CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 1 Acordos de codeshare entre companhias aéreas: revisão da literatura com auxílio de inteligência artificial Lucas T. B. Mendes Alessandro V. M. Oliveira Instituto Tecnológico de Aeronáutica, São José dos Campos, Brasil Autor correspondente. Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Praça Marechal Eduardo Gomes, 50. 12.280-250 - São José dos Campos, SP - Brasil. E-mail address:
[email protected]. Resumo: Acordos de codeshare são contratos que permitem o compartilhamento de assentos de um mesmo voo entre duas ou mais companhias aéreas. Esses acordos, amplamente difundidos na aviação comercial como resposta a ambientes de alta competitividade, possibilitaram a expansão das malhas aéreas sem custos ou riscos adicionais para as empresas envolvidas. A literatura apresenta efeitos ambíguos associados à prática, com evidências de aumento de oferta e redução de preços em situações de complementariedade de rotas, ao mesmo tempo em que aponta impactos anticompetitivos em mercados nos quais as companhias atuam como concorrentes. A revisão da produção científica ao longo do tempo, incluindo contribuições teóricas e estudos de caso, é essencial para compreender a evolução desses acordos e suas implicações, especialmente no contexto brasileiro, marcado por características próprias e histórico regulatório particular. Assim, este artigo realiza uma revisão da literatura sobre codesharing, com ênfase no mercado brasileiro, e utiliza a ferramenta computacional Litmaps, baseada em técnicas de inteligência artificial, para apoiar a análise contextual das publicações por meio de suas relações de citação. O objetivo final é identificar e avaliar as principais evidências acumuladas ao longo das décadas sobre os efeitos desses acordos no Brasil. A análise conjunta das contribuições permite delinear o estado atual do conhecimento, caracterizar especificidades observadas no mercado brasileiro e identificar lacunas que podem orientar estudos futuros. Palavras-chave: transporte aéreo, companhias aéreas, alianças estratégicas, antitruste, defesa da concorrência. I. INTRODUÇÃO Ao longo de décadas, acordos de codeshare vêm desempenhando papel central na malha aérea global, ilustrando como companhias de diferentes países e alianças expandem sua conectividade por meio de cooperação comercial. Esses arranjos permanecem relevantes porque permitem que empresas ampliem sua presença em mercados externos sem necessidade de operar diretamente todos os trechos, prática que se tornou ainda mais estratégica diante da crescente competição internacional. Por definição, acordos de codeshare são contratos de cooperação entre duas ou mais companhias aéreas, nos quais uma ou mais delas podem vender assentos como “companhia aérea comercializadora” em voos operados por outra empresa, a “companhia aérea operadora” (Alderighi et al., 2015). Dessa forma, as empresas passaram a comercializar e obter receita em rotas operadas por terceiros, ampliando suas redes de atendimento e reduzindo barreiras logísticas e regulatórias, sobretudo após o Deregulation Act de 1978, marco da desregulamentação do mercado americano. Esse mecanismo de cooperação passou a se consolidar tanto no mercado americano quanto no europeu, impulsionado pela difusão de acordos em inúmeras rotas internacionais. Um dos fatores centrais dessa expansão foi a redução de barreiras regulatórias para que companhias aéreas pudessem comercializar seus serviços em mercados estrangeiros por meio de acordos de cooperação, conforme destacado por Brueckner (2001). Com o avanço dessa prática, diferentes modalidades de codeshare começaram a ser adotadas em diversos países, cada uma adaptada às características operacionais e regulatórias de cada mercado. A possibilidade de ampliar a rede de rotas atendidas sem assumir custos ou riscos adicionais e, ao mesmo tempo, melhorar indicadores como fatores de aproveitamento dos voos, tornou-se um incentivo importante para a adesão crescente a esses arranjos. As evidências presentes na literatura mostram que os estudos sobre codesharing apresentam resultados mistos e ambíguos, no sentido de que algumas análises apontam possíveis benefícios ao mercado e à sociedade, enquanto outras sugerem efeitos potencialmente negativos. Os efeitos positivos discutidos nos estudos teóricos costumam estar associados à redução de custos e riscos para as companhias aéreas, ao ganho de escala operacional e à consequente possibilidade de ampliar a oferta e reduzir preços, especialmente em rotas com menor atratividade comercial. Por outro lado, há um conjunto consistente de estudos que identifica resultados distintos quando o codeshare é aplicado em rotas nas quais as empresas atuam como concorrentes. Nesses casos, os efeitos observados tendem a refletir o caráter
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 2 anticompetitivo da cooperação, gerando possíveis aumentos de poder de mercado e reduzindo a pressão concorrencial entre as companhias envolvidas. Neste âmbito, a revisão da literatura sobre codesharing, considerando contribuições teóricas e suas aplicações ao longo dos anos, é importante para permitir a compreensão abrangente do tema e suas interfaces, em destaque devido à típica aglomeração da prática de codesharing à acordos de alianças estratégicas mais abrangentes entre companhias, o que tende a resultar em conclusões imprecisas e não individualizadas (Sampaio e Urdanoz, 2022). No contexto brasileiro, a adoção de codeshare como estratégia de mercado teve suas particularidades próprias; a indústria da aviação civil brasileira é um dos poucos exemplos onde houve um breve período de reregulação do mercado após poucos anos da desregulação. Como destacado por Bettini e Oliveira (2008), para combater um suposto excesso sistêmico de capacidade e competição exacerbada no mercado aéreo, o Governo Federal do Brasil, a partir de 2003, assumiu uma postura direcionada à incrementar a regulamentação do mercado, além de incentivar o firmamento de acordo de codeshare entre duas das maiores companhias aéreas brasileiras: TAM e Varig. Desde os primeiros acordos de codeshare firmados no Brasil, ao fim da década de 1990, diversos exemplos foram firmados e executados no mercado brasileiro, em diferentes contextos, abrangências de cooperação, rotas cooperadas e períodos de parceria. Considerando os efeitos diversos e ambíguos destes acordos à sociedade, em aspectos de oferta e preço, e a importância da realização e analise de estudos empíricos a respeito destes dispositivos, este estudo tem como enfoque a avaliação da contribuição científica recente a respeito da análise dos efeitos destes acordos sob o mercado brasileiro. Para a devida revisão da literatura a respeito de algum tema ou campo do conhecimento científico, a utilização de ferramentas e metodologias diversas se faz importante para que se possa avaliar devidamente a base de pesquisa como um todo, suas características e perspectivas sobre o tema. Ademais, o desenvolvimento nos últimos anos de ferramentas computacionais de inteligência artificial se estendeu para uso em diversos campos educacionais e de pesquisa, para potencializar a compreensão e análise de dados científicos e dos processos de aprendizagem e ensino (Chen et al., 2020). Diversas são as evidências de impactos positivos associados ao uso de ferramentas computacionais em diversas instituições, incluindo projetos de pesquisa e de ensino (Mabic et al., 2022). Desta forma, o objetivo principal apresentado para este estudo é a realização de revisão de literatura a respeito de acordos de codeshare, com enfoque na identificação e análise de artigos empíricos sobre o contexto brasileiro recente, para reunião das principais evidências dos efeitos destas práticas à sociedade. É importante que a diversidade dos efeitos destes acordos, amplamente abordados na literatura, sejam investigados no contexto de sua aplicação a rotas ou companhias aéreas brasileiras. A ferramenta computacional Litmaps será utilizada como suporte, para otimização da visualização gráfica e pesquisa de artigos científicos para as Bases de Revisão. Litmaps é uma plataforma web que dispõe de uma representação gráfica conforme revisão de literatura, permitindo aos usuários a identificação de temas e perspectivas, bem como a visualização e exploração das relações entre diferentes conceitos e ideias dentro de determinado campo; através de algoritmos de processamento em linguagem natural e Machine Learning, a aplicação analisa o texto de artigos acadêmicos e cria uma representação visual da revisão bibliográfica (Sulisworo, 2023). Além de organizar citações e conexões entre publicações, o Litmaps utiliza técnicas de inteligência artificial para estimar similaridades temáticas, sugerir artigos relevantes e reconhecer padrões dentro de grandes bases de dados, o que amplia a capacidade de exploração da literatura e facilita a compreensão de sua estrutura. A estrutura do artigo é a seguinte. Após esta introdução, a seção II descreve a metodologia, detalhando os procedimentos de busca, seleção e análise dos estudos, bem como as ferramentas empregadas. Na seção III, dedicada à literatura de acordos codeshare, são discutidos os principais trabalhos identificados, incluindo a base inicial de revisão, a base final de estudos e os estudos aplicados ao contexto brasileiro. A seção IV examina os padrões observados na literatura brasileira sobre acordos de codeshare, destacando características recorrentes e limitações. Por fim, a seção V reúne as conclusões, sintetizando os achados, identificando lacunas e sugerindo caminhos para pesquisas futuras. II. METODOLOGIA A literatura sobre acordos codeshare no transporte aéreo é ampla e consolidada, com grande volume de estudos que abordam desde fundamentos teóricos até análises empíricas em diferentes mercados. Assim como ocorre em diversas áreas do conhecimento, a expansão contínua dessa produção científica torna cada vez mais necessária a utilização de ferramentas de inteligência artificial para organizar informações, compilar resultados e identificar padrões relevantes dentro de bases extensas. Nesse contexto, a pesquisa e reunião dos artigos que compõem esta revisão foram direcionadas a estudos que tratam explicitamente de codesharing ou que aplicam metodologias em contextos nos quais a prática de
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 3 compartilhamento de voos está presente, tanto em cenários internacionais quanto no mercado brasileiro. Foram consultadas publicações em periódicos e fóruns reconhecidos, obtidas por meio de buscas no Periódico CAPES, Elsevier, Google Scholar e Web of Science. Após reunidos, esses artigos foram incorporados ao Litmaps para permitir uma visualização estruturada da base, esclarecendo como esses trabalhos se relacionam entre si e qual é sua relevância dentro do tema analisado. O Litmaps é uma plataforma digital voltada ao mapeamento e à visualização de literatura científica, disponível em www.litmaps.com. A ferramenta organiza artigos em representações gráficas que mostram a evolução de um campo de pesquisa ao longo do tempo. Cada publicação é exibida como um círculo cuja posição reflete sua data de publicação e seu grau de relevância para o tema, enquanto o tamanho do círculo é proporcional ao número de citações recebidas. As linhas que conectam diferentes círculos representam relações de referência cruzada entre trabalhos. Essa estrutura permite identificar com clareza quais estudos são centrais na literatura, quais autores desempenham papéis relevantes na formação do campo e como as ideias se propagam entre publicações ao longo dos anos. Além disso, o Litmaps utiliza técnicas de processamento de linguagem natural e aprendizado de máquina, componentes essenciais de sistemas de inteligência artificial, para analisar resumos dos artigos, reconhecer padrões, estimar similaridades temáticas e sugerir conexões ou agrupamentos relevantes. Esse caráter de IA amplia significativamente a capacidade de exploração da base, permitindo que o pesquisador identifique tendências, lacunas e clusters conceituais de maneira mais rápida e eficiente. Figura 1 - Ilustração de mapa de relevância de um artigo, via Litmaps (Segovia e Baumgartner, 2024) As representações gráficas desenvolvidas pela aplicação Litmaps levam em consideração a relação de citações entre autores e artigos em específico; os mapas gerados permitem aos pesquisadores a visualização da evolução da pesquisa a respeito de diferentes tópicos ao longo do tempo (Sulisworo, 2023). No Litmaps, as informações dos artigos são analisadas de forma integrada, e os artigos avaliados são dispostos graficamente de acordo com a conectividade e a importância de cada publicação dentro do tema estudado. Esses artigos são posicionados segundo a data de publicação no eixo X e a relevância para o tema no eixo Y. Cada publicação adicionada à base é representada por um círculo, cujo tamanho é proporcional ao número de citações recebidas, enquanto as linhas que ligam os círculos representam referências cruzadas entre os artigos. A Figura 1 mostra uma ilustração gerada pelo Litmaps que exemplifica esse funcionamento. Nela, cada círculo corresponde a um artigo, e seu tamanho indica o volume de citações acumuladas. Os círculos posicionados mais acima no eixo vertical representam publicações consideradas mais relevantes para o tema, enquanto os círculos à direita indicam estudos mais recentes. As linhas que interligam os pontos funcionam como um mapa de referências, mostrando quais artigos citam quais outros e revelando aglomerações temáticas e trajetórias de influência dentro do campo. Linhas mais escuras ou mais espessas normalmente indicam conexões mais fortes ou frequentes, enquanto linhas mais claras sugerem relações secundárias. Essa visualização permite ao leitor identificar
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 4 rapidamente artigos centrais, clusters de pesquisa, evolução temporal e padrões de citação que estruturam o desenvolvimento da literatura. De forma semelhante a Segovia e Baumgartner (2024), a ferramenta Litmaps será utilizada neste artigo como ferramenta de suporte à estruturação da base de revisão de literatura avaliada, ao longo das etapas da metodologia, provendo uma visão da rede de relação de citações e identificação dos principais artigos e autores sobre o tema. Esta visualização integrada relação de artigos e autores, tomada com base nos insights obtidos com utilização do Litmaps, será utilizada para o aprofundamento da revisão da literatura sobre o tema. É importante destacar que o uso da ferramenta computacional atribui ao estudo algumas limitações e premissas significativas, consideradas na condução desta revisão. O principal aspecto é o de busca e integração de artigos à bases de publicações, que considera apenas artigos publicados em revistas internacionais relevantes e de alto padrão, não considerando contribuições científicas ao tema de artigos de seminários, revistas menores ou regionalizadas, teses de doutorado, dissertações de mestrado, entre outras. Em adição, para além do relacionamento traçado pela ferramenta entre citações e referências entre autores e artigos, o Litmaps também dispõe de mecanismos de relacionamento e busca com base em informações do conteúdo dos artigos, como tema, escopo ou metodologia; porém, a ferramenta se limita apenas à avaliação dos resumos dos artigos, incorrendo em imprecisões na classificação pelo não aprofundamento no conteúdo dos artigos, em sua íntegra. Adicionalmente, como a plataforma por padrão exibe nos mapas apenas o nome do primeiro autor seguido do ano da publicação, existe o risco de induzir um viés de simplificação das citações, no qual o pesquisador tende a mencionar somente o autor principal e deixar de incluir os demais nomes ou de empregar corretamente a cláusula “et al.”, reduzindo a precisão e a completude das referências. Desta forma, a primeira etapa da metodologia proposta consistiu na estruturação da base inicial de artigos relevantes sobre o tema, no Litmaps. Em seguida, foi realizada uma análise aprofundada desta base inicial levantada, com a utilização de ferramentas de categorização e busca otimizada da ferramenta computacional e identificação das principais publicações sobre acordos de codeshare no contexto brasileiro. Esta segunda etapa da metodologia, de análise da base e filtro de artigos de interesse sobre o tema, resulta na consolidação da base definitiva de revisão de literatura proposta pelo estudo. Outro aspecto relevante sobre a literatura é que acordos de codeshare são tipicamente referenciados e analisados em estudos de caso e cenários de acordos em que seu uso é associado a alianças estratégicas e mais abrangentes entre companhias aéreas; é necessário que sejam bem delimitados os conceitos avaliados pelos artigos, para que a revisão considere apenas de aspectos de práticas de codesharing em si. Desta forma, artigos que analisam acordos de cooperação sob o âmbito de alianças estratégicas, sem distinção de codeshare das demais práticas do mercado, foram desconsideradas da base final consolidada. A partir da base final de revisão estruturada, foram avaliados e identificados os artigos mais relevantes para o estudo proposto, considerando o enfoque de artigos empíricos sob acordos no mercado brasileiro. Estes artigos selecionados serão, portanto, objeto de análise aprofundada para reunião de evidências e considerações advindas da literatura. Esta terceira e final etapa permitirá a análise do panorama da aplicação destas ferramentas de cooperação no Brasil, principal objetivo do estudo, considerando a quantidade de publicações evidenciadas, tipos de acordo analisados, e escopos de estudo empírico aplicados sob o contexto brasileiro. III. LITERATURA DE ACORDOS CODESHARE O mercado americano de aviação civil, historicamente caracterizado por ser um dos mais desenvolvidos e relevantes do mundo, têm-se como referência de práticas regulatórias e relacionamento entre companhias do setor. Como marco importante do desenvolvimento do setor aéreo nos Estados Unidos, Ato de Desregulação (Deregulation Act), em 1978, foi responsável por uma disrupção no mercado, com a remoção do controle de órgãos federais sob aspectos de tarifas, rotas, e entrada de novas companhias no mercado (Smith Jr. e Cox, 2025). Uma das principais consequências evidenciadas devido ao Ato de Desregulação foi o aumento na pressão por competitividade no mercado, devido à redução das barreiras de entrada e critérios regulatórios e de mercado a serem atendidos. Em resposta à essa crescente competitividade, a maior parte das companhias americanas com redes Hub-andSpoke aderiram a alguma forma de aliança de cooperação, sendo uma destas medidas os acordos de codeshare em rotas de sua rede, prática que se consolidou e se expandiu ao longo dos anos (Ito and Lee, 2007; Yimga, 2018). Sampaio e Urdanoz (2022) discorre em seu estudo sobre o que seriam as cinco principais razões pelas quais companhias aéreas aderem a acordos de codeshare, resumindo bem os principais aspectos citados pela literatura: Permite a expansão rápida da rede de rotas atendidas por companhias aéreas, sem custos ou riscos adicionais, permitindo inclusive o acesso a mercados eventualmente restritos;
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 5 Permite a cooperação para coordenação de frequências e horários de voos programados, em rotas em que as companhias atuem paralelamente; Permite o compartilhamento de plataforma, investimentos e poder de marca de companhias aéreas parceiras, potencializando o marketing e as vendas dos produtos cooperados; Permite a redução de custos marginais através da cooperação para operação em rotas aéreas, como em campanhas de propaganda e materiais de divulgação dos produtos; e Podem gerar cooperações mais abrangentes entre as ações e operações de companhias aéreas, como procedimentos processamento de bagagens e passageiros em conexão de forma otimizada. Dentre as diversas características e efeitos previstos da adoção de acordos de codeshare, há predominância de evidências de estudos que consideram que os efeitos positivos à sociedade, como aumento de oferta em rotas menos atrativas e redução de preços de passagens aéreas, seriam advindos da redução de custos e riscos marginais das companhias aéreas, devido à redução da competitividade e das incertezas sob a operação nestas rotas. Em importante estudo de Brueckner (2001) sobre o tema, o autor analisa as práticas de codeshare no mercado à época e conclui que estes podem ser eficientes e benéficos à sociedade a cooperação contribuir para eliminação da dupla marginalização. Estudos como Brueckner e Whalen (2000), Brueckner (2003) e Whalen (2007), de alta relevância na literatura sobre o tema, representam exemplos dentre diversos estudos que evidenciam que preços de produtos não cooperados tendem a sofrer impacto devido à dupla marginalização, enquanto produtos advindos de acordos de cooperação ou alianças entre as companhias aéreas seriam significativamente inferiores. Os impactos decorrentes nos mercados e principalmente à sociedade, entretanto, não são apenas positivos; há um caráter ambíguo dos efeitos de codeshare à sociedade, em aspectos de oferta e preços ao consumidor, onde o balanceamento de efeitos positivos e negativos depende do mercado e formato do acordo firmado (Alderighi, 2015). Rotas ponto-a-ponto em redes onde há complementariedade entre as rotas das companhias cooperadas, a redução dos custos marginais gera uma tendência de redução dos preços das tarifas aéreas, ao passo que, em rotas onde ambas as companhias atuam paralelamente, a redução dos efeitos de competitividade e maior barreira de entrada a novas companhias tendem a gerar um impacto negativo nos preços de suas tarifas (Goetz e Shapiro, 2012; Sampaio e Urdanoz, 2022). Os efeitos se tornam ainda mais complexos, quando consideradas caracterizações diversas tomadas na adoção de codesharing; por exemplo, se gestão de assentos compartilhados com base em sistemas real-time ou balanceamentos pré-definidos, se os acordos resultam em produtos online, virtuais ou tradicionais, de acordo com o tipo de tipos de rotas compartilhadas, e da forma que estas são operadas (Brueckner, 2001; Alderighi, 2015; Yimga, 2018). A literatura sobre o tema converge para o entendimento de que cada acordo é firmado em um contexto, considerando uma dada estrutura de regulação, posicionamento de companhias aéreas no mercado e operações em determinada rota, e influencia os mercados de formas distintas. No Brasil, o primeiro caso de cooperação entre companhias aéreas ocorreu em 1959 e é frequentemente considerado uma iniciativa pioneira no cenário mundial, anterior inclusive à consolidação de arranjos semelhantes em corredores como Nova York-Boston-Washington. Nesse acordo, Varig, Cruzeiro e Vasp passaram a emitir um bilhete unificado que podia ser comprado em qualquer uma das companhias e utilizado no primeiro voo disponível da ponte aérea RioSão Paulo, independentemente de qual empresa o operasse. Esse formato permitia ao passageiro embarcar na próxima partida, conferindo ao bilhete uma interoperabilidade incomum para a época. O acordo visava combater a postura agressiva da Real Aerovias no mercado, companhia aérea que supostamente realizava práticas predatórias e competição desleal no mercado (Folha de São Paulo, 2019). Este caso, embora não configurasse ainda um acordo de compartilhamento formal de assentos em uma rota específica, é geralmente interpretado como um arranjo preliminar de cooperação operacional, anterior aos formatos que mais tarde seriam reconhecidos como codeshare. Isso porque não havia coordenação estruturada da oferta de assentos ou integração programada das capacidades das empresas, elementos característicos dos acordos de codesharing posteriores. A respeito de codeshare em si, as primeiras práticas no Brasil datam de 1998, com o acordo firmado entre Vasp e Transbrasil. Nos primeiros anos da década de 2000 a seguir, estes acordos passaram a ser difundidos no setor aéreo brasileiro, com medida adotada pelas companhias aéreas brasileiras para superação de dificuldades financeiras decorrentes da alta do preço de combustíveis, dentre demais fatores conjunturais (Lovadine e Oliveira, 2005; Britto, 2020). Avançando mais vinte anos na história, o mercado brasileiro continuou a evidenciar acordos de codeshare ao longo dos anos: acordo entre Gol e American Airlines desde 2019, permitindo a exploração de rotas internacionais, operadas por companhias de país estrangeiro; breve acordo firmado entre Azul e Latam entre 2020 e 2021, contemporâneo ao período de grandes restrições às operações aéreas devido ao COVID-19; discussões acerca de acordo de codeshare a se
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 6 firmar entre Azul e Latam se iniciaram em 2024, mas enfrentam cenário complexo de estabelecimento. O histórico de difusão destas práticas no Brasil ao longo dos últimos anos, de alta relevância e evidência no mercado, foi acompanhado pelo desenvolvimento de publicações e produção científica sobre o tema, delimitação de temática que foi tomado como escopo final da revisão a seguir. III.1. BASE INICIAL DE REVISÃO DA LITERATURA Como ponto de partida do estudo proposto, a estruturação da base inicial de revisão de literatura levou em consideração a adição dos principais artigos e autores sobre o tema abrangente de Alianças Estratégicas e acordos de codeshare, considerando estudos empíricos e teóricos, sob acordos de rotas nacionais ou internacionais, em todo o mundo. Devido às similaridades nas condições de aplicação e exemplos de caso de acordos de codeshare e alianças mais abrangentes em conjunto, tanto no mercado como na literatura, diversas publicações englobam acordos de codeshare dentre alianças mais abrangentes firmadas, ou desenvolvem estudos a respeito de codeshare, mas sem distingui-los de acordos de imunidade antitruste, com mecanismos adicionais. A pesquisa destes arquivos foi feita através de fontes convencionais e consolidadas de artigos científicos, mas se baseou principalmente na utilização da ferramenta de pesquisa integrada ao Litmaps, à medida que a base foi sendo constituída. Desta forma, esta pesquisa inicial contemplou artigos sobre codeshare em si, bem como exemplos relevantes da literatura que analisem codeshare associado a alianças, para priorização da consolidação de uma base inicial abrangente e para que a ferramenta de pesquisa do Litmaps conseguisse utilizar a base abrangente como referência de artigos diversos que tratem sobre codeshare, na estruturação da base inicial de artigos. Figura 2 - Ferramenta de pesquisa de artigos do Litmaps, com base na sinergia entre referências dentre os artigos da base (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Esta etapa de pesquisa resultou em uma base de 60 artigos, dispostos graficamente no Litmaps conforme apresentado na Figura 1 abaixo. Os artigos estão apresentados em círculos cinza escuro, com tamanhos proporcionais à sua interconectividade de citações e referências dentro da base, e posicionados conforme sua relevância para o tema (quantidade total de referências), no eixo vertical, e data de publicação, no eixo horizontal. Por exemplo, “Gualini, 2024” é apresentada com tamanho mediano, com significativa conectividade com artigos da base, porém possui poucas referências totais considerando demais publicações. Desta forma, o círculo que representa este artigo se posiciona à direita e abaixo na representação da base. Estes critérios para disposição visual dos artigos da base no Litmaps serão mantidos nas demais análises, imagens e versões da base de artigos científicos a serem apresentados neste estudo. Com a consolidação da base inicial de revisão, a análise dos artigos adicionados leva à identificação de diversos artigos relevantes sobre o tema. Os artigos encontrados são focados, em sua maioria, no estudo de acordos de codeshare,
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 7 acordos de imunidade antitruste e medidas prévias à grandes fusões ou aquisições entre companhias aéreas, considerando o mercado americano e majoritariamente sobre rotas internacionais. Figura 3 - Base inicial de artigos científicos do estudo, considerando acordos de codeshare e Alianças Estratégicas entre companhias aéreas (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Dentre estes artigos, Park e Zhang (2000) se apresenta como exemplo de artigo que foi inicialmente adicionado à base de revisão, mas que não distingue estes acordos em seu estudo. Apesar de bastante relevante para o tema, considerando seu posicionamento no mapa da base inicial e número de referências na literatura, sua contribuição para avaliação dos efeitos ao consumidor sobre as tarifas aéreas, demanda e excedentes ao consumidor, considerando quatro grandes alianças entre companhias aéreas sob o mercado do atlântico norte e análise de dados entre 1990 e 1994, não destacou a prática de codesharing em seu estudo empírico, não permitindo a avaliação da influência destes acordos, proposto pelas etapas seguintes desta revisão. Figura 4 - Representação gráfica do artigo Park (2000) e demais artigos com referências compartilhadas (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Outros exemplos mais recentes de artigos identificados na base inicial com alto grau de relevância associado, mas que não distinguem os aspectos e efeitos de codeshare em especifico em seus estudos, são: Zou et al. (2023), que avaliam os impactos da aliança entre American Airlines e JetBlue sob aspectos de concentração de mercado e tarifas aéreas, com análise de dados entre 2019 e 2021 de rotas de aeroportos relevantes de Boston e Nova Iorque, e; Ivaldi et al. (2022), que utiliza metodologia específica para análise dos efeitos de alianças na distribuição de tarifas aéreas no mercado doméstico, com análise de dados da Pesquisas de Origem e Destino de Companhias Aéreas (DB1B) entre 2008 e 2019. As Figuras 5 e 6 abaixo indicam as representações gráficas dos artigos no Litmaps, considerando suas conexões através
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 8 de referências com demais artigos e indicando seu alto grau de relevância para o tema. Estes estudos, dentre outros identificados na base inicial que não especificam acordos de codeshare, serão selecionados e excluídos da base de artigos, como passo seguinte da metodologia proposta no sentido de consolidação da base final de revisão. Figura 5 - Representação gráfica do artigo Zou (2023) e demais artigos com referências compartilhadas (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Figura 6 - Representação gráfica do artigo Ivaldi (2022) e demais artigos com referências compartilhadas (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) III.2. BASE FINAL DE ESTUDOS A etapa seguinte da metodologia proposta consiste na estruturação da base final de artigos sobre o tema, e identificação dos artigos mais relevantes ao enfoque escolhido, e se iniciou com a exclusão dos artigos que não diferenciam acordos de codeshare de demais alianças analisadas com enfoque seus estudos. Seguido de diversas etapas de pesquisa, realizadas através da ferramenta de busca integrada ao Litmaps, foi obtida a base final como apresentada na Figura 6 abaixo, contendo 54 artigos sobre o tema e com destaque em verde a sete artigos identificados como mais relevantes, dado o objetivo de análise do contexto brasileiro.
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 9 Figura 6 - Base final de artigos científicos do estudo, considerando acordos de codeshare em específico e destaque a artigos relevantes identificados (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Nesta base final, é importante destacar a presença de artigos de alto grau de relevância para o tema, considerando a categorização feita pela ferramenta Litmaps, que servem de benchmark sobre a literatura sobre codesharing e contribuem para “ancorar” as bases de pesquisa inteligente da ferramenta Litmaps nestes exemplos dentre as principais contribuições científicas sobre o assunto. A base possui artigos publicados desde 2000 até os dias atuais, com contribuições de autores importantes ao longo dos anos, como: Jan K. Brueckner, que possui relevantes contribuições teóricas relacionadas aos primeiros acordos globais de codeshare, no fim do século XX (Brueckner e Whalen, 2000; Brueckner, 2001; Brueckner, 2003; Brueckner et al., 2011); Figura 7 - Publicações do autor Jan K. Brueckner em destaque, dentre os artigos da base final (Elaboração própria. Fonte: Litmaps) Philip G. Gayle, que desenvolveu diversos estudos empíricos a respeito dos efeitos econométricos de acordos de codeshare e alianças mais abrangentes, no mercado e na sociedade, com predominância de analise do mercado americano (Gayle, 2007; Gayle, 2008; Gayle, 2013; Gayle e Brown, 2015; Gayle e Xie, 2019)
CAER | Communications in Airline Economics Research , 202117833 , 202 5 . @ 202 5 Center for Airline Economics, Brazil. 16 AGRADECIMENTOS O segundo autor deseja agradecer ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), concessão n. 305439/2021-9, e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), concessão n. 2024/01616-0. Os autores agradecem a Mauro Caetano, Marcelo Guterres, Evandro Silva, Giovanna Ronzani, Rogéria Arantes, Cláudio Jorge Alves, Bruno F. Oliveira e aos participantes do Simpósio de Economia do Transporte Aéreo (SETA25). Todos os erros e omissões são atribuídos aos autores. REFERÊNCIAS Alderighi, M., Gaggero, A. A., & Piga, C. A. (2015). The effect of code-share agreements on the temporal profile of airline fares. Transportation Research Part A: Policy and Practice, 79, 42-54. Bettini, H. F. A. J., & Oliveira, A. V. M. (2008). Airline capacity setting after re-regulation: The Brazilian case in the early 2000s. 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