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www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 195 O Boletim de Conjuntura (BOCA) publica ensaios, artigos de revisão, artigos teóricos e empíricos, resenhas e vídeos relacionados às temáticas de políticas públicas. O periódico tem como escopo a publicação de trabalhos inéditos e originais, nacionais ou internacionais que versem sobre Políticas Públicas, resultantes de pesquisas científicas e reflexões teóricas e empíricas. Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. BOLETIM DE CONJUNTURA BOCA Ano VII | Volume 24 | Nº 71 | Boa Vista | 2025 http://www.ioles.com.br/boca ISSN: 2675-1488
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 196 PROJETO DE VIDA DE PESSOAS IDOSAS NO BRASIL: UMA REVISÃO DE ESCOPO Tainá Victória Machado 1 Silvia Beatriz Moreno Diniz 2 Isabelle Patriciá Freitas Soares Chariglione 3 Resumo O envelhecimento é um processo complexo e dinâmico, influenciado por uma série de fatores. Entre eles, tem-se o propósito de vida, que pode ser manifestado a partir de projetos de vida, construto entendido como um planejamento consciente de vida e de futuro. Diante disso, o presente artigo tem como objetivo mapear a literatura existente a respeito de produções brasileiras sobre projeto de vida de pessoas idosas. Para tanto, foram realizadas buscas nas bases de dados CAPES e BDTD, das quais resultaram 287 produções científicas. Após aplicação dos critérios de exclusão e inclusão, 21 estudos foram selecionados para análise. A investigação foi conduzida por meio da análise temática, método qualitativo que busca identificar e interpretar elementos relevantes nos dados coletados. Os resultados evidenciam três principais categorias advindas de discussões sobre projetos de vida do público-alvo, sendo elas: Trabalho/Aposentadoria, Educação e o Envelhecimento em Comunidade. Ressalta-se, ainda, o papel dos projetos de vida como fator protetivo no envelhecimento, favorecendo uma velhice com maior autonomia e propósito. Conclui-se que a produção científica brasileira sobre o tema tem se expandido, especialmente na pós-graduação. Além disso, evidencia-se a importância de considerar marcadores interseccionais na construção e análise de projetos de vida de pessoas idosas, contemplando a diversidade de velhices no Brasil. Palavras-chave: Envelhecimento; Pessoas Idosas; Projeto de Vida; Revisão de Escopo; Velhice. Abstract Aging is a complex and dynamic process influenced by a number of factors. Among these is life purpose, which can be expressed through life projects, a construct understood as conscious planning for life and the future. Therefore, this article aims to map the existing literature on Brazilian studies on life projects for older adults. To this end, research has been conducted in the CAPES and BDTD databases, yielding 287 scientific studies. After applying the exclusion and inclusion criteria, 21 studies were selected for analysis. The research was conducted using thematic analysis, a qualitative method that seeks to identify and interpret relevant elements in the collected data. The results highlight three main categories arising from discussions about the target audience’s life projects: Work/Retirement, Education, and Aging in Community. The role of life projects as a protective factor in aging is also highlighted, favoring a more autonomous and purposeful old age. The conclusion is that Brazilian scientific production on this topic has expanded, especially in graduate studies. Furthermore, it highlights the importance of considering intersectional markers in the construction and analysis of older adults’ life projects, considering the diversity of aging in Brazil. Keywords: Aging; Elderly People; Life Project; Old Age; Scoping Review. 1 Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar pela Universidade de Brasília (UnB). E-mail: [email protected] 2 Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar pela Universidade de Brasília (UnB). E-mail: [email protected] 3 Professora da Universidade de Brasília (UnB). Doutora em Cognição e Neurociências. E-mail: [email protected]
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 197 INTRODUÇÃO O Brasil acompanha a tendência mundial de envelhecimento populacional, marcada pelo aumento do número de pessoas idosas e da longevidade. Nesse contexto, o prolongamento da expectativa de vida exige o desenvolvimento de tecnologias e de conhecimentos capazes de acolher as pessoas idosas em suas múltiplas formas de existir. Entre as demandas que emergem ao longo do processo de envelhecimento, a perda de propósito em relação à vida constitui uma questão preocupante, podendo gerar impactos significativos na vivência de uma velhice saudável. Nesse contexto, a exploração de projetos de vida de pessoas idosas surge como uma ferramenta para discutir sobre caminhos para o envelhecimento saudável e com propósito. Considerando o exposto, emerge o seguinte questionamento: como a literatura científica nacional tem abordado os projetos de vida de pessoas idosas? A partir dessa questão, define-se o objetivo deste trabalho, que consiste em mapear as discussões sobre projetos de vida de pessoas idosas no contexto brasileiro. A relevância desta produção reside na necessidade de ampliar as contribuições sobre o desenvolvimento humano e o envelhecimento, assegurando que tais reflexões estejam ancoradas na realidade brasileira e dialoguem com as vivências das pessoas que envelhecem no país. Nesse sentido, o presente estudo propôs-se a realizar uma revisão de escopo a partir do protocolo PRISMA-ScR, seguindo as diretrizes do Instituto Joanna Briggs. Como estratégia de busca, foram utilizadas bases de dados que contemplam um grande quantitativo de publicações a nível nacional. Após aplicados os critérios de inclusão e exclusão, 21 produções científicas foram selecionadas para leitura completa. A análise dos estudos encontrados foi feita a partir do método de análise temática, seguindo rigor metodológico de análise de dados qualitativos. Dessa forma, as produções científicas nacionais sobre o tema foram analisadas a partir do conteúdo semântico dos textos, buscando-se identificar pontos de enfoque e convergência entre os trabalhos. A partir dessa análise, foi possível delinear grandes categorias de discussão nos estudos sobre projetos de vida de pessoas idosas, destacando-se aquelas relacionadas à educação, ao trabalho e à comunidade. Este trabalho, portanto, organiza-se nas seguintes seções: Introdução, Referencial Teórico, Método, Resultados, Discussão e Considerações Finais. Na seção subsequente, são apresentados aspectos contextuais e a fundamentação teórico-metodológica deste estudo. Na sequência, há a apresentação do método, com detalhamento de descritores utilizados. A seção de Resultados apresenta o detalhamento da amostra encontrada, seguida da Discussão, que aprofunda na interpretação dos dados em diálogo com a produção científica sobre o tema. Em conclusão, as Considerações Finais apresentam reflexões sobre o estudo, bem como limitações e sugestões para outras produções na área.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 198 REFERENCIAL TEÓRICO O envelhecimento é atravessado por uma série de mudanças físicas, psicológicas, emocionais e relacionais, impactando em vivências individuais e coletivas. Nesse contexto, pessoas idosas passam por um processo de desenvolvimento multidimensional e multidirecional, em que existem marcos de ganhos e de perdas, exigindo que o sujeito se adapte ao longo da vida (BARROSO, 2021; MOREIRA, 2012; NERI, 2006; SILVA; CHARIGLIONE, 2024). Essa compreensão é compartilhada em estudos internacionais, que trazem o envelhecimento enquanto um processo complexo, dinâmico e multifacetado (ANDREOLETTI; LESZCZYNSKI; DISCH, 2015; RONY et al., 2024). Ainda que o envelhecimento seja uma etapa do ciclo de vida passível de transformações, de adaptações em busca de qualidade de vida e de um momento propício para novas conquistas, a velhice é comumente associada à deterioração, à fragilização e ao declínio (ARANTES; PINHEIRO; AMANDO, 2019; PEREIRA; LEONARDO, 2023). No processo de envelhecimento, é comum que pessoas idosas enfrentem um esvaziamento de papéis ocupacionais que antes contribuíam para a construção da identidade desses sujeitos e que permitiam a eles uma plena convivência social (SANTANA; BERNARDES; MOLINA, 2016). Logo, pessoas idosas passam por transformações significativas em suas funções sociais, o que pode levar ao isolamento e à perda de perspectiva frente à vida (SANTOS et al., 2024). Segundo Kruks (2023), a velhice é marcada por um processo profundo de invisibilização, desumanizando pessoas idosas. Nesse cenário, essas pessoas passam a ser percebidas como uma “massa anônima e indesejada”, cuja existência parece ameaçar o bem-estar da sociedade que já não as reconhece como parte dela. Segundo a autora, a velhice constitui, por si só, um espaço de intensa opressão, que ainda é agravado pelo silêncio social em torno das múltiplas formas de envelhecer e das desigualdades nas condições de vida. Assim, compreender as diversas possibilidades do envelhecimento torna-se essencial para abrir espaços para outras perspectivas acerca da velhice para além daquelas historicamente postas (ALVES; ARAÚJO, 2020; KALACHE et al., 2023). Para tanto, é preciso compreender que um processo de envelhecimento saudável é aquele em que a pessoa é capaz de preservar seu potencial de desenvolvimento ao longo de todo curso de vida (RIBEIRO; YASSUDA; NERI, 2020; SANTOS et al., 2024; SCORALICK-LEMPKE; BARBOSA, 2012). Nesse sentido, ressalta-se que o desenvolvimento não está necessariamente ligado à evolução, sendo um processo dinâmico de mudanças e de adequações do ciclo vital (CHARIGLIONE et al., 2025). Assim, torna-se central o entendimento do envelhecimento enquanto etapa de e em desenvolvimento, ainda que existam perdas e declínios.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 199 Entre os aspectos que preservam o potencial de desenvolvimento, ressalta-se o engajamento com a vida e a postura ativa nas atividades de interesse individual e coletivo (DETMERING, 2024; SANTANA; BERNARDES; MOLINA, 2016; WINDSOR; CURTIS; LUSZCZ, 2015). Dessa forma, é essencial que os sujeitos mantenham projetos que não se percam durante o tempo, estabelecendo prioridades e exercitando sua própria autonomia frente às escolhas da vida, processos que contribuem para a manutenção do bem-estar psicológico (MENDES; CRUZ; TAVARES, 2020). Ryff (1989) embasa esta discussão ao conceber o propósito de vida e a autonomia como dimensões fundamentais do bem-estar psicológico. Consonante a isso, Neri et al. (2022) destacam que a compreensão dos aspectos desse conceito é fundamental para suscitar novas reflexões sobre o processo de envelhecimento, substituindo a ideia hegemônica da velhice como caracterizada apenas por perdas e adoecimentos. Nesse sentido, as possibilidades de manutenção de competências, a compensação de perdas e os novos trajetos de vida mostram-se como elementos protetivos do envelhecer. Assim, os estudos sobre projetos de vida mostram-se relevantes para compreender o propósito e o engajamento de pessoas idosas, na medida em que esse construto se relaciona aos objetivos que atribuem sentido às vidas das pessoas e têm potencial de mobilizar ações e escolhas (ARANTES; PINHEIRO; AMANDO, 2019; MENDES; CRUZ; TAVARES, 2020). Segundo Damon e Hart (1982), projetos de vida podem ser entendidos como um planejamento consciente de vida, em que o sujeito constrói intenções estáveis de alcançar algo significativo para si e com impacto no mundo. Dessa forma, projeto de vida é um termo valioso para discutir sobre as possibilidades do envelhecimento, considerando que a manutenção e a reorganização de propósito de vida podem, inclusive, contribuir com a longevidade (RYFF, 2014). Ademais, projeto de vida é um construto capaz de, além de abarcar discussões sobre desejos e intenções pessoais, apontar para caminhos na compreensão de como questões como território, família, cultura e valores contribuem para a construção de interesses ao longo da vida (MENDES; CRUZ; TAVARES, 2020). Assim, é relevante compreender que questões interseccionais e contextuais também influenciam e impactam na vida de quem envelhece, nas referências de envelhecimento e na construção de vida desses sujeitos (ALVES; ARAÚJO, 2020; ROBERTO et al., 2025). É, portanto, no campo dos debates sobre projeto de vida que este estudo se finda com vistas em explorar como a literatura científica nacional se debruça sobre essa temática. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa é apresentar uma revisão de literatura do tipo revisão de escopo sobre as produções científicas brasileiras acerca de projetos de vida de pessoas idosas, permitindo uma análise ampla sobre como a ciência nacional abarca esse tema em suas publicações. Entende-se que, a partir do
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 200 reconhecimento da realidade brasileira acerca das perspectivas de futuro de pessoas idosas, é possível apontar para novos caminhos para um envelhecimento saudável e com propósito no Brasil. MÉTODO Desenho do estudo A revisão de escopo é adequada para examinar estudos, contribuindo para a tomada de decisão no campo teórico-metodológico, bem como no mapeamento de teorias e metodologias que podem orientar e informar pesquisadores (CORDEIRO; SOARES, 2019). Para tanto, esta revisão de escopo seguiu os critérios orientados pelo Método de Principais Itens para Relatar Revisões Sistemáticas e Meta-Análises (PRISMA-ScR; TRICCO et al., 2018), apoiando-se nos itens que se adaptam ao contexto de produção da revisão de escopo. O PRISMA-ScR fornece instruções para identificar, selecionar, avaliar e sintetizar estudos (MATTOS; CESTARI; MOREIRA, 2023), em que há possibilidade de adaptação de acordo com o tipo de revisão almejada, sem perder o rigor metodológico da pesquisa (GALVÃO; TIGUMAN; SARKISONOFRE, 2022). Esta extensão do checklist PRISMA-ScR é a ferramenta de relatório recomendada para revisões de escopo, e sua adoção não apenas assegura a validade metodológica e a completude do relatório, mas também facilita a avaliação crítica por pares e a subsequente síntese da literatura por outros pesquisadores. O PRISMA-ScR orienta especificamente o relato dos 20 itens principais e dois itens opcionais que compõem o checklist, abrangendo desde a justificativa da revisão e a definição da questão de pesquisa (em geral seguindo o formato “PCC”: População, Conceito, Contexto), passando pelas estratégias de busca detalhadas e fontes de informação, os critérios de elegibilidade dos estudos e o processo de seleção (com o uso obrigatório do fluxograma), até a extração e tabulação dos dados e a apresentação da síntese narrativa dos achados, garantindo que todos os elementos essenciais para a compreensão do escopo e alcance da literatura mapeada sejam reportados de maneira exaustiva e estruturada. Além disso, é importante ressaltar que foi adotada a metodologia do Joanna Briggs Institute (JBI), que prevê a anonimidade dos estudos para as revisoras durante o processo de escolha dos trabalhos analisados. Outrossim, especialistas nas áreas de psicologia do desenvolvimento e gerontologia foram consultadas durante a implementação do protocolo e discussão dos resultados. Esta pesquisa não envolve coleta de dados com participantes humanos e, portanto, não exigiu aprovação em comitê de ética.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 201 População Para esta revisão de escopo, foram incluídos trabalhos brasileiros sobre o projeto de vida de pessoas idosas no país, ou seja, pessoas brasileiras acima de 60 anos. Além disso, incluiu-se trabalhos disponíveis na íntegra, em acesso aberto e escritos em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos estudos que não discriminam adequadamente o construto, não eram específicos sobre o público-alvo, não foram elaborados em território brasileiro e cujo tipo não se caracterizava como artigo científico, tese ou dissertação. Conceito Projeto de vida de pessoas idosas é um tema de extrema relevância para a psicogerontologia, devido ao envelhecimento da população no país e no mundo. Ao considerar esse processo, identificar como pessoas idosas planejam as próprias vidas e o que esperam de suas velhices permite traçar novas intervenções e propostas para o envelhecimento. Somado a isso, a compreensão sobre projeto de vida de pessoas idosas permite também o planejamento daqueles sujeitos que irão vivenciar a velhice no futuro. A partir da compreensão desse construto, é possível destacar aspectos da promoção de um envelhecimento saudável, bem como questões que se mostram desafiadoras no curso de vida. Contexto Esta revisão de escopo incluiu estudos da literatura científica brasileira sobre projeto de vida de pessoas idosas. Tipo de estudo Foram incluídos estudos de caso, observacionais, etnografias, ensaios, surveys, dissertações, teses e revisões de literatura. Por outro lado, trabalhos científicos que não atendiam aos critérios de seleção foram excluídos, sendo eles: (1) não acessíveis na íntegra; (2) resumos, protocolos, editoriais, discussões e relatórios; (3) publicados em línguas diferentes de português, inglês ou espanhol; e (4) artigos que não fossem específicos sobre a realidade de pessoas idosas brasileiras.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 202 Estratégia de busca Segundo Aromataris et al. (2024), para revisões do JBI utilizam-se estratégias de busca de três fases. A busca inicial é feita no Thesaurus of Psychological Index Terms, da American Psychological Association, a fim de identificar os termos mais adequados para a pesquisa do conceito investigado. A segunda busca, realizada em abril de 2025, incluiu todos os termos identificados e foi aplicada do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e no Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD), compreendendo que estas bases de dados são capazes de englobar uma série de produções científicas em formato de artigos e trabalhos acadêmicos de pósgraduação. Assim, a estratégia de busca foi aplicada utilizando-se dos descritores: (“Pessoas idosas” OR idoso OR idosa OR “older people” OR envelhecimento OR velhice OR envelhecer OR aged OR elderly OR “terceira idade” OR gerontologia OR gerontology) AND (“Projeto de vida” OR “projetos de vidas” OR “projetos de vida” OR “life project” OR “planejamento de vida” OR “plano de vida” OR “life planning”). Seleção de estudos As informações sobre os estudos encontrados na primeira busca nas bases de dados foram inseridas em uma planilha no Google Planilhas. A partir dessa ferramenta, utilizou-se a técnica de avaliação independente, mantendo a anonimização da identidade dos artigos, que foram analisados por três revisoras independentes. As revisoras selecionaram títulos e resumos com base nos critérios de inclusão e exclusão, mantendo aqueles trabalhos que fossem aprovados por pelo menos duas das três revisoras. Extração de dados Os dados foram extraídos usando o Google Planilhas, incluindo título, autores, ano, área de publicação, objetivos do estudo, achados mais importantes, público-alvo e delineamento da metodologia de pesquisa. Apresentação e análise de dados A literatura foi mapeada de acordo com os objetivos desta revisão de escopo. Para tanto, foram extraídos os resumos de 287 produções científicas, incluindo pessoa autora, ano, título, revista, objetivo,
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 203 população-alvo, metodologia, achados importantes e área de publicação. Uma das autoras realizou a extração e organização dos dados, que foram revisados pelas outras duas autoras. Após a revisão inicial, cinco materiais duplicados foram excluídos. Depois de uma primeira triagem de título e resumo, 25 trabalhos foram mantidos, entendendo a adequação desses aos critérios propostos. Três desses trabalhos não estavam disponíveis em acesso aberto e um desses foi excluído após a leitura na íntegra. Assim, a amostra final é composta por 21 estudos científicos que se debruçam acerca de projetos de vida de pessoas idosas. Os dados coletados neste estudo foram analisados a partir da análise temática, um método qualitativo que traz liberdade à pessoa autora, sem perder o rigor metodológico das pesquisas qualitativas (ROSA; MACKEDANZ, 2021). Para tanto, esse tipo de análise propõe-se a uma compreensão aprofundada dos elementos presentes dos conteúdos coletados, permitindo a criação de categorias de análise de acordo com os componentes mais marcantes e presentes nos dados obtidos (BRAUN; CLARKE, 2006). A análise temática é amplamente empregada em estudos qualitativos (BUFREM et al., 2017; MARQUES; GRAEFF, 2022), e tem se mostrado relevante em pesquisas sobre desenvolvimento humano (SILVA; BORGES, 2017; SOUZA et al., 2019). Trata-se de uma abordagem coerente com o delineamento deste estudo, pois permite identificar elementos que dialogam entre si, contribuindo para a compreensão das discussões acerca de projetos de vida de pessoas idosas. RESULTADOS As buscas nas bases de dados indicadas foram realizadas em abril de 2025 e as análises dos artigos foram feitas entre maio e setembro do mesmo ano. A estratégia de busca caracterizou-se por ser desenhada de modo a contemplar uma quantidade significativa de trabalhos. Para tanto, foram escolhidas duas bases de dados nacionalmente conhecidas e que integram uma quantidade significativa de estudos nacionais, sendo uma dedicada à difusão de artigos científicos e outra para a divulgação de teses e dissertações. A primeira busca resultou em 287 trabalhos, em que 114 desses são publicações em formato de artigo científico e 173 são teses ou dissertações. Após primeira análise, cinco materiais duplicados foram excluídos, restando 282 para triagem de título e resumo. Após essa etapa, 257 publicações foram excluídas por não atenderem aos critérios de inclusão. Os 25 registros foram reavaliados quanto ao atendimento aos critérios elencados e a disponibilidade de acesso do texto na íntegra, em que quatro desses não estavam disponíveis. Dessa forma, 21 estudos foram mantidos para leitura integral e análise neste trabalho. Assim, o presente estudo seguiu
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 210 um elemento comum nos planos de pessoas idosas e favorecendo um envelhecimento que tem seus aspectos individuais, mas que também é compartilhado e vivido no coletivo. Ainda nesse contexto, a música também se apresenta como um potencializador das relações entre participantes de grupos de convivência, contribuindo para a autoestima e o protagonismo dos sujeitos (CORONAGO, 2014). Além disso, as próprias intervenções de pesquisa em grupo mostram-se como possibilidades de trocas entre participantes e fortalecimento de vínculos, proporcionando oportunidades de ressignificação de projetos de vidas e de experiências vividas (BRASILEIRO, 2025; VERAS; LACERDA; FORTE, 2022). É pertinente destacar que o trabalho e a aposentadoria também atravessam os estudos sobre projetos de vida de pessoas idosas. Entre as produções científicas analisadas neste estudo, observa-se uma ênfase nas discussões acerca dos impactos da trajetória laboral na perspectiva de vida daqueles que envelhecem (AMARILHO, 2005; BEGER, 2003; CATÃO; GRISI, 2014; FIGUEIRA et al., 2017; FONTOURA, 2010; KUNZLER, 2009). As dinâmicas existentes entre trabalho, aposentadoria e projetos de vida estabelecem uma série de influências nas perspectivas de futuro de pessoas idosas. A interação do sujeito com sua família e com outros espaços de socialização influencia e, por vezes, determina o desejo de aposentar-se ou não (FIGUEIRA et al., 2017). Isso porque o trabalho se configura como um dos principais pilares da vida social, enquanto a aposentadoria representa uma ruptura significativa nos ciclos de interação entre as pessoas (KUNZLER, 2009). Assim, sujeitos que não dispõem de outros ambientes de convivência e de produção de sentido tendem a enfrentar maiores dificuldades no processo de aposentadoria, o que torna a preparação para essa transição um fator protetivo na construção de projetos futuros (TIVERON, 2008). Nesse sentido, a aposentadoria revela um sentimento ambíguo para quem a experimenta. Segundo Beger (2003), esse processo é visto com orgulho como um direito adquirido por quem trabalha, mas é também entendido como uma interrupção forçada e não desejada. Essa interrupção é, por vezes, evitada para que não se perca a rotina junto aos pares, mas também porque o trabalho apresenta-se como balizador da construção do eu (AMARILHO, 2005). Ainda segundo Amarilho (2005), o trabalho contribui para a construção da identidade do sujeito, sendo aspecto essencial em perspectivas de vida e de futuro. Dessa forma, a atividade laboral é um elemento importante para entender o contexto em que a pessoa está inserida, bem como quais são suas perspectivas para o envelhecer. Além de atravessar relações sociais e a própria constituição enquanto sujeito, o trabalho também influencia nos recursos materiais disponíveis para a pessoa durante seu processo de envelhecimento, representando segurança financeira (CATÃO; GRISI, 2014; ESCORSIM, 2021; FONTOURA, 2010). Isso reforça que os projetos de vida estão ligados a desejos e sonhos, mas também à realidade concreta em que os sujeitos se inserem, e,
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 211 portanto, as condições socioeconômicas estão entrelaçadas aos projetos de vida e suas possíveis reorganizações no processo de envelhecimento (DETMERING, 2024; KUNZLER, 2009; MENDES; CRUZ; TAVARES, 2020). Nesse sentido, os estudos analisados por esta revisão discutem uma série de elementos importantes para o desenvolvimento humano, com destaque à coletividade, trabalho-aposentadoria e educação. Esses elementos atravessam um envelhecimento com potencialidades e apresentam várias possibilidades de produção de vida enquanto pessoa idosa. Desse modo, conclui-se esta seção reiterando a importância de estudos nacionais que versem sobre projeto de vida de pessoas idosas, entendendo que as discussões apresentadas revelam importantes perspectivas sobre sonhos, vontades e desejos, bem como ilustram como questões interseccionais, contextuais e sociais impactam diretamente nas possibilidades de planejarse e de enxergar-se no futuro enquanto pessoa idosa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme estabelecido pela questão de pesquisa, a presente revisão permitiu o mapeamento sistemático da produção científica nacional sobre projetos de vida de pessoas idosas, consolidando o conhecimento existente em uma tríade temática central: Trabalho/Aposentadoria, Educação e o Envelhecimento em Comunidade. Este achado indica que o conceito de projeto de vida, no contexto brasileiro, é primariamente abordado e compreendido a partir da ressignificação de papéis sociais nessas três esferas. Ademais, o mapeamento revelou que, embora a Psicologia se destaque como a área mais produtiva, a literatura sobre o tema se configura de maneira inerentemente interdisciplinar, contando com contribuições significativas da Gerontologia, Terapia Ocupacional, Ciências Sociais e áreas afins. Essa diversidade reflete a complexidade e a natureza multifacetada do processo de envelhecimento e a amplitude das demandas inerentes à manutenção de um projeto de vida com propósito na velhice. A análise da distribuição da literatura mapeada revelou que mais da metade dos trabalhos são oriundos de teses e dissertações. Tal concentração de produção em nível de pós-graduação sugere um interesse acadêmico crescente e consolidado em aprofundar a compreensão do envelhecimento, refletindo o fenômeno mundial do prolongamento da expectativa de vida e a consequente necessidade de explorar o tema sob uma ótica de potencialidade. Este padrão de pesquisa indica que a academia está se dedicando a discutir o envelhecer como um campo de produção de vida e futuro, distanciando-se de visões deficitárias e validando a velhice como um estágio onde o planejamento existencial e a projeção prospectiva são plenamente possíveis.
www.ioles.com.br/boca BOLETIM DE CONJUNTURA (BOCA) ano VII, vol. 24, n. 71, Boa Vista, 2025 212 Apesar de sua abrangência, esta revisão de escopo revela importantes lacunas e direcionamentos para a agenda de pesquisa nacional. Primeiramente, o mapeamento sinaliza um estacionamento na tendência de crescimento da produção acadêmica sobre o tema nos últimos anos, indicando a necessidade de maior investimento intelectual para consolidar a área. Em termos metodológicos, a predominância de estudos de cunho qualitativo (81%) sugere a relevância da realização de mais pesquisas quantitativas e de métodos mistos, que permitam a análise de correlações, a validação de modelos preditivos e a generalização dos fatores que influenciam o projeto de vida na velhice. Por fim, e de maneira crucial, a literatura ainda carece de maior pluralidade e foco interseccional. Assim, recomenda-se a condução de estudos empíricos que investiguem explicitamente as intersecções de gênero, raça, classe e orientação sexual, visando compreender as especificidades do projeto de vida de populações idosas minorizadas no Brasil e valorizando suas características interseccionais. Ademais, destaca-se que outros conceitos podem ser usados como sinônimos para projeto de vida, como propósito de vida e sentido de vida. Além disso, este mesmo estudo pode ser reproduzido em outras bases de dados, ampliando ainda mais o alcance das produções científicas a serem encontradas. Dessa forma, é possível que outros trabalhos científicos possam ser contemplados em estudos futuros, ampliando as discussões sobre projetos de vida de pessoas idosas e as potencialidades nos processos diversos de envelhecer da população brasileira. REFERÊNCIAS ALVES, M. E. S.; ARAÚJO, L. F. “Interseccionalidade, raça e sexualidade: compreensões para a velhice de negros LGBTI+”. Revista de Psicologia da IMED, vol. 12, n. 2, 2020. AMARILHO, C. B. As implicações da perspectiva de afastamento do trabalho e projeto de vida no discurso do executivo-empreendedor-idoso (Dissertação de Mestrado em Psicologia Social e Institucional). Porto Alegre: UFRGS, 2005. ANDREOLETTI, C.; LESZCZYNSKI, J. P.; DISCH, W. B. “Gender, race, and age: the content of compound stereotypes across the life span”. The International Journal of Aging and Human Development, vol. 81, n. 1, 2015. ARANTES, V.; PINHEIRO, V.; AMANDO, M. “Projeto de vida na velhice e suas dimensões afetivas: um estudo de caso”. Revista Internacional d’Humanitats, vol. 22, n. 45, 2019. AROMATARIS, E. et al. (org.). JBI manual for evidence synthesis. Adelaide: JBI, 2024. BARROSO, E. P. “Reflexões sobre a velhice: identidades possíveis no processo de envelhecimento na contemporaneidade”. História Oral, vol. 24, n. 1, 2021.
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