RELIT-Rom Revisões literárias: a aplicação criativa de romances antigos (sécs. XV-XVIII)
Abstract
O programa RELIT-Rom disponibiliza o Catálogo poético-musical mais completo das menções a romances interpoladas em páginas de autores portugueses dos séculos XV a XVIII, quer como testemunhos indiretos das baladas e suas melodias, quer como dispositivos de efeitos múltiplos (semânticos, poéticos e musicais) nos novos contextos literários.
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RELIT-Rom Revisões literárias: a aplicação criativa de romances antigos (sécs. XV-XVIII) https://relitrom.pt/index.php Contextualização do projeto Project Context Abstract: [PT] O programa RELIT-Rom disponibiliza o Catálogo poético-musical mais completo das menções a romances interpoladas em páginas de autores portugueses dos séculos XV a XVIII, quer como testemunhos indiretos das baladas e suas melodias, quer como dispositivos de efeitos múltiplos (semânticos, poéticos e musicais) nos novos contextos literários. Abstract: [EN] The RELIT-Rom program provides the most comprehensive poetic-musical catalogue of references to ballads embedded in the works of Portuguese authors from the fifteenth to the eighteenth centuries. It includes both indirect testimonies to the ballads and their melodies, and the ways these references function as devices that produce multiple effects (semantic, poetic, and musical) within new literary contexts. Abstract: [ES] El programa RELIT-Rom ofrece el catálogo poético-musical más completo de las menciones a romances interpoladas en las páginas de autores portugueses de los siglos XV al XVIII, ya sea como testimonios indirectos de las baladas y sus melodías, ya sea como dispositivos de múltiples efectos (semánticos, poéticos y musicales) en nuevos contextos literarios. DOI: 10.5281/zenodo.17910183 Direitos de reprodução: RELIT-Rom - Revisões literárias: a aplicação criativa de romances antigos (sécs. XV-XVIII) is licensed under CC BY-NC-SA 4.0
Estado da Arte A atenção dos estudiosos ao engaste, em obras portuguesas ditas canónicas dos séculos XV-XVIII, de versos ou hemistíquios de poemas épico-líricos de origem medieval não é um gesto crítico recente: surgiu no âmbito do movimento fundacional da “literatura nacional”. Os eruditos oitocentistas, na sua procura das bases tradicionais da literatura portuguesa, detetaram a presença de algumas fórmulas romancísticas em certas páginas literárias, apresentando-as como testemunhos do género medieval que o povo conservara e consequentemente como marcas da genuinidade “nacional” das obras que as incluíam (Wolf, 1856; Storck, 1885). Com este ímpeto, pontificou naturalmente Teófilo Braga (Araújo, 2005). Já as preocupações da autora do primeiro – e único, até agora – catálogo dos engastes, “Romances Velhos em Portugal” (Vasconcelos, 1907-1909), foram de natureza filológica. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, procurando suprir a inexistência de antigas coleções portuguesas de romances e asseverar uma antiga tradição portuguesa do género épico-lírico medieval, constituiu, a partir do escrutínio de um amplo conjunto de obras literárias dos séculos XV-XVII, um inventário com quase duas centenas de referências feitas por cerca de cinquenta autores, segundo contou Giuseppe Di Stefano num artigo que dedicou ao inventário português (Di Stefano, 1982: 27). O conhecimento epocal sobre o romanceiro velho (e inclusivamente o da tradição moderna portuguesa) que balizou a colossal investigação da filóloga foi posteriormente bastante ampliado, pelo que “Romances Velhos em Portugal” exige um reexame à luz dos achados poéticos posteriores nas duas tradições do género (a antiga e a moderna). Ainda assim, a obra continua a constituir o catálogo de referência dos engastes de versos de romances nas criações portuguesas deste período e a servir de base e de repto à investigação atual. Em resultado da descoberta de novas fontes do romanceiro antigo – de sobremaneira inventariadas e estudadas por Antonio Rodríguez-Moñino (1973 e 1997) – e fruto das novas perspetivas da filologia e dos estudos literários em geral, vários estudiosos retomaram a questão das incorporações de romances a partir dos meados do século XX, reequacionando o fenómeno como um dispositivo de efeitos heterogéneos e precisos. Alguns acrescentaram ao excecional catálogo de Carolina M. de Vasconcelos novas baladas e novas aplicações, mas todos as abordaram mediante a articulação do estudo do romance mencionado com o do significado e funcionalidade da sua incrustação nos novos contextos literários. Eugenio Asensio foi um dos primeiros a aplicar o modelo crítico e a fazer notar os efeitos estéticos do processo de engaste (Asensio, 1957). Outros continuaram a aprofundar este ângulo de análise. Giuseppe Di Stefano destacou a “stilizzazione”
operada por Gil Vicente sobre determinadas formas romancísticas incorporadas pelo dramaturgo (Di Stefano, 1967: 91-100). Aida Fernanda Dias realçou a funcionalidade amplificadora de várias incorporações na lírica portuguesa dos séculos XV e XVI (Dias, 1974, 1978 e 1998). Pere Ferré mostrou que certas interpolações no teatro de Anrique da Mota e de Gil Vicente obedeceram a um processo de parodização das fontes e foram um forte mecanismo de comicidade (Ferré, 1982-1983 e 2003). Teresa Araújo analisou este procedimento como máquina cómica e por vezes de mordacidade social e política em peças vicentinas e de António Prestes (Araújo, 2004a e 2004b), assim como em textos epistolares de Luís de Camões (Araújo, 2011a), ou como subtextos estruturantes da configuração de personagens, nomeadamente n’O.Fidalgo.Aprendiz (Araújo, 2011b). Estudou ainda alguns aspetos de certos engastes no Cancioneiro. Geral de Garcia de Resende e esboçou de forma provisória uma gramática do procedimento (Araújo, 2015 e 2014, respetivamente). Embora as abordagens posteriores à de “Romances Velhos em Portugal” constituam contributos fundamentais, são estudos parcelares que cobrem uma parte reduzida dos romances mencionados e dos engastes inventariados por D.ª Carolina, pelo que requerem novos estudos sobre o romanceiro de tradição antiga, assim como o aperfeiçoamento da metodologia de base intertextual e o desenvolvimento do modelo crítico no âmbito do corpus canónico. O projeto exploratório RELIT-Rom nasceu como resposta a esta falta com o propósito de inventariar e analisar sistematicamente o procedimento criativo, os respetivos efeitos e fontes romancísticas antigas, segundo se expõe no Programa.
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Programa O projeto Relit-Rom aplica métodos de moldura filológica, comparatista e intertextual para rever a classificação, assim como para identificar e examinar os engastes de versos de romances em obras com assinatura portuguesa de teatro, lírica, historiografia, entre outros géneros. Utiliza, por outro lado, recursos e ferramentas das Humanidades Digitais de modo a sistematizar a investigação. A primeira fase abrangeu o apuramento do exame filológico de todos os engastes cuja proveniência romancística se encontra identificada nos “Romances Velhos em Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1907-1909). As duas seguintes englobam as interpolações sem origem identificada no catálogo da filóloga, assim como os engastes detetados posteriormente à publicação do inventário. Em todo o caso, a metodologia do programa de trabalho baseia-se nos seguintes procedimentos que se refletem na estrutura da ficha da Base de Dados. Inicialmente, concentra-se na descrição e na análise das intercalações no contexto do fragmento literário em que surgem, bem como no da respetiva composição quadro. Para o efeito, considera a impressão da obra coeva à vida do autor, na qual os intertextos figuram pela primeira vez – nem sempre fazem parte da princeps. Não existindo esse impresso, toma a primeira edição crítica de referência ou, à falta dela, o primeiro documento em letra de molde conhecido. Incide então sobre a(s) língua(s) da interpolação e os nexos discursivos e semânticos da forma intercalada com o verso romancístico de proveniência, para seguidamente atender ao género e à autoria da composição e obra quadros. Num segundo momento, recapitula e atualiza a identificação e as fontes do(s) romance(s) de proveniência do engaste, a partir dos testemunhos poéticos antigos, fixados em forma autónoma ou em glosas, em letra impressa (livros e folhetos de cordel) e manuscrita que se encontram em boa parte inventariados nos quatro volumes do Manual. bibliográfico. de. Cancioneros. y. Romanceros (RodríguezMoñino, 1973 e 1977), no Nuevo. Diccionario. bibliográfico. de. pliegos. sueltos. poéticos. (Siglo. XVI) (Rodríguez-Moñino, 1997) e no Suplemento. al. Nuevo. Diccionario.bibliográfico.de.pliegos.sueltos.poéticos.(Siglo.XVI) (Askins-Infantes, 2014), assim como nos três tomos do Ensayo.de.una.bibliografía.analítica.del. romancero.antiguo (Piacentini, 1981-1994). Este exame reveste-se de especial complexidade, uma vez que, por exemplo, certos engastes têm origem em versos partilhados por mais do que um romance e em expressões comuns a romances e a adágios ou a frases feitas, não podendo saberse com rigor – sobretudo em certos casos – se os enunciados foram apropriados pelos romances ou se resultaram da autonomização de versos romancísticos. Face a esta problemática, é sempre descrita a diversidade das fontes da expressão de
proveniência, quer duplicando o grupo Proveniência textual antiga da Base de Dados, quer introduzindo observações nas respetivas Notas. O escrutínio também se depara com o facto de nem todos os romances terem sido legados pela imprensa antiga ou por velhos manuscritos, pelo que se considera o repertório conservado pela tradição oral moderna portuguesa (e inclusivamente pan-hispânica), já que a persistência da maior parte dos romances tradicionais dos nossos dias comprova a antiguidade dos temas – e contribui para uma reavaliação da antiga familiaridade portuguesa com os romances além do domínio do impresso. Concluídos os procedimentos descritos e sistematizada a investigação na Base de Dados, torna-se possível mapear o isomorfismo e a polimorfia do artifício criativo do engaste romancístico e abordá-lo sob diversos ângulos críticos e teóricos (ver, em Estudos, os trabalhos já realizados e em curso). Possibilita ainda a aproximação ao romanceiro antigo em Portugal ambicionada por Carolina Michaëlis de Vasconcelos ao catalogar os versos das baladas mais ou menos recriados por autores portugueses – certos de que os seus públicos os reconheciam e sabiam interpretá-los nos novos contextos literários. Bibliografia ASKINS, Arthur L.-F. y INFANTES, Víctor (2014). Suplemento. al. Nuevo. Diccionario. bibliográfico.de.pliegos.sueltos.poéticos.(siglo.XVI).de.Antonio.Rodríguez‗Moñino, Vigo, Editorial Academia del Hispanismo. PIACENTINI, Giuliana (1981-1994). Ensayo. de. una. bibliografía. analítica. del. romancero. antiguo¡.Los.textos.(siglos.XV.y.XVI), 3 vols., Pisa, Giardini. RODRÍGUEZ-MOÑINO, Antonio (1973). Manual.bibliográfico.de.Cancioneros.y.Romanceros. (Siglo.XVI), 2 vols., Madrid, Castalia. _____ (1977). Manual. bibliográfico. de. Cancioneros. y. Romanceros. (Siglo. XVII), 2 vols., Madrid, Castalia. _____ (1997). Nuevo.Diccionario.bibliográfico.de.pliegos.sueltos.poéticos.(siglo.XVI), ed. corregida y actualizada por Arthur L.-F. Askins y Víctor Infantes, Madrid, Castalia. VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de (1907-1909). “Estudos sobre o Romanceiro peninsular. Romances Velhos em Portugal”, Cultura.Española, VII, 1907, pp. 767-803; VIII, 1907, pp. 1021-1057; IX, 1908, pp. 93-132; X, 1908, pp. 435512; XI, 1908, pp. 717-758; XIV, 1909, pp. 434-483; XV, 1909, pp. 697-732 (artigos compilados em Estudos. sobre. o. Romanceiro.Peninsular¡.Romances.Velhos.em.Portugal, 2ª ed., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934, reimpresso no Porto, Lello, 1980).
Equipa Teresa Araújo, investigadora principal (IP) Ana Sirgado, corresponsável com a IP pelo Catálogo poético-musical Inês Thomas Almeida, corresponsável com a IP pelo Catálogo poético-musical Sandra Boto Ricardo Mangerona Clara Marías Ariadne Nunes Matteo Pupillo Pedro Ferré, consultor Manuel Pedro Ferreira, consultor José Barbieri / Memória Imaterial CRL - Desenho de bases de dados e website Financiamentos e apoios O projeto teve início em 2018 com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian (Programa Língua e Cultura Portuguesa, 207951/2017) e prossegue o seu desenvolvimento com o da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (UID/ELT/00657). Instituição de acolhimento IELT - Instituto de Estudos de Literatura e Tradição – Patrimónios, Artes e Culturas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. https://ielt.fcsh.unl.pt/
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