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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 165 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 166 COMÉRCIO DE ÁGUA VIRTUAL NO SETOR SUCROENERGÉTICO DO PARANÁ: ANÁLISE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS 1 Anderson Ribeiro de Almeida 2 Antônio Gonçalves de Oliveira 3 José Francisco dos Reis Neto 4 Resumo O comércio de água virtual constitui uma dimensão estratégica da sustentabilidade hídrica, especialmente em cadeias produtivas intensivas em recursos naturais. Este estudo analisa o comércio de água virtual no setor sucroenergético do Paraná, suas implicações ecológicas e econômicas e sua articulação com políticas públicas estaduais de gestão da água. Empregou-se o método de insumo-produto, com a matriz estadual de 2015 redimensionada e coeficientes hídricos, aplicando-se a matriz inversa de Leontief para estimar exportações e importações virtuais a partir de dados secundários oficiais. Os resultados indicam superávit de 1,57 milhão de m³, com predominância do açúcar, revelando um déficit ecológico associado à transferência de água incorporada. O estudo evidencia o papel da governança hídrica e de instrumentos como o Programa de Segurança Hídrica e o indicador ODS 6.4.1 para fortalecer a sustentabilidade do setor. Palavras-chave: Água Virtual; Governança Hídrica; Pegada Hídrica; Planejamento e Políticas Públicas; Sustentabilidade. Abstract Virtual water trade constitutes a strategic dimension of water sustainability, particularly in resourceintensive production chains. This study analyzes virtual water trade in Paraná’s sugar-energy sector, examining its ecological and economic implications and its alignment with state-level water governance policies. The input–output method was employed using the 2015 Paraná regional matrix, redimensioned and coupled with water consumption coefficients, and the Leontief inverse matrix was applied to estimate virtual water exports and imports based on official secondary data. Results indicate a surplus of 1.57 million m³, driven mainly by sugar production, revealing an ecological deficit associated with the external transfer of embedded water. The study highlights the relevance of water governance and instruments such as the State Water Security Program and the application of SDG indicator 6.4.1 to strengthen the sustainability of the sugar-energy sector. Keywords: Planning and Public Policy; Sustainability; Virtual Water; Water Footprint; Water Governance. 1 O presente trabalho contou com o apoio institucional da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Instituto Federal do Paraná (IFPR). 2 Professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR). Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Universidade Anhanguera (UNIDERP). E-mail: [email protected] 3 Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: [email protected] 4 Professor da Universidade Anhanguera (UNIDERP). Doutor em Economia pela Universidad de Salamanca. E-mail: [email protected]
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 167 INTRODUÇÃO A água é um recurso essencial para a produção agrícola e industrial, sendo a agricultura irrigada a maior consumidora global. A competição por água entre diferentes setores econômicos tem levado a uma reavaliação sobre seu uso na agricultura. O conflito entre a demanda por água na agricultura e o desenvolvimento econômico é amplamente discutido na literatura, especialmente devido à transferência de água incorporada em commodities via comércio interestadual e internacional. A cana-de-açúcar, objeto deste estudo, representa uma parcela significativa da produção agrícola mundial, por exemplo, requer uma quantidade substancial de água para seu cultivo. Globalmente, a agricultura utiliza uma quantidade massiva de água, especialmente quando se consideram as perdas por irrigação. A indústria também é uma grande consumidora de água, especialmente na produção de alimentos e bens de consumo. Estudos recentes destacam que a agricultura irrigada e a produção industrial, especialmente de alimentos e bens de consumo, consomem volumes elevados de água, exacerbando a competição entre setores econômicos. Em média, 209 m³ de água para produzir uma tonelada de cana-de-açúcar em todo o mundo, um volume considerado alto. No Brasil, entorno de 748,9 mil hectares de área plantada necessitam de sistemas de irrigação, isto evidencia a amplitude do consumo de água na produção de cana-de-açúcar e ressalta a importância de estratégias de gestão eficiente dos recursos hídricos. O presente estudo está diretamente relacionado à necessidade de integrar a gestão dos recursos hídricos às atividades econômicas, especialmente em setores intensivos em água, como o sucroenergético. Considerando que o Paraná é um exportador líquido de água virtual, conceito que expressa o volume de água incorporado às diferentes etapas da cadeia produtiva de um bem ou serviço, desde sua origem até a finalização, e que posteriormente é comercializado para outras regiões, e que o estado também enfrenta importantes desafios ecológicos, a pesquisa ressalta a relevância de políticas públicas que contemplem não apenas a distribuição dos recursos hídricos, mas também a promoção do uso sustentável e eficiente da água. A análise do comércio de água virtual, incluindo as exportações de açúcar e etanol, fornece uma base importante para uma governança mais estratégica, que envolva a colaboração entre governo, setor privado e sociedade. Além disso, a adoção de tecnologias mais eficientes e práticas agrícolas sustentáveis, tornam-se fatores essenciais para aprimorar a governança da água, equilibrando os interesses econômicos com a preservação dos recursos hídricos. Não obstante os efeitos econômicos e a intensidade da água virtual exportada pelas relações comerciais interestaduais e internacionais do Paraná, este trabalho parte da seguinte questão norteadora:
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 168 Considerando os resultados dessas operações, em que medida o comércio de água virtual no setor sucroenergético do Paraná gera implicações ecológicas e econômicas, e como essas implicações se articulam com as políticas públicas de gestão dos recursos hídricos no estado? Para respondê-la, este artigo tem como objetivo geral: Analisar o comércio de água virtual no setor sucroenergético do estado do Paraná, com atenção às suas implicações ecológicas e econômicas e à sua articulação com as políticas públicas de gestão dos recursos hídricos. De forma a alcançar esse objetivo e responder à questão proposta, definem-se os seguintes objetivos específicos: (i) Calcular o saldo líquido do comércio de água virtual do setor sucroenergético no estado do Paraná; (ii) Verificar se o complexo sucroenergético paranaense é importador ou exportador líquido de água virtual; (iii) Analisar os impactos ambientais e econômicos associados ao saldo do comércio de água virtual no setor; (iv) Examinar as políticas públicas estaduais voltadas à gestão e governança da água, com destaque para os instrumentos normativos e programas de segurança hídrica; e (v) Avaliar a implementação do indicador ODS 6.4.1 nas ações do Estado. Quanto à metodologia, adota-se a matriz de insumo-produto com abordagem analítica utilizada para estudar a interdependência entre os diferentes setores de uma economia. Ela permite entender como mudanças na demanda de um setor afetam outros setores, além de identificar os setores mais importantes. A matriz de insumo-produto é usada para calcular diversos indicadores, como o efeito multiplicador, que mostra o impacto de uma mudança na demanda final sobre a produção total da economia. Também é utilizada para calcular o volume do comércio de água virtual do setor sucroenergético do Paraná, indicando o volume de água incorporado aos produtos comercializados por esse setor. Para esclarecer esses pontos, o artigo é organizado em diferentes seções. Começa com esta introdução que oferece uma visão geral do tema, seguida de uma base teórica que detalha a governança da água, os aspectos da água virtual, tanto na perspectiva de consumo quanto de comércio, abordando a pegada hídrica da cana-de-açúcar e os aspectos do comércio interestadual e internacional do setor sucroenergético. A seção subsequente descreve os métodos e materiais utilizados na pesquisa, explicando como os dados foram coletados, selecionados e analisados. Posteriormente, a seção de resultados destaca as principais descobertas dos estudos revisados. A análise desses resultados é explorada na penúltima seção, seguida das conclusões, evidenciadas nas considerações finais, juntamente com suas reflexões, limitações encontradas e propostas para futuras investigações.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 169 GOVERNANÇA DA ÁGUA A água é um recurso essencial para a produção agrícola e industrial, sendo a agricultura irrigada a maior consumidora global. A competição por água entre diferentes setores econômicos tem levado a uma reavaliação sobre seu uso na agricultura. O conflito entre a demanda por água na agricultura e o desenvolvimento econômico é amplamente discutido na literatura, especialmente devido à transferência de água incorporada em commodities via comércio internacional. A cana-de-açúcar, que representa uma parcela significativa da produção agrícola mundial, requer uma quantidade substancial de água para seu cultivo (SILVA et al., 2011). A segurança hídrica é um conceito que vem sendo discutido a mais de duas décadas, sendo definido como a capacidade de uma população de garantir acesso contínuo à água potável, além da capacidade de garantir a produção mínima de alimentos localmente para permitir a sobrevivência da população em tempos de crise, quando a importação de alimentos se torna inviável. O uso doméstico de água representa uma pequena parte das necessidades humanas em comparação com a agricultura, que representa grande parcela do consumo de água de forma consuntiva. A segurança hídrica está diretamente conectada à segurança alimentar e ao nexo água-alimento-energia-clima-comércio. Apesar da distribuição desigual de recursos hídricos no mundo, a segurança hídrica global é viabilizada pelos fluxos de água virtual incorporados no comércio de commodities agroalimentares. Porém, a literatura carece de uma análise mais aprofundada sobre o papel dos "gestores virtuais da água" no sistema global de comércio agroalimentar (SOJAMOA et al., 2012; MARSILY, 2019). A análise de network transforma o princípio da participação em algo mais concreto ao mostrar como diferentes atores se conectam na governança da água. Por meio desse mapeamento, é possível identificar quem ocupa posições estratégicas, entender as relações entre os subgrupos e avaliar o nível de integração entre os setores públicos. Isso favorece uma gestão mais colaborativa e eficiente. Ao destacar as características estruturais dos sistemas sociais, essa abordagem ajuda a descrever arranjos multissetoriais de governança, onde a participação se traduz em redes colaborativas. Nelas, organizações se conectam compartilhando informações, recursos ou projetos, permitindo uma visão mais clara tanto do papel de cada participante, quanto do desempenho global do setor hídrico (MAYA-JARIEGO, 2014). Indicadores de centralidade individual ajudam a entender como o poder se distribui na governança hídrica. De forma geral, as agências governamentais têm um papel central, concentrando a maior parte das decisões no setor público por meio de estruturas hierárquicas. Por outro lado, outros atores, como as organizações agrícolas, muitas vezes acabam ocupando posições secundárias, mesmo representando uma grande demanda por água. O mesmo acontece em áreas rurais isoladas, que, muitas vezes, estão
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 170 desconectadas dos espaços institucionais onde as decisões são tomadas (FLIERVOET et al., 2016; KHARANAGH et al., 2020; NABIAFJADI et al., 2021; GATT, 2016; DELGADO et al., 2021). Vos e Hinojosa (2016) argumentam que a governança da água deve englobar a proteção ativa das fontes hídricas locais, a promoção de uma distribuição equitativa e a implementação de medidas para mitigar os impactos negativos da exportação de água virtual em territórios vulneráveis. Nesse contexto, comunidades locais e suas organizações, em parceria com ONGs em diferentes níveis, podem estabelecer alianças para a preservação dos recursos hídricos. Além disso, as empresas devem ir além dos modelos padronizados de gestão da água, colaborando com comunidades, associações de produtores, usuários de água, sindicatos, ONGs ambientais, organizações de bacias hidrográficas e outros stakeholders para desenvolver e implementar medidas de proteção mais eficazes. Marsily (2019) enfatiza a importância da governança da água, destacando a necessidade de participação ativa dos usuários na administração local dos recursos hídricos. No entanto, ele ressalta que a gestão compartilhada só é viável quando há um investimento sólido na educação e informação da população sobre as realidades hidrológicas e as diretrizes de gestão da água, aliado a um controle administrativo rigoroso. O autor conclui que a governança da água é um desafio complexo que exige equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, a justiça social e a preservação ambiental. O futuro da água e, por consequência, o futuro das próximas gerações depende de como aprende-se a compartilhá-la e a preservá-la. ASPECTOS TEÓRICOS DA ÁGUA VIRTUAL NA PERSPECTIVA DO CONSUMO E DO COMÉRCIO Água virtual refere-se ao volume de água necessário para produzir um produto ou serviço em seu local de origem, considerando todos os insumos ao longo da cadeia de produção, que é então comercializado e transportado para outras regiões (ALLAN, 1993; HOEKSTRA; HUNG, 2002). A estratégia de comércio de água virtual permite que países com escassez de água importem produtos de regiões ricas em água, economizando seus próprios recursos hídricos (ALLAN, 1993; ALLAN, 2011). Este comércio melhora o acesso à água em áreas com escassez, refletindo o saldo comercial de importação e exportação de cada país, destacando a importância da rede de comércio de água virtual (DINESH KUMAR, 2018). Inicialmente, o conceito foi introduzido como uma solução para a escassez de água no Oriente Médio, usando a importação de alimentos para reduzir a pressão sobre os recursos hídricos locais. Desde
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 171 o século XX, o volume do comércio global aumentou, expandindo, consequentemente, a troca de água virtual por meio de commodities (ALLAN, 1997; SHTULL-TRAURING; BERNSTEIN, 2018). Desde as primeiras publicações sobre água virtual e pegada hídrica, observa-se um aumento significativo de estudos sobre o gerenciamento dos recursos hídricos sob aspectos econômicos, ambientais e sociais (NAVARRO-RAMÍREZ et al., 2020). Os conceitos de água virtual e pegada hídrica estão intimamente ligados; a diferença reside na perspectiva de análise. A metodologia da pegada hídrica foi introduzida por Hoekstra em 2002 na UNESCO-IHE e posteriormente desenvolvida na Universidade de Twente, Holanda. O conceito estabelece um indicador baseado no consumo de água que fornece informações além dos indicadores tradicionais do setor produtivo (HOEKSTRA; HUNG, 2002). A pegada hídrica é diferenciada por três tipos: verde, azul e cinza. A pegada hídrica verde referese à água da chuva evaporada ou adicionada aos produtos durante o processo produtivo. A pegada hídrica azul relaciona-se às águas superficiais ou subterrâneas que evaporam ou são incorporadas ao produto, ou, ainda, aquelas que são devolvidas ao mar ou despejadas em outras bacias. Já a pegada hídrica cinza corresponde ao volume de água necessário para diluir a poluição gerada durante o processo produtivo industrial (HOEKSTRA; HUNG, 2002). A pegada hídrica foi desenvolvida em analogia ao conceito de pegada ecológica, que quantifica a área necessária para sustentar a vida das pessoas. A pegada hídrica, por sua vez, indica o volume de água necessário para o sustento de uma população. O objetivo é avaliar a sustentabilidade da criação de um produto, além de quantificar a eficiência e a equidade do uso da água e identificar ações estratégicas para alcançar a sustentabilidade (HOEKSTRA, 2011). A água virtual, analisada tanto pela perspectiva de consumo quanto pelo comércio, revela que, nos países ricos, o maior consumo de bens e serviços resulta em pegadas hídricas mais altas (GERBENS-LEENES et al., 2012). Pesquisas recentes têm avaliado a pegada hídrica na produção de cana-de-açúcar, focando na análise da eficiência do uso da água nos sistemas de irrigação. Estudos destacam a necessidade de desenvolver modelos matemáticos que incorporem estratégias de monitoramento baseadas em clima, solo e planta, para otimizar a irrigação (BWAMBALE et al., 2022). Além disso, a adoção de tecnologias inovadoras na cadeia produtiva da cana-de-açúcar contribui para uma maior sustentabilidade e aceitação dos produtos no mercado mundial. Bordonal et al. (2018) ressaltam avanços na eficiência do (re)uso da água e na redução da pegada hídrica na produção brasileira de cana-de-açúcar entre 1975 e 2015. Joseph et al. (2020) examinam diferentes abordagens para quantificar o uso sustentável da água e a escassez de água em grande escala, propondo uma estrutura de modelagem que considere a disponibilidade de água associada à terra para melhorar as avaliações do uso sustentável da água. Essas pesquisas indicam uma diversidade de estratégias para reduzir o consumo de água na produção agrícola
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 172 irrigada e enfatizam a importância da sustentabilidade no uso da água. Estudos como o de NavarroRamírez et al. (2020) abordam indicadores de uso sustentável da água na indústria, buscando desenvolver modelos que considerem aspectos sociais, econômicos e ambientais. O uso eficiente da água na produção agrícola e industrial é essencial para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos. A implementação de práticas e tecnologias inovadoras, aliada a políticas públicas eficientes, pode promover a sustentabilidade e a eficiência no uso da água, assegurando o desenvolvimento econômico sem comprometer o meio ambiente. As pesquisas destacam a importância de estratégias de gerenciamento que equilibrem a demanda econômica com a conservação dos recursos hídricos, apontando para a necessidade de uma abordagem integrada e sustentável no uso da água. Na perspectiva do comércio, a literatura considera que importar água virtual é uma maneira eficaz de aliviar a escassez (TIAN et al., 2018; HADDAD et al., 2018; ZHANG et al., 2019; FU et al. 2021), já que esse problema é uma questão importante que restringe o desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade global (GAO et al., 2020). Na literatura, são apresentados diferentes métodos para descrever e avaliar quantitativamente a água virtual. Além das duas perspectivas mencionadas, a água virtual pode ser amplamente dividida em abordagens de pegada hídrica volumétrica e orientada para o impacto. Por exemplo, Silva et al. (2015) investigaram a variação do uso de água no cultivo da cana-de-açúcar pelo método tradicional, utilizando o balanço hídrico do solo em condições de campo. Hassan et al. (2017) afirmam que a água virtual incorporada ao comércio internacional é equivalente a quase um terço da água aplicada diretamente em todo mundo. Isso reforça o papel significativo que o comércio desempenha na redistribuição dos recursos hídricos em nível global. No entanto, a eficiência na distribuição ocorrerá caso o comércio de produtos industriais promova o fluxo de água virtual de regiões com altos níveis de disponibilidade hídrica para regiões com escassez. Por outro lado, Chen et al. (2018) analisam o tema pela ótica dos exportadores líquidos de água virtual, os quais sofrem com falta de recursos hídricos. Segundo os pesquisadores, as diferentes economias devem ajustar a estrutura de comércio internacional para aliviar os efeitos do agravamento da falta de água. Por isso, sugerem às economias produtoras (a exemplo da Indústria de Serviços) que substituam, em proporções, as exportações de produtos hidrointensivos por outros com baixo consumo de água, evitando o paradoxo econômico. Em acréscimo, os autores destacam que as regiões devem fazer um pleno uso do efeito de economia de água da importação. Os efeitos econômicos e os efeitos da intensidade da água virtual são os impulsionadores mais significativos dos fluxos de água virtual. A diferença é que o efeito econômico impulsiona positivamente os fluxos de água virtual, mas o efeito de intensidade influencia negativamente (FU et al., 2021).
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 173 Fu et al. (2021) afirmam que a aplicação ineficiente de recursos hídricos se tornou um problema urgente que restringe o desenvolvimento sustentável do mundo. Em decorrência disso, apresentam o comércio de água virtual como alternativa para melhorar a eficiência da utilização dos recursos hídricos. De acordo com a teoria de Heckscher-Ohlin, são as dotações de recursos naturais que devem determinar a especialização de uma área na produção de produtos e serviços específicos, pois, se isso não ocorrer, os seus requisitos devem ser importados de outras regiões. No entanto, estudos sobre o comércio de água virtual concluíram que essa comercialização não está correlacionada à disponibilidade de recursos hídricos e que a água virtual flui de regiões com escassez de água para regiões com abundância de água (VERMA et al., 2009; ZHANG et al., 2016). Para se avaliar os fluxos de recursos naturais, como é o caso da água como objeto deste estudo (HASSAN et al., 2017; AVISO et al., 2018; CHEN et al. 2018; TIAN et al., 2020; LIU et al., 2019; ZHANG et al. 2019; DENG; LIU, 2021; WANG et al., 2020; ZAREI; NASROLLAHI, 2020; ZHAO et al., 2020; DENG et al. 2021; SOARES et al., 2021); da terra (GUO; SHEN, 2015); ou da energia (LIN, 2019), tem-se utilizado o modelo de insumo-produto como uma abordagem de cima para baixo. Isso é de grande interesse especialmente em regiões áridas com altos níveis de escassez de água. Os resultados são fundamentais para se criar políticas públicas, com o devido planejamento e gestão dos recursos hídricos, adequadas para alcançar o desenvolvimento econômico com um uso eficiente e sustentável de seus recursos. O comércio virtual de água entre regiões reflete uma vantagem comparativa na eficiência do uso desse recurso, com regiões exportadoras geralmente necessitando de menos água do que regiões importadoras. No entanto, essa troca desigual é influenciada pela distribuição desigual da disponibilidade hídrica global e pela variação sazonal dos períodos chuvosos. Estudos recentes sobre o comércio de água virtual, utilizando metodologias como o modelo regional ou multirregional de entrada e saída, destacam a predominância de pesquisas na China e em países asiáticos. Essas pesquisas analisam o volume e os fluxos de água virtual, demonstrando a complexidade e o impacto dessa dinâmica no cenário global (ALMEIDA; REIS NETO, 2022). Análises quantitativas revelam a predominância dos setores primários no consumo direto de água, haja vista a pecuária e a silvicultura exercerem forte influência nos fluxos de água virtual. Países como o Quirguistão e a Malásia dependem da importação líquida de água virtual, com o trigo e produtos agrícolas sendo as principais fontes. O comércio de água virtual apresenta taxas de crescimento notáveis, especialmente nas importações da China, impulsionadas pelo setor alimentício. Os Estados Unidos emergem como o maior importador de água virtual, enquanto a Índia lidera as exportações. A África do Sul enfrenta um crescimento mais lento nas importações, enquanto a Rússia registra uma taxa significativa
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 180 o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), a Companhia de Saneamento do Paraná (SANEPAR), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e a Fundação de Apoio à Universidade Federal de Viçosa (FUNARBE). Os dados foram organizados conforme o estudo de Visentin e Szigethy (2022), que mapeou o uso da água ao longo da cadeia de produção no Brasil e estimou os impactos da adoção de tecnologias menos intensivas em água sobre a intensidade hídrica total e o uso de água. Foi utilizada a matriz insumo-produto do estado do Paraná referente ao ano de 2015, elaborada e publicada pelo IPARDES, composta por 42 setores. Baseando-se em Leontief (1967), Morimoto (1970), Guilhoto (2011) e Mendes et al. (2011). A referida matriz foi então ajustada para o complexo sucroenergético, resultando nos seguintes setores: (1) Cana-de-açúcar; (2) Açúcar; (3) Etanol. Morimoto (1970), Guilhoto (2011) e Mendes et al. (2011) apontam que a agregação de setores pode introduzir um viés, ou seja, uma diferença entre o vetor de produção total do sistema agregado e o vetor obtido pela agregação do total da produção do sistema regional não agregado. No entanto, esse viés não compromete o estudo, pois seus efeitos só se tornam relevantes quando há uma redução expressiva no número de setores da matriz original. Além disso, foram utilizados dados de Almeida e Reis Neto (2024), dos quais foram extraídos os indicadores de consumo de água direto (CDA), indireto (CIA) e total (CTA) para o complexo sucroenergético do estado do Paraná, com base no ano de 2015, em hm3 / mil de unidades monetárias. RESULTADOS E DISCUSSÕES Neste estudo a água é o insumo debatido. Para examinar se o Paraná é um estado importador ou exportador de água virtual é preciso compreender quais setores consomem mais água em detrimento a outros e quais setores-chave têm maior influência em todo o processo de consumo de água. Para tanto, foram considerados 03 (três) setores da economia do estado do Paraná, que compõem o complexo sucroenergético com base na matriz de insumo-produto do Ipardes. Essa matriz apresenta as relações entre os setores da economia ao registrar os fluxos de bens e serviços e demonstrar as relações intersetoriais dentro do sistema econômico de um país ou estado. Tal ferramenta pode ser utilizada para estimar o impacto sobre a produção, o emprego, a renda (GUILHOTO, 2011) e os impactos ambientais das atividades econômicas, de projetos governamentais, do setor privado sobre a economia local e nacional (CASTELAO et al., 2019). A pegada hídrica do complexo sucroenergético paranaense está concentrada no consumo total de água pela produção da cana-de-açúcar. Na Tabela 01, são detalhados os indicadores de consumo de água
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 181 direto (CDA), indireto (CIA) e total (CTA) para os 3 setores do complexo sucroenergético do estado do Paraná, com base no ano de 2015, em hm3/mil de unidades monetárias. Tais indicadores são úteis para avaliar a alocação eficiente dos recursos hídricos. Para um desenvolvimento sustentável, é preciso sinergia entre economia, sociedade e meio ambiente de forma que, ao se buscar o crescimento econômico, sejam levadas em consideração a inclusão social e a proteção ambiental (ZANIBONI; SCHMIDT, 2014). As importações e as exportações de água virtual aumentaram significativamente em todo o mundo, e isso se justifica, especialmente, pela melhoria das infraestruturas logísticas, o que ocasiona a redução dos custos de transporte e de armazenagem. O Paraná tem uma das maiores extensões de malha rodoviária do país, com aproximadamente 20.929,97 km de estradas pavimentadas, além de uma malha ferroviária composta por 2.400 km (PARANÁ, 2016). Tabela 1 - Indicadores de consumo de água direto (CDA), indireto (CIA) e total (CTA) para o complexo sucroenergético do estado do Paraná, com base no ano de 2015, em hm3 / mil de unidades monetárias Complexo sucroenergético CDA CIA CTA 1 Cana-de-açúcar 391 954 9 971 401 925 2 Açúcar 407 968 2 285 410 253 3 Etanol 135 244 482 135 726 Fonte: Elaboração própria. Adaptada de Almeida e Reis Neto (2024). De acordo com os dados apresentados na Tabela 02, o estado do Paraná apresentou um saldo positivo de 1,57 milhões m³ de água virtual, resultado da diferença entre as exportações totais (1.873.957 m³) e as importações totais (302.631 m³). Esse superávit evidencia que o complexo sucroenergético paranaense é, sob a ótica do comércio, exportador líquido de água virtual. Tal condição é fortemente influenciada pelo setor de açúcar, responsável por 79% das exportações totais e 85,58% do saldo líquido positivo. No comércio internacional, esse protagonismo é ainda mais acentuado, com o açúcar representando 99% das exportações de água virtual e praticamente a totalidade do saldo positivo. Tais resultados também apontam que o setor apresentou um déficit ecológico no ano de 2015. No total, foram 1,8 milhões de m3 de água virtual exportada que saíram do estado, impulsionados pelas exportações de produtos agropecuários, responsável por 87% de toda água virtual exportada. O resultado vai ao encontro do obtido por Zangisk e Carvalho (2021), os quais afirmam que os setores com maior requerimento de água são o da Agricultura, da Pecuária, da Produção Florestal, da Pesca e da Aquicultura, pois exportam para todas as regiões do país.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 182 Tabela 2 - Comércio interestadual e internacional de água virtual, em m3 de água para o complexo sucroenergético do estado do Paraná no ano de 2015 Complexo Sucroenergético Comércio interestadual Export. (EAV) % Import. (IAV) % Saldo (BCAV) % 1 Cana-de-açúcar 11.422 2 4.704 1 6.718 0,2 2 Açúcar 286.091 42 130.874 44 155.218 40,8 3 Etanol 384.373 56 166.504 55 217.869 59 Total 681.886 - 302.082 - 379.805 - Complexo Sucroenergético Comércio internacional Export. (EAV) % Import. (IAV) % Saldo (BCAV) 1 Cana-de-açúcar 0 - 0 - 0 - 2 Açúcar 1190026 99 385 70 1.189.640 99,84 3 Etanol 2.045 1 164 30 1881 0,16 Total 1.192.071 - 549 - 1.191.522 - Complexo Sucroenergético Comércio Total Export. (EAV) % Import. (IAV) % Saldo (BCAV) 1 Cana-de-açúcar 11.422 1 4.704 2 6.718 0,42 2 Açúcar 1.476.117 79 131.259 44 1.344.858 85,58 3 Etanol 386.419 20 166.668 54 219.751 14 Total 1.873.957 - 302.631 - 1.571.326 - Fonte: Elaboração própria. Conforme a literatura especializada, a importação de água virtual é considerada uma estratégia eficiente para mitigar a escassez hídrica, sobretudo em regiões onde a disponibilidade de água representa um obstáculo ao desenvolvimento sustentável (FU et al. 2021). No entanto, o estado do Paraná se destaca pela tendência oposta: configura-se como exportador líquido de água virtual, especialmente por meio do complexo sucroenergético, o que evidencia sua inserção nas dinâmicas globais de comercialização de produtos hidrointensivos. Apesar dessa condição, o setor sucroenergético também apresenta fluxos de entrada de água virtual. As importações de produtos dessa cadeia produtiva contribuíram para o ingresso de aproximadamente 302,6 mil m³ de água virtual, sendo que 99% desse volume advém do comércio interestadual. É importante destacar que o cálculo da água virtual importada se baseia na suposição de que os produtos adquiridos de outras regiões possuem o mesmo Coeficiente Técnico de Água (CTA) daqueles produzidos no Paraná. No entanto, essa equivalência pode não se confirmar na prática, uma vez que a eficiência hídrica nos processos produtivos varia entre regiões e países. Assim, quanto maior for a eficiência do local de origem, ou seja, quanto menor o volume de água necessário para produzir os mesmos bens, menor será a quantidade de água virtual incorporada às importações. Nesse sentido, o conhecimento sobre a origem dos produtos é fundamental para mitigar essa limitação metodológica e aprimorar as estimativas. O setor sucroenergético do Paraná é peça fundamental para a economia estadual, destacando-se pela produção e exportação de açúcar e etanol. Este setor não só gera empregos diretos e indiretos, mas também impulsiona indústrias associadas, como transporte, logística e comércio. A transformação da
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 183 cana-de-açúcar em produtos de maior valor agregado dentro do estado maximiza os ganhos econômicos, proporcionando um saldo positivo elevado que indica uma eficiência na produção de açúcar e etanol. O etanol, por sua vez, apresenta participação expressiva no comércio interestadual, representando 56% das exportações de água virtual nessa esfera, mas com influência menos significativa no mercado internacional. A cana-de-açúcar in natura, embora seja a matéria-prima essencial da cadeia produtiva, tem papel marginal no comércio externo e reduzido impacto no comércio interestadual, o que reforça a ideia de que sua importância está concentrada no consumo hídrico local, e não na circulação comercial direta. A diferença entre os saldos do comércio internacional (1.191.522 m³) e interestadual (379.805 m³) revela que o maior volume de água virtual exportada pelo setor sucroenergético do Paraná está associado à demanda externa, o que impõe desafios significativos à sustentabilidade dos recursos hídricos estaduais. Essa configuração caracteriza um típico déficit ecológico: embora o estado registre superávit econômicocomercial do setor sucroenergético revele uma contribuição significativa para a balança comercial estadual e nacional, esse desempenho econômico carrega consigo um custo ecológico relevante. A exportação de produtos hidrointensivos, como o açúcar e o etanol, implica na transferência indireta de grandes volumes de recursos hídricos, o que pode comprometer a disponibilidade local de água e pressionar ecossistemas já fragilizados. Esse cenário evidencia um trade-off fundamental entre os ganhos econômicos derivados da inserção competitiva do Paraná no mercado global e os custos ambientais associados à sobrecarga dos sistemas hídricos regionais. Ignorar essa relação pode levar à intensificação da escassez hídrica e à perda da resiliência dos territórios produtores. Portanto, políticas públicas que busquem equilibrar os incentivos ao comércio com estratégias de conservação da água tornam-se indispensáveis para garantir a sustentabilidade de longo prazo do setor. Essa realidade remete ao “Paradoxo de Leontief”, identificado a partir de um teste empírico do modelo Heckscher-Ohlin-Samuelson (HOS), que previa que países exportariam bens intensivos no fator de produção relativamente abundante e importariam bens intensivos no fator escasso. No entanto, ao analisar os padrões comerciais dos Estados Unidos, país reconhecido como abundante em capital, Leontief observou que suas exportações consistiam, majoritariamente, de bens intensivos em mão de obra, enquanto suas importações eram mais intensivas em capital, contrariando as previsões do modelo teórico (APPLEYARD, 2008; APPLEYARD et al., 2010; FAUSTINO, 1992; NEGEM, 2015). Esse resultado inesperado evidenciou as limitações do modelo HOS, sobretudo sua incapacidade de incorporar fatores como diferenças tecnológicas, economias de escala e a heterogeneidade dos processos produtivos entre países.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 184 De forma semelhante, o caso paranaense pode ser interpretado como uma manifestação atual do Paradoxo de Leontief aplicado à água virtual. A contradição se expressa no fato de que uma região sob crescente pressão ecológica, em termos de disponibilidade e uso de recursos hídricos, se configura como exportadora líquida de água incorporada em bens agrícolas e industriais, como o etanol e o açúcar. Essa dinâmica contraria a lógica da eficiência ambiental, pois desloca água de regiões potencialmente vulneráveis para atender demandas externas, priorizando ganhos econômicos imediatos em detrimento da sustentabilidade dos ecossistemas locais. A literatura demonstra que os fluxos de água virtual estão fortemente associados à eficiência hídrica regional. Regiões exportadoras, teoricamente, utilizam a água de maneira mais eficiente do que as importadoras (TIAN et al., 2018; ZHANG et al., 2019; FU et al. 2021). Entretanto, essa lógica é insuficiente para explicar os impactos territoriais da exportação de água virtual, especialmente em contextos como o do Paraná, em que a concentração do uso da água em setores específicos pode comprometer a resiliência hídrica local. Ainda que o estado possua relativa disponibilidade hídrica, a distribuição desigual dos usos e os efeitos cumulativos da intensificação agroindustrial, sobretudo no setor abordado por este estudo, tornam urgente a adoção de mecanismos de monitoramento e gestão integrada dos recursos. A expansão das plantações de cana-de-açúcar pode ocasionar impactos ambientais relevantes, como a degradação do solo, o desmatamento, a perda de biodiversidade e o aumento da erosão. Ademais, o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas pode comprometer a qualidade da água, afetando ecossistemas aquáticos. O processo produtivo da cana e seus derivados também está associado às emissões de gases de efeito estufa, sobretudo em função da queima da palha e do processamento industrial. Apesar disso, o etanol representa uma fonte de energia renovável capaz de contribuir para a redução da dependência de combustíveis fósseis e da emissão de carbono a longo prazo (BWAMBALE et al., 2022). A minimização dos impactos relacionados ao comércio de água virtual exige a adoção de práticas de manejo sustentável que contribuam para a redução da pegada hídrica no setor sucroenergético. A gestão adequada dos recursos hídricos pode gerar ganhos ambientais e econômicos, promovendo o uso racional da água na produção da cana-de-açúcar (FITO et al., 2017). Entre as estratégias recomendadas destacamse o reaproveitamento de águas residuais e a captação de água da chuva, especialmente em períodos de estiagem (BORDONAL et al., 2018). A adoção de tecnologias de irrigação eficiente, como o gotejamento, reduz consideravelmente o consumo de água ao fornecer diretamente às raízes a quantidade necessária, evitando perdas por evaporação. O uso de sensores de umidade do solo contribui para a irrigação de precisão, evitando tanto o desperdício quanto o estresse hídrico. Estudos recentes evidenciam a necessidade de modelos
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 185 matemáticos que integrem variáveis climáticas, edáficas e fisiológicas, associadas ao controle preditivo, para otimizar o uso da água (BWAMBALE et al., 2022). Outras práticas sustentáveis incluem a rotação de culturas, que favorece a saúde do solo e o controle de pragas, bem como a cobertura vegetal, que auxilia na retenção de umidade, na estabilidade térmica e na prevenção da erosão. O desenvolvimento de cultivares mais tolerantes à seca também se mostra essencial para a resiliência produtiva frente às mudanças climáticas (KASSAM, 2013; BORDONAL et al., 2018; NAVARRO-RAMIREZ et al., 2020; BWAMBALE et al., 2022). A intensificação da participação do Paraná no comércio de água virtual, especialmente por meio do setor sucroenergético, torna evidente a necessidade de políticas voltadas à sustentabilidade hídrica. O elevado volume de exportações de produtos hidrointensivos, como o açúcar e o etanol, demonstra o descompasso entre os ganhos econômicos e a pressão ambiental sobre os mananciais. Nessa perspectiva, a formulação e implementação de instrumentos de manejo eficiente e responsável tornam-se fundamentais. No Paraná as políticas públicas estaduais evidenciam avanços na construção de uma governança hídrica mais integrada e participativa. O Decreto Estadual nº 9.130/2010 representa um marco regulatório ao disciplinar a criação dos Comitês de Bacia Hidrográfica (CBHs), previstos na Lei Estadual nº 12.726/1999. Esses colegiados exercem funções normativas e deliberativas, como a aprovação de planos de bacia, a proposição de critérios para outorga e cobrança pelo uso da água, e a mediação de conflitos em primeira instância administrativa. O decreto estadual referenciado assegura representatividade paritária entre o poder público, os usuários e a sociedade civil, incluindo comunidades tradicionais, fortalecendo os princípios democráticos da gestão hídrica, haja vista o meio ambiente sustentável ser um direito socialmente difuso. A institucionalização de mecanismos de deliberação coletiva, transparência e corresponsabilidade está alinhada ao Pacto pela Governança da Água, proposto pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Entretanto, a eficácia dessas diretrizes depende da participação ativa e qualificada dos diversos atores sociais. Estudos demonstram que a centralidade decisória ainda se concentra nas agências governamentais, enquanto setores como o agrícola ou regiões rurais isoladas permanecem em posições periféricas nos arranjos institucionais. Essa assimetria demanda a construção de redes colaborativas e o fortalecimento da capacidade deliberativa de todos os segmentos (FLIERVOET et al., 2016; KHARANAGH et al., 2020; NABIAFJADI et al., 2021; GATT, 2016; DELGADO et al., 2021). Complementarmente, iniciativas locais com apoio de ONGs e outros stakeholders são fundamentais para proteger fontes hídricas vulneráveis e enfrentar os impactos da exportação de água
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 186 virtual. Para tanto, é imprescindível investir em educação hídrica, divulgação de informação técnica e capacitação comunitária, promovendo o engajamento qualificado dos usuários e a compreensão dos sistemas de gestão (VOS; HINOJOSA, 2016). No contexto recente, destaca-se a instituição do Programa Estadual de Segurança Hídrica na Agricultura, estabelecido pela Lei nº 21.994/2024 e regulamentado pelo Decreto nº 8.803/2025. Essa política busca apoiar a gestão eficiente da água no meio rural por meio de subvenções econômicas, reembolsáveis ou não, destinadas a agricultores familiares e organizações coletivas. As práticas incentivadas incluem proteção de nascentes, reservatórios, reuso de efluentes e modernização dos sistemas de irrigação. Alinhadas à literatura especializada, essas diretrizes estimulam o uso de tecnologias de eficiência hídrica, como sensores de umidade, rotação de culturas e cultivares resistentes à seca. O programa adota ainda critérios de priorização regional, como a ocorrência de bacias com baixa vazão outorgável e o histórico de perdas agropecuárias por estresse hídrico. A liberação dos recursos depende da apresentação de projetos tecnicamente estruturados e do acompanhamento por assistência técnica especializada, reforçando a governança e a accountability. Do ponto de vista institucional, a criação da Unidade Técnica do Programa (UTP) assegura a articulação entre Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (SEAB), Secretaria do Desenvolvimento Sustentável (Sedest), Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e Instituto Água e Terra (IAT) para monitorar, planejar e avaliar as ações. Ademais, a possibilidade de articulação com fontes de financiamento federais e internacionais amplia o escopo e a sustentabilidade da política. Mecanismos de bonificação por boas práticas e apoio emergencial frente a eventos climáticos extremos também estão previstos, reconhecendo a crescente vulnerabilidade do meio rural. Para tanto, a efetividade do programa dependerá de aporte orçamentário consistente, da atuação da extensão rural e da equidade no acesso aos instrumentos, sobretudo para os pequenos produtores. Frente à complexidade do comércio de água virtual, impõe-se uma abordagem sistêmica, multiescalar e integrada de planejamento e gestão ambiental. O setor sucroenergético do Paraná enfrenta um desafio estratégico central: compatibilizar os benefícios econômicos gerados pelas exportações de commodities, como açúcar e etanol, com a preservação ambiental nos territórios de origem. Embora o crescimento econômico acelerado contribua para o fortalecimento da balança comercial, ele também pode ocasionar impactos ambientais significativos, sobretudo relacionados à degradação dos recursos naturais, à perda da qualidade da água e ao aumento das emissões de gases de efeito estufa (FENG et al., 2024). A maximização dos ganhos oriundos do comércio internacional não deve ocorrer em detrimento da sustentabilidade ecológica. Tal prática comprometeria a resiliência hídrica e a viabilidade de longo
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 187 prazo não apenas do setor sucroenergético, mas de todo o sistema agrícola regional. Conforme argumentam Feng et al. (2024), torna-se necessário formular políticas públicas coerentes que articulem crescimento econômico e conservação ambiental, promovendo sinergias entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à proteção dos ecossistemas terrestres (ODS 15), à ação climática (ODS 13) e à gestão sustentável da água (ODS 6). As empresas do complexo sucroenergético devem adotar práticas sustentáveis que contribuam para mitigar os impactos ambientais e enfrentar a escassez hídrica associada à produção. Isso envolve não apenas a redução das emissões decorrentes das atividades agrícolas e industriais, mas também a implementação de sistemas de gestão hídrica mais eficientes. Nesse contexto, a eficiência hídrica desponta como uma exigência estratégica, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico, especialmente diante da urgência de alinhar os modelos produtivos às metas globais de sustentabilidade hídrica (VELASCO-MUÑOZ et al., 2018; GILLET; BIANCALANI, 2022). O indicador 6.4.1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que mensura a mudança na eficiência do uso da água ao longo do tempo, representa um instrumento estratégico para avaliar a relação entre crescimento econômico e sustentabilidade hídrica. A métrica expressa o valor adicionado por unidade de volume de água utilizada (em dólares por metro cúbico), permitindo mensurar a produtividade hídrica dos setores agrícola, industrial e de serviços. Este indicador oferece uma base técnica para a formulação de políticas públicas orientadas à transição para modelos de desenvolvimento mais eficientes no uso dos recursos naturais, especialmente em regiões com elevado consumo de água associado à produção agroindustrial (GILLET; BIANCALANI, 2022; ANA, 2022). No contexto do setor sucroenergético do estado do Paraná, a aplicação do referido indicador adquire especial relevância. A produção de açúcar e etanol, fortemente dependente de grandes volumes de água tanto no cultivo da cana-de-açúcar quanto nos processos industriais de transformação, representa um vetor expressivo do comércio de água virtual. Elevar a produtividade hídrica do setor implica reduzir o estresse sobre os mananciais e agregar valor aos produtos exportados, contribuindo para a competitividade internacional do complexo sucroenergético paranaense. As políticas públicas atualmente em vigor no Paraná convergem com os princípios subjacentes ao indicador 6.4.1. A promoção do uso racional da água tem ocorrido por meio de incentivos econômicos, apoio técnico e fomento à adoção de tecnologias como irrigação localizada, sensores de umidade do solo, reuso de águas residuais e conservação de nascentes. Essas iniciativas podem elevar a eficiência do uso da água, ao mesmo tempo em que fortalecem a resiliência produtiva frente às mudanças climáticas e reduzem os impactos hídricos do setor.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 188 A implementação do indicador ODS 6.4.1 como ferramenta de monitoramento pode contribuir ainda mais para a definição de metas específicas de produtividade hídrica nos polos sucroenergéticos do estado. Ao integrar dados econômicos e hidrológicos, o indicador permite desenvolver estratégias multiescalares e territorializadas que conciliem as metas de crescimento do setor com os compromissos de sustentabilidade previstos na Agenda 2030. Dessa forma, a incorporação do ODS 6.4.1 ao planejamento agrícola e ambiental do Paraná fortalece a governança hídrica e sinaliza o alinhamento do estado às diretrizes internacionais de uso sustentável da água. Nesse cenário, a articulação com Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) configura-se como etapa complementar à ação estatal, possibilitando a criação de soluções tecnológicas e inovações adaptadas às especificidades regionais. A ampliação da produção e da disseminação de tecnologias voltadas à racionalização do uso da água e à mitigação dos impactos ecológicos das atividades produtivas reforça o papel estratégico do conhecimento técnico-científico no avanço da sustentabilidade. A análise do comércio de água virtual sugere que a sustentabilidade do complexo sucroenergético paranaense está diretamente relacionada ao fortalecimento da governança hídrica. A continuidade de seu protagonismo comercial requer o aprimoramento de políticas públicas que equilibrem os benefícios obtidos no mercado externo com a proteção ambiental nos territórios de origem. Nesse sentido, superar o paradoxo de Leontief, que aponta a contradição entre pressões ecológicas locais e exportação líquida de recursos naturais, demanda a reconfiguração das lógicas produtivas e comerciais. A internalização dos custos ecológicos e a redistribuição mais justa da água entre regiões exportadoras e importadoras são etapas essenciais para assegurar justiça hídrica e sustentabilidade de longo prazo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo analisou o comércio de água virtual no setor sucroenergético do Paraná, considerando sua relevância econômica, suas implicações ecológicas e sua relação com as políticas públicas de gestão hídrica. Foram examinados os fluxos internacionais e interestaduais, os impactos ambientais da exportação de produtos hidrointensivos e os instrumentos normativos vigentes no estado. Os resultados mostram que o Paraná é exportador líquido de água virtual, com saldo de 1.571.326 m³ em 2015, concentrado principalmente no açúcar, responsável por 79% das exportações totais e 85,58% do saldo líquido. Embora o etanol tenha maior participação no comércio interno, sua contribuição ao comércio externo é reduzida; já a cana-de-açúcar in natura apresenta baixa participação comercial, mas elevada intensidade hídrica local.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 189 Essa configuração evidencia um paradoxo: mesmo sob crescente pressão sobre seus recursos hídricos, o estado exporta volumes expressivos de água virtual, gerando um déficit ecológico em que os ganhos econômicos não correspondem à reposição ou conservação dos recursos. Esse padrão aproximase do Paradoxo de Leontief, ao demonstrar que regiões com maior pressão hídrica continuam exportando insumos ambientais. A análise reforça que a eficiência hídrica é estratégica econômica e ambientalmente. Tecnologias de irrigação, reaproveitamento de efluentes e práticas de aumento de produtividade hídrica tornam-se essenciais, e o indicador ODS 6.4.1 mostrou-se relevante para orientar políticas públicas alinhadas à Agenda 2030. No campo institucional, observou-se avanço da governança hídrica, sobretudo com a atuação dos Comitês de Bacia e com a instituição do Programa Estadual de Segurança Hídrica na Agricultura (Lei nº 21.994/2024). Apesar disso, persistem desafios na articulação entre atores e na capacidade decisória dos colegiados, especialmente em regiões agrícolas. Entre as limitações metodológicas, destaca-se o uso de coeficientes médios para estimar a água virtual importada, o que pode não refletir especificidades regionais. Ainda assim, o estudo contribui para o debate sobre governança da água, internalização de custos ambientais e aprimoramento das políticas públicas. Como agenda futura, recomenda-se atualizar as matrizes utilizadas, avaliar os efeitos da variabilidade climática sobre o saldo de água virtual, comparar a eficiência hídrica entre estados e países e analisar a efetividade dos instrumentos de gestão recentemente implementados. Conclui-se que o Paraná enfrenta o desafio de conciliar competitividade no mercado sucroenergético com a preservação de seus ecossistemas hídricos, exigindo reconfiguração produtiva, fortalecimento das políticas de uso racional da água e maior integração entre governança e sustentabilidade. Do ponto de vista prático, a aplicação do modelo de insumo-produto oferece uma metodologia robusta e replicável, capaz de orientar decisões públicas e privadas. As empresas do setor podem utilizar os resultados para otimizar o uso da água, reduzir custos, mitigar riscos de escassez e fortalecer estratégias ESG e de responsabilidade socioambiental. As informações geradas podem ainda apoiar o planejamento estratégico, a conformidade regulatória e a identificação de oportunidades para cadeias produtivas mais resilientes e sustentáveis. Além disso, os achados estimulam abordagens interdisciplinares que articulem economia, gestão hídrica e sustentabilidade, abrindo caminhos para estudos sobre outras commodities, regiões e séries temporais.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 196 BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista|2025 http://www.ioles.com.br/boca Editor chefe: Elói Martins Senhoras Conselho Editorial Antonio Ozai da Silva, Universidade Estadual de Maringá Vitor Stuart Gabriel de Pieri, Universidade do Estado do Rio de Janeiro Charles Pennaforte, Universidade Federal de Pelotas Elói Martins Senhoras, Universidade Federal de Roraima Julio Burdman, Universidad de Buenos Aires, Argentina Patrícia Nasser de Carvalho, Universidade Federal de Minas Gerais Conselho Científico Claudete de Castro Silva Vitte, Universidade Estadual de Campinas Fabiano de Araújo Moreira, Universidade de São Paulo Flávia Carolina de Resende Fagundes, Universidade Feevale Hudson do Vale de Oliveira, Instituto Federal de Roraima Laodicéia Amorim Weersma, Universidade de Fortaleza Marcos Antônio Fávaro Martins, Universidade Paulista Marcos Leandro Mondardo, Universidade Federal da Grande Dourados Reinaldo Miranda de Sá Teles, Universidade de São Paulo Rozane Pereira Ignácio, Universidade Estadual de Roraima Caixa postal 253. Praça do Centro Cívico. Boa Vista, RR, Brasil. CEP 69601-970.