scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

A persistência hegemônica do Dólar: unipolaridade monetária e desafios no Sistema Financeiro Internacional

Carvalho, Matheus Pedro de

Abstract

Nos últimos anos, a hegemonia do dólar no Sistema Monetário e Financeiro Internacional tem sido alvo de desafios crescentes, impulsionados pela ascensão do renminbi e pelo avanço das moedas digitais. Este estudo analisa a persistência da unipolaridade monetária do dólar, destacando sua resiliência mesmo diante de esforços de diversificação financeira. A pesquisa revisa sua consolidação histórica, sua dominância atual em reservas internacionais e pagamentos e as implicações geopolíticas dessa posição. Embora novas alternativas estejam emergindo, a liquidez e confiança no dólar garantem sua centralidade, sugerindo que sua hegemonia persistirá no curto e médio prazo, ainda que moderada.

Full text

27 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 A persistência hegemônica do Dólar: unipolaridade monetária e desafios no Sistema Financeiro Internacional 1 The Hegemonic Persistence of the Dollar: Monetary Unipolarity and Challenges in the International Financial System Matheus Pedro de Carvalho Doutorando em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Email: [email protected]. 1 Recebido para Publicação 20/08/2025. Aprovado para Publicação em 09/10/2025. DOI https://doi.org/10.5281/zenodo.18009269 28 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Resumo Nos últimos anos, a hegemonia do dólar no Sistema Monetário e Financeiro Internacional tem sido alvo de desafios crescentes, impulsionados pela ascensão do renminbi e pelo avanço das moedas digitais. Este estudo analisa a persistência da unipolaridade monetária do dólar, destacando sua resiliência mesmo diante de esforços de diversificação financeira. A pesquisa revisa sua consolidação histórica, sua dominância atual em reservas internacionais e pagamentos e as implicações geopolíticas dessa posição. Embora novas alternativas estejam emergindo, a liquidez e confiança no dólar garantem sua centralidade, sugerindo que sua hegemonia persistirá no curto e médio prazo, ainda que moderada. Palavras-chave: Dólar, Unipolaridade, Hegemonia, Estados Unidos. Abstract In recent years, the hegemony of the dollar in the International Monetary and Financial System has faced growing challenges, driven by the rise of the renminbi and the advancement of digital currencies. This study analyzes the persistence of the dollar's monetary unipolarity, highlighting its resilience despite financial diversification efforts. The research reviews its historical consolidation, its current dominance in international reserves and payments, and the geopolitical implications of this position. Although new alternatives are emerging, the liquidity and confidence in the dollar ensure its centrality, suggesting that its hegemony will persist in the short and medium term, albeit in a more moderate form. Keywords: Dollar, Unipolarity, Hegemony, USA. 29 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Introdução hierarquia monetária global, liderada pelo dólar como moeda hegemônica, tem enfrentado novos desafios e questionamentos. Historicamente, a substituição de uma moeda dominante é um evento raro, como ocorreu com a transição da libra esterlina para o dólar no século XX. Embora o dólar continue a ser a principal moeda de reserva, novos desafios surgem com o crescimento de moedas como o renminbi (RMB), que tem ganhado espaço no comércio internacional e em reservas de bancos centrais (NILANJAN; KHANINDRA, 2024). Além disso, a ascensão das Central Bank Digital Currencies (CBDCs) está redefinindo o cenário financeiro global, oferecendo alternativas digitais para transações internacionais e potencialmente desafiando a hegemonia do dólar (PERUFFO et al., 2023; DE CONTI et al., 2023). Esses desenvolvimentos indicam um possível rearranjo na ordem monetária internacional, em que a diversificação de moedas e a digitalização podem influenciar a posição do dólar no futuro. Além disso, a utilização de sanções baseadas no dólar tem motivado alguns países a buscarem alternativas, como sistemas de pagamento regionais e moedas locais, em uma tentativa de reduzir sua dependência da moeda norte-americana (MCDOWELL, 2021, 2023). No entanto, o dólar mantém sua hegemonia devido à sua ampla utilização em transações internacionais, à profundidade e liquidez dos mercados financeiros dos Estados Unidos e à sua grande participação na economia mundial. Isso continua a reforçar sua posição como principal moeda de reserva e comércio (COHEN; BENNEY, 2024). Essa combinação de fatores econômicos e financeiros torna desafiador para outras moedas redefinirem a posição dominante do dólar no curto prazo, apesar dos esforços para diversificar os sistemas de pagamento globais. Este trabalho, utilizando o método de revisão literária e o agrupamento de dados, tem como objetivo analisar como, apesar dos desafios e descontentamentos, o dólar continua exercendo soberania no sistema monetário internacional. Além desta introdução, na primeira seção é revisada a consolidação do dólar como moeda hegemônica, destacando como o fim da Segunda Guerra Mundial e a extinção do acordo de Bretton Woods foram fundamentais para sua consolidação no Sistema Monetário e Financeiro Internacional (SMFI). Na segunda parte, são apresentados dados que demonstram como a moeda estadunidense persiste no SMFI, apesar de oscilações e redução em alguns setores, mantendo uma participação dominante na economia mundial, especialmente nas reservas internacionais, na liquidação de comércio e nas transações financeiras. A terceira seção busca evidenciar as implicações geopolíticas que contestam a hegemonia do dólar, como a internacionalização do RMB e a forte integração europeia, que representam desafios significativos à sua posição. Por fim, são apresentadas as considerações finais, sintetizando os principais achados e suas implicações para o futuro do sistema monetário global. SEÇÃO 1 – CONSOLIDAÇÃO DE UMA HEGEMONIA Esta seção busca analisar a persistência do dólar como a moeda dominante no SMFI, com base no conceito de unipolaridade monetária descrito por Benjamin J. Cohen. O estudo demonstra que, apesar de desafios emergentes, o dólar continua a ser a principal moeda internacional, sustentado por sua capacidade de exercer poder monetário por meio de diferentes dimensões. A análise é fundamentada em estudos que mostram como o dólar mantém sua posição central, mesmo diante de pressões econômicas e políticas que buscam reduzir sua influência global. A 30 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o dólar tem sido a moeda dominante no SMFI. Sua hegemonia é frequentemente associada ao conceito de unipolaridade monetária, na qual uma única moeda exerce o papel central nas transações internacionais, reservas de bancos centrais e como unidade de conta (COHEN, 2015; NORLOFF, 2014). Tabela 1 - Hegemonia monetária na era moderna, 1870 – dias atuais Fonte: elaboração própria por meio de Palley (2022). A hegemonia do dólar passou por duas fases distintas. A primeira, conhecida como dólar 1.0, correspondeu à era de Bretton Woods (1946-1971), enquanto a segunda, o dólar 2.0, refere-se à era neoliberal, que se estende de 1980 até os dias atuais. A década de 1970 representou um período de transição e turbulência para o dólar, durante o qual sua hegemonia foi desafiada, mas eventualmente restabelecida. Embora ambas as fases estejam fundamentadas no poder dos Estados Unidos, seus modelos econômicos são significativamente diferentes. A hegemonia do dólar 1.0 foi sustentada pelo domínio comercial e industrial dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial. Já o dólar 2.0 apoia-se na reconfiguração neoliberal das economias, que posicionou os Estados Unidos como o epicentro do capitalismo global e o destino mais atraente para a concentração de capital (PALLEY, 2022). No entanto, nas últimas décadas, surge um debate crescente sobre a possibilidade de um sistema monetário multipolar, com o euro, o RMB e outras moedas emergentes desafiando a dominância do dólar (EICHENGREEN, 2011). Esse debate ganhou força com o crescimento econômico da China aliado à internacionalização do RMB, além das crises financeiras globais, como, por exemplo, a de 2008-09, que expuseram vulnerabilidades no sistema dominado pela moeda estadunidense. Analisar o debate sobre a persistência do padrão dólar no SMFI nos próximos anos, com base no conceito de unipolaridade monetária, é fundamental para se ter ideia sobre os movimentos do dólar ao redor do mundo. Os textos analisados demonstram que, apesar de desafios emergentes, o dólar continua a ser a principal moeda internacional, sustentado por sua capacidade de exercer poder monetário por meio de diferentes dimensões. Cohen (2015) sustenta que uma moeda hegemônica se apoia em três pilares fundamentais: a capacidade de exercer poder monetário, a estabilidade econômica e a confiança na moeda. O dólar, 31 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 dominante desde o final da Segunda Guerra Mundial, fortaleceu sua posição com o Acordo de Bretton Woods em 1944, que o estabeleceu como a moeda de reserva global, lastreada em ouro. Esse sistema assegurou que o dólar se tornasse a principal moeda de reserva e meio de troca internacional, criando uma rede global de dependência em torno da moeda americana. O fim de Bretton Woods em 1971 foi fundamental para o dólar consolidar sua hegemonia. Cohen (2015) argumenta que isso se deve à capacidade dos Estados Unidos de exercer poder monetário por meio de diferentes dimensões, incluindo o poder de barganha, o poder estrutural e o poder de socialização. O poder de barganha refere-se à capacidade dos Estados Unidos de influenciar outros países a usarem o dólar por meio de incentivos fiscais e/ou comerciais; também pode ser implementado por meio de sanções financeiras. O poder estrutural refere-se à capacidade dos Estados Unidos de moldar as regras do sistema monetário internacional, enquanto o poder de socialização refere-se à internalização das normas e valores associados ao dólar por outros países. Esses mecanismos de poder permitem que o dólar mantenha sua posição central, mesmo diante dos desafios econômicos e políticos. SEÇÃO 2 - A DOMINÂNCIA DO DÓLAR NO SMFI De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o dólar representa cerca de 60% das reservas internacionais de moeda estrangeira (IMF, 2021). Além disso, o dólar é a moeda mais utilizada nas transações internacionais, representando cerca de 88% do volume total de transações no mercado de câmbio (BIS, 2019). Segundo Palley (2022): The US dollar is the world’s dominant currency, measured by the value of trade invoiced in dollars, the denomination of international lending, and the share of central bank foreign exchange reserves held in dollars. As such, the dollar constitutes the world’s hegemonic currency (Palley, p. 1, 2022). A Tabela 2 mostra a participação do dólar e de outras moedas nas reservas internacionais de moeda estrangeira desde 2016. Como pode ser observado, a moeda estadunidense consegue manter uma participação dominante quando comparada às demais moedas, apesar de flutuações ao longo do tempo. 32 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Tabela 2 - Participação do Dólar e Outras Moedas nas Reservas Internacionais de Moeda Estrangeira (2016-2023) Fonte: IMF (2023), Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves (COFER). O domínio persistente do dólar nas reservas internacionais, evidenciado pelos dados, reforça seu papel central também na arquitetura financeira. Apesar de uma queda gradual de 65,36% para 58,42% em sua participação nas reservas alocadas, a moeda estadunidense continua a manter sua hegemonia, representando mais da metade do total mesmo após oito anos. Essa trajetória reflete uma diversificação moderada por parte dos países, impulsionada pelo crescimento de moedas como o euro (que oscilou entre 19% e 21%) e o RMB (que saltou de 1,08% para 2,29%). No entanto, nenhuma delas conseguiu desafiar seriamente o dólar, cuja liquidez, segurança e aceitação no mercado o tornam insubstituível. 33 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Gráfico 1 – Participação das Moedas Estrangeiras nas Reservas Internacionais Fonte: elaboração própria por meio de dados do IMF (2023), Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves (COFER). Fatores geopolíticos, como a influência dos Estados Unidos em organismos multilaterais e a estabilidade institucional do país, amplificam essa dinâmica. Enquanto o sistema financeiro global permanecer amarrado a contratos, transações e mecanismos de lastro em dólar (e na ausência de uma alternativa com escala comparável), sua supremacia deve persistir, mesmo em um mundo cada vez mais diversificado. O dólar também é dominante no SWIFT, que oferece uma infraestrutura que permite o envio de instruções de pagamento entre instituições financeiras no mundo todo. O sistema internacional de pagamentos é sustentado por um conjunto restrito de moedas que funcionam como meios de troca. O reconhecimento de determinadas moedas nacionais como moedas de pagamento internacional ocorre dessa forma: quanto maior for o número de participantes que utilizam ou aceitam pagamentos em uma determinada moeda, maior o incentivo para que outros agentes façam o mesmo. Conforme o Gráfico 2, entre 2020 e 2024, o dólar americano representou aproximadamente 42% de todos os pagamentos internacionais via SWIFT. O euro é a única moeda que se aproxima desse volume, variando entre 32,5% no mesmo período. O restante das transações internacionais, em torno de 24%, é distribuído entre 20 outras moedas. Apesar de o dólar ser a moeda mais utilizada nessas transações, a maioria dessas transferências não envolve diretamente indivíduos ou empresas dos Estados Unidos, seja como remetentes (as entidades que solicitam o pagamento) ou como destinatários (as que recebem) (MCDOWELL, 2020). 34 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Gráfico 2 – Pagamentos Internacionais via SWIFT, 2020 – 2024 Fonte: elaboração própria por meio de dados do Statista - Share of global payments by currency from 2020 to 2024 O gráfico 3 identifica como o papel internacional de uma moeda também pode ser avaliado pelo seu uso como meio de troca. Gráfico 3 - Participação na Faturação das Exportações Fonte: elaboração própria por meio de dados do FED. Nota: Composição média anual de moedas no faturamento das exportações, onde há dados disponíveis. Os dados se estendem de 1999 a 2019. As regiões são aquelas definidas pelo FMI. 35 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Bertaut et al. (2021) analisaram a composição monetária do comércio global e das transações financeiras internacionais, destacando o domínio do dólar. Ele é, de longe, a moeda mais utilizada no comércio mundial. Entre 1999 e 2019, o dólar representou 96% das faturas comerciais nas Américas, 74% na região Ásia-Pacífico e 79% no restante do mundo. A única exceção é a Europa, onde o euro predomina. O gráfico 4 analisa a emissão de dívidas em moeda estrangeira; nele é possível observar como o dólar também é dominante neste setor. Gráfico 4 - Participação de Moedas na Emissão de Dívida em Moeda Estrangeira Fonte: elaboração própria por meio de dados do FED. Nota: A dívida em moeda estrangeira é denominada em uma moeda estrangeira relativa ao país da empresa emissora (não ao local de emissão). O Renminbi é 0 até 2008. A emissão de dívida em moeda estrangeira, ou seja, quando empresas tomam empréstimos ou emitem títulos em uma moeda diferente da usada em seu país de origem, é amplamente dominada pelo dólar. Isso significa que mais da metade dos financiamentos obtidos internacionalmente ocorrem nessa moeda. Desde 2010, aproximadamente 60% de toda a dívida emitida em moedas estrangeiras foi denominada em dólares, consolidando sua posição como principal moeda de referência. Em comparação, o euro, que é a segunda moeda mais utilizada nesse contexto, responde por apenas 23% do total. Esse cenário reflete a confiança dos mercados na estabilidade e liquidez do dólar, além de sua ampla aceitação em transações internacionais. Uma análise do uso do dólar na economia global ao longo das últimas duas décadas indica que sua posição como a principal moeda internacional permaneceu dominante e relativamente estável. Para avaliar essa estabilidade, Bertaut et al. (2021) desenvolveram um índice agregado que mede o uso do dólar como moeda internacional. Esse índice é construído a partir da média ponderada de cinco indicadores-chave, para 159 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellectori.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260