146 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 A DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO NA TI E SEUS IMPACTOS NA SOCIEDADE https://doi.org/10.5281/zenodo.15306923 GENDER DISCRIMINATION IN IT AND ITS IMPACTS ON SOCIETY ROMANO, Simone Maria Viana, Mestra* ESPÍNDOLA, Mirelle Gushomoto, Tecnóloga* SANTOS, Thifany Nicastro dos, Tecnóloga* Faculdade de Tecnologia de Praia Grande* Pça. 19 de Janeiro, 144, Boqueirão, Praia Grande / SP, CEP: 11700-100 [email protected]
[email protected] [email protected] RESUMO Conforme a participação da mulher no mercado de trabalho cresce, isso ocasiona em novos aspectos em relação a gênero e poder nas empresas. O artigo propõe abordar as principais razões pelas quais as mulheres são minoria nas áreas exatas e tecnológicas e os impactos na sociedade, além de avaliar aspectos sociais, que levam em consideração a atual sociedade patriarcal que oprime o gênero feminino. Cita, ainda, a representatividade de grande importância no ambiente majoritariamente masculino. Graças a ela, o cenário vem melhorando bastante, devido as mulheres se sentirem menos intimidadas ao ingressar na TI. O artigo aborda, também, programas para auxiliar mulheres, que tratam desde reduzir a violência contra a mulher, até a valorização do trabalho de forma igualitária. A partir disso, têm-se como possível solução o incentivo desse público à vida acadêmica com a criação de programas que encorajem essa inclusão nas áreas disponíveis e no quesito profissional, com o intuito de diminuir a evasão delas tanto dos cursos de exatas, foco do artigo, como para o preenchimento de vagas de tecnologia e ciência. PALAVRAS-CHAVE: Mercado. Representatividade. Mulher. Profissional. Tecnologia. Ciência. ABSTRACT As women's participation in the labor market grows, this leads to new aspects regarding gender and power in companies. In this article, we discuss the main reasons why women are a minority in the exact and technological areas and the impacts on society. We evaluate social aspects, which take into account the current patriarchal society that oppresses the feminine gender. In addition, we mention the representativeness of great importance in the mostly male environment. Thanks to it, the scenario is improving a lot, as women feel less intimidated when they enter IT. Also, we will address programs to assist women, ranging from reducing violence against women to valuing work equally. Knowing this, a possible solution for this problem is to motivate this specific group to engage in academic life by the use of programs that encourage this inclusion on the available areas and also in the professional aspects, having the purpose of lowering the evasion from science courses, being that the focus of the article, as well for the filling of positions in the world of technology and science.
147 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 KEYWORDS: Market. Representativeness. Woman. Professional. Technology. Science. 1. INTRODUÇÃO Já se fala há muito tempo que a Tecnologia da informação (TI) mudou a forma com que as empresas funcionam. Antes o que era apenas relevante tornou-se algo vital para a sobrevivência das empresas que cada vez mais estão entendendo a importância da TI e os benefícios que pode oferecer. O início da TI nas empresas era para suporte administrativo, hoje já é um papel importante para a estratégia de uma organização, sendo de grande importância para criação de estratégias de negócio ou aprimoramento delas para a obtenção da vantagem competitiva. Empresas que não investem em TI ficam para trás e a vantagem competitiva está na inovação e a tecnologia traz isso com a automação em determinados processos, com isso o risco de falhas é reduzido e a produção pode ser maior, mais rápida e mais barata. As ferramentas que a TI oferecem são as vantagens que uma empresa pode adquirir, estratégicas, táticas e operacionais. Para isso são necessárias pessoas, profissionais dessa área, não apenas para criar, mas para manter a disponibilidade, funcionalidade e segurança dessas ferramentas. Área da TI é abrangente e pode ser dividida em três setores: Desenvolvimento, Gestão e Infraestrutura. Todos estes setores contam com diversas áreas específicas, como: programação, processamento de dados, segurança da Informação, engenharia de software, informática, hardware e software. Isso acontece pelo fato de haver constantemente atualizações e criações de novos recursos para essa área. Com isso são criadas novas formas de gerir os processos, podendo ser apenas um software ou uma empresa completa. A criação de novas tecnologias e a importância delas dentro das organizações fazem o número de vagas crescer mais do que a quantidade de pessoas qualificadas para essas funções, sobram vagas de emprego na área e o mercado procura mais pessoas para preencher estas vagas, ou seja, sobram vagas, falta mão de obra qualificada. No que se diz respeito a empregos relacionados a TI, é correto afirmar que essa área, devido à sua maioridade masculina, também está passível de ocorrer comportamentos preconceituosos, principalmente, na questão de contratação e admissão. Durante esse processo, há uma grande preferência pela maioria das empresas, em se admitir homens. De acordo com
148 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 um artigo provindo da revista Época Negócio, de 2018, cerca de 17% dos programadores brasileiros são do gênero feminino, mantendo a maior porcentagem para os homens, tanto em quesito de responsabilidade de cargos quanto em equiparação salarial. Manzar Feres, ex-vice-presidente da Serasa Experian e atual Diretora de Comercialização da Rede Globo, exemplifica este cenário citando sua própria companhia na época: “globalmente, a Serasa tem 52% de homens e 48% de mulheres, uma situação de equilíbrio. Na área de tecnologia da informação, a história é diferente” (ÉPOCA NEGÓCIOS, 2018, S/N). As programadoras compõem apenas 23% da equipe de TI. A Serasa Experian fez planos para mudar a situação. “Queremos ampliar a parceria com empresas e comunidades para inspirar meninas em tecnologia”, diz. A empresa investe no recrutamento de candidatas mulheres: em todos os processos, é necessário que mais da metade dos candidatos sejam mulheres e que haja preferencialmente uma mulher afrodescendente. Por último, a empresa criou um programa de mentoria específico para mulheres no mercado de tecnologia. Embora, nos dias de hoje, acredita-se muito que a discriminação e estereótipo de gênero tornou-se algo obsoleto, mas esse mal ainda tem presença na vida das mulheres. As barreiras já são presentes no âmbito geral da vida, mas se tratando da área de tecnologia, é “prédeterminado” de que elas não possuem habilidades iguais às de um homem, ainda mais por ser considerada uma área “masculina” os empecilhos são grandemente discriminatórios e sexistas. Por serem minorias nas instituições de ensino e na área acadêmica, os números descem ainda mais quando vamos a fundo e citamos as mulheres que realmente seguem essa carreira e consolidam uma vida bem-sucedida. Uma pesquisa realizada pelo G1 aponta que, nos cursos de bacharelado em Ciências da computação do Instituto de Ciências matemáticas e de Computação (ICMC), apenas 12 mulheres (48%) perante 13 homens (52%) se formaram, em 1997 e, em 2003, 4 mulheres (12%) perante 27 homens (88%). Em 2016, esta diferença se tornou mais expressiva, sendo duas apenas entre 52 homens, uma porcentagem de 3% e 97%, respectivamente. Em 2017, 12 pessoas do gênero feminino (17%) se formaram em uma turma de 70 formandos. O artigo se propõe a discutir esses temas, enfatizando as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de TI, e discutindo quais são elas, e quais possíveis atitudes que podemos tomar, independentemente do gênero, a fim de diminuir a discriminação.
149 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 2. A MULHER NA HISTÓRIA DA COMPUTAÇÃO Acontecimentos importantes na história da computação tem a participação de mulheres, a invenção do ENIAC, primeiro computador da história, carrega o caso mais famoso da participação da mulher na computação, entre ambos os gêneros havia 75 mulheres, 6 destas eram as principais programadoras do computador: Frances Spence, Jean Bartik, Kathleen Antonelli, Marlyn Meltzer, Ruth Teitelbaum e a mulher que teve maior destaque, Frances Holberton. Figura 1: Betty Holberton programando o ENIAC Fonte: Exército dos EUA (domínio público), 1947-1955 Frances Elizabeth “Betty” Holberton, nascida na Filadélfia em 1917, também precisou enfrentar a discriminação de gênero. Logo em seu primeiro dia de aula na Universidade da Pensilvânia, o professor de matemática lhe disse que era melhor parar de perder tempo e ir para casa ter filhos. Betty então foi estudar o jornalismo, que era uma das poucas áreas abertas para mulheres na época e a possibilitaria poder viajar. Além da participação no ENIAC, ela também realizou outros dois feitos importantes para a computação, escreveu o algoritmo de ordenação Merge Sort e foi uma das desenvolvedoras das linguagens de programação Cobol e Fortran. As seis programadoras faziam os cálculos balísticos no ENIAC e segundo Gurer (2002, p.117) era algo muito difícil, pois nada havia sido programado em um computador, então não havia material de aprendizado. A inovação que o ENIAC trouxe fez com que as pessoas por
150 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 trás de todo o seu desenvolvimento fossem esquecidas. Segundo SOULLIERE (s.d.), o tratamento da história para a contribuição das mulheres as ciências conduzem para uma falta de modelos de papéis femininos. Significa que a importância científica e computacional dessas mulheres não é conhecida ou vista, os materiais de pesquisa sobre a história da mulher na computação são escassos, consequentemente se sabe pouco sobre elas, que poderiam servir de inspiração para outras pessoas. Figura 2: Garotas do ENIAC Fonte: Exército dos EUA (domínio público), 1947-1955 Na indústria dos games temos Carol Shaw, a primeira mulher a trabalhar com o desenvolvimento de jogos eletrônicos. Nascida na Califórnia em 1955, Carol se formou em Ciências da Computação pela universidade de Berkeley e foi contratada pela Atari em 1978 onde trabalhou em jogos como: 3D Tic-Tac-Toe, Video Checkers e Super Breakout. Alguns anos depois ela foi contratada pela empresa Activision e se tornou a programadora do inesquecível River Raid, cujo imenso sucesso a permitiu se aposentar antes mesmo de chegar na terceira idade.
151 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 Figura 3: Carol Shaw segurando o jogo River Raid Fonte: Pioneering Women in Tech (Medium), 2019 A “mãe da internet”, Radia Joy Perlman, foi a cientista da computação, projetista de software e engenheira de redes responsável pela invenção do protocolo Spanning Tree (STP), que é algo fundamental para a operação de bridges de rede. Nascida no ano de 1951 em Portsmouth, Radia se graduou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e conseguiu seu primeiro emprego como programadora em 1971 na LOGO Lab. Ela conseguiu desenvolver uma versão educativa da linguagem LOGO e dedicou boa parte de seu tempo no ensino de programação para crianças. Radia recebeu diversos prêmios por sua influência e já soma mais de 100 patentes em seu nome, além de também ser a autora do livro “Interconnections: Bridges, Routers, Switches, and Internetworking Protocols” e co-autora do “Network Security: Private Communication in a Public World”. Figura 4: Radia Joy Perlman, inventora do STP Fonte: Pioneering Women in Tech (Medium), 2019
152 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 Como exemplo mais atual, destaca-se a cientista da computação Katherine Louise Bouman. Ela estudou engenharia elétrica na Universidade de Michigan e obteve ambos seus mestrado e doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Katie recebeu destaque por ter conseguido construir um algoritmo capaz de entender milhares de dados astronômicos e interpretá-los em uma figura inteligível de um corpo celeste, o que é mais conhecido como a primeira foto de um buraco negro. Em seu Facebook, ela comenta: "Observando, incrédula, a primeira imagem que eu já fiz de um buraco negro enquanto estava em processo de reconstrução". Figura 5: Katie Bouman, cientista que decifrou o buraco negro Fonte: Revista Galileu (O Globo), 2019 Atualmente, existem grandes profissionais do gênero feminino exercendo cargos de alto escalão, e essas mulheres são a inspiração para aquelas que estão iniciando seus estudos ou sua carreira na área. Um exemplo é Susan Wojcicki, atual diretora executiva do YouTube que já trabalhou em outros projetos do Google como o Google Imagens, Google Livros, AdWords, AdSense e Analytics, hoje está na lista de mulheres mais poderosas do mundo nas revistas Forbes e Fortune.
153 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 Figura 6: Susan Diane Wojcicki, atual CEO do Youtube Fonte: Flickr (wikipedia), 2013 Tânia Cosentino, formada em engenharia elétrica pela Faculdade de Engenharia em São Paulo com mais de 30 anos de experiência profissional e reconhecida por seu trabalho a favor da sustentabilidade pela Organização das Nações Unidas (ONU), assumiu o cargo de presidente da Microsoft Brasil. Figura 7: Tânia Consentino, presidente da Microsoft Brasil Fonte: O Globo, 2019 3. A MULHER NA TI Uma pesquisa realizada por alunos da Universidade de Passo Fundo no Rio Grande do Sul em 2016, com base nos dados obtidos pela Divisão de tecnologia da informação (DTI),
154 Revista Processando o Saber • ISSN 2179-5150 • Ano 12 • nº 12 • 2020 apontam um gráfico com a quantidade de ingressantes de ambos os gêneros no curso de tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS). O estudo inicial mostra que, a partir de 2007, ano em que o curso foi criado, até o primeiro semestre de 2016, 923 alunos ingressaram, sendo 89,06% do gênero masculino e 10,94% do gênero feminino, são valores que não chegam à 20 mulheres ingressadas anualmente. É informado que 233 alunos concluíram o curso entre os anos de 2009 e 2015, sendo 83% do gênero masculino e 17% do gênero feminino, porém, no cálculo da porcentagem desses concluintes, de acordo com a proporcionalidade de gênero, a porcentagem de mulheres que concluíram o curso é de 40%, superior aos 23% dos homens, mostrando que as mulheres são mais efetivas que os homens. Em um panorama geral, baseado na mesma pesquisa, os alunos construíram um gráfico que mostra as notas médias dos concluintes baseado no gênero e que inclui os três cursos relacionados a área de TI, sendo eles, Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS), Ciência da Computação (CC) e Sistemas para Internet (TSNET). Com base nas informações reunidas, é possível notar que mesmo com a escassez de mulheres em cursos voltados a tecnologia, a falta de aptidão não é uma realidade; suas médias comparadas às dos homens são pouco diferentes, e neste cenário pesquisado, em dois dos três cursos as mulheres possuem notas médias superiores aos homens. Já no mercado de TI a mulher não ocupa um grande espaço atualmente, segundo a pesquisa realizada pelo PNAD em 2009 apenas 20% dos profissionais de TI no Brasil são mulheres, isso porque a quantidade de mulheres que cursam esta área é pequena comparado a quantidade de homens, como aponta a mesma pesquisa onde 79% das mulheres que ingressam em cursos acadêmicos ligados a Computação desistem logo no primeiro ano. 1 É inegável que a área masculina é pouco frequentada por mulheres em sua maioria. Mas, o que se deve a esse fator? Acredita-se que sua ausência se justifica e é propagada em um estereótipo de que mulheres não possuem capacidade intelectual para lidar com tecnologia, lógica e exatas. Tratando-se da escolha profissional, as mulheres se concentram no mercado de trabalho e em formação acadêmica às carreiras relativas às áreas do cuidado, como educação, saúde e comunicação. O número de mulheres ingressadas não só na área de tecnologia, mas também em outras áreas de ciências e exatas é menor pois a falta de incentivo vem desde a infância onde os meninos brincavam com videogames e as meninas com bonecas, era natural dos pais pensarem em videogames e computadores como brinquedos apenas para meninos, gerando esse 1 PNAD = A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.
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