiro, Otavio Gomes da Silva e Waldyr Schwab; PRP: Adolfo Ribeiro, Dival da Costa Muniz, Eduardo Pereira de Almeida, Emilio Coutinho Cardoso, João Pelissari, José Oliveira Corrêa, Ranulfo Fundão Coutinho, Raymundo da Luz, Vitorino dos Santos e Wilson Ribeiro; PTB: Adão Miranda Campos, Arnoldo Gimenes Rodrigues, Almir Rodrigues Laranja, Fernando Paulo Bastos Valbão, Emilio Ribeiro de Moraes, Hilmar Antônio Ferrari, João Ferreira Paiva, José Coradine, José Pereira Lima, Manoel Correa de Abreu e Manoel de Oliveira Lima; PDC: Afonso Jordano Curto, Benedito Freire de Assis, Braulio Teixeira Santana, Eduardo Del Maestro Figueiredo, Iacy Ferreira Guimarães, Joaquim Nogueira da Gama, José Viana Dias, Lourival Vitor Lima, Nathalino Souza Conceição, Nicanor Gomes de Araújo, Onavio Gastão e Waldevino Tononi (Wadir); e
Capítulo 3 132 PR: Athayde Nascimento, Francisco Ribeiro da Costa, José Correa Guterres, Manoel Barbosa (Neco Barbosa), Oswaldo Motte de Lima e Silvio Fernandes da Rocha. Portanto, o PSD, a UDN, o PSP, o PRP, o PTB, o PDC e o PR apresentaram, respectivamente, 12, 7, 8, 10, 11, 12 e 6 candidatos. Conforme detalhado no livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025), após o registro das candidaturas e já próximo da eleição, o PSD, por intermédio de uma pessoa muito amiga de Obéd, propôs que ele desistisse da candidatura a prefeito em favor de Eduartino Silva, pois seus votos poderiam atrapalhar a vitória deste. Entretanto, Obéd não aceitou a proposta, dizendo: “... A esta altura dos acontecimentos a minha candidatura a prefeito não mais me pertence, pois já se tornou um patrimônio de centenas de amigos, companheiros e correligionários. Logo, moralmente e politicamente não poderia aceitar como não aceito a proposta que me foi endereçada. ...” Realmente, Obéd não podia aceitar, de forma alguma, a proposta do PSD, haja vista não estar sozinho na disputa. Como já mencionado, havia dez candidatos a vereador pelo PRP, quase todos seus amigos; a desistência seria uma traição a eles e às pessoas que abraçaram a causa do PRP. Outro fator era a disputa em nível estadual: Obéd não desapontaria o amigo Eurico Rezende e a UDN com sua desistência. As eleições — de vereador a governador de Estado — ocorreram em 3 de outubro de 1958. A eleição para presidente da República ocorreu dois anos depois, em 1960. Em âmbito estadual, os resultados de 1958 foram: Carlos Lindenberg, do PSD, foi eleito governador com 47,3% dos votos válidos; Eurico Rezende ficou em 2º lugar, com 26,5%; e Floriano Rubim em 3º, com 26,2%. Cabe registrar, ainda, que o então prefeito Jocarly Gomes Salles candidatou-se a deputado estadual pelo PTB em 1958 e foi eleito com 2.508 votos. Em âmbito municipal, Eduartino Silva, do PSD, foi eleito prefeito de Cariacica em 1958. O resultado extraoficial da eleição de prefeito foi publicado em A Gazeta de 09/10/1958. Os votos de cada candidato (e as respectivas porcentagens de votos válidos) foram: Eduartino Silva – 2.443 votos (37%); Francisco de Oliveira Soares – 1.750 votos (26%); Evandro de Figueiredo – 1.606 votos (24%); e Obéd Emmerich – 873 votos (13%).
Capítulo 3 133 Desse modo, verifica-se que era bastante fundada a preocupação do PSD em obter o apoio de Obéd em favor de Eduartino, pois, se o número de votos de Obéd fosse muito maior — por exemplo, 1.567 votos ou mais — e retirasse votos especificamente de Eduartino, o PSD poderia ter perdido a eleição. O resultado oficial das eleições para prefeito e vereadores em Cariacica, em 1958 — contendo a votação do prefeito eleito e os nomes e totais de votos dos vereadores eleitos, bem como os nomes dos respectivos suplentes — foi publicado pelo TRE no DOES/Diário da Justiça de 21/10/1958. “MUNICÍPIO DE CARIACICA [RESULTADO da ELEIÇÃO DE 1958] “PREFEITO eleito: Eduartino Silva [PSD] – 2.443 votos. VEREADORES – PSD eleitos: Honório Regiani (382 votos), Antonio Euclides dos Santos (301 votos), João Pinto Pestana (276 votos), José Oliveira Santos (215 votos) e José Vieira de Moraes (210 votos); Suplentes: Arizio Varejão Passos Costa, Nivaldo de Siqueira, Lamartine Cunha, Paulo Valiate Pimenta e Temistocles Valentim. VEREADORES – PSP eleitos: Waldyr Schwab (299 votos) e Antônio Neves (297 votos); Suplentes: Nilton Balestreiro e Heráclito Lopes Patrício. VEREADORES – PTB eleitos: José Coradine (268 votos) e Adão Miranda Campos (134 votos); Suplentes: Hilmar Antônio Ferrari e João Ferreira Paiva. Os demais Partidos não fizeram nenhum candidato.” Fonte: TRE (DOES/Diário da Justiça de 21/10/1958). Infelizmente, não foram divulgados os números de votos dos suplentes, nem os nomes e as votações dos candidatos não eleitos, tanto dos partidos que elegeram vereadores (PSD, PSP e PTB) quanto dos demais partidos (PDC, PR, PRP e UDN), que não atingiram o coeficiente eleitoral. Observa-se que o grande vencedor da eleição foi o PSD, que elegeu o prefeito e cinco vereadores, atingindo 5/9 (56%) da Câmara Municipal. Já o PSP e o PTB, cada um com dois vereadores, alcançaram 2/9 (22%), empatando na segunda e terceira colocações. Segundo levantamento do autor, havia 9 (nove) candidatos a vereador em 1958 residentes em Cariacica Sede e arredores, entre um total de 66 candidatos. Seus nomes, listados por partido, eram: Temistocles Valentim — pelo PSD; Angelo Uliana — pela UDN; Adolfo Ribeiro, Dival da Costa Muniz, José Oliveira Corrêa, Ranulfo Fundão Coutinho e Wilson Ribeiro — pelo PRP; Arnoldo Gimenes Rodrigues e Almir Rodrigues Laranja — pelo PTB.
Capítulo 3 134 Cabe observar que nenhum dos candidatos moradores de Cariacica Sede e arredores foi eleito vereador. Apenas Waldyr Schwab, morador do Porto de Cariacica, que mantinha um cartório em Cariacica Sede, foi eleito. A questão do quociente eleitoral prejudicou algumas dessas candidaturas, como a de Angelo Uliana, conceituado dentista prático, conhecido como Sr. Angelin. Conversamos, em 2025, com um de seus filhos, que nos informou que o seu pai afirmava ter obtido número de votos superior ao de alguns eleitos, mas que não se tornou vereador porque seu partido não atingiu o quociente eleitoral. Pode-se deduzir que a grande quantidade de candidatos de Cariacica Sede no PRP tenha, de algum modo — pelo fenômeno de pulverização dos votos —, prejudicado o desempenho de outros candidatos da Sede, do PSD e do PTB, que sequer chegaram a ser suplentes. Isso, porém, é inerente à dinâmica do processo democrático. Por fim, cabe informar que o Diretório do PRP de Cariacica extinguiu-se após as eleições de 1958. A última ata lavrada data de 21/08/1958 (pp. 11–13). O resultado dessa eleição evidenciou que o sistema eleitoral dificulta bastante a eleição de vereadores por partidos pequenos e pouco estruturados. 3.7 A política e as eleições em Cariacica de 1959 a 1963 Gestão de Eduartino Silva (jan. 1959 – jan. 1963) Em 31 de janeiro de 1959, Eduartino Silva iniciou o seu mandato como prefeito de Cariacica, que se estendeu até 30 de janeiro de 1963. Cabe registrar que, mesmo havendo perdido a eleição, Eduartino escolheu Obéd Emmerich como seu principal auxiliar (o secretário) na Prefeitura de Cariacica. Essa escolha se deveu à reconhecida capacidade de trabalho de Obéd, que possuía profundo conhecimento em contabilidade pública e uma excelente habilidade de expressão, tanto oral quanto escrita. Eduartino Silva realizou uma administração muito eficiente, marcada por importantes realizações, como: 1) Fundação do Ginásio São João Batista de Cariacica; 2) Pavimentação da Rodovia Cariacica–Vitória, realizada pelo estado; 3) Drenagem no bairro de Campo Grande; 4) Instalação da Comarca de Cariacica, promovida pelo governo do estado; 5) Criação da Rádio Difusora de Cariacica, realizada por Rômulo Conde; 6) Isenções tributárias para novas indústrias por um período determinado.
Capítulo 3 135 Conforme explicado no livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025), Obéd auxiliou Eduartino, de forma especial, em algumas dessas realizações, já que estavam elencadas em seu manifesto-programa, aprovado em 1957. Pelos motivos expostos ao final da seção 2.1 e ao término do texto referente à gestão do prefeito tratado na seção 3.4, está fora do escopo desta obra apresentar mais detalhes sobre a presente gestão do Poder Executivo municipal. Deixamos essa empreitada para outros autores. Eleição de 1962 em Cariacica: vitória de Jocarly Em 7 de outubro de 1962 ocorreram eleições que abrangeram cargos de vereador a governador do Estado. A eleição para presidente da República ocorreu dois anos antes, em 1960. Em 1962, houve duas candidaturas fortes ao governo do Estado. O PSD lançou o ex-governador Jones dos Santos Neves, pela coligação PSD/PTN/PRT, e o PTB lançou o também ex-governador Francisco Lacerda de Aguiar (Chiquinho), pela coligação PDC/UDN/PTB/PSP/PRP. O resultado foi apertado: Chiquinho foi eleito governador pela segunda vez, com 114.586 votos — 52% dos votos válidos; Jones obteve 105.673 votos — 48% dos votos válidos. Para as duas vagas do Senado Federal, houve quatro candidaturas: Carlos Lindenberg (coligação PSD/PTN/PRT), Eurico Rezende (coligação PDC/UDN/PTB/PSP/PRP), Olímpio José de Abreu (coligação PSD/PST/PRT) e Raul Giuberti (coligação UDN/PTB/PSP/PRP). Como eram duas vagas, podia-se votar em dois nomes. Os eleitos foram Eurico Rezende, com 111.897 votos, e Raul Giuberti, com 88.807. O ex-governador Carlos Lindenberg obteve 84.029 votos, mas não foi eleito, pois ficou na terceira colocação; Olímpio José de Abreu foi o quarto e último colocado, com 56.121 votos. No âmbito municipal, em 1962, houve apenas duas candidaturas à Prefeitura de Cariacica. O ex-prefeito Jocarly Gomes Salles, então deputado estadual, rearticulou a UDN e candidatou-se novamente a prefeito em uma forte coligação UDN/PDC/PTN, contra o candidato João Maciel Cavalcante (Pernambuco), do PSD. Um fato novo na eleição de 1962 foi a escolha de vice-prefeito: o jovem Thales Barbosa, de 31 anos, filho de Theologo Gaudio Barbosa — conceituado funcionário da prefeitura e segundo-secretário da UDN em 1958 —, candidatouse pela coligação UDN–PDC, contra José Coradine, do PTB. Os nomes de todos os candidatos a prefeito, a vice-prefeito e a vereador de Cariacica na eleição de 1962, com os respectivos partidos e coligações, foram divulgados no DOES/Diário da Justiça de 21/09/19562. Os candidatos a prefeito foram: Jocarly Gomes Salles – pela UDN, pelo PTN e pelo PDC; João Maciel Cavalcante (Pernambuco) – pelo PSD.
Capítulo 3 136 Os candidatos a vice-prefeito foram: Thales Barbosa – pela UDN e pelo PDC; José Coradine – pelo PTB; Os nomes dos candidatos a vereador em 1962, em ordem alfabética e listados por partido, na sequência em que foram publicados no DOES/Diário da Justiça de 21/09/19562, foram: UDN: Adolfo Ribeiro, Eduardo Pereira de Almeida, Efigênio Souza Lima, Emiliano Pimentel Gusmão, Leo Borges, Olavo Monteiro, Ralph Gomes Salles, Raymundo da Luz, Waldemar Rodrigues, Waldevino Tononi e Wenceslau Alves de Castro Neto; PSD: Afonso Jordano Curto, Alfredo Rosetti, Antonio Euclides dos Santos, Arnaldo Kohler, Benedito Rodrigues Castão, Heráclito Cirilo Lopes, Jamy Amorim, José Oliveira Corrêa, José Oliveira Santos, José Teles de Oliveira, José Vieira de Morais e Obéd Emmerich; PTN: João Chagas Filho, Jocarly José Motta, Raul Rodrigues e Sidney Dias Mello; PSP: Adyr Vieira Gouveia, Arnoldo Gimenes Rodrigues, Didácio Gonçalves, Djalma Lemos, Francisco Sá Rodrigues, Heráclito Lopes Patrício, Luiz Gomes, Manoel Zaluar Pereira Gomes, Nilton Balestreiro, Therezolino Costa e Vicente Santório Fantini; PTB: Adão Miranda Campos, Alcides dos Santos, Antonio Ignácio Rodrigues, Arnaldo Dionisio de Souza, Armando Schwab Scarpino, Caudelino Mendes, Dailson Laranja, Fernando Paulo Bastos Valbão, Hélio Segóvia, Hilmar Antonio Ferrari e José Pereira Lima; PDC: Antonio Pinto de Oliveira, Braulio Teixeira Santana, Dário Paiva, Elbes de Almeida, Gualter Gonçalves, Jayme Ferreira Leite, Manoel Rodrigues do Carmo, Mário Leal Bezerra, Nathalino Souza Conceição, Nelson Rodrigues Salles e Redelvino Souza. Verifica-se que Jocarly deixou — ou perdeu — o controle do PTB, partido pelo qual havia sido eleito sucessivamente vereador, prefeito e deputado estadual em 1950, 1954 e 1958. Não sabemos a razão desse fato. Em 1962, porém, Jocarly passou a liderar uma UDN fortalecida, inclusive com a candidatura de seu filho, Ralph Gomes Salles, que se lançou, pela primeira vez, a vereador. Como o PRP se extinguiu após 1958, observa-se que, entre os antigos membros do partido, Obéd e José Corrêa optaram pelo PSD, provavelmente por sugestão do prefeito Eduartino e de amigos de Obéd, como Manoel Rosário. Por outro lado, Adolfo Ribeiro e Raymundo da Luz escolheram a UDN. Um fato notável na eleição de 1962 é que Honório Regiani, o vereador mais votado em 1958, não se candidatou à reeleição nem a outro cargo. Em 2025, conversamos com um de seus filhos, que consultou a mãe; ela informou que ele não se candidatou porque decidiu “concentrar-se na atividade empresarial”.
Capítulo 3 137 As votações de todos os candidatos na eleição de 1962 — de prefeito e viceprefeito a vereador — constam do Edital nº 184/62 do TRE, publicado no DOES/Diário da Justiça de 21/10/1962: MUNICÍPIO DE CARIACICA [RESULTADO da ELEIÇÃO DE 1962] “PREFEITO eleito: Jocarly Gomes Salles (UDN-PDC-PTN: 5.942 votos; Cand. a Prefeito não eleito: João Maciel Cavalcante (PSD) 2.069 votos. VICE-PREFEITO eleito: Thales Barbosa (UDN-PDC): 3.844 votos; Cand. a Vice-Prefeito não eleito: José Coradini (PTB): 3.262 votos. VEREADORES – PSD eleitos: Antonio Euclides dos Santos: 542, Jamy Amorim: 293, Obéd Emmerich: 205; Suplentes: José Oliveira Santos: 201, José Oliveira Corrêa: 189, Alfredo Rosetti: 164, José Teles de Oliveira: 147, Arnaldo Kohler: 134, José Vieira de Morais: 119, Heráclito Cirilo Lopes: 98, Benedito Rodrigues Castão: 88, Afonso Jordano Curto: 66; VEREADORES – PSP eleitos: Vicente Santório Fantini: 452, Nilton Balestreiro: 324; Suplentes: Didácio Gonçalves: 236, Arnoldo Gimenes Rodrigues: 234, Heráclito Lopes Patrício: 153, Francisco Sá Rodrigues: 110, Manoel Zaluar Pereira Gomes: 81, Djalma Lemos: 63, Luiz Gomes: 63, Adyr Vieira Gouveia: 28, Therezolino Costa: 18; VEREADORES – UDN eleitos: Efigênio Souza Lima: 213, Adolfo Ribeiro: 210; Suplentes: Waldemar Rodrigues: 193, Ralph Gomes Salles: 192, Waldevino Tononi: 134, Leo Borges: 109, Olavo Monteiro: 101, Raymundo da Luz: 90, Wenceslau Alves de Castro Neto: 35, Eduardo Pereira de Almeida: 21, Emiliano Pimentel Gusmão: 8; VEREADORES – PTB eleitos: Dailson Laranja: 194, Antonio Ignácio Rodrigues: 179; Suplentes: Arnaldo Dionisio de Souza: 151, Armando Schwab Scarpino: 142, Adão Miranda Campos: 128, Hilmar Antonio Ferrari: 103, Hélio Segóvia: 107, José Pereira Lima: 86, Fernando Paulo Bastos Valbão: 76, Caudelino Mendes: 52, Alcides dos Santos: 22; CANDIDATOS a VEREADOR do PDC (não eleitos pois o partido não atingiu o quociente eleitoral): Elbes de Almeida: 198, Jayme Ferreira Leite: 119, Nathalino Souza Conceição: 106, Mário Leal Bezerra: 98, Braulio Teixeira Santana: 96, Dário Paiva: 81, Manoel Rodrigues do Carmo: 75, Gualter Gonçalves: 41, Nelson Rodrigues Salles: 42, Antonio Pinto de Oliveira: 37, Redelvino Souza: 25; CANDIDATOS a VEREADOR do PTN (não eleitos pois o partido não atingiu o quociente eleitoral): Jocarly José Motta: 256, Raul Rodrigues: 80, Sidney Dias Mello: 80, João Chagas Filho: 39”. Fonte: TRE (DOES/Diário da Justiça de 20/11/1962).
Capítulo 3 144 MUNICÍPIO DE CARIACICA [RESULTADO da ELEIÇÃO DE 1966] “PREFEITO eleito: Vicente Santório Fantini [MDB] VICE-PREFEITO eleito: Honório Regiani [MDB]. VEREADORES – MDB eleitos: Nelço Secchin, Elbes de Almeida Lucas, Daniel Moreira da Cunha, Manoel Zaluar Pereira Gomes e Didácio Gonçalves. VEREADORES – ARENA eleitos: Jamy Amorim, Arnaldo Dionízio de Souza, Ralph Gomes Salles e Oswaldo Viola.” Fonte: TSE (documento enviado por e-mail em 2019) Assim, observa-se que, em 15 de novembro de 1966, o MDB obteve mais votos que a ARENA na eleição para prefeito, sendo, portanto, o partido vencedor. Vicente Santório Fantini foi o mais votado do MDB e, desse modo, elegeu-se prefeito de Cariacica; Honório Regiani foi eleito vice-prefeito. O MDB conquistou cinco cadeiras de vereador, enquanto a ARENA ficou com quatro. Embora não tenhamos os números exatos de votos, a proporção de vereadores sugere que o MDB tenha obtido aproximadamente 56% (±5%) dos votos válidos, enquanto a ARENA ficou com cerca de 44% (±5%). Depois do dia 17 de novembro, a única notícia que encontramos na imprensa sobre os resultados das eleições em Cariacica foi uma matéria paga em A Gazeta de 22/11/1966, na qual Vicente Santório e Honório Regiani comunicaram o seguinte: “Ao povo de Cariacica VICENTE SANTORO FANTINI e HONORIO REGIANI, na impossibilidade de agradecerem pessoalmente, um por um, aos amigos que lhes honraram com seus votos, agradecem de público a confiança que lhes depositaram, e à qual saberão responder, aproveitando para solicitar a esses amigos evitarem toda e qualquer manifestação pública, numa demonstração de respeito aos vencidos. Fonte: A Gazeta de 22/11/1966 (grifos nossos) Pela última sentença, observa-se que Vicente e Honório foram perspicazes. É um princípio básico da negociação e da boa prática política ser sempre respeitoso com o oponente após uma vitória, mesmo quando se obtém larga vantagem (Ury, 2005). Por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, após lograr êxito na negociação com a União Soviética durante a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962, instruiu todos os seus auxiliares na Casa Branca e no Pentágono a não “cantar” vitória.
Capítulo 3 145 Campanha Eleitoral para Deputado Estadual em 1966 Em 1966, na campanha para deputado estadual, havia três candidatos de Cariacica Sede disputando o voto do eleitorado. Um deles era o então vereador Obéd Emmerich, da ARENA, já sênior — com 56 anos. Os outros dois eram relativamente jovens e competentes: o vice-prefeito Thales Barbosa, da ARENA — com 35 anos —, e o vereador Dailson Laranja, do MDB — com 26 anos. O resultado da eleição foi o seguinte: Obéd Emmerich — 1.108 votos (893 em Cariacica; 56 em Vitória) Thales Barbosa — 1.309 votos (812 em Cariacica; 202 em Vitória) Dailson Laranja — 3.395 votos (2.072 em Cariacica; 696 em Vitória) Desse modo, entre os candidatos com boa base em Cariacica Sede, apenas Dailson Laranja foi eleito deputado estadual em 1966. Ele foi o 14º mais votado entre os 43 eleitos, sendo o 3º mais votado no MDB. A ARENA elegeu 30 deputados e o MDB, 13. Os números totais de votos foram obtidos no DOES/Diário da Justiça de 14/12/1966, e as votações nos municípios de Vitória e Cariacica constam, respectivamente, dos Boletins do TRE nº 34 e nº 35, de 05/12/1966, publicados no DOES/Diário da Justiça em dezembro de 1966. Como a candidatura de Obéd já está comentada no livro Caneta de Ouro, apresentamos, a seguir, mais detalhes apenas sobre as candidaturas de Thales e de Dailson. Antes, porém, cabe informar que, após as eleições de 1966 — com a vitória de Vicente Santório Fantini, a ser empossado em 31/01/1967 —, Obéd decidiu aposentar-se do serviço na Prefeitura de Cariacica em 30/01/1967. Como Thales Barbosa vencera a eleição de vice-prefeito de Cariacica em 1962, tinha boas credenciais para se candidatar a deputado estadual em 1966. Em conversa com o autor em 2019, Thales informou ter trabalhado intensamente na campanha e que, nesse período, Vicente Santório (candidato a prefeito do MDB), seu cliente como advogado, disse-lhe que, embora fossem de partidos diferentes, lhe conseguiria uma quantidade expressiva de votos em Itaquari, Jardim América e adjacências. Entretanto, ao final da apuração, esses votos não vieram. Thales, então, encontrou-se com Vicente, já eleito prefeito com excelente votação, e perguntoulhe pelos votos prometidos. Segundo Thales, Vicente, constrangido pelos fatos, respondeu: “Criminoso é quem perde as eleições.” Embora Thales Barbosa não tenha sido eleito deputado estadual em 1966, ajudou muito Cariacica posteriormente. Como diretor administrativo do Banestes, contribuiu para a criação das agências do banco em Cariacica Sede, Itacibá e Porto de Santana, reformou a de Jardim América e deixou projetada a abertura da agência de Bela Aurora.
Capítulo 3 146 Sobre a trajetória de Dailson Laranja, cabe comentar que ele era bem jovem em 1962 — 22 anos — e foi eleito vereador de Cariacica pelo PTB com 194 votos, contando com o valioso auxílio do pai, Almir Rodrigues Laranja, pequeno agricultor, militante político do PTB e um dos líderes do movimento de criação das feiras livres da Grande Vitória. No mandato de vereador, a partir de 1963, Dailson manteve amplo contato com o público, inclusive em seu trabalho nas Casas Queimadeira e Huddersfield (varejo de tecidos), situadas na Av. Jerônimo Monteiro, no Centro de Vitória. Além disso, estava sempre presente nas feiras livres, vendendo verduras com simpatia e carisma, e participou ativamente da organização do emergente MDB. Assim, foi muito bem votado para deputado estadual em 1966, sobretudo em Cariacica e Vitória. Em conversa com o autor em 2022, Dailson relatou que um dos principais fatores de sua expressiva vitória em 1966 foi o intenso trabalho que empreendeu em Cariacica na montagem do diretório do novo partido — o MDB — para as eleições municipais daquele ano. Esse trabalho incluiu o registro e a escolha da chapa de candidatos a vereador, muitos dos quais passaram a apoiá-lo. Dailson informou ainda que quem percebeu que ele deveria ser um dos candidatos do partido a deputado estadual foi o deputado federal Argilano Dario, um dos líderes do MDB no Estado. Após acompanhar de perto sua atuação na organização do diretório de Cariacica, Argilano afirmou que ele em vez de se candidatar à reeleição como vereador, deveria se candidatar a deputado estadual, pois certamente seria eleito — e foi o que aconteceu. Cabe informar que Argilano Dario candidatou-se a deputado federal em 1966, pelo MDB, mas não foi eleito; ficou como primeiro suplente do partido, com 15.730 votos (9º mais votado no geral e 3º no MDB).
147 CAPÍTULO 4 – Política de Cariacica de 1967 a 1984 4.1 Preâmbulo A cronologia deste capítulo começa em 31 de janeiro de 1967, pois essa data marca o início de uma nova era na política de Cariacica — que se estende até exatamente o dia 02 de outubro de 1984. Esse período será denominado a Era Vicente Santório–Aldo Prudêncio. 4.2 Contexto histórico do Brasil e do Espírito Santo de 1964 a 1985 Embora a cronologia deste capítulo, que é baseada nos mandatos de prefeitos e vereadores, se estenda de 1967 a 1984, iremos focar nesta seção nos mandatos dos Presidentes da República, portanto, iremos começar em 31 de março de 1964 e não em 1967, indo até 15 de março de 1985. Os anos de 1964 a 1985 estão inseridos no período do Regime Militar Brasileiro (Fausto, 2021, p. 257), que se iniciou em 31 de março de 1964 e se encerrou em 15 de março de 1985. Para leitores interessados em informações mais abrangentes do que as aqui apresentadas sobre o Brasil e o Espírito Santo, recomendamos consultar o livro “História Concisa do Brasil”, de Boris Fausto (2021), e as obras “Espírito Santo: Estado, interesses e poder”, de Marta Zorzal e Silva (1986). Em 31 de março de 1964 foi deflagrado o movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart e instaurou a Revolução de 1964, também denominada de Golpe de Estado no Brasil em 1964. Foi implantado o Regime Militar Brasileiro (Fausto, 2021, p. 257), que é também denominado de Ditadura Militar Brasileira. Está fora do escopo desta obra fazer comentários positivos ou negativos sobre os governos e as crises, bem como os pontos positivos e negativos do Regime Militar Brasileiro. De 1964 a 1969, foram instituídos 17 Atos Institucionais (AI), formulados pelo poder executivo, com o respaldo do Conselho de Defesa Nacional, com a função de legitimar e legalizar diversas ações políticas e administrativas. O primeiro deles, o AI-1, deu vários poderes ao executivo, como o de modificar a constituição e as leis, e suspender (cassar) os direitos políticos de cidadãos por dez anos. Houve diversas cassações de direitos políticos, que resultaram na perda de mandatos, mas a ampla maioria dos governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores continuaram seus mandatos depois de 1964.
Capítulo 4 148 Em 27/10/1965 foi editado o AI-2 que extinguiu todos os partidos políticos. Em 1966, foram criados dois novos partidos: um de apoio ao governo, a Aliança Renovadora Nacional – ARENA, em 04/04/1966; e outro de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, em 26/03/1966. Em 05/02/1966 foi editado o AI-3, que estabeleceu a eleição indireta dos governadores e vices pelas Assembleias Legislativas, e que os prefeitos das capitais seriam nomeados pelos governadores. Em 1967 foi outorgada a Constituição Brasileira de 1967, que buscou institucionalizar o Regime Militar. Mesmo assim, outros Atos Institucionais continuaram sendo editados, como o AI 5 de 13/12/1968, que alegando uma necessidade de proteger o regime “no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção”, acabou endurecendo demais o regime – com poderes despóticos, como a suspensão da “garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular”. Os Presidentes da República, eleitos de forma indireta pelo Congresso Nacional, todos generais do Exército, foram: Humberto de Alencar Castelo Branco (1964–1967), Artur da Costa e Silva (1967–1969), Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), Ernesto Geisel (1974–1979) e João Batista Figueiredo (1979–1985). Os governadores do Espírito Santo, eleitos de forma indireta pela Assembleia Legislativa, a partir de 03 de setembro de 1966 foram: Christiano Dias Lopes Filho (1967–1971), Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971–1975), Élcio Álvares (1975–1979) e Eurico Rezende (1979–1983). Gerson Camata (mandato: 1983-1986), eleito diretamente em 1982, sucedeu Eurico Rezende em 1983. Os eventos que levaram a essa eleição serão comentados a seguir. Em 1979 começou, de forma efetiva, uma abertura política no país. Em 28 de agosto de 1979 foi sancionada a Lei de Anistia para os cassados políticos, os membros do governo acusados de tortura, e os que praticaram ou foram acusados de crimes de terrorismo. Em 22 de novembro de 1979 foi aprovada uma reforma política que extinguiu a ARENA e o MDB, e restabeleceu o pluripartidarismo no Brasil. O sucessor da ARENA foi o Partido Democrático Social – PDS (fundado em 31/01/1980) e o do MDB foi o Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB (fundado
Capítulo 4 149 em 15/01/1980). Diversos outros partidos, como o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido dos Trabalhadores (PT), foram também criados a partir do início de 1980. Em 13 de novembro de 1980 foi aprovada, por unanimidade, a emenda constitucional que restabeleceu o voto direto nas eleições para governador previstas para 1982. No espírito Santo, Gerson Camata, do PMDB, foi eleito governador em 15 de novembro de 1982 com 60,3% dos votos, derrotando Carlos Alberto Lindenberg von Schilgen [Carlito] (PDS, com 38,1%), Perly Cipriano (PT, com 1,4%) e Osvaldo Mármore (PDT, com 0,2%). Gerson Camata tomou posse como governador em 15/03/1983. Entre 1983 e 1984 ocorreu um movimento no Congresso Nacional e em todo o país denominado “Diretas Já” que tentou aprovar a emenda constitucional do deputado federal Dante de Oliveira para o estabelecimento de eleições presidenciais diretas, mas a embora Emenda Dante de Oliveira não tenha sido aprovada, em 15 de janeiro de 1985, seus apoiadores, através da frente Liberal, conseguiram uma vitória no colégio eleitoral: Tancredo Neves e José Sarney, do PMDB, com 480 votos (72,7%), foram eleitos como Presidente e Vice-presidente da República; Paulo Maluf e Flávio Marcilio, do PDS, que obtiveram 180 votos (27,3 %), foram derrotados. Em 15 de março de 1985 foi a posse do novo presidente da república. Como o presidente eleito Tancredo Neves estava muito doente, quem assumiu como presidente da república, interinamente, foi o vice-presidente José Sarney. Em 21/04/1985 Tancredo Neves morreu, e José Sarney passou à condição de presidente da república efetivo (não mais interino). O dia 15 de março de 1985 marca o fim do Regime Militar Brasileiro. 4.3 Prefeitos de Cariacica de 1967 a 1984 Prefeito: Mandato: Eleito em: Vicente Santório Fantini 31/01/1967 a 30/01/1971 15/11/1966 Aldo Alves Prudêncio 31/01/1971 a 30/01/1973 15/11/1970 Vicente Santório Fantini 31/01/1973 a 30/01/1977 15/11/1972 Aldo Alves Prudêncio 31/01/1977 a 09/12/1980 3 15/11/1976 Joel Lopes Rogério 09/12/1980 a 17/11/1981 4 Substituto legal Wagner de Almeida 17/11/1981 a 30/01/1983 Substituto legal Vicente Santório Fantini 31/01/1983 a 01/10/1984 15/11/1982 3 Após um atentado a tiros, Aldo foi substituído por Joel Lopes Rogério, Presidente da Câmara. 4 Após morte acidental com revolver, Joel foi substituído por Wagner Almeida, Presidente da Câmara.
Capítulo 4 150 4.4 A política e as eleições em Cariacica de 1967 a 1970 1ª Gestão de Vicente Santório Fantini (jan. 1967 – jan. 1971) Em 31 de janeiro de 1967, Vicente Santório Fantini iniciou seu primeiro mandato como prefeito de Cariacica, que se estendeu até 30 de janeiro de 1971. Segundo Silva (2017, p. 123), a administração de Vicente — em seus três mandatos — foi marcada por obras de grande porte e caráter futurista. Não apresentaremos outros comentários neste momento; faremos isso ao final, na seção 4.xxxx. Pelos motivos expostos ao final da seção 2.1 e ao término do texto referente à gestão do prefeito tratado na seção 3.4, está fora do escopo desta obra apresentar mais detalhes sobre a presente gestão do Poder Executivo municipal. Deixamos essa empreitada para outros autores. Eleição de 1970 em Cariacica: início de Aldo Em 15 de novembro de 1970 ocorreram eleições gerais que abrangeram cargos de vereador a senador. Informamos que alguns parágrafos desta e de outras seções deste capítulo são semelhantes aos de seções do Capítulo 5 do livro Caneta de Ouro (Emmerich, 2025). Mantivemos certas repetições porque muitos leitores consultarão apenas uma das obras. Cabe informar que, antes da abertura do processo eleitoral, o art. 2º do Ato Institucional nº 11, de 14 de agosto de 1969, definiu que os prefeitos, viceprefeitos e vereadores eleitos em 30 de novembro de 1969 ou em 15 de novembro de 1970 exerceriam seus respectivos mandatos até 31 de janeiro de 1973. Como em Cariacica a eleição ocorreria em 1970, os mandatos seriam de janeiro de 1971 a janeiro de 1973, ou seja, de apenas dois anos — e não de quatro. Como a gestão do prefeito Vicente Santório desagradava a Jocarly Gomes Salles, Nilton Balestreiro, Obéd Emmerich e outros líderes da ARENA, eles se articularam para fortalecer ao máximo o partido, acreditando que poderiam superar Vicente e o MDB nas eleições de novembro de 1970. Nesse contexto, em 1970, a ARENA de Cariacica adotou a estratégia de apresentar dois fortes candidatos a prefeito, moradores do 2º distrito, e um terceiro, menos competitivo, de Cariacica Sede. O primeiro foi o popular exprefeito Jocarly Gomes Salles, morador de Itaquari, tendo José Teles de Oliveira como vice. O segundo foi o expressivo vereador Oswaldo Viola, morador de Jardim América, tendo Geraldo Fernandes Miranda como vice. O terceiro, para completar a chapa, foi Obéd Emmerich — que ajudaria a legenda principalmente em Cariacica Sede —, tendo Ademar Silveira Cunha, morador de Itacibá, como vice.
Capítulo 4 151 Por sua vez, no MDB, o candidato natural mais forte seria Honório Regiani, vice-prefeito vitorioso ao lado de Vicente Santório Fantini na eleição de 1966. Entretanto, mesmo com a insistência do prefeito Vicente, Honório não quis ser candidato, por ser pessoa séria e responsável e saber que a prefeitura tinha dívidas a pagar; não desejava, caso eleito, desgastar-se passando boa parte do curto mandato de dois anos saneando as finanças do município. Vicente não se satisfez com a decisão de Honório e houve um rompimento de relações entre ambos. Sem Honório, o MDB — comandado por Vicente — escalou as seguintes chapas a prefeito/vice-prefeito: Aldo Alves Prudêncio / Antônio Euclides dos Santos; Aloízio Santos / Miguel José Rohor; e Luiz Gonzaga Ribeiro da Silva / Eutimio Edvaldo Erlacher. Aldo Prudêncio era morador do bairro Tabajara, empresário e comerciante — sócio da Aguardente Cariacica e proprietário do Caldo de Cana Abrigo, na Vila Rubim, em Vitória. Aloízio Santos era uma liderança jovem de Campo Grande e estava se formando em Direito na UFES. Luiz Gonzaga Ribeiro da Silva era exvereador do antigo PTB e desportista da região de Jardim América. Luiz foi um dos 25 conselheiros que, em 1963, votaram na fusão de cinco clubes que deu origem à Desportiva Ferroviária (Vierini, 2014). A ARENA se esforçou ao máximo em 1970. Jocarly era muito conhecido por já ter exercido dois mandatos como prefeito e tinha grande penetração nos bairros. Oswaldo Viola, oriundo da tradicional família que criou o bairro de Jardim América, era um vereador relativamente jovem e bastante aguerrido. Entre os candidatos da ARENA, Obéd e seu vice, Ademar, eram os que tinham menores recursos materiais. Entretanto, Obéd se sobressaía pelos belos e eloquentes discursos nos comícios. Ele e seu vice também se destacaram ao lançarem seu plano de governo em um panfleto de seis páginas, com as metas administrativas principais e o slogan da campanha: “Quem não vive para servir não serve para viver!”. Como adendo ao plano de governo, Obéd imprimiu e grampeou a carta que o governador Christiano Dias Lopes Filho lhe enviou em 03/06/1970, na qual prometia instalar parte do Centro Industrial da Grande Vitória no entorno da Rodovia do Contorno 5 . As íntegras dessa carta e do plano de governo são apresentadas na versão impressa e no MSE do livro já mencionado. Quanto às campanhas do MDB, o prefeito em exercício, Vicente Santório Fantini, dispondo do aparato da Prefeitura, apoiou principalmente — e fortemente — a candidatura de Aldo Prudêncio. 5 Em torno de 1970, discutia-se a localização do Centro Industrial da Grande Vitória. Naquele período, havia tentativas de excluir Cariacica em favor exclusivo do município da Serra, usando como justificativa a existência do Leprosário de Itanhenga. Obéd elaborou um documento de protesto, que enviou ao governador Christiano Dias Lopes Filho. O governador chamou tal documento de “trabalhoprotesto”. Nele, Obéd defendia que parte do Distrito Industrial da Grande Vitória deveria estar em Cariacica, destacando suas vantagens logísticas e refutando os argumentos acerca dos impactos negativos do leprosário. O governador respondeu positivamente a Obéd em carta datada de 03/06/1970.
Capítulo 4 152 Novamente, não obtivemos no TRE, por meio do DOES/Diário da Justiça, nem em A Gazeta e A Tribuna, os nomes e os dados numéricos dos resultados finais da eleição de 1970, tanto para prefeito quanto para vereador em Cariacica. Felizmente, por meio de um e-mail ao TSE, recebemos uma resposta com um anexo em PDF com 3 páginas escritas. Com esse documento, obtivemos os resultados completos da eleição de 1970 em Cariacica, com os nomes de todos os candidatos — eleitos, suplentes e não eleitos —, bem como os totais de votos válidos, brancos, nulos e de legenda partidária. Como esses resultados são importantes e raros, apresentaremos, a seguir, uma imagem da parte relativa à eleição para prefeito, deixando a íntegra do documento para o Anexo B, ao final desta obra. Informamos que foi graças a esse importante documento que pudemos apresentar, alguns parágrafos antes, os nomes de todos os candidatos a prefeito e a vice-prefeito. Não fornecemos, até este momento, os nomes de todos os que concorreram a vereador, pois eles constam do documento do TSE, com os resultados finais, que divulgaremos na sequência. Apresentamos, a seguir, uma imagem de um extrato da eleição para prefeito: Fonte: TSE (documento enviado por e-mail em 2019)
Capítulo 4 153 Como já informado, as imagens da íntegra deste boletim do TSE, incluindo as votações dos vereadores, encontram-se no Anexo B, ao final desta obra. A seguir, transcrevemos os resultados completos da eleição de 1970 em Cariacica, incluindo as votações de todos os vereadores. Embora o documento completo do TSE esteja em formato distinto — aliás, muito bem elaborado —, apresentamos a transcrição em padrão semelhante ao adotado nas eleições anteriores (1947–1966), conforme o quadro a seguir. MUNICÍPIO DE CARIACICA [RESULTADO da ELEIÇÃO DE 1970] “PREFEITO eleito: – MDB: Aldo Alves Prudêncio: 6.866 votos VICE-PREF. eleito – MDB: Antônio Euclides dos Santos: 6.866 votos Candidatos a PREFEITO/VICE-PREFEITO não eleitos: MDB: Aloízio Santos/Miguel José Rohor: 1.828 Luiz Gonzaga Ribeiro da Silva/Eutimio Edvaldo Erlacher: 1.123 ARENA: Oswaldo Viola/Geraldo Fernandes Miranda: 4.535 Jocarly Gomes Salles/José Teles de Oliveira: 3.254 Obéd Emmerich/Ademar Silveira Cunha: 1.019 VEREADORES – MDB eleitos: Armando Schwab Scarpino (992 votos), Clovis José Siqueira (964), Délio Simão Nader (909), Antonio Leandro Da Silva (886), Efigênio Souza Lima (767) e Natanael Cardoso (749); Suplentes: Daniel Moreira da Cunha (559), Elson Nascimento (528), José Carlos Tavares (495), Nelço Secchin (482), Melchiades Fioroti (404), Vicente Januth (369), Didácio Gonçalves (315), Arilton Vieira (296), Lino Pinto da Silva (288), Gualter Gonçalves (171), Magno Teixeira de Oliveira (159), Elizeu Guariento (157), José de Souza Martins (105) e Nelson Rodrigues Sales (89), VEREADORES – ARENA eleitos: Edisio Correa Pinto (661 votos), Edson Bernardo Cordeiro (599), Bernardo Moscon (583) e Mauro José Cardoso (569); Suplentes: Adão Miranda Campos (472), Verdiano Braga (472), Bento Somes (384), Henrique Rodrigues de Oliveira (331), Arnaldo Dionísio da Vitoria (309), Antonio Nader Ribeiro (299), Durval Zanela de Nadai (266), Luiz Rodrigues (254), José Oswaldo Zucolotto (247), Lourdes Carvalho (199), Alcy Correa da Silva (193), Durval Carvalho Soares (178), Darcy Fogos Marien (162), Renato Júnior (130), Durval Alves de Souza (122), Felipe Martins de Oliveira (44) e José Goulart da Silva (17).” Fonte: TSE (Dados enviados por e-mail em 2019) Verifica-se, portanto, que os três candidatos a prefeito pelo MDB somaram 9.817 votos (Aldo Alves Prudêncio: 6.866; Aloízio Santos: 1.828; e Luiz Gonzaga