Processando o Saber nº 10, 2018 35 TRAJETÓRIA DA ECONOMIA DA INOVAÇÃO NO BRASIL: PERCEPÇÕES E CRÍTICA FRANZESE, Miriam Vidal Correia, Mestre* *Faculdade de Tecnologia de Praia Grande Departamento de Gestão Empresarial Pça. 19 de Janeiro, 144, Boqueirão, Praia Grande-SP, CEP: 11700-100 Fone (13) 3591-6968
[email protected] RESUMO O Brasil, especialmente nas duas últimas décadas, parece reconhecer a inovação como um conceito bem mais amplo do que pesquisa e desenvolvimento (P&D) e vem desenvolvendo, de maneira explícita, fomentar o desenvolvimento econômico do país. Este artigo é um esforço em socializar o aprendizado e conhecimento sobre alguns aspectos importantes da economia da inovação para o crescimento da produtividade e competitividade. Ele apresenta percepções e uma integração da empresa brasileira, em especial no que tange a formação de pessoas e geração de novos conhecimentos, tendo como fundamento teórico a abordagem evolucionista, de inspiração schumpeteriana. Ciência e tecnologia. Inovação. Gestão do conhecimento. ABSTRACT The Brazil, especially in the last two decades, seems to recognize innovation as a concept well wider than research and development (r https://doi.org/10.5281/zenodo.15540893
Processando o Saber nº 10, 2018 36 and technology (s & T) in order to promote the economic development knowledge about some important aspects of the economics of innovation for productivity growth and competitiveness. It features insights and integration of Brazilian company, in particular regarding the training of people and the generation of new knowledge, with the theoretical basis the evolutionary approach, inspired by schumpeteriana. KEY-WORDS: Science and technology. Innovation; Knowledge management. INTRODUÇÃO Hoje, o mundo globalizado não só exige presença em mercados chaves, como também, o tempo todo, gerenciamento de pressões para o aumento crescente da produtividade e competitividade, redução dos custos, melhoria da qualidade dos produtos, dos recursos humanos e das respectivas estruturas administrativas para ampliação das capacidades das suas cadeias de valores em diversos lugares, quase sempre muito onerosos para a maioria das empresas. Os avanços da ciência, tecnologia e a inovação (CT&I) são portais para o futuro e tornam-se imprescindíveis para a sobrevivência e desenvolvimento da sociedade organizada. A inovação trata de pesquisa, descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação e adoção de novos produtos e novas formas organizacionais (Oliveira, 2007). Acrescentando, Szmrecsányi (2006) destaca que “as inovações tecnológicas correspondem à aquisição, introdução e aproveitamento de conjuntos de conhecimentos técnicos na produção e/ou distribuição de bens e serviços para o mercado”. Portanto, o entendimento comum é de que a organização empresarial continuamente precisa desenvolver e promover inovações em seus modelos de gestão já que na atualidade existem novas corporações, caracterizadas por parcerias ou alianças estratégicas e redes organizacionais, por força dos avanços das novas tecnologias, inclusive da informação, a partir do acirramento da concorrência,
Processando o Saber nº 10, 2018 37 devido à globalização1 outubro de 1989. como um conceito bem mais amplo do que pesquisa e desenvolvimento (C&T) têm sido discutidas com o intuito de fomentar o desenvolvimento econômico são promovidas. Num esforço em socializar o aprendizado e conhecimento sobre alguns aspectos importantes da economia da inovação no Brasil para o crescimento da produtividade e competitividade, o conteúdo à ordem conceitual, descritiva e sistêmica referente aos elementos econômicos, institucionais e tecnológicos. Inicialmente, o referencial teórico com base na abordagem evolucionista é apresentado na tentativa de entender o paradigma tecnológico e a sua trajetória nas economias capitalistas, para então CT&I em busca do desenvolvimento em períodos distintos, apoiado Szmrecsányi (2006) e do próprio Schumpeter (1982) e outros. sobre como se dá a participação dos atores que compõem um processo sobre o papel ainda pouco ousado da organização empresarial, no que tange a formação de pessoas e a geração de novos conhecimentos imprescindíveis ao processo de inovação para o desenvolvimento econômico. PAPEL DO EMPRESÁRIO Para Szmrecsányi (2006), a teoria schumpeteriana do ciclo 1 A globalização da economia é um processo de integração crescente de todos os de comunicação e de transportes de todos os países do planeta. Os negócios passaram a ser mundiais onde o local físico foi substituído por redes de informação, de distribuidores e similares. A globalização procura incorporar normas seletivas de investimento, levando em consideração condições macroeconômicas de mercado.
Processando o Saber nº 10, 2018 38 econômico representou o ajuste, a aproximação necessária e fundamental para a ciência econômica contemporânea. Contrário aos pressupostos da teoria neoclássica, Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) defendia que as inovações não advêm de determinadas pelo resultado do desenvolvimento ou base tecnológica acumulado de três processos importantes: descoberta ou invenção; a inovação e a sua difusão nas atividades econômicas. Schumpeter foi um economista que sustentava entusiasticamente a integração da economia com a sociologia para o melhor entendimento de suas teorias econômicas, construída com uma linguagem de sistemas econômicos não lineares. Um problema teórico do desenvolvimento econômico, já que só se consegue caracterizar ex post a nova situação de equilíbrio que emerge de tais mudanças destruidoras de equilíbrio preexistentes, ocorridas dentro da própria economia. Sobre essa questão, Szmrecsányi (2006, p.53) esclarece que: [...] essas alterações, segundo o autor, costumam não ocorrer no âmbito das necessidades dos consumidores de mercadorias, mas na esfera das atividades produtivas e comerciais da economia em questão [...] quando estas inovações apenas aparecem gradativamente, tendem a ocorrer mudanças e pode haver crescimento econômico, mas de forma brusca e descontínua há um desenvolvimento. Na sua trajetória intelectual, Schumpeter escreveu e publicou três obras importantes desenvolvidas em duas fases distintas: A primeira, publicada anteriormente à Primeira Guerra Mundial, com o seu primeiro livro que o tornou mundialmente famoso, Teoria do Desenvolvimento Econômico (1911). Em síntese, destaca-se que empesas inovadoras são aquelas que introduzem e difundem novos produtos, novos processos, novos métodos de distribuição, novos mercados e novas formas de organização econômica, conducentes à conquista ou à destruição de uma posição de monopólio, geralmente temporário. Após Schumpeter, mais experiente, na segunda fase, publica o seu livro Business Cycles (1939), de maior densidade teórica que ainda
Processando o Saber nº 10, 2018 39 não tem tradução para outras línguas além do inglês, onde discute que o “o desenvolvimento de uma invenção e a realização de uma inovação constituem, econômica e sociologicamente, dois processos inteiramente diversos entre si, mesmo que tenham sido empreendidos por uma única e mesma pessoa”. No terceiro e último livro, Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), Schumpeter desenvolve uma crítica à obra de Marx. Uma das diferenças apresentadas de ambos reside na separação capitalista, reduzidos por Marx a um único e mesmo agente econômico. Conforme Szmrecsányi (2006), a introdução de uma inovação no sistema econômico é chamada por Schumpeter de “ato empreendedor”, realizada pelo “empresário empreendedor”, visando à obtenção de lucro, considerado o motor de toda a atividade empreendedora. necessidade de se estudar o empresariado, as funções desempenhadas e, consequentemente, a análise das inovações geradas por ele. [...] os empresários estão presentes nos mais diversos setores da economia – não só da indústria, mas também na agricultura e nos serviços, e raramente são os próprios capitalistas, ou proprietários dos meios de produção. Enquanto o inventor produz novas ideias, o empresário é aquele que consegue colocá-lo em prática, o que envolve, acima de tudo, uma função de liderança. A adoção e Inventar é relativamente fácil, mas inovar de fato sempre é difícil. (SZMRECSÁNYI, 2006, p.45) Nos estágios iniciais do capitalismo, as empresas inovadoras eram quase sempre distintas das já existentes. Seus empresários só se mantinham como tais enquanto estivessem inovando, transformandose, mais tarde, em administradores e/ou capitalistas, em detentores dos meios de produção de suas empresas. No início de suas carreiras auferiam os lucros extraordinários provenientes de suas inovações, enquanto que, mais tarde, limitava-se a receber ganhos de capital, eventualmente acrescidos das rendas ou
Processando o Saber nº 10, 2018 40 quase rendas proporcionadas pela natureza monopólica (ou oligopólica) de seus produtos. Devido à crescente burocratização das atividades empresariais, na prática contemporânea, a autoria e o desenrolar das inovações nem Concluindo esta síntese, também é relevante conhecer os conceitos interpretados por Dosi (1988) apud Machado (1998), os quais tecnológica que, hierarquicamente, seriam alternativas incrementais subordinadas a um paradigma tecnológico”. As mudanças tecnológicas conjugam trajetórias normais fatores ambientais diversos ou pressões externas. Para o mesmo autor, “as mudanças de paradigma dependem fundamentalmente dos avanços da ciência e das tecnologias gerais públicas, e representam descontinuidades maiores nos padrões de mudança”, o que pode ser políticas brasileiras de CT&I. 2 A TRAJETÓRIA E DESAFIOS DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE CT&I E O MODELO SISTÊMICO DE INOVAÇÃO As atuais políticas públicas do governo em apoio e suporte às têm sido consideradas importantes para a inserção competitiva do Brasil no cenário internacional, cujo conhecimento representa, cada vez mais, um ativo altamente valorizado. Destacam ainda as pesquisadoras que: [...] as atividades de CT&I ocupam lugar de destaque na agenda política nacional. Exemplo disso é a incorporação do termo “inovação” ao nome do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) ocorrida em agosto de 2011, junto ao anúncio do atual plano do governo federal para incentivar a inovação tecnológica – o Plano Brasil Maior. No agora MCTI a inovação é considerada estratégica para o processo de desenvolvimento econômico e social do país, razão pela qual se busca o fortalecimento das ações na área junto às empresas privadas, estados e municípios.
Processando o Saber nº 10, 2018 41 atualizados especialistas no tema, apesar da importância do desenvolvimento tecnológico haver sido reconhecida pelos analistas e formuladores de políticas, aponta que o mesmo “quase sempre foi pensado mais como um subproduto do processo de desenvolvimento econômico do que como um pré-requisito para ele”. consciência da necessidade de uma política de C&T, articulada com seu processo de desenvolvimento e a promoção da inovação tecnológica passou a ser incluída explicitamente entre os objetivos da política brasileira. ao sistema de inovação (SI) no Brasil, a efetiva integração da empresa – ator central do processo de inovação – nas políticas de ciência e tecnologia e de inovação (CT&I) ainda parece fortemente afetada pela tradição anterior que a considerava um agente externo ao sistema de C&T. história e a cultura, além das diferentes forças políticas próprias de um país ou região”, e depende de um conjunto de diferentes instituições que precisam interagir e inter-relacionar-se determinando a performance inovadora das empresas, sejam elas nacionais ou não, privadas ou públicas, atuando individualmente ou por meio de parcerias e alianças estratégicas com outras empresas ou instituições de pesquisa e ensino. Logo, o termo “sistema” não pode ser entendido como algo intencionalmente previsto ou conscientemente planejado e construído. Por outro aspecto, é importante destacar ainda que a análise das políticas públicas relativas à inovação industrial tem que se reportar e Bonacelli (2013). brasileiras de CT&I para o processo de desenvolvimento do país. (2008), as grandes linhas do processo de inovação bem como a análise panorâmica tanto da evolução da política explícita como implícita de
Processando o Saber nº 10, 2018 42 CT&I, no modelo de desenvolvimento em cada uma das principais fases do desenvolvimento brasileiro se evidenciam: (1) no período do pós-guerra até o ano de 1980, (2) nas duas últimas décadas do século 20 e (3) na virada do século e ainda em curso, períodos caracterizados respectivamente pela busca do desenvolvimento via “crescimento”; via Aproximadamente do ano de 1950 ao de 1980 o Brasil de importações. O Estado protegeu a indústria nascente, apoiou investimentos privados nacionais e estrangeiros, assim como criou e desenvolveu empresas públicas em setores considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional. Influenciado pelo pensamento econômico desenvolvido por economistas e cientistas sociais associados à Cepal, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, havia a convicção de que o desenvolvimento do país aconteceria em consequência de sua industrialização. promoção da infraestrutura e de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Essa chamada política ofertista de C&T, desarticulada da política de desenvolvimento industrial foi predominante nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Fundamentalmente, a política de C&T do período do II Plano Nacional de Desenvolvimento desse período, como ressaltam cursos de pós-graduação”. O balanço sobre esse período do desenvolvimento via “crescimento” merece destaque o sucesso da instalação no país de um processo de crescimento econômico, considerado um “milagre econômico”, especialmente nos anos de 1970. Já a maior parte da oferta de conhecimentos proporcionada pelas políticas de C&T parece não ter sido aproveitada pelo setor produtivo da economia. As fontes do substituídas ou complementadas pelo desenvolvimento tecnológico ENDÓGENO, ao tempo em que a dinâmica da absorção de tecnologias (2008), agravados pela conjuntura internacional.
Processando o Saber nº 10, 2018 43 O período posterior que corresponde às duas últimas processo de progressiva liberalização da economia, especialmente a partir do governo Collor, iniciado em 1990, sendo desmontado o aparato institucional e normativo criado nas décadas anteriores. principais motores do progresso tecnológico e as palavras de ordem da política passaram a ser privatização, desregulamentação, redução ou remoção de subsídios e de barreiras tarifárias e não-tarifárias ao comércio internacional, câmbio livre e livre movimentação de capitais estrangeiros, de acordo com as determinações do Consenso de Washington, FMI, Banco Mundial.2 também em políticas de desenvolvimento regional, estadual e municipal. Acreditava-se que as pressões competitivas associadas à abertura de mercado (entendida como chave e o principal instrumento da política de C&T implícita) removeria a proteção compelindo as empresas a introduzir inovações tecnológicas, além de facilitar e acelerar o processo de transferência de tecnologias estrangeiras para o país por intermédio de certos limites, a tradição de promoção das atividades de P&D que e 1990, indicando que as consequências das políticas adotadas foram muito aquém do que se esperava. A outra linha básica das políticas tradicionais de C&T, no entanto, a formação de recursos humanos de alto nível (mestres e elevadas. O número de titulações de professores e pesquisadores em mestrado e doutorado cresceu surpreendentemente. Em 1987 foram 2 Conhecer os principais aspectos que caracterizam as determinações do Consenso de Washington e demais detalhes deste período e das outras fases da trajetória do - de ciência, tecnologia e inovação. In: Avaliação de políticas de ciência, tecnologia e inovação: diálogo entre experiências internacionais e brasileiras. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), 2008.
Processando o Saber nº 10, 2018 50 Pensar de forma sistêmica é a principal tática para a migração da “cenarista”, viver observando, questionando, provocando. Conforme os estudos de Masson, Santos, Calazans, Nehme e Moresi (2014), intitulado “A Relação Entre a Gestão do Conhecimento do Cliente e a Inovação Tecnológica”7, “a inovação está associada à incerteza sobre os resultados das atividades inovadoras”, pois não é possível prever, por exemplo, se a P&D vai resultar no desenvolvimento bem-sucedido de um produto comercializável ou qual é a quantidade necessária de tempo e de recursos para sua implementação. A inovação intangíveis, assim como outras atividades que podem render retornos potenciais no futuro”. Para assegurar um ambiente essencial para existência da inovação, a Gestão do Conhecimento apresenta-se como uma ferramenta importante. O conhecimento, nas palavras de Drucker (2001), traduz-se na informação que muda algo ou alguém, que provoca movimento e que pode tornar um indivíduo ou uma instituição capaz de uma ação Para Masson, Santos, Calazans, Nehme e Moresi (2014), a Gestão do Conhecimento não só é um conjunto de processos que possibilitam a apropriação, criação e compartilhamento do conhecimento, mas também pode ser um caminho para a criação de novos produtos, processos, tecnologias e aumento da competitividade da organização. Segundo Takeuchi (2008) apud Masson, Santos, Calazans, Nehme e Moresi (2014) uma organização cria e utiliza conhecimento o convertendo do modo tácito ao explícito e vice-versa, em quatro meios de conversão de conhecimento, conhecidos como modelo ou processo SECI, que são socialização, externalização, combinação e internalização, formando uma espiral (Espiral SECI), onde o tempo pode ser percebido como mais uma dimensão do processo de aprendizagem. Para Nonaka e Takeuchi (1997) apud Masson, Santos, Calazans, Nehme e Moresi (2014), é a disseminação dos conhecimentos criados 7 Disponível em: http://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos14/982071.pdf. Acesso em 22 de agosto de 2015.
Processando o Saber nº 10, 2018 51 pela organização e sua incorporação a novas tecnologias e a produtos, que envolve pessoas, organização, ambiente e vários processos, por meio do acionamento da chamada espiral de conhecimento que precisa do comprometimento de todos, que acontece a conversão entre o conhecimento tácito e explícito. A variável “conhecimento” sempre representou extrema importância e possibilidade de concentração de poder em diferentes momentos históricos do mundo do trabalho, porém, jamais se aproximou O conhecimento, como já ressaltado, tem de ser entendido na era contemporânea como um valioso instrumento de agregação de valor. Conforme Drucker (1993) apud Marras (2010), “o poder reservado historicamente ao dono do capital está hoje exclusivamente nas mãos daquele que detém o conhecimento (leia-se trabalhador)”. A sociedade organizacional, ao longo do tempo e em diferentes ritmos, na tentativa de se adaptar as demandas impostas, especialmente pelos novos tempos, como a instabilidade dos mercados e o acirramento da concorrência, vem aperfeiçoando os seus aspectos tecnológicos, informacionais além de estruturais e, cada vez mais, depende de ( , 2001) Para uma organização ser inovadora, o que é essencial à sua sobrevivência, torna-se imprescindível incentivar o comportamento inovador que só é possível quando a ambientação é favorável para essa atitude. Para isso a aceitação de riscos, a negociação, a construção crítica e a capacidade de conviver com ambiguidades devem orientar as ações (empresariais) das lideranças (Souza, Mattos, Sardinha e Alves, 2009). Conhecendo um pouco sobre a trajetória do desenvolvimento econômico do Brasil, é possível concordar que o conhecimento era algo que não poderia e não pode deixar de receber pesado investimento. Na visão de Marras (2010), “se a ideia era ter o país no centro das trabalhadora”. O Estado brasileiro, que sempre interviu pesadamente nas relações do trabalho através de regulações governamentais, é política pública referente à indução das competências em geral.
Processando o Saber nº 10, 2018 52 Porém, conforme lembra Marras (2010), em 1975, aprovouse, no país, a Lei n. 6297/75, com o intuito de incentivar as empresas a investirem em Treinamento e Desenvolvimento (T&D) dos seus trabalhadores. Em contrapartida, era permitido às empresas descontar em “dobro” no seu imposto de renda, os valores aplicados nesse programa. Essa iniciativa, apoiada pela política governamental, Era o reconhecimento do chamado “capital intelectual” no interior das empresas, que, de forma pontual, respondeu com a criação e a organização de centros de treinamentos de excelência, contratando tutores e professores em todas as áreas (técnicas, administrativas e No início da década de 1990, porém, o Governo Collor extinguiu a Lei 6.297 e, consequentemente, interrompeu “o ciclo virtuoso na formação de uma mão de obra competitiva em termos mundiais”, uma demonstração da miopia do Estado e dos proprietários empresariais, que foi fortemente criticada por Marras (2010). Para ele, a falta de visão estratégica e pela inexistência de um planejamento de longo prazo fez com que a “tríade” trabalhadores, empresas e Estado caísse na armadilha que hoje provoca distorções profundas gerando problemas nas linhas de produção. Pochmann (2007) apud Marras (2010) corroboram com essa planejamento estratégico e o diálogo com o futuro [...] isso nos impõe rumo à precarização ou ao desemprego”. Sem a extinta “muleta” da subvenção governamental (Lei n. 6.297/75), a alternativa encontrada pelas empresas, que passou a dominar o mercado, foi a “empregabilidade”, conceito criado pela atual lógica do trabalho, onde trabalhadores foram obrigados a entender que a responsabilidade e os custos de sua formação e especialização passariam da empresa para eles. Para Marras (2010), a questão que se coloca é: Um indivíduo desempregado ou com um emprego precarizado consegue promover a
Processando o Saber nº 10, 2018 53 níveis mais baixos da pirâmide, além daqueles com nível de estudo teórico-prático intermediário. Para agravamento desse cenário, as que dominem conhecimentos atualizados, aplicáveis aos novos métodos de produção e às inovações do atual mercado competitivo e globalizado. (MARRAS, 2010) Portanto, em relação aos caminhos percorridos pelas as empresas brasileiras para o gerenciamento do seu capital intelectual, objeto de discussão deste artigo, também é pertinente que se realcem alguns aspectos relevantes a esse novo sistema. Conforme analisa Heloane (2007), a partir da Segunda Revolução Industrial, o capital passou a adotar um novo padrão impôs a concentração de mercados e que, consequentemente, permitiu a produção em série e altos lucros, tudo sob a mediação dos bancos [...] através do desenvolvimento de novas formas de gestão ou organização 8, em resposta a velocidade das demandas e para atender ao novo ritmo de produção das fábricas, onde se introduziram inovações em instrumentos e processos, como a “linha de montagem em série” desenvolvida pelo fordismo9. No contexto pós-fordista, devido à globalização da economia, o TQC (Total Quality Control) e, consequentemente, a Gestão da Qualidade foram vistas como teorias e as melhores práticas para se desenvolver a ideia do aproveitamento das competências e qualidades 8 Frederick W. Taylor foi o idealizador do sistema taylorista, lançando em 1911 o livro , depois de vários anos de estudo e de aprendizado na prática. A divisão do trabalho e a individualização da tarefa, tornando mais fácil o “aprender”, transformou-se o modelo predominante na gestão das fábricas num momento em que o capitalismo entrava em sua fase monopolista. 9 O processo de “linha de montagem”, modelo centralizador do processo produtivo e disciplinar no interior da fábrica, foi uma inovação desenvolvida por Henry Ford (por isso denominado fordismo) que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Basicamente, o que distinguia o fordismo do taylorismo seria a “valorização” do trabalhador, transformando-o em consumidor.
Processando o Saber nº 10, 2018 54 pessoais para a esfera da produção. Como se observa nas críticas de Heloane (2003): [...] Com base na internalização dos mecanismos de controle, a empresa “concede” maior “autonomia” para algumas tarefas e incorpora novas exigências para os trabalhadores sob o rótulo de aparência atraente como “criatividade”, “novas responsabilidades”, mutável da economia globalizada, o trabalhador precisa constantemente aperfeiçoar-se, sabendo-se alvo de perene avaliação no ambiente organizacional. [...] O capital então parte para a construção de autênticas “formas de controle à distância”, necessárias para que se possa harmonizar a necessidade de autonomia das empresas, voltadas para a economia internacional, com o impressionante controle sobre os órgãos decisórios. Com a crise do modo de regulação fordista da fábrica, os modelos administrativos das fábricas passam a descentralizar a preocupação e controle com a qualidade para todos os níveis executivos e operacionais da organização, surgindo os novos métodos de organização e racionalização da produção, apoiados em técnicas industriais japonesas ou toyotismo10. por empresas, que resultam num processo de inovação e reestruturação produtiva e merece destaque, é a formação de alianças estratégicas e parcerias internacionais entre empresas multinacionais e empresas de países emergentes. Jayr Figueiredo de Oliveira, organizador do livro “Administração 10 O Toyotismo surgiu na indústria de carros Toyota, empresa em que foram feitas experiências pelo engenheiro Taiichi Ohno relativas à essa inovadora forma de produção, apoiadas pelas principais modalidades ou políticas de gestão como o just in time, o kanban e os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), que foi apresentado pelo seu próprio criador no livro O Sistema Toyotra de Produção – além da produção em larga escala, publicado pela Editora Bookman, de Porto Alegre, em 1997.
Processando o Saber nº 10, 2018 55 de atividades de parcerias para se empreender relações de produção, a partir de inovações nos últimos tempos, acontece pela colaboração entre empresas, considerada a primeira e melhor opção. Como lembra e destaca ele: [...] as empresas estão cada vez mais usando acordos de parcerias para realizarem atividades na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), uma atividade que, tradicionalmente, foi muito vigiada pelas empresas. Cálculos recentes estimam que acordos de parceria na área de P&D totalizam 10-15% de todos os acordos investindo em P&D por meio de parcerias, como elas estão fazendo esses investimentos em conjunto com empresas de outros países e, muitas vezes, dentro de localidades estrangeiras [...] na área de P&D é crescente o uso de diversas formas de organização. Portanto, para vencer as pressões e transformações da sociedade contemporânea, muitas empresas estão apostando em práticas vistas como mais relevantes no futuro, à educação, o treinamento Universidades Corporativas (UC), Educação Continuada (EC), inclusive pelo Ensino a Distância (EaD), estimulando a individualização das carreiras (gestão de competências e desempenho) com a valorização do conhecimento que se contrapõe às exigências do trabalho coletivo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A título de conclusão deste artigo, algumas amarrações e ponderações tornam-se relevantes. As decisões que envolvem investimentos em P&D são limitadas ou condicionadas a muitos fatores. A inovação está associada Mais que isso, as inovações tecnológicas afetam a distribuição de poder numa sociedade. Toda inovação se desenvolve a partir de um processo
Processando o Saber nº 10, 2018 56 sistêmico, envolvendo a ação coordenada de diversos atores (empresas, governamentais de políticas públicas), além do que os âmbitos desses sistemas são diversos. Como frisa Dosi (2006), toda firma (organização) está inserida em contextos de mercados complexos e diferentes; portanto, pelos caminhos da invenção, imitação, apropriação ou por natureza cumulativa de desenvolvimento e exploração de suas competências tecnológicas. Como apresentado no texto, as organizações internalizam P&D por diferentes formas, como através das parcerias ou alianças estratégicas, por exemplo. Mas, o sucesso dos modelos de inovação, seja qual for, não se restringe apenas a investimentos pesados ou pela aquisição de equipamentos avançados. É imprescindível que as organizações desenvolvam capacidades para explorar o potencial criativo, as competências e as experiências acumuladas do seu capital humano. que ainda há um desconhecimento do setor produtivo do país sobre as políticas de CT&I; falta ousadia (cultura) nos objetivos de P&D por parte da maioria das indústrias e empresas brasileiras. Na verdade, o setor privado foi acostumado a viver sobre a tutela do Estado, tornando-se muito dependente das subvenções governamentais, que são essenciais e necessárias, sem dúvida, para alavancar um Sistema de Inovação (SI) em qualquer país, mas registram-se poucas iniciativas empresariais no país. O trabalhador brasileiro é, em consequência, um espelho do empresariado. Por outro lado, também concordam muitos pesquisadores no assunto, que boa parte dos nossos empregadores utiliza as universidades e institutos de pesquisa como uma alternativa substituta e não como uma parceira estratégica importante para o desenvolvimento tecnológico e econômico. A grande maioria das empresas brasileiras, públicas e privadas, agir de forma orgânica e sistêmica. Entretanto, como destaca Best (1990)
Processando o Saber nº 10, 2018 57 que procura superar as restrições através das inovações”. Apesar dos avanços percebidos no modelo econômico da ciência, tecnologia e da inovação do Brasil, especialmente nas duas últimos décadas, muitos gargalos persistem no SI brasileiro, como problemas de ordem legal e institucional; de políticas de estabilização de articulação entre os vários atores do setores público e privado (Estado, empresários, universidades e institutos de pesquisa), onde o aos instrumentos, aos materiais e aos conhecimentos técnicos mais avançados, particularmente nos dias de hoje. REFERÊNCIAS DOSI, G. Editora da Unicamp. Campinas, São Paulo, 2006 (capítulo 2). DRUCKER, P. éculo XXI. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2001. HELOANE, Roberto. Gestão e organização no capitalismo globalizado – história da manipulação psicológica no mundo do trabalho. São Paulo: Atlas, 2003. MACHADO, Rosa T.M. Fundamentos sobre o estudo da dinâmica das inovações no agribusiness. Revista de Administração Contemporânea, v.2, n.2, Maio/Ago.1998. MARRAS, Jean Pierre (Organizador). – conceitos e tendências. São Paulo: Saraiva, 2010. MASSON, Eloisa T.S.; SANTOS, Nirian M.S.; CALAZANS, Angélica T.S.; NEHME, Claudio C. & MORESI, Eduardo D. A relação entre a gestão do conhecimento do cliente e a inovação tecnológica (2014). Disponível em: http://www.aedb.br/seget/arquivos/ artigos14/982071. pdf. Acesso em 21 de agosto de 2015.
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