OBESIDADE INFANTIL E MENARCA PRECOCE COMO PREDITORES DE RISCO CARDIOVASCULAR: IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE PÚBLICA
Abstract
Autores Julia Zago de Barros Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Ana Maria Spillere Milioli Médica pela Universidade Franciscana Bianca Guazina Dalla Costa Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Vinícius Freitas Pedron Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Fábio Cargnelutti Fontoura Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Isabella Kappel Beppler Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Clainor Giovanaz Borges Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Luiza Silva Menegazzo Médica pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Full text
11. OBESIDADE INFANTIL E MENARCA PRECOCE COMO PREDITORES DE RISCO CARDIOVASCULAR: IMPLICAÇÕES CHILDHOOD OBESITY CARDIOVASCULAR RISK: IMPLICATIONS FOR PUBLIC HEALTH EIXO TEMÁTICO: PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE CARDIOVASCULAR E - RESUMO A obesidade infantil consolidou século XXI, atingindo mais de 124 milhões de crianças e adolescentes no mundo (OMS, 2024). No Brasil, dados do Ministério da Saúde (2024) e prevalências elevadas, com impacto direto sobre a morbimortalidade. Objetivo: analisar a obesidade infantil e a menarca precoce como preditores de risco cardiovascular, discutindo suas interações e implicações para a saúde pública narrativa da literatura, baseada em estudos científicos nacionais e internacionais, com ênfase em investigações longitudinais e revisões sistemáticas. Resultados e Discussão: a obesidade infantil associase precocemen inflamação crônica de baixo grau (WEISS et al., 2004), alterações que persistem até a vida adulta e favorecem a aterogênese precoce, conforme o Bogalusa Heart Study (BERENSON et al., 1998) e o Young Finns Study (RAITAKARI et al., 2003). Crianças obesas apresentam até cinco vezes mais chances de manter a obesidade na vida adulta, ampliando o risco de morbimortalidade cardiovascular (SIMMONDS et al., 2016; REILLY; KELLY, 2022). A 121 OBESIDADE INFANTIL E MENARCA PRECOCE COMO PREDITORES DE RISCO CARDIOVASCULAR: IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE PÚBLICA CHILDHOOD OBESITY AND EARLY MENARCHE AS PREDICTORS OF CARDIOVASCULAR RISK: IMPLICATIONS FOR PUBLIC HEALTH EIXO TEMÁTICO: PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE CARDIOVASCULAR Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Ana Maria Spillere Milioli Médica Bianca Guazina Dalla Costa Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Vinícius Freitas Pedron Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Fábio Cargnelutti Fontoura Graduando de Medicina da Universidade Francisca Isabella Kappel Beppler Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Clainor Giovanaz Borges Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Médica pela Universidade Federal de Santa Catarina. - mail do autor: [email protected] A obesidade infantil consolidou - se como um dos principais desafios de saúde pública do século XXI, atingindo mais de 124 milhões de crianças e adolescentes no mundo (OMS, 2024). No Brasil, dados do Ministério da Saúde (2024) e do IBGE (2021) evidenciam prevalências elevadas, com impacto direto sobre a morbimortalidade. Objetivo: analisar a obesidade infantil e a menarca precoce como preditores de risco cardiovascular, discutindo suas interações e implicações para a saúde pública . Metodologia: trata narrativa da literatura, baseada em estudos científicos nacionais e internacionais, com ênfase em investigações longitudinais e revisões sistemáticas. Resultados e Discussão: a obesidade se precocemen te a hipertensão, dislipidemia, resistência insulínica e inflamação crônica de baixo grau (WEISS et al., 2004), alterações que persistem até a vida adulta e favorecem a aterogênese precoce, conforme o Bogalusa Heart Study (BERENSON Finns Study (RAITAKARI et al., 2003). Crianças obesas apresentam até cinco vezes mais chances de manter a obesidade na vida adulta, ampliando o risco de morbimortalidade cardiovascular (SIMMONDS et al., 2016; REILLY; KELLY, 2022). A OBESIDADE INFANTIL E MENARCA PRECOCE COMO PREDITORES DE RISCO CARDIOVASCULAR: IMPLICAÇÕES AND EARLY MENARCHE AS PREDICTORS OF CARDIOVASCULAR RISK: IMPLICATIONS FOR PUBLIC HEALTH EIXO TEMÁTICO: PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE CARDIOVASCULAR Julia Zago de Barros Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Ana Maria Spillere Milioli Médica pela Universidade Franciscana Bianca Guazina Dalla Costa Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Vinícius Freitas Pedron Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Fábio Cargnelutti Fontoura Graduando de Medicina da Universidade Francisca na Isabella Kappel Beppler Graduanda de Medicina da Universidade Franciscana Clainor Giovanaz Borges Graduando de Medicina da Universidade Franciscana Luiza Silva Menegazzo Médica pela Universidade Federal de Santa Catarina. se como um dos principais desafios de saúde pública do século XXI, atingindo mais de 124 milhões de crianças e adolescentes no mundo (OMS, do IBGE (2021) evidenciam prevalências elevadas, com impacto direto sobre a morbimortalidade. Objetivo: analisar a obesidade infantil e a menarca precoce como preditores de risco cardiovascular, discutindo . Metodologia: trata -se de uma revisão narrativa da literatura, baseada em estudos científicos nacionais e internacionais, com ênfase em investigações longitudinais e revisões sistemáticas. Resultados e Discussão: a obesidade te a hipertensão, dislipidemia, resistência insulínica e inflamação crônica de baixo grau (WEISS et al., 2004), alterações que persistem até a vida adulta e favorecem a aterogênese precoce, conforme o Bogalusa Heart Study (BERENSON Finns Study (RAITAKARI et al., 2003). Crianças obesas apresentam até cinco vezes mais chances de manter a obesidade na vida adulta, ampliando o risco de morbimortalidade cardiovascular (SIMMONDS et al., 2016; REILLY; KELLY, 2022). A
122 menarca precoce, por sua vez, configura-se como fator de risco independente, associando-se a hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemias e doença arterial coronariana, mesmo após ajuste para adiposidade (LAKSHMAN et al., 2009; CANOY et al., 2015). Quando coexistem, obesidade e menarca precoce potencializam mecanismos metabólicos e psicossociais, caracterizando dupla vulnerabilidade ao risco cardiometabólico. Conclusão: o reconhecimento dessas condições como marcadores precoces de risco cardiovascular reforça a necessidade de estratégias intersetoriais de prevenção e promoção da saúde, priorizando meninas com menarca precoce e excesso de peso como grupo de vigilância clínica, nutricional e psicossocial. Palavras-Chaves: adolescência; doença crônica; estilo de vida; prevenção; saúde pública. ABSTRACT Childhood obesity has become one of the major public health challenges of the 21st century, affecting over 124 million children and adolescents worldwide (WHO, 2024). In Brazil, data from the Ministry of Health (2024) and IBGE (2021) indicate high prevalence rates with a direct impact on morbidity and mortality. Objective: to analyze childhood obesity and early menarche as predictors of cardiovascular risk, discussing their interactions and implications for public health. Methods: this is a narrative literature review based on national and international scientific studies, emphasizing longitudinal and systematic investigations. Results and Discussion: childhood obesity is early associated with hypertension, dyslipidemia, insulin resistance, and low-grade chronic inflammation (WEISS et al., 2004)—alterations that persist into adulthood and favor early atherogenesis, as shown in the Bogalusa Heart Study (BERENSON et al., 1998) and the Young Finns Study (RAITAKARI et al., 2003). Obese children are up to five times more likely to remain obese in adulthood, increasing the risk of future cardiovascular morbidity and mortality (SIMMONDS et al., 2016; REILLY & KELLY, 2022). Early menarche, in turn, is an independent risk factor linked to hypertension, type 2 diabetes, dyslipidemia, and coronary artery disease, even after adjusting for adiposity (LAKSHMAN et al., 2009; CANOY et al., 2015). When both conditions coexist, obesity and early menarche potentiate metabolic and psychosocial mechanisms, resulting in a double vulnerability that increases cardiometabolic risk. Conclusion: recognizing these conditions as early markers of cardiovascular risk highlights the need for integrated and intersectoral public health strategies focused on prevention, monitoring, and the promotion of healthier trajectories for girls with early menarche and excess weight. Keywords: adolescence; chronic disease; lifestyle; prevention; public health. INTRODUÇÃO A obesidade infantil constitui um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, alcançando proporções epidêmicas em diferentes países, inclusive no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024), mais de 124 milhões de crianças e adolescentes
123 vivem com obesidade em todo o mundo, número que vem crescendo de forma contínua nas últimas décadas. No cenário nacional, o Ministério da Saúde (2024) alerta que a obesidade em idades precoces já representa um problema crescente no Sistema Único de Saúde (SUS), com repercussões clínicas e sociais relevantes. Esse quadro torna-se ainda mais preocupante diante da elevada probabilidade de manutenção do excesso de peso ao longo da vida, perpetuando um ciclo de morbidades metabólicas e cardiovasculares (SIMMONDS et al., 2016). Evidências científicas demonstram que a obesidade infantil associa-se precocemente a fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão arterial, dislipidemia, resistência insulínica e inflamação crônica de baixo grau (WEISS et al., 2004). Estudos longitudinais clássicos, como o Bogalusa Heart Study (BERENSON et al., 1998) e o Cardiovascular Risk in Young Finns Study (RAITAKARI et al., 2003), confirmam que alterações metabólicas presentes desde a infância tendem a persistir na vida adulta e a favorecer a formação precoce de lesões ateroscleróticas. Entre as repercussões específicas do excesso de peso, destaca-se o impacto sobre a puberdade feminina, especialmente pela associação com a ocorrência de menarca precoce. Pesquisas evidenciam que meninas com maior adiposidade apresentam tendência a antecipar a menstruação, condição que se relaciona ao aumento do risco cardiovascular futuro (CANOY et al., 2015; LAKSHMAN et al., 2009). Tanto a menarca precoce quanto a tardia configuramse como marcadores de risco cardiometabólico, refletindo alterações hormonais, metabólicas e vasculares ao longo da vida. Além dos impactos clínicos, a obesidade infantil deve ser compreendida sob a perspectiva da saúde coletiva, uma vez que reflete mudanças nos modos de vida e nos determinantes sociais da saúde. O ambiente obesogênico contemporâneo, marcado pela ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados, pela redução de espaços de lazer e prática de atividade física e pelo tempo excessivo em frente a telas, contribui para o aumento desses desfechos desde idades precoces (PUHL; LATNER, 2007). Paralelamente, fatores como desigualdade socioeconômica e vulnerabilidade social intensificam a exposição a riscos, configurando um quadro de iniquidade em saúde. Diante desse panorama, compreender a obesidade infantil e a menarca precoce como marcadores precoces de risco cardiovascular transcende a abordagem biomédica, exigindo políticas públicas integradas, ações intersetoriais e estratégias preventivas que envolvam famílias, escolas e serviços de saúde. Este trabalho fundamenta-se em dados epidemiológicos
124 nacionais e internacionais, bem como em evidências científicas consolidadas, com o objetivo de analisar a interação entre obesidade, puberdade precoce e risco cardiometabólico, subsidiando estratégias de prevenção e cuidado em saúde. METODOLOGIA O presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, com enfoque na relação entre obesidade infantil, menarca precoce e risco cardiovascular. Esse delineamento foi escolhido por possibilitar a integração crítica das evidências disponíveis e a análise dos principais mecanismos fisiopatológicos, epidemiológicos e clínicos relacionados ao tema. A busca bibliográfica foi realizada entre junho e agosto de 2025, nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e UpToDate. Foram utilizados descritores controlados em português, inglês e espanhol, incluindo os termos “obesidade infantil”, “puberdade precoce”, “menarca precoce”, “risco cardiovascular” e “doença cardiovascular”, combinados por operadores booleanos para ampliar a sensibilidade da busca. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, metanálises, diretrizes de sociedades médicas, capítulos do UpToDate e documentos oficiais de órgãos de saúde, como relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), incluindo o Manual de Orientação sobre Obesidade na Infância e Adolescência (SBP, 2022), publicados entre 2010 e 2025. Foram excluídos estudos experimentais, textos sem acesso integral e publicações que não abordassem de forma direta a associação entre obesidade infantil, menarca precoce e risco cardiovascular. A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: (1) triagem dos títulos, (2) análise dos resumos e (3) leitura integral dos textos que atenderam aos critérios de inclusão. Para cada estudo selecionado, foram extraídas informações referentes ao ano de publicação, país de realização, população investigada, métodos empregados, principais achados e conclusões. A análise dos resultados foi conduzida de forma descritiva e comparativa, sendo organizada em eixos temáticos: (a) panorama epidemiológico da obesidade infantil, (b) associação com risco cardiovascular precoce, (c) impacto da menarca precoce, (d) intersecção entre as duas condições e (e) implicações em saúde pública.
125 Por tratar-se de um estudo baseado exclusivamente em literatura previamente publicada, não houve necessidade de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, visto que não envolveu coleta de dados primários nem participação direta de seres humanos. RESULTADOS E DISCUSSÃO 1. Panorama epidemiológico da obesidade infantil A obesidade infantil consolidou-se como uma das condições mais alarmantes de saúde pública no século XXI, alcançando proporções epidêmicas em escala global. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024) indicam que mais de 124 milhões de crianças e adolescentes vivem atualmente com obesidade, número que representa um aumento expressivo em relação às últimas quatro décadas. Esse crescimento reflete mudanças profundas nos padrões alimentares e de atividade física, incluindo o consumo crescente de ultraprocessados, a redução da prática de exercícios regulares e a urbanização acelerada, compondo um ambiente obesogênico que favorece a manutenção do excesso de peso (PUHL; LATNER, 2007). No Brasil, a tendência acompanha o cenário internacional. O Ministério da Saúde (2024) aponta que a obesidade em crianças já representa um problema crescente no Sistema Único de Saúde (SUS), com impactos clínicos e sociais relevantes. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019) também mostram prevalência significativa de excesso de peso em escolares, com diferenças entre meninos e meninas, sugerindo a influência de determinantes biológicos e sociais, como o menor engajamento feminino em práticas esportivas e a desigualdade de acesso a oportunidades de lazer (IBGE, 2021). Outro aspecto preocupante é a elevada probabilidade de manutenção do excesso de peso ao longo do curso de vida. Crianças obesas apresentam até cinco vezes mais chances de permanecerem obesas na vida adulta, reforçando o caráter persistente dessa condição e sua associação com desfechos metabólicos e cardiovasculares (SIMMONDS et al., 2016; REILLY; KELLY, 2022). Estudos longitudinais clássicos, como o Bogalusa Heart Study (BERENSON et al., 1998) e o Young Finns Study (RAITAKARI et al., 2003), demonstraram que alterações metabólicas como hipertensão, dislipidemia, resistência insulínica e espessamento da íntima-média carotídea já podem ser identificadas em jovens com obesidade, confirmando o papel da infância como janela crítica para o início da aterogênese.
126 Portanto, a obesidade infantil deve ser compreendida não apenas como um distúrbio nutricional, mas como uma condição multifatorial e sistêmica, que antecipa alterações cardiovasculares e reforça desigualdades sociais em saúde. Esse cenário demanda intervenções que ultrapassem o âmbito clínico, abrangendo a promoção de alimentação adequada, estímulo a ambientes urbanos saudáveis e estratégias educativas integradas, capazes de modificar os determinantes estruturais do excesso de peso. 2. Associação com risco cardiovascular precoce A obesidade infantil exerce repercussões diretas sobre a saúde cardiovascular desde fases precoces do desenvolvimento. Crianças com excesso de peso frequentemente apresentam alterações metabólicas subclínicas, como hipertensão arterial, hiperinsulinemia, dislipidemia e inflamação crônica de baixo grau, características que compõem um perfil de risco cardiometabólico detectável já na idade escolar (SBP, 2022; OMS, 2024). O manual da SBP (2022) enfatiza que esses fatores devem ser monitorados precocemente, uma vez que podem evoluir para disfunções estruturais, como aumento da massa ventricular esquerda e rigidez arteria Evidências longitudinais de coortes, como o Young Finns Study, demonstram que fatores de risco cardiometabólicos identificados na infância tendem a persistir na vida adulta, perpetuando a aterogênese e ampliando a incidência de doença arterial coronariana em idades jovens (RAITAKARI et al., 2003). De forma semelhante, o Bogalusa Heart Study evidenciou a associação entre múltiplos fatores de risco presentes desde a infância e a formação precoce de lesões ateroscleróticas (BERENSON et al., 1998). Do ponto de vista fisiopatológico, o tecido adiposo deve ser compreendido como um órgão endócrino ativo, capaz de secretar adipocinas pró-inflamatórias que promovem ativação endotelial, resistência insulínica e disfunção vascular. Esses mecanismos explicam a ocorrência precoce de hipertensão arterial, disfunção endotelial e remodelamento cardíaco em crianças e adolescentes obesos (WEISS et al., 2004). Além disso, a obesidade infantil associa-se a uma trajetória de risco cardiovascular ao longo do curso de vida. Crianças obesas apresentam até cinco vezes mais chances de permanecerem obesas na vida adulta (SIMMONDS et al., 2016), o que reforça a persistência
127 do excesso de peso como determinante de morbimortalidade cardiovascular futura (REILLY; KELLY, 2022). Em termos de saúde pública, essa associação evidencia a urgência de incorporar o rastreamento sistemático de fatores de risco na prática pediátrica, com monitoramento regular da pressão arterial, perfil lipídico e glicêmico em crianças com excesso de peso. Nesse contexto, estratégias preventivas baseadas em mudanças de estilo de vida, promoção de alimentação saudável e estímulo à prática de atividade física configuram medidas essenciais para interromper a progressão de doenças cardiovasculares desde a infância. 3. Menarca precoce como fator independente de risco cardiovascular A menarca precoce, definida como a ocorrência da primeira menstruação antes dos 12 anos, tem sido cada vez mais relatada em decorrência da epidemia global de obesidade infantil e das mudanças nos estilos de vida contemporâneos. Embora exista forte correlação com o excesso de adiposidade, evidências científicas demonstram que a menarca precoce constitui, por si só, um fator independente de risco cardiovascular, cuja relevância clínica vem sendo progressivamente reconhecida. Estudos longitudinais de grande porte evidenciaram que mulheres com menarca precoce apresentam maior risco de desenvolver hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemias e doença arterial coronariana, mesmo após ajuste para índice de massa corporal e outros fatores de confusão. Essa associação foi confirmada por Lakshman et al. (2009) e Canoy et al. (2015), reforçando a puberdade adiantada como marcador de vulnerabilidade cardiometabólica. Do ponto de vista fisiopatológico, a antecipação puberal envolve interações complexas entre adiposidade excessiva, alterações hormonais e processos metabólicos, que contribuem para resistência insulínica, inflamação crônica de baixo grau e disfunção vascular precoce. A exposição prolongada ao estrogênio endógeno, característica de mulheres com menarca precoce, também está associada à rigidez arterial e à predisposição ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares ao longo da vida (LAKSHMAN et al., 2009; CANOY et al., 2015). O Manual de Orientação sobre Obesidade na Infância e Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2022) corrobora essa visão, ao destacar que meninas com puberdade
128 adiantada apresentam maior risco de síndrome metabólica, demandando acompanhamento clínico prioritário. No campo clínico, a menarca precoce deve ser entendida como um marcador de risco que ultrapassa a esfera ginecológica. Seu reconhecimento em consultas de puericultura, pediatria e ginecologia pode direcionar estratégias preventivas mais precoces, como educação nutricional, incentivo à prática regular de atividade física e monitoramento de parâmetros metabólicos (pressão arterial, perfil lipídico e glicemia). Dessa forma, a identificação da menarca precoce constitui oportunidade para vigilância clínica ampliada e para a implementação de ações integradas de saúde pública voltadas à redução do risco cardiovascular ao longo do curso de vida. 4. Intersecção: meninas obesas com menarca precoce A sobreposição entre obesidade infantil e menarca precoce configura um cenário de risco ampliado, em que mecanismos metabólicos, endócrinos e psicossociais interagem de forma sinérgica. Meninas obesas apresentam maior probabilidade de antecipar a puberdade, e a ocorrência da menarca precoce, por sua vez, contribui para a manutenção do excesso de peso, estabelecendo um ciclo de retroalimentação que perpetua ambas as condições (SIMMONDS et al., 2016; CANOY et al., 2015; LAKSHMAN et al., 2009). Do ponto de vista clínico, múltiplos mecanismos explicam essa vulnerabilidade: a inflamação crônica de baixo grau acelera a aterogênese; a resistência insulínica favorece hipertensão e dislipidemias; e a exposição precoce ao estrogênio endógeno está associada ao aumento da rigidez arterial e à disfunção vascular (WEISS et al., 2004; CANOY et al., 2015; LAKSHMAN et al., 2009). Evidências de coortes, como o Bogalusa Heart Study e o Young Finns Study, demonstram que esses fatores de risco, quando presentes desde a infância, persistem ao longo da vida e favorecem a formação precoce de lesões ateroscleróticas (BERENSON et al., 1998; RAITAKARI et al., 2003). No campo psicossocial, o estigma social da obesidade exerce forte impacto na saúde mental das adolescentes, prejudicando a autoestima e reduzindo a adesão a hábitos saudáveis. Esse contexto aumenta a vulnerabilidade psicossocial e amplia os efeitos adversos do excesso de peso associado à puberdade precoce (PUHL; LATNER, 2007).
129 Do ponto de vista de saúde pública, meninas obesas com menarca precoce devem ser consideradas grupo prioritário de acompanhamento, dadas as evidências de maior risco cardiometabólico e psicossocial. Estratégias intersetoriais que integrem intervenções clínicas, nutricionais e psicossociais mostram-se fundamentais. O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e do Programa Saúde na Escola, aliado a políticas de promoção da alimentação saudável, incentivo à prática de atividade física e combate ao estigma da obesidade, constitui abordagem necessária para mitigar o impacto dessa dupla vulnerabilidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS A obesidade infantil e a menarca precoce configuram determinantes precoces e interligados de risco cardiovascular. A obesidade, altamente prevalente em crianças e adolescentes, antecipa alterações metabólicas e estruturais do sistema cardiovascular, aumentando a probabilidade de morbimortalidade precoce (WEISS et al., 2004; BERENSON et al., 1998; RAITAKARI et al., 2003; REILLY; KELLY, 2022). Paralelamente, a menarca precoce constitui fator de risco independente, associando-se a maior incidência de hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemias e doença arterial coronariana (LAKSHMAN et al., 2009; CANOY et al., 2015). Quando presentes simultaneamente, essas condições estabelecem um quadro de dupla vulnerabilidade, no qual mecanismos metabólicos, hormonais e psicossociais interagem de forma sinérgica, ampliando substancialmente o risco cardiovascular ao longo da vida. Nesse contexto, meninas obesas com menarca precoce devem ser consideradas grupo prioritário para vigilância clínica, acompanhamento nutricional e intervenções preventivas. Do ponto de vista de saúde pública, torna-se essencial a adoção de estratégias integradas que combinem prevenção, diagnóstico precoce e monitoramento contínuo. O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e do Programa Saúde na Escola, aliado a políticas que promovam alimentação saudável, atividade física regular e enfrentamento do estigma da obesidade (PUHL; LATNER, 2007; OMS, 2024; MS, 2024), constitui abordagem estratégica para reduzir a carga de doenças cardiovasculares e promover qualidade de vida desde a infância. Por fim, a integração entre pesquisa científica, políticas públicas e práticas assistenciais é fundamental para avançar no enfrentamento dessa problemática. Estudos longitudinais