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____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 145 (Ciências Sociais) ATENÇÃO PSICOSSOCIAL EM SANTOS E GUARUJÁ: DEMANDAS OBSERVADAS E PERSPECTIVAS DE INTERVENÇÃO PSYCHOSOCIAL CARE IN SANTOS AND GUARUJÁ: OBSERVED DEMANDS AND PERSPECTIVES FOR INTERVENTION Valéria Nancy de Freitas, Breno Ventura Pereira Ruiz, Heloara Leal Silva, Lucas de Sampaio Falco Bastos, Maxine Ciocci Alves, Rafael da Silva Cruz, Tatiana Velludo Molina Biral, Thaís Cavalcante Braga. Universidade Santa Cecília, Curso de Psicologia E-mail para contato: freit[email protected] RESUMO – Este estudo analisa práticas e demandas em dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da Baixada Santista: Vila (Santos) e AD (Guarujá). A pesquisa qualitativa incluiu observação participante no primeiro semestre de 2025 e o início de intervenções coletivas a partir de agosto. Identificaram-se potencialidades, como atuação interdisciplinar e escuta qualificada, e limitações, como precariedade estrutural e falta de recursos. A carência de grupos terapêuticos foi apontada como demanda recorrente. Como resposta, foram iniciadas uma oficina de artes e grupos de conversa no CAPS Vila, além do reforço ao grupo de redução de danos no CAPS AD. Os achados parciais indicam a relevância das práticas coletivas na promoção da saúde mental e no fortalecimento da atenção psicossocial. Palavras-chave: Saúde mental; Atenção psicossocial; Intervenção; CAPS; Redução de danos. ABSTRACT – This study analyzes practices and demands in two Psychosocial Care Centers (CAPS) in the Baixada Santista region: Vila (Santos) and AD (Guarujá). The qualitative research included participant observation in the first semester of 2025 and the beginning of collective interventions from August onwards. Potentialities were identified, such as interdisciplinary work and qualified listening, and limitations, such as structural precariousness and lack of resources. The shortage of therapeutic groups emerged as a recurring demand. In response, an art workshop and support groups were initiated at CAPS Vila, and the existing harm reduction group at CAPS AD was reinforced. Partial findings highlight the relevance of collective practices in promoting mental health and strengthening psychosocial care. Keywords: Mental health; Psychosocial care; Intervention; CAPS; Harm reduction.
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 146 (Ciências Sociais) 1 INTRODUÇÃO A constituição da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), representa um marco decisivo nas políticas públicas de saúde mental no Brasil, configurando-se como uma das principais conquistas da Reforma Psiquiátrica. Essa rede articula diferentes dispositivos e serviços de saúde, entre os quais se destacam os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), cuja função central é oferecer cuidado integral a pessoas em intenso sofrimento psíquico. Os CAPS surgiram no bojo do movimento da Luta Antimanicomial, impulsionado pela crítica ao modelo hospitalocêntrico e pela defesa do cuidado em liberdade, do respeito aos direitos humanos e da inclusão social de pessoas em sofrimento mental (Amarante, 2007; Brasil, 2004). O paradigma que sustenta esses serviços é a clínica ampliada, que valoriza a singularidade dos sujeitos, a integração com o território e a construção coletiva de estratégias de cuidado. Os CAPS configuram-se, portanto, como espaços de cuidado territorializado, que envolvem não apenas o tratamento clínico, mas também a promoção da cidadania e da autonomia. No caso do CAPS Vila, localizado no município de Santos, a proposta é acompanhar adultos em sofrimento psíquico grave e persistente, contemplando desde o acolhimento inicial até atividades de convivência, atendimentos individuais e grupos terapêuticos. Já o CAPS AD, situado no município do Guarujá, apresenta como especificidade o atendimento a sujeitos cujo sofrimento psíquico se articula ao uso problemático de álcool e outras drogas, o que exige estratégias orientadas pela Redução de Danos, pela escuta ampliada e pelo manejo interdisciplinar de múltiplas vulnerabilidades. Apesar de suas diferenças, ambos os serviços compartilham a lógica da atenção psicossocial: práticas integradas, baseadas na escuta qualificada, na construção de vínculos e na inserção comunitária como elementos fundamentais para a produção de saúde (Conselho Federal de Psicologia, 2019; Dalgalarrondo, 2019). A vivência nos dois dispositivos evidenciou tanto as potências quanto os limites da atenção psicossocial em seu funcionamento cotidiano. Entre os aspectos positivos, sobressai a atuação interdisciplinar das equipes, a escuta atenta dos usuários e a manutenção de espaços de convivência que favorecem a socialização e reduzem o isolamento. Essa abordagem reforça a ideia de que o cuidado em saúde mental não se restringe a protocolos clínicos, mas se constrói
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 147 (Ciências Sociais) na relação, no vínculo e na produção compartilhada de sentidos. Em contrapartida, observouse também a precariedade estrutural, a carência de recursos materiais para oficinas terapêuticas e a sobrecarga dos profissionais, fatores que impactam diretamente na efetividade das ações. Esses desafios não apenas dificultam a ampliação das práticas existentes, mas também revelam a fragilidade do investimento público contínuo na área, apontando para o risco de retrocessos diante do cenário nacional de desmonte de políticas sociais (Bezerra Jr., 2007). Dessa forma, este estudo tem como objetivo analisar a realidade observada nos dois serviços de saúde mental, destacando as demandas que emergem do contato direto com usuários e equipes, bem como discutir possibilidades de intervenções que dialoguem com esse contexto. O problema que orienta a pesquisa consiste na carência de grupos terapêuticos diversificados, que possam responder às necessidades de expressão subjetiva, manejo de sintomas e fortalecimento da rede de apoio dos usuários. A hipótese é a de que a ampliação de práticas coletivas (como oficinas e grupos de conversa) pode potencializar o cuidado, promover saúde mental e contribuir para o fortalecimento da atenção psicossocial no território. Assim, pretendese oferecer subsídios para a reflexão crítica sobre os CAPS como espaços de inovação em saúde mental, capazes de articular teoria e prática em uma clínica comprometida com a ética, os direitos humanos e a cidadania. 2 MATERIAIS E MÉTODOS O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, descritiva e de caráter interventivo, desenvolvida em dois dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): o CAPS Vila, no município de Santos, e o CAPS AD, no município do Guarujá. Ambos integram o Sistema Único de Saúde (SUS) e possuem perfis distintos: o primeiro voltado ao acompanhamento de adultos em sofrimento psíquico grave e persistente e o segundo direcionado a sujeitos em sofrimento psíquico associado ao uso problemático de álcool e outras drogas. A pesquisa foi organizada em duas etapas complementares. A primeira, entre fevereiro e junho de 2025, consistiu em observação participante do cotidiano institucional, contemplando acolhimentos, atendimentos individuais e grupais, reuniões de equipe e atividades de convivência. Foram elaborados registros em diário de campo e analisados documentos
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 148 (Ciências Sociais) institucionais, o que possibilitou identificar potencialidades, fragilidades e demandas recorrentes dos usuários. A segunda etapa teve início em agosto de 2025 e corresponde à implementação das intervenções coletivas planejadas. No CAPS Vila, foi iniciada uma oficina de artes com frequência semanal e dois grupos de conversa: um direcionado a usuários que apresentam sintomas ansiosos e outro voltado a pessoas com sintomas depressivos. No CAPS AD, foi estruturado um grupo de redução de danos, voltado à construção coletiva de estratégias para o manejo do uso problemático de substâncias. As atividades são conduzidas em articulação com as equipes técnicas das unidades, com duração prevista até dezembro de 2025. O conjunto dos dados obtidos, tanto pela observação inicial quanto pela experiência prática da intervenção, foi submetido a uma análise descritivo-analítica, articulando os achados empíricos às referências da Reforma Psiquiátrica, da clínica ampliada e das diretrizes de Redução de Danos. A pesquisa respeitou princípios éticos fundamentais, assegurando o sigilo das informações e a preservação da identidade dos usuários atendidos. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A inserção nos campos de observação permitiu acompanhar de perto o funcionamento cotidiano de dois dispositivos estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), evidenciando tanto suas potencialidades quanto suas limitações. No CAPS Vila (Santos), destacou-se a atuação interdisciplinar da equipe, composta por psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, farmacêuticos, enfermeiros, gestores, técnicos e profissionais de apoio, além da presença de estudantes em formação. Essa interdisciplinariedade favorece a prática de uma clínica ampliada, que transcende o atendimento individual e incorpora múltiplos espaços de escuta, acolhimento, convivência e articulação comunitária. Contudo, observou-se que, apesar da dedicação dos profissionais, a precariedade estrutural da unidade, que ainda está instalada em uma sede provisória, e a escassez de recursos materiais comprometem a efetividade de oficinas terapêuticas e atividades criativas, restringindo a diversidade de práticas e impactando a qualidade do cuidado (Bezerra Jr., 2007). No CAPS AD (Guarujá), o campo mostrou de forma ainda mais evidente a relevância das estratégias orientadas pela lógica da Redução de Danos, considerando o perfil da população
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 149 (Ciências Sociais) atendida, marcada pelo uso problemático de substâncias e por vulnerabilidades sociais acentuadas. Entre as práticas já existentes, destacaram-se o acolhimento inicial, a retriagem, os grupos temáticos (voltados a famílias, saúde integral, múltiplas drogas e alcoolistas) e os atendimentos intensivos, que oferecem suporte diário a pessoas em situação de rua. Tais recursos mostram o esforço em garantir não apenas tratamento clínico, mas também condições básicas de segurança, alimentação e convivência. Contudo, limitações estruturais e burocráticas também foram observadas, como entraves administrativos, dificuldades de articulação intersetorial e sobrecarga da equipe técnica. A partir das análises iniciais, passou-se à implementação das primeiras intervenções coletivas. No CAPS Vila, foi iniciado o projeto de oficina de artes, com frequência semanal, utilizando materiais acessíveis e técnicas simples como pintura e desenho. A atividade tem se mostrado eficaz para estimular a criatividade, favorecer a socialização e criar um espaço protegido de expressão subjetiva, conforme demonstra a Figura 1. Figura 1: Desenhos produzidos na oficina de artes. Foram iniciados também os convites para os grupos de conversa, como demonstra a Figura 2, que serão direcionados a usuários com sintomas ansiosos e/ou depressivos. As primeiras adesões indicam interesse dos participantes, reforçando a relevância de espaços de troca que ampliem as possibilidades de enfrentamento coletivo e reduzam o isolamento.
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 150 (Ciências Sociais) Figura 2: Convite das rodas de conversa. No CAPS AD (Guarujá), já existe um grupo de redução de danos, porém, com a proposta atual, busca-se reforçar e ampliar sua estrutura, de modo a integrar novos usuários e diversificar estratégias de cuidado. A ênfase está na construção coletiva de alternativas para lidar com o uso problemático de substâncias, valorizando a autonomia dos sujeitos e a não moralização do cuidado, em consonância com as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia (2019). Os resultados obtidos até o momento evidenciam a centralidade das práticas grupais na atenção psicossocial, ao mesmo tempo em que revelam a tensão entre a potência transformadora das equipes multiprofissionais e os limites impostos pela precarização das políticas públicas de saúde mental no Brasil. A continuidade das intervenções até dezembro de 2025 permitirá avaliar seus impactos sobre a participação dos usuários e sobre o fortalecimento da rede de apoio comunitário. 4 CONCLUSÃO O presente estudo evidenciou, a partir da vivência no CAPS Vila (Santos) e no CAPS AD (Guarujá), a relevância das práticas psicossociais como instrumentos de cuidado em saúde mental e a necessidade de ampliar atividades grupais. A análise revelou a potência do trabalho
____________________________________________________________________________ Anais do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica Vol2 nº3 (2025) 151 (Ciências Sociais) interdisciplinar e do vínculo estabelecido com os usuários, mas também as dificuldades impostas pela precariedade estrutural e pela sobrecarga das equipes. Como resposta às demandas observadas, foram iniciadas intervenções coletivas: no CAPS Vila, a oficina de artes já está em andamento, com boa adesão inicial, e os convites para os grupos de conversa sobre ansiedade e depressão começaram a circular; no CAPS AD, o já existente grupo de redução de danos está sendo fortalecido e expandido, integrando novos participantes. Esses resultados parciais apontam para o potencial das práticas grupais em promover socialização, expressão subjetiva e fortalecimento da rede de apoio. O acompanhamento das intervenções até dezembro de 2025 permitirá avaliar de forma mais sistemática seus impactos na promoção de saúde mental e no fortalecimento da RAPS. Agradecemos ao curso de Psicologia da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), que viabilizou a articulação entre estudantes e a Prefeitura Municipal, possibilitando a inserção nos serviços e a realização deste estudo. 5 REFERÊNCIAS AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. BEZERRA JR, B. Desafios da reforma psiquiátrica no Brasil. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 31, n. 73, p. 27-36, 2007. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental no SUS: os Centros de Atenção Psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde, 2004. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) no CAPS. 2. ed. Brasília: CFP, 2019. DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. PASSOS, E.; BARROS, R. B. de. A construção do plano da clínica e o conceito de transdisciplinaridade. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 16, n. 1, p. 71-79, 2000.