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ARTIGOS | 1 of 20 Da Personalização Algorítmica à Mediação Jornalística: Mudanças nas Preferências dos Jovens Portugueses no Consumo de Notícias Online From Algorithmic Personalization to Journalistic Mediation: Changes in the Preferences of Young Portuguese in Online News Consumption https://doi.org/10.14195/2183-5462_45_4 Paulo Couraceiro Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, CIES-Iscte, Portugal; Universidade do Minho, CECS- -UMinho, Portugal; OberCom – Observatório da Comunicação, Portugal paulo.couraceir[email protected] Miguel Paisana Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, CIES-Iscte, Portugal; OberCom – Observatório da Comunicação, Portugal [email protected] Submetido: 2024-03-18 | Aceite: 2024-08-30 Submitted: 2024-03-18 | Accepted: 2024-08-30 Resumo O crescente domínio das plataformas digitais na distribuição de notícias introduziu uma nova dimensão na mediação, através da personalização algorítmica de conteúdos. Por isso, é fundamental compreender a evolução dos comportamentos e das perceções dos mais jovens em relação aos seus hábitos de consumo de notícias online. A partir de dados do Digital News Report para Portugal, verificamos que o acesso algorítmico a notícias se acentuou e diversificou entre 2016 e 2023, passando a incluir, além de redes sociais, motores de pesquisa e agregadores de notícias. Entre os jovens dos 18 aos 24, destaca-se a diminuição da preferência por notícias personalizadas com base no histórico de consumo individual, valorizando o papel dos editores e jornalistas na seleção das notícias. Os resultados obtidos conduzem a reflexões sobre o crescente papel dos algoritmos nos processos de produção e distribuição jornalística e as implicações para uma esfera pública plural e informada. Palavras-chave jovens, notícias, personalização, algoritmos, literacia
2 | MEDIA&JORNALISMO Abstract The increasing dominance of digital platforms in the distribution of news introduced a new dimension to mediation, through the algorithmic personalization of content. Therefore, it is crucial to understand the evolution of behaviors and perceptions of young people regarding their online news consumption habits. Using data from the Digital News Report survey for Portugal, we find that algorithmic access to news increased and diversified between 2016 and 2023, now including, in addition to social media, search engines and news aggregators. Among young people aged 18 to 24, there is a notable decrease in the preference for personalized news based on individual consumption history, placing greater value on the role of editors and journalists in news selection. The results allow for reflections on the growing role of algorithms on the news production and distribution processes, as well as the implications of algorithmic personalization for a plural and informed public sphere. Keywords youth, news, personalization, algorithms, literacy Introdução Os media noticiosos são fundamentais na formação da opinião pública, sendo particularmente relevantes para os jovens se informarem, criarem uma visão pluralista e democrática do mundo e compreenderem a importância da sua participação cívica e política. Em Portugal, dados de 2023 do Digital News Report (Cardoso et al., 2023a) indicam que apenas 34% dos inquiridos entre os 18 e os 24 anos revelam muito ou extremo interesse em notícias, face a 52% dos portugueses utilizadores de Internet, em geral. Simultaneamente, observa-se que as dietas informativas dos jovens são cada vez mais digitais, passando em particular pelas redes sociais online, utilizadas como principal meio para obter notícias por cerca de 1 em cada 3 jovens até aos 34 anos (Cardoso et al., 2023a). Os meios tradicionais de notícias, onde a mediação jornalística determina a seleção das notícias, seja a rádio, a televisão ou a imprensa, têm vindo a perder preponderância junto dos públicos jovens. Contudo, esta tendência tem de ser enquadrada em dinâmicas de transformação social e cultural mais vastas, onde a socialização e processos de influência entre pares são determinantes para a mudança de hábitos e preferências entre diferentes gerações (Edgerly, 2018; Livingstone, 2003). Em Portugal, a maior prevalência entre os jovens da utilização da Internet e dos consumos de informação online é uma evidência empírica desde pelo menos o início dos anos 2000 (Amaral et al., 2017; Cardoso et al., 2005, 2015, 2023a). Contudo, a evolução dos últimos 20 anos revela “que há um esbatimento de grandes diferenças (históricas) de apropriação e uso de tecnologia para o fim específico do consumo online de notícias” (Quintanilha et al., 2020, p. 15). Assim, se as diferenças geracionais no uso da Internet para fins noticiosos se esbateram desde o início do milénio, outras surgiram associadas às diferentes fontes de acesso a notícias online e, em
ARTIGOS | 3 of 20 particular, ao consumo de notícias com mediação algorítmica, podendo estar em causa uma nova forma de digital divide (Oeldorf-Hirsch & Neubaum, 2023). A preferência por redes sociais, a par do crescimento da pesquisa em motores de busca, reflete uma mudança significativa na forma como as notícias são consumidas online, privilegiando o acesso indireto em detrimento do direto em sites das marcas de notícias. São 85% dos portugueses a usar formas de acesso indireto, acima da média de 76% que se verifica noutras geografias do mundo (Cardoso et al., 2023a). Por outro lado, o crescente domínio das gigantes tecnológicas (como a Alphabet/ Google, Meta/Facebook, ByteDance/TikTok) na disseminação de notícias tem introduzido uma nova dimensão no consumo de notícias, a personalização algorítmica de conteúdos, aspeto fundamental para o estatuto hegemónico destas plataformas (Dijck et al., 2018; Dijck, 2020). Os algoritmos são sequências de instruções programadas para processar dados e executar tarefas específicas. No entanto, ao longo deste estudo, tem-se como referência a personalização algorítmica de conteúdos, ou seja, o uso de algoritmos para adaptar a recomendação de conteúdos digitais aos utilizadores com base no seu perfil, interesses e comportamentos online. Esses algoritmos, específicos de cada plataforma digital, analisam dados dos utilizadores como o histórico de consumo online (incluindo cliques ou outra forma de interação), bem como dados de localização e características sociodemográficas (como género ou idade). Assim, através de processos automatizados, selecionam e apresentam notícias ou outros conteúdos que são distintos para cada utilizador (cf. Pariser, 2011 e Bruns, 2019 para uma perspetiva crítica). Além da definição técnica, é importante distinguir entre a base tecnológica dos algoritmos e as perceções que os utilizadores têm destes. A base tecnológica refere-se à implementação técnica dos algoritmos, incluindo os componentes computacionais, as bases de dados utilizadas e os modelos matemáticos e de aprendizagem automática desenvolvidos para analisar esses dados e tomar decisões. Por outro lado, as perceções dos utilizadores envolvem como as audiências entendem e interpretam o funcionamento e os efeitos desses algoritmos na sua experiência de consumo de notícias. Sendo os algoritmos black boxes (caixas negras) (Pasquale, 2015), com uma lógica de funcionamento interno opaca que não está acessível aos cidadãos, existem folk theories (imaginários populares) que se formam sobre o funcionamento dos algoritmos (Bucher, 2017; DeVito et al., 2018). Estudos centrados na literacia algorítmica têm demonstrado que existe uma consciência crescente sobre a presença dos algoritmos, mas pouco conhecimento sobre o seu funcionamento efetivo (Oeldorf-Hirsch & Neubaum, 2023). A mesma linha de investigação considera importante abordar as dimensões dos comportamentos e das atitudes em relação aos algoritmos (Foá et al., 2024; Swart, 2021), sendo estas dimensões que iremos explorar. Nesta investigação estudam-se os hábitos e perceções dos jovens relativos à mediação algorítmica das notícias no contexto português. Analisando dados quantitativos de 2016 e de 2023, recolhidos no âmbito do inquérito do Digital News Report, procura-se caracterizar e identificar mudanças nos comportamentos de consumo de notícias e nas atitudes de recetividade à seleção algorítmica de notícias por parte dos jovens.
4 | MEDIA&JORNALISMO As questões de investigação que orientam este estudo são as seguintes: • RQ1 - Como se caracterizam as formas de acesso dos jovens portugueses a notícias online, e como evoluíram entre 2016 e 2023? • RQ2 - Quais são as atitudes dos jovens portugueses face à mediação algorítmica na distribuição e consumo de notícias, e como evoluíram entre 2016 e 2023? As questões de investigação propostas visam estruturar a investigação em dois planos distintos: o primeiro (RQ1), relativo às práticas de acesso a conteúdos noticiosos (dimensão comportamental), e o segundo (RQ2) sobre as perceções relacionadas com a mediação algorítmica nesse processo (dimensão atitudinal). As atitudes são então entendidas como avaliações gerais ou predisposições para responder de maneira favorável ou desfavorável a um determinado objeto, neste caso, a mediação algorítmica na distribuição e consumo de notícias. Esta distinção é crucial para compreender não apenas os comportamentos de acesso às notícias (RQ1), mas também as perceções e avaliações subjacentes a esses comportamentos (RQ2). Revisão da literatura O consumo de notícias é considerado, nas suas diferentes expressões, parte integrante da cidadania e da democracia (Banaji & Cammaerts, 2017), dado que o exercício da cidadania sempre dependeu de “recursos simbólicos veiculados por diversos meios de comunicação de massa” (Urry, 1999, p. 318). Com a globalização surgiram media digitais globais que transformaram a esfera pública e as identidades dos cidadãos, em particular dos mais jovens. Na sociedade em rede (Castells, 1996) a idade é apresentada como o fator sociodemográfico mais importante para compreender diferenças no consumo de notícias (Boulianne & Shehata, 2022). As gerações mais jovens tendem a preferir a Internet e as redes sociais, sobretudo em mobile, enquanto as gerações em idade mais avançada tendem a preferir as tradicionais fontes de notícias (Newman et al., 2023), com destaque para a televisão no caso português (Cardoso et al., 2023a). O maior consumo de notícias nas redes sociais significa que os jovens estão mais expostos a notícias de forma incidental (Boczkowski et al., 2018; Zúñiga et al., 2020). A convicção predominante entre os jovens é de que não é necessário seguir ativamente as notícias, uma vez que as notícias vão ao seu encontro, seja através do uso que fazem das redes sociais, seja através das partilhas de amigos, numa perceção apelidada de news-find-me (Gil de Zúñiga et al., 2017). Os telemóveis, enquanto dispositivos mais utilizados para consumo de notícias online (Newman et al., 2023), favorecem um conteúdo noticioso e um formato específico, mais simples, curto e visualmente apelativo, que permite consumir apenas pequenos fragmentos de notícias - news snacking (Molyneux, 2018) - com mais frequência e de forma mais dispersa ao longo do dia. O consumo de notícias torna-se por isso um passatempo, sobretudo quando os jovens estão nos transportes ou em momentos de espera (Kalogeropoulos, 2019; Sveningsson, 2015).
ARTIGOS | 5 of 20 Apesar da maior prevalência da exposição incidental a notícias é importante considerar o papel da agência individual, que contraria o determinismo tecnológico, sendo de sublinhar a importância de fatores de ordem social, política ou económica para compreender alterações nos padrões de consumo de notícias (Bruns, 2019). Novos projetos informativos digitais procuram precisamente colocar o cidadão no centro do processo jornalístico, enquanto agente ativo no processo de produção das notícias (García-Orosa et al., 2020). Quando questionados, os jovens consideram que em geral as notícias, sendo importantes, são aborrecidas, repetitivas, negativas e desligadas da sua realidade (Tamboer et al., 2022). Assim, além da importância do entretenimento (Klopfenstein Frei et al., 2024), o consumo de notícias para os jovens é motivado pela sua relevância para os seus interesses pessoais e dos seus amigos e colegas, e pela sua ligação ao quotidiano, seja porque são tópicos abordados na escola ou tópicos atuais de conversa nas comunidades locais onde se inserem (Brites, 2017; Gnach et al., 2021; Klopfenstein Frei et al., 2024; Tamboer et al., 2022). Neste contexto, os fatores de socialização são fundamentais para compreender as diferenças nos hábitos de consumo de notícias. A relação dos jovens com as notícias é geralmente melhor compreendida por aquilo que acontece no seu contexto familiar (Brites, 2017; Valenzuela et al., 2019). Os jovens tendem a adotar os dispositivos e fontes noticiosas que os pais utilizam, moldando os hábitos de consumo de notícias dos jovens quando entram em idade adulta (Edgerly et al., 2018; Ghersetti & Westlund, 2018; Shehata, 2016). Neste sentido, importa reconhecer o papel desempenhado pelos diferentes perfis educacionais e contextos socioeconómicos onde se inserem os jovens e as suas famílias (Banaji & Cammaerts, 2017). Além da socialização, existe uma corrente na literatura que defende a existência de uma relação dialética entre a utilização dos media digitais por parte dos jovens e a expressão de novos valores de individualidade e de mobilização por causas (Boulianne & Shehata, 2022; Lane, 2020; Ohme, 2019). Nesta linha de argumentação seriam as affordances tecnológicas dos meios digitais, em particular as possibilidades interativas e de expressão individual a partir da exploração e utilização das funcionalidades desses meios (como as reações, partilhas e comentários nas redes sociais), a criarem maior propensão nas gerações mais novas para as utilizarem também para consumir notícias (Andersen et al., 2020). Assim é possível conceber um efeito de retroalimentação entre as affordances tecnológicas, o consumo de notícias com mediação algorítmica e novos valores sociais. Por essa razão, torna-se relevante debater a influência dos algoritmos na formação das preferências e comportamentos dos cidadãos. As gigantes tecnológicas (big tech) são atores dominantes no espaço digital, havendo uma assimetria de poder que condiciona a atuação dos órgãos de comunicação social (Poell et al., 2019). Essa assimetria traduz-se numa “platform dependency” por parte das organizações de notícias, seja para distribuição das notícias, medição das audiências ou monetização de conteúdos (Meese & Hurcombe, 2021). Nas plataformas digitais das gigantes tecnológicas a informação apresentada é mediada algoritmicamente e a personalização das notícias é baseada no processamento de um grande volume de dados e metadados pessoais dos utilizadores (Thorson, 2020). As redes sociais, por exemplo, desempenham funções tradicionalmente
6 | MEDIA&JORNALISMO exclusivas dos editores nas redações, em particular decidir acerca da importância das notícias e como são distribuídas (Presuel & Sierra, 2019). Perante a vastidão de conteúdo disponível nas redes sociais, as notícias surgem pouco diferenciadas no feed, o que se traduz numa dificuldade entre os jovens adultos em identificar as notícias e distinguir de outros conteúdos (Edgerly & Vraga, 2019). Isso remete para questões relacionadas com a arquitetura das redes sociais, mas também para o seu modelo de negócios (DeVito. 2017; Presuel & Sierra, 2019), e para efeitos de câmara de eco ou filtro bolha (Flaxman, 2016). É preciso ainda considerar que as próprias organizações de notícias adotam para os seus sites e aplicações sistemas algorítmicos de recomendações de notícias, que incorporam métricas de popularidade, de consumos passados, preferências ou perfil de utilizador (Mitova et al., 2023; Wieland et al., 2021). Estes sistemas algorítmicos dos órgãos de comunicação social levantam preocupações equivalentes às colocadas pela mediação algorítmica noutras plataformas digitais, como as redes sociais, motores de pesquisa ou os agregadores de notícias. Na perspetiva dos indivíduos, em particular dos mais jovens, perante um ambiente mediático sobrecarregado de informação, os algoritmos podem proporcionar acesso a notícias mais relevantes sem ter de procurar em excesso. Assim a aceitação dos algoritmos na mediação noticiosa é resultado do hábito e da conveniência (Kaluža, 2022; Oeldorf-Hirsch & Srinivasan, 2022; Swart, 2021), dado que todas as ações online são monitorizadas e datificadas para personalizar e facilitar a experiência do utilizador online. Existe por isso uma tendência para a apreciação algorítmica (Logg et al., 2019), ou seja, para se demonstrar atitudes positivas perante decisões tomadas por algoritmos, mesmo quando não se conhecem os seus processos (Kozyreva et al., 2021). A falta de conhecimento sobre os processos algorítmicos é particularmente preocupante no caso dos mais jovens uma vez que estes tendem a aderir mais rapidamente a novas práticas tecnológicas. Por exemplo, dados de 2024 indicam que 54% dos jovens entre 18 e 24 anos utilizam modelos de inteligência artificial generativa como o ChatGPT, enquanto essa proporção é de apenas 16% acima dos 55 anos (Fletcher e Nielsen, 2024). Observa-se também entre os mais jovens um conhecimento limitado sobre as funcionalidades e diversidade de recursos dos modelos generativos de IA. Alguns estudos empíricos (Araujo et al., 2020; Joris et al., 2021; Thurman et al., 2019) procuraram comparar as atitudes dos indivíduos face à seleção algorítmica de notícias vis-à-vis a curadoria editorial por jornalistas. As conclusões revelam que os utilizadores preferem recomendações de conteúdos baseados em sistemas algorítmicos que têm por base o seu consumo passado do que baseados na curadoria editorial (Thurman et al., 2019). Os algoritmos baseados em consumo passado são ainda preferidos face a critérios de popularidade entre os amigos online (Joris et al., 2021; Thurman et al., 2019) ou face a critérios de diversidade (Joris et al., 2021). O estudo de Thurman et al. (2019) com dados para 26 países procurou ainda perceber os motivos que levam os utilizadores a preferir a seleção algorítmica de notícias à editorialização. Os resultados destacam que a menor confiança nas notícias ou na independência dos media resulta em menor escolha de notícias com editoria jornalística. A idade também é um fator significativo, com o aumento da idade existe
ARTIGOS | 7 of 20 uma menor concordância com a seleção das notícias seja por jornalistas ou algoritmos, sendo que os mais velhos preferem os jornalistas aos algoritmos. A utilização de telemóvel aumenta de forma mais significativa a concordância com a escolha de notícias baseadas em consumos passados, enquanto a frequência de acesso a redes sociais aumenta a preferência por qualquer tipo de mediação algorítmica. A preponderância dos algoritmos na experiência dos utilizadores fez surgir o termo de “algorithm dependency” (Schaetz et al., 2023), para traduzir a forma como os indivíduos delegam aos algoritmos a função de preencher as suas necessidades informativas, apesar de reconhecerem riscos e preocupações, como a falta de privacidade e controlo sobre os seus dados (Bodó et al., 2019; Joris et al., 2021; Thurman et al., 2019). Metodologia Este estudo visa explorar as dinâmicas de consumo de notícias entre os jovens portugueses, com foco nas perceções dos jovens sobre a mediação algorítmica. Utilizando dados quantitativos relativos a 2016 e 2023, investigamos a utilização de formas algorítmicas de acesso a notícias online, assim como perceções sobre a algoritmização vs editorialização de conteúdos e as suas consequências. Os dados quantitativos foram recolhidos no âmbito do inquérito que origina o Digital News Report do Reuters Institute for the Study of Journalism. O inquérito tem, nos dois anos em análise (2016 e 2023), por base uma amostra representativa da população portuguesa (n=2018 e n=2010) e foi aplicado pela empresa YouGov exclusivamente a utilizadores de Internet, ou seja, exclui a proporção de portugueses não utilizadores de Internet (29,6% em 2016 e 14,2% em 2023).1 As questões selecionadas do inquérito dizem respeito, por um lado, aos comportamentos dos jovens e, por outro, às suas atitudes. Relativamente aos comportamentos (RQ1), foi selecionada uma questão respeitante às principais portas de acesso a notícias online. A análise descritiva desta pergunta, com escolha única, permite identificar o peso da mediação algorítmica na dieta mediática dos portugueses, em particular entre as notícias consumidas em formato digital. As opções incluem: acesso direto a site, motor de busca, redes sociais, email, notificações móveis, agregadores ou outra. Em termos conceptuais, sites, newsletters e notificações de aplicações são analisados como sistemas editorializados de distribuição de notícias. Embora estes sistemas editorializados utilizem algoritmos na sua programação, são considerados distintos dos sistemas algorítmicos presentes em redes sociais, motores de busca ou agregadores. Nesta perspetiva, considera-se que esses sistemas algorítmicos, diferentemente da curadoria editorial tradicional, implicam a perda de controlo dos jornalistas sobre a distribuição das notícias. Em contrapartida, os sistemas editorializados permitem que a seleção e distribuição de conteúdos passe por uma filtragem jornalística. Relativamente às atitudes perante os algoritmos (RQ2) as questões do inquérito procuram identificar graus de concordância com afirmações, em escala de likert de 1 INE - Instituto Nacional de Estatística, IUTIC - Inquérito à Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação, esfera famílias, 2016 e 2023.
8 | MEDIA&JORNALISMO cinco pontos, tendo sido agregadas, para efeitos analíticos, as respostas de valor 4 e 5 na escala de likert, correspondentes a inquiridos que concordam ou concordam totalmente com as afirmações apresentadas. As questões procuram identificar a preferência dos jovens face a diferentes mecanismos de seleção algorítmica de notícias (com base no histórico de consumo individual ou com base no consumo dos amigos), por contraponto com a seleção de notícias por jornalistas. Nas atitudes (RQ2) analisam-se as respostas a três questões sobre a seleção de notícias: “receber histórias selecionadas para mim por editores e jornalistas é positivo”; “receber histórias selecionadas para mim automaticamente com base no meu consumo passado é positivo” e “receber histórias selecionadas para mim automaticamente com base no consumo dos meus amigos é positivo”. Estas questões eram enquadradas pelo seguinte texto: “Cada website de notícias, aplicação móvel ou rede social toma decisões sobre o conteúdo a mostrar-lhe. Estas decisões podem ser tomadas por editores e jornalistas ou por algoritmos informáticos que analisam as informações sobre conteúdo que utilizou, ou baseando-se naquilo que o utilizador e os seus amigos partilham ou interagem nas redes sociais.” Os três mecanismos de seleção de notícias (por jornalistas, histórico de consumo, ou consumo de amigos) expressam diferentes vertentes da personalização algorítmica de notícias. A primeira, da editorialização, correspondente ao tradicional papel do jornalismo na definição do que é relevante, neste caso através dos sites e aplicações de notícias. A segunda, baseada no consumo histórico do utilizador, retrata de forma geral as estruturas noticiosas patentes em motores de busca e agregadores de notícias. A terceira, baseada no consumo de amigos / relações nas redes, capta o arquétipo do algoritmo da sociabilidade digital contemporânea via redes sociais. Estes três níveis permitem, consequentemente, aprofundar reflexões sobre a adesão e a perceção dos indivíduos face a três gatekeepers (um jornalístico e dois algorítmicos), com diferentes implicações para o consumo de notícias. Por fim, também na dimensão atitudinal (RQ2), exploram-se posicionamentos relativos a duas questões sobre os efeitos da personalização na qualidade da experiência de consumo de notícias (“preocupa-me que receber notícias personalizadas me faça perder informação importante” e “preocupa-me que receber mais notícias personalizadas me faça perder o acesso a opiniões diferentes da minha”). Estas preocupações são problematizadas enquanto consequência da utilização de formas de acesso a notícias digitais mediadas algoritmicamente, como motores de busca ou redes sociais, mas também da eventual utilização de sistemas de recomendação algorítmicas em sites e aplicações de organizações jornalísticas, com consequências para os valores do pluralismo de opinião e de uma esfera pública informada. A nível analítico comparamos, através de uma análise descritiva dos dados, os resultados para as respostas dos jovens a partir de dois grupos etários, dos 18 aos 24 anos e dos 25 aos 34, tendo como referência o observado no resto da população (35 e mais anos). Contudo, dentro de cada faixa etária existe uma variedade considerável de hábitos culturais, níveis educacionais e contextos socioeconómicos. Estas configurações de consumo, que devem ser consideradas, estão subordinadas ao facto de ser a partir dos 18 anos que os jovens consolidam os seus hábitos de consumo de notícias (Klopfenstein Frei et al., 2024; Shehata, 2016).
ARTIGOS | 9 of 20 Resultados Os resultados revelam que as formas de acesso a notícias online onde predomina a lógica de personalização algorítmica (redes sociais, motores de busca e agregadores de notícias) são as que os jovens mais utilizam quando se trata de consumir notícias digitais, em detrimento dos canais de acesso com editorialização jornalística (acesso direto a site, email e notificações móveis). No período em análise, entre 2016 e 2023, a utilização de formas algorítmicas para acesso a notícias aumentou em todas as faixas etárias analisadas, em detrimento das opções dos órgãos de comunicação social (cf. Tabela 1 abaixo). Apesar dos jovens portugueses entre os 18 e os 24 anos registarem os valores mais elevados de utilização de sistemas algorítmicos (65,2% em 2016 e 73,2% em 2023), os aumentos mais substanciais ocorreram entre os 25 e os 34 anos (de 59,8% para 70,4%) e acima dos 35 anos (de 47,4% para 58,7%). Quando questionados sobre a principal forma de acesso algorítmico a notícias online na semana anterior verifica-se, entre 2016 e 2023, uma quebra substancial do acesso através de redes sociais entre os 18-24 anos (dos 48,7% para os 31,2%), sendo a quebra mais ligeira entre os 25-34 anos (32,6% para os 28,5%), contrastando com a estabilidade verificada entre os portugueses com 35 e mais anos (na ordem dos 23%). Nesse período adquirem importância os motores de busca (que duplicam na utilização preferencial entre os 18-24), as notificações móveis (que crescem em todos os grupos etários para valores acima dos 10%) e os agregadores de notícias para fins noticiosos (que crescem sobretudo entre os mais jovens). Tabela 1 Principal porta de acesso a notícias online na semana anterior por escalão etário, Portugal, 2016 e 2023 2016 2023 18-24 25-34 35+ 18-24 25-34 35+ Acesso direto a site 18,8% 30,2% 26,9% 8,1% 9,7% 14,7% Motor de busca 16,5% 24,1% 21,9% 29,8% 31,9% 29,4% Redes sociais 48,7% 32,6% 23,4% 31,2% 28,5% 23,3% Email 13,4% 8,5% 19,4% 5,0% 4,3% 9,0% Notificações móveis 2,7% 1,6% 4,2% 10,4% 14,6% 15,8% Agregadores 0,0% 3,1% 2,1% 12,2% 10,0% 6,0% Outra 0,0% 0,0% 1,8% 2,2% 0,9% 1,2% [NET] Algorítmico 65,2% 59,8% 47,4% 73,2% 70,4% 58,7% [NET] Editorializado 34,9% 40,3% 50,5% 23,5% 28,6% 39,5% Fonte. Reuters Institute Digital News Report 2016 (n18-24=190; n25-34=333; n35+=1495) e 2023 (n18-24=186; n25-34=264; n35+=1560) Nota1. a categoria [NET] Algorítmico resulta da soma dos resultados para as opções “motor de busca”, “redes sociais” e “agregadores”. Nota2. a categoria [NET] Editorializado resulta da soma dos resultados para as opções “acesso direto a site”, “email” e “notificações móveis”.
16 | MEDIA&JORNALISMO about automated decision-making by artificial intelligence. AI & SOCIETY, 35(3), 611–623. https://doi.org/10.1007/s00146-019-00931-w Bailo, F., Meese, J., & Hurcombe, E. (2021). The Institutional Impacts of Algorithmic Distribution: Facebook and the Australian News Media. Social Media + Society, 7(2), 1–13. https://doi.org/10.1177/20563051211024963 Banaji, S., & Cammaerts, B. (2017). Citizens of Nowhere Land: Youth and news consumption in Europe. Em The Places and Spaces of News Audiences. Routledge. Boczkowski, P. J., Mitchelstein, E., & Matassi, M. (2018). “News comes across when I’m in a moment of leisure”: Understanding the practices of incidental news consumption on social media. New Media & Society, 20(10), 3523–3539. https://doi.org/10.1177/1461444817750396 Bodó, B., Helberger, N., Eskens, S., & Möller, J. (2019). Interested in Diversity: The role of user attitudes, algorithmic feedback loops, and policy in news personalization. Digital Journalism, 7(2), 206–229. https://doi.org/10.1080/21670811.2018.1521292 Bossio, D., Carson, A., & Meese, J. (2024). A different playbook for the same outcome? Examining Google’s and Meta’s strategic responses to Australia’s News Media Bargaining Code. New Media & Society, 0(0), 1–21. https://doi.org/10.1177/14614448241232296 Boulianne, S., & Shehata, A. (2022). Age Differences in Online News Consumption and Online Political Expression in the United States, United Kingdom, and France. The International Journal of Press/Politics, 27(3), 763–783. https://doi.org/10.1177/19401612211060271 Brites, M. J. (2017). Jóvenes y contextos cotidianos de consumo y apropiación de noticias. Cuadernos.info, 40, 137–151. https://doi.org/10.7764/cdi.40.1059 Bruns, A. (2019). Filter bubble. Internet Policy Review, 8(4). https://doi.org/10.14763/2019.4.1426 Bucher, T. (2017). The algorithmic imaginary: Exploring the ordinary affects of Facebook algorithms. Information, Communication & Society, 20(1), 30–44. https://doi.org/10.1080/1369118X.2016.1154086 Cardoso, G., Costa, A. F., Conceição, C. P., & Gomes, M. do C. (2005). A Sociedade em Rede em Portugal. Campo das Letras. Cardoso, G., Mendonça, S., Paisana, M., & Lima-Quintanilha, T. (2015). A Internet e o Consumo de Notícias em Portugal 2015. OberCom - Observatório da Comunicação. Cardoso, G., Paisana, M., & Pinto-Martinho, A. (2022). Digital News Report Portugal 2022. OberCom - Observatório da Comunicação. Cardoso, G., Paisana, M., & Pinto-Martinho, A. (2023a). Digital News Report Portugal 2023. OberCom - Observatório da Comunicação. Cardoso, G., Baldi, V., Couraceiro, P., Vasconcelos, A., & Paisana M. (2023b). Retrato digital de Portugal. Caracterização e tendências de utilização das redes sociais – 2015 a 2023. OberCom - Observatório da Comunicação. Castells, M. (1996). The rise of the network society. Blackwell Publishers. DeVito, M. A., Birnholtz, J., Hancock, J. T., French, M., & Liu, S. (2018). How People Form Folk Theories of Social Media Feeds and What It Means for How We Study Self | Social Media Lab. Proceedings of the ACM Conference on Human Factors in Computing Systems (CHI 2018). https://sml.stanford.edu/publications/2018/how-people-form-folk-theories-socialmedia-feeds-and-what-it-means-how-we-study Edgerly, S., Thorson, K., Thorson, E., Vraga, E. K., & Bode, L. (2018). Do parents still model news consumption? Socializing news use among adolescents in a multi-device world. New Media & Society, 20(4), 1263–1281. https://doi.org/10.1177/1461444816688451
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20 | MEDIA&JORNALISMO Morada: Iscte – Instituto Universitário de Lisboa Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal Miguel Paisana. Doutorando em Ciências da Comunicação no Iscte - Instituto Universitário de Lisboa. Investigador no CIES-Iscte, OberCom - Observatório da Comunicação e IBERIFIER - Iberian Digital Media Observatory. Docente convidado no Iscte na área de comunicação e jornalismo. Autor do relatório anual Digital News Report Portugal. ORCID iD: 0000-0002-6316-8092 Ciência ID: 3212-C608-8186 Morada: Iscte – Instituto Universitário de Lisboa Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal Como citar | How to cite [APA 7ª edition] Couraceiro, P., & Paisana, M. (2024). Da Personalização Algorítmica à Mediação Jornalística: Mudanças nas Preferências dos Jovens Portugueses no Consumo de Notícias Online. Media & Jornalismo, 24(45), Article e4504. https://doi.org/10.14195/2183-5462_45_4 Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional. This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License