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Contexto, motivação, participação e resultados em cooperativas: a descoberta do papel da mulher em uma cooperativa do litoral norte de São Paulo

Gaspar, Janaína de Abreu; Muterle, Maria do Carmo Cataldi

Abstract

O presente artigo destaca as descobertas alcançadas através de um projeto da Fatec de São Sebastião sobre o cooperativismo da região. Tem por objetivo conhecer organizações cujas características e motivações se diferenciam das empresas que seguem a lógica do capital, entretanto, participam do mercado capitalista e verificar os avanços e limites, compreender o contexto em que foi formada, as motivações dos cooperados e os resultados econômicos e sociais. Os dados foram obtidos através de um grupo de pesquisa realizado na Fatec de São Sebastião que aplicou um roteiro de entrevista em cooperativas da região. Verificou-se o histórico das associações, a organização e gestão dos cooperados. Descobriu-se, então, o papel da mulher em uma das cooperativas e este artigo propõe essa discussão. Os dados mostram que uma gestão organizada e transparente, supre os elos da cadeia produtiva, mas precisa de trabalho conjunto e profissionalismo. A mulher tem seu papel na sociedade e também na cooperativa. Políticas de gênero é um tema atual e merece destaque em pesquisas futuras. A cooperativa analisada é da cidade de São Sebastião e atende famílias não só das proximidades, como também de cidades vizinhas. Versão publicada na Revista Processando o Saber:https://www.fatecpg.edu.br/revista/index.php/ps/article/view/79

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Processando o Saber nº 7, 2015 107 CONTEXTO, MOTIVAÇÃO, PARTICIPAÇÃO E RESULTADOS EM COOPERATIVAS: A DESCOBERTA DO PAPEL DA MULHER EM UMA COOPERATIVA DO LITORAL NORTE DE SÃO PAULO. GASPAR, Janaína de Abreu, Especialista* MUTERLE, Maria do Carmo Cataldi, Doutora* *FATEC São Sebastião CEP 11600-000/Telefone (12) 3892-3015 janainad[email protected]r mcarmomu[email protected]om RESUMO O presente artigo destaca as descobertas alcançadas através de um projeto da Fatec de São Sebastião sobre o cooperativismo da motivações se diferenciam das empresas que seguem a lógica do capital, limites, compreender o contexto em que foi formada, as motivações dos cooperados e os resultados econômicos e sociais. Os dados foram obtidos através de um grupo de pesquisa realizado na Fatec de São Sebastião que aplicou um roteiro de entrevista em cooperativas da cooperativas e este artigo propõe essa discussão. Os dados mostram que uma gestão organizada e transparente, supre os elos da cadeia produtiva, papel na sociedade e também na cooperativa. Políticas de gênero é um tema atual e merece destaque em pesquisas futuras. A cooperativa analisada é da cidade de São Sebastião e atende famílias não só das PALAVRAS-CHAVE: https://doi.org/10.5281/zenodo.15558235 Processando o Saber nº 7, 2015 108 ABSTRACT on the cooperativeness of the region. Organizations aim to understand follow the logic of capital, but also to participate in the capitalist market and check the progress and limits, understand the context in which it was formed, the motivations and the economic and social results of cooperative. The data were obtained by a research group performed in Fatec São Sebastião which conducted an interview in the cooperatives of the region. There was a history of associations, organization and management of cooperatives. It turned out, then, that the role of women in a cooperative and this article proposes the discussion. The data show that an organized and transparent management, provide the links of the production chain, but it is necessary to work together and professionalism. The woman has her role in society and also in the cooperative. Gender politics is a current topic and deserves attention in future research. The analyzed cooperative is in the city of São Sebastião and serves families not only nearby, but also from the neighboring towns. KEY-WORDS: Cooperatives, Role of women, Principles. INTRODUÇÃO As transformações tecnológicas, econômicas e sociais têm propiciado o desenvolvimento de diversos tipos de organizações que buscam enfrentar as turbulências e exigências do mercado através da então, é promover o aprendizado em tipos de organizações cujas características e motivações se diferenciam das empresas que seguem a lógica do capital, entretanto, participam do mercado capitalista e assim formada, as motivações dos cooperados, os resultados econômicos e sociais, além de perceber as diferenças entre as práticas de cooperação e de competição. A pesquisa faz parte de um projeto desenvolvido no ano de 2010 e 2011 na Fatec de São Sebastião, vinculado à disciplina Processando o Saber nº 7, 2015 109 iniciação no aprendizado da área de processos de gestão em tipos de organizações que são expressivamente estudadas pelas teorias 1 O COOPERATIVISMO A globalização econômica e mercadológica expandiu o capitalismo em âmbito mundial e gerou mudanças sociais profundas em praticamente todas as esferas da sociedade como a tecnologia, as exigências das relações interpessoais, o individualismo, o desemprego, os valores morais e a competitividade. Para sobreviver neste cenário, às de capitais para fazer frente ao novo padrão de concorrência empresarial, porém as restrições às pequenas e microempresas se acentuam gradativamente conforme assinala Souza (1998). De acordo com o autor, a defasagem na gestão, a baixa de menor porte que para sobreviverem no mercado atual buscam alternativas, como por exemplo, o cooperativismo que para Crúzio (2005) torna-se uma opção satisfatória em função das relações de Para entender a gestão das cooperativas, é importante ter claro o conceito do termo que conforme a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) é uma sociedade de, no mínimo vinte pessoas físicas, com um interesse em comum, economicamente organizada de forma democrática, isto é, com a participação livre e igualitária intermediados e reagem perante os efeitos excludentes do capitalismo. Não basta, porém, a união dos cooperados em prol de um Processando o Saber nº 7, 2015 110 depende da boa organização da cooperativa, da dedicação dos associados e da importância dada ao envolvimento de todos os integrantes. Assim comuns, todavia “a principal diferença está na forma de decidir sobre os o mesmo poder de voto, independente de seu investimento (CRUZIO, 2005, p.07). Diante da sua abrangência e crescimento, a sustentabilidade de técnico, mas também boas práticas administrativas adaptadas a sua realidade (MACHADO, 2006). Com as cooperativas não é diferente; mínimo, avaliar sua gestão e suas condições de sobrevivência. Ressaltamedida que ocorre especialização técnica para atender às exigências do mercado (CRÚZIO, 2005). cooperativas é “manter seu papel de sistema produtivo centrado no com empresas de outras naturezas com orientação para o mercado”, portanto elas visam à coletividade e os objetivos comuns, sendo que para sobreviver como organização e garantir um espaço no mercado são obrigadas a competir com empresas do ramo. Deste modo, estão inseridas em uma lógica capitalista e de competição e precisam estar preparadas para tal cenário. As cooperativas, se bem organizadas, têm condições de competir com as demais empresas de seu ramo, pois eliminam os atravessadores no momento em que eles mesmos produzem preços, prazos e formas de pagamentos junto a fornecedores já que compram em maiores quantidades, reduzindo assim os custos unitários de produção (CRÚZIO, 2005). Uma cooperativa, para funcionar, segue normas legais, tem seu estatuto próprio, seus cooperados elegem seus dirigentes e estes Processando o Saber nº 7, 2015 111 são responsáveis por estabelecer políticas para o desenvolvimento organizacional, de acordo com a missão, os princípios e a visão da organização. Os sete princípios cooperativistas são amplamente enfatizados na literatura e de acordo com Crúzio (2005) devem existir em todas as cooperativas. São eles, o de adesão voluntária, sequencial, participação econômica dos sócios, da autonomia, educação e treinamento aos sócios, intercooperação e da preocupação com a comunidade. Conforme a OCB (2011), os sete princípios do cooperativismo os seus valores à prática”, são parâmetros que devem ser seguidos. O primeiro é o da adesão voluntária e livre, ou seja, são abertas a todas as pessoas aptas a utilizar os seus serviços e assumir as responsabilidades como membros, sem discriminações de sexo, sociais, raciais, políticas e religiosas. Na sequência, a gestão democrática diz respeito às cooperativas que são controladas pelos seus membros, que participam ativamente na formulação das suas políticas e na tomada de decisões. membros, são responsáveis perante estes. O terceiro princípio é o da participação econômica dos membros que contribuem equitativamente para o capital das suas cooperativas e controlam-no democraticamente. Parte desse capital é, normalmente, propriedade comum da cooperativa. Os membros capital integralizado, como condição de sua adesão. Os membros destinam os excedentes ou ao desenvolvimento das suas cooperativas, eventualmente através da criação de reservas, parte das quais pelo menos, serão indivisíveis ou em benefícios aos membros na proporção das suas transações com a cooperativa; ou até mesmo em apoio a outras atividades aprovadas pelos membros. No quarto princípio as cooperativas são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus membros. Se públicas, ou recorrerem ao capital externo, devem fazê-lo em condições a autonomia da cooperativa. As cooperativas proporcionam, segundo o quinto princípio, educação e treinamento aos seus membros, dirigentes Processando o Saber nº 7, 2015 112 desenvolvimento e sustentabilidade. De acordo com este preceito, a administração da cooperativa deve informar ao público, especialmente aos jovens e aos líderes formadores de opinião, sobre a natureza e os benefícios de ser integrante de uma organização cooperativa. A Intercooperação é o sexto princípio e afirma que as das estruturas locais, regionais, nacionais e internacionais. O sétimo e para o desenvolvimento sustentado das suas comunidades através de políticas aprovadas pelos membros. Tais princípios norteiam as ações das cooperativas que “abrem mão da possibilidade de maximizar lucro em função duma perspectiva social e ecológica”, tendo então uma atitude solidária no mercado em que atua (LISBOA, 2005, p.109). no mercado, as cooperativas para obterem sucesso devem agir com se fortalecerem para manterem-se atuantes. 2 METODOLOGIA O método, de acordo com Rampazzo (2005), é um conjunto A opção foi por elaborar a pesquisa em três etapas. sites segundo Rampazzo (2005) a teoria contribui na associação do saber relações até então ignoradas possibilitando, então, novas descobertas. interpretação dos dados, através de entrevistas na cooperativa de produção da cidade de São Sebastião. E com a caracterização completa Processando o Saber nº 7, 2015 113 que engloba discussão do diagnóstico realizado e aprofundamento do referencial teórico focando nossas descobertas quanto à missão, objetivos, estrutura organizacional e legal, parcerias e gestão participativa, descrição dos principais aspectos produtivos, comerciais, foi realizada por meio de pesquisa que caracteriza-se como estudo questões do tipo “como” e “por quê”, além de prover compreensão nos temas relacionados a fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos preservando características expressivas da realidade e oferecendo formas de investigações baseadas em procedimentos previamente estabelecidos. Entretanto, esses procedimentos não visão impedir as descobertas, como sugere Pais (2003), na perspectiva da sociologia do cotidiano, os procedimentos prévios são guias e não instrumentos de estudo. 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES A empresa em estudo foi uma Cooperativa de produção da cidade de São Sebastião, Litoral Norte do estado de São Paulo. A cooperativa foi fundada em 2001 e iniciou suas atividades com apoio do Governo Federal, SEBRAE, Prefeitura de São Sebastião e Estado de São Paulo com o objetivo de eliminar atravessadores que prejudicavam foi criar à cooperativa. São em média 50 embarcações que pertencem aos próprios As esposas dos cooperados cuidam do atendimento ao cliente e na limpeza dos peixes. Para atendimento de seus membros, a cooperativa conta com Processando o Saber nº 7, 2015 114 uma sede em regime de comodato onde funciona o setor administrativo, o local de vendas no varejo, estoque, atracação dos barcos de pesca artesanal, estrutura de apoio, descarregamento das embarcações e embarcações pesqueiras e as vendas. O cooperado descarrega e faz a e o que não é comercializado no dia, é levado no período noturno para o CEAGESP. A relação entre cooperados e diretoria é direta; sempre conversam e trocam ideias. As decisões mais importantes são tomadas com o consentimento de todos, porém as mais rotineiras são decididas A compra de materiais em atacado possibilita aos cooperados outros, diminuindo custos e tempo em adquirir tais materiais. Porém, se não for bem administrado, esses procedimentos podem prejudicar vez que os associados saem com as embarcações utilizam material da cooperativa como óleo, gelo e diesel, e quando retornam não conseguem arcar com as despesas. Esse agravante prejudica o crescimento da cooperativa visto que o excedente é utilizado para cobrir tais despesas. Há uma grande preocupação com a qualidade do produto e com os preços articulados ao mercado que são sempre pesquisados em tabelas apropriadas. Os produtos são vendidos no próprio local, enviadas ao CEAGESP ( Paulo) e também comercializados nas regiões próximas através de um representante contratado. O que se percebe é que, ao mesmo tempo em que contribuem para escoar as safras, movimentam o comércio atacadista e varejista e barateiam os custos para o consumidor. A venda de pescados no varejo tornou-se um tradicional ponto de referência para os moradores da região, turistas e comerciantes locais No entanto, a cooperativa depende das safras e do período de defeso dos pescados e somente com o congelamento dos produtos é que consegue atender o cliente durante todo o ano. Para que isso seja possível, fazse necessário uma estrutura compatível com a quantidade de estoque Processando o Saber nº 7, 2015 115 produtos, armazenamento para tê-lo durante todo o ano e arca com seus dispêndios. Além disso, com a realização da pesquisa, percebeu-se o papel a renda da família. As tarefas são divididas entre os cooperados, porém o crescimento da cooperativa está vinculado aos custos dos cooperados que muitas vezes fazem dívidas dentro da própria cooperativa. em cooperativas. Com o intenso e rápido progresso em função da globalização, e da família para postos de responsabilidade em todos os setores, inclusive nos considerados masculinos. Os sinais de mudança de cenário são contundentes e revolucionários, principalmente no que tange as Para Hirata (2001) trata-se de um dos paradoxos da crescentes perceptíveis, sobretudo, nas desigualdades de salários, de têm de ser multiplicados, pois ela precisa exercitar vários papéis, como entre outros. mobilizarem e se auto organizarem, impulsionadas primeiramente pela vontade e pela necessidade. Perante essa realidade, as iniciativas associativas e cooperativas parecem capazes de absorver essa parcela mais criativas e mais próximas da população (GUÉRIN, 2003). Processando o Saber nº 7, 2015 122 OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras. Disponível em: www. ocb.org.br. Acesso em: 26 de maio de 2011. ______. Apresentação Institucional: Sistema Cooperativista, 2011. Disponível em: www.brasilcooperativo.coop.br. Acesso em: 31 de agosto de 2011. OCESP - Organização das cooperativas do estado de São Paulo. Disponível em: . Acesso em: 25 de maio de 2011. 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