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Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo

Marques, Aldina

Abstract

Em Portugal, o mês de março de 2013 foi marcado por uma manifestação que pretendia ser o ponto culminante de um protesto anti “políticos”, de forma direta anti-governo, mas essencialmente anti instituições políticas, alimentado por um movimento assumidamente não partidário, criado e sustentado pelas redes sociais, e autodenominado “Que se lixe a troika”. É a versão portuguesa do movimento dos indignados que marcou a agenda social e política de outros países europeus e, em particular, da vizinha Espanha. O objetivo deste trabalho é analisar, a propósito da manifestação de 2 de março, o modo como se constrói o ethos coletivo deste movimento, com atenção particular às estratégias multimodais selecionadas pelos diversos participantes nesta prática social e verbal complexa. A teoria do ethos, tal como é desenvolvido por autores como Maingueneau (1999), Amossy (1999, 2000, 2010) ou ainda Charaudeau (2005) constitui o suporte teórico da nossa abordagem.

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ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 7 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo Maria Aldina MARQUES (CEHUM-ILCH – UM) [email protected] 1. A contextualização social e política dos discursos No quadro de uma linguística dos discursos, tomo como pressuposto de análise que os discursos são práticas sociais, a fim de abordar - na designação proposta pela sociologia - os “novíssimos movimentos sociais” de contestação como forma de cidadania ativa e que, independentemente da designação adotada em cada caso, são conhecidos como movimento dos indignados, por explicitamente reivindicarem “o direito à indignação”. São movimentos de contestação que, desde 2008, têm marcado a cena internacional, em diferentes momentos, países e continentes, desde a Primavera Árabe, de que a Tunísia e o Egito são casos marcantes, até ao movimento Occupy, nos Estados Unidos, e na Europa, em particular, as Acampadas em Espanha e, em Portugal, entre outros, o movimento Que se lixe a Troika! aqui em análise. Tendo como contextualização mais saliente o suporte das redes sociais, estes movimentos pretendem, num momento de crise política, económica e social generalizada, congregar toda a sociedade civil num desígnio comum de cidadania ativa, entretecido numa rede ideológica que assenta na possibilidade de compatibilizar ações comuns a partir da diversidade de origens, situações, interesses. É pelos discursos que pretendem conseguir a participação popular. Assim, na construção dos discursos de manifestação, este é um vetor fundamental. 1.1. Que se lixe a Troika! um movimento dos indignados O movimento Que se lixe a troika! tem lugar neste enquadramento sociopolítico. Criado em setembro de 2012, em Lisboa, tem como documento fundador um Texto de apelo, subscrito por 29 elementos, porque, como referem, “É preciso fazer qualquer coisa de extraordinário. É preciso tomar as ruas e as praças das cidades e os nossos campos. Juntar as vozes, as mãos.” Pretende ser um movimento social, de protesto anti “políticos”, de forma direta anti-governo, mas essencialmente anti instituições políticas, alimentado por uma ideologia explicitamente assumida como não partidária 1 e ancorada nas redes sociais. 1 É uma situação que na verdade não tem esta clareza. Se no Texto de Apelo se afirma que “Este é um apelo de um grupo de cidadãos e cidadãs de várias áreas de intervenção e quadrantes políticos, a verdade é que os seus subscritores são rapidamente ligados à militância em partidos de extrema-esquerda. O Jornal i, de 15 de março, faz-se eco desta discussão: “O movimento apresenta-se (…) como apartidário, mas, segundo diversas fontes do movimento relataram ao i, quatro dos seis membros que compõem o núcleo duro são militantes activos do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista Português (PCP)”. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 8 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 1.2. A denominação do movimento Em julho de 2012, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, num jantar com o grupo parlamentar do PSD, afirmou: «E quero reafirmar, ao fim deste primeiro ano parlamentar, que se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal». Esta expressão, apesar do distanciamento que o locutor estabelece face à forma coloquial do seu dizer, pela atribuição da responsabilidade a um outro enunciador de natureza doxal – no uso do marcador de um discurso segundo (“como se diz”) -, gerou acesa polémica pelo inusitado uso de calão, a par de uma possível menorização do ato eleitoral, dado o semantismo de indiferença que carreia face a uma situação, no caso em análise a perda das eleições, que a expressão “que se lixe!” veicula e alguns partidos exploram. É este facto discursivo que está na origem da denominação do movimento social Que se lixe a Troika 2 . Contudo, o valor semântico da expressão é aqui outro; convoca uma relação de antagonismo interpessoal, que ocorre, por exemplo, na expressão Vai-te lixar!, que agrega um valor ilocutório complexo de insulto e imprecação. O enunciado Que se lixem as eleições! dá origem a uma cadeia dialógica 3 integrando diferentes discursos públicos de desacordo e confronto, que se lixe o governo, que se lixem os impostos, que se lixe a Europa, e, particularmente, que se lixe a Troika!, que convocam a voz do Primeiro Ministro para mais violentamente o contestar; tem uma dimensão subversiva que se encontra presente noutros procedimentos discursivos do discurso manifestante. 1.3. Todos os rios vão dar a março Em Portugal, o mês de março de 2013 foi marcado por (mais) uma manifestação. Todos os rios vão dar a março é o tópico central da manifestação, divulgado por todo o país, em cartazes variados que convocam esse evento: 2 Troika: designação da comissão que reúne as três entidades, FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia com quem Portugal negociou o resgate financeiro. 3 O termo é de Vion (2010): “Nous appelons chaîne dialogique un nombre indéfini d’énoncés construits par le détournement d’un même énoncé de base”. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 9 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 Figura 1. É um enunciado polissémico, metafórico e polifónico, que, mesmo visualmente, joga com os lexemas mar/março, o mês da manifestação, para convocar, de modo mais explícito, o provérbio Todos os rios vão dar ao mar, mas também outros enunciados de vozes importantes para o movimento, como é o caso de Zeca Afonso, um cantor ícone do 25 de abril e da resistência à ditadura, na sua Balada do Outono: Rios que vão dar ao mar Deixem meus olhos secar Águas das fontes calai Ó ribeiras chorai Que eu não volto a cantar 4 . Todos os rios vão dar ao mar é ainda a metáfora da compatibilização da diversidade num desígnio comum, cara à ideologia dos novíssimos movimentos sociais, acima referidos. O campo semântico da água em movimento configura, aliás, a estrutura deste evento, organizado em “marés”, como a maré da educação ou a maré da saúde, isto é, em grupos variados que, de diferentes pontos da cidade, convergem para um ponto central “reivindicando as suas próprias questões mas fundindo-as num protesto comum” (CAMARGO, 2013, p. 136). A relação entre manifestantes e mar/maré evoca ainda construções fixas como mar de gente, rios de gente que ajudam à construção da imagem da multidão em protesto como uma força da natureza, à semelhança das águas dos rios que nada poderá deter. O jogo de efeitos gráficos criados pela alternância de cores do cartaz, repetido como marca de identidade em todas as variações afixadas pelo país, sublinha a pluralidade de leituras possíveis. 2. Quadro teórico-metodológico O objetivo do presente trabalho é analisar, a propósito da manifestação de 2 de março, o modo como se constrói o ethos coletivo do movimento Que se lixe a Troika!, com atenção particular às estratégias multimodais selecionadas pelos diversos participantes nesta prática social e verbal complexa. Pretendo 4 A canção, como marca identitária do povo português, vai ser explorada noutros cartazes (cf 3.4.). ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 10 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 mostrar que as imagens de si que o(s) locutor(es) constrói(constroem) são necessárias à compreensão dos sentidos dos discursos e dos movimentos sociais. A hipótese de base é que a manifestação de 2 de março dá corpo a um ethos coletivo popular: um corpo plural feito também de imagens que se pretendem plurais, mas sempre convergentes. Essa construção resulta de estratégias multimodais, verbais e não-verbais. A análise a realizar passa, essencialmente, por determinar as estratégias e mecanismos de construção do ethos nos discursos da manifestação, com atenção especial à relação entre ethos coletivo e ethe singulares. A perspetiva teórica que foi privilegiada é uma perspetiva discursiva-enunciativa, que se assume interdisciplinar, conjugando diferentes abordagens teóricas. Em particular, a teoria do ethos, tal como é desenvolvida por autores como Maingueneau (1999), Amossy (1999, 2000, 2010) ou ainda Charaudeau (2005) constitui o suporte teórico da abordagem. O corpus é constituído por materiais disponíveis online. Em primeiro lugar, é constituído por fotografias dos cartazes e faixas da convocação e do desfile da manifestação de 2 de março de 2013, com atenção particular aos textos que integram, e completado por textos, também online, sobre o movimento Que se lixe a Troika!. Estes textos, jornalísticos, mas também programáticos, são necessários à contextualização global dos discursos enquanto práticas sociais e, no caso vertente, à elaboração e difusão de uma imagem do movimento; permitem contextualizar os ethe do discurso manifestante, construídos nos discursos icónicoverbais dos cartazes e faixas da manifestação. O facto de se fazer a análise a partir de fotografias tem obviamente condicionantes, fica excluída toda a vertente da oralidade, mas permite por outro lado uma abordagem metodológica plurissemiótica deste género discursivo. 2.1. Teoria do ethos Para a teoria do ethos - ou imagem de si -, um conceito recuperado da tradição retórica, convergem contributos, nem sempre concordantes, de diferentes autores (fizemos já referência a Mainguenau, Amossy, Charaudeau, ou ainda Adam (2010) e Kerbrat-Orecchioni (2002), entre outros). Assente, de acordo com Amossy (2010:25), que o ethos discursivo é “[...] l’image que l’orateur construit de lui-même dans son discours afin de se rendre crédible. Fondé sur ce qu’il montre de sa personne à travers les modalités de son énonciation [...]”, a reflexão sobre esta questão teórica fica aqui reduzida a apenas três pontos que são cruciais para a análise: a. A inscrição da problemática do ethos num quadro dialógico: o locutor faz a apresentação de si em função do alocutário, pois é necessário que este identifique e se identifique, por vezes, com este ethos. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 11 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 b. Ethos discursivo e ethos pré-discursivo: há uma relação dinâmica, o locutor confirma, reformula, modifica as representações sociais mais ou menos cristalizadas que de si circulam na comunidade. c. Ethos dito e ethos mostrado: contempla os modos como o(s) locutor(es) se constroem no discurso. Obviamente, abordar a construção do ethos é indissociável da consideração do género discursivo em que é construído (ethos de género), uma questão a que Maingueneau (2013, §27) faz explicitamente referência: « Pour rendre les analyses plus opératoires, il faudrait s’appuyer sur une connaissance préalable de la manière dont tel type ou genre de texte peut être appréhendé en termes d’ethos, au lieu de partir à chaque fois de zéro.». 2.2. Movimentos sociais e discurso. A manifestação como género discursivo Uma segunda questão teórica diz respeito à manifestação como género de discurso. Grinshpun (2013, §9), na caracterização deste género discursivo, propõe duas categorias descritivas, discurso manifestante, que define como “l’ensemble de la production sémiotique (verbale ou iconique) d’une manifestation ou d’une série de manifestations qui ont un même objectif”, e enunciados manifestantes, isto é, “l’ensemble des énoncés verbaux scandés par les manifestants ou inscrits sur les banderoles ou les affichettes”. A importância desta categorização não esgota as particularidades do género; nomeadamente destacamos como características a ter em conta: a. A manifestação é um género do discurso político; b. É um evento público, de exercício da cidadania; c. Integra mecanismos de reforço grupal, por um lado, e de contestação e desqualificação de (discursos) adversários, por outro 5 ; d. Esta orientação do discurso manifestante tem suporte na realização de dois macroatos de incitamento e de contestação. e. É um discurso de plurilocutores, estruturado em dois momentos temporalmente distintos de (i) convocação e (ii) desfile; f. É multimodal, por outras palavras, é multicanal, marcado pela coocorrência da escrita, em faixas e cartazes, e da oralidade, em palavras de ordem, e é plurissemiótico conjugando os sistemas verbal, icónico e gestual. A manifestação de 2 de março é um evento discursivo que se enquadra neste género discursivo. 5 Mesmo que se trate de uma manifestação de apoio, que pode ser categorizada como subgénero do género manifestação, pressupõe sempre um adversário. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 12 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 3. Ethos coletivo e ethe singulares na convocação da manifestação de 2 de março 3.1. Suporte do discurso e ethos: os cartazes de convocação da manifestação A elaboração e afixação de cartazes e faixas convocando a manifestação de 2 de março constitui a primeira parte deste evento discursivo. A construção do ethos do locutor, na necessária relação com o alocutário, não é indiferente ao material não-verbal de suporte do discurso. Com efeito, consideramos, com Maingueneau (1998, p. 57), que o suporte da comunicação é fundamental: “[...] le médium n’est pas un simple moyen de transport pour le discours, il contraint ses contenus et commande les usages qu’on peut en faire”. No discurso manifestante, esta importância é acrescida, pelas implicações que o cartaz impõe enquanto suporte preferencial de comunicação. De facto, a convocação da manifestação põe em cena estratégias icónico-verbais em que ganham destaque propriedades tipográficas como a forma, tamanho e cor das letras ou ainda o lugar ocupado pelo enunciado no espaço gráfico, como no exemplo seguinte: Figura 2. A opção por um estilo manuscrito, o jogo de cores, entre azul e vermelho, e de tamanhos dos grafemas bem como a pseudo-imperfeição do resultado, com riscos e sobreposições, é estratégica 6 ; são artifícios que camuflam um trabalho efetivo de construção gráfica e impressão dos cartazes, para imporem uma imagem de espontaneidade, de improviso, do locutor. A estas imagens não deixam de agregar outros ethe, de autenticidade e liberdade, a que esta falta de recursos para adquirir materiais mais elaborados, ao contrário do que acontece nas atividades partidárias, dá força. É que esta atividade tem na sua origem o cidadão anónimo, que, naturalmente, e este é um pressuposto doxal, não dispõe de uma máquina partidária que o auxilie, nem é condicionado por ela, antes a supera no engenho e simplicidade dos materiais usados 7 . Tais 6 Segundo Adam (2010, p. 18), “Christophe Luc et Jacques Virbel parlent fort justement à propos de propriétés ‘typo-dispositionnelles’ de la mise en forme matérielle des énoncés”. 7 Esta capacidade faz parte dos estereótipos relativos ao povo português, referida habitualmente como desenrascanço. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 13 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 imagens de automobilização, de auto-organização e de dinamismo sustentam a imagem global do movimento e reforçam os valores de apartidarismo proclamados desde a sua constituição. Saliente-se, ainda, a acrescida influência destas características, coincidentes com imagens do povo português, sempre representado de forma muito positiva, e que circulam no discurso público 8 . Por isso, a identificação com o povo é a afirmação de uma superioridade; em nome do povo, o movimento constrói uma posição alta, de poder, para daí confrontar os poderes oficiais. Cabe referir que este é um cartaz fundamental em termos de construção do “discurso manifestante” e do ethos coletivo global em particular, porque os enunciados, Que se lixe a Troika! e O Povo é quem mais ordena!, indissociáveis do aspeto gráfico que os materializa neste cartaz, funcionam não só como palavra de ordem, retomada noutros cartazes, mas também como uma espécie de logotipo identificador do movimento. É, pois, uma marca de coesão e coerência global do evento. Esta estratégia permite que o locutor construa um ethos reivindicativo, aguerrido, criado no confronto com o governo e suas “ligações perigosas”, presentificadas na troika, e reforçado pelo valor ilocutório do ato linguístico de imprecação que o enunciado Que se lixe a troika! assume. 3.2. Vozes convocadas e construção do ethos O ato de convocação da manifestação põe em cena várias vozes, desde um locutor coletivo a locutores singulares; é um complexo jogo de vozes que se sobrepõem e interagem. Em primeiro lugar, os discursos/enunciados manifestantes põem em cena um locutor coletivo, cuja identificação é ambígua. Se por um lado é identificado com o movimento Que se lixe a troika!, pela presença do logotipo, a sua verdadeira assinatura, abre-se, por outro lado, a um coletivo que pode incluir o povo, a partir das formas de deixis pessoal usadas 9 : (1) Vamos fazer Portugal tremer Em segundo lugar, quando apagada da superfície textual, é pela construção de um dialogismo interdiscursivo que a imagem do locutor se mostra. De facto, o locutor põe em cena outras vozes a que se assimila: são discursos em circulação que trazem vozes proverbiais (2) e vozes da História da democracia portuguesa (3), ambas com forte valor argumentativo, pela atualização de um imaginário que garante a coesão grupal: (2) - Março marçagão manhã de inverno 8 O discurso político tem, neste domínio, um comportamento prototípico, “Todos os locutores convêm unanimemente na caracterização de um povo dotado dos traços mais nobres que um ser humano pode ter e que o levam a um comportamento exemplar” (MARQUES, 2007, p. 3128). 9 É um movimento que se pretende popular, em primeiro lugar. Veja-se o seguinte excerto: «Segundo Myriam, foi nessa reunião [em junho de 2012] que “foi apresentada a ideia de uma grande manifestação”, tendo também sido reiterada “a necessidade de que fossem pessoas individuais a convocar e não um colectivo ou uma associação”. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 14 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 tarde de revolução - Todos os rios vão dar a março (3) – [O povo é] tendencialmente sereno – O povo é quem mais ordena! Neste último enunciado, O povo é quem mais ordena!, para além da relevância que já foi referida, as vozes que se fazem ouvir, e às quais o locutor se agrega, são vozes de autoridade incontestável. Trata-se de um verso da canção Grândola, Vila Morena, escrita e cantada por Zeca Afonso, ao estilo dos cantares populares alentejanos, e que foi a senha para o Movimento das Forças Armadas na madrugada da revolução de 25 de Abril de 1974. Entoada repetidamente em momentos de celebração da democracia ou de protesto, em nome dessa mesma democracia, é a voz de abril que todos os portugueses identificam. Ao trazer esta voz de autoridade, voz mítica mesmo, como palavra de ordem para a manifestação, o movimento Que se lixe a Troika! inscreve-se numa tradição democrática, mostra-se num ethos “de revolucionário” 10 . A voz original da democracia torna-se a voz do povo que agora se manifesta. Se, como refere Amossy (1999, p. 127), “[…] l’efficacité de la parole est liée à l’autorité de l’orateur”, o locutor assegura a eficácia da convocação, pelas vozes que traz para o discurso e a que se assimila. 3.3. Discursos “reciclados” e construção do ethos Mas o trabalho de construção do ethos assenta em estratégias e mecanismos linguísticos mais diversificados. O locutor não se limita a convocar discursos de autoridade; procede também a modificações, a alterações, para melhor os integrar no discurso manifestante, contribuindo para a (re)construção do ethos global do locutor e a reorientação argumentativa e temática dos discursos. Esta estratégia permite, por exemplo, a construção de um ethos discursivo popular, a que o uso de provérbios adaptados ao contexto 11 da manifestação dá força, ou permite, ainda, retrabalhar, reformular, o ethos popular pré-discursivo, de modo a fazê-lo convergir com uma nova imagem, mais adequada aos objetivos de contestação do grupo. É o caso do estereótipo de paciência, quando não de passividade, associado à imagem do povo português. A esta representação o locutor substitui um ethos de combatividade, pela modificação do discurso convocado. Assim O povo é sereno é reformulado para tendencialmente sereno, pela adjunção da modalização adverbial; do mesmo modo, o enunciado Os portugueses são um povo de 10 A autoridade das vozes convocadas é uma estratégia de credibilização recorrente. Completando a análise dos enunciados acima transcritos, vale a pena assinalar que “[O povo é] tendencialmente sereno” convoca um momento de crise da recém-implantada democracia; “O povo é sereno” foi a reação do primeiro-ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo, a tumultos civis, em 9 de novembro de 1975, em frente à Assembleia da República. 11 Note-se que a versão original do provérbio Todos os rios vão dar a março é “Todos os rios vão dar ao mar”; este provérbio e outras expressões fixas modificados estão ao serviço deste objetivo discursivo. Do mesmo modo, Março, marçagão, manhã de inverno tarde de revolução deriva da forma Março marçagão, manhã de inverno tarde de verão. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 15 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 brandos costumes, estereótipo frequentemente convocado, é também modificado através da predicação Os brandos costumes têm limites 12 . A subversão dos estereótipos, orientada para uma atitude interventiva, visa a adesão dos destinatários e a consequente construção de uma identidade grupal pela assimilação à imagem de si construída no discurso. 3.4. Discurso icónico e identificação do locutor Retomando a metáfora dos rios e marés, identificadora da manifestação em análise, são diferentes locutores que concorrem para a construção da imagem global. Para além da linguagem verbal, a linguagem icónica tem uma função nuclear nesta identificação. As imagens que complementam os discursos dos cartazes têm, portanto, uma função identificadora do locutor; propõem um corpo para uma voz. Com efeito, o discurso icónico dá relevo aos corpos que assumem estas vozes. Nos exemplos abaixo, repetida(s) em dois cartazes diferentes, é possível identificar a(s) imagem(ns) de um locutor jovem e irreverente. São fundamentais, na construção desta imagem do locutor, os ténis, calçado preferido dos jovens, em combinação com o jogo de linguagem entre o nome do herói cinematográfico Batman e o enunciado bat[e], man [forma de tratamento usada por jovens]”, associado à imagem de um bastão 13 . Estas dimensões enquadram os enunciados centrais (pelo destaque gráfico) A gente que canta já não vai em cantigas e Basta de brandos costumes 14 : Figura 3. Figura 4. 12 Há um trabalho sistemático de reformulação da imagem do povo português. Veja-se, no mesmo sentido de reformulação, o enunciado do cartaz (Fig. 5) A gente que canta já não vai em cantigas, no uso da expressão fixa “não ir em cantigas”, isto é, “não se deixar enganar”, que ganha outros sentidos na relação com a primeira parte da predicação “A gente que canta”. É que, mais uma vez, estamos perante uma imagem do povo português criada durante a ditadura pela propaganda salazarista, a do camponês que trabalha, canta e reza. Traz ainda para o espaço discursivo a memória de uma série de documentários televisivos de Michel Giacometi e Alfredo Tropa, realizados durante dois anos nos inícios dos anos 70 do século XX, sobre cantigas populares, e intitulada “Povo que canta”. Um povo de brandos costumes é um chavão da ditadura do Estado Novo, criado por Salazar. Brandura é aqui sinónimo de resignação. 13 A nota de humor dada pelo pormenor do cãozinho a “regar” a troika enquadra-se no estereótipo do espírito jovem e irreverente. 14 Recorde-se que estamos perante imagens do povo português criadas durante a ditadura pela propaganda salazarista. São vozes da ditadura que, por força da recontextualização, são assimiladas ao governo e outras instituições adversárias. ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 22 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 particular de ser povo. Num registo popular, as rimas, os jogos de linguagem a nível lexical e fonético são postos em relevo em cartazes onde o grafismo sobressai: (15) - Relvas, Coelho e Gaspar Piores que Salazar - A região transmontana Dispensa este sacana (16) - Se o PASSOS precisa do RELVAS nós PASSAMOS bem sem eles! - Sócrates, Portas e Coelho vão para a troika que vos pariu!!! - Párrem de me róbarr - Pá xaputa cú parriu! É um uso transgressor da linguagem que não é alheio ao cómico, à irreverência e a um espírito mordaz, que conjugam, por um lado, as características de um género político que dessacraliza o poder institucional e, por outro, representações sociais do povo português que recuam às cantigas de escárnio e maldizer, por exemplo. 6. Considerações finais A análise de um único evento discursivo, como o que acabámos de apresentar, tem necessariamente limitações, mas o seu enquadramento num movimento cívico mais alargado, de que a manifestação de 2 de março não é um “episódio único”, a par do facto de esta ter sido uma manifestação que poderemos classificar como prototípica do género e, sobretudo, o enquadramento teórico que suporta a investigação asseguram a pertinência do estudo e a transferibilidade do conhecimento obtido para outras análises e outros contextos. Da análise da construção do discurso manifestante, sobressai a existência de um processo de liderança, em particular na fase da convocação da manifestação, mas que não deixa de estar presente em todo o evento discursivo ainda que apagado da superfície discursiva, ao serviço da construção de uma imagem do movimento que os seus promotores pretendem que seja uma imagem de espontaneidade, de automobilização dos cidadãos. Constrói-se, deste modo, um movimento cidadão integrador de singularidades que confluem na globalidade e unidade de um posicionamento discursivo, político, enformado, por um lado, por um ethos popular prévio, recuperado discursivamente em modos de dizer e fazer validados pela memória doxal, mas reformulado em algumas das suas representações sociaisdiscursivas ou reforçado noutras, a fim de melhor se harmonizar com a imagem pretendida de um povo de esquerda, a que a convocação de vozes símbolo da revolução dá saliência. Mas as estratégias de mobilização popular destes “novíssimos movimentos sociais”, no apelo às origens democráticas, à soberania popular, à unidade do povo, à cultura popular, são estratégias já clássicas noutros géneros do discurso político, como refere A. Dorna (2007, p. 19): ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS 23 MARQUES, Maria Aldina | Todos os rios vão dar a Março. O movimento dos indignados e a construção de um ethos coletivo | 07-24 Le discours politique, encore davantage populiste, s’appuie sur l’évocation des critères d’identité commune. C’est un rappel de la mémoire culturelle, afin de relancer en permanence la cohérence et la cohésion de l’ensemble. Ce qui divise est minimisé et les éléments d’unité sont mis en relief à travers des symboles et des commémorations. Les mots d’ordre sont toujours martelés: revenir aux racines, ressourcer les institutions, retrouver l’âme de la nation et aller au peuple! Mas não são únicas. Coexistem com a dinâmica forte e, essa sim, “novíssima” da mobilização proporcionada pelas redes sociais, com impacto nacional e internacional. Na tradição de outras manifestações populares, a construção verbal do discurso manifestante atualiza um estilo de género, que se integra na chamada retórica dos movimentos sociais, e onde sobressaem os jogos de linguagem, a coloquialidade e mesmo os insultos. A precariedade dos materiais usados é coerente com o estilo. A construção de um ethos global do movimento resulta de estratégias multimodais, verbais e nãoverbais, que dão visibilidade a pretendidos ethe individuais interpretáveis, no entanto, em termos de ethe coletivos pela simbologia que carreiam; estes procedimentos visam suscitar a adesão através de um modo de dizer que é um modo de ser, operacionalizado, desde o início, como assinatura do movimento Que se lixe a Troika!. A construção desse ethos global, um ethos de identificação popular, não é a mera soma de ethe individuais, pelo contrário, é o ethos global, pretendido pelos ativistas do movimento, que determina os ethe individuais. Neste contexto, a autoria dos discursos é uma das questões fundamentais a considerar. As vozes que o discurso manifestante atualiza desenham um ethos coletivo popular de esquerda; sem marcas discursivas identificadoras, apenas alusões, as vozes vivem no discurso por uma memória comum que reforça o grupo, Nós, contra os outros, Eles. Dois objetivos fundamentais sobredeterminam todas as estratégias de construção do ethos: mobilizar o povo e confrontar os poderes instituídos. E, neste caso, a manifestação propriamente dita, o desfile, confirma a realização desses objetivos com sucesso, já que a manifestação de 2 de março foi uma das maiores manifestações do Portugal democrático. Referências bibliográficas ADAM, Jean-Michel. La Linguistique Textuelle. Introduction à l’analyse textuelle des discours. Paris: A. Colin, 2010. AMOSSY, Ruth (org.). Images de soi dans le discours. Lausanne-Paris: Delachaux et Niestlé, 1999. ______. L´Argumentation dans le discours. Paris: Armand Colin, 2000. ______. La Présentation de soi. Ethos et identité verbale. Paris: PUF, 2010. 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