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Carbon Team News vol.7

Monteiro, Thiago; de Souza, Manuel; Carvalho, Andréa; Batista, Matheus; Paiva, Mariele; Buss, Laura; Kerr, Rodrigo

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M RES V O L . 7 | D E Z E M B R O | 2 0 2 5 CARBON Team News CARBON Team News I S S N 2 6 7 5 - 8 6 3 6 M O N I T O R A R P A R A C O N H E C E R M O N I T O R A R P A R A C O N H E C E R IO-FURG FURG IGEO-UFBA UFBA CARBON Team News - Volume 7 10 de dezembro de 2025, Rio Grande - RS, Brasil. Revista anual de divulgação e distribuição gratuita. Edição, projeto gráfico e diagramação Thiago Monteiro, Manuel Macedo de Souza, Andréa Carvalho, Matheus Batista, Letícia Baldoni, Mariele Paiva, Laura Buss e Rodrigo Kerr. Fotografia de capa CARBON Team. Imagens e figuras Acervo CARBON Team | Canva Pro |Colaboradores. Contato Prof. Dr. Rodrigo Kerr Universidade Federal do Rio Grande, Instituto de Oceanografia, LEOC. Av. Italia, Km 8. Campus Carreiros, 96203-900, Rio Grande, RS - Brasil. [email protected] Citação Monteiro, T., de Souza, M. M., Carvalho, A., Batista, M., Baldoni, L., Paiva, M., Buss, L., e Kerr, R. (Eds.). CARBON Team News, Vol. 07, dezembro de 2025. LEOC, IO-FURG, Rio Grande, Brasil, 37 pp. ISSN: 2675-8636. https://doi.org/10.5281/zenodo.17850146 A revista CARBON Team News é um periódico anual, elaborado pelo CARBON Team e membros do Departamento de Oceanografia da UFBA, no âmbito do Projeto MARES. Os estudos desenvolvidos pelo CARBON Team ocorrem em parceira com diversos grupos e recebem apoio financeiro ou logístico por meio de projetos aprovados em editais das seguintes instituições: O CARBON Team é o grupo de estudos biogeoquímicos do Laboratório de Estudos dos Oceanos e Clima (LEOC), do Instituto Oceanográfico da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). O CARBON Team faz parte da rede Brasileira de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos (BrOA) e colabora com os seguintes grupos e redes de pesquisa: crise climática atual nos ensina uma lição fundamental sobre a importância do conhecimento contínuo para a ação transformadora. A devastadora descoberta do aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera só foi possível graças às décadas de monitoramento ininterrupto. Essas medições constantes do gás carbônico atmosférico permitiram que a ciência estabelecesse a inequívoca relação entre o aumento das emissões, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis e por mudanças no uso da terra, e o aumento da temperatura média do nosso planeta. O monitoramento não apenas revelou o problema, mas continua sendo essencial para rastrear suas variações globais e para guiar a busca por soluções. A máxima é clara: Conhecer é o requisito básico para preservar. Não podemos proteger o que, de fato, não conseguimos entender. No Brasil, com seus mais de 7.000 km de costa e a imensa riqueza da nossa Amazônia Azul, o monitoramento do oceano é um imperativo nacional. Monitorar o oceano é muito mais do que coletar e registrar dados sobre temperatura, salinidade, correntes, níveis de oxigênio e outras variáveis ao longo do tempo. Para que o monitoramento seja verdadeiramente efetivo e se traduza em ação, é vital ir além da coleta de dados. É preciso interpretar os dados adequadamente, transformando números brutos em informações e conhecimento acessível. Além disso, é preciso garantir que o conhecimento gerado chegue à sociedade e aos tomadores de decisão. Os dados por si só não garantem a informação. No entanto, essa não é uma tarefa trivial. Exige investimento significativo, dedicação de longo prazo para garantir uma boa frequência de dados, e o comprometimento inabalável de todos os setores. A ciência precisa ser ouvida e as comunidades locais e tradicionais, cujos conhecimentos ancestrais são inestimáveis, também devem ser respeitadas. Cientistas, comunidades e gestores públicos devem atuar em conjunto para maximizar o impacto. Esse esforço dedicado nos permite compreender o estado do oceano e a variação natural de seus processos, proteger os ecossistemas marinhos e sua biodiversidade única e trabalhar em direção ao Oceano Saudável, Resiliente e Previsível que almejamos. Felizmente, o Brasil tem dado passos importantes nessa direção. Os Programas Ecológicos de Longa Duração (PELD) têm realizado um trabalho excelente ao promover esforços de monitoramento robustos em diferentes ecossistemas costeiros e marinhos. Nesse sentido, a sétima edição da CTNews tem o prazer de reconhecer e destacar algumas dessas iniciativas vitais que estão presentes em diferentes ecossistemas do nosso litoral. Reconhecemos também o fundamental trabalho do Sistema de Monitoramento da Costa Brasileira (SiMCosta), que opera boias meteoceanográficas, fornecendo dados em tempo quase real essenciais para a Oceanografia Operacional do nosso país. O Brasil tem o dever de cuidar desse território marítimo vasto e diverso. Investir em conhecer e divulgar os ecossistemas costeiros e marinhos, que fornecem inúmeros serviços ecossistêmicos vitais (como regulação climática, alimentação, proteção costeira e pertencimento), é uma obrigação para o nosso futuro. O monitoramento é a fundação para garantir que a nossa Amazônia Azul permaneça saudável e produtiva para as próximas gerações. Editorial A Equipe Editorial Conteúdo 08 14 06 12 Minuanos que contam histórias Entrevista com Ella Pereira (SiMCosta) COP30 em Belém Racismo ambiental no Brasil Mar à vista 04 10 16 18 20 35 Conhecimentos tradicionais Whalefalls Vamos preservar a raça humana Qual o papel dos microorganismos no ciclo do carbono e no clima global? Oceano em perigo Quando o plástico chega aos recifes Concurso de fotos 28 35 36 22 24 26 30 29 31 34 32 A NATUREZA FALA Essas observações revelam que conhecer é condição para preservar. Um exemplo claro são as pradarias submersas de Ruppia maritima. Berçários naturais, onde peixes, camarões e caranguejos encontram abrigo e alimento, esse ecossistema também funciona como “filtro vivo”, melhorando a qualidade da água e armazenando carbono azul, essencial para mitigar os O Programa Ecológico de Longa Duração - PELD (MCTI-CNPq) que abrange o estuário da Lagoa dos Patos e região costeira adjacente (ELPA) teve início em 1998. Este monitoramento tem o objetivo de avaliar as variações na biota do ELPA em resposta a mudanças de curto, médio e longo prazo na hidrologia, relacionadas a fenômenos climáticos e a ação humana, durante o período de 1998-Atual. efeitos das mudanças climáticas. Acompanhando sua trajetória ao longo de décadas, descobrimos seu declínio — uma perda silenciosa, mas de grande impacto para todo o ecossistema. Entre os habitantes mais emblemáticos da região está o boto-de-Lahille (Tursiops truncatus gephyreus), uma população residente e singular. O monitoramento contínuo desse ambiente é essencial devido às características ecológicas, à alta produtividade biológica, à importância econômica das atividades portuárias e industriais na região do extremo Sul do Brasil. O vento minuano, que sopra firme nos Pampas Gaúchos e varre as margens da Lagoa dos Patos, carrega mais do que frio e memória cultural: ele nos lembra que a natureza fala em outra escala de tempo. São necessários anos, às vezes décadas, para entender o que esses ventos e águas têm a contar. É nessa escuta paciente que o PELDELPA atua desde 1998, registrando as mudanças do estuário da Lagoa dos Patos e da costa marinha Adjacente (ELPA). MINUANOS QUE CONTAM HISTÓRIAS POR MANUEL MACEDO DE SOUZA CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 04 Foto: Marianna Lanari (Pradaria de Ruppia maritma com floração de macroalgas ao fundo). Escaneie o QR code ao lado e acesse o site do PELD-ELPA para mais informações: Foto: André Colling (Ilha da Pólvora, Rio Grande) Conhecendo para cuidar https://doi.org/10.5281/zenodo.17885441 Monitorado por décadas, ele se tornou símbolo da ligação entre ciência e cultura: em 2022, foi reconhecido como Patrimônio Cultural e Natural da cidade do Rio Grande - RS. Cada avistagem de boto é também um lembrete de que conservar ecossistemas significa preservar identidades. Mas o ELPA não é feito apenas de grandes espécies. A verdadeira engrenagem da vida está nos microrganismos invisíveis. O fitoplâncton produz oxigênio e forma a base da cadeia alimentar marinha. O zooplâncton conecta essa produção aos peixes, enquanto o ictioplâncton (ovos e larvas de peixes) garante a renovação dos estoques. Bactérias e fungos, muitas vezes esquecidos, regulam ciclos de nutrientes, controlam populações e mantêm o equilíbrio da vida microscópica. Sem eles, a teia alimentar e os serviços ecossistêmicos do estuário simplesmente não existiriam. Outro elo fundamental é a pesca artesanal de beira de praia, prática que carrega tradição e sustento. Redes lançadas na praia do Cassino, em Rio Grande, e em outras praias revelam não apenas peixes, mas também histórias de famílias inteiras ligadas ao mar. Os registros de longo prazo do ELPA mostram mudanças nas espécies capturadas, no tamanho dos cardumes e no ritmo das safras, conectando o ambiente natural à vida de quem depende dele. Tudo isso mostra que o estuário oferece serviços ecossistêmicos vitais: sequestra carbono, abriga biodiversidade, sustenta pescarias, protege a linha de costa, inspira cultura e lazer, e alimenta a identidade de uma região inteira. Conhecer para preservar Serviços Ecossistêmicos do Estuário Conhecer, descrever e valorizar esses serviços é o primeiro passo para preservá-los em tempos de mudanças globais. Assim como o vento minuano sopra incansável, o PELD-ELPA continua a vigiar e a registrar as transformações da Lagoa dos Patos. Porque compreender os ventos da mudança é essencial para garantir que as próximas gerações herdem não apenas gráficos e dados, mas também a vida, a beleza e os serviços que este estuário único oferece ao Brasil e ao mundo. Patrimônio Cultural e Natural de Rio Grande - RS CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 05 Foto: Rodrigo Genoves. Boto-de-Lahille (Tursiops truncatus gephyreus) Foto: Acervo PELD-ELPA. Foto: Rodrigo Genoves. Isso significa que, todo o mês, pesquisadores coletam dados e informações sobre a qualidade da água, como temperatura, salinidade, oxigênio, nutrientes, carbono e clorofila, além de observar o comportamento de organismos microscópicos como o fitoplâncton. O monitoramento biogeoquímico do estuário da Lagoa dos Patos ajuda a acompanhar como o estuário responde a diferentes influências, desde fatores naturais, variações no clima e eventos extremos, até impactos causados pelas atividades humanas, como o uso da terra, o lançamento de poluentes e o excesso de nutrientes que chegam pelos rios. MONITORAR É CUIDAR: 10 ANOS DE OBSERVAÇÃO BIOGEOQUÍMICA DO ESTUÁRIO DA LAGOA DOS PATOS O estuário da Lagoa dos Patos nunca é o mesmo, e é justamente por isso que o estudamos: para entender suas mudanças e proteger tudo o que esse ambiente representa para a vida marinha e para as pessoas que dependem dele. https://doi.org/10.5281/zenodo.17885482 CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 06 Monitorar é, acima de tudo, uma forma de cuidar. Assim como levamos nossa bicicleta para revisão ou fazemos exames médicos de rotina, os ambientes marinhos também precisam ser acompanhados com frequência. Só assim conseguimos notar quando algo está fora do esperado e agir antes que o problema cresça. O estuário da Lagoa dos Patos é uma das maiores e mais importantes regiões costeiras do Brasil. Neste local, as águas doces da Lagoa dos Patos se misturam com as águas salgadas do oceano Atlântico, criando um ambiente dinâmico e rico em vida. Esse encontro de águas gera transformações que influenciam diretamente os processos naturais que mantêm o equilíbrio do ecossistema, como a circulação e a reciclagem de matéria orgânica e nutrientes. Além disso, essa mistura de águas afeta o crescimento do fitoplâncton, organismos microscópicos que são base da vida marinha. Por tudo isso, o estuário tem um papel fundamental na ligação entre os ambientes continentais e oceânicos e no funcionamento da região costeira como um todo. Há uma década, cientistas monitoram o estuário da Lagoa dos Patos. Mas o que isso quer dizer? Por Matheus Batista Conhecendo para cuidar Hoje sabemos que, dependendo da época do ano e das condições dos ventos e das chuvas, o estuário da Lagoa dos Patos pode ser dominado por águas mais doces, vindas dos rios, ou por águas mais salgadas, que entram do oceano. Essa variação natural muda completamente as características da água e afeta desde os tipos de fitoplâncton que se desenvolvem até a forma como o sistema captura ou libera carbono para a atmosfera. Também observamos que, em períodos de cheia, o excesso de nutrientes favorece o crescimento exagerado de algas, o que pode causar desequilíbrios ecológicos e até riscos à saúde. Além disso, o monitoramento de longo prazo tem permitido identificar tendências mais amplas e preocupantes, como o avanço da acidificação das águas, um dos sinais mais claros das mudanças climáticas em escala global. Essas informações são fundamentais para orientar políticas públicas, apoiar práticas sustentáveis de pesca e proteger os ecossistemas costeiros para as próximas gerações. A ciência nos mostra que não basta agir apenas quando os problemas aparecem. É preciso observar, entender e antecipar. Monitorar o estuário da Lagoa dos Patos ao longo desses 10 anos foi, e continua sendo, uma forma de proteger esse ambiente tão valioso para a vida marinha e para as pessoas que dele dependem. CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 07 Água doce do rio Água salgada do mar 10 anos de monitoramento: o que aprendemos? Imagem de satélite das águas da Lagoa dos Patos se espalhando pelo oceano Atlântico Sul Fotos: Matheus Batista CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 06 Estamos cercados por substâncias químicas! Mas isso não é de todo mal. Por Fiamma E. L. Abreu e Eliete Zanardi-Lamardo CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 14 SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS NO MEIO AMBIENTE Algumas substâncias são produzidas naturalmente pelos seres vivos e utilizadas para manutenção e ciclo da vida, além de sustentar os diversos ecossistemas do planeta Terra. Como exemplo, temos a celulose, lignina, lã, carvão e petróleo. Por outro lado, o homem começou a produzir novas moléculas para suprir as necessidades do mundo contemporâneo. É estimado que mais de 100 milhões de substâncias químicas sintéticas são aplicadas nos diversos setores da sociedade, seja para os cuidados de pele e cabelo (cosméticos), para melhorar a produção agrícola (pesticidas) ou curar doenças (medicamentos). Uma parte delas atinge os corpos d’água do planeta, como lagos, rios, estuários e o oceano. Portanto, é essencial monitorar a presença dessas substâncias ou, pelo menos, daquelas com potencial tóxico mais elevado, com capacidade significativa de causar danos ao meio ambiente e à saúde humana. Ainda na década de 1960, a cientista e escritora norte-americana Rachel Carson alertou o mundo sobre o perigoso (e inadequado) uso de certos pesticidas, através do livro “A primavera silenciosa”. Para realizar o manejo ambiental, é preciso caracterizar o ambiente, conhecer seus padrões naturais e os níveis basais das substâncias químicas em cada local. Programas de monitoramento ambiental, especialmente aqueles construídos com uma proposta de uma longa série temporal, revelam que níveis basais permitem a avaliação dos impactos ambientais e a magnitude do risco ecológico diante de qualquer alteração. As informações desses monitoramentos proporcionam soluções mais rápidas e eficientes para a proteção e mitigação dos ambientes impactados. Manchas de óleo nas praias de Pernambuco O livro, considerado revolucionário para a época, apontou que pesticidas com As agências ambientais criadas substâncias químicas como Dicloro-Difenil-Tricloroetano (conhecido como DDT), até então aplicados para combater insetos e salvar a população de doenças como a malária, estariam afetando a sobrevivência de pássaros, insetos não-alvos e peixes nos Estados Unidos da América. Esse momento foi um divisor de águas no movimento ambientalista que culminou com a criação da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA), em 1970. em cada país passaram a ser responsáveis pelo gerenciamento das atividades poluidoras e seus resíduos. Mundo em Mudanças https://doi.org/10.5281/zenodo.17885681 Foto: Alves et al., 2024 CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 15 Contraditoriamente, existem milhares de substâncias que possuem um limitado conhecimento científico sobre a toxicidade e seus níveis ambientais e, consequentemente, não possuem regulamentação quanto aos níveis seguros presentes nos ecossistemas. Essas substâncias são chamadas de Compostos Emergentes. Esgotos domésticos são uma das principais fontes desses compostos, pois carregam diversas substâncias químicas como fragrâncias, produtos de cuidado pessoal e de limpeza, antibióticos, além de retardantes de chamas, biocidas, entre outros. Num esforço para atender a esta demanda, redes de pesquisa nacionais, com diferentes especialistas, são formadas para caracterizar esses compostos sob os aspectos de concentração, toxicidade e risco ambiental. Este exemplo serve de modelo e incentivo para que novos grupos de pesquisa/pesquisadores unam esforços para implementação de estudos de longa duração, visando um monitoramento ambiental para avaliação de tendências e fornecimento de subsídios para mitigação de eventos crônicos ou até mesmo eventuais acidentes. É o caso da Rede Nacional de Estudos Anti-incrustantes (RNEA) (Figura 2) sob coordenação do Prof. Gilberto Fillmann (IO-FURG) e Prof. Italo Braga (UNIFESP) que, ao longo de quase 15 anos, vem investigando, por meio de monitoramentos espaciais e temporais, os diferentes cenários de uso, disposição e regulamentação de compostos utilizados em tintas anti-incrustantes, tais como o bem conhecido tributilestanho (TBT) e os emergentes (co-biocidas) ao longo da América Latina. Em 2019, o litoral do Nordeste brasileiro foi atingido por um derramamento de óleo no oceano Atlântico que alcançou mais de 2.500 km² da costa, incluindo áreas de proteção ambiental. Essa contaminação causou muitos efeitos aos ecossistemas aquáticos e às populações humanas que sobrevivem dos recursos naturais daquelas regiões. Graças aos estudos realizados anteriormente sobre contaminação por petróleo, mais especificamente sobre hidrocarbonetos, os cientistas conseguiram avaliar a extensão da contaminação e mensurar alguns efeitos causados por este terrível acidente. Hidrocarbonetos: compostos químicos predominantes no petróleo Foto: Alves et al., 2024 A Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), conhecida mundialmente como COP, é o principal fórum internacional para negociar ações globais de mitigação, adaptação e financiamento climático. Desde 1995, a COP reúne anualmente representantes de quase 200 países, que buscam (nem sempre com sucesso) avançar em compromissos coletivos diante das mudanças climáticas. A importância dessas conferências reside justamente na sua capacidade única de reunir governos, cientistas e sociedade civil em torno de decisões que moldam o futuro climático do planeta. As COPs funcionam como um grande ecossistema político-técnico. No centro, estão os delegados oficiais, que representam governos e são os responsáveis por negociar cada linha dos textos finais. Essas negociações ocorrem em salas fechadas, frequentemente tensas, longas e altamente técnicas, onde palavras específicas podem determinar o rumo de políticas ambientais globais por décadas. Paralelamente, a comunidade científica participa ativamente, oferecendo evidências atualizadas e instruções, escrevendo relatórios e dialogando com negociadores para garantir que as decisões reflitam o entendimento científico mais robusto. CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 16 COP30 em Belém: um marco simbólico, político e social nas discussões globais sobre mudanças climáticas – COP30 em Belém: um marco simbólico, político e social nas discussões globais sobre mudanças climáticas – Por Thiago Monteiro A sociedade civil completa esse tripé, com ONGs, povos indígenas, movimentos sociais, jovens e setores produtivos que pressionam, denunciam retrocessos e legitimam os avanços obtidos. Mundo em Mudanças A COP30 em Belém, realizada em novembro de 2025, teve uma relevância singular. Pela primeira vez, uma COP foi sediada na Amazônia — epicentro das discussões globais sobre clima, biodiversidade, justiça ambiental e transição energética. Realizá-la em uma cidade do Norte do Brasil significou expor delegações internacionais, muitas acostumadas ao conforto de metrópoles altamente desenvolvidas, ao choque de realidade de um país em desenvolvimento que já sofre intensamente os impactos climáticos: calor extremo, eventos de cheia e seca, alagamentos urbanos, desigualdade socioeconômica e infraestrutura limitada. Esse contato direto com a realidade amazônica talvez tenha exercido um papel pedagógico poderoso, aproximando os tomadores de decisão da urgência vivida cotidianamente por milhões de pessoas pelo mundo. S a l a d e n e g o c i a ç õ e s n a Z o n a A z u l d a C O P 3 0 Z o n a V e r d e d a C O P 3 0 https://doi.org/10.5281/zenodo.17885759 Foto: Thiago Monteiro F o t o : T h i a g o M o n t e i r o CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 17 Mundo em Mudanças Um dos objetivos centrais das COPs, e reiterado na COP30, é a criação de um fundo trilionário destinado a apoiar países pobres e em desenvolvimento na adaptação aos impactos das mudanças climáticas e na transição justa para energias renováveis. Essa reivindicação se sustenta no princípio de responsabilidade histórica: embora não tenham sido os principais emissores ao longo do último século, esses países são desproporcionalmente afetados pelos impactos globais. Ainda assim, muitos consideram que o maior legado da COP30 foi o extraordinário engajamento da sociedade civil: cerca de 200 mil pessoas participaram de eventos, debates e atividades paralelas, tornando-a a COP mais participativa da história. Outro resultado expressivo foi a vivência, por parte de delegações e chefes de Estado, da realidade concreta de uma região vulnerável que já enfrenta fortes impactos das mudanças climáticas, reforçando globalmente a narrativa de justiça climática e a urgência de ações reais, não apenas promessas diplomáticas! Durante a COP30, o governo brasileiro anunciou a demarcação de dez novas terras indígenas. Posteriormente, mais quatro territórios foram reconhecidos em diferentes estágios, totalizando 14 terras indígenas em processo de demarcação ou regularização. Esse avanço, impulsionado em boa parte pelo forte engajamento dos povos indígenas e da sociedade civil, com protestos e mobilizações pacíficas, representa um passo concreto para a proteção de vastas áreas de floresta natural, contribuindo diretamente para mitigar as mudanças climáticas. De fato, a COP30 viu o maior volume de participação indígena de sua história, com muitos delegados credenciados, além de manifestações públicas como a “Marcha Global dos Povos Indígenas” em Belém, que exigiu demarcação de terras, proteção de rios e participação efetiva nas decisões sobre clima. Esses protestos pacíficos foram fundamentais e representam o papel imprescindível da sociedade civil nas COPs: garantir que vozes historicamente marginalizadas sejam ouvidas e que decisões diplomáticas traduzam justiça e urgência real. Foto: Thiago Monteiro Os desastres ambientais que marcaram o Brasil nos últimos anos, como o rompimento da barragem em Brumadinho (2019) e as enchentes no Rio Grande do Sul (2024), deixaram rastros de destruição que vão muito além dos prejuízos materiais. Em ambos os casos, os impactos mais severos recaíram sobre populações negras, indígenas, periféricas e empobrecidas — um padrão que se repete e revela o que especialistas chamam de racismo ambiental. Dependendo da cor da pele e do território onde se vive, a exposição ao perigo pode ser maior — e as chances de receber apoio e reparação, bem menores. Ao cruzar dados socioeconômicos, relatos de moradores e estudos acadêmicos, fica evidente que não se trata de coincidência. Existe uma geografia da injustiça, onde a cor da pele e o CEP definem não só o risco, mas também o abandono. Como destacou o cacique indígena Sucupira após o rompimento da barragem: Para enfrentar essas realidades, é essencial pensar em políticas públicas que levem em conta raça, classe e território — e que coloquem as vozes dessas populações no centro das soluções. Falar sobre racismo ambiental é, portanto, uma forma de ampliar a consciência coletiva e de lutar por uma sustentabilidade que seja justa, inclusiva e reparadora. Afinal, proteger o meio ambiente também passa por proteger todas as pessoas — sem exceção. CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 18 Quando a lama e a água não levam só as casas Quando a lama e a água não levam só as casas racismo ambiental no Brasil P o r V i n í c i u s B a r c e l l o s "Fomos nos separando, teve muita divisão. Depois do crime, a gente não tem mais essa liberdade de um ir à casa do outro, tomar café, de um conversar com o outro. [...] Eu estou resistindo por causa da reparação, porque a Vale quer levar a gente para o sítio, para o hotel, mas eu não quero ir para o hotel, eu sou índio de território. E, mesmo que esse território esteja morto, ele ainda precisa da gente" — uma frase que revela a dimensão simbólica da perda. Esse debate também se conecta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente os que tratam da redução das desigualdades (ODS 10), cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11), combate às alterações climáticas (ODS 13) e paz, justiça e instituições fortes (ODS 16). 63,8% das pessoas atingidas diretamente pela lama da barragem eram não-brancas, segundo dados do grupo de pesquisa PoEMAS. No bairro Parque da Cachoeira (um dos mais afetados), esse número subia para mais de 70%. Além das perdas materiais, os danos afetaram a identidade e os laços culturais das comunidades, como no caso das etnias Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe, por exemplo, que tiveram seus territórios e rituais profundamente abalados. Brumadinho Rio Grande do Sul Entre as pessoas atingidas pelas enchentes de 2024, mais da metade da população preta (52%) relatou perdas, seguida pela população parda (40%). Enquanto entre os brancos, o índice foi de apenas 26%. Esses dados mostram que os chamados "desastres naturais" são, na verdade, consequências de decisões políticas e desigualdades históricas que empurram os mais pobres — muitas vezes não brancos — para as áreas mais vulneráveis das cidades Mundo em Mudanças https://doi.org/10.5281/zenodo.17885792 CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 19 Oceano como santuário Praia do Cassino - RS, 2025. Foto: Juliana Veríssimo O projeto "Mar à Vista!" é uma iniciativa da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), desenvolvida por meio do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Costa dos Corais de Alagoas (PELD - CCAL). Voltado para o público infantil, o projeto tem como cenário principal a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC) — a maior unidade de conservação marinho-costeira do Brasil, situada entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Entre os diversos produtos criados pelo projeto, destaca-se uma animação protagonizada por animais marinhos emblemáticos. Os personagens homenageiam personalidades alagoanas através de seus nomes, conectando ciência, cultura e identidade local. Além da animação, o "Mar à Vista!" inclui CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 20 Mar à Vista: Por Dâmaris Lima, Maria Júlia Teodósio & Natália Bandeira Vilar De cidade em cidade, formando guardiões do mar cartilhas de atividades, livro de colorir e livros de histórias voltados para a promoção da Cultura Oceânica. Com uma abordagem lúdica e criativa, o projeto articula educação ambiental com temas como ecologia, conservação, mudanças climáticas e impactos ambientais baseados nas pesquisas dos próprios cientistas do PELD que também formam a equipe de revisão dos roteiros. Também valoriza aspectos da cultura alagoana e nordestina, incorporando músicas autorais, sotaques regionais, costumes e práticas das comunidades costeiras. Em menos de 5 anos de atuação, o projeto já realizou mais de 50 atividades itinerantes de educação ambiental em 13 municípios de Alagoas e dois municípios da Bahia, alcançando cerca de 5 mil crianças em escolas públicas, shoppings, Oceano e Sociedade https://doi.org/10.5281/zenodo.17885819 F o t o s : A u t o r e s E n g a j a r c r i a n ç a s e a d u l t o s é f u n d a m e n t a l ! historicamente distante da sociedade. Por isso, o Mar à Vista também realiza ações voltadas à conscientização de turistas sobre a importância da preservação do oceano. Esse envolvimento é essencial diante da degradação ambiental, das práticas insustentáveis e dos desafios sociais correlatos. Inspirar e engajar crianças e adultos é fundamental para promover a consciência e o cuidado com a APACC e com o meio ambiente. O modelo pedagógico adotado, adaptável às particularidades e necessidades locais, tem potencial para ser replicado em diversas regiões. Para conhecer melhor o projeto acompanhe as redes sociais no Instagram @maravistaprojeto, e o canal no YouTube com todos os episódios disponíveis. hotéis e outros espaços públicos municipais. As atividades são planejadas de acordo com a faixa etária e incluem contação de histórias, pintura corporal, exibição do desenho animado, gincanas, distribuição de materiais educativos e exposições de desenhos. As duas primeiras temporadas da série animada do projeto no YouTube têm mais de 20 mil visualizações. A playlist com acessibilidade já soma 1.500 visualizações, enquanto a playlist de músicas ultrapassa 30 mil execuções. Além disso, foram produzidas 6 cartilhas educativas, com mais de 15 mil impressões distribuídas. Além de despertar o interesse infantil, essas ações também buscam envolver os adultos com a Cultura Oceânica, Acesse aqui o canal do Mar à Vista no Youtube Personagens produzidas pelo projeto CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 21 F o t o s : A u t o r e s Acredito que um olhar sob um outro prisma de como essas comunidades tradicionais interagem e percebem o território. O pesquisador que transita pelos territórios de povos e comunidades tradicionais no contexto de um programa de monitoramento tem a oportunidade de interagir de forma mais profunda com a comunidade. Tudo começa com aquela interação despretensiosa, perguntando: “Como vocês chamam este bicho ou aquela planta?”. Depois, aquela curiosidade de saber se eles nomeiam todos os bichos e plantas ou só aqueles que possuem interesse na captura ou no uso alimentar ou medicinal. No final vamos descobrindo que além da arte da confecção dos apetrechos e do ofício da pesca, somos brindados com a percepção de que o conhecimento tradicional também passa adiante um complexo universo de relações e explicações que possuem muitas similaridades com a forma com que os cientistas buscam construir o conhecimento científico. Os vários pontos de contato entre conhecimento tradicional e conhecimento científico nos dão a possibilidade para uma rica variedade de pesquisas em parceria com as comunidades. Eu trabalho no ambiente estuarino (a conexão entre o rio e o oceano) e, interagindo com os pescadores, percebi que nós somos bastante generalistas em nosso conhecimento, sendo capazes de explicar e prever o comportamento da hidrodinâmica de diversos estuários, enquanto o pescador precisa ter um conhecimento mais específico e refinado do seu local de trabalho. Ele conhece bem a profundidade ao longo do curso do estuário, a hidrodinâmica e a influência da lua e dos ciclos da chuva, que irão trazer ou afastar cada tipo de pescado que vai levar para casa. Enquanto nós trabalhamos com as marés de sizígia, quadratura, preamar, estofa e baixamar, o pescador inclui a “maré de lançamento”, a “cabeça d’água” e muitas outras nomenclaturas que ajudam a refinar a descrição e prever o pescado que vai entrar no estuário, ou maré, como eles costumam chamar. O que o cientista ganha com uma interação mais profunda com povos e comunidades tradicionais? Monitoramento ambiental, povos tradicionais e preservação ambiental Por Yuri Costa Além de entender as variáveis do ambiente, os pescadores possuem um preciso sistema de classificação que, se calibrado à sua localidade, pode ser extremamente útil ao monitoramento, inclusive, permitindo o automonitoramento. O automonitoramento representa uma importante modalidade de participação popular, dando autonomia e valorizando o conhecimento tradicional. Este tipo de prática pode, inclusive, ajudar na conservação das espécies, uma vez que as comunidades tradicionais conhecem muito bem o ciclo reprodutivo das espécies capturadas, permitindo um refinamento do período de defeso, ajustado a cada localidade. Oceano e Sociedade CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 22 https://doi.org/10.5281/zenodo.17885853 Foto: Canva CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 23 Estudando os nomes populares dos siris da Reserva Extrativista Baía do Iguape, no Recôncavo Baiano, para fins de monitoramento, descobrimos que eles variam entre as comunidades. Um dos nomes que mais variaram foi o da espécie invasora Charybdis hellerii, que nas entrevistas tivemos muita dificuldade em identificar quando os pescadores perceberam sua chegada. Entretanto, um dos nomes populares pode nos dar uma pista. Em algumas comunidades ele é chamado de “Siri da Brahma”, famoso personagem de uma propaganda de cerveja que circulou nos anos 2000. Precisamos muito ouvir e valorizar esse conhecimento para que floresça a fagulha da coprodução. Em comemoração ao Dia do Oceano, fui convidado para participar da semana de meio ambiente e fazer uma fala sobre mudanças climáticas. Fui a algumas escolas e perguntei aos estudantes, filhos e filhas de pescadores: “Quando seus pais vão trabalhar, eles vão pescar no rio ou no mar?”. Alguns, envergonhados ao me corrigir, respondem: “Eles vão na maré”. Neste momento eu aproveito para compartilhar que a palavra estuário vem do latim Aestuarium, que quer dizer maré. "Precisamos muito ouvir e valorizar esse conhecimento para que floresça a fagulha da coprodução." Foto: Yuri Costa Devemos reconhecer os grandes mestres como Seu Edison, pescador no estuário do Rio Jaguaripe, na Baía de Todos os Santos. Certa vez, enquanto fazíamos uma atividade de pesquisa de campo que buscava entender como o marisma facilita o estabelecimento do manguezal, ele nos explicou a sincronia da desova do caranguejo com a liberação de propágulos de manguezal (as sementes do mangue), de forma que os juvenis possam se alimentar dos propágulos que estão brotando durante esse período. Ele narrou de forma extremamente poética o processo que nós chamamos de co-evolução. Hoje temos um projeto de mestrado estudando esta temática na universidade. Foto: Yuri Costa CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 30 Desbravadoras do oceano: Desbravadoras do oceano: conheça as aves marinhas conheça as aves marinhas Por Vitória Muraro e Fernanda C. L. Valls As aves marinhas são animais adaptados à vida no ambiente marinho. Muitas passam a maior parte da vida em alto-mar e só se aproximam da terra durante a época de reprodução. No verão, milhares de aves formam colônias, constroem seus ninhos e criam seus filhotes na região antártica. No final do verão, as aves abandonam essas colônias e iniciam longas viagens pelo oceano em busca de alimento. Os pinguins permanecem no oceano Austral, que circunda o continente Antártico, já os petréis cruzam oceanos inteiros, podendo alcançar o Atlântico Sul, chegando à costa brasileira, uma área essencial para sua alimentação. A partir desses deslocamentos, as aves marinhas atuam na conexão de ambientes distintos. Monitorar seus movimentos é uma forma de entender como os ecossistemas oceânicos estão interligados, além de identificar áreaschave para a biodiversidade e auxiliar a estabelecer estratégias de conservação eficientes. Uma das formas de realizar o monitoramento das aves marinhas é por meio da observação embarcada, ou seja, feita a bordo de navios que percorrem várias regiões do oceano. Durante a navegação, pesquisadores registram as aves avistadas, anotando informações como espécie, número de indivíduos, comportamento e condições ambientais. Na região antártica, essa atividade é viabilizada com o apoio logístico da Marinha do Brasil, que possibilita o desenvolvimento da ciência brasileira no continente gelado. O Projeto IMPACTANT, coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), realiza o monitoramento sistemático das aves marinhas no trajeto entre o Brasil e a Antártica, bem como no oceano Austral. Acontece no Mar https://doi.org/10.5281/zenodo.17849991 Fotos: Vitória Muraro Fotos: Vitória Muraro Fotos: Vitória Muraro CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 31 A atividade é realizada em parceria com o Laboratório de Aves Aquáticas e Tartarugas Marinhas (LAATMFURG, @laatmfurg). Essas informações ajudam a mapear a diversidade e as rotas migratórias, identificar áreas de uso prioritário pelos animais, avaliar padrões ecológicos – como variações espaciais e sazonais na distribuição das aves – e detectar a influência de impactos antrópicos. O conhecimento gerado por esses estudos reforça o papel do Brasil na conservação das aves marinhas, as quais percorrem milhares de quilômetros e dependem da cooperação internacional para sua proteção. Sua conservação exige esforço conjunto entre governos, cientistas e a sociedade. Observar aves em alto-mar é mais do que contar espécies – é acompanhar histórias de adaptação, movimento e equilíbrio nos oceanos. Essa é uma ferramenta essencial para ampliar nosso entendimento sobre os mares e contribuir para a preservação da biodiversidade marinha. Vamos preservar a espécie humana! Por Maria Luiza Rech Capuci Neste texto, não vou insistir em dizer que você deve preservar o oceano e todo o seu ecossistema. Isso você sabe e já ouviu muitas vezes! Ao invés de dizer que o aumento da acidez dos oceanos, causado pela ação humana e pelas mudanças climáticas, já branqueou corais e matou ostras no noroeste do Pacífico, vamos dizer que a acidificação crescente pode afetar gravemente as populações de crustáceos, moluscos e peixes. Isso impacta diretamente a vida humana, já que esses animais são importantes fontes de alimento e renda para milhões de pessoas. Ao invés de mencionar que 90% das aves marinhas possuem fragmentos de plástico no estômago ou que cerca de 8 milhões de toneladas de plásticos entram nos oceanos anualmente, vamos falar que, em 2020, cientistas italianos identificaram microplásticos na placenta de mulheres grávidas. E não direi que o oceano absorve 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de dióxido de carbono e produz 50% do oxigênio que precisamos. Vamos enfatizar aspectos “mais próximos” de nossa rotina. Por exemplo, o outono é a melhor época para navegar, pois há maior estabilidade climática. Ahh... e não vou mencionar que, conforme dados da ONU, o plástico é responsável pela morte de 100 mil animais marinhos por ano. Mas direi que uma pesquisa da USP com a Unicamp encontrou, pela primeira vez, microplástico no cérebro humano. Enfim, está na hora de começarmos a falar de uma maneira que as pessoas realmente entendam a seriedade da situação. Vamos falar sobre a preservação da raça humana e sua economia. Quem sabe assim, começam a preservar o OCEANO! https://doi.org/10.5281/zenodo.17850009 Fotos: Vitória Muraro Qual o papel dos microrganismos no ciclo do carbono e no clima global? Qual o papel dos microrganismos no ciclo do carbono e no clima global? Os microrganismos marinhos são extremamente versáteis e participam de diversos processos de ciclagem de materiais nos oceanos em escala global. As cianobactérias e microalgas são os principais produtores primários marinhos, realizando a fotossíntese. A atuação dos microrganismos fotossintetizantes no Ciclo do Carbono é essencial para a manutenção da vida no planeta, regulando os estoques de carbono nos oceanos e influenciando também o clima global. Essa atuação consiste em dois grandes processos que governam o fluxo de carbono no ambiente marinho: a bomba biológica de carbono e a bomba microbiológica do carbono. Por Andréa de O. R. Franco; Tallita C. L. Tavares; Rodrigo Maggioni e Marcelo O. Soares Figura 1: Esquema gráfico mostrando os fluxos de carbono nos oceanos. Na figura, pode-se observar a difusão do CO₂ da atmosfera para os oceanos (seta cinza), a absorção e fixação deste CO₂ pelo fitoplâncton por meio da fotossíntese, a transferência do carbono ao longo da cadeia alimentar (setas vermelhas), a perda de carbono pela respiração (setas pretas), a bomba biológica de carbono (setas azuis) e a bomba microbiológica de carbono (setas laranja). Bomba Biológica de Carbono Bomba Biológica de Carbono O fitoplâncton é a base das cadeias alimentares marinhas. Através da fotossíntese, esses organismos utilizam o carbono, na forma inorgânica de CO₂ dissolvido na água e o convertem em matéria orgânica. A atividade fotossintetizante do fitoplâncton, que se concentra nas camadas superiores da coluna d’água, principalmente na chamada *zona eufótica tende a reduzir a concentração de carbono na superfície dos oceanos. Como consequência, os oceanos, por difusão, podem absorver e remover mais CO₂ da atmosfera. O carbono incorporado pelo fitoplâncton é transportado para os níveis tróficos superiores através das cadeias alimentares marinhas (Figura 1; Setas vermelhas). Parte desse carbono retorna para a água e para a atmosfera após ser convertido em dióxido de carbono pela respiração e outros processos metabólicos do próprio fitoplâncton, dos consumidores primários e secundários ao longo da teia trófica marinha (Figura 1; setas pretas). No entanto, parte da matéria orgânica produzida pelo fitoplâncton não é consumida e pode afundar e ser depositada nos sedimentos dos oceanos, retirando carbono das camadas superficiais e enviando para zonas profundas, onde pode ficar retido por longos períodos (Figura 1; setas azuis). As estimativas indicam que essa porção da matéria orgânica que atinge o fundo marinho sofre um processo muito lento de *remineralização, podendo ficar retida nessa forma, sem retornar para a atmosfera, por em torno de 150 anos. Em escala geológica, isso equivale a tempo suficiente para influenciar nas trocas de carbono entre a superfície dos oceanos e a atmosfera. Esse processo de remoção do carbono da superfície e do sumidouro no fundo dos oceanos é conhecido como Bomba Biológica de Carbono - um processo natural que auxilia a remover dióxido de carbono da atmosfera, inclusive parte das emissões humanas dos gases de efeito estufa. Contudo, o aumento da concentração desses gases na atmosfera, que gera a atual emergência climática que vivemos, desafia a capacidade desse sistema biológico tão antigo de manter sua eficiência. *Zona eufótica: Região superficial da coluna d’água nos oceanos, onde há luz suficiente para a fotossíntese realizada pelo fitoplâncton. *Remineralização da matéria orgânica: processo de degradação, ou seja, conversão das formas orgânicas complexas em formas químicas inorgânicas simples. Acontece no Mar CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 32 https://doi.org/10.5281/zenodo.17850028 Um detalhe interessante é que alguns grupos do fitoplâncton afundam mais rapidamente do que outros. Dessa forma, a composição das comunidades fitoplanctônicas influencia na taxa de exportação do carbono para o fundo marinho. O tamanho celular, bem como a presença de algumas estruturas mais pesadas, tendem a aumentar as taxas de sedimentação de alguns grupos de microalgas. As diatomáceas são apontadas como um dos principais grupos do fitoplâncton que contribuem para a Bomba Biológica de Carbono, pois possuem uma parede celular de sílica que funciona como lastro, aumentando a taxa de sedimentação e deposição no leito marinho. Além disso, as diatomáceas apresentam diferentes espécies em uma ampla faixa de tamanho, variando do picoplâncton (0,2 - 2 *μm), nanoplâncton (2 - 20 μm) até o microplâncton (20 - 200 μm). As diatomáceas grandes tendem a afundar mais rápido e são consideradas importantes contribuidoras para a Bomba Biológica de Carbono. Células em bom estado de conservação podem ser encontradas a 4.000 metros de profundidade. Os dinoflagelados são outro grupo de organismos fitoplanctônicos que contribuem para a bomba biológica de carbono, especialmente porque muitas espécies têm um envoltório denso de celulose. No entanto, estudos utilizando análises de DNA para identificar os organismos que formam a matéria orgânica em sedimentação nos oceanos indicaram que mesmo grupos do fitoplâncton de pequeno tamanho celular, sem estruturas “rígidas e pesadas”, não podem ser totalmente negligenciados nesse processo de sequestro de carbono para o fundo dos oceanos. Figura 2: Grupos do fitoplâncton marinho (A) Diatomácea - barra = 10 μm e (B) Dinoflagelado - barra = 20 μm As bactérias e arqueas marinhas degradam a matéria orgânica e formam comunidades complexas, apresentando-se na forma livre ou aderidas às partículas orgânicas em sedimentação. Esses organismos consomem a matéria orgânica dissolvida ou particulada, capturando o carbono e disponibilizando-o novamente para as teias alimentares, uma vez que esses microrganismos heterotróficos incorporam o carbono em suas células e podem ser consumidos por organismos que servirão de alimento para níveis tróficos superiores sucessivamente. A Bomba Microbiológica de Carbono é considerada um mecanismo complementar para a remoção do carbono, sendo um processo resultante da atividade dos microrganismos heterotróficos. Esse processo é menos estudado e compreendido do que a Bomba Biológica de Carbono. As bactérias e arqueas heterotróficas tendem a degradar primeiro as formas mais instáveis de carbono, deixando as formas mais difíceis de degradar se acumularem no ambiente (Figura 1; setas laranjas). O progressivo aumento dessas formas “pouco degradáveis” de carbono orgânico favorece o acúmulo de carbono por longo período, em torno de 100 anos; impedindo o seu retorno para a atmosfera, contribuindo para amenizar o efeito das mudanças climáticas globais. Esse progressivo consumo e acúmulo do carbono orgânico dissolvido são chamados de Bomba Microbiológica de Carbono (Figura 1; Setas laranjas) e podem causar a retenção do carbono por longos períodos, influenciando os estoques desse elemento no oceano. A Bomba Biológica de Carbono e a Bomba Microbiológica de Carbono ocorrem simultaneamente e sua atuação depende de diversos fatores físico-químicos e biológicos. Os fatores ambientais influenciam diretamente na diversidade, abundância e composição das comunidades de microrganismos que participam desses processos. Além disso, diversos impactos ambientais causados pelo ser humano podem afetar a eficiência dos processos das bombas, o que pode ter sérias consequências sobre o clima global. Estudos utilizando o DNA desses organismos estão sendo realizados para melhorarmos a nossa compreensão sobre a composição das comunidades de microrganismos marinhos e suas capacidades metabólicas, incluindo a capacidade de degradação e mineralização de matéria orgânica e, consequentemente, o seu papel no ciclo do carbono nos oceanos e no controle do clima global. Bomba Microbiológica de Carbono Bomba Microbiológica de Carbono *μm: Micrômetros CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 33 O problema não para por aí: os plásticos acumulam poluentes químicos e, ao entrarem na cadeia alimentar, chegam até os humanos através do consumo de frutos do mar. Os oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta, são essenciais para a vida na Terra. Eles regulam o clima, fornecem alimento e abrigam uma incrível diversidade de espécies. No entanto, essa riqueza está sendo sufocada por um inimigo silencioso: o plástico. A cada ano, milhões de toneladas desse material chegam aos mares, formando ilhas de lixo, intoxicando animais e até mesmo voltando para nosso prato através dos frutos do mar e peixes que comemos. CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 34 Oceano em Perigo: Oceano em Perigo: Como o plástico está asfixiando nossos mares P o r M i c h e l e M i r a n d a O perigo dos microplásticos Quando pensamos em poluição plástica, logo imaginamos garrafas, sacolas e redes de pesca abandonadas. Mas o maior vilão pode ser invisível a olho nu: os microplásticos. Essas partículas minúsculas (menores que 5 mm) surgem da quebra de plásticos maiores ou já são fabricadas assim, presentes em esfoliantes cosméticos e em tecidos sintéticos. Peixes, tartarugas e até os pequenos animais do plâncton (organismos que vivem à deriva no oceano) confundem estes microplásticos com comida. Ao ingeri-los, esses animais sofrem obstruções digestivas, intoxicação e, muitas vezes, morrem. Estudos já encontraram microplásticos no sal marinho, na água engarrafada e até no sangue humano. Diante dessa crise, países e organizações estão agindo. A ONU lançou a Década dos Oceanos (2021-2030), com metas para reduzir a poluição marinha. Algumas medidas importantes incluem: Iniciativas globais contra a poluição • Proibição de plásticos descartáveis: Países como Canadá e membros da União Europeia baniram canudos, cotonetes e outros itens de uso único. • Tecnologia de limpeza: Projetos como The Ocean Cleanup usam barreiras flutuantes para coletar plástico em rios e oceanos. • Acordos internacionais: Em 2022, a ONU aprovou um tratado para reduzir a poluição por plástico no planeta, com metas obrigatórias para os países. O Que Você Pode Fazer? A solução também está em nossas mãos. Pequenas mudanças no dia a dia fazem uma grande diferença: A solução também está em nossas mãos. Pequenas mudanças no dia a dia fazem uma grande diferença: 1. Reduza o uso de plástico descartável: Troque sacolas plásticas por ecobags, use garrafas reutilizáveis e evite talheres de plástico. 2. Recicle corretamente: Separe o lixo e descarte plásticos em pontos de coleta seletiva. 3. Participe de mutirões de limpeza: Grupos organizam ações em praias e rios – uma forma prática de ajudar. 4. Consuma com consciência: Prefira produtos com embalagens biodegradáveis e evite cosméticos com microplásticos (como alguns esfoliantes). Acontece no Mar https://doi.org/10.5281/zenodo.17850101 o p l á s t i c o a o s S . C a v a l c a n t e e P o r Y a s m i m CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 35 Um Futuro Possível Apesar dos dados alarmantes, ainda há esperança. Desde que a humanidade começou a agir, algumas espécies de baleias e tartarugas apresentaram recuperação. Se governos, empresas e cidadãos se unirem, podemos reverter esse cenário. O oceano não é apenas um recurso – é a nossa casa. E protegê-lo é garantir um planeta saudável para as próximas gerações. Um estudo realizado em duas praias de Pernambuco — Enseada dos Corais e Carneiros — revelou como esse problema atinge até os ambientes mais frágeis. Q u a n d o c h e g a r e c i f e s Pesquisadores encontraram 320 partículas de microplástico em recifes formados por pequenos animais marinhos, como o Petaloconchus sp. e o Brachidontes exustus (moluscos), que constroem estruturas fundamentais para a sobrevivência de outras espécies. A maioria das partículas era composta por fibras, mas também foram observados fragmentos, pedaços emaranhados e filmes finos de plástico. Nos recifes de Petaloconchus sp., a quantidade foi ainda maior, possivelmente porque sua estrutura mais fechada favorece o acúmulo. Entre os plásticos identificados estavam o poliestireno (PS), polipropileno (PP), poliéster (PES) e a poliamida (PA), todos de uso comum em embalagens, roupas e descartáveis. Além disso, durante o período de chuvas, as partículas se mostraram ainda menores, já que a água arrasta resíduos urbanos diretamente para o mar. Em um mundo cada vez mais dependente do plástico , torna-se urgente repensar hábitos e incentivar alternativas mais sustentáveis. Estudos são fundamentais para monitorar a extensão real do problema, identificar onde a contaminação está se acumulando e entender seus impactos sobre organismos e ecossistemas inteiros. J o s é S . R o s a f i l h o S a m a r a https://doi.org/10.5281/zenodo.17850116 Esgoto adentrando o mar, de Ana Carolina M. C. do Rio. Ilha da Marambaia - RJ, 2025. Geociências e sua complexidade: Terra, água e atmosfera, de Pedro Lucas S. S. Gama. Recife - PE, 2025. Rios: Janela da vida, de Ana Clara M. E. Campus Universitário da UFPA, Belém - PA, 2025. Enquanto sobem ao céu, inundam o mar em sombra, de Maria Luiza R. Capuci. Balneário Camboriú - SC, 2025. Uma seleção especial das diversas imagens lindas que recebemos. CONCURSO DE FOTOS CARBON TEAM NEWS VOL. 7 | 36 Despertar do dia: O Grito de um Novo Começo, de Daniel S. Santana. Imbituba - SC, 2024. Imensidão, de Kevem Solano Guimarães. Praia do Cassino - RS, 2025. Maré Cassineira, de Vinícius Barcellos. Praia do Cassino - RS, 2025. O amanhecer na Amazônia, de Pedro Lucas S. S. Gama. São Caetano de Odivelas - PA, 2024. Ruínas do Hotel El Aduar, de Camila B. Bellini. Praia do Cassino - RS, 2025. Oceano como Santuário, de Juliana Veríssimo. Praia do Cassino - RS, 2025 Impacto de resíduos sólidos no mangue, de Roberto Sena. Salinópolis - PA, 2025. Necessidade de Oceano, de Juliana Veríssimo D. T.. Itajaí - SC, 2024. Sentinela do amanhã, de Juan D. S. Melo. São Caetano de Odivelas - PA, 2025. Plástico no bentos, de Yasmim Samara S. Cavalcante. Praia de Gaibu - PE, 2025. Imensidão, de Stefani B. Goulart. Oceano Atlântico Sul, 2024. Itapuã aos meus olhos, de Karine Geovana de Oliveira. Salvador - BA, 2025. CONCURSO DE FOTOS Uma seleção especial das diversas imagens lindas que recebemos. M res W W W . C A R B O N T E A M . F U R G . B R