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A indeterminação no sujeito no português popular de Poções – BA

Antonino, Vivian; de Barros, Graciele

Abstract

Buscando compreender os efeitos do contato massivo entre línguas durante o processo de colonização do Brasil, apresentaremos, neste artigo, os resultados da análise da variação nas formas gramaticais – sobretudo, da forma não marcada da 3ª pessoa do singular – de expressar a indeterminação do sujeito no português popular da cidade de Poções, no interior da Bahia. Seguiremos, aqui, a hipótese de que o quadro atual de variação é resultado de mudanças desencadeadas pelo contato do português com as línguas indígenas e africanas, nos primeiros séculos da formação da sociedade brasileira, e que a forma simplificada da 3ª pessoa do singular é fruto das simplificações sofridas pela língua em decorrência do contato maciço entre línguas. Para alcançar os resultados que serão apresentados, foram seguidos os preceitos da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 2008 [1972]), que perpassam a teoria da Transmissão Linguística Irregular (LUCCHESI, 2003) e a polarização sociolinguística do Brasil.

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PAPIA, São Paulo, 26(1), p. 53-69, Jan/Jun 2016. http://doi.org/10.5281/zenodo.17798403 A indeterminação no sujeito no português popular de Poções – BA Indeterminate subject in the Popular Portuguese spoken in Poções (BA) Vivian Antonino Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Jequié,Brasil [email protected] Graciele Barros Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil [email protected] Abstract: Aiming to understand the effects of a massive contact between languages during the colonization process in Brazil, we present in this article test results for the variation in grammatical forms - especially the unmarked form of the third person singular - expressing an indeterminate subject in the popular Portuguese spoken in Poções, Bahia state. We followed the hypothesis according to which the current scenario of linguistic variation results from changes triggered by the contact among Portuguese, Indigenous and African languages during the first centuries of the formation of Brazilian society. The simplified form of the third person singular is the result from language simplifications arising from a massive contact among such languages. To achieve the purpose of this study, we followed the concepts of Variationist Sociolinguistics (Labov 2008 [1972]), which underlie the theory of Irregular Linguistic Transmission (Lucchesi 2003) and the sociolinguistic polarization in Brazil. Keywords: Indeterminate subject; Irregular Linguistic Transmission; Popular Portuguese. e-ISSN 2316-2767 54 Vivian Antonino / Graciele Barros Resumo: Buscando compreender os efeitos do contato massivo entre línguas durante o processo de colonização do Brasil, apresentaremos, neste artigo, os resultados da análise da variação nas formas gramaticais – sobretudo, da forma não marcada da 3 ª pessoa do singular - de expressar a indeterminação do sujeito no português popular da cidade de Poções, no interior da Bahia. Seguiremos, aqui, a hipótese de que o quadro atual de variação é resultado de mudanças desencadeadas pelo contato do português com as línguas indígenas e africanas, nos primeiros séculos da formação da sociedade brasileira, e que a forma simplificada da 3 ª pessoa do singular é fruto das simplificações sofridas pela língua em decorrência do contato maciço entre línguas. Para alcançar os resultados que serão apresentados, foram seguidos os preceitos da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 2008 [1972]), que perpassam a teoria da Transmissão Linguística Irregular (LUCCHESI, 2003) e a polarização sociolinguística do Brasil. Palavras-chave: Indeterminação do sujeito; Transmissão Linguística Irregular; português popular. 1 A transmissão linguística irregular e o português popular Ao levar em consideração a diversidade linguística que se observou no território brasileiro desde o século XVI, quando os primeiros europeus chegaram, é seguro que se afirme que as características atuais do português brasileiro se desencadearam em decorrência do contato entre as línguas que aqui conviveram e mutuamente se influenciaram desde o descobrimento: a língua portuguesa, trazida pelos colonizadores, as línguas indígenas, que já estavam presentes no território brasileiro, e as línguas africanas, que para cá vieram com os africanos escravizados. Como herança desse panorama, temos, atualmente, uma língua plural, heterogênea, cuja modalidade popular é amplamente marcada por modificações inerentes às línguas formadas em situações de contato. Porém, é quase unânime entre os estudiosos da área a afirmação de que as línguas indígenas pouco influenciaram a estrutura da língua que se formava, já que os ameríndios, ao serem vertiginosamente exterminados, não atuaram de forma determinante na estrutura gramatical do português brasileiro. Assim sendo, torna-se viável assumir que os africanos e afrodescendentes foram os principais responsáveis pela formação e difusão da variante popular do português, ficando a cargo da elite europeia a propagação da variante culta da do português brasileiro. Com o início do tráfico negreiro, as características do português brasileiro começaram a ser definidas mais precisamente, pois, por uma questão de sobrevivência, os africanos escravizados tiveram que aprender a língua portuguesa. Essa PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 A indeterminação no sujeito no português popular de Poções... Indeterminate subject in the Popular Portuguese...) 55 aquisição era problemática, defectiva, irregular, e a transmissão da língua para as crianças que nasciam era igualmente irregular, já que estas adquiriram sua língua materna tendo como modelo uma versão reduzida de português, falado como segunda língua. Por mais que tal quadro favoreça, aparentemente, processos de pidginização e crioulização (GUY, 1980), defenderemos, aqui, que as peculiaridades relativas às questões sócio-históricas e demográficas das populações africanas, mestiças e europeias dificultaram a concretização das reestruturações gramaticais caraterísticas dos pidgins e crioulos. Sendo assim, o português brasileiro se formou através de um processo que caracteriza a Transmissão Linguística Irregular (LUCCHESI, 2003) (doravante TLI). Essa variante da língua, com todas as suas alterações e simplificações morfológicas, se mantém e pode ser observada na fala dascamadas populares. De acordo com os preceitos da TLI, um falante adulto que adquire uma língua nas circunstâncias semelhantes às observadas na formação do português brasileiro – de forma emergencial, sem o intermédio homogeneizador da escola e, consequentemente, com dados instáveis relativos à estrutura da língua-alvo – fornece para os seus descendentes um modelo de língua que traz consigo todas essas deficiências de aquisição. Os descendentes aprendem e nativizam essa língua e repetem para os seus sucessores o mesmo processo. No caso do português brasileiro, observa-se que a língua nativizada não passou pelas reestruturações gramaticais características das línguas crioulas, e sim por simplificações morfológicas de algumas estruturas gramaticais, o que confirma a hipótese de que o português brasileiro emergiu de um processo de TLI. Entretanto, seria incoerente considerar apenas questões estruturais para analisar o português brasileiro, já que estamos fazendo aqui uma análise sociolinguística. Sendo assim, os fatores a seguir comprovam a hipótese de TLI através de fatores sócio-históricos e demográficos (BAXTER, LUCCHESI, 2006: 189): a. a proporção entre a população de origem africana e branca, que permitia um nível de acesso maior à língua-alvo do que o observado nas situações típicas de contato; b. a ausência de vida social e familiar entre as populações de escravos, provocada pelas condições sub-humanas de sua exploração, pela alta taxa de mortalidade e pelos sucessivos deslocamentos; c. o uso das línguas francas africanas como instrumento de interação dos escravos segregados e foragidos; d. o incentivo à proficiência do português; e. a maior integração social dos escravos urbanos, domésticos e das zonas mineradoras; PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 56 Vivian Antonino / Graciele Barros f. a miscigenação racial. Tais evidências sócio-históricas e estruturais permitem afirmar que o caso do português brasileiro, em linhas gerais, caracteriza um processo de TLI, sendo que, se houve, no território nacional, processos de crioulização, tais processos ficaram restritos a regiões isoladas. Como herança da TLI, que deu origem às características atuais do português brasileiro, tem-se, no panorama linguístico atual do Brasil, a existência de dois grandes padrões coletivos: a norma culta e a norma popular. Essas normas representam uma sociedade estratificada, já que cada uma delas está diretamente relacionada com grupos sociais bem definidos e distintos, e a diferença de uma para a outra está na forma em que cada comunidade de fala julga cada padrão. Admitir tal formato nos leva a concluir que o português brasileiro é, além de heterogêneo e variável, polarizado, sendo que em um desses polos temos a norma culta, e, no outro, a norma popular. A norma culta é a variante da língua portuguesa defendida pela elite conservadora, cuja modalidade linguística deriva da elite europeia do Brasil colonial, favorecida economicamente, oriunda dos centros urbanos e detentora de um ideal de perfeição de uso da língua. Os falantes dessa variante conservam os traços de fala que os distinguem das classes consideradas inferiores elite durante o processo de formação do português brasileiro. A modalidade popular, proveniente do modelo de língua nativizado durante o processo de contato entre línguas e formação do português brasileiro, utilizada pelas classes menos favorecidas socialmente, habitantes, geralmente, das áreas menos urbanizadas, é aquela que goza de menor prestígio social. Essa norma é estigmatizada por ser utilizada por falantes com pouca ou nenhuma escolaridade, sendo, muitas vezes, considerada como errada ou inadequada, devido aos seus desvios em relação à norma que é socialmente aceita. A contraposição dessas duas modalidades que, juntas, caracterizam realidades sociais igualmente díspares, nos dá a ideia de uma realidade linguística repartida, polarizada, o que reflete a complexidade da formação do português brasileiro. Observa-se que, enquanto as teorias estruturalistas de norma linguística se baseiam na oposição entre a forma que os diferentes segmentos sociais utilizam a língua, a ideia de norma sociolinguística tem, como base, a avaliação que os falantes fazem das variantes, sendo que as mudanças linguísticas são diretamente influenciadas por essa avaliação. Para que se compreendam tais mudanças, é preciso debruçar-se sobre os parâmetros da língua que são susceptíveis à variação e à mudança. Dentre esses parâmetros, estão as estratégias de indeterminação do sujeito. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 A indeterminação no sujeito no português popular de Poções... Indeterminate subject in the Popular Portuguese...) 57 2 A indeterminação do sujeito e a gramática tradicional De acordo com a Gramática Tradicional, o sujeito é indeterminado quando o verbo não se refere a uma pessoa determinada, ou por se desconhecer quem executa a ação, ou por não haver interesse no seu conhecimento (CUNHA E CINTRA, 2008). Assim sendo, são prescritas duas possibilidades de indeterminação do sujeito: colocando-se o verbo na terceira pessoa do plural, ou na terceira pessoa do singular e acrescentando o pronome ‘se’. Mesmo pautada em critérios estruturais, a GT considera o fenômeno como semântico-discursivo, já que o sujeito só pode ser classificado como indeterminado no âmbito do discurso. Além disso, a intencionalidade do falante também é crucial para a análise, pois ele pode não desejar informar quem ou quantas são as entidades que podem servir de referência para aquele contexto. 3 A transmissão linguística irregular e a indeterminação do sujeito Existem, na gramática de qualquer língua, palavras que não remetem a elementos do mundo real, exteriores à língua, mas sim a categorias mentais, sem valor referencial. Conforme mencionado anteriormente, em processos de transmissão lingüística irregular os falantes adultos, por não terem acesso aos mecanismos mentais da língua-alvo, tendem a não adquirir esses elementos menos referenciais, já que os mesmos não estão presentes na estrutura interna sua língua materna. Nesse sentido, um dos mecanismos gramaticais mais afetados é o sistema pronominal, tanto no que diz respeito aos pronomes de referência definida quanto em relação aos pronomes de referência arbitrária. De acordo com Lucchesi et al (2009: 121), [...] De qualquer forma, as estruturas que derivam de mudanças ocorridas em situações de contato linguístico resultam da não aquisição/incorporação de morfologia e elementos gramaticais da língua de superstrato, que ocorre na fase inicial do processo de transmissão linguística irregular, combinada com a reestruturação gramatical da nova variedade linguística. Nesse sentido, são recorrentes, no português popular – variante diretamente relacionada ao processo de TLI - construções como essa, na qual se observa tendência à simplificação pronominal: (1) Aqui andava de ônibus, de bonde... INF 07 - PS PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 58 Vivian Antonino / Graciele Barros O ponto de vista adotado para a análise feita aqui é que a supressão do <se> indeterminador, em construções como a do exemplo acima, pode ser interpretada como decorrente das simplificações características do processo de TLI. Assim como no sistema pronominal, também são latentes as reduções na morfologia flexional dos nomes e verbos, o que altera consideravelmente as regras de concordância verbal e nominal. No que diz respeito à concordância verbal, temos, atualmente, um paradigma verbal que assume apenas três formas: Eu trabalho Tu/Você trabalha Ele/ela trabalha Nós/A gente trabalha Vocês trabalha(m) Eles/elas trabalha(m) Quadro 4: Paradigma verbal. Há, no português popular, o sincretismo das flexões verbais de quase todas as pessoas do discurso, sendo que apenas a primeira pessoa do singular não sofre esse tipo de variação. Buscando retratar o tema em uma perspectiva menos normativa e mais científica, diversos linguistas estudam as estratégias de indeterminação do sujeito enquanto variável sociolinguística, passando a atribuir a esta variação não apenas motivações estruturais, mas também extralinguísticas, sociais. Duarte (1995, 2012) levanta a hipótese de que o português brasileiro estaria deixando de ser uma língua de sujeito nulo, já que a falta de especificação da pessoa do discurso através da morfologia flexional induz o falante a realizar o sujeito com mais frequência. Essa alteração também teria atingido os sujeitos de referência indefinida: as ocorrências de sujeito indeterminado passariam a solicitar a realização mais frequente de formas pronominais com valor indeterminador, fazendo com que estudos amplos acerca do tema no português contemporâneo mostrem que outras formas pronominais para indeterminar o sujeito são largamente encontradas na língua. Formas pronominais como eles,você ea gente concorrem com as formas tradicionais de indeterminação. 4 O método e o fenômeno analisado O principal objetivo desse trabalho é observar e analisar as formas gramaticais que os falantes da zona rural e da sede do município de Poções, no sudoeste do estado da Bahia, utilizam para indeterminar o sujeito, verificando se a forma simplificada da terceira pessoa do singular é efetivamente mais utilizada e se são, de fato, mais recorrentes as estratégias de indeterminação que utilizam pronomes realizados. A PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 A indeterminação no sujeito no português popular de Poções... Indeterminate subject in the Popular Portuguese...) 59 análise tem como base os pressupostos teórico-metodológicos da Teoria da Variação (LABOV, 1972) e utiliza 12 entrevistas realizadas na zona urbana do município de Poções e 12 realizadas na zona rural, totalizando 24 entrevistas. Os informantes estão divididos em três faixas etárias (faixa I – 25 a 35 anos, faixa II – 45 a 55 anos e faixa III – mais de 65 anos) e ocupam a base da pirâmide social, com pouca ou nenhuma escolarização. As entrevistas, que têm duração média de 50 minutos e seguem a orientação laboviana, em que se busca o vernáculo do informante através de uma interação que se assemelhe a uma conversa informal. Após realizadas, as entrevistas foram transcritas, revisadas e procedeu-se o levantamento exaustivo dos dados, com posterior codificação. Foram consideradas apenas ocorrências de sujeito pronominal sem referência anterior e, para restringir o campo observacional, ocorrências com sujeito indeterminado lexical, como “o pessoal”, “o cara”, ou “as pessoas” foram descartadas. Além dessas, foram descartadas, também, as ocorrências com verbos em formas não-finitas. Para o tratamento dos dados estatísticos, recorreu-se o programa GoldVarbX, que trabalha com regras variáveis e fornece resultados em pesos relativos. Para a análise da variável dependente foram controladas oito variáveis linguísticas e seis variáveis sociais.O conjunto das variantesque formam o fenômeno observado foi composto tanto pelas formas legitimadas pela gramática tradicional quanto pelas formas consideradas inovadoras: (2) a gente a. A gente ficava na rua até onze hora, onze e meia. (PS – INF 01) (3) nós /-mos/ Ø a. Nós aqui é muito unido com nosso povo. (PS – INF11) (4) você/ Ø a. Você podia ‘manhecê o dia na rua aí com o bolso cheio de dinhêro, ninguém lhe roubava. (PS – INF 06) (5) eles/ Ø a. Eles bota é as meninas pra passá, pra trabalhá dano folheto. (PS – INF 04) (6) 3ªpessoa do singular/ Ø PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 60 Vivian Antonino / Graciele Barros Tab. 1: Frequência geral das variantes de expressão do sujeito indeterminado no português popular do Município de Poções-Bahia. FORMA NºDE OC. / TOTAL FREQUÊNCIA a gente 661/1975 33,5% Você 391/1975 19,8% hline Ø + V 3ps 376/1975 19% Eles 273/1975 13,8% Nós 257/1975 13% Se 17/1975 0,9% a. Diz que é o mundo tá demudado, ninguém entende. (PS – INF 05) (7) se a. Até no quintal se plantava. (PS – INF 09) As variáveis linguísticas explanatórias foram: Realização fonética do sujeito indeterminado, Desinência Verbal, Paralelismo formal, Referência ao falante, Tipo de verbo, Tipo de frase, Nível de referencialidade do agente e o Modo, que pode ser Realis ou Irrealis. Em relação ao encaixamento social do fenômeno, foram consideradas as seguintes variáveis: Município, Sexo, Faixa Etária, Estada fora da Comunidade, Escolaridade e Localidade. Dentre as variáveis linguísticas em questão, o programa considerou como estatisticamente relevantes oParalelismo discursivo, Referência ao falante, Tipos de verbo, Níveis de referencialidade eInclui/não inclui o falante. Dentre as variáveis sociais, foram selecionadas Sexo eEstada fora da comunidade. 5 A análise A base de dados foi constituída por 1.975 ocorrências de sujeitos indeterminados, realizados ou não. A distribuição dessas ocorrências pelas variantes inicialmente estabelecidas é apresentada na tabela 1. Os dados obtidos nos mostram que a variante mais empregada pelos falantes de baixa escolaridade do município de Poções para expressar a indeterminação do sujeito é o a gente (realizado ou não), com 33,5% das ocorrências. O pronome ‘a gente’ permite a inclusão, no discurso, da primeira, da segunda e das terceiras pessoa, o que faz com que suas possibilidades semânticas, no que diz respeito à referencialidade, PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 A indeterminação no sujeito no português popular de Poções... Indeterminate subject in the Popular Portuguese...) 61 cresçam de tal forma que, em certas circunstâncias, nem o próprio falante pode precisar quem ou quantos é os falantes incluídos naquele grupo. Análise semelhante cabe ao ‘nós’, que apresenta as mesmas características semânticas do ‘a gente’ mas, por ser a forma padrão, é menos utilizada pelos informantes. O pronome da 2 ª pessoa do singular (você) é a segunda forma mais utilizada, estando presente em cerca de 1/5 das ocorrências. Em seguida, temos a variante que norteia a análise, a forma não marcada da 3 ª pessoa do singular, com 19% das ocorrências, seguida pelo pronome eles (realizado ou não), com 13,8% das ocorrências. Por não apresentar a abrangência semântica das outras formas de indeterminação, já esperávamos que o pronome ‘eles’ teria frequência mais baixa, sendo preferencialmente utilizado nos contextos mais específicos, dos quais o falante está necessariamente excluído. O pronome ‘se’, forma canônica de indeterminação do sujeito, segundo a tradição gramatical, praticamente não é utilizado pelos falantes da comunidade, sendo que essa baixa frequência também era esperada. Encontramos, no corpus analisado, apenas dezessete ocorrências dessa variante. 5.1 Encaixamento estrutural Para melhor compreensão do fenômeno, faz-se necessária a análise de seu encaixamento estrutural, observando a atuação das variáveis linguísticas que favorecem/desfavorecem o emprego de uma ou outra variante. 5.1.1 Paralelismo discursivo O paralelismo discursivo é um aspecto linguístico relevante para a maioria dos fenômenos linguísticos, seja qual for o idioma estudado. Largamente atestado nos estudos relacionados tanto à teoria da variação quanto à linguística funcionalista e à análise do discurso, o paralelismo é observado quando o uso de determinada variante induz a permanência da mesma variante no mesmo contexto comunicativo. De acordo com Scherre (2012: 31), Esta restrição ou variável independente ocorre entre as cláusulas (plano discursivo), no interior da oração (plano oracional), no interior do sintagma (plano sintagmático), e entre palavras e no interior da palavra (plano da palavra). Conforme observado acima, o paralelismo discursivo é observável em todos os níveis linguísticos. Entretanto, observamos, nessa análise, apenas o plano discursivo, já que desejávamos verificar a ocorrência do fenômeno entre as orações. Utilizamos, como critérios, a presença de sujeito com a mesma referência da ocorrência precedente, sendo que ambas não poderiam estar separadas pela eventual interrupção do documentador. Os resultados obtidos nessa variável estão descritos na tabela 2. PAPIA, 26(1), e-ISSN 2316-2767 68 Vivian Antonino / Graciele Barros sujeito corroboram para a hipótese aqui posta, de que a variante Ø + V 3 ª pessoa seja a mais provável em uma língua formada através de um processo de TLI. Entretanto, para que essa hipótese seja totalmente confirmada, é necessário que se encontre maior correlação entre o comportamento da variável dependente e as características sociais dos informantes. Não há dúvidas de que os estudos das estratégias de indeterminação do sujeito são mais um passo em direção à compreensão das circunstâncias de formação do português popular brasileiro, sendo o conceito de transmissão linguística irregular fundamental para explicar a atual configuração do português. Espera-se que estudos como o realizado aqui contribuam para que os valores relacionados às normas de prestígio sejam repensados e para o desenvolvimento de um modelo teórico de estudo que leve em consideração a heterogeneidade dos repertórios linguísticos dos falantes. Referências Chambers, J. K & Trudgill, Peter. 1994. Estructura sociolinguística e inovación linguística. In: La dialectología, 115-136. Madrid: Visor Libros. Cunha, Celso; Cintra, Lindley. 2008. Nova gramática do português contemporâneo. 5. Ed. Rio de Janeiro: Lexikon. Duarte, Maria Eugênia L. 2007. Sujeitos de referência definida e arbitrária: aspectos conservadores e inovadores na escrita padrão. Revista Lingüística 3.1. Labov, William. 2008. Padrões Sociolinguísticos. São Paulo: Parábola. Duarte, Maria Eugênia Lamoglia. 2012. Os sujeitos de 3 ª pessoa: REVISITANDO DUARTE 1993. In O sujeito em peças de teatro (1833-1992): estudos diacrônicos. São Paulo: Parábola. Duarte, Maria Eugênia Lamoglia. 1995. 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