Extensão universitária como prática articuladora de territórios e saberes: observações a partir da XII JURA na UFSCar - São Carlos
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Extensão universitária como prática articuladora de territórios e saberes: observações a partir da XII JURA na UFSCar - São Carlos Tiago Gimenez Barbosa 1 Caio Cavalcanti Albuquerque Gazziro 2 Beatriz Salvador Martins 3 Joelson Gonçalves de Carvalho 4 Grupo de Trabalho 1: Construção do Conhecimento Agroecológico Resumo A presente pesquisa analisa a 12ª edição da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA), realizada em 2025 em São Carlos (SP), com o objetivo de compreender seu papel como processo de articulação entre universidade, movimentos sociais e territórios agrários. A pesquisa parte do contexto de crise climática e ambiental agravada, em que o regime alimentar corporativo exerce papel estruturante. Como contraponto ao modelo hegemônico, destacam-se a agroecologia e a reforma agrária, voltadas à construção de sistemas agroalimentares sustentáveis. Por meio de abordagem qualitativa, com uso de observação participante, entrevistas semiestruturadas e análise documental, busca-se identificar de que forma a JURA opera como instância de articulação sociopolítica, mobilização e produção coletiva de conhecimento. Os resultados preliminares apontam que o evento ultrapassa o caráter pontual de atividade acadêmica e se configura como espaço contínuo de intercâmbio, organização e fortalecimento de agendas vinculadas à agroecologia e à reforma agrária popular. Palavras-chave: agroecologia; extensão universitária; JURA; reforma agrária; 1 Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Extensão Rural (NuPER). E-mail: [email protected]. 2 Graduando em Ciências Sociais pela UFSCar e pesquisador do NuPER. E-mail: [email protected]. 3 Graduanda em Ciências Sociais pela UFSCar e pesquisadora do NuPER. E-mail: biia.smartins.b[email protected]m. 4 Professor Associado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural (PPGADR) e coordenador do NuPER. E-mail. [email protected].
Introdução Atualmente, o mundo enfrenta um colapso climático e ambiental sem precedentes. Como aponta Marques (2023), o futuro das sociedades humanas está sendo definido nesta década, diante de um sistema terrestre que responde aos limites ecológicos ultrapassados com processos de aquecimento global e instabilidades possivelmente irreversíveis. O sistema alimentar globalizado — ou regime alimentar corporativo — desempenha papel central nesse cenário, ao organizar a produção e o consumo de alimentos segundo a lógica da acumulação de capital, da monocultura em larga escala e do uso intensivo de insumos químicos (Borsatto, 2022). No Brasil, essa dinâmica assume contornos específicos na chamada questão agrária, marcada pela histórica concentração fundiária, pela expulsão de comunidades rurais e pela degradação ambiental. Esses processos têm sido impulsionados pela expansão do agronegócio, respaldado por políticas estatais e marcos institucionais que favorecem o capital em detrimento da justiça social e ecológica (Graciano; Carvalho, 2022). Em oposição a esse modelo, a agroecologia e a reforma agrária popular têm sido apresentadas como propostas integradas para a construção de sistemas agroalimentares sustentáveis, socialmente justos e territorialmente enraizados (Caporal, 2010; Graciano; Carvalho, 2022). A agroecologia é compreendida como ciência, prática e movimento voltado à transformação dos sistemas alimentares, articulando dimensões ecológicas, sociais e econômicas (Gliessman, 2018; Francis et al., 2003). Sua consolidação, no entanto, depende da criação de mecanismos coletivos de articulação social e territorial (Wezel et al., 2020; Anderson et al., 2021). Nesse contexto, destaca-se a Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA), criada em 2013 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em parceria com instituições de ensino superior, com o objetivo de articular campo e cidade, universidade e territórios, saberes acadêmicos e populares. A iniciativa configura-se como espaço de formação crítica, articulação política e produção coletiva de conhecimento, por meio de atividades culturais, pedagógicas e científicas que valorizam a reforma agrária, a agroecologia e a cultura camponesa.
Ao reunir estudantes, professores, assentados, acampados, militantes e gestores públicos, a JURA viabiliza o diálogo entre diferentes saberes, promovendo vivências em territórios de luta pela terra e reflexões sobre os desafios e potencialidades dos modos de vida camponeses. Mais do que um evento pontual, a Jornada constitui-se como processo permanente de extensão universitária crítica, contribuindo para o fortalecimento das redes de solidariedade, o enfrentamento ao modelo agroindustrial e a construção de alternativas territorializadas e sustentáveis para a produção de alimentos e a reprodução da vida no campo. Dito isso, a presente pesquisa tem como objetivo apresentar e analisar a 12ª edição da JURA, realizada em 2025 no município de São Carlos (SP), com foco em seu papel como instância de articulação entre universidade, movimentos sociais e comunidades rurais. Parte-se da hipótese de que a JURA opera como um processo articulador que ultrapassa o formato de evento pontual, funcionando como espaço de intercâmbio, mobilização e produção coletiva de conhecimento em defesa da agroecologia e da reforma agrária popular. Desenvolvimento A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, tendo como unidade de análise a 12ª edição da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA), realizada no município de São Carlos, em 2025. Os sujeitos da pesquisa compreendem os diversos atores envolvidos na organização e execução do evento, incluindo integrantes do Núcleo de Pesquisa e Extensão Rural (NuPER/UFSCar), assentados do Projeto de Assentamento (PA) Comunidade Agrária Nova São Carlos e do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Santa Helena, acampados do Capão das Antas, representantes da cozinha solidária do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e da ocupação urbana Em Busca de Um Sonho, além de estudantes, apoiadores e representantes de entidades da UFSCar e de instituições parceiras.
Os dados foram obtidos por meio de três procedimentos principais: observação participante com registro em diário de campo, entrevistas semiestruturadas com atores-chave e análise de documentos institucionais, tais como atas, planejamentos, relatórios e materiais de divulgação. A sistematização e interpretação dos dados adotarão a metodologia de análise de conteúdo proposta por Bardin (2016). Cabe destacar que a observação participante, neste caso, não se restringe à lógica da visita pontual aos territórios envolvidos, mas se estrutura como vivência, ou seja, uma experiência direta e situada no cotidiano laboral, político e relacional dos sujeitos sociais parceiros. Diferentemente de ações externas e passageiras, a vivência implica envolvimento ativo, escuta qualificada e partilha de práticas e desafios concretos, ainda que em lapsos temporais limitados. Essa imersão contribui para a construção de vínculos mais horizontais entre universidade e comunidades, permitindo que o conhecimento seja produzido em diálogo com os modos de vida e de organização dos grupos envolvidos. Figura 1Registos fotográficos das atividades da XII JURA em São Carlos
Quadro 01 – Resumo da programação da 12ª JURA UFSCar, São Carlos Programação (Local) Atividades Exposição “Cultivando vidas, entrelaçando saberes e lutas” (Biblioteca Comunitária da UFSCar) • Exposição aberta ao público com retratos das mulheres camponesas de São Carlos e outros registros do NuPER Mesa de abertura “Defender a vida, combater o agronegócio” (UFSCar) • Café comunitário e socialização • Comercialização de produtos agroecológicos • Espaço infantil (ciranda) • Palestra: "Impactos do agronegócio sucroalcooleiro sobre os recursos hídricos no estado de São Paulo" • Diálogo sobre impactos do agronegócio nos territórios Vivência agroecológica com a Cozinha Solidária na Ocupação em Busca de um Sonho • Café comunitário e socialização • Roda de apresentação e conversa: apresentação da atividade e do histórico do território • Mutirão de limpeza do terreno da cozinha solidária para construção de horta comunitária • Plantio de mudas na praça comunitária da ocupação Vivência agroecológica no acampamento Capão das Antas • Café comunitário • Roda de apresentação e conversa da história do acampamento e os movimentos de lutas e resistências • Vivência na horta comunitária (plantio de mudas, adubação, reestruturação de sombrite e construção de canteiro) • Almoço comunitário • Caminhada pelo território • Roda de conversa sobre a roda d’agua instalada na represa do território • Conversa sobre geração de energia e bombeamento de água Vivência agroecológica no assentamento PA Nova São Carlos • Roda de apresentação e conversa sobre a história de vida e luta das mulheres do assentamento • Visita e diálogo nos quintais produtivos, apiário, SAF e criação de animais • Café comunitário • Vendas de produtos agroecológicos e artesanais da cooperativa Cooperabelhas • Roda de conversa sobre experiências da vivência
Oficina de barraco de lona preta (UFSCar) • Construção coletiva de um barraco de lona • Aula sobre ocupação e luta dos movimentos sem terra Fonte: elaboração própria Embora a pesquisa ainda esteja em curso, os dados preliminares indicam que a 12ª JURA se caracterizou por um conjunto expressivo de atividades que promoveram o diálogo entre universidade e territórios agrários e urbanos. Destacamse a exposição fotográfica "Cultivando vidas, entrelaçando saberes e lutas", realizada na Biblioteca Comunitária da UFSCar; a mesa de abertura sobre os impactos do agronegócio sucroalcooleiro sobre os recursos hídricos; a construção coletiva de uma horta comunitária na ocupação Em Busca de um Sonho; além de visitas técnicas, oficinas e vivências nos assentamentos e no acampamento. A análise parcial dos registros aponta que a JURA se consolida como um processo articulador de múltiplos atores, que compartilham espaços de formação política, experimentação agroecológica e construção coletiva do conhecimento. As práticas observadas indicam que o evento transcende a lógica institucional de atividades acadêmicas convencionais, operando como rede territorial em defesa da reforma agrária popular e da agroecologia. Considerações finais A análise preliminar da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA) em São Carlos permite compreendê-la não apenas como um evento, mas como um processo articulador de atores e territórios em torno de pautas estratégicas para o presente e o futuro. Suas atividades promovem práticas que articulam pesquisa, extensão e militância, fortalecendo redes locais e impulsionando o debate público sobre reforma agrária, agroecologia e justiça social. A pesquisa contribui, assim, para a literatura sobre as dimensões sociais da transição agroecológica, destacando o papel das articulações horizontais e das práticas pedagógicas de base popular.
Do ponto de vista prático, os resultados oferecem subsídios para o aprimoramento de iniciativas semelhantes, além de fundamentar propostas de políticas públicas que incentivem o diálogo entre universidades, movimentos sociais e comunidades agrárias. As próximas etapas — com a realização das entrevistas e a análise aprofundada dos dados — permitirão expandir essa compreensão, qualificando a análise sobre os impactos e os sentidos da articulação promovida pela JURA no território de São Carlos Referências ANDERSON, Colin Ray; BRUIL, Janneke; CHAPPELL, M. Jahi; KISS, Csilla; PIMBERT, Michel Patrick. Agroecology now! Transformations towards more just and sustainable food systems. Cham: Palgrave Macmillan, 2021. BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. BORSATTO, R. S. Agroecologia e a construção de um sistema alimentar contrahegemônico. In: CARVALHO, J. G. de; BORSATTO, R. S.; SANTOS, L. L. (org.). Formação de agentes populares de agroecologia. São Carlos: EdUFSCar, 2022. p. 19-30. CAPORAL, Francisco Roberto. Em defesa de um plano nacional de transição agroecológica: compromisso com as atuais e nosso legado para as futuras gerações. In: SAUER, Sérgio; BALESTRO, Moises Villamil (org.). Agroecologia e os desafios da transição agroecológica. São Paulo: Expressão Popular, 2010. FRANCIS, C.; LIEBLEIN, G.; GLIESSMAN, S.; BRELAND, T. A.; CREAMER, N.; HARWOOD, R.; SALOMONSSON, L.; HELENIUS, J.; RICKERL, D.; SALVADOR, R.; WIEDENHOEFT, M.; SIMMONS, S.; ALLEN, P.; ALTIERI, M.; FLORA, C.; POINCELOT, R. Agroecology: the ecology of food systems. Journal of Sustainable Agriculture, v. 22, n. 3, p. 99–118, 2003. GLIESSMAN, Steve. Defining agroecology. Agroecology and Sustainable Food Systems, v. 42, n. 6, p. 599–600, 2018. GRACIANO, M. C.; CARVALHO, J. G. Questão agrária e agronegócio: notas para um debate político In: CARVALHO, J. G. de; BORSATTO, R. S.; SANTOS, L. L. (org.). Formação de agentes populares de agroecologia. São Carlos: EdUFSCar, 2022. p. 49-57.
MARQUES, L. O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. São Paulo: Editora Elefante, 2023. WEZEL, A.; HERREN, B. G.; KERR, R. B.; et al. Agroecological principles and elements and their implications for transitioning to sustainable food systems: a review. Agronomy for Sustainable Development, v. 40, p. 40, 2020.