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Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde

Riehl Alves de Souza, Lucas

Abstract

No presente livro, temos uma generosa reflexão sobre como a atual importância da vitalidade da língua crioula caboverdiana está diretamente relacionada ao movimento Claridoso. Esse movimento que surgiu na década de 1930 reivindicava a emancipação cultural, identitária e política do Arquipélago, e contou com a participação de intelectuais como Manuel Lopes, Jorge Barbosa e Baltasar Lopes que fizeram da revista Claridade um espaço de resistência glotopolítica durante o regime ditatorial de Salazar.

Full text

CLARIDADE: um farol na política linguística de Cabo Verde O autor deste livro foi contemplado no edital Egressos do Posling, do Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem da UFF, na categoria dissertação de mestrado defendida. A avaliação se deu segundo o sistema de duplo-cego de revisão. Obra editada e produzida com recursos oriundos da Capes / Proex, auxílio nº 1352/2023, processo nº 88881.844682/2023-01. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde Lucas Riehl Alves de Souza CLARIDADE: um farol na política linguística de Cabo Verde Copyright © Lucas Riehl Alves de Souza Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida, transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos do autor. Lucas Riehl Alves de Souza Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde. São Carlos: Pedro & João Editores, 2024. 211p. 16 x 23 cm. ISBN: 978-65-265-0949-4 [Impresso] 978-65-265-0950-0 [Digital] 1. Glotopolítica. 2. Crioulos. 3. Caboverdianidade. 4. Claridade. I. Título. CDD – 410/370 Capa: Luidi Belga Ignacio Fotografia de capa: Théo Lautrey Ficha Catalográfica: Hélio Márcio Pajeú – CRB - 8-8828 Revisão: Carlos Turati Diagramação: Diany Akiko Lee Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito Conselho Científico da Pedro & João Editores: Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Hélio Márcio Pajeú (UFPE/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil); Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil); Ana Cláudia Bortolozzi (UNESP/Bauru/Brasil); Mariangela Lima de Almeida (UFES/Brasil); José Kuiava (UNIOESTE/Brasil); Marisol Barenco de Mello (UFF/Brasil); Camila Caracelli Scherma (UFFS/Brasil); Luís Fernando Soares Zuin (USP/Brasil). Pedro & João Editores www.pedroejoaoeditores.com.br 13568-878 – São Carlos – SP 2024 Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde Cabo verde é mãi dos caboverdeanos. Outros têm uma pátria que lhes é pai e mãi, e são por isso seus filhos pela inteligência e pelo coração. Manuel Lopes in Claridade, Nº 1, 1936, p. 5. AGRADECIMENTOS Cursar um Mestrado em meio à pandemia da covid-19, longe dos muros da Universidade e diante de um fenômeno social que fez de nossas casas escritórios, não foi tarefa simples. E não digo isso para valorizar o esforço dedicado ao trabalho que será apresentado, mas para ressaltar a importância da resiliência em meio ao processo de escrita. Não é novidade, para qualquer colega que tenha me escutado falar de minha pesquisa, que a discussão político-linguística em torno do crioulo de Cabo Verde me deixa com brilho nos olhos — para além das margens da revista Claridade, inclusive. Tocar uma pesquisa que tanto me anima nesses dois anos terrivelmente negacionistas foi um misto de cansaço e redenção, cuja alegria maior foi, ao fim, ainda conservar intacto o prazer pela discussão proposta. Para o cumprimento desta etapa, certas pessoas foram essenciais no âmbito emocional e acadêmico, e a elas agradeço. À minha família: a meus pais, Roberto e Sandra, pelo apoio e afeto, por todos os momentos em que foram essenciais para que eu pudesse seguir minha trajetória acadêmica; à minha esposa, Mariana Teixeira, por seu companheirismo, por suas leituras e comentários críticos e por ser sempre incentivadora de meu sucesso; a meus antepassados, avôs e avós, os quais, ainda que não estejam mais aqui em matéria, fizeram de mim muito do que sou hoje. À minha orientadora querida, Profa. Telma Pereira, com a qual me encontrei pela primeira vez nos idos de 2016, quando ainda era graduando na Uerj, quem me acolheu e orientou desde aquele momento. Depois, ao me afastar da academia por um tempo, me (re)recebeu de braços abertos no Mestrado em 2021 e colaborou em muito para o material que aqui se apresentará. Seguimos, agora, juntos no Doutorado em mais uma empreitada. À Universidade Federal Fluminense e, é claro, a todo o programa de Pós-Graduação em Linguagem pelo exímio corpo docente formado, os quais estão abordando temas interessantíssimos ao avanço da Linguística no campo do social. À Capes pelo financiamento da publicação desta obra, colaborando para a divulgação científica de nossas pesquisas. Aos professores que fizeram parte, em algum momento, de minha trajetória acadêmica desde a Uerj: ao prof. Alexandre Ribeiro, pelas indicações bibliográficas ainda na época do Nupples; ao prof. Rubens Pereira dos Santos, por ter me conseguido uma cópia digital da edição fac-similada da revista Claridade, objeto desta pesquisa; ao prof. Xoàn Lagares, por, ainda que na maior parte do tempo através de seu livro, ter debatido comigo tantas ideias sobre a glotopolítica que me borbulharam a cabeça. A Théo Lautrey pela gentil cessão de sua belíssima foto do farol Dona Amélia, localizado na Ilha de São Vicente (Cabo Verde), presente na capa desta obra. A todos aqueles que me ajudaram até sem perceber e que, ainda que não caibam nestas páginas, — não se enganem — nunca serão esquecidos. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 15 Tavares 10 e Dino D’Santiago 11 , que retornam a um Cabo Verde ancestral desde Lisboa. Os acontecimentos desse universo musical, a meu ver, rendem muitos frutos do ponto de vista da glotopolítica, mas isso é assunto para pesquisas futuras. Desse ponto em diante, comecei a me interessar intensamente pelo universo das línguas crioulas e encontrei o Crioulo de Cabo Verde (CCV) sob uma intensa discussão a respeito de sua oficialização. Algum tempo depois me deparei com um projeto de pesquisa intitulado “Literaturas de Língua Portuguesa: relações Brasil, Portugal e África”, coordenado pelo prof. Dr. Rubens Pereira dos Santos, na Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) — Campus de Assis. Ao verificar, em sua produção, que ele havia escrito a respeito da revista Claridade, entrei em contato e, de maneira muito solícita, ele conseguiu-me uma cópia fac-similada da edição comemorativa de 50 anos da Revista, e cá estou. Só dei prosseguimento a este projeto concretamente em 2021, ainda que nesse hiato não tenha me afastado completamente dessa temática. Nesse período de adiamento, muito ocorreu num curto espaço de tempo numa questão que parecia, outrora, caminhar muito lentamente: a pauta avançava de maneira perene, sem grandes acontecimentos, sem discursos inflamados e com uma paciência que poderia até parecer quietação, ao que houve muitos avanços. Do momento em que concebi o pré-projeto até o ingresso efetivo no Mestrado em 2021, o mundo assistiu a alguns movimentos interessantes do ponto de vista linguístico no tocante ao Crioulo de Cabo Verde (CCV): a tabanca 12 e o crioulo de Cabo 10 Sara Tavares (1978-2023) é uma cantora portuguesa de ascendência cabo- -verdiana. Destacou-se por cantar músicas internacionais em inglês e, ao longo de sua carreira, foi introduzindo o crioulo em um ritmo pop music. 11 Dino D’Santiago (1982- ) é cantor, compositor e ativista português de ascendência cabo-verdiana. Iniciado no hip-hop como Dino SoulMotion, foi evoluindo seu estilo e suas referências até despontar como Dino D’Santiago, em retomada a Cabo Verde, introduzindo o crioulo no universo do rap, do hip-hop e do soul. 12 A tabanca é um gênero musical cabo-verdiano e também uma expressão cultural de seu povo. Caracterizado por um canto entoado em coro (em alguns casos acompanhado ou não por instrumentos musicais, normalmente percussão), Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 16 Verde são alçados a patrimônio imaterial de Cabo Verde em 2019 (Machado, 2019); a morna 13 é alçada a patrimônio imaterial da humanidade, reconhecida pela UNESCO, em 2019 (Agência Lusa, 2019); é lançado em Cabo Verde o livro (didático) Auto da Língua Cabo-verdiana I – alguns traços estruturais, da profa. Adelaide Monteiro 14 , buscando a criação de um manual para ensino básico na língua materna dos cabo-verdianos, em 2019 (IPC, 2019); é publicada a obra de Manuel Veiga 15 intitulada Formação do Crioulo – Matrizes Originárias, a qual busca, após 30 anos de estudos, reencontrar as raízes africanas na estrutura gramatical do crioulo de Cabo Verde, nominando-as, em 2020 (Matrizes, 2020). A oficialização do CCV ainda é tema em discussão (Agência Lusa, 2021), assim como, em paralelo, há projetos para alçar a tabanca, agora patrimônio nacional, a patrimônio imaterial da humanidade (Branco, 2021). Tais acontecimentos só suscitaram mais e mais questionamentos a respeito do objeto de pesquisa que será aqui apresentado e servem para demonstrar a vitalidade e atualidade do tema, reforçando a necessidade de trazer à discussão acadêmica o papel da Revista de Artes e Letras Claridade no estabelecimento de uma valorização do CCV enquanto participante ativa no âmbito da política linguística, a partir da articulação da identidade nacional recorda em muito as procissões em dias de santo no Brasil, de modo que em Cabo Verde manifesta-se muitas vezes ligado a festividades religiosas. Apesar do reconhecimento citado no texto, é uma manifestação cultural que tem tido dificuldades em resistir na sociedade cabo-verdiana. 13 As mornas são canções de saudade tipicamente cabo-verdianas (Caniato, 2005, p. 16), cuja origem aponta para um processo de intensa colaboração de diferentes culturas (idem, p. 71), lembrando, de algum modo, o fado português. 14 A profa. Adelaide Monteiro é linguista cabo-verdiana e investigadora do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde. Formada em Letras pela Universidade de Lisboa, é mestre em Letras Neolatinas pela UFRJ. 15 O prof. Manuel Veiga (1948- ) é um linguista cabo-verdiano e assíduo estudioso do Crioulo de Cabo Verde. Foi membro de inúmeras cadeiras nos Ministérios da Educação e Cultura em Cabo Verde. Além disso, ocupa a cadeira de Cabo Verde na comissão do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 17 cabo-verdiana pela valorização da língua e cultura ditas crioulas. Por essa e outras razões, o movimento dos Claridosos demonstrou- -se um objeto fértil para investigações e ponto-chave na formação cultural de Cabo Verde, necessitando ser revisitado em um momento acadêmico em que há um interesse muito maior no mapeamento, valorização e estudo das línguas minoritárias. Além disso, explorar as linhas dessa revista significou redesenhar a rede de conexões intelectuais cabo-verdianas e, assim, recuperar o universo discursivo que rondava a sociedade à época da revista no que diz respeito ao imaginário linguístico, reconstituindo assim um cenário importante para as disciplinas de política linguística e história das ideias linguísticas. Deste presente que vivemos e acompanhamos pelos jornais locais, distamos, hoje, 88 anos da publicação do primeiro número (03/1936) da Revista de Artes e Letras Claridade (aqui também chamada apenas Claridade). Apesar dessa distância, seu grupo fundador, os Claridosos, ascendeu como a elite intelectual de seu tempo e guiou a construção da identidade cabo-verdiana como concebemos hoje, sagrando-se como um marco em sua memória. Há, portanto, questionamentos que motivaram essa pesquisa: diante dos movimentos que estão hoje a ocorrer em Cabo Verde, qual a influência do movimento claridoso? Concebendo a revista enquanto um espaço glotopolítico, é possível inscrevê-la dentro de um continuum de Política Linguística que nos levou ao ponto em que estamos atualmente? Se sim, de que modo? Partimos da hipótese de que a Claridade se configurou não somente enquanto um marco identitário cabo-verdiano, como também um marco linguístico, ao alçar uma língua em posição minorizada 16 como o crioulo de Cabo Verde a um espaço como a 16 O termo língua minorizada aqui utilizado está em consonância com os trabalhos de Lagares (2011), ao encarar a condição minoritária como um caráter qualitativo e não quantitativo, construído a partir da relação socio-histórica entre uma língua em situação hegemônica, considerada completa, de função social ampla e de acesso irrestrito aos mecanismos do Estado, e suas línguas satélites, consideradas Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 18 capa de seu primeiro número, publicado em março de 1936. Vale lembrar que a revista tinha como temática as artes e letras, quando o crioulo ainda não era sequer considerado língua. Partindo dessa hipótese, este trabalho investigou o papel da revista Claridade, assim como analisou como se deu esse processo, na elevação do status linguístico do crioulo, a partir do movimento de valorização deste como "língua de cultura”. Tal investigação teve como um de seus pilares a reconstituição da rede de intelectuais envolvida na revista, com enfoque na questão linguística, numa busca de mapear o que foi produzido ou lido pelos Claridosos a respeito das teorias linguísticas em voga e do imaginário linguístico ao redor do crioulo. Para tanto, este trabalho está dividido em cinco momentos. O primeiro, no qual foi realizada uma revisão bibliográfica partindo dos conceitos da área de Política Linguística e encerrando na perspectiva glotopolítica e sua contribuição para análise de nosso objeto. O segundo, em que é delineado um panorama social das condições de produção da revista, seguido de uma apresentação mais detalhada do objeto de pesquisa. Na sequência, em consonância com a perspectiva glotopolítica, foram pautadas discussões a respeito das categorias de estudo da própria Linguística e do papel do intelectual e de sua rede de sociabilidade na produção e difusão de saberes linguísticos. O quarto momento apresenta um panorama geral da produção da revista e o levantamento temático efetuado, traçando um roteiro de leitura a partir do eixo temático “língua”. Por fim, as provocações finais, na contramão de chegar a uma conclusão ou resposta definitiva, tentam dar conta do turbilhão de questões que irromperam ao longo das análises, compartilhando dúvidas, incoerências e desafios com os quais nós, linguistas, lidamos em nossas pesquisas. incompletas, ocupantes de apenas uma ou outra função social e cujos falantes necessitam recorrer ao bilinguismo para exercer sua cidadania completa. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 19 INTRODUÇÃO O ECOAR DA MINHA VOZ: A REVISTA DIANTE DOS CONCEITOS DE POLÍTICA LINGUÍSTICA O movimento dos Claridosos tem como marco palpável a publicação do livro Arquipélago, do escritor Jorge Barbosa, em dezembro de 1935, sob o selo Claridade. A revista, que já estava pronta há muito, teve seu primeiro número publicado em março de 1936 e não recebeu a devida atenção de início. Sua publicação se estendeu de 1936 a 1960, tendo lançado apenas nove números em vista das dificuldades de produção encontradas em Cabo Verde, sejam as de ordem geográfica: a grande seca da década de 40; sejam as de ordem política: a condição de colônia, agravada posteriormente pelo período salazarista (1932-1974). Seus números foram publicados sob o visto da censura e o fato de ter impresso um poema escrito totalmente em crioulo na capa de seu primeiro número lhe concedeu um aspecto revolucionário e inovador. Para Benilde Caniato: Claridade coloca-se, dessa maneira, na vanguarda do enobrecimento da língua nativa, que, desde os alvores da colonização portuguesa, ali se fora formando em seu uso diário. Dentre os muitos méritos da revista pioneira destacam-se o efeito catalisador sobre a mentalidade dos intelectuais e, fundamentalmente, a coragem em abordar os problemas da terra, despertando na juventude letrada um autêntico interesse pelas realidades crioulas (Caniato, 2005, p. 40). A autora ainda segue em seu livro demonstrando o caráter inaugural da geração dos Claridosos, que irá, dentro do imaginário social de sua época, posicionar a identidade cabo-verdiana em relação ao globo. Nesse sentido, ela complementa: “Com a revista Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 20 Claridade, a literatura cabo-verdiana voltou-se para os seus valores culturais. Assim, os poetas e prosadores passaram a expressar a autenticidade das ilhas, uma espécie de pré-nacionalismo, que melhor revelava a realidade das ilhas.” (Caniato, 2005, p. 49). Como será visto ao longo deste trabalho, as sociedades coloniais e pós-coloniais terão seus próprios dramas, os quais muitas vezes parecem não ter solução, tendo em vista que uma ruptura completa com o (ex)colonizador muitas vezes significaria a completa derrocada da nação. Nesse sentido, veremos que a revista se insere nesse debate (ainda num período pré-independência) também de maneira complexa: haverá flutuações de uma identidade perdida no Atlântico, que ora pende para Portugal ora pende para suas raízes africanas. Observar tal movimento também será fundamental para analisar as posições glotopolíticas da revista, posto que, assim como a identidade cabo-verdiana, os próprios crioulos flutuavam num entre-lugar 17 : antes tidos como corruptelas ou dialetos degenerados de suas línguas lexificadoras, a partir do fim do século XIX com as publicações, principalmente, de Adolfo Coelho e Hugo Schuchardt, começam a ser considerados objetos linguísticos que poderiam contribuir para o estudo de suas “línguas-mãe”, flutuando entre o conceito de língua e dialeto, entre sua “raiz românica” e as contribuições africanas. Nesse caminho segue José Carlos Gomes dos Anjos. Ainda que, geograficamente, Cabo Verde faça parte do continente africano, para esse autor o olhar cabo-verdiano e a construção do imaginário social sempre se pautaram em determinado afastamento, numa relação de diferença para com seus próximos: 17 Termo cunhado por Silviano Santiago em 1973, na obra O entre-lugar do discurso latino-americano. É utilizado aqui em consonância com a acepção defendida por Nubia Jacques Hanciau ao efetuar uma revisão bibliográfica do termo, sendo utilizado para caracterizar os “espaços de enunciação — desafiados pelos discursos pós-colonialistas e pela posição singular da crítica ante a dependência cultural —, fez com que fossem criados esses novos espaços, que, misturados às virtualidades globais e às regionalidades enunciativas, atendem ao apelo de instâncias subjetivas dos discursos em circulação” (Hanciau, 2010, p. 127). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 21 “[…] é do ponto de vista de um estrangeiro — leia-se europeu — que a identidade cabo-verdiana se constitui em oposição à África” (Anjos, 2006, p. 76). Um dos pontos que iremos abordar ao longo de nossa pesquisa trata-se de flexibilizar essa afirmativa. Muito dessa visão um tanto estanque se deve à estreita ligação entre o surgimento da revista Claridade e o movimento da [revista] Presença em Portugal (Caniato, 2005, p. 49), assim como ao fato de que seus idealizadores se tornaram intelectuais na até então metrópole. A divisão efetuada por Manuel Brito Semedo, por exemplo, defendeu a ideia de que a geração da Claridade considerou Cabo Verde um “regionalismo europeu” enquanto que a geração posterior (de Amílcar Cabral e seus camaradas) considerou o arquipélago um “regionalismo africano” (Brito-Semedo, 2006, p. 385). É importante observar que tal cisão serve mais como um norte ou um periodismo didático do que configura uma regra em si: como veremos ao longo de nosso trabalho, esse posicionamento da revista vacila, até porque a sociedade, a cultura e a língua crioulas estão a caminhar e formar- -se juntamente. Stuart Hall (2011) afirma que “a identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na ideia de um povo ou folk puro” (p. 56). É importante notar que a tentativa de valorização de uma identidade pura (daquilo que ainda não havia se misturado ao colonizador) não era permitida ao povo cabo-verdiano, seja pelo fato de o arquipélago ter sido encontrado desabitado e ter sido povoado por comerciantes portugueses de bens e pessoas, e africanos de etnias variadas, sendo a origem mais numerosa os de Guiné-Bissau (Anjos, 2006, p. 13); seja pelas sucessivas crises e secas que dizimaram sua população em alguns momentos de sua história 18 . De 18 Para mais informações, conferir o Anexo 1: As crises e os períodos de escassez de colheitas, Quadro 1, em: BRITO-SEMEDO, Manuel. A construção da Identidade Nacional: análise da Imprensa entre 1877 e 1975. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2006, p. 395. O quadro-resumo construído pelo autor demonstra a instabilidade da questão populacional de Cabo Verde a partir das repetidas perdas populacionais. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 22 todo modo, conscientemente ou não, a identidade cabo-verdiana se moldou em uma imagem de povo imigrante, de modo que a ideia da imigração é ainda muito latente na sociedade de Cabo Verde, atrelada à imagem de crescimento de vida e promessa de retorno 19 . Não à toa, o número de imigrantes fora do país basicamente se iguala ao número de nativos residentes em Cabo-Verde (Henriques, 2015). Dentro desse panorama, faz muito sentido o folclore de Cabo Verde ser bastante valorizado popularmente — e recuperado inclusive pela elite intelectual. Pela ausência de uma origem “ancestral” ligada à terra, o sujeito cabo-verdiano que se apresenta enquanto aquele que não se vê nem africano nem europeu encontra nas mornas e finaçons 20 um espelho de sua identidade: é produto do coletivo, do povo, do anonimato, daquilo que é irrecuperável em sentido de origem, que é de um e é de todos, compartilhado e sem assinatura. Assim sendo, Cabo Verde, no momento que antecede a produção da revista, possuía bases identitárias heterogêneas; e não uma identidade unificada/unificadora, a qual os estados modernos, desde sua fundação, buscaram tanto alcançar sob a bandeira do nacionalismo. Essas construções, ao longo da história, costumaram se dar por um processo muito pouco democrático, permitido apenas aos poucos que “podiam falar”, normalmente tratados pelo termo elite, ainda que a razão para tal pudesse vir de diferentes esferas de poder. No caso de Cabo Verde, diante desse mosaico de identidades individuais ou étnicas, surgiram as elites intelectuais locais em um importante papel de seleção: inseridos num entre- -lugar (não são a representação do povo cabo-verdiano — afinal se apropriam dos mecanismos de poder, não rompendo com a 19 Tal sentimento gerou a famosa expressão em crioulo “hora de bai”, também título de um romance de autoria de Manuel Ferreira, que significa algo próximo de “hora de ir”. O evasionismo e a emigração por muito tempo foram a única solução encontrada pelos cabo-verdianos para ascender socialmente e financeiramente. Essa temática está presente na revista Claridade. 20 Os finaçons são cantigas de desafio típicas da ilha de Santiago (Caniato, 2005, p. 16), um gênero musical que se assemelha a uma poesia falada, em alguns casos a partir do improviso. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 23 estrutura portuguesa —, ao passo que também não carregam o rótulo de colonizadores), estes intelectuais, mais especificamente os Claridosos, entoaram um discurso identitário cabo-verdiano para as margens do Atlântico, entre a língua portuguesa e o crioulo, entre Portugal e África. Compreendendo Política Linguística enquanto “determinação das grandes decisões referentes às relações entre as línguas e a sociedade” (Calvet, 2007, p. 11) associada ao seu par o planejamento linguístico, sua implementação, e aplicando ambos os conceitos à realidade da Claridade em Cabo Verde, chegaremos à conclusão de que, dentro desse modelo condensado por Calvet, nosso objeto encontra-se em certo desequilíbrio: a revista é um instrumento capaz de reconhecer o panorama linguístico de Cabo Verde, descrevê-lo, levantar hipóteses e indicar direções (política linguística), mas não é capaz de intervir de maneira efetiva (planejamento linguístico) através do estabelecimento de leis ou da criação de escolas, por exemplo, já que cabe ao Estado fazer a gestão de tais elementos. Desse modo, a revista agiu de modo a colaborar para a atualização do corpus e status do crioulo, posto que à época de produção da revista o crioulo não era reconhecido enquanto língua nacional. A bem da verdade, ainda havia grande resistência em reconhecê-lo sequer enquanto língua, como demonstraremos mais adiante. Através de sua produção, a Claridade alcançou o ponto crítico da modificação do pensamento social acerca do crioulo, colaborando para a virada epistemológica de dialeto crioulo à língua cabo-verdiana. Esse movimento se dará a partir da dinamização de alguns conceitos que estão dispostos a seguir. Dentro do debate acerca dos conceitos língua x dialeto, é de presença comum a distinção entre isonomia estrutural e heteronomia cultural, sendo toda língua capaz de expressar as mesmas coisas, porém estando as línguas em momentos distintos, diferenciando- -se por seu acervo cultural já construído. Acerca dessa discussão, conclui Sílvio Elia: Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 24 A conclusão é que estruturalmente não há nenhuma inferioridade do dialeto em relação à língua e sim equivalência. O que distingue um do outro é a função histórico-social de que estão investidos. Diz-se, por exemplo, que os dialetos são potencialmente capazes de cumprir qualquer função linguística. Exatamente no grau de atualização dessas potencialidades que se encontra o fator maior na distinção entre língua e dialeto. As línguas (em oposição a dialetos) são instrumento de expressão da vontade soberana dos Estados nacionalmente organizados e por isso gozam de maior prestígio social. Ademais (e isto é sobremaneira importante) ao longo dos tempos, foram acumulando um patrimônio cultural […] que não se encontram em variedades dialetais. Cumprem, pois, uma função de caráter cultural que as torna indispensáveis a quantos buscam ir além da condição “natural” de ser humano. E essa função realizada as distancia das variedades dialetais (Elia, 1989, p. 13). Defenderemos aqui que a lógica da língua de cultura moveu o pensamento claridoso de valorização do próprio a partir do empreendimento de grande esforço em tornar-se o ponto de referência, o farol cabo-verdiano, o horizonte almejado das juventudes vindouras no que diz respeito à produção cultural. Colaborando para a formação desse acervo da língua, a revista produziu textos sobre a realidade do país, discutindo questões sociais e trazendo à tona tanto a presença quanto questionamentos do papel do até então chamado dialecto Crioulo de Cabo Verde 21 . Tal investimento na "produção cultural" colaborou para a evolução do status linguístico do crioulo. Aqui é importante observar que foi esse mesmo discurso de língua de cultura e exemplo de civilidade que subjugou tanto os crioulos enquanto línguas nativas dos povos que foram colonizados, de modo que esse empreendimento da revista não tenta subverter essa lógica colonial, apenas se apropria do 21 Este é, inclusive, o título do livro escrito por Baltasar Lopes da Silva, um dos Claridosos, publicado em 1957. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 31 grande parte do conhecimento metalinguístico ou, uma informação ainda mais importante, a maior parte do que era amplamente divulgado na sociedade pelos meios de comunicação ou pelos aparatos de divulgação do Estado (escolas, campanhas, políticas públicas etc.) apelava a uma visão religiosa (a retomada de Babel) ou pseudopragmática (ensino da língua “colonizadora” como forma de acesso). O multilinguismo encarado enquanto “problema” permeará, como veremos no próximo capítulo, todo o imaginário entorno do crioulo e sua cooptação ou não pela língua lexificadora. No caso de Cabo Verde, a situação colonial reforçou a adoção da língua portuguesa enquanto um fator de unificação e acesso à metrópole e seus bens culturais. O que, citando Hamel, não somente no caso de Cabo Verde como no cenário das demais ex-colônias, deixou: “sérios danos e transtornos aos modelos comunicativos heterogêneos em certos países africanos e asiáticos” (Hamel, 1993, p. 16 apud Lagares, 2018, p. 26). Fato importante é: os impactos desse projeto unificador (e “apagador”) foram tão grandes que faltam referências ou registros que nos indiquem as línguas maternas dos primeiros habitantes do arquipélago. Assim, para analisar a trajetória do crioulo de Cabo Verde a partir do seu ponto de vista, é necessário observar outros âmbitos da sociedade que não o Estado: “Cooper (1997) reconhece que há formas de planejamento linguístico sendo feitas em âmbitos muito diversos abaixo do nível do Estado e que diferentes agentes, por exemplo, igrejas ou associações de vizinhos, produzem políticas linguísticas” (Lagares, 2018, p. 25). Isso é, claro, motivado por haver ali em Cabo Verde uma nação governada por outro Estado, cuja língua estava diretamente vinculada não somente à sua própria identidade como à expansão de seus territórios, relação também estabelecida pelos demais Estados nacionais modernos. Esses avanços recentemente efetuados pela própria área de Política Linguística apontam a necessidade de se perceber as “organizações”, em expansão a uma ideia que anteriormente se preocupava mais com “instituições”. A interposição desses novos Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 32 tipos de objeto, porém, não pode ser dada a partir dos mesmos preceitos e muitos escritos têm se debruçado exatamente sobre quais conceitos e problemas precisamos superar para analisar os objetos de pesquisa emergentes e repensar, até mesmo, qual o limite dessa expansão. Ainda que não se pretenda levar as análises ao âmbito do idioleto, é necessário verificar até que ponto um grupo ou movimento, seja ele de qualquer natureza, é capaz de intervir na língua, ou ainda, através dela. É essa capacidade de intervenção (ainda que não tenhamos aqui uma delimitação clara do que é intervir) que delineia o chamado agente glotopolítico. É interessante ponderar que a ideia de intervenções na e através da língua ainda aponta para um fazer político, não tão claramente linguístico, que, de algum modo, corresponde (e, portanto, não ultrapassa) a dicotomia estabelecida entre corpus e status; posto que a consagração de determinada variante, por exemplo, estaria relacionada ao primeiro conceito, enquanto seu uso, por exemplo, enquanto língua de revolução estaria relacionado ao segundo. A ideia de um agente glotopolítico, então, não modifica a dimensão da intervenção nem dota ao linguístico novas facetas. Sua diferenciação se encontra, a princípio, apenas na ampliação da natureza do ato. Hamel (1993), ao abordar a dicotomia corpus e status, irá apontar para a interdependência dessas categorias, demostrando como é difícil que determinada intervenção em um dos âmbitos não provoque reflexos no outro. Em detrimento dessa dicotomia, Hamel irá se posicionar em favor de uma expansão sociolinguística para o estudo das diversidades internas e externas das línguas e suas variantes, buscando trazer a dimensão do social para dentro da ideia do sistema. Nesse sentido, o autor irá concluir que um dos caminhos é “ampliar o conceito de política a todas as intervenções que afetem a linguagem, institucionais ou não, conscientes ou inconscientes” (Hamel, 1993, p. 19). O maior desafio nessa abordagem é que a própria ideia de interno e externo, micro e macrolinguístico retomam a todo momento a dicotomia que se Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 33 busca evoluir. Ainda que não tenham chegado a “derrubar” esse modelo, tais discussões buscam refletir criticamente sobre seu uso e, principalmente, sobre sua falsa estabilidade. Aprofundando-se sobre a mesma questão, Bernard Spolsky (2004) irá tentar contornar a dicotomia a partir da inclusão de um terceiro elemento. Como bem sintetizou Lagares, a proposta de Spolsky dividiu a política linguística em três componentes: o primeiro (muito semelhante ao in vivo) corresponde aos usos e seleções linguísticas realizadas no dia a dia dos falantes; o segundo, relacionado aos valores concebidos pelos falantes às suas e às demais variantes (uma espécie de componente que paira sobre o imaginário dos falantes); e o terceiro, que compreende a gestão, a qual se definiria pelo esforço, ou seja, por um projeto empreendido por um grupo dentro da comunidade de fala que tem ou acredita ter alguma autoridade para efetuar direcionamentos ou mudanças (Lagares, 2018, p. 28). Desse modo, a dimensão do in vivo permanece praticamente inalterada, porém a do in vitro sofre grandes modificações, de modo que o autor não só amplia a noção de política linguística para além do Estado, como desloca a necessidade de se recorrer obrigatoriamente ao Estado a um segundo plano, pois como aponta Lagares (2018): “é preciso observar que sua existência [das leis] não garante que serão respeitadas” (p. 28). Um ponto levantado pelos linguistas atualmente tem sido exatamente debater a questão do impacto político-linguístico a partir da observação de leis reencontradas nos registros, deslocadas do âmbito pragmático e social, sendo, por vezes, superestimadas por estar sob o guarda- -chuva ou tutela do Estado. Ainda a respeito do modelo de Spolsky, este definirá que uma gestão linguística só será considerada como tal quando for possível identificar seus gestores (Lagares, 2018, p. 29). O conceito delineado por Spolsky e o termo utilizado para se referir ao conceito na língua portuguesa parecem se contradizer um tanto, posto que normalmente a palavra gestão encontra-se ligada a alguma instituição, pública ou não. Para nós, a ideia passada pelo conceito encontra melhor desenvolvimento no termo agente, seja pelo caráter Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 34 mais ativo dessa escolha, seja por seu sentido mais literal: “aquele que agencia”, a partir de uma intermediação ou de um ato direto. De todo modo, essa é mais uma observação lexical da tradução do que algum tipo de crítica ao delineamento do conceito. Paralelamente a esses escritos, sem ganhar a devida notoriedade, Guespin e Marcellesi publicam em 1986 um artigo intitulado “Pour la glottopolitique”, no qual abordam o conceito de glotopolítica. Ainda que não tenham sido os primeiros pesquisadores a utilizarem-se da expressão, como bem assinalou Lagares (2018), sua acepção traz novas nuances ao conceito. Surgindo como uma alternativa aos conceitos já um tanto saturados de Política Linguística e Planejamento Linguístico, Guespin e Marcellesi posicionam a glotopolítica diante dessas ideias da seguinte forma: Essencialmente ele oferece, a nosso ver, a vantagem de neutralizar a oposição entre língua [langue] e fala [parole], sem se exprimir a esse respeito. Designa as diversas abordagens que uma sociedade faz da ação sobre a linguagem, tenha ela ou não consciência disso: seja sobre a língua, quando a sociedade legisla sobre os status recíprocos do francês e das línguas minoritárias, por exemplo; seja sobre a fala, quando se reprime determinado uso por parte desta ou daquela pessoa; seja sobre o discurso, quando a escola torna matéria de exame a produção de determinado tipo textual — a glotopolítica é necessária para englobar todos os fatos da linguagem em que a ação da sociedade reveste a forma do político (Guespin e Marcellesi, 1986, p. 5 apud Lagares, 2018, p. 32). A abordagem glotopolítica, portanto, se insere nessa discussão de descentralização da política linguística na mão do Estado e suas representações. Além disso, sem querer revisitar as dicotomias e dotá-las de novos sentidos, aponta de algum modo para o fato de que essa não é a questão central que deve ser tema de discussão dos linguistas. Essa lógica se mostra produtiva ao imaginarmos que a política linguística a favor de um Estado visa uma abordagem preditiva com um plano de ação direcionado a Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 35 um projeto em específico; no caso da glotopolítica, muitas vezes o agente pode não possuir uma intenção linguística e imaginar-se fazendo “apenas” política, mas que possui implicações linguísticas. Desse modo, a glotopolítica, antes de tudo, se coloca enquanto uma abordagem reflexiva que desloca o olhar do pesquisador mais para os agentes do que para seu resultado. Esse deslocamento é suficientemente produtivo para que a maior contribuição da glotopolítica esteja mais na sua abordagem do que propriamente em seus fundamentos teóricos: muitas vezes a abordagem canônica da Política Linguística ocorre em detrimento do aspecto social e ignora a recepção ou aceitação de determinados planejamentos, centrando as análises na língua em si como se esta fosse uma dimensão fora do social. Tal pensamento encontra-se condensado na citação abaixo: O conceito de glotopolítica dá conta de um eixo vertical, ligando o fato normativo ou antinormativo aparentemente mais insignificante aos fatos mais salientes de política linguística. Cobre também um terreno horizontal mais vasto do que aquele coberto pela noção de política linguística, pois a inovação glotopolítica nem sempre é percebida como tal: toda decisão que modifica as relações sociais é, do ponto de vista do linguista, uma decisão glotopolítica (Guespin e Marcellesi, 1986, p. 15 apud Lagares, 2018, p. 35, grifo nosso). Nesse sentido, em consonância com as ideias trabalhadas por Guespin e Marcellesi (1986) e Lagares (2018), este trabalho irá retomar sempre o aspecto social da língua e de seus agentes, encontrando neste último elemento o ponto de partida para a abordagem glotopolítica, calcada em “agir, não mais apenas sobre o status das línguas, mas também sobre as práticas de linguagem e sobre as relações, no indivíduo social, entre pensamento e linguagem” (Guespin e Marcellesi, 1986, p. 9 apud Lagares, 2018, p. 33). A grande questão nessa abordagem é construir critérios capazes de indicar se um determinado grupo ou movimento é elegível à categoria de um agente glotopolítico, discussão que ainda não está bem colocada na bibliografia da área, mas que deve Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 36 provocar interessantes debates num futuro bastante próximo. Em relação a esse assunto, Guespin e Marcellesi (1986) concentram-se mais no tipo de abordagem que os agentes podem efetuar do que propriamente se interessam em defini-los. O que faz muito sentido quando se observa que uma das suas grandes colaborações se encontra na ampliação da natureza do ato a partir do conceito de agentes, não cabendo nesse momento debruçar-se sobre critérios que os limitem. Quando nos deparamos, porém, com nossos objetos de análise, acabamos por refletir sobre o que nos chamou atenção para elegê-los enquanto agentes, o que suscita questões de ordem prática e menos subjetivas em busca desses critérios. Partindo sempre da prática de linguagem, acreditamos que esse seja o conceito-chave para o entendimento do agente glotopolítico, de modo que esse seria mais uma condição do que uma característica em si, sendo um estado latente que, em meio às relações linguageiras, pode ser acessado por qualquer um a quem é permitido falar, no sentido amplo da ideia. Numa dependência (sem nenhum tipo de prejuízo), agente e prática não se separariam, tendo em vista que suas definições se calcam exatamente na existência dessa relação, num processo que irrompe pelo ato. Partindo disso, uma das questões que poderiam ser colocadas, por exemplo, seria se para se definir um agente é preciso que seu ato tenha como resultado aquilo que foi planejado, de modo que só chamaríamos de política aquilo que se concretizou a partir de uma expectativa. Essa lógica estaria diretamente ligada à dicotomia já apresentada (planejamento linguístico versus política linguística), numa abordagem elaborativa/preditiva, e reduziria drasticamente os objetos elegíveis para análise, ao mesmo passo que nada produziria a respeito do motivo de este ou aquele ato não surtir o efeito imaginado ou, ainda, não ter modificado a situação inicial. Mas será que não há atos que visem exatamente a manutenção do cenário linguístico? Respondendo a essa e outras perguntas, Guespin e Marcellesi (1986) dividem a abordagem glotopolítica em dois tipos: as Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 37 liberalistas e as dirigistas. De forma bastante simplificada, o primeiro tipo estaria ligado a atos que visem a manutenção do cenário linguístico, e o segundo ligado a atos que visem modificar esse cenário. Sendo assim, constrói-se uma situação na qual há uma classe dominante e uma classe emergente, podendo ser de qualquer tipo a razão para tal estratificação: econômica, cultural, política etc. Tal conceituação é bastante interessante, pois possui um viés referencial: ainda que forme um par de conceitos, evita de algum modo a dicotomia, a depender do recorte efetuado. Como analisar, por exemplo, a postura defendida por Amílcar Cabral em sua obra- -manifesto Análise de alguns tipos de Resistência (1979), com edição do PAIGC (Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde), que após abordar as diversas lutas efetuadas contra a imposição colonial portuguesa, acaba por dizer que a “única coisa que podemos agradecer ao tuga, ao facto de ele nos ter deixado a sua língua […]" (p. 105)? Num capítulo intitulado “Resistência Cultural”, numa postura completamente anticolonial, como considerar um ato glotopolítico em favor da adoção do português como língua de unificação no próprio partido? A grande questão na classificação bipartida do ato glotopolítico em dirigista ou liberalista é que tais conceitos não se confundem com a questão de uma ideologia política ou algo do tipo (como progressistas e conservadores). É possível que um movimento político com ideologias completamente opostas a que está em vigor atue, durante sua manifestação, a favor da manutenção do imaginário linguístico de determinada língua, ainda que isso soe de maneira controversa. Toda essa discussão aqui para nós é muito importante, pois do ponto de vista prático, e retornamos aqui a uma perspectiva canônica dentro dos estudos de Política Linguística, podemos chegar no fim à conclusão de que a Claridade não foi capaz de provocar nenhuma mudança político-linguística efetiva durante sua publicação. Alguns inclusive diriam que a revista em si não foi capaz de efetuar nenhum tipo de política, mas, sim, que, a posteriori, se apropriaram dessa imagem cabo-verdiana para daí sim realizar Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 38 políticas linguísticas reais em favor do crioulo a partir da figura do Estado, calcadas numa retomada pela memória. O que ocorre e que muito nos interessa é que, ainda que isso não seja uma impossibilidade, é muito raro que determinada língua simplesmente reviva de seu túmulo quando abandonada por seu povo. Desse modo, particularmente nos casos das sociedades coloniais e pós-coloniais (em especial as de colonização tardia), é importante perceber como a simples manutenção da vitalidade de uma língua minorizada é de certo uma atitude glotopolítica. Assim, ainda que cheguemos ao final de nossa análise e não encontremos um panorama linguístico para o crioulo de Cabo Verde que o posicione diferentemente (em status e corpus) em comparação ao momento anterior à revista, não podemos afirmar que não houve intervenção a partir de um ato glotopolítico para manutenção da sua vitalidade. E, claro, é necessário que estejamos com olhos bem abertos para a possibilidade de a revista, ainda que pretendendo o contrário, ter colaborado para a sedimentação do imaginário linguístico da época, não subvertendo a lógica instaurada, evitando assim uma visão apaixonada para a contribuição do periódico. Retomando o binômio liberalista/dirigista, outro ponto interessante é que ele dá conta de uma invisibilização que por muito tempo foi efetuada, inclusive por nós linguistas, ao longo das análises de política linguística: a de que as línguas em situação majoritária estão ali desde sempre e nada fizeram de política para alcançar essa posição, numa espécie de naturalização do social. Sobre essa invisibilização, diz Lagares: Esse questionamento e essa afirmação se fazem necessários para denunciar a invisibilidade de políticas referidas a línguas hegemônicas, que precisamente por causa da sua própria hegemonia (Gramsci, 2008) parecem ter existido desde sempre, sem que intervenções de agentes concretos tivessem tido qualquer incidência no seu status ou na sua forma. Quando reconhecidas, essas intervenções são interpretadas mais como políticas do que como linguísticas, fazendo com que os linguistas, "raramente convocados", não se sintam realmente implicados nelas (Lagares, 2018, p. 32). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 39 O que notamos a partir da discussão efetuada até aqui e pelas considerações de Lagares (2018) a respeito dos conceitos desenhados por Guespin e Marcellesi é que essa definição referencial do agente e do ato glotopolítico, que reforça a questão do ponto de vista, torna-se mais do que uma simples abordagem e se condensa em uma questão de perspectiva que desloca os sentidos das próprias bases teóricas da linguística. É necessário observar, portanto, que tanto o ato glotopolítico quanto a análise desencadeada pertencem ao mesmo processo e que ambos, pesquisador e objeto de pesquisa, estamos produzindo a respeito da língua e nos posicionando enquanto agentes, a ponto de nossos atos poderem se sobrepor e até mesmo se confundir. Tal discussão não poderia encontrar melhor exemplo do que nosso objeto de pesquisa: um dos membros-fundadores da revista Claridade, Baltasar Lopes, era um linguista e publicou a primeira gramática a respeito do crioulo de Cabo Verde escrita por um nativo das ilhas, no ano de 1957. Em nossa análise, será interessante observar as interseções entre seu lado mais político- -ideológico (do escritor que inclusive irá se utilizar de um pseudônimo literário) e seu lado pesquisador (do linguista e gramático). Ou melhor, se há como realmente separar as duas posturas, o que reforça a importância de compreender o linguista/gramático enquanto um agente glotopolítico em seus escritos científicos e, pretensamente, imparciais. Nessa perspectiva, o próximo capítulo abordará a revista Claridade em seu contexto de produção, a partir da sua articulação com o cenário glotopolítico em que se insere, percebendo os intelectuais enquanto agentes, os quais atravessados por questões sócio-históricas coletivas e intelectuais individuais produziram a respeito da identidade e, mais enfocado por nós, da língua cabo- -verdiana: o crioulo de Cabo Verde. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 47 Ainda com relação a essas revistas que serviram de inspiração, temos no caso argentino a revista Claridad (1926-1940) fortemente aliada a um viés de esquerda, elemento que não estará presente na Claridade, mas perfeitamente compreensível pela falta de isonomia política do caso cabo-verdiano e do argentino. Há um ponto curioso e interessante na revista argentina e na francesa quanto à tipografia de seu título: ela é alterada durante os anos, atitude que não é comum a revistas e periódicos, que se mantêm fiéis. Em termos de inspiração direta, estética, nos parece que a revista Claridade se aproxima mais do formato argentino que do francês, ao menos a uma das tipografias utilizadas. Enquanto a Clarté tem uma forte tendência a fontes serifadas e simétricas, tanto a Claridad quanto Claridade parecem ter uma tendência a fontes irregulares, mais caligráficas e preenchidas. Essa tipografia mais distorcida e que brinca com as ideias de proporcionalidade parece se aproximar conceitualmente da estética do vanguardismo/modernismo sulamericano, se nos lembrarmos, por exemplo, do quadro Abaporu (óleo sobre tela, 1928) de Tarsila do Amaral. Há nessa escolha uma aproximação a essa estética e também o uso de uma tipografia que trabalha melhor a ideia de movimento presente na revista que tanto trará elementos musicais em suas páginas: os finaçons, a morna, os cantos às bandeiras etc. Temos, assim, com a escolha da revista como suporte à luta, a utilização de um formato universal para uma luta local, a qual vai encontrar seus próprios motes e motores para manter acesa nas páginas da revista a defesa de uma identidade própria, ainda que não pelo viés da independência política da metrópole. Sobre isso, Elisângela Rocha afirma: Duramente criticada pelas gerações posteriores, que a acusaram de não ser engajada, a primeira geração da revista Claridade seria mais tarde reconhecida por sua importância na formação da cabo- -verdianidade e de um construto identitário que serviu de Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 48 fundamento para a reivindicação da independência da colônia (Rocha, 2010, p. 72). A revista, sob a ótica de suas condições de produção, foi combativa tal qual podia. Na entrevista já citada, Baltasar não deixa de comentar a respeito das críticas que o movimento sofreu e afirma: O curioso é que alguns censuraram Claridade, acusando-a de, durante a sua vigência, no regime colonial, não ter assumido uma atitude mais concretamente combativa, mais polemicamente expressa no sentido da independência política de nosso arquipélago. […] Logo naqueles terríveis anos trinta, com Mussolini e Hitler berrando pelas Europas e ameaçando este mundo e o outro, com seus afluentes prontos a imitá-los, tal o Doutor Salazar em Portugal de que dependíamos politicamente, Salazar e sua censura implacável, que não deixava passar qualquer vislumbre de autonomia de espírito, precursor, na sua defesa, de uma actuação virada para a independência das colônias, censura que, insistentemente, não admitia nem tolerava o emprego em público da palavra fome, não podiam os cenáculos internacionais saber que em Cabo Verde havia fome, porque, se havia fome, isto seria um atestado de incapacidade da administração colonial portuguesa. Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade, que imediatamente se vá resistivamente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal… (Silva, 1986, p. XIV). Nesse sentido, é importante frisar a necessidade de se ter um olhar para as condições de produção da revista, tanto numa perspectiva sócio-histórica, em oposição a uma visão anacrônica, quanto sob a ótica da História das Ideias. Por um lado, a revista é publicada inicialmente num período pós Primeira Guerra, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em meio à ascendência do nazifascismo na Europa e logo após a Crise de 1929, que terá impacto especial em Cabo Verde, já que as atividades de caça às baleias nos baleeiros na Costa Leste americana eram importante fonte de renda da população do arquipélago. Por outro, é Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 49 importante aliar a esses fatos históricos uma perspectiva da História Social, abarcando os meios de circulação dessas ideias e compreendendo os mecanismos de ressonância e recepção dos pensamentos em voga. Para tanto, é preciso colocar os intelectuais na esteira desse processo, refazendo seus itinerários e percebendo as redes de sociabilidade construídas ao longo do caminho. Sirinelli, ao se debruçar sobre a questão da intelectualidade francesa da década de 60, colaborou para uma metodologia de análise dentro da História Intelectual, um braço da História das Ideias, a partir da articulação das dimensões do conceito de intelectual. O autor apontava para duas definições clássicas do termo “intelectual”. A primeira seria abrangente, incluindo todos os sujeitos envolvidos com atividades laborais associadas ao escrito, tanto como criadores, como na qualidade de mediadores. Nessa primeira acepção, os processos de criação, divulgação e recepção dos produtos culturais é pensado de forma ampla, permitindo que se mapeie uma enorme diversidade, de forma horizontal. Criação e mediação aparecem como termos associados na vasta trama da cultura, tal como se movimenta e ganha forma em contextos espaço-temporais definidos (Sirinelli, 1994, p. 9). A segunda definição da categoria “intelectuais”, mais restrita, é demarcada por aquele engajamento na vida da cité. A palavra “cité” possui, na língua francesa, um significado particular, associado a uma história para a qual não temos correspondente na língua portuguesa. Refere-se à participação na coletividade, de modo a interferir e buscar contribuir nas decisões de caráter conjunto, embora nem sempre de interesse comum, ou seja, na condução política, no seu sentido lato (Sirinelli, 1994, p. 9–10) (Alves, 2019, p. 31). Percebemos, ao observar as definições apontadas por Sirinelli, que o grupo responsável pela criação da revista Claridade se encaixa perfeitamente, seja pela trajetória acadêmica e criativa, com publicações dentro e fora das ilhas, colaborando inclusive em outras revistas, seja pelo claro engajamento, dentro das Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 50 possibilidades da época, ao levantar a bandeira de uma literatura local e, mais interessante para nós, fundamentar uma identidade cabo-verdiana com contornos próprios, crioula, cujos elementos como a morna, a tabanca, o batuku e, principalmente, o crioulo de Cabo Verde são imprescindíveis à ideia de cabo-verdianidade. Não à toa, José Carlos Gomes dos Anjos, em sua tese, afirma que, após a derrocada da elite agrária (os morgados) fora a elite intelectual (2006, p. 53) que assumiu a agenda local e encabeçou os interesses do arquipélago perante a lógica colonial e o regime salazarista. Essa “tomada de posse” do leme nos deixa perguntas quanto à viagem: que caminhos tomaram os Claridosos e em que portos desembarcaram? Em que espaços construíram laços e formaram novas relações? Sirinelli trata a temática geral de uma forma quase poética, ao afirmar inicialmente que o terreno dos intelectuais constitui um “pequeno mundo estreito”, o qual, por consequência do engajamento e do seu alcance passa a expandir as ideias e os resultados desse pequeno grupo a um público mais geral, estabelecendo nesse meio-tempo uma rede de conexões que vão aumentando diametralmente esse círculo numa relação que se retroalimenta. O meio intelectual constitui, ao menos para seu núcleo central, um “pequeno mundo estreito”, onde os laços se atam, por exemplo, em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora. A linguagem comum homologou o termo “redes” para definir tais estruturas. Elas são mais difíceis de perceber do que parece. Entre as estruturas mais elementares, duas, de natureza diferente, parecem essenciais. As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão — pelas amizades que as subtendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem — e de exclusão — pelas posições tomadas, os debates suscitados, e as cisões advindas. Ao mesmo tempo que um observatório de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são aliás um lugar precioso para a análise do movimento das ideias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 51 relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nesta dupla dimensão (Sirinelli, 2003, p. 248-249). Tal visão, de algum modo, coaduna a ideia trabalhada na introdução, na qual afirmamos que os intelectuais da revista habitam um entre-lugar discursivo. Não apenas por articularem uma identidade entre o aqui e o lá, como também, em termos glotopolíticos, por suas variantes do crioulo, por exemplo, involuntariamente serem influenciadas por uma variedade alta do português e pelas teorias advindas da crioulística recém-nascida. Os Claridosos, nessa ótica, não ocupam completamente nem a posição do linguista nem do leigo, mas de um nativo letrado. Isso também irá influenciar nas conexões formadas, posto que vários núcleos surgirão a partir de contatos com a intelectualidade própria das ilhas, da metrópole, do Brasil e da costa estadunidense, por exemplo. Numa visão atual, em um mundo pós-globalizado e posterior ao boom da internet, trabalhar com uma visão nuclear para as redes intelectuais seria um desafio e tanto por uma aparente horizontalidade — muitas vezes enganadora — na criação e propagação de ideias e, mais ainda, pela velocidade e engajamento possibilitados. Porém, à época da revista, ainda que possamos identificar, até em razão da situação social de um Cabo Verde recém “quebrado” financeiramente pela falência dos morgadios, o surgimento de alguns núcleos, no plural, perceberemos que há um fio que conduz os itinerários e que há certa rastreabilidade desses pontos — a qual é o principal desafio que a pós-modernidade implica a essa metodologia. Exatamente por conseguirmos recuperar esses itinerários seja pela colaboração dos intelectuais em outras revistas e periódicos, seja pelas leituras e citações que deixam marcas da formação acadêmica, é que podemos reconstruir as redes de sociabilidades desses sujeitos tanto no arquipélago quanto fora das ilhas. Nesse mapeamento, que na verdade é um retrato efetivo da práxis — posto que só analisamos aquilo que realmente se concretizou, já Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 52 que não sabemos sobre aquilo que não chegou a ser publicado —, buscam-se tanto observar os elementos presentes como os ausentes. O que ocorre, no caso do formato revista, por exemplo, é que distintas dimensões, das mais abstratas às mais concretas, materializam-se na tessitura textual e transparecem temas e modos de escrita conformados consciente ou inconscientemente durante toda a jornada do intelectual: Na proposição de Sirinelli, os itinerários integram uma plataforma de reconstituição de trajetórias que se cruzam, incorporando elementos que ponham em relevo os encontros, as leituras, as posições institucionais, constituindo prosopografias. Nessa perspectiva, itinerários individuais devem ser confrontados, de modo que os passos dados pelo intelectual que se tem em vista analisar apareçam em paralelo com os de outros sujeitos que se fizeram presentes nos seus contextos de formação. Por isso, o autor fala em itinerários de níveis diferenciados: além daquele posto em foco, os de intelectuais de menor projeção ou mesmo desconhecidos, cuja existência foi apagada na memória coletiva, mas que tiveram papel relevante na constituição das escolhas, das opções ideológicas, na postura de estudos, no quadro de valores. Nesse grupo, inserem-se professores, mas, também, outros indivíduos que tenham marcado intelectualmente o sujeito em formação (Alves, 2019, p. 35). Não há como negar, portanto, a formação metropolitana e cosmopolita dos idealizadores da Claridade, assim como, em uma visão mais focada na produção metalinguística da revista, ignorar a formação de Baltasar Lopes e a influência de Sá de Miranda, orientador de seu trabalho monográfico (sua gramática do crioulo), não somente na sua visão glotopolítica a respeito da língua como também na escolha dos elementos utilizados para sua representação escrita. Assim como não há como negar a importância dos elementos locais anteriores à produção da revista, tanto pela retomada dos elementos ditos folclóricos pelos intelectuais (como veremos na análise que se seguirá) como pela retomada de literatos Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 53 da chamada geração nativista, dentre os quais se destaca Eugénio Tavares. O continuum tradição-inovação é um movimento que persegue a atividade produtiva desde os primórdios da história humana, seja ela criativa e/ou científica. Em nossa análise também perceberemos os efeitos desse “dilema” nas páginas da revista, que reproduzem, na verdade, o drama do próprio intelectual. Parte desse dilema se deve em muito ao contato entre diferentes gerações: as anteriores, que representam algum tipo de tradição, com as quais estabelecem diferenças ao menos suficientes para conformarem sua própria identidade; e as posteriores, que quando surgem, repetem o modus operandi e “tomam” da geração atual o status de inovadores, deslocando-a para uma posição de “filho do meio”, à qual não está acostumada. Isso fica evidente quando, na entrevista já trazida à edição comemorativa de 50 anos da revista, Baltasar Lopes se refere a críticas que a revista sofreu. Enquanto sujeitos dessas críticas estão aqueles que almejavam uma luta pela independência política, a qual Claridade não travou diretamente. Dentre eles podemos citar os neorrealistas cabo-verdianos, em que se incluíam o movimento político Nova largada, e as revistas Suplemento, Seló, Boletim dos Alunos e parte dos membros da geração Certeza (Anjos, 2006, p. 133). A revista Certeza surge praticamente uma década depois de Claridade e é considerada como um segundo expoente no modernismo cabo-verdiano, ainda que sua duração tenha sido até mais curta (apenas dois números publicados em 1944 e um que foi impresso em 1945 mas não chegou a ser divulgado). Não chegou a publicar textos em crioulo, ainda que haja menção a um texto que foi censurado no número 2 da revista (Caniato, 2005, p. 42), mas publicou uma escritora feminina em seu número 1, Orlanda Amarilis, fato que não ocorrerá na Claridade. É uma geração posterior, mais jovem, a qual não apenas conviveu com Claridade como serviu de influência por estar de algum modo a concorrer na formação do pensamento cabo-verdiano. Para além das influências indiretas, muitos de seus colaboradores passaram a integrar a Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 54 Claridade após o fim da revista Certeza, incluindo Nuno Miranda, que se torna editor de Claridade a partir da edição de número 4 (1947). A entrada de novos colaboradores ativos ao grupo não parece ter causado impactos negativos, pelo contrário, a revista em seus nove números parece ter se reinventado, funcionando como “um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva”, para repetir as palavras de Sirinelli (2003, p. 249). Não há nenhuma menção específica à chegada da geração de Certeza na revista, apenas a presença de colaboradores daquela a partir da edição de número 4, porém temos registro de outras chegadas que são comemoradas, como vemos em nota presente na edição de número 8 da revista: […] agora contamos com elementos novos, saídos do liceu, que se vêm juntar à turma da primeira hora: o ficcionista Virgílio Pires, o Terêncio Anahóry, o Jorge Pedro, o Ovídio Martins, o Onésimo Oliveira, o Gabriel Mariano, de quem, infelizmente, não podemos inserir a colaboração neste número (Claridade, Nº 8, 1958, p. 76). O choque geracional, portanto, é fator caro à análise das dinâmicas intelectuais. Isso é tão significativo que, conforme vimos, haverá um alinhamento de ideias entre gerações diferentes que, inicialmente, habitavam o mesmo cenário, mas cada um em seu espaço, passando a habitar o espaço da mesma revista num segundo momento. Tal movimento reforça a revista enquanto um discurso heterogêneo, de unidade na diversidade, que se mantém Claridade ainda que receba a Certeza. Importante relembrar aqui que, ainda que parte do grupo possuísse críticas quanto à metodologia pouco explícita de combate da Claridade, havia entre os grupos bastante respeito e Certeza repetiu por algumas vezes que os Claridosos eram os poetas verdadeiramente cabo-verdianos, pontuando que apenas Eugénio Tavares teria sido uma figura à altura das gerações anteriores. Nas páginas finais da edição de número 1 da Certeza, Arnaldo França, que posteriormente irá colaborar na Claridade, escreveu: Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 55 Anuncia-se para breve o reaparecimento de CLARIDADE. CERTEZA que crê na possibilidade de uma literatura caboverdeana de temas caboverdeanos, regozija-se com o facto e anseia a chegada de CLARIDADE, que irá levar aos nossos irmãos de Portugal, e do Brasil a “mensagem da alma patrícia”. Os rapazes da CLARIDADE, como muito bem o disse, há meses, numa conferência, um aluno do Liceu, são os únicos a quem cabe o nome de escritores caboverdeanos. Foram êles que abandonaram a tôrre de marfim onde se tinham encerrado todos os nossos escritores, para se misturarem com o povo e dali arrancarem toda a riqueza psicológica, toda a grandeza da vida miserável das nossas gentes, que hão de fazer a glória dos seus romances, dos seus poemas e dos seus ensaios. Para êles pois vai o desejo de que continuem a trilhar sempre o caminho delineado e a nossa mensagem de solidariedade fraternal (Certeza, Nº 1, 1944, p. 6). Desse modo, serão caras à nossa análise as influências presentes tanto na temática abordada como na estética reproduzida, compreendendo a escrita da revista não somente em seu espaço, mas articulando-a com o cenário como um todo. Esse movimento de articulação é essencial, pois No meio intelectual os processos de transmissão cultural são essenciais, um intelectual se define sempre por referência a uma herança, como legatário ou como filho pródigo: quer haja um fenômeno de intermediação ou, ao contrário, ocorra uma ruptura e uma tentação de fazer tábua rasa, o patrimônio dos mais velhos é portanto elemento de referência explícita ou implícita. Além disso, e exatamente por esta razão, o esclarecimento dos efeitos da idade e dos fenômenos de geração no meio intelectual vai além do procedimento apenas descritivo ou taxinômico; reveste-se, em determinados casos, das virtudes explicativas, pois esses efeitos e fenômenos não são inertes: são às vezes engrenagens determinantes do funcionamento desse meio (Sirinelli, 2003, p. 254-255). O que é dito por uma geração, portanto, tem relação direta com dinâmicas de absorção ou negação da tradição fundada pelos intelectuais anteriores, cujas heranças irão irromper no discurso Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 56 seja pela presença ou pela ausência. O cruzamento dos discursos se dá, assim, de maneira involuntária e ressoa no imaginário cabo- -verdiano de modo a constituir um fio condutor, que normalmente não é linear, mas que dá nós, se embola e se desfaz em um novelo confuso. A essa imagem, iremos associar um conceito bastante interessante, emprestado da Análise do Discurso Pecheutiana: as formações discursivas. Dentro da Análise do Discurso, esse conceito é também indicador de uma metodologia, na qual algumas formações discursivas podem ser agrupadas em enunciados e podemos verificar como os sujeitos interagem com essas formações, até mesmo involuntariamente, a partir de seus (inter)discursos. Para nós, porém, nos interessa esse conceito do ponto de vista teórico, como uma dimensão imaginária na qual sujeito, história e memória se articulam na formação dos sentidos e presentificam sentidos outros no discurso que é dito agora. Nas palavras de Cláudia Grangeiro, a formação discursiva […] é uma unidade dividida, a qual, embora seja passível de descrição por suas regras de formação, por suas regularidades, ela não é una, mas heterogênea, não de forma acidental, mas constitutiva. Assim, no interior de uma mesma f.d. coabitam vozes dissonantes que se cruzam, entrecruzam, dialogam, opõem-se, aproximam-se, divergem, existindo, pois, espaço para a divergência, para as diferenças, pois uma f.d é “constitutivamente frequentada por seu outro” (Pêcheux, 1995, p. 57). Esse “outro” da formação discursiva é justamente o interdiscurso, noção profundamente importante no escopo da AD, visto estar relacionada com outras questões cardeais, tais como: a memória discursiva, que aprofunda a relação da linguagem com os processos sócio-históricos; a relação do interdiscurso com o intradiscurso, a posição do sujeito do/no discurso, a questão da não-evidência do sentido e diversas outras […] (Grangeiro, 2005, p. 6). A revista, enquanto um suporte coletivo, para nós, um espaço glotopolítico, é também um espaço onde os discursos estão em Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 63 em outros periódicos portugueses, como a revista Vértice. Além dos contatos com os intelectuais da metrópole, exemplares da Claridade serão enviados a Manuel Bandeira e Arthur Ramos no Brasil, os quais acompanharam, ainda que de longe, os escritos do movimento. Há, inclusive, uma nota de falecimento dedicada a Arthur Ramos e publicada na edição de número 7 da revista: Chega-nos a notícia de ter falecido em Paris o professor Artur Ramos. […] Esta revista tem para com Artur Ramos uma dívida de gratidão, nascida, por um lado, dos resultados das suas investigações que, orientadas, embora, para o Brasil, são viáveis, dada a similitude da formação colonial, para este arquipélago, e, por outro, da simpatia com que acompanhou e estimulou a tentativa que “Claridade” representa num meio pequeno e “desértico” como o nosso […] (Claridade, Nº 7, 1949, p. 52, grifo nosso) Manuel Bandeira também trocará cartas com Jorge Barbosa, demonstrando não apenas ser um leitor da revista como um de seus admiradores, ao definir que os colaboradores da revista “se têm mostrado ‘quinhoados’ de sensibilidade e técnica capazes de concorrer para o aumento do património da poesia portuguesa” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 52). Se a expansão internacional parece ter sido positiva, o mesmo não pode se dizer da aceitação nas ilhas. Sem dúvida a questão da plataforma foi de grande impacto para tal resultado, o qual foi agravado ainda mais pelo fato de a revista não ter conseguido estabelecer uma periodicidade compatível. Apesar disso, não podemos deixar de analisar o cenário leitor: Num meio pequeno como o das ilhas, crê-se que os leitores dos jornais se restringiriam aos grupos sociais cujas profissões implicassem capacidade de leitura, tais como funcionários públicos, professores, membros das profissões liberais, comerciantes, proprietários agrícolas, empregados das casas comerciais e do Banco Nacional Ultramarino (com uma agência aberta em Cabo Verde desde a sua criação, em 1864) e, Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 64 eventualmente, oficiais do Batalhão de Artilharia em permanência na província. Estes constituiriam o único grupo com poder de compra e interesses intelectuais para comprar e ler, de forma assídua, um jornal (Brito-Semedo, 2006, p. 179). Esse cenário, o qual não era estranho, tamanha era ainda a taxa de analfabetismo na própria metrópole 25 , quiçá nas ilhas do império ultramarino, aponta para a ideia de que o público letrado era demasiadamente cosmopolita e interessado em não se sentir desconectado da metrópole (dado que aponta ainda mais para o sucesso da plataforma do jornal diante da revista). Faltam, infelizmente, dados a respeito do público-leitor da época e, inclusive, dados a respeito das tiragens e circulação da revista em Cabo Verde para efetuarmos uma análise mais profunda. De todo modo, parece relativamente pacífico afirmar que a crítica presente na edição de número 7 da revista indique que não tenha havido uma popularização dos escritos nas ilhas, assim como não deve ter havido grandes tiragens. Apesar desses indícios de um baixo público leitor, seja pela não leitura em português, seja pela falta de interesse na publicação, há um comentário de Arnaldo França presente na edição de número 1 da revista Certeza que parece contradizer esse panorama ou ao menos demonstrar que tal assunto possuía opiniões confusas: A voz altissonante, os gestos teatrais, o orador sobe à tribuna e grita: Cabo verde é, intelectualmente, a nossa colónia mais desenvolvida. O número de analfabetos é aqui imensamente inferior em proporção ao da metrópole. Nós não queremos dizer que o orador não tenha razão. Mas, no entanto, já agora, vale a pena preguntar: — Porque será que em Cabo Verde, ao contrário de todas as nossas colónias, de todas as mais pequenas vilas 25 Estudos indicam que na década de 30 em Portugal, a taxa de analfabetismo rondava os 62%. Sobre isso, ver: PINTASSILGO, Joaquim. “Analfabetismo e educação popular”. Público, Lisboa, 31 de agosto de 2010. Disponível em: https://www.publico.pt/2010/08/31/jornal/analfabetismo-e-educacao-popular19905476. Acesso em: 10 de outubro de 2022. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 65 do continente, não existe um órgão de imprensa periódico — já que não se póde dar este nome ao Notícias de Cabo Verde? Será porque o caboverdeano não tem gosto pela leitura, ou porque lhe mereçam pouco interesse o nome das nossas celebridades que se encontram em Angola ou em qualquer outra parte do globo? (Certeza, Nº 1, 1944, p. 6) Diante dessas informações, podemos aqui conjecturar e ponderar algumas possibilidades: a juventude letrada de Claridade e Certeza irromperá das ilhas de colonização mais recente, onde as famílias mais abastadas surgiram como mediadores culturais entre o arquipélago e a metrópole. Nessas ilhas, até pela presença dos liceus, há de se imaginar que as taxas de analfabetismo em português fossem mais baixas, e talvez esse “microcosmo”, essa vivência dos intelectuais da época os levasse a considerar realmente a possibilidade de em Cabo Verde haver poucas pessoas que não liam e compreendiam o português da metrópole. Outra possibilidade que precisa ser avultada é a identidade do sujeito que proferiu as palavras reproduzidas por Arnaldo França, pela colocação de “nossa colónia”, é possível que tenha sido proferida pelo próprio Salazar ou, ao menos, por alguém vinculado à máquina política de Portugal, de modo que fazia parte do modus operandi nazifascista uma intensa propaganda reforçando o sucesso do “império” construído. Desse modo, muito provavelmente essa afirmativa carece de qualquer fundamentação científica. Em nossa pesquisa, nos deparamos com o mesmo discurso entoado por Osório de Oliveira, em texto intitulado “Palavras sobre Cabo Verde para serem lidas no Brasil”, publicado na edição de número 2 da Claridade (1936), no qual afirma que: “A percentagem de analfabetos, muito inferior à das populações metropolitanas, chega a ser insignificante, quási inexistente mesmo” (p. 4). Mais interessante do que chegar a uma conclusão per se a partir do trecho de Arnaldo França presente na edição de número 1 da revista Certeza, é perceber que essas temáticas, tanto a da leitura quanto, novamente, o desinteresse irão permear as preocupações da Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 66 época. Assim, veremos na edição de número 3 de Certeza (cuja distribuição foi proibida e seus exemplares queimados pelo Estado Português em 1945): Lê-se mais Lê-se mais. Verifica-se na criação de Editoriais; nos livros novos, a sair todas as semanas, nos autores novos, nas traduções, nas colecções de tôda a ordem — e na compra dos mesmos. Curioso, porém: o analfabetismo, despeito de todas as tentativas do Estado, não diminui. Por isso: se não vem da luta contra o analfabetismo, donde vem êsse interesse pela leitura? Certamente vem das massas. Quem lhe despertou essa curiosidade? Será sempre assim? Não há duas opiniões. Esta curiosidade foi despertada por esta angústia, esta incerteza, por esta necessidade imperiosa de vermos os problemas centrais dos nossos dias agitados e solucionados. […] As massas despertam Lê-se mais e, sobretudo, livros que há dez anos se liam pouco. Sociais, políticos, históricos (refiro-me às massas, claro). Especialmente no romance se nota êsse movimento. Embora se leia muita droga, obras de Manuel da Fonseca, Alves Redol, Pereira Gomes, Carlos de Oliveira e outros escritores neo-realistas, teem os seus leitores sinceros e conscientes. Precisamente porque os escritores neo-realistas são os que formam a crítica construtiva da sociedade. Tocam diretamente no âmago dos anseios das massas. E as massas despertam (Certeza, N° 3, 1945, p. 8). Aqui temos dois pontos importantíssimos: o primeiro, o analfabetismo, cuja posição da revista parece assumir um caráter polidamente crítico ao dizer que ele não diminuiu a despeito das tentativas do Estado; e o segundo que, independentemente do cenário de leitores, indica ter havido entre a edição de número 1 (em 1944) e a número 3 (que sairia em 1945) um aumento da procura e leitura de obras cabo-verdianas que retratassem a realidade das ilhas. Acredito que o comentário da revista a respeito de uma “incapacidade” do Estado em tratar de um problema social Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 67 seja um dos motivos desse número ter tido sua divulgação impedida pela censura. Para além dessa crítica, essa citação delineia que durante a década de 40 há uma valorização da produção cabo-verdiana seguida de seu consumo — um processo que não se via em momentos anteriores. De todo modo, o seleto grupo de leitores então existente não parece ter sido suficiente para o financiamento de Claridade — e também de Certeza, que não resistiu financeira e politicamente após 1945. É importante lembrar que a elite intelectual em Cabo Verde irrompe e assume as dianteiras da identidade nacional após a derrocada da elite agrária dos chamados morgadios (Anjos, 2006, p. 53). Em dado momento da história das literaturas eminentemente nacionais, é comum o encontro da burguesia em sua ascensão com o motor cultural e artístico, na figura do apadrinhamento, mecenato ou mesmo encomenda. Numa sociedade em crise, não havia capital disponível ou, ao menos, interesse das classes médias num financiamento completo do projeto. Nesse cenário, o alto custo de produção e impressão nas ilhas parece ter sido uma estratégia reguladora das produções do arquipélago. O regime salazarista não impunha nenhum tipo de proibição da fundação de jornais “fora do regime” nas colônias, mas estabelecia alto preço de modo que provocava uma espécie de “proibição financeira”. Assim, circulavam apenas os boletins e alguns jornais que vinham da metrópole, quase sempre sem concorrência local. Junto a isso, havia agências reguladoras às quais eram submetidos os periódicos antes de sua distribuição para passar pelo visto da censura. Todos os números de Claridade, à exceção do primeiro, na versão apresentada na edição de comemoração de 50 anos da Claridade apresentam o carimbo da censura. Sobre isso, Baltasar Lopes disse, em entrevista à mesma edição: Salazar e sua censura implacável, que não deixava passar qualquer vislumbre de autonomia de espírito, precursor, na sua óptica, de uma actuação virada para a independência das colónias; censura Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 68 que, inclusivamente, não admitia nem tolerava o emprego em público da palavra fome, não fossem os cenáculos internacionais saber que em Cabo Verde havia fome, porque, ao haver fome, isto seria um atestado de incapacidade da administração colonial portuguesa… Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade que imediatamente se veriam in mente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal... (Claridade, 1986, p. XIV). Na sequência da entrevista, ele segue fazendo considerações interessantes e afirma que em Cabo Verde havia um “fascismo de importação e imitação” (1986, p. XIII), citando o caso em que um conto seu, que contava a história de uma ex-prostituta, fora censurado e impedido de ser publicado em um dos números da Claridade, mas que, diante da recusa, ele enviou para a revista Vértice, em Portugal, que o publicou sem maiores problemas. Assim, afirmou que: “Em Cabo Verde era-se mais papista que o Papa naqueles anos de salazarismo Facistóide” (1986, p. XV). É certo que o regime de Salazar e seus cerceamentos impactaram na produção da Claridade, mas é importante observar, e é um pouco disso que trata o comentário de Baltasar Lopes, o caráter pessoal do qual se reveste a censura na figura do censor, normalmente presente na colônia e representante à distância dos interesses do Regime. Os decretos eram mais fielmente seguidos pelos censores do que eram realmente presentes no dia a dia da metrópole. Nesse cenário, para nós, serão majoritariamente importantes duas informações: (1) ainda que a censura tenha proibido o texto de Baltasar de ser publicado nas ilhas e não tenha feito o mesmo na metrópole, e a palavra fome também tenha sido relatada como um ponto de censura na produção de Claridade; ainda assim, textos em Crioulo figuraram em quase todos os números e, nas edições número 1 e 2, na própria capa. Desse modo, precisamos avaliar com cuidado a presença do crioulo, tendo em vista que seu destaque na revista e Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 69 sua valorização não parecem se chocar com o projeto identitário do Regime português. Tal ideia ganha corpo quando vemos que os textos presentes na Revista, assim como a tese defendida por Baltasar Lopes (em monografia defendida pela Universidade de Lisboa e publicada como livro em 1957) se alia à ideia de Adolfo Coelho, acadêmico português, e considera o crioulo enquanto uma língua românica, fruto da simplificação do português por métodos de deriva perfeitamente reconhecíveis dentro da língua portuguesa. Assim, não nos parece estranho, diante dessa perspectiva linguística, que o crioulo não tenha sido removido da revista, pois diferentemente do uso da palavra “fome”, não atentava contra à imagem do Regime, na verdade, de algum modo, atestava a força da língua portuguesa, que passava de “filha do latim” para “mãe do crioulo”. (2) O crioulo de Cabo Verde não chegou a ser proibido de maneira ostensiva no dia a dia nas ilhas, ainda que fosse restrito ao uso fora das estruturas do Estado (seu uso não era permitido em repartições públicas, documentos oficiais etc.). Os batukus, porém, sofreram uma série de perseguições ao longo do Regime do Estado Novo português, chegando a ser proibidos formalmente 26 . Mesmo com a proibição das manifestações in loco e completas (com toda performance da dança e dos ritmos), sua presença é marcante nas páginas da revista, surgindo na capa da edição de número 1 da revista e no corpo das 6, 7, 8 e 9. Assim, seguiremos à análise do corpus da Revista, a partir da reconstrução e mapeamento das redes de sociabilidade estabelecidas pelos Claridosos, reconstituindo parte de seu itinerário e observando as dinâmicas presentes entre seus escritos e não apenas o contexto sócio-histórico da época como seu diálogo com o passado. 26 Este assunto será melhor desenvolvido na seção que analisa os textos em crioulo na revista. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 71 CAPÍTULO 2 A ESCRITA EM CRIOULO: CRIAÇÃO OU TRADUÇÃO? De um total de 163 colaborações presentes na revista ao longo dos nove números (1936-1960), temos que vinte delas foram escritas integralmente em crioulo e seis com pequenas inserções em crioulo ainda que escritas em português. Dos nove números publicados, dois traziam textos em crioulo na capa (Claridade, Nº 1 e Nº 2), seis em português e a edição de número 9 trouxe uma gravura como capa. Além disso, desses mesmos nove, apenas as edições números 3 (1937), 4 (1947) e 5 (1947) não traziam nenhum texto em crioulo. Quanto a esse hiato do crioulo nas páginas da revista, não encontramos nada que justificasse seu sumiço. Como dito anteriormente, o Estado Novo salazarista efetuou uma série de impedimentos no arquipélago, tendo proibido os batukus de serem manifestados nas ruas, o que, indiretamente, atacava o uso do crioulo em determinados espaços, mas a língua em si, diretamente, não chegou a ser objeto de proibição no campo do cotidiano nem das artes. É tanto assim que na edição de número 6 da revista, publicada em 1948, o crioulo reaparece na transcrição de quatro batukus. Quanto aos gêneros textuais vinculados ao uso do crioulo, seu espaço na revista é bem demarcado: dos vinte textos integrais, todos estão vinculados ou às mornas ou aos batukus; e dos seis que contêm inserções em crioulo, dois deles são reproduções musicais e um deles é uma reprodução da fala de um espírito ruim. Diante de um corpus relativamente diminuto de textos escritos em crioulo na Claridade, optamos por efetuar uma análise que dê conta de todos eles. Assim, iremos traçar uma trajetória do crioulo a partir da articulação dos textos com todo o cenário glotopolítico e Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 72 verificando, ao final, o impacto que tais atos possam ter efetuado no imaginário linguístico ao redor do crioulo de Cabo Verde. Quantas ilhas cabem em Cabo Verde? Na edição de número 1 da revista, logo à capa, é publicado o texto: “Lantuna & 2 motivos de finaçom (batuques da ilha de Sant’Iago)”. Figura 3 – Capa da edição de número 1 da revista Claridade – publicada em março de 1936 Fonte: Claridade, 1986. Edição comemorativa de 50 anos. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 79 língua crioula dentro do romance), não estando presente somente nas falas dos personagens. O que ocorre, porém, é que os excertos presentes na revista são poucos e abarcam apenas essa citação em crioulo, a qual aqui reproduzimos: — Espírito ruim está cangando Bibia Ludovina… […] Bibia Ludovina estava alterada e não deixava ninguém sossegar. Nhô João que fosse rezar e exortar Bibia. E moços de força também, para segurarem a rapariga. Fui com eles dar fé. Ainda longe da casa já se ouviam os gritos de Bibia furando a noite. Ela gritava, gritava: — Bocês cá matóme, boces cá matóme! Ainda tenho nos ouvidos esse grito lancinante de Bibia: não me matem, não me matem! (Claridade, Nº 1, 1936, p. 2-3, grifo nosso) Nota-se, portanto, um uso muito característico, com nuances fetichistas. Ao mesmo passo, poderia se defender uma suposta fidelidade à cena: podemos imaginar que um espírito de um cabo- -verdiano morto que “cangasse” um vivo falasse em crioulo, mas por que o diálogo entre os vivos não se dava da mesma forma? O crioulo é língua materna amplamente utilizada no dia a dia do arquipélago, porém não figura na boca de nenhum outro personagem. Essa “fidelidade” seletiva faz com que a presença do crioulo ocupe um lugar muito característico: um lugar estereotipado, vinculado a expressões e usos em contexto esotérico aos olhos europeus. É claro que aqui há uma questão relativa ao público-leitor, cujo sujeito cosmopolita não compreenderia um romance em crioulo, mas isso não reduz as observações efetuadas. Há também um ponto interessante nesse mesmo texto. Para que se cuide de Bibia Ludovina, um dos personagens, Nhô João, diz ser necessário chamar André Crioulo e recorda de um outro caso que ele soube resolver: “Não havia gente como nhô André Crioulo para botar feitiços e fazer curas, apenas com hervas e orações numa língua que só ele entendia. Foi nhô André que curou a ferida ruim de José Capado” (Claridade, Nº 1, 1936, p. 2). André Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 80 Crioulo aqui parece ser um sujeito da África que Manuel Lopes dizia não haver em Cabo Verde: É vulgar verem-se desembarcar nestas ilhas africanas, principalmente em S. Vicente, estrangeiros sedentos de exotismos, com aquela doentia curiosidade de quem pisa em terras de África e, por conseguinte, terras de mistério, e que ao cabo de meia hora de cirandagem, tornam a embarcar desiludidos e azedos, porque nada de novo colheram, nenhum mistério desvendaram: não viram manipansos, não assistiram sequer a uma sessão de magia negra (Claridade, Nº 1, 1936, p. 5, grifo nosso). André Crioulo não falava em crioulo, posto que falava “numa língua que só ele entendia”, sendo um personagem ou “de fora” ou representante de uma herança africana que resistiu nas ilhas. De todo modo, essa será uma das poucas se não a única marca nas páginas da revista que faça referência a ter havido, em Cabo Verde, línguas africanas convivendo com o português e o crioulo, ainda que nosso caso seja “ficcional” e com essa língua aparecendo como uma língua de religião. O que esse trecho do romance diante da citação de Manuel Lopes também transparece é a divisão do retrato sócio-histórico de Cabo Verde: para os Claridosos há uma divisão muito clara no arquipélago entre a Ilha de S. Tiago e as demais, seja culturalmente, pelos vestígios de África, seja linguisticamente, pela variedade linguística de Sotavento, considerada um crioulo fundo — por ser uma variante basiletal, ou seja, mais distante do português de Portugal. Isso é confirmado pelo texto “Apontamentos” de João Lopes: Podemos considerar em Cabo Verde dois grupos de cultura, se não totalmente diferenciados, pelo menos com características que em parte lhes definem fisionomia própria, E essa dualidade resulta, a meu ver, das bases econômico-agrícolas em que assentou o teor de vida do arquipélago. […] Na história económico-social de Cabo Verde dois regimes há a isolar: o latifundiário aplicado em S. Tiago, Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 81 e o minifundiário aplicado nas outras ilhas, nomeadamente em Barlavento. Este facto foi prenhe de consequências (Claridade, Nº 1, 1936, p. 9). Dando continuidade, ele compara os contatos sociais oriundos desse sistema latifundiário com o caso brasileiro, citando a dinâmica casa-grande e senzala. Depois, segue: Maior fidelidade, no badio, às origens africanas, aos seus ritmos originários. Sobrevivência mais viva, em S. Tiago, dos elementos sociais e folclóricos característicos do clima da servidão. Por outro lado, S. Tiago foi durante muito tempo depósito de escravos que, caçados desde o equador até cerca do paralelo 30, eram arrecadados no ilhéu de Santa Maria para mais tarde serem transportados para o Brasil. […] S. Tiago é em parte um compartimento estanque em Cabo Verde. Seus batuques evocando na insistência monocórdica do cimbó o que ficou lá longe, em África. As tabancas, anunciadas por meio de cornetas de chifre de boi, com as suas missas grandes, em que num curioso sincretismo religioso as bandeiras são solenemente benzidas na igreja matriz. A fé nos bruxedos e histórias de malassombrados. A magia negra. Muita gente vai veladamente aos sítios recônditos no interior ter com o homem da magia negra para este botar o inimigo no tamborone mediante mechas de cabelo, fotografias e roupas de baixo (Claridade, Nº 1, 1936, p. 9). Badio é um gentílico utilizado para definir o sujeito nascido em S. Tiago. Nota-se uma caracterização mais fortemente relacionada com o lugar comum do africano quando trazido à força para terras do além-mar, manifestado num exotismo para com os seus ritos e costumes. Além disso, o termo “badio” é um betacismo bastante presente no crioulo de Cabo Verde (“velho” para “bedjo”, por exemplo), de onde percebemos que o gentílico é originado de “vadio”. Os “mestiços” oriundos de S. Tiago ainda foram posteriormente (e há quem use isso como uma maneira pejorativa de se referir a alguém em Cabo Verde) chamados de “badio de pé Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 82 ratchado” 29 . Tais informações apontam não para uma segregação total entre S. Tiago e as demais ilhas, mas como esse imaginário cristalizou-se em Cabo Verde como uma profunda diferença identitária entre essas ilhas. Importante lembrar que desde os escritos de Adolfo Coelho (1881), os primeiros a registrarem de maneira mais científica a presença da língua crioula nas ilhas, há uma divisão linguística e geográfica de duas grandes variantes crioulas em Cabo Verde. Em sua obra Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América publicada em 1881, já se preocupara em descrever os crioulos de Santo Antão e de Sant'Iago. Sobre o primeiro: Este dialecto é fallado principalmente pela população de côr e pelas creanças que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem- -se duas fórmas: o creolo rachado, creolo fundo, creolo vejo, fallado principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza é menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de algumas palavras ou sons e pelo accento geral (Coelho, 1881, p. 4). Nesse trecho, Coelho diferencia basicamente o crioulo fundo do crioulo levinho, que seriam variantes basiletais e acroletais, respectivamente, quando diante do português de Portugal. As variedades mais distantes encontravam-se em algumas áreas de Sotavento, principalmente quando em direção ao interior. Os Estudos de Baltasar Lopes (1957) parecem atestar basicamente o mesmo cenário: Parece-me que neste grupo [Sotavento] se podem considerar grosso modo duas áreas menores: a que abrange os crioulos de Santiago, Maio e Fogo e a representada pelo crioulo da ilha Brava. No entanto, não tendo estudado in loco todos esses territórios linguísticos, não me 29 Cf. FONTES, Elsa. “Chão-de-massapé”. Buala, 10 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.buala.org/pt/cidade/chao-de-massape. Acesso em: 20 de novembro de 2022. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 83 é possível descer a pormenores seguros de diferenciação (Silva, 1984 [1957], p. 37). Na sequência ele subdivide essas grandes zonas. No caso de Barlavento, ele concede uma particularidade a Santo Antão em relação às demais ilhas do norte (que compartilham quase todas as suas características) e também diferencia a variante da Ilha de São Nicolau, aqui muito provavelmente pela análise pormenorizada de Baltasar, posto que sua gramática irá se basear in loco nas recolhas efetuadas nessa ilha, utilizando-se de referências outras para efetuar comparativos com a variedade descrita. Quanto a Sotavento, ele subdivide em duas áreas: a dos crioulos de Santiago, Maio e Fogo e a do crioulo da Ilha de Brava, mas afirma que por não ter “estudado in loco todos esses territórios linguísticos, não me é possível descer a pormenores seguros de diferenciação” (1984 [1957], p. 37). Notar-se-á, portanto, que a gramática escrita por Baltasar e, por extensão, os estudos difundidos na própria Claridade se aproximarão muito mais da variedade de Barlavento, mais ainda da Ilha de São Nicolau. Os trechos da introdução de Baltasar em sua gramática parecem apontar para um conhecimento bastante limitado das características de Sotavento, que serão baseadas em materiais recolhidos, selecionados e publicados por outros autores. Ainda assim, ele indica ao menos onze diferenciações existentes entre as duas grandes variantes, sobretudo fonéticas. A última chama atenção exatamente por não se referir a uma diferença desse tipo, ainda que careça de comprovação científica: Maior percentagem, em Sotavento, de vocábulos de origem africana, afirmação que faço com todas as reservas de quem não conhece as línguas africanas, e apenas foi levado a esta conclusão, como hipótese de trabalho, pela impossibilidade de rastrear em certo número de vocábulos e étimo reinol (Silva, 1984 [1957], p. 36). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 84 Parece-nos relativamente pacífica a afirmação de Baltasar, postos os demais escritos de outros autores que apontam para uma maior sobrevivência cultural de África em S. Tiago, normalmente relacionando essa resistência ao fato de ter havido nessa ilha o latifúndio e, por consequência do modelo, as senzalas e entrepostos comerciais para a viagem às Américas dos navios do tráfico de escravizados. Assim, quando no trecho do romance Chiquinho há uma clara diferenciação cultural entre o sujeito da Ilha de São Nicolau, onde se passa a história, e o André Crioulo, sujeito africano, há de se compreender o caráter de estrangeiro que ele recebe na narrativa. Se o caráter insular em relação à África e Portugal fazem de Cabo Verde uma “românia nos trópicos”, seu caráter arquipelágico faz de seus “sujeitos não cosmopolitas” estrangeiros em sua própria terra. Não há de se estranhar essa postura um tanto quanto confusa em reconhecer o sujeito de S. Tiago enquanto cabo-verdiano: esse reconhecimento é claramente um esforço aos olhos dos Claridosos, ainda que tenham proposto um movimento de reconhecimento de todas as cabo-verdianidades presentes no arquipélago: Fisionomias antagónicas nos dois núcleos caboverdeanos? Diferença sem dúvida, mas que a meu ver não determinam irredutibilidade e impossibilidade de interpenetração cultural. A evolução tem de fazer-se, como diz Gilberto Freire para o Brasil, no sentido de todas as forças de cultura terem inteira oportunidade de expressão criadora (Claridade, Nº 1, 1936, p. 9). A execução, porém, parece sempre esbarrar nessa dificuldade de reconhecer esse outro, acredito que pela própria condição arquipelágica que estabelece fronteiras físicas desde sempre e reforça e distancia as fronteiras culturais. Já vimos em citação anterior da gramática de Baltasar um curioso posicionamento linguístico transparecido, após afirmar que em Sotavento há maior permanência de vocábulos com origem em África e que ele mesmo “não conhece as línguas africanas”, ele exclui a possibilidade do Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 85 entendimento de que o crioulo, por si, geograficamente esteja localizado em África. Privilegia, portanto, uma relação genealógica das línguas, perspectiva na qual, seguindo a concepção de Adolfo Coelho, enquadra o crioulo de Cabo Verde enquanto elemento derivado da família das línguas românicas 30 . Essa edição de número 1 da revista, curtíssima por sinal (apenas dez páginas — um número simbólico para uma nação formada por dez ilhas), demonstra já, desde o início do empreendimento realizado pelos Claridosos em defesa de uma produção e de uma intelectualidade com os pés “fincados na terra”, as dificuldades em se perceber as nuances para fora das ilhas natais de seus idealizadores. Lembremos que estamos tratando de sujeitos cosmopolitas, inseridos em cenário europeu, com formação acadêmica e ensino tradicional, para os quais algumas manifestações cabo-verdianas lhes eram tão antropologicamente curiosas quanto visitar o Benim. O discurso da Claridade, nesse sentido, oscila entre a vontade de dar voz à heterogeneidade e a dificuldade em não lançar sobre essas manifestações outras um olhar de estranhamento e distanciamento. O aparecimento da morna e o reconhecimento da originalidade musical das ilhas A edição de número 2 da revista aponta para um caminho muito próximo. Se na primeira edição havia na capa um batuku em crioulo recolhido popularmente, agora no segundo número há uma morna de Xavier da Cruz intitulada “venus”. 30 Os crioulos, enquanto categoria linguística, constituíram grande desafio aos modelos de tipologias das línguas. Normalmente divididos em duas vertentes que privilegiam a relação familiar ou os traços compartilhados, tais modelos tiveram de ser repensados para abarcar o caso crioulo, tendo em vista que sua relação familiar é confusa e que os crioulos guardam mais similaridades entre si do que com suas “línguas lexificadoras”. Quanto a esse debate, ver: GUISAN, Pierre François Georges. Crioulização e mudança lingüística. Tese de Doutorado em Linguística, Faculdade de Letras, UFRJ. Rio de Janeiro, 1999. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 86 Ainda que não tenhamos intenção de efetuar uma discussão muito profunda a respeito da origem da morna, perceberemos que haverá uma maior aproximação entre ela e a cultura musical cosmopolita da época do que, por exemplo, ocorrerá com os batukus. Entre os gêneros musicais apresentados, há muitas diferenças em termos de espaço: os batukus normalmente são limitados às ilhas de S. Tiago, diferentemente da morna, que “no século XIX […] já era cantada e dançada no Arquipélago” (Caniato, 2005, p. 73, grifo nosso). Poderíamos relacionar aqui o batuku ou o finaçom como um gênero musical mais próximo de África do que a morna, mas afirmar isso, ainda que realmente uma primeira comparação auditiva de ambos nos deixe essa impressão, seria na verdade negar a origem em comum de ambos: a morna, surgida na Ilha de Boa Vista, segundo alguns estudiosos, tem sua formação e desenvolvimento dentro do próprio arquipélago e vai ganhando formato e se difundindo pela “dor, dos queixumes e das lamentações dos escravizados, expressos em linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores, mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima apud Brito et al., 2018, p. 2). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 87 Figura 4 – Capa da edição de número 2 da revista Claridade – publicada em agosto de 1936 Fonte: Claridade, 1986. Edição comemorativa de 50 anos. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 88 Assim, não há uma diferenciação própria na natureza da formação musical, ou seja, não é o componente africano a força motriz que diferencia a progressão da morna dentro das ilhas, mas um processo a posteriori, de como esse “componente africano” se manifestou em cada caso e que situações sócio-históricas estavam relacionadas a suas manifestações in loco. Primeiro pese que o batuku, para além de um gênero musical, estava inserido enquanto uma manifestação religiosa dentro do ritual da tabanca, que, por sua vez, era mais uma organização social fora dos moldes europeus do que propriamente uma religião, tendo sido batizada dessa forma pelos Europeus. Assim, o batuku reunia elementos que transcendiam o musical e, de algum modo, iam contra a ideia “civilizada” e “comedida” da identidade europeia que se implantava em Cabo Verde. Além disso, colaborou também o fato de S. Tiago ter sido de alguma forma seccionada histórica e culturalmente do restante do arquipélago já na passagem do século XIX para o XX. Considerada uma espécie de “território abandonado” após a abolição da escravatura em Cabo Verde no ano de 1876, S. Tiago tornou-se uma ilha de estrutura insustentável — com seus latifúndios baseados em mão de obra escravizada. Isso resultou numa herança arquitetônica, por assim dizer, a qual se queria esquecer: era onde havia as senzalas, onde se mantinham os cativos antes de prosseguirem viagem às Américas e, não à toa, onde foram construídos os tarrafais (campos de concentração) em 1936, para onde seriam levados os presos políticos do regime salazarista. Santiago era uma terra que inspirava medo ou repulsa tanto pelo seu passado quanto pelo seu presente. A despeito de uma origem com traços em comum, essa diferenciação geográfica e sócio-histórica será suficiente para que a morna e os batukus trilhem durante os séculos XIX e XX caminhos muitos díspares: a morna eleita enquanto o estilo musical cabo- -verdiano mais cosmopolita rompeu não somente as fronteiras das ilhas e expandiu-se por todo arquipélago como chegou a terras internacionais a partir de iniciativas portuguesas; enquanto os batukus Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 95 livros acima para leitura e compreensão “embora indirectamente” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 52) da realidade das ilhas. Para Silvina Carrizo, uma das grandes colaborações de Arthur Ramos foi a mudança de ponto de vista: A pergunta de que parte o autor é por que motivo as culturas negras não se conservaram, no Novo mundo, no estado original. Nesse viés, a primeira argumentação de Ramos desmonta a tese de Bilden e de Gilberto Freyre de que não se pode estudar os povos negros no Brasil fora do sistema da escravidão […]. Ramos está interessado na observação dos fenômenos de separação ou não dos indivíduos de seu grupo e cultura, e no contato ou não de raças e de culturas, e nesse sentido o conhecimento que possam trazer os estudos sobre os processos de aculturação tanto importam em relação às culturas negras, quanto à cultura brasileira como um todo […] (Carrizo, 2010, p. 283-284). Para os Claridosos, que em Cabo Verde conviviam com uma realidade insular, a qual reforçava geograficamente separações e diferenciações culturais e, de alguma forma, empurravam toda sua africanidade para dentro dos limites de S. Tiago, uma abordagem que metodologicamente estudasse a formação do mestiço para além das dinâmicas do sistema escravocrata era de encher os olhos. Há até um esforço de intelectuais da revista na pesquisa e compilação de informações da escravidão em Cabo Verde: na edição de número 6 (1948), em texto sem autoria intitulado “Arquivos da Escravidão”, é dito que Félix Monteiro tem encontrado alguns documentos dispersos em acervos da Ilha do Fogo a respeito da escravidão em Cabo Verde, incluindo uma referência em um dos arquivos à chegada de um escravizado banto, de larga inserção no Brasil, mas que não fazia parte do conjunto de etnias que teve entrada no arquipélago. O que ocorre, porém, é que apesar dos esforços, grande parte dos documentos de registro de fluxo de entrada e saída de escravizados nunca foi feita, ou foi malfeita, e o que restou fora destruído propositalmente ou consumido pela falta de cuidado em mantê-los. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 96 O imaginário ao redor do conceito de mestiço trabalhado pela Claridade, portanto, dialoga diretamente com a transcrição linguística/tradução cultural que mencionamos com relação à transição dos gêneros musicais batuku e morna a um formato escrito e mudo. Há ali, de acordo com a ideia de antagonismo de Freyre, o encontro do movimento e da imaginação do cabo-verdiano, local e autêntico, com a técnica da escrita e do gênero textual do europeu, “civilizado” e universal. Se a revista, nesse sentido, não efetuou um discurso marcadamente opositor a Portugal pela afirmação de uma identidade africana nacionalista e revolucionária, destilou em suas páginas seus motivos e elementos próprios sob uma visão que enobrecia o mestiço: seriam as artes cabo-verdianas a mestiçagem em seu auge. Isso se reflete na própria morna “venus”, que traz em seu texto uma Vênus (aqui a lua, crescendo no céu), enquanto o eu lírico canta uma morna. A criação desse espaço imaginário, no qual convivem elementos de culturas distintas que são articuladas de maneira harmoniosa, misturam presente e passado, o mestiço e sua origem, e colocam a cultura romana enquanto herança mítica, fazendo dos mornadores os trovadores da modernidade. O conto de Manuel Lopes presente na sequência da edição de número 2 da revista, intitulado “Um galo que cantou na Baía…”, apresenta dois pequenos trechos em crioulo. Essas partes correspondem a duas quadras criadas pelo personagem “Guarda Toi”, descrito por outro personagem como um “mornador quente” (Claridade, Nº 2, 1936, p. 3). O conto versa sobre o nascimento de uma morna, sobre a inspiração, que vai ocorrer diante da estrela alva (D’alva), também conhecida como Vênus. Há aqui um claro diálogo com a morna presente na capa, manifestado num conto cujos personagens dão maior dimensão ao imaginário cabo- -verdiano. “Jom Tudinha”, um dos personagens, recorda de suas viagens à América do Norte (destino conhecido dos cabo-verdianos que por muito tempo foram para a costa leste dos Estados Unidos para caçar baleias em grandes navios): “Revia os temporais dos Sargassos, os cartazes luminosos de New York, as caminhadas Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 97 vertiginosas através daquele país imenso, onde os caboverdianos espalham como mato bravo o dialecto crioulo de ponta a ponta” (Claridade, Nº 2, 1937, p. 3, grifo nosso). Para Benjamin Abdala Jr., esse conto é um posicionamento importantíssimo da revista, pois apresenta novas nuances à relação identitária estabelecida com a herança românica apresentada na morna da capa. Para o autor, “Um galo que cantou na baía…” é um texto fundador da crioulidade entendida como “um todo onde pedaços de culturas interagem entre si, ora se aproximando, ora se distanciando […]”. Em “Galo cantou na baía”, a comunidade cabo- -verdiana é observada assim com os pés assentados nas margens e não no centro do domínio colonial português. Esse descentramento da óptica metropolitana revela, então, novas faces do referencial cabo-verdiano, por desconsiderar as mesmices que não permitiam descortinar o específico de Cabo Verde, perspectivas a eles impostas pelos padrões coloniais do centro metropolitano. Não se trataria nessa imagem literária (simbolizada pelo Guarda Toi, que circulava no Mindelo por uma simbólica estrada marginal) apenas de um grupo: simbolicamente, toda a nação estaria numa situação correlata, toda ela seria marginal (Abdala Jr., 2003, p. 263-267 apud Gomes, 2008, p. 10). Assim, se a capa desse mesmo número traz a ideia da Vênus clássica, deusa romana do amor e da fertilidade, musa inspiradora cuja história de origem, inclusive, remete ao mar, elemento tão caro ao cabo-verdiano, o conto parece mesclar essa tradição a elementos próprios. Retomando o termo de Abdala Jr., elementos marginais. Seja pelo contrabando de bebidas alcoólicas que está ocorrendo como pano de fundo da história ou pelas referências aos navios baleeiros que iam à América do Norte, seja pela presença nessa mesma tripulação de um personagem chamado Chico, “o cantador de modinhas brasileiras e sambas”, numa mescla de elementos que rondam o imaginário da cabo-verdianidade. O conto narra a aventura de um navio nomeado como “Grinalda”, que acaba de retornar do mar por canais marginais das Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 98 ilhas portando contrabando de aguardente. Guarda Toi, o personagem que compõe ao longo do conto a “melhor quadra que já fez”, inspirado pela lua, e depois compõe a segunda quadra inspirado pela poesia do galo cantando na baía, é, na verdade, funcionário da máquina portuguesa. Sendo guarda da alfândega, é parte de uma das poucas classes de maior estabilidade em Cabo Verde: aqueles que trabalhavam direta ou indiretamente para o regime, como funcionários públicos ou afins. É curioso, ainda que não seja estranho, a ligação efetuada entre a morna e, no caso desse conto, o trabalho. A construção do conto vai na contramão da origem do samba no Brasil, por exemplo, que desde seu princípio fora condenado e perseguido pela polícia por ser fruto de “marginais e vagabundos”, donde se sedimentou no imaginário popular a figura do “malandro carioca”. Somente com o Estado Novo de Vargas (década de 30) que veremos uma cooptação desse gênero musical pelo Estado, o qual verá nessa capacidade do samba de causar identificação popular um território fértil para moldar a brasilidade. O caso do samba de São Januário (1940) é clássico, sendo um samba de Wilson Batista e Ataulfo Alves que fora modificado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), substituindo “O bonde de São Januário/leva mais um sócio otário/só eu não vou trabalhar” por “O bonde de São Januário/leva mais um operário/Sou eu que vou trabalhar” 33 . Assim, ainda que a cooptação de um gênero musical por um governo não seja novidade para nós, brasileiros — e que tenhamos visto que a morna foi a grande manifestação artística escolhida pela metrópole para representar as ilhas internacionalmente —, não há registros ou estudos que indiquem processo idêntico em Cabo Verde que justificaria essa clara vinculação do mornador a um sujeito pacato, funcionário público e trabalhador. Essa imagem construída 33 Sobre isto, ver: VICENTE, Eduardo. A música popular sob o Estado Novo (19371945). Relatório final de pesquisa de Iniciação Científica PIBIC/CNPq. São Paulo, Unicamp, 2006. Disponível em: http://www.usp.br/nce/wcp/arq/textos/37.pdf. Acesso em: 09 de setembro de 2022. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 99 no conto para o mornador coaduna a visão apresentada pela revista em seu primeiro número, quando, ao analisar o sujeito cabo- -verdiano o coloca entre a “prudência e o expansionismo”, sendo o primeiro da ordem do concreto e do dia a dia, e o segundo da ordem do psicológico, necessitando o cabo-verdiano de sair de suas terras para experimentar uma “libertação moral” (Claridade, Nº 1, 1936, p. 5). Além das duas quadras do Guarda Toi, apresentadas a seguir, há também uma referência ao batuku em uma cena, na qual “a rabequinha do Afonso gemia um motivo de finaçom” (Claridade, Nº 2, 1936, p. 9), ainda que isso seja apresentado de maneira muito rápida como uma espécie de “aquecimento dos dedos” de Afonso, que estava a esperar Toi entoar sua obra-prima. Sé rosto ê sol de nhá pobreza, Nhá rosto ê ceu que ta variâ, Se sol bem, tá faze clarêza, Mas s’el dicham, scuro tapâ […] Já canta galo na baia, Sol cá está longe de somá Cuma’m stá longe de Maria Scuro tá continuá. (Claridade, Nº 2, 1936, p. 3 e p. 9). Para além desse pequeno trecho em crioulo, na versão de 1936, temos uma curta frase de Salibânia, dona de uma taberna no conto, que diz: “nigoce está rum” (p. 9). A personagem é uma homenagem a Salibânia, “uma célebre cantadeira, mulher do povo, uma ex- -libris de São Vicente dos anos 20 e 30” (Brito-Semedo, 2018, s/p), da mesma terra de B. Léza. Esse texto estará presente numa antologia de contos do próprio autor intitulada Galo cantou na baía e outros contos, publicada originalmente em 1959 e reeditado em 1998. Para as versões posteriores à Claridade, Manuel Lopes alterará alguns trechos e preencherá o texto com muitos novos parágrafos, incluindo partes em crioulo. A versão trabalhada em nossa análise é a de 1936, Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 100 anterior às modificações e mais diminuta (três páginas da revista). Dentre as modificações efetuadas por Manuel Lopes, apenas gostaríamos de destacar um trecho analisado por Maria da Graça Gomes de Pina (2017, p. 1937-1946) na versão de 1998 (que aparentemente já estava presente na versão de 1959, mas que, pela falta dos materiais em mãos, não podemos garantir), no qual ela percebe uma estrutura sintática construída em língua portuguesa que, na verdade, tenta dar conta de uma estrutura mais comum ao crioulo, a qual, contudo, seria ininteligível para o leitor de fora das ilhas. A autora coloca essa “cabo-verdianização do português” como uma das grandes colaborações de Manuel Lopes, análise com a qual concordamos e daremos seguimento mais à frente. Se até aqui o crioulo ocupou as capas dos primeiros dois números, nos números três, quatro e cinco que se sucederam há um sumiço, não sendo registrado nenhum uso nas páginas desses exemplares. Não foi encontrada nenhuma justificativa a respeito desse hiato do crioulo, que acaba por se estender de 1937 a 1947 pela falta de periodicidade da revista. Há de se pontuar apenas que textos a respeito do crioulo seguem sendo publicados, ambos de Baltasar Lopes, “Uma experiência românica nos trópicos I” e “Uma experiência românica nos trópicos II”, nas edições número 4 e 5, respectivamente. Estes textos abordavam o crioulo a partir de uma discussão de base linguística (textos que serão analisados no próximo capítulo). Dessa forma, não é que o crioulo seja completamente negado nas páginas da revista, mas seu uso vernacular desaparece, retornando apenas na edição de número 6 (1948). Um retorno em grande estilo? Na edição de número 6 da revista, temos novamente os batukus como ponto central da presença do crioulo. O “sumiço” do uso do crioulo nas páginas nos últimos anos é recompensado por um formato mais “arrojado” de apresentação dos batukus, que agora não apenas Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 101 são apresentados ao público em crioulo, como também possuem tradução à língua portuguesa e uma análise de seus versos. Figura 5 – Textos em crioulo na edição de número 6 da revista Claridade – publicado em julho de 1948 Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 102 Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 103 Fonte: Claridade, 1986. Edição comemorativa de 50 anos. Esse formato será mantido nos números posteriores e é muito interessante para nós, pois demonstra uma certa evolução em relação ao ponto levantado anteriormente: a transcrição da música Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 104 provoca uma tradução dessa em um gênero textual/literário universal, a poesia. Com esse novo formato, ainda que não se tenha nenhum suporte que tente permitir ao leitor reconstruir o ritmo ou a melodia, há uma temática mais regional, compensada pela tradução que permitirá ao leitor compreender o lamento cabo- -verdiano, e notas críticas que visam dar conta de contextualizar suas condições de produção. Seguindo a linha de raciocínio delineada por Maria da Graça Gomes de Pina (2017, p. 1937-1946) de que, a princípio, determinado trecho da versão de 1998 do conto de Manuel Lopes seria escrito em crioulo, mas foi traduzido a um português com marcas regionais para expressar sua identidade e, ainda assim, permanecer inteligível ao leitor cosmopolita, o novo formato de apresentação dos batukus, somado a tradução e notas, permite maior liberdade no trato com o crioulo e, até mesmo, na variante do crioulo utilizada na revista (sendo permitida uma variedade menos transparente ao português da metrópole). Assim, veremos a presença de quatro batukus, sendo eles: Galo bedjo, Bida’l pobre e Casamento (os três de Gabriel Mariano) e Finaçom (de autoria anônima). Interessante que, nesse momento, estamos diante de batukus de origens diferentes: os três primeiros textos são, na verdade, poesias, com “valor de uma tentativa de aproveitamento de motivos daquele folclore [da Ilha de S. Tiago], em dialecto crioulo destas ilhas” (Claridade, Nº 6, 1948, p. 37); enquanto o quarto e último texto é realmente um batuku de recolha popular, como o foi o presente na capa da edição de número 1 da revista. Assim, temos aqui uma apropriação dos motivos e da dinâmica cultural de S. Tiago que, se antes era “traduzida” de gênero musical e manifestação cultural a um gênero textual universal como a poesia, agora já é construído, desde seu princípio, sobre esses moldes. De um lado, temos a tomada de posse desse formato para falar sobre questões genuinamente cabo-verdianas, do outro, temos uma observação quase antropológica desse sujeito santiaguense, que ainda que seja cabo-verdiano, é uma espécie de estrangeiro para as outras ilhas. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 111 Dedicamos hoje as paginas do nosso “Suplemento” às ilhas muito nossas de Cabo Verde. Colaboram nelas filhos ou amigos do arquipelago, prosadores ou poetas em cuja arte pulsa o coração dorido e trágico das ilhas. Sentimos assim aumentando o coração da pátria. Portugal prolonga-se no Atlantico em corpo e alma e Cabo Verde é, como foi o Brasil, a sintese duma cooperação em que a terra, e o sangue de raças diversas, temperados no cadinho do mesmo esforço, ergueram um novo valor que não diminui a vida e prolonga e amplia Portugal no mundo. Ilhas desconhecidas já chamaram a estas ilhas crioulas. De facto as desconhecemos quasi todos em Portugal. Ilhas adjacentes lhe chamou José Osorio de Oliveira, que nelas viveu e as ama… Adjacentes, sim, — tão proximas de nós que mal lhes vai a designação de colonias, e melhor seria chamar-lhes irmãs (Diário de Lisboa, 1935, p. 13, grifos nossos). Coadunando a visão dos intelectuais da época com o conceito de Amado Alonso, é perceptível que a língua e a literatura crioulas eram vistas como herdeiras da língua portuguesa, de modo que o passado linguístico do português era também seu passado linguístico. Nesse sentido, não há de se estranhar os chamados “empréstimos” que viriam a surgir do português para suprir as necessidades do crioulo, sejam eles a nível fonético, como apontou Baltasar, como a nível lexical — fruto de um possível processo de descrioulização que está sempre latente quando convive o crioulo com sua “língua lexificadora”. Há, portanto, sobre a condensação da escrita do crioulo em Cabo Verde uma série de forças que incidem e que tendem a efetuar uma aproximação dessa modalidade do crioulo à variedade escrita do português. Tal ideia nos faz muito sentido quando retornamos à análise de Maria da Graça Gomes de Pina (2017, p. 1937-1946) de que o crioulo influenciou uma “caboverdianização do português” principalmente no âmbito da sintaxe. O caso brasileiro seguiu exatamente essa linha: imprimiu-se um estilo próprio à língua portuguesa, que se desgarrou da variedade metropolitana sem necessariamente tornar-se outra língua. Assim, também era o âmbito da sintaxe o de maior abstração linguística, e de “menor interferência” Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 112 das teorias da Academia. A sintaxe, quando analisada, não esbarrava nas questões do alfabeto, dos sinais fonéticos que não davam conta dos usos, dos vocábulos que se discutiam se a origem era portuguesa ou africana etc., nada disto, a sintaxe era, em grande parte, relegada ao aspecto psicológico da língua. Na sequência da produção dos Claridosos, se de um lado há uma preocupação em nossa análise com uma possível descrioulização do crioulo na modalidade escrita, que seria uma forma prototípica da modalidade falada; há, do outro, certa tendência para uma cabo-verdianização do português das ilhas, pela tomada de posse de uma língua “que não tem dono”, principalmente nos âmbitos da sintaxe (mas também do léxico), em conformidade com outros projetos modernistas, ainda que os Claridosos não tenham feito disso um projeto de nacionalismo separatista. Dando um salto, rapidamente, para o número 7 da revista, há uma informação que reforça aqui o que dizemos, quando Baltasar Lopes informa, em nota explicativa apresentada após dois contos recolhidos, que tanto os contos presentes na edição de número 7 quanto o conto “Lucio-e-fé” presente na de número 4 foram recolhidos de um mesmo informante, Nhô Manuel Antoninho, “especialista em contos populares de inspiração religiosa” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 31). Curioso o uso de língua portuguesa na transcrição desses três, visto que a língua do dia a dia do arquipélago era o crioulo. Ainda assim, Baltasar Lopes afirma: Nos contos atrás reproduzidos, procurei seguir com a maior fidelidade possível a ordem, o vocabulário e o estilo narrativo do meu informador. Não hesitei em consignar (no segundo) um termo por ele empregado, muito usado em Santo Antão, mas de que não tenho notícia como sendo de uso em outras zonas de fala portuguesa: manhana. Designa o primeiro alvor que anuncia a “ante-manhã”. Também se emprega em Santo Antão para designar uma flor: manhana de Páscoa (Claridade, Nº 7, 1949, p. 32). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 113 O empréstimo do crioulo do termo “manhana” fora mantido, na falta de uma palavra que fizesse jus ao seu sentido, evidenciando também a permeabialidade do crioulo no português das ilhas. Vemos também um reforço de que a transcrição desses contos se deu com fidelidade em relação à “ordem, o vocabulário e o estilo narrativo” do informante, de modo que não nos parece que tenha havido fidelidade à variante, que teria sido, ainda que numa variante com muita transparência, relatado em crioulo. Nhô Manuel Antoninho é descrito como um sujeito católico, mas que aprendeu um pouco sobre “magia negra” com sua madrinha (provavelmente oriunda de S. Tiago), que vê nesses contos que foram transcritos releituras de temas bíblicos, mas que apontam para uma “moral prática do aproveitamento destes temas” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 31). O formato, na verdade, se assemelha mais aos contos orais, dos griots africanos 35 . Tais características apontam para uma possível tradução/aproximação do crioulo do informante em um português inteligível, que ganhará suas nuances cabo-verdianas na sintaxe e léxico. O novo formato de apresentação do crioulo que surge no número 6 da Claridade, portanto, evidencia uma mudança de abordagem com relação ao “folclore da Ilha de S. Tiago”. Não à toa, será a partir desse número que Félix Monteiro começará a publicar também seus estudos antropológicos sobre a cultura dessa ilha, investigando a tabanca, as sessões de “magia negra”, a sabedoria popular e os sincretismos. Essa empreitada resultará em uma “série” que se estenderá das edições número 6 a 9, desenhando um panorama cultural e histórico dessa ilha tão “renegada”. Notaremos, nesse movimento, um paralelismo entre os âmbitos criativo e acadêmico, numa espécie de processo de imersão: estudando a cultura do outro, dissecando seus elementos culturais 35 Termo do vocabulário franco-africano, criado na época colonial para designar o narrador, cantor, cronista e genealogista que, pela tradição oral, transmite a história de personagens e famílias importantes, das quais, em geral, está a serviço (Lopes, 2011, p. 317). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 114 e linguísticos, apropriando-se dele e reproduzindo-o, à sua maneira, como num movimento de antropofagia 36 . Na edição de número 6, vemos Félix Monteiro se referir à tabanca como uma manifestação estritamente santiaguense e estudá-la a partir de alguns tópicos, sendo eles: Evolução Semântica (que avalia como o vocábulo tabanca foi modificando sua acepção em Cabo Verde); Organização (que descreve e avalia os membros e a hierarquia presente na tabanca); O Ciclo das Festas (que explica o ciclo de festas que ocorrem no mês de São João); Abstinência Sexual (necessária durante todo o período do ciclo das festas); Linguagem Humorística (há personagens cômicos na tabanca que provocam risos a partir da subversão da própria língua, ao dizerem exatamente o oposto daquilo que querem falar a partir do uso de “rabess”); e, por último, Ritual Funerário (que analisa sua estrutura básica com 8 dias de duração e no qual não há espaço para tristeza). Desses tópicos, o mais interessante para nós, ainda que seja curto, é o Linguagem Humorística, que, até por seu tamanho diminuto, reproduzimos abaixo: Dissemos atrás, quando nos referimos aos personagens cómicos da tabanca, que é tomado em sentido contrário tudo quanto faz “Ca- -rabess”, a criada do boneco “Saramaná”. O mesmo se verifica com relação à linguagem que vigora durante as festas: tudo é “rabess”. “Ca-rabess”, por conseguinte, significa “rabess”, apesar de ser negativa a partícula câ (não). Vários são os processos utilizados para atribuir um sentido mais ou menos humorístico às frases. Umas vezes, servem-se de partículas negativas, ou de antónimos; outras, trocam ou acrescentam letras, e até sílabas às palavras; outras, ainda, 36 Particularmente acredito que, do ponto de vista de uma epistemologia da mescla identitária/linguística, a qual hoje inclui conceitos como mestiçagem (Freyre), aculturação (Ramos), hibridismo (Bhabha), transculturação (Ortiz) e transculturação narrativa (Rama); há espaço para um aprofundamento teórico do conceito de antropofagia que dialogue com a ideia de crioulização linguística — ainda que o caso brasileiro não tenha resultado na formação de línguas crioulas, não sei se o mesmo pode ser tacitamente atestado quanto a sua cultura. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 115 é o significado das palavras de uma mesma frase que se permuta, etc. E quanto faltem recursos para tornar “rabess” a linguagem, aproveitam a inspiração do momento, basta “abrir a fala e deixar a boca sair” (Claridade, Nº 6, 1948, p. 17). Ainda que a revista não explique o termo nem o traduza, parece-nos que “rabess”, por recomposição do termo a partir de processos fonéticos comuns do crioulo de Cabo Verde, teria origem no termo “revés”, uma reviravolta de sentido. Curioso é que há todo um campo semântico interessante ao redor desse termo, que pode ter colaborado para sedimentar o sentido de “rabess”. O verbo “rebelar” em português, segundo Baltasar Lopes, é traduzido como “rabelar”; donde o termo português “revel” será trazido como “ravel” em crioulo, o que facilmente poderia ter se transformado em “rabel” por um betacismo, e para Baltasar sua acepção em crioulo era quase sempre ligada ao sentido de “insubmisso”. Além disso, há um termo em português “rebém”, um tipo de chicote com o qual se açoitavam os rebeldes e que é traduzido em crioulo como “rabé” 37 . Assim, há uma série de insumos para conformar a ideia do vocábulo, de modo que este último estabelece relação quase poética com o restante do possível mapa lexical, posto que a negação (“ca-rabess”) do rebém, do açoite, seria o ápice do “rabess” e da liberdade. Essa partícula utilizada durante as cerimônias lembra, em termos de estratégia discursiva, o uso do sufixo “-ish” no inglês, que muitas vezes é utilizado para se alcançar alguma comicidade em determinados enunciados. Com a capacidade de subverter em grande parte o sentido de uma declaração sem necessitar de uma reconstrução frasal, o uso de “-ish” permite uma quebra de expectativa que deixa o leitor/ouvinte sem reação, já que não há sinais que antecipem seu uso. Essa quebra de expectativa, esse “revés” discursivo parece fazer parte do uso da linguagem nas 37 As traduções e significados aqui apresentados foram retirados da gramática de Baltasar Lopes (1986[1957]), intitulada O Dialecto Crioulo de Cabo Verde. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 116 cerimônias da tabanca. Tal ponto é delicado dentro de nosso objeto de pesquisa, posto que são exatamente os batukus, com essa linguagem subversiva, que serão recolhidos com maior empenho na revista. Há aí, claramente, algumas preocupações: sendo as variedades ouvidas em uma sessão de batuku constituídas por um malabarismo discursivo e criativo, não estariam elas apenas a representar o crioulo das ilhas, nem a servir de puro e simples registro para preencher a enorme lacuna de textos escritos em crioulo de Cabo Verde; mas sim a sinalizar para um “crioulo futuro”, cujas características “brincantes” dessa linguagem presente na tabanca apontam para construções metafóricas e poéticas que serão absorvidas pelo estilo de escrita da nova geração de escritores cabo-verdianos. O material, assim, mais do que servir “passivamente” à revista, parece despertar interesse nos Claridosos exatamente por exalarem uma espécie de “liberdade” discursiva que falta, de algum modo, ao crioulo, inconscientemente “preso” criativamente ao português da metrópole. Sobre isso, na edição de número 7 da revista, em texto intitulado “O Folclore poético da Ilha de S. Tiago”, Baltasar Lopes afirma: É que a ilha de S. Tiago testemunha, tanto no seu folclore como no seu léxico, uma aptidão constantemente activa de metaforismo, que constitui um dos maiores interesses que ela suscita. Dir-se-ia que muitas vezes o concreto não existe para aquela gente senão como ponto de partida para a formulação de sentenças breves, de imagens e de metáforas (Claridade, Nº 7, 1949, p. 43, grifo nosso). Em tempo, destacamos na citação uma estrutura que evidencia, mais uma vez, o distanciamento estabelecido pelos Claridosos, oriundos das ilhas de barlavento, em relação à ilha de S. Tiago. Há uma clara objetificação do santiaguense e de sua variedade do crioulo, observado a partir de uma metodologia similar a dos etnógrafos da década de 30, seja pelo uso de Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 117 informantes como validadores do conhecimento (como foi feito com o informante dos contos populares), seja pela observação, que ainda que se diga participativa em alguns casos, não é imersiva. O caso de Baltasar é até mais evidente nesse sentido, posto que em nota do mesmo texto da citação admite: Devo declarar que nunca assisti a um batuque. Da ilha de S. Tiago apenas conheço a capital (cidade da Praia), em rápida passagem, no acaso de uma escala, em viagem marítima. No entanto, há anos venho recolhendo, de informadores seguros, materiais que me permitem a elaboração desta notícia (Claridade, Nº 7, 1949, p. 43). Esse distanciamento entre o intelectual e o povo parece ser exatamente um dos sentidos provocados pelo conto “As férias de Eduardinho”, de Manuel Lopes, também presente na edição de número 7 da revista. Esse conto fará parte da já citada coletânea de Manuel Lopes que será publicada em 1959, junto ao “Um galo que cantou na Baía…”, não havendo grandes diferenciações apontadas pela crítica literária entre o texto original, que será aqui analisado, e o publicado em 1959. Ambos os contos guardam a similitude de apresentar pequenas inserções do crioulo num gênero prosaico — sua presença até então era muito mais recorrente nas poesias. Na história, Eduardinho, membro do liceu, está na casa de um ex-companheiro de estudos, mas que abandonara recentemente essa carreira, Tuca. Eduardinho prometera ao jornal “O académico” uma bela prosa intitulada “Férias”, a qual descreveria de maneira idílica as terras e o espírito de Ribeira das Patas, onde se encontrava. No conto, há uma forte contraposição entre as ideias de Tuca, que retornou ao campo, à enxada, ao trabalho com a terra, e de Eduardinho, que tenta escrever sua prosa que tem como pano de fundo a cidade sem ultrapassar os limites do quintal da casa do amigo, limitando-se à escrivaninha e à sombra do buganvile. Há ainda um muro que separa a casa e a lavoura, muro esse que é concreto e metafórico, pois que é um muro que afasta Eduardinho da realidade concreta das coisas e que assombra sua escrita: o Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 118 personagem repete muitas vezes que é “escravo das letras” e torra a cabeça a pensar na discussão com Tuca e reforçar a ideia de que “não é preciso comer a vaca inteira para saber o gosto que a vaca tem” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 11). Daí, nessa história que versa sobre esse fazer literário desgarrado do concreto e sobre o que não se conhece, está Eduardinho a escrever um texto em português com algumas citações de Virgílio, das quais, uma, inclusive, se recorda do original em latim, ainda que não se recorde mesmo que com muito esforço do seu significado, mas ainda sim utiliza. Para ele, essa citação soa “oca”, assim como soam ocas suas palavras, “autênticas” apenas para seus companheiros do jornal, que desconhecem, como ele, as paisagens de Ribeira das Patas. Assim, essa situação lhe coloca em profunda reflexão e mexe com seu espírito literário: Meu Deus! Se tivesse vivido um pouco essa vida, “aprendido a lição desses homens”, suado como o Tuca, esfolado as mãos no cabo da enxada, se tivesse seguido os homens na sua luta, ouvido as palavras da sua boca, se tivesse experimentado o gosto autêntico dessa luta brava, — certamente a cabeça não lhe estaria doendo neste momento, teria certamente feito uma hora fácil o que não conseguiu em tantos dias de martírio inútil (Claridade, Nº 7, 1949, p. 16). Do outro lado do muro, na lavoura, Zé Viola está a suar e calejar suas mãos na enxada que cava a terra seca da lavoura e, em seu labor, canta em crioulo: “Paxôm calado ’ tá matá gente, / Tchorá gatchado ’ tá intchá gente ôi” (Claridade, Nº 7, 1949, p. 7). Há, na construção do texto, de um lado do muro o crioulo na “boca do povo” e do outro o português do liceu de forte influência latina. O intelectual e escritor cosmopolita, formado com requintes metropolitanos, depara-se com uma escrita vazia de formas e de conteúdo e, para além, recheada de expressões latinas que para ele nada mais significam — mas que reproduz —, aludindo para um momento similar ao que se encontrava a revista: na crítica e na Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 119 reformulação de uma abordagem que tratasse das manifestações populares de Cabo Verde de maneira mais aprofundada e complexa. Assim, a narrativa do conto se encerra com Eduardinho finalmente pulando o muro, por ver Zé Viola desfalecer-se sobre a enxada e dobrar-se sobra a terra seca, deixando cair alguns de seus rascunhos. Para além do enredo que, quando visto, metaforicamente, parece entrever muitas das questões que também deviam ser preocupantes aos Claridosos, há dois detalhes na narrativa que considero importante pontuar: (1) o fato de haver uma pequena expressão em inglês quando o narrador se refere a como Eduardinho, o sujeito do liceu, acorda: este vira-se para seus músculos e tendões como se dissesse “come on!” para que eles se erguessem e seu dia pudesse começar. Há aí um tom debochado/caricato para com essa figura do intelectual, reforçado até pelo apelido “Eduardinho”, que dá alguma impressão de “almofadinha”. O uso da caneta “conklin”, de grandessíssimo renome, também reforça essa ideia. (2) Há na narrativa uma curiosa cena que se repete, quase que identicamente, tanto no início como na última frase do conto. Na primeira ocorrência, descreve-se a seguinte cena: Todas as manhãs traz a mesinha, o moxo, a sua papelada, a conklin, para debaixo da buganvilia. Curva-se horas a fio, teimosamente, na tortura de cumprir a palavra. Escreve e risca, torna a escrever e a riscar. Rasga papeis, lança os fragmentos para trás do muro de pedras soltas. As lagartixas ocorrem a ver o que é, e regressam desiludidas aos buracos donde saíram (Claridade, Nº 7, 1949, p. 45, grifo nosso). Nesse momento, tal trecho dá a entender que como o texto de Eduardinho estava muito aquém do que ele mesmo imaginava, havia nas lagartixas um desinteresse em seu conteúdo ou até mesmo em seu estilo de escrita — a reviravolta poderia se encontrar numa escrita autêntica e arrojada que Eduardinho empreenderia Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 120 em um momento de vislumbre. O que ocorre ao final do texto, porém, é uma quebra da expectativa, quando Eduardinho pula o muro para amparar Zé Viola, seus textos caem e a cena se repete, fechando a narrativa: Sem tempo para uma resolução, Eduardinho agarra o bloc-notes precipitadamente, e, num salto, transpõe o muro que o separa do homem caído. O bloc-notes escapa-se-lhe da mão, descreve uma curta parábola, vai pousar como uma ave morta aos pés dum jasmineiro. As lagartixas ocorrem, aproximam-se curiosas, mas verificando que são papeis, regressam desiludidas aos buracos donde saíram (Claridade, Nº 7, 1949, p. 16, grifo nosso). Para além de uma busca por uma interpretação metafórica do conto que transponha os personagens na realidade, em que poderíamos tentar interpretar essa figura da lagartixa talvez como o próprio público das ilhas que não demonstrou interesse maior na revista, ou até mesmo como a figura do governo português, que sempre à espreita, em busca de qualquer “zumbido”, verificava se havia ali algum perigo, mas era “apenas literatura”. Enfim, para além de tal abordagem, o que para nós é o mais importante é que neste momento final, o qual parece amarrar a narrativa do conto de maneira quase cíclica, temos a clareza do motivo de a lagartixa rejeitar os rascunhos: independentemente do que estivesse escrito, eram apenas papéis. A revista, portanto, estava a lidar com um interessante dilema diretamente ligado àqueles que investigam, com maior ou menor dificuldade, os bens culturais e simbólicos de sua própria terra. Quando em nossa introdução teórica, debatemos a respeito dos conceitos presentes na metodologia canônica de Política Linguística, apontamos para a dificuldade em lidar com os intelectuais da revista diante do fato de não serem eles nem parte do in vitro, já que não detinham os meios necessários para intervir diretamente na língua esbanjando das ferramentas do Estado; nem parte do in vivo, pois suas formações nos liceus e nas universidades Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 127 O viés criativo da escrita em crioulo a partir da influência dos batukus se manifestará na sequência dos números, quando veremos na edição de número 8 da revista dois poemas de Jorge Pedro e um de Onésimo Silveira, ao mesmo tempo em que não haverá nenhum batuku recolhido popularmente. Há, então, uma completa substituição do modus operandi da revista, iniciado numa reprodução seletiva de batukus recolhidos popularmente, depois em parte e, agora, inteiramente feita a partir de uma tomada de posse do imaginário dos batukus para efetuar uma criação em crioulo. Nesse número, os poemas em crioulo são antecedidos por texto intitulado “Apontamento” (o qual imaginamos ser de Baltasar Lopes, ainda que não tenha assinatura): As composições de Jorge Pedro, publicadas neste número, são curiosos exemplos de poesia expressa em crioulo com sabor acentuadamente popular. A de Onésimo Silveira, vinda de São Tomé, onde o poeta se encontra, estabelece uma combinação do português com o crioulo. O tema da poesia traduz-se em crioulo; em torno deste tema, o desenvolvimento é apresentado em português. Representam mais duas tentativas (ambas de valor) a acrescentar àquelas que já se têm realizado com o fim de criar uma poesia de temas retintamante cabo-verdianos, escrita em dialecto de Cabo Verde — tentativas em que este se elevaria à complexidade e à dignidade de língua literária (Claridade, Nº 8, 1958, p. 66). A edição de número 9 seguirá a mesma linha com dois poemas de Jorge Pedro e dois poemas de Sérgio Frusoni, todos autorais, seguidos de sua tradução. Esse número não apresentará, porém, notas a respeito da criação literária, como vimos em outros. Há apenas uma nota de Baltasar Lopes a respeito do “Colóquio sobre assuntos cabo-verdianos”, a ser realizado em virtude da comemoração do quinto centenário do descobrimento das ilhas. Nessa nota, Baltasar faz apenas uma defesa, a qual é perfeitamente plausível, diante do discurso que coloca a contribuição intelectual abaixo da práxis combativa, discussão que tem como pano de Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 128 fundo a formação do PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde) recentemente, em 1956. Por fim, sobre essa mesma edição, vale menção a dois textos que apresentam trechos em crioulo. O primeiro deles, de ordem criativa, de Virgínio Melo, intitulado “Beira do cais”. O conto narra a história de uma região portuária da Ponta do Sol e faz dela o seu personagem principal: é sua história que é contada e reúne um conjunto de cenas de muitos homens e mulheres que por ali passaram e deixaram seus feitos. Há um momento no qual Nené de Pito está num barco com seus companheiros e assume o remo para cumprir um desafio de um barco próximo — uma espécie de corrida à orla —, onde põe-se a cantar em crioulo para incentivar seus homens: Ipe, Ipe, remá camarada Ipe, Ipe, bô melher tá’splóbe Ipe, Ipe, tchegá pá ele Ipe, Ipe, corrê botim […] Ipe, Ipe, ó sota-proa Ipe, Ipe, nô dês bandera Ipe, Ipe, tchegá pá ele… Ipe, Ipe, guentá rapazinho (Claridade, Nº 8, 1960, p. 6). Não há tradução desse trecho, que parece ser composto por períodos simples de frases de incentivo direcionadas à tripulação. Mais interessante é, na verdade, o uso, na narrativa em português, de uma recorrência narrativa aos nomes dos personagens que simula uma sintaxe mais própria ao crioulo, mais referencial e pouco pronominal: Nené de Pito era bom marinheiro, bom mergulhador, quase como José de Rosário, que ia para o fundo do mar e era difícil saber se voltava ou não. Nené de Pito fazia naviozinhos de correr à vela nas poças da Prainha, exactamente como aqueles em que ele andava Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 129 pelas ilhas. Foi mesmo no fundeadouro que Nené desapareceu atrás dum saco de batatas no fundo do mar. Nasceu para o mar, o mar tragou-o. Praínha é onde as filhas dos marinheiros tomam banho, e onde os rapazes, velhacos, deitados na areia, ficam a olhar para as moças gulosamente como gatunos farejando. Nené de Pito muito mergulhou por entre as pernas dessas moças do mar, no fundo do banco (Claridade, Nº 9, 1960, p. 5-6, grifos nossos). Além desse texto, há um outro, agora de Félix Monteiro, que já havia mudado um pouco seu olhar na edição de número 8 da revista, quando escreveu o texto “Bandeiras da Ilha do Fogo”, e agora publica um texto-homenagem a uma cantadeira da Ilha do Fogo chamada Ana Procópio, a qual se encontrava falecida há três anos. As Bandeiras da Ilha do Fogo são uma manifestação cujos festejos eram similares (em forma e época, pois se davam pelo período de junho — solstício) aos de S. Tiago; mas cuja origem era detidamente — aqui nos falta base para lançar um olhar crítico para tal afirmativa — europeia, remontando aos desfiles e procissões dos cavaleiros medievais. Félix Monteiro irá assim abordar essa manifestação, demonstrando também como certos elementos africanos foram incorporados a essa manifestação medieval, que passou a ter novos contornos em Cabo Verde. O motivo pelo qual comentamos sobre essa mudança de foco das tabancas de S. Tiago para as Bandeiras da Ilha do Fogo é que, para além de uma questão pessoal de pesquisa, há outra justificativa para a mudança de objeto: Diante de tantos e tão complexos problemas, o amador afasta-se prudentemente, e cede o lugar aos especialistas, a quem deixa o encargo de deslindar o muito que não chegou sequer a ser aflorado nestes apontamentos. Como aconteceu com as Tabancas da Ilha de Santiago, que passaram a ser perseguidas depois da publicação de um estudozito que há anos lhe dediquei, é possível que o mesmo se venha a dar agora com alguns números do programa das Bandeiras, o que sem dúvida provaria à sociedade que continuamos com os olhos fechados. Nos países civilizados, bem ao contrário, o folclore é Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 130 amparado com muito carinho pelo governo, enquanto a Unesco, pela secção competente do seu Departamento de Ciências Sociais, preconiza o registo mecânico, para estudo, de todas as manifestações folclóricas em risco de desaparecer sem deixar vestígios. Que meditem nestes factos os inimigos do nosso folclore (Claridade, Nº 8, 1958, p. 22, grifo nosso). Vê-se que, se anteriormente a presença de uma morna de B. Léza na edição de número 2 da revista engendrou, anos depois, no financiamento pelo regime de sua presença em festivais portugueses; os holofotes direcionados à Tabanca de Achada Grande nas edições número 6 e 7 lhe renderam maiores perseguições e sanções do governo da metrópole. A preocupação de Félix Monteiro é válida — ainda que não deixe de publicar seu texto —, posto que seu estudo, ainda que fizesse uma introdução que situasse as Bandeiras da Ilha do Fogo com origem em desfiles medievais, buscava as “sobrevivências da África negra” nos festejos: o pilão, a matança, o sincretismo e outros elementos que descreveu. Quando, então, na edição de número 9 (1960), publica a homenagem a Ana Procópio que falecera em 1957, pode ter havido aí inclusive uma preocupação quanto a qualquer tipo de perseguição que poderia advir da publicação do ensaio. Fato curioso é que essa mulher analfabeta será avó de Pedro Pires (1934- ), primeiro-ministro no primeiro governo de Cabo Verde independente (1975) e, posteriormente, terceiro presidente de Cabo Verde, de 2001 a 2011. Assim se encerram, basicamente, os escritos em crioulo presentes na revista Claridade, ao longo dos anos de 1936-1960. Importante perceber que nossa pesquisa não consegue dar conta de toda a dimensão das publicações extra-Claridade, que estavam, de alguma forma, ancoradas nos ideais da revista e dando prosseguimento a esse projeto. Para além de outros escritos em língua crioula de Manuel Lopes, Baltasar Lopes, Gabriel Mariano e Sérgio Frusoni publicados em formato de livro ou em outros periódicos — esses ainda chegaram a colaborar em crioulo dentro Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 131 da própria revista —, essa expansão de corpus abarcaria casos como o de Corsino Fortes, que integra o editorial apenas na edição de número 9 e não chega a publicar em crioulo em Claridade. Sua produção posterior, contudo, irá se debruçar sobre a poesia crioula em obra interessantíssima intitulada Pão & Fonema 39 (1974). Ainda que com algumas pontas soltas, seguiremos à análise dos escritos metalinguísticos a respeito do crioulo presentes na Claridade para, na sequência, sucedermos às conclusões resultadas e sua contribuição para uma abordagem glotopolítica do crioulo de Cabo Verde. 39 Nesta obra, dividida em três partes (cantos), Corsino Fortes escreverá poesias alternando entre o português e o crioulo — sem apresentar poemas bilíngues. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 133 CAPÍTULO 3 UMA LÍNGUA E MUITOS NOMES: O DIALETO, O CRIOULO OU O KABUVERDIANU? Antes de adentrarmos especificamente na análise dos textos metalinguísticos — ou seja, aqueles textos presentes na revista e que discutiam o crioulo enquanto objeto linguístico —, é necessário colocar em pauta o que foi produzido, ao largo de mais ou menos dois séculos, a respeito das línguas crioulas e dos conceitos que a cercam, para então, refletir sobre a noção de “língua crioula” enquanto categoria epistemológica, justificando-se pela necessidade de que “nós, linguistas, devemos, com urgência, rever muitos dos conceitos e das categorias com os quais estamos acostumados a trabalhar” (Rajagopalan, 2016, p. 25), posto que definir é uma prática de linguagem. A partir de uma retomada da etimologia da palavra “crioulo”, apontada por Vasconcelos (1928) como de origem portuguesa e cujo significado seria “criadouro”, juntamente com as definições dispostas na literatura desde estudiosos clássicos (Coelho, 1880; Schuchardt, 1888; Vasconcelos, 1928; Hesseling, 1933) até trabalhos da literatura brasileira ou cabo-verdiana mais recentes a respeito do tema (Cunha, 1981; Veiga, 1982, 1996; Silva, 1984 [1957]; Tarallo e Alkmim, 1987; Elia, 1989), é possível perceber certo consenso de que tal conceito se apoia somente em características históricas — sua origem está diretamente relacionada à colonização/escravidão —, não sendo possível discernir traços distintamente linguísticos que lhe diferenciem de outras línguas. O desenvolvimento desse termo caminhou lado a lado com o reconhecimento dos próprios crioulos enquanto línguas, tendo em vista que inicialmente foram considerados corruptelas, dialetos ou até mesmo continuum das línguas dos colonizadores. Nessa Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 134 empreitada, linguistas confrontaram a visão estigmatizada sobre essas línguas e, ainda hoje, apesar do aparente apaziguamento, vemos que os conceitos que a cercam ainda parecem dialogar com o “fantasma” desse confronto. É importante ressaltar que não há aqui intenção de abordar as diferentes teorias em voga a respeito do surgimento dos crioulos, mas, sim, recolher as produções a respeito das línguas crioulas, em particular do crioulo de Cabo Verde, para então efetuar algumas reflexões do desenvolvimento dessa terminologia, observando o impacto do conceito nas próprias bases teóricas da Linguística assim como no olhar do pesquisador. Tal objetivo está em consonância com o enfoque da Glotopolítica, assim como da Linguística Crítica, as quais apontam para a necessidade de repensarmos nossos objetos teóricos, posto que definir também é construir um objeto sob um ponto de vista. Nas palavras de Lagares a respeito do trabalho pioneiro de Guespin e Marcellesi: Os autores propõem a necessidade de uma revisão de conceitos e métodos dos linguistas, que devem se engajar na luta contra seus próprios preconceitos para poderem participar na organização do debate glotopolítico. Essa revisão começaria pelo avanço no conhecimento sobre as condições e os processos de mudança linguística. […] a glotopolítica deveria se preocupar em “agir, não mais apenas sobre o status das línguas, mas também sobre as práticas de linguagem e sobre as relações no indivíduo social, entre pensamento e linguagem” (Guespin e Marcellesi, 1986, p. 9). Isso implica em renunciar um “ideal abstrato de língua”, sobre o qual se alinhariam práticas de linguagem e práticas sociais (Lagares, 2018, p. 33). Este capítulo, portanto, busca repensar o lugar do crioulo enquanto categoria linguística e compreender quais eram os sentidos em disputa no momento de produção da revista, propondo, ao final, uma categorização epistemológica não a partir da cronologia, mas por meio de um continuum de enunciados que vão desde o surgimento do termo “língua crioula” até a publicação da gramática do “dialecto Crioulo de Cabo Verde” produzida por Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 135 Baltasar Lopes da Silva (1984 [1957]), um dos membros-fundadores da Claridade. Antes de prosseguir nessa empreitada, é necessário retomar a origem do crioulo de Cabo Verde assim como os primeiros trabalhos a respeito das línguas crioulas em geral, observando as questões envolvidas em sua formação e os impactos causados pelo surgimento tão recente da Crioulística enquanto área de estudos. Notas para uma história social do crioulo de Cabo Verde Já abordamos, ainda que rapidamente, alguns pontos da história da formação do arquipélago de Cabo Verde em termos sociais. Falta, para uma melhor compreensão de nosso objeto, uma atenção específica ao crioulo que, muito mais do que um produto cultural do processo de crioulização, precisa ser encarado enquanto o mediador e elemento central desse processo. Autores como Dulce Pereira datam o surgimento do crioulo ainda no século XVI e referem-se a algumas trovas presentes no Cancioneiro Geral de Garcia e Resende (1516) e em obras de Gil Vicente como sendo os primeiros registros linguísticos de crioulos portugueses, os quais seriam todos genericamente chamados à época de “língua de preto”: — A mym nunca, nunca mym entornar, mym andar augoá jardim a mym nunca ser rroym. Porque bradar? — Eu não, eu não entornei [o vinho], eu estava a regar o jardim eu não sou ruim. Por que grita [comigo]? (Pereira, 1996, p. 554). Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 136 Aqui neste ponto é difícil conceber tal registro como uma representação de um possível crioulo português por dois principais pontos: esse termo preconceituoso “língua de preto” 40 vai ser utilizado para se referir à aquisição das línguas europeias, e não só o português, nas colônias em África, assim como para se referir a africanos imigrantes ou cativos presentes na metrópole, ignorando em grande parte o contexto de formação do próprio processo de crioulização e tendo claramente um diferencial racista e não linguístico; o segundo ponto seria o fato de que a transcrição se deu em uma obra literária a despeito de preocupações quanto a um método confiável para tal e possui traços indicativos de que houve muita interferência da língua portuguesa nesse processo. Assim, surge aqui já um primeiro ponto de questionamento para nossa pesquisa: será que é possível precisar quando surgiu o crioulo de Cabo Verde? Um agravante para tal pergunta é que os marcos utilizados para anunciar o nascimento de uma língua não são feitos somente por critérios linguísticos, mas são atravessados por critérios sócio-históricos, identitários e políticos. Não à toa, o surgimento das nações europeias modernas utilizou-se da construção de uma língua nacional (Lagares, 2018), por exemplo. De acordo com Dulce Pereira (1996), a criação do ambiente favorável à crioulização se dará a partir de 1472, com a instalação das grandes fazendas de algodão (aí já com o modelo do plantation: latifundiário, monocultor e com mão de obra escravizada), que irão, de algum modo, estabelecer um meio frutífero para que se dê 40 É interessante observar que ao longo do século XVIII e XIX, ainda que não tenhamos assistido ainda ao surgimento da linguística moderna com o advento das ideias de Ferdinand de Saussure, havia um pensamento linguístico, se é que assim podemos chamá-lo, bastante homogêneo por toda a Europa: o pejorativo termo “língua de preto” está presente em autores portugueses como Lopes de Lima, o termo “negro dialect” aparece em levantamento bibliográfico efetuado por Hubert Devonish (2008, p. 616) em documento datado de 1828 a respeito do inglês presente na colônia, assim como o termo “petit-nègre”, talvez o mais conhecido, terá sido cunhado e difundido por Maurice Delafosse em 1904, ao observar o francês presente nas colônias francófonas ao fim do século XIX. Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 143 ocorrido nas colônias, que deixaria marcas permanentes nessas sociedades mesmo no período pós-colonial. Desse modo, esse enunciado agrupa uma série de publicações cujo teor busca reforçar uma inferioridade linguística, não só das línguas crioulas, diga-se de passagem, como de línguas autóctones presentes nas colônias. (2) O crioulo português de Cabo Verde é um dialeto do português e possui uma gramática. Aqui se insere grande parte da produção portuguesa do fim do século XIX e início do XX a respeito do tema: o crioulo acaba por ser reconhecido enquanto objeto linguístico, mas não necessariamente pelo seu vigor ou por características próprias, mas por representar um objeto de estudo cujas reflexões podem auxiliar na compreensão das leis de formação do próprio português. Aqui se enquadrariam as obras de Adolfo Coelho (1881), as noções descritas por Sá Nogueira (1957), a própria gramática do Baltasar Lopes (1957), assim como as definições de Antenor Nascentes e Rodrigo de Mendonça. (3) O crioulo de Cabo Verde não é um dialeto do português, mas é, sim, uma língua. O termo dialeto começa a cair em desuso, pouco a pouco, tendo em vista os avanços dos estudos sociolinguísticos e a denotação de inferioridade que o termo designa ao objeto, além de estabelecer uma falsa relação de dependência entre o Crioulo de Cabo Verde e o português, que já há algum tempo seguiam seus próprios caminhos — ainda que em contato linguístico, é claro. O próprio Sá Nogueira adota uma postura curiosa no prólogo já citado, ao dizer que o crioulo é uma língua como outra qualquer quando vista isoladamente, mas quando observada do ponto de vista macro, seria um dialeto do português, tal qual o português seria um dialeto do Latim (1957, p. 15). Aqui também se enquadrariam Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 144 escritos mais atuais, incluindo-se os de Celso Cunha (1981) e Tarallo e Alkmim (1987), os quais, já amparados por uma base teórica consolidada da sociolinguística no Brasil, lidam com o tema melhor munidos de conceitos que compreendem as relações de poder entre as línguas. Celso Cunha, por exemplo, concordando com Anthony Naro, efetua uma citação dele em sua obra Língua, Nação, Alienação que define o seguinte: “um crioulo é uma língua como qualquer outra, sujeita às mesmas regras gramaticais universais, uma vez que sua gramática é construída pelos que aprendem como primeira língua da mesma maneira que qualquer outra gramática” (Naro, 1973, p. 98 apud Cunha, 1981, p. 39). Silvio Elia, por sua vez, diz que os crioulos “não são um denominador comum espontâneo das línguas nativas” (1989, p. 43) e chega a se referir ao Crioulo de Cabo Verde como “dialeto (ou falar)” (idem, p. 44), em uma postura que pode ser considerada atrasada dados os avanços dos estudos linguísticos. Já Tarallo e Alkmim vão se referir ao tema assim: Línguas crioulas constituem um conjunto de línguas cuja história conhecida é ligada a uma situação de contato entre populações linguística, cultural e etnicamente distintas. Distinguem-se das línguas pidgin [...] por possuírem uma comunidade de falantes nativos e, consequentemente, por desempenharem funções sociais amplas como qualquer língua natural (Tarallo e Alkmim, 1987, p. 95, grifo nosso). O que podemos perceber é que, dentre os autores aqui citados, para além da noção de simplificação da gramática, em sua maior parte o conceito de línguas crioulas se apoia em aspectos sociais e/ou históricos, a partir da sua estreita relação com a colonização e, em muitos casos, com o processo escravagista e a subjacente desterritorialização forçada de africanos. Salikoko Mufwene (1998), na conferência intitulada “Creolization is a social, not a structural, Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 145 process”, na qual defende esse ponto de vista, resume o debate estrutural da seguinte forma: Embora haja razões sócio-históricas para isolar os crioulos em uma categoria separada — sem dúvida porque esperamos aprender algo novo ou especial sobre a linguagem (como quando estudamos qualquer outra língua, nesse caso) — ainda não produzimos aquela bateria particular de características estruturais que justificam tratá- -los como um tipo estrutural particular de linguagens (Mufwene, 1998, s.p., tradução nossa). Note que não há uma tentativa de rejeitar o aspecto social/histórico do próprio conceito de língua, mas perceber que não há nenhuma evidência puramente estrutural que reúna os crioulos enquanto uma categoria linguística e isso deve refletir na forma como se lida com os conceitos que o cercam dentro da própria linguística. A partir da observação dos exemplos apresentados, ainda que poucos, podemos perceber que as definições mais atuais ainda respondem a determinadas demandas que já não estão mais presentes em nossos tempos, mas permanecem como um “fantasma epistemológico”: a necessidade, por exemplo, de dizer que as línguas crioulas desempenham funções sociais amplas como qualquer língua natural dialoga diretamente com toda uma memória epistemológica e responde a um passado que negou não só seu status de língua como sua naturalidade ou espontaneidade. Tal pensamento está tão enraizado na própria epistemologia da linguística ao ponto de observarmos na citação já apresentada de Silvio Elia uma associação entre as línguas crioulas e uma espécie de evolução “não espontânea”, numa, talvez, tentativa de desnaturalização do processo de contato linguístico ou como se a história das demais línguas não fosse permeada por uma série de intervenções. Isto é, acreditando-se que é possível relegar o status de “natural” a uma língua e, se não bastasse, que é possível eximir Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 146 o natural da dimensão da ética, pela qual também deveríamos refletir a respeito desses processos (Rajagopalan, 2003). (4) O kabuverdianu é a língua materna do cabo-verdiano e, portanto, precisa ser equipada para ser capaz de tornar-se língua oficial de Cabo Verde. Aqui se inserem produções ainda mais recentes sobre a necessidade do ensino em kabuverdianu, bem como as produções acadêmicas que redigem resumos em kabuverdianu — a despeito das monografias e teses obrigatoriamente serem escritas em língua portuguesa — e ainda a intensa produção musical cabo-verdiana. Nesse ponto, acrescentaria a necessidade de, a partir de pressupostos da linguística crítica e da glotopolítica, reelaborar uma visão dos aportes teóricos da crioulística e, inclusive, repensar o posicionamento dessa área de estudos em relação à linguística de contato. Mais do que repensar os nomes da língua, essa reelaboração de conceitos é necessária. Vimos um movimento de mudança na nomeação da língua que pode ser observado nos exemplos apresentados: desde “língua de preto”, “giria ridicula”, “crioulo português” até outros não presentes no corpus apresentado como “crioulo de base lexical portuguesa” e, mais recentemente, alguns registros do kabuverdianu ou língua cabo-verdiana, utilizados principalmente na área acadêmica. O que ocorre é que, aquém da pretensa postura subversiva dessas últimas nomeações, vemos, por exemplo, nativos cabo-verdianos referirem-se à sua língua apenas como crioulo/kriolu, como pode ser observado inclusive em trecho do texto do Instituto do Patrimônio Cultural (IPC) de Cabo Verde quanto ao reconhecimento desse enquanto patrimônio imaterial nacional: “a língua cabo-verdiana, designação técnica correta ou crioulo/kriolu como é comum e carinhosamente apelidada pelos seus falantes” (IPC, 2019, grifo nosso). Acaba que, a depender do quanto insistimos na necessidade de repensar o nome, provocamos um maior distanciamento entre o linguista e o “leigo”, numa postura nada decolonial e que ignora o Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 147 fato de que antes é necessário rever grande parte do nosso aporte teórico. Nesse sentido, estão incluídos nesse enunciado-conceito trabalhos mais recentes da Crioulística e de Política Linguística que compreendem a necessidade de repensar o status e o corpus dessas línguas. Dentre eles, cabem destaque o de Dante Lucchesi (2019), que, sem negar o aspecto social, busca depreender do fenômeno da colonização quais foram, afinal, essas “condições favoráveis” do contato linguístico que permitiram a formação dos crioulos, reinscrevendo-os, de algum modo, na linguística de contato. Assim como cabe assinalar a extensa produção de Salikoko Mufwene (1998) numa empreitada de “desfetichizar” os crioulos enquanto objeto linguístico e encará-los dentro dessa extensa bibliografia do contato já construída, desmistificando algumas simplificações estruturais que lhes são atribuídas. Afinal, kabuverdianu ou crioulo de Cabo Verde? Mais do que responder a essa pergunta, esta abertura de capítulo buscou, na verdade, apontar para a infrutuosidade de tal discussão. É claro que há uma importância no modo como nomeamos as coisas e, principalmente, as línguas, mas tal discussão nesse momento não auxilia em nada na mudança nem em médio nem em longo prazo numa resolução dos conflitos linguísticos deixados como herança colonial. Nesse sentido, de que vale a Academia se distanciar cada vez mais dos falantes daquela língua ao sentenciarem um nome que não alterará a práxis social? Antes disso, devemos rever os próprios arcabouços teóricos da linguística, repensando a história de nossos conceitos, desmistificando hipóteses infundadas ou visões simplificadoras que são reproduzidas e, mesmo quando não ditas, ressoam nos novos enunciados que são produzidos enquanto uma sombra, um fantasma epistemológico. A fronteira entre línguas e dialetos é extremamente tênue e opaca, posto que a inteligibilidade não é um fator crucial para nenhuma das distinções (Mufwene, 1998, s/p). Logo em seu Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 148 surgimento, ou melhor, desde a sua inauguração pelo Europeu (que as anunciou), as línguas crioulas foram desconectadas das hoje chamadas línguas lexificadoras a partir de uma visão preconceituosa de corrupção da língua e até mesmo sob a justificativa de que os colonizados seriam incapazes de aprendê-las “corretamente”, excluindo-as de uma chamada “transformação natural da língua”. Ainda que com objetivos bastante opostos, muitos países em seus processos de independência se utilizaram de suas línguas crioulas como ferramenta identitária e de revolução (Devonish, 2008), sacramentando assim uma completa cisão entre as línguas e transformando qualquer visão variacionista em um pensamento conservador. A linguística se encontra nesse cenário cindido e no qual os conceitos e as posições respondem muito mais ao social e ao político do que ao estritamente linguístico, tal qual o próprio conceito de línguas crioulas: é fundamental, portanto, rechaçar o discurso do “imparcial”, posto que ele é uma impossibilidade epistemológica, e compreender e rever o lugar que o discurso da linguística ocupa hoje nessas disputas. Daí, inclusive, nosso continuum de enunciados-conceito ter abarcado desde os primeiros escritos sobre o crioulo de Cabo Verde, que antecederam a produção da revista aqui analisada, quanto textos de intelectuais que ainda estão a produzir: é necessário efetuar um processo de sobreposição crítica das condições de produção do linguista cabo- -verdiano que descreve e analisa o crioulo de Cabo Verde e das condições de produção do linguista brasileiro que analisa os escritos desse intelectual. O posicionamento linguístico de Claridade Ao longo de nosso trabalho, deixamos entrever alguns comentários que constituíram, de maneira mais direta, uma abordagem sobre a língua. De modo bastante esparso, principalmente nas notas que sucediam os poemas/batukus em crioulo, há pequenas análises de um ou outro caso específico no que Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 149 diz respeito ao léxico, à fonética ou à sintaxe do crioulo, muitas vezes efetuando comparações entre as variantes das múltiplas ilhas. Essa análise se dá normalmente pela figura de Baltasar Lopes e aqui vejo a necessidade de abrir um pequeno parêntese. Para além de seu interesse linguístico e por sua própria formação — lembremos que defendeu pela Universidade de Lisboa uma monografia que se tornaria a gramática publicada em 1957 —, Baltasar será imprescindível na manutenção das tiragens da revista. É importante observar que dos três fundadores, Manuel Lopes, em 1944, se mudou para os Açores por questões de trabalho; Jorge Barbosa nasceu e viveu na Ilha do Sal; já Baltasar, após o retorno de Portugal, fixou-se em São Vicente, onde se situavam — ainda que tenha havido muitas trocas, mas sempre dentro da ilha — as gráficas que imprimiam os exemplares. Assim, faz muito sentido para nós que, de algum modo, as notas ao leitor ou complementares/analíticas pós-texto sejam, em sua maioria, de autoria de Baltasar Lopes, que recebia os materiais dos outros dois fundadores e toda a gama de colaboradores da revista. Nuno Miranda, vindo da revista Certeza, irá já na edição de número 4 integrar a edição da revista, mas ainda assim não vemos textos autorais dele que não suas colaborações literárias. Nascido em São Vicente, poderia ter sido um dos membros diretamente ligado a montagem da revista e com relação direta com a impressão, porém as poucas referências biográficas encontradas referem-se a ele ter vivido a maior parte do tempo em Portugal. Assim, ainda que nos falte fontes a respeito do processo de montagem e impressão da revista, nos parece que Baltasar, incumbido de fechar o material e acompanhar a impressão, teve espaço para tecer considerações a respeito de temas que lhe convinham, num misto de oportunidade e engajamento. Veremos na esteira de nossa análise a respeito dos textos metalinguísticos presentes na revista que não existirá nenhum comentário pormenorizado a respeito do crioulo senão pelas palavras de Baltasar. De todo modo, não pretendemos aqui efetuar uma análise personalista, donde encararemos que as ideias trabalhadas pelo Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 150 intelectual refletem, em maior ou menor concordância, os ideais da revista como um todo. Veremos, ao longo desta análise, que tal tarefa não é forçosa: frutos de seu tempo e imersos em uma realidade, ainda que com muitas individualidades, bastante similar, os Claridosos responderão a um mesmo “chamamento” e, em alguma medida, às mesmas demandas. Na edição de número 1 da revista, inclusive, Manuel Lopes em texto intitulado “Tomada de Vista”, no tópico “Preparação”, afirma: O homem focado isoladamente não poderá servir de índice para a compreensão totalitária da comunidade a que pertence, porque pode constituir uma excepção colocada acima ou abaixo dessa comunidade. Para êsse indivíduo seria tanto mais perfeito quanto mais fiel fôsse sua realidade particular à realidade total da raça, isto é, quanto mais inteiramente assimilasse as virtudes e os defeitos que a caracterizassem (Claridade, Nº 1, 1936, p. 5). Se isso servia para já, daí, apontar para um modus operandi da revista, que propunha uma abordagem de “especificidades gerais” da cabo-verdianidade — típica do regionalismo literário —, também nos serve aqui para avaliar o caráter de “individualidade coletiva” da revista. Essa citação, assim como o texto como um todo, deixa bastante claro o acesso dos intelectuais cabo-verdianos às mais recentes teorias da Antropologia e da Psicanálise e o grande interesse em compreender o “espírito cabo-verdiano” sob a ótica do social. O corpus recolhido para essa seção é demasiadamente curto — apenas três —, o que de forma alguma reduz a importância das suas páginas ou o quanto permitem percebermos o conceito de língua crioula presente no imaginário dos intelectuais da Claridade. Sua periodicidade é estranha até mesmo para o padrão da revista, donde temos: “Notas para o estudo da linguagem das ilhas” (Claridade, Nº 2, 1936, p. 5; p. 10); “Uma experiência Românica nos Trópicos I” (Claridade, Nº 4, 1947, p. 15-22); “Uma experiência Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 151 Românica nos Trópicos II” (Claridade, Nº 5, 1947, p. 1-10). Há, é claro, como já abordado em capítulo anterior, comentários linguísticos curtos efetuados durante análises de contos populares ou notas às poesias crioulas construídas nos números sete e oito da revista, mas ensaios cuja temática central seja a língua não aparecem mais a partir do número seis. Não nos parece ter havido alguma sanção direta à revista por parte do governo português para que esses textos não saíssem, e também veremos que a abordagem linguística da revista não será a partir de um viés nacionalista/libertário. Interessante observar que, ainda que normalmente a revista seja lembrada pelo seu viés “pouco combativo” em relação à independência — como vimos na entrevista de Baltasar à edição comemorativa de 50 anos —, Baltasar fora vigiado de muito perto pelo governo português. Leão Lopes contou mais detalhes a respeito disso na biografia que escreveu sobre o claridoso intitulada Baltasar Lopes – Um homem arquipélago na linha de todas as batalhas (2017), a qual, infelizmente, não tivemos acesso completo. Em entrevista ao jornal cabo-verdiano Expresso das ilhas, contou um pouco do livro: PIDE (polícia política recentemente instalada na Praia) controla toda a actividade cívica e profissional de Baltasar e dos amigos com quem priva. É tido como “elemento que doutrina lenta e seguramente os que lhe estão ligados num sentido esquerdista e desnacionalizante”. Desde 1939 que ele já era conhecido da polícia política portuguesa. Foi o primeiro cabo-verdiano com ficha e anátema política de “desafecto à Nação”. Não é só controlado pela PIDE, fora das ilhas e dos territórios portugueses é pela Interpol, a polícia internacional com quem a portuguesa tem cooperação. Baltasar é discreto, apenas a família e um ou outro amigo mais próximo conhece bem alguns aspectos desse período difícil da sua vida. A PIDE julga-o envolvido no movimento de Amílcar Cabral, nas fileiras do PAIGC estão um filho e um sobrinho, toda a sua correspondência inclusive a familiar e periódicos estrangeiros são interceptados, a esposa também é controlada especialmente quando viaja para fora das ilhas, para Claridade: um farol na política linguística de Cabo Verde 152 cuidar da saúde ou visitar o filho no Brasil. Resta-lhe o quê? Como escrever? Como publicar? Baltasar é um homem profundamente amargurado nesse período. Adoece, seriamente (Lopes, 2017, s/p). O período referido pelo biógrafo é praticamente ao fim da publicação de Claridade, o que também auxilia no entendimento do fim da revista na década de 60: o cenário estava ficando insustentável, Jorge Barbosa já não estava bem de saúde nessa época e Baltasar também estava em uma situação de fragilidade. O interessante a se observar nesse comentário é que havia uma vigilância altiva sobre os Claridosos, de modo que suas publicações estavam a “andar sobre a corda bamba” do que podia ou não ser dito perante o governo português, o que poderia justificar, ao menos em parte, o tom “comedido” da revista. O primeiro texto de abordagem detidamente metalinguística da Claridade estará presente na edição de número 2, publicada em agosto de 1936, com o título “Notas para o estudo da linguagem das ilhas”. Já desde o título, temos uma questão a ser trabalhada: o uso do termo “linguagem”. Veremos que não há ao longo do projeto da revista a intenção de empreender uma luta ideológica a partir da concepção do crioulo enquanto uma “nova língua”. O uso de “dialecto” insere o crioulo enquanto uma variante bem estabelecida e coerente entre seus falantes. O ensaio abre com um pequeno resumo da situação da Crioulística da época, no qual Baltasar deixa muito clara sua posição, concordante com o filólogo português Adolfo Coelho, e rechaçando a ideia de Schuchardt, Luein Adam e P. Meyer que “consideram os crioulos meros produtos da aplicação da gramática dos idiomas indígenas a um vocabulário europeu” (1936, p. 5). E defende a posição de Coelho: Por seu lado, Adolfo Coelho sustentou que os dialetos crioulos obedeceram, na sua formação, a uma acentuada tendência de simplificação gramatical, para facilitar o entendimento entre vencedores e vencidos, “tendo na constituição essencial, como