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Iludindo a censura e a inquisição com expressões idiomáticas e provérbios no século XVIII em Portugal

Teixeira, José

Abstract

“Enfermidades da língua”, publicado em 1759, aparentemente quer retirar cerca de 4000 palavras e expressões da língua portuguesa. Porém, na nossa opinião, esta é uma estratégia para nomear o proibido, fugindo à Inquisição nos tempos do famoso Marquês de Pombal. A obra permite assim, para além de outras informações linguísticas, conhecer provérbios e expressões idiomáticas que estavam em uso há cerca de 300 anos e das quais não teríamos conhecimento se não aparecessem como condenáveis neste livro.

Full text

Este texto corresponde à seguinte publicação: Teixeira, José (2024) “Iludindo a censura e a inquisição com expressões idiomáticas e provérbios no século XVIII em Portugal”, in Soares, Rui e Lauhakangas, Outi (Org.), 17º Colóquio Interdisciplinar sobre Provérbios/ 17th Interdisciplinary Colloquium on Proverbs. Actas ICP17Proceedings, Associação Internacional de Paremiologia / International Association of Paremiology (AIP-IAP), Tavira, pp. 97-108. (ISBN 978-989-53395-6-3), outubro 2024. 97 ILUDINDO A CENSURA E A INQUISIÇÃO COM EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS E PROVÉRBIOS NO SÉCULO XVIII EM PORTUGAL i José TEIXEIRA, Universidade do Minho, Portugal Resumo “Enfermidades da língua”, publicado em 1759, aparentemente quer retirar cerca de 4000 palavras e expressões da língua portuguesa. Porém, na nossa opinião, esta é uma estratégia para nomear o proibido, fugindo à Inquisição nos tempos do famoso Marquês de Pombal. A obra permite assim, para além de outras informações linguísticas, conhecer provérbios e expressões idiomáticas que estavam em uso há cerca de 300 anos e das quais não teríamos conhecimento se não aparecessem como condenáveis neste livro. Palavras-chave: Livro “Enfermidades da Língua”; língua e censura; língua e normativismo; fraseologias; Manuel José de Paiva. Abstract “Enfermidades da língua” (Language diseases), published in 1759, apparently wants to remove around 4000 words and expressions from the Portuguese language. However, in our opinion, this is a strategy to name the forbidden, evading the Inquisition in times of the famous Marquis of Pombal. It thus allows, in addition to other linguistic findings, to learn about proverbs and idiomatic expressions that have been in use for around 300 years ago and which we would not have known about if they did not appear as reprehensible in this book. Keywords: Book “Enfermidades da língua” (“Language Diseases”); language and censorship; language and normativism; phraseologies; Manuel José de Paiva. A obra de 1759 O livro Infermidades da Lingua e arte que a ensina a emmudecer para melhorar compara a língua portuguesa a uma pessoa doente que é diagnosticada por um médico que a visita e descreve os males de que sofre, apresentando remédios para os achaques que encontra. Cada visita corresponde a um capítulo e, a nível linguístico, a sétima das visitas é a mais relevante, já que o autor apresenta um vasto leque de quatro mil palavras e expressões de uso desaconselhado por lhe parecerem "impróprias", "indecentes" ou "indiscretas". Na Primeira Visita, é referido o “esfalfamento”, a enfermidade de falar em demasia, falar sem utilidade; na Segunda Visita, a doença é a das palavras ligadas à soberba, à incapacidade de diálogo; na Terceira Visita o tema é a mentira, a falsidade e os enganos da retórica; a maledicência, os insultos, as injúrias e a inveja são as enfermidades da 98 Quarta Visita; na Quinta Visita é o dizer mal, provocado pela ignorância e pela ambição; na Sexta Visita condena-se a crítica, vista como o primeiro passo contra a caridade; na Sétima Visita indicam-se as palavras e expressões impróprias que se devem evitar; na Oitava Visita testemunham quatro Catedráticos sobre o mau emprego da língua em ciência, exemplificando com ideias científicas que o autor considera falsas. A obra é estruturalmente paradoxal, já que defende que o grande defeito da língua é ela ser usada para falar! Daí o título: para melhorar, a língua tem de aprender a “arte” de “emudecer”! O autor e as intenções que lhe atribuem Pouco se sabe da vida de Manuel José de Paiva. Nasceu em Lisboa, em 1706, estudou e formou-se em Direito em Coimbra, exerceu a magistratura em Odemira e em Avis, advocacia em Lisboa e não é sabido quando faleceu. Segundo Pereira (2003), em 1764 foi corregedor em Elvas e em 1781 ainda não teria falecido. Em Enfermidades, e noutras suas obras, usou igualmente uma espécie de “nome artístico”, Sylvério Silvestre da Silveira e Silva. Verdelho (2001) insere esta obra naquilo que classifica como "moralidade do silêncio" nos tempos do Marquês de Pombal, já que o livro apela a restrições ao uso demasiado livre das línguas e das opiniões não consagradas pela tradição. Assenta visivelmente numa perspetiva cientificamente anti iluminista que toma a interpretação bíblica como a única fonte para a ciência. A tese até agora aceite sobre esta obra de Manuel José de Paiva (ver Venâncio 2019; Verdelho 2001, Pereira 2000 e 2003) é a de que é um dos mais explícitos exemplos da tradição sobre a “corrupção das línguas” e do proibicionismo linguístico, na medida em que a obra enumera uma enorme quantidade de palavras e expressões que, segundo o seu autor, devem ser expulsas dos usos recomendados da língua. A estrutura e alicerce de Enfermidades: ironia e contradição O autor, como já se indicou, adotou também nesta obra um “nome artístico”, explicitamente sarcástico: Sylvério Silvestre da Silveira e Silva. Ao explicitar (inclusivamente na capa) simultaneamente o seu verdadeiro nome e este alter-ego nominal nitidamente irónico parece querer dizer, à boa maneira barroca, que o que escreve não é apenas o que aparece, mas deverá ser condimentado pelas cornucópias 99 da construção barroca em que cada texto não tem unicamente uma leitura real e aparente. Desde o início, há passagens em que a intenção irónica é a mais forte explicação das contradições apresentadas. Na verdade, embora toda a obra se baseie metaforicamente na linguagem médica, desde o título, Infermidades (Enfermidades) até à forma como a “enferma” é identificada com a língua portuguesa por um “médico” que a pretende “diagnosticar para a curar”, com tudo isto como se compreenda que diga que vai evitar a linguagem médica?! Evitando pois a linguagem médica, pano que se põe pelos olhos para que esta chamada ciência e os seus erros se dificultem à vista e de que se cortam os rebuços em que se esconde a ignorância temerária e a cobiça enganadora, digo, pelas observações que tenho feito, pelos sintomas que tenho advertido e pelas reflexões a que me tenho aplicado, que esta enferma está cheia de inveterados achaques, tão contagiosos e tão pestíferos, que pelo mundo todo se observam já derramados. (Paiva, p. 6) Só se compreende porque Enfermidades são, na interpretação que nos parece mais aceitável, uma espécie de jogo de faz de conta ao gosto barroco. Uma obra que se preze, diz o autor, deve incluir “equívocos”, desafios: “Os equívocos, se são ditos a tempo, com graça e subtileza, dignos se fazem de serem admitidos na Oração” (Paiva 1759, p. 83). Então, as Enfermidades estão cheias de “equívocos”, de jogos concetuais, de ironias, paradoxos e contradições, a começar na essência da própria obra: a finalidade divina das línguas é, como propõe o autor, o calar-se, o não serem usadas para falar, a "moralidade do silêncio" (Verdelho 2001). Se se esquecesse a dimensão irónica da obra, uma outra contradição a colar ao autor era a de ele se reconhecer um modesto médico sem fama e de pouco poder de cura e a língua por ser tão poderosa e as suas enfermidades tão vastas precisar de um grande médico. Mas o autor argumenta oximoricamente, ao nível do melhor concetualismo barroco: os melhores médicos são os menos famosos! Para as curas mais proveitosas devem ser médicos pouco famosos! Um médico é pago pela sua fama e, por isso, os muito famosos ficam extremamente caros e nem por isso dão mais garantias do que os outros, já que toda a medicina é enganosa: receito para todos os enfermos os Médicos menos afamados, porque estes aceitam ametade da paga em fama e ametade em dinheiro, quando para os outros se há de contar o dinheiro, que se lança pela medida da fama que se acha […]. Nem faço diferença das curas de uns e outros, porque isso não é coisa que pertença à medicina deste mundo, comédia de aparências com que se lisonjeiam os olhos e trapaça bem armada com que se enganam os tolos (Paiva 1759, pp. 5-6). 100 Mas se todos os médicos, segundo ele, são trapaceiros, ele, propondo-se médico da língua, não é também um “trapaceiro”? O não querer desenvolver esta questão, que é implicada pela sua própria argumentação, talvez seja a confissão implícita de como as Enfermidades também são uma "medicina de enganos" e a finalidade da obra não seja um verdadeiro "emudecer" a língua, mas pelo contrário, em revelar, em poder mostrar o que normalmente aparece como proibido e interdito. Dizer fraseologias que é proibido dizer. Assim, o ultraproibicionismo de Paiva, mais do que a verdadeira finalidade de Enfermidades, é uma estratégia irónica que permitia publicar o que de outro modo seria proibido, constituindo um jogo para fugir à censura. A obra indica “o que não deve dizer-se” pelo prazer de se poder dizer sem recriminações o que o vulgo diz, como o calão e expressões causticamente perigosas para algumas instituições dominantes. Não vemos a obra como a defesa máxima do purismo linguístico, mas parecenos que Enfermidades são um jogo de enganos, uma maneira que um barroco sarcástico (que se renominara Sylvestre Silvério da Silveira e Silva) escolheu para dizer o que de outro modo dificilmente seria publicável. Autointitula-se um médico da língua, mas tem uma opinião muito severa sobre a "medicina deste mundo, comédia de aparências com que se lisonjeiam os olhos e trapaça bem armada com que se enganam os tolos" (Paiva 1759, p. 6). É, por isso, desafiante ver a suposta condenação que a obra atribui aos quatro mil termos e expressões como uma "comédia de aparências", uma "trapaça bem armada com que se enganam os tolos" do Tribunal do Santo Ofício que o Marquês de Pombal, uma década depois, em 1768, transformará em Real Mesa Censória. É habitual ver-se a listagem das palavras e expressões condenadas na obra como fúria castradora da língua e um sinal de purismo do autor. Mas como poderia Manuel José de Paiva, escritor, jurista e magistrado, sabendo que o seu modo de vida assenta no uso das palavras e na argumentação, propor "emudecer a língua", a não ser como ironia? Alguém acredita que ele verdadeiramente pensava ser possível retirar da língua as quatro mil palavras e expressões que elenca? É que ele próprio usa, na obra, algumas palavras e expressões que aparecem na sua lista proibitiva, por exemplo, “barafunda” (página 170); diz não dever usar-se “maravilhar-se” nem “vay às mil maravilhas”, mas usa “admirável maravilha”, “dizendo maravilhas de Vós”. Coloca na lista proibida 101 “engraçar”, mas utiliza “olham para o engraçado das flores” (pág. 89), “se manifestam mais engraçadas” (pág. 103). Se realmente a intenção fosse proibir, porque iria querer retirar da língua tantas formas e expressões muito usadas e até provérbios amplamente aceites como “Quem o seu inimigo poupa nas mãos lhe morre”? Parece-nos, pois, que o que a obra realmente pretende é poder expor o maior leque possível de formas nem sempre publicáveis ou mesmo interditas que, de outro modo, não poderiam ver a luz em livro autorizado pela inquisição pombalina. Torna-se interessante, a este respeito, reparar na forma como a obra acaba. O autor promete em futura publicação "oferecer à pública censura doze livros, que compreendem a universal Filosofia que neles escrevo" (Paiva 1759, pág. 203). E depois de indicar tudo o que irá tratar (a "universal Filosofia"), não se esquece de informar que tudo o que escrever é para ser submetido ("para que lhe emende os erros") "à correção da Santa Igreja Católica" e "à real circunspeção": Sujeitarei estes livros, como devo, à correção da Santa Igreja Católica, para que lhe emende os erros do entendimento, ainda que protesto os não há de achar na vontade. Também os subordinarei à real circunspeção para serem neles arguidas as cláusulas que forem notadas por inoportunas: e nesta diligência envolvo a peroração de todos os discursos com que tenho visitado a língua enferma com o intuito de curá-la, porque se ela falasse com quem a corrigisse primeiro do que falasse e estivesse algum tempo muda antes que proferisse o que deseja dizer, nem o mundo estivera tão doente com as enfermidades da língua, nem tão desconfiado do remédio que só pode conseguir na Arte que a ensina a emudecer para melhorar. (Paiva 1759, pp. 211-212) Este apelo às boas graças da “correção da Santa Igreja Católica”, estrategicamente colocado nas últimas linhas do livro, dá a sensação de decorrer da ideia de aqui poder dizer o problemático e nem sempre bem aceite, mesmo em frente da Inquisição. O que não implica que a obra inclua todos os termos e expressões mais “vulgares”, nem as mais ofensivas. O autor confessa que não irá escrever todas as que existem, mas apenas as que no momento em que escreve lhe venham à memória. Olhando para a listagem que Paiva apresenta, não podemos pensar que todos os exemplos têm o mesmo grau de interdição social que têm hoje: “as palavras e os conceitos considerados tabus podem variar um pouco de acordo com a época e o lugar. Ao longo da história de um idioma, muitas vezes observamos palavras que ficam sujas e sujas que ficam limpas.” (Pinker 2008, p. 373). No século XVIII, com certeza que várias das expressões apresentadas teriam restrições de uso que hoje não têm. Pode corroborar-se este aspeto verificando que, só começadas pela tetra “A” das que indica deverem ser expulsas (ortografia atualizada) continuam, hoje, a ser palavras e expressões perfeitamente aceites no uso quotidiano: 102 atrapalhar asnear asneira à risca a torto e a direito amargurado alfarrábio amuado apaniguado apaziguado atarantado adocicado amachucado aderência arejar amolgar agastamento arreganhou-lhe os dentes acabou-se o queijo ah pés para que te quero abanou-lhe as orelhas à queima roupa anda na berra arde-me a cara arrebatou-lho da mão à chucha calada anda de candeias às avessas apanhou-o com as calças na mão Mas o inverso também pode ser real: muitas expressões e termos de Enfermidades poderiam ter um grau mais elevado do que na atualidade têm de interdição linguística e social. Comece-se a exemplificação pelas palavras e expressões que ainda hoje são “proibidas” de usar em textos socialmente aceitáveis: as que constituem o calão, os designados “palavrões”. Normalmente os interditos linguísticos estão ligados principalmente à referência a excrementos, à sexualidade e à religião (Pinker 2008, pp. 368-424). Perdoe-se o destaque de alguns (Tabela 1) que Paiva aproveita para apresentar: Interditos ligados a excrementos e sexualidade Interditos ligados à religião batecú batemijados bigodes de ourina berra-lhe o diabo nas tripas bexiga no cu diabo na tésta cagueiro caca cagarola cagalume caganeira caganeta caganito caguetas cara de corno culambas de abreu cú de Judas cornaça cagaimana cuécas cagarraõ cagaçal caga lagarta camizinha de entre as nalgas derreou-lhe o cagueiro escuro como hum corno focinho de corno frio como hum corno filho da pucara fez-lhe o cú à unha he filho da folha jam da caganeta jam mijão mija manso mija mansinho mijar fóra do texto massou-lhe o cagueiro naõ chega ao seu pé cagado olho do cú olhos de mija vinagre valha-te hum corno a cada canto Espirito Santo ardeo a santa asneira que fez o Senhor Bispo ahi cos diabos atirou-lhe com hum diabo á cabeça benza-te o Criador dos melrros bem está S. Pedro em Roma se elle tem que coma cos diabos Deos te dé o que te falta que he o folle mais a gaita Deos te pregue os miolos numa parede fradinho da maõ furada ferve a santa fuy ao outro mundo e vim a este não há que fiar em Deos em tempo de inverno padreca S.Braz te afogue já que Deos naõ póde saõ paspalhaõ serva de Deos furta laranjas santa Anna a velha rebocada de novo valha-te o diabo vem-me cà vender bullas valha-te trezentos mil diabos Tabela 1: Alguns termos e expressões ligados a interditos de Enfermidades 103 E ao contrário do que nos poderia dar uma visão atual, os interditos ligados a excrementos e sexualidade até poderiam passar mais ou menos despercebidos numa obra do século XVIII; já os respeitantes à religião, não nos parecem possíveis numa obra dessa época filtrada pela inquisição. Nessa época, os ligados à religião tinham um maior grau de interdição do que têm hoje, praticamente perdida. Repare-se mesmo que, se não fosse esta obra, nem imaginaríamos que eram correntes na época, porque talvez seja impossível encontrar obras em que a inquisição os tenha deixado imprimir. Embora possamos não os compreender todos na totalidade não é muito difícil perceber o caráter disruptivo de alguns dos listados numa sociedade fortemente vigiada pela inquisição. Repare-se nos que ironizam com entidades divinas (benza-te o Criador dos melrros, Deos te dé o que te falta que he o folle mais a gaita, Deos te pregue os miolos numa parede); com os abusos dos religiosos (padreca, asneira que fez o Senhor Bispo, fradinho da maõ furada, ferve a santa, serva de Deos furta laranjas, santa Anna a velha rebocada de novo); outros, em bom rigor, poderiam mesmo ser tidos como heresia (Deos te pregue os miolos numa parede, fuy ao outro mundo e vim a este, não há que fiar em Deos em tempo de inverno, S.Braz te afogue já que Deos naõ póde). Mas as fraseologias mais iconoclastas que aparecem são as expressões e provérbios que mostram abertamente críticas a circunstâncias que levaram à Reforma Protestante, concretamente ao poder temporal e opulência do papado de Roma e ao comércio das indulgências através da venda de bulas ii . Permita-se destacar o provérbio “condenado” em Infermidades: bem está S. Pedro em Roma se elle tem que coma. É bem evidente a ironia com a instituição papal ao referir-se ao fausto (representado no comer) que permite o “bem-estar”. Aliás, nem é o Papa que é expressamente referido, mas “S. Pedro”, em nome do qual o Papa está em Roma. Esta heresia de afirmar que S. Pedro está bem em Roma a comer acentua a crítica ao mundanismo do papado, tema certamente sentido por uma grande parte da sociedade mas de referência proibida. E como é que S. Pedro (ou seja, o Papa) consegue “comer bem” em Roma, se não se vê trabalho que o justifique? Repare-se na cáustica expressão, também apresentada como condenável, vem-me cà vender bullas. O significado deveria ser “Não me venhas com palavreado inútil, não me tentes enganar com manhas para iludir os parvos”. É surpreendentemente informativa esta expressão, já que mostra que em Setecentos existia socialmente, embora de forma talvez mais implícita e escondida que pública, a crítica à forma como a Igreja 104 comercializava indulgências e perdões de pecados. Se não fossem incluídas nesta listagem supostamente a expurgar da língua, como passariam no exame da Inquisição? E a verdade é que não se encontram nos livros com permissão de publicação da época estas e outras expressões do mesmo género, embora possamos supor que eram muito frequentes e repetidas (por isso aparecerem nesta obra como formas populares). Deduz-se que aparecendo na listagem de Enfermidades como evitáveis e condenáveis, “frazes do vulgo”, também fossem vulgares no sentido de “frequentes”. Provérbios e fraseologias da obra como testemunhos únicos A gigantesca lista dos termos supostamente condenáveis que aparecem em Enfermidades também é bastante interessante na medida em que nos revela formas linguísticas que tinham uso comprovado na época. Enfermidades, publicado em 1759, situa-se numa época sensível da organização lexicográfica do português, entre o nosso primeiro verdadeiro dicionário (o Vocabulário Bluteau, 1712-1728) e o designado Dicionário Moraes (1789), tido como o dicionário fonte da posterior lexicografia portuguesa. Enfermidades, ao recolher palavras e expressões que, por princípio, não eram consideradas as mais perfeitas e nobres para pertencerem às obras oficiais, torna-se um contentor de grande valor para descobrirmos formas que, não aparecendo registadas nas agora referidas obras de Bluteau e Moraes, não saberíamos que já existiam no século XVIII. Apenas alguns exemplos: Encontram-se termos que hoje são vistos como regionalismos mas que parece não terem tido origem regional, tendo sido, pelo contrário, usados a nível geral (gomitado, gomitar por vomitado, vomitar). Outros, que obras clássicas como o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, só comprova mais de um século depois, como reguingar, aparecem também registados pela primeira vez em Infermidades. E mesmo palavras como reviravolta (que não aparecem registados no início da nossa lexicografia, dando a sensação de terem sido formados modernamente) também aí já são registados. A título de amostragem, só na letra P, encontram-se bastantes termos que não aparecem nas primeiras obras lexicográficas portuguesas: papaguear, paspalhão, padreca, patuscada, pequerrucho, pindorocalho iii , preguiceirão, pacóvio, patacoada, papão, pedinchão. E são apenas alguns exemplos da lista, em P, sem procurar muito. Há ainda palavras que não se encontram em Bluteau e aparecerão depois em Moraes-1789, como patacoada, papão, pedinchão (continuando apenas na listagem da letra P),