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Adição alimentar, corpo e regulação emocional: um estudo com perturbações do comportamento alimentar

Novais, Ana Sofia Bigas

Abstract

Introdução: A adição alimentar é descrita como uma ferramenta útil para identificar indivíduos com comportamentos compulsivos e viciantes em relação à comida, semelhantes a comportamentos de dependência. Objetivo: Este estudo pretendeu caracterizar uma amostra de pacientes com perturbações do comportamento alimentar relativamente a dois comportamentos alimentares específicos e a duas variáveis psicológicas, bem como avaliar a associação entre os comportamentos alimentares avaliados e as variáveis psicológicas. Método: Foram avaliados quarenta e um pacientes com perturbações do comportamento alimentar que procederam ao preenchimento de um questionário sociodemográfico e clínico, do Body Investment Scale (BIS), da Escala de Dificuldades de Regulação Emocional (DERS) e, do Yale Food addiction scale 2.0 (YFAS). Resultados: Cerca de 56 % dos participantes com perturbação do comportamento alimentar apresentou adição alimentar. Este grupo apresentou maior dificuldade na regulação emocional e menos sentimentos e atitudes positivos em relação à imagem corporal comparativamente com o grupo sem adição alimentar. Discussão: O foco terapêutico nas estratégias de coping para lidar com emoções negativas pode ter um impacto positivo na prevenção e tratamento da adição alimentar em pacientes com perturbações do comportamento alimentar.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Sofia Bigas Novais Adição alimentar, corpo e regulação emocional: Um estudo com perturbações do comportamento alimentar junho de 2020 Adição alimentar, corpo e regulação emocional: Um estudo com perturbações do comportamento alimentar Ana Sofia Bigas Novais UMinho | 2020 Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Sofia Bigas Novais Adição alimentar, corpo e regulação emocional: Um estudo com perturbações do comportamento alimentar Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob orientação da Professora Doutora Sónia Gonçalves junho de 2020 ii Despacho RT – 31 /2019 – Anexo 3 Declaração a incluir na Tese de Doutoramento (ou equivalente) ou no trabalho de Mestrado DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ (Sofia Novais) iii Agradecimentos A finalização da dissertação de mestrado representa para mim não só o término de um ciclo, mas o começo de outro. Neste sentido, não poderia este trabalho ficar completo sem agradecer a todos aqueles me ajudaram a concretizá-lo. À Professora Doutora Sónia Gonçalves, na qualidade de orientador, por todas as orientações e pelas valiosas contribuições dadas durante todo processo. Agradeço imenso a sua disponibilidade e simpatia e, principalmente, pela energia e otimismo transmitidos. Ao Grupo de Estudos das Perturbações Alimentares que sempre se predisposeram em ajudar. Um especial agradecimento à Doutora Sílvia Félix pela incansável ajuda desde o início de todo o processo, revelando-se ser uma excelente profissional. Também às Doutoras Elsa Louro, Ana Pinto Bastos e Tânia Rodrigues pela disponibilidade em ajudar na recolha de participantes. E, igualmente à Doutora Ana Isabel Vieira pelas correções realizadas para aperfeiçoamento do trabalho. Da mesma forma, agradeço às minhas colegas de grupo, Antónia e Beatriz, que me ajudaram e facilitaram o trabalho quando surgiam incertezas. Agradeço a todos os participantes que se disponibilizaram para a realização dos questionários, sem eles não seria possível a realização do estudo. À minha família, mãe, pai, irmã e irmão, que durante todo o meu percurso sempre me deram conforto e nunca me fizeram sentir só. Seguramente são o alicerce para as minhas realizações. Um especial obrigado à minha mãe que sem ela nada disto seria possível. Tudo o que sou é graças a ti, és o meu exemplo de força. Ao meu namorado Afonso, por caminhar a meu lado e por me relembrar sempre de pensar positivo face às imprevisibilidades; aplaudindo-me nas vitórias e rindo-se comido nas derrotas, nunca me deixando ir abaixo. Aos meus amigos por me aturarem nas angústias e pela presença incondicional ao longo de todos estes anos de percurso académico, desde o primeiro dia desta longa jornada. iv Despacho RT - 31 /2019 - Anexo 4 Declaração a incluir na Tese de Doutoramento (ou equivalente) ou no trabalho de Mestrado DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. (Sofia Novais) v Adição alimentar, corpo e regulação emocional: Um estudo com perturbações do comportamento alimentar Resumo Introdução: A adição alimentar é descrita como uma ferramenta útil para identificar indivíduos com comportamentos compulsivos e viciantes em relação à comida, semelhantes a comportamentos de dependência. Objetivo: Este estudo pretendeu caracterizar uma amostra de pacientes com perturbações do comportamento alimentar relativamente a dois comportamentos alimentares específicos e a duas variáveis psicológicas, bem como avaliar a associação entre os comportamentos alimentares avaliados e as variáveis psicológicas. Método: Foram avaliados quarenta e um pacientes com perturbações do comportamento alimentar que procederam ao preenchimento de um questionário sociodemográfico e clínico, do Body Investment Scale (BIS), da Escala de Dificuldades de Regulação Emocional (DERS) e, do Yale Food addiction scale 2.0 (YFAS). Resultados: Cerca de 56 % dos participantes com perturbação do comportamento alimentar apresentou adição alimentar. Este grupo apresentou maior dificuldade na regulação emocional e menos sentimentos e atitudes positivos em relação à imagem corporal comparativamente com o grupo sem adição alimentar. Discussão: O foco terapêutico nas estratégias de coping para lidar com emoções negativas pode ter um impacto positivo na prevenção e tratamento da adição alimentar em pacientes com perturbações do comportamento alimentar. Palavras-Chave: Adição alimentar; investimento corporal; perturbações do comportamento alimentar; regulação emocional. vi Food addition, body and emotional regulation: A study with eating disorders Abstract Introduction: Food addition is described as a useful tool to identify individuals with compulsive and addictive behaviors in relation to food, similar to addictive behaviors. Objective: This study aimed to characterize a sample of patients with eating disorders in relation to two specific eating behaviors and two psychological variables as well as evaluate the association between the evaluated eating behaviors and the psychological variables. Method: Forty-one patients with eating disorders were involved and completed a sociodemographic and clinical questionnaire, from the Body Investment Scale (BIS), the Emotional Regulation Difficulty Scale (DERS) and the Yale Food addiction scale 2.0 (YFAS). Results: Approximately 56% of the participants with eating behavior disorder had food addition. This group showed greater difficulty in emotional regulation and less positive feelings and attitudes in relation to body image compared to the group without food addition. Discussion: The therapeutic focus on coping strategies to deal with negative emotions can have a positive impact on the prevention and treatment of food addition in patients with eating disorders. Keywords: Food addition; body investment; eating disorders; emotional regulation. vii Índice Introdução .................................................................................................................... 9 Metodologia ............................................................................................................... 15 Participantes ..................................................................................................... 15 Instrumentos ..................................................................................................... 16 Procedimento .................................................................................................... 17 Análise Estatística .............................................................................................. 17 Resultados .................................................................................................................. 18 Discussão ................................................................................................................... 22 Conclusão ................................................................................................................... 24 Referências Bibliográficas .......................................................................................... 25 Anexo ......................................................................................................................... 30 Índice de Tabelas Tabela 1: Correlações entre tipo de alimentação, comportamento alimentar e adição alimentar .................................................................................................................... 19 Tabela 2: Regressão Logística Binária para predição da adição alimentar .................... 21 14 PCA e Investimento corporal O investimento corporal é definido como um investimento emocional do individuo no corpo e, inclui representações ao nível da imagem corporal, toque corporal, cuidados com o corpo e proteção do corpo (Orbach, & Mikulincer, 1998). A imagem corporal é baseada na consciência e conhecimento subjetivo do individuo acerca da forma e tamanho corporal, bem como das emoções associadas às partes do corpo e o do corpo como um todo, englobando duas dimensões: a avaliação e o investimento (Cash, 2011; Jarry, Dignard, & O’Driscoll, 2019; Karni-Vizer & Walter, 2018). Enquanto que a avaliação da imagem corporal está relacionada com a satisfação ou insatisfação do individuo no corpo e as crenças avaliativas a ele, o investimento abrange a importância atribuída à própria aparência física (Cash, 2011), sendo exemplo disso, os comportamentos destinados ao seu cuidado, como o tempo e esforço despendido em mantê-lo ou melhorá-lo (Davison, & McCabe, 2006). No entanto, a interpretação mental do corpo é díspar de individuo para individuo e depende da perceção e das sensações alusivas ao tamanho e forma corporal (Nogueira-de-Almeida, 2018). Em pacientes com AN e BN estes juízos valorativos podem não coincidir com as caraterísticas reais, conduzindo a uma sobrestimação do peso e forma corporal que, por sua vez, pode influenciar na adoção de comportamentos alimentares desadaptativos (Kessler & Poll, 2018; Lantz, Gaspar, DiTore, Piers, & Schaumberg, 2018). Até ao momento, vários são os instrumentos que se concentram em avaliar a imagem corporal, mas apenas focam-se na dimensão satisfação/insatisfação da imagem corporal, tendo um reduzido número de instrumentos sido validado para avaliar a dimensão do investimento emocional da imagem corporal (Orbach e Mikulincer, 1998). PCA e dietas alimentares As dietas alimentares podem ser despoletadas quando surge uma preocupação excessiva com o peso e forma corporal (Sharpe et al., 2018). No cerne da comunidade científica, a alimentação vegetariana é conhecida como uma alternativa alimentar e ilustrada como uma decisão individual e informada na restrição do consumo de produtos de origem animal (Perry, Mcguire, Neumark-Sztainer, & Story, 2001). O alcance da motivação para a adoção de uma dieta vegetariana pode envolver atitudes e crenças abrangentes nos processos morais, ambientais, de saúde, económicos, religiosos e de preferência pessoal (Bardone-Cone et al., 2012; Heiss, Boswell, & Hormes, 2018; Perry et al., 2001). Pacientes com AN apresentam 15 uma necessidade de controlo de peso e as suas dietas são significativamente mais baixas em energia, carboidratos, proteínas e conteúdo de gordura (Schebendach, Mayer, Devlin, Attia, & Walsh, 2012; Steinglass et al., 2010). Neste sentido, estão mais propensos a escolher uma dieta vegetariana como um meio legitimo para justificar a eliminação de determinados alimentos, sem a censura social associadas à tentativa de perder peso (Bardone-Cone et al., 2012; Gilbody, Kirk, & Hill, 1999; Lindeman, Stark, & Latvala, 2000; Sullivan, & Damani, 2000). Tendo em consideração estes pressupostos, se uma alimentação regulada cognitivamente é um risco para PCA então, o vegetarianismo tem uma maior probabilidade de ser um fator de risco, dado que, também acaba por ser semelhante a uma restrição alimentar (Heiss, Boswell, & Hormes, 2018; Lindeman, Stark, & Latvala, 2000; Timko, Hormes, & Chubski, 2012). O presente estudo teve como principais objetivos, caracterizar uma amostra de pacientes com perturbações do comportamento alimentar relativamente a dois comportamentos alimentares específicos - a dieta alimentar escolhida e a adição alimentar, e a duas variáveis psicológicas – o investimento corporal e a regulação emocional e avaliar a associação entre os comportamentos alimentares avaliados e as variáveis psicológicas. Metodologia Participantes A amostra é constituída por 41 participantes, sendo que 38 são do sexo feminino (92.7%) e 3 do sexo masculino (7.3%) e as idades variaram entre os 16 e 39 anos (M=23.76; DP=4.841). Relativamente ao estado civil, 85.4% são solteiros, 12.2% casados e 2.4% em união de facto, sendo que 92.7% são de nacionalidade portuguesa. Ao nível de escolaridade a maior parte da amostra evidenciou ter um curso superior, sendo que 34.1% tem uma licenciatura e 29.3% um mestrado. Além disso, alguns participantes concluíram o ensino secundário, sendo que 17.1% através do ensino secundário geral e 9.8% pelo ensino secundário profissional/vocacional, 2.4% completaram o ensino primário (1º ciclo) e 4.9% o ensino básico (3ºciclo). Os participantes dividiram-se pelos grupos de diagnósticos seguintes: 36.6% (n=15) com AN-R e 2.4% (n=1) com AN-P, 24.4% (n=10) com BN, 17.1% (n=7) com BED e 19.5% (n=8) com OSFED. 16 Os valores do índice de massa corporal (IMC) oscilaram entre 12.34 e 48.33 (M=22.25, DP=8.34). Relativamente à duração média da presença da perturbação foi de 51.90 meses (DP=217.142), sendo que 65.9% apresenta perturbação alimentar há mais de 3 anos. Além disso, é referido que 56.1% (n=23) não apresentam doenças metabólicas ou outras patologias, porém, uma percentagem considerável de 31.7% (n=13) apresenta depressão, 4.9% disfunção da tiroide, 2.4% osteoporose e 4.9% outras doenças metabólicas ou patologias. Instrumentos Questionário sociodemográfico e clínico: Questionário usado para caraterização da amostra em termos de idade, género, peso e altura, estado civil, escolaridade/formação, presença/ausência de doenças metabólicas e/ou outras patologias, tipo de alimentação e razões subjacentes à escolha deste tipo de alimentação. Estes elementos foram selecionados por serem relevantes para a realização do estudo. Escala de Dificuldades de Regulação Emocional (DERS): Escala que mede as dificuldades de regulação emocional e é composta por 36 itens e 6 subescalas: Não aceitação, metas, impulso, conscientização, estratégias e clareza. Cada item da escala é classificado numa escala de Likert de 5 pontos, que varia de 1 (quase nunca) a 5 (quase sempre). Resultados mais altos refletem maior dificuldade na regulação emocional (Gratz & Roemer, 2004). A versão adaptada à população portuguesa da Escala de Dificuldades de Regulação Emocional, por Coutinho, Ribeiro, Ferreirinha e Dias (2010), possui uma elevada consistência interna (α = .924). Embora este instrumento esteja validado para a população portuguesa, o mesmo não se verifica para a população clínica devido ao reduzido número da amostra no momento da validação. Body Investement Scale (BIS): Medida de autorrelato que inclui 24 itens relativos a aspetos de avaliação da imagem corporal. Cada item é pontuado numa escala de Likert de 5 pontos, que varia de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). É divido em quatro fatores: sentimentos e atitudes em relação à imagem corporal, conforto ao toque, cuidados com o corpo e proteção do corpo. Pontuações mais altas indicam sentimentos positivos sobre o toque, proteção e cuidado com 17 o corpo. O alfa de Croncach varia de .80 a .95. o que indica uma adequada consistência interna (Orbach, & Mikulincer, 1998). Para este estudo foi utilizado o instrumento validado para a população portuguesa (Vieira, Fernandes, Machado, & Gonçalves, 2020). Yale Food addiction scale 2.0 (YFAS): Escala para avaliar a presença de adição alimentar que integra 35 itens, sendo que cada item tem uma classificação de 8 pontos segundo a frequência de sintomas e varia de 0 (nunca) a 7(todos os dias). É projetado para avaliar sintomas relacionados a 11 critérios de diagnóstico para as perturbações relacionadas com substâncias viciantes, aplicados ao comportamento alimentar. São fornecidas duas opções de cotação: (1) uma contagem continua de sintomas que representa o número de sintomas do sujeito; (2) uma opção de pontuação categórica que classifica o sujeito como tendo adição alimentar leve, moderada ou grave. Esta escala demonstra propriedades psicométricas adequadas e possui confiabilidade interna (Gearhardt, Corbin, & Brownell, 2016). Procedimento O preenchimento dos questionários realizou-se entre novembro de 2019 e março de 2020, consistindo num estudo transversal. A aplicação dos quatro instrumentos decorreu em duas unidades de especialização, sendo elas o Centro Hospitalar do S. João no Porto e as consultas de Perturbações Alimentares na Associação de Psicologia da Universidade do Minho (APsi), no qual o tempo de participação estimado foi entre 15 a 20 minutos. O critério de inclusão é apresentado como a língua materna ser o português e ser um paciente com perturbação do comportamento alimentar (PCA). Previamente, a salvaguarda dos aspetos éticos inerentes ao questionário como a confidencialidade e a participação voluntária foi garantida, através do consentimento informado. Também foi atribuído a cada participante um código, explicado as instruções e objetivos do estudo, e foi descrito que o participante podia desistir a qualquer momento. Análise Estatística A Análise Estatística foi executada no programa estatístico IBM® SPSS® Statistics, versão 22. Esta investigação foi desenvolvida no contexto de um design transversal. 18 Para uma análise descritiva do conjunto de dados recolhidos, utilizou-se as medidas de tendência central e de dispersão. De modo a avaliar as associações entre adição alimentar e o diagnóstico de perturbações do comportamento alimentar e o tipo de alimentação realizouse o Teste do Qui-Quadrado (χ2) e o Teste de Mann-Whitney para a regulação emocional e investimento corporal. Ao recorrer ao Teste de Mann-Whitney pretendeu-se compreender se existem diferenças na regulação emocional entre participantes com e sem adição alimentar. Além disso, também se verificou se existia diferença na média de idades entre os participantes com e sem adição alimentar. Por último, no sentido de aferir os preditores da adição alimentar numa amostra clínica com PCA, recorreu-se à Análise de Regressão Logística. Os pressupostos da regressão foram verificados e valores de p < .05 foram considerados significativos. Resultados Frequência de adição alimentar Dos 41 participantes, 56.1% (n =23) apresentam adição alimentar. Destes participantes 4.9% foram classificados com adição alimentar leve, 14.6% com adição alimentar moderada e 36.6% com adição alimentar severa. No que respeita às diferenças na média de idades entre os participantes com e sem adição alimentar, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, U = 151.00, p = .140. Frequência e motivos associados à seleção das dietas alimentares No que concerne à classificação da alimentação, 51.2% dos participantes adotam uma alimentação orgânica, 9.8% uma alimentação vegetariana, 4.9% uma alimentação vegan, 2.4% uma alimentação sem glúten e sem lactose e 17.1% apresentam outro tipo de alimentação. Os motivos subjacentes a estes tipos de alimentação são, sobretudo, de saúde (22%), seguindo-se de controlo de peso (17.1%) e, por último, por preferência pessoal (12.2%). Associação entre adição alimentar e diagnóstico de perturbações do comportamento alimentar Para efeitos comparativos entre grupos de diagnósticos, os diagnósticos de PCA foram agrupados em dois grupos: PCA do tipo restritivo (n=21), onde se incluíram os diagnósticos de AN e OSFED-AN vs. PCA do tipo ingestão compulsiva/purgativo (n=18), onde se incluíram os 19 diagnósticos de BN, BED e OSFED-BN. Através do teste de Qui-Quadrado (χ2) foi possível avaliar a associação entre a presença/ausência de adição alimentar em pacientes com comportamento alimentar restritivo e não restritivo. O teste de associação do Qui-Quadrado (χ2) revelou não existir uma correlação estatisticamente significativa entre a presença/ausência de adição alimentar e o comportamento alimentar restritivo/ não restritivo χ2(1) = .010 p = .588. Os resultados são apresentados na tabela 1. Associação entre adição alimentar e o tipo de alimentação Para efeitos comparativos, o tipo de alimentação foi agrupado em dois: orgânico (n=21) vs. não orgânico (n=20). Neste grupo de alimentação não orgânica inclui-se a alimentação vegetariana, vegan, sem glúten e sem lactose e outras. O teste de associação do Qui-Quadrado (χ2) revelou não existir uma correlação estatisticamente significativa entre a presença/ausência de adição alimentar e uma alimentação orgânica/ não orgânica, χ2(1) = 1.953 p = .140. Os resultados são apresentados na tabela 1. Tabela 1. Correlações entre tipo de alimentação, comportamento alimentar e adição alimentar Com adição alimentar n (%) Sem adição alimentar n (%) Qui-Quadrado (χ2) p Comportamento alimentar Restritivo 12 (54.5) 9 (52.9) .010 .588 Comportamento alimentar Não Restritivo 10 (45.5) 8 (47.1) Alimentação Orgânica 14 (60.9) 7 (38.9) 1.953 .140 Alimentação não orgânica 9 (39.1) 11 (61.1) Nota. n: frequência absoluta; %: frequência relativa 20 p <.05 Diferenças nas dificuldades na regulação emocional entre participantes com e sem adição alimentar Os resultados evidenciam que existem diferenças estatisticamente significativas entre os grupos com e sem adição alimentar quanto ao score total da DERS, U = 85.0, p = .03. Além disso, há diferenças significativas entre os grupos com e sem adição alimentar nas seis subescalas da DERS, nomeadamente, no acesso limitado às estratégias de regulação emocional (U = 104.0, p = .017), na não aceitação das respostas emocionais (U = 108.0, p = .022), na falta de consciência emocional (U = 102.0, p = .014), nas dificuldades no controlo de impulsos (U = 95.5, p = .008), nas dificuldades em agir de acordo com os objetivos (U = 114.0, p = .034) e na falta de clareza emocional (U = 68.0, p ≤ .001). Assim, participantes com adição alimentar obtiveram scores mais elevados do que o grupo de participantes sem adição alimentar, revelando maiores dificuldades em regular as emoções. Diferenças no investimento corporal entre participantes com e sem adição alimentar De acordo o Teste de Mann-Whitney, na subescala que diz respeito aos sentimentos e atitudes em relação à imagem corporal, há diferenças estatisticamente significativas entre os grupos com e sem adição alimentar, U = 123.0, p = .027. O grupo com participantes sem adição alimentar tende a ter mais sentimentos e atitudes positivas em relação à imagem corporal do que o grupo com adição alimentar. No entanto, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos com e sem adição alimentar quanto às subescalas toque corporal (U = 140.5, p = .117), cuidado Corporal (U = 173.5, p = .375) e proteção corporal (U = 131.5, p = .070). Diferenças no Índice de Massa Corporal (IMC) entre participantes com e sem adição alimentar De acordo com o Teste de Mann-Whitney, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos com e sem adição alimentar quanto ao IMC, U = 176.0, p = .415. Preditores de adição alimentar na amostra clínica com Perturbações do comportamento alimentar 21 Foi realizada uma Regressão Logística Binária para determinar os potenciais efeitos das dificuldades na regulação emocional e dos sentimentos e atitudes em relação à imagem corporal na adição alimentar. Esta variáveis foram selecionadas por serem estatisticamente significativas nos testes de diferenças anteriores. No bloco 1, considerando as dificuldades na regulação emocional, o modelo de regressão logística foi estatisticamente significativo, χ2(6) = 21.134, p =.002, explicando 56% da variância (Nagelkerke R2), e classificou corretamente 79.5% dos casos. Especificamente, as dificuldades na clareza emocional foram significativas na adição alimentar, β = .521, p = .026, ou seja, o grupo com adição alimentar apresentou mais dificuldades na clareza emocional. Em relação às outras subescalas da DERS (não aceitação, objetivos, impulso, consciência, estratégias) não foram encontrados resultados significativos. No bloco 2, foi introduzida uma das dimensões do investimento do corpo, isto é, os sentimentos e atitudes em relação à imagem corporal. O modelo foi estatisticamente significativo, χ2(1) = 21.993, p =.003, explicando 58% da variância (Nagelkerke R2), e classificou corretamente 85% dos casos. Relativamente aos preditores, apenas a clareza emocional se manteve como um preditor significativo, β = .521, p = .026. Os resultados são apresentados na tabela 2. Tabela 2. Regressão Logística Binária para predição da adição alimentar Variáveis 95%CI for Odds Ratio B(SE) Odds Ratio Lower Upper Bloco 1 Constante -8.349(3.330) .000 - - Não-aceitação .080(.092) 1.083 .905 1.297 Objetivos -.077(.180) .926 .651 1.316 Impulso .278(.178) 1.321 .933 1.871 Consciência -.018(.132) .982 .757 1.273 Clareza .563(.238)* 1.756 1.102 2.799 22 Estratégia -.072(.133) .930 .717 1.208 Bloco 2 Constante -5.712(4.195) .003 - - Não-aceitação .085(.096) 1.089 .902 1.314 Objetivos -.051(.181) .951 .667 1.354 Impulso .270(.178) 1.310 .923 1.857 Consciência -.043(.139) .958 .730 1.259 Clareza .521(.234)* 1.684 1.065 2.662 Estratégia -.104(.136) .901 .690 1.176 Imagem Corporal -.557(.609) .573 .174 1.889 Nota. Não-aceitação, Objetivos, Impulsos, Consciência, Clareza e Estratégia = subescalas da Escala de Dificuldades de Regulação Emocional; Imagem Corporal = subescala da Escala Investimento Corporal. N = 39 porque nem todos os participantes responderam à totalidade do questionário. *p <.05 Discussão De acordo com os resultados obtidos, a frequência de participantes que apresentam PCA e adição alimentar corresponde a 56.1%, o que é consistente com os estudos anteriores (Gearhardt, Corbin, & Brownell, 2016). Apesar de os resultados não serem significativos, há maior frequência de adição alimentar no grupo com comportamento alimentar não restritivo (BN, BED, OSFED-BN) comparativamente com o grupo de comportamento alimentar restritivo (AN, OSFED-AN). A literatura refere que é característico de pacientes com BN e BED, apresentarem elevadas taxas de adição alimentar pois exibem com mais frequência episódios de compulsão alimentar e desejos intensos em relação à comida (Schulte, Grilo, & Gearhardt, 2016; Yu & Tan, 2016). Já em pacientes com AN as taxas de adição alimentar são menos elevadas, dado que não apresentam sintomas indicativos de compulsão alimentar ou perda de controlo, mas medo que tal se suceda (Yu & Tan, 2016). Neste estudo também não se encontrou uma associação significativa entre a adição alimentar e a presença de uma alimentação orgânica e não orgânica. Tanto quanto se sabe, não existem estudos que avaliem a relação entre adição alimentar e o tipo de alimentação. Ademais, no caso dos participantes com adição alimentar e uma alimentação não orgânica, não se consegue perceber se alguns indivíduos adotam determinada alimentação com o intuito de a controlar. 23 Por outro lado, congruentes com as evidências que apontam para um comprometimento na regulação emocional entre indivíduos com PCA, neste estudo há diferenças estatisticamente significativas entre o grupo com adição alimentar comparativamente com o grupo sem adição alimentar relativamente à regulação emocional. Segundo um reportório de estudos anteriores, pode-se constatar que participantes com adição alimentar tendem a ter maior dificuldade em regular as emoções (Gearhardt et al., 2012; Gearhardt, White, Masheb, & Grilo, 2013; Pivarunas, & Conner, 2015). De facto, pacientes com adição alimentar demonstraram significativamente maior dificuldade em se concentrarem e realizarem tarefas quando experienciam emoções negativas, dificuldade em regular o comportamento quando estão sob sofrimento emocional, refletem sentimentos negativos acerca das respostas emocionais, têm menor consciência do significado das emoções, menor capacidade de mudar a maneira como se sentem e uma menor compreensão acerca dos seus sentimentos. Neste sentido, a ingestão de alimentos gratificantes pode ser entendida como uma estratégia para escapar dessas emoções (Wolz et al., 2016). Os resultados demonstraram ainda que há diferenças estatisticamente significativas entre o grupo com adição alimentar comparativamente com o grupo sem adição alimentar relativamente à imagem corporal, sendo que participantes com adição alimentar tendem a ter menos sentimentos e atitudes positivas em relação à imagem corporal do que o grupo sem adição alimentar. Na literatura são reduzidos os estudos que relacionem estas duas variáveis e mais investigação é necessária nesta área. Relativamente ao IMC, os resultados são discordantes de investigações anteriores que mostram que a adição alimentar está associada a um IMC mais elevado em pacientes com PCA (Gearhardt, Boswell, & White, 2014). Isto pode dever-se ao facto de consumirem alimentos com alto teor calórico e apresentarem perda de controle e vulnerabilidade aos alimentos (Hauck, Cook, & Ellrott, 2020; Schulte, Potenza, & Gearhardt, 2017). Com este estudo também pretendeu averiguar os preditores da adição alimentar. Assim, através da análise de regressão logística, foi possível verificar que pacientes com adição alimentar têm mais dificuldade em compreender os seus sentimentos. Ou seja, podemos verificar que quanto mais dificuldade na clareza emocional maior a probabilidade de ter adição alimentar. No entanto, há ainda poucos estudos sobre esta temática. Anexo: Formulário de identificação e caracterização do projeto Conselho de Ética Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas Identificação do documento: CEICSH 083/2019 Relatores: Emanuel Pedro Viana Barbas Albuquerque e Marlene Alexandra Veloso Matos Título do projeto: Food addiction, corpo e regulação emocional: Um estudo com perturbações alimentares Equipa de Investigação: Ana Sofia Novais, Mestrado em Psicologia, Escola de Psicologia, Universidade do Minho; Sónia Ferreira Gonçalves (Orientadora), Departamento de Psicologia Aplicada, Escola de Psicologia, Universidade do Minho PARECER A Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) analisou o processo relativo ao projeto de investigação acima identificado, intitulado Food addiction, corpo e regulação emocional: um estudo com perturbações alimentares. Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, a Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) nada tem a opor à realização do projeto, emitindo o seu parecer favorável, que foi aprovado por unanimidade pelos seus membros. Braga, 22 de janeiro de 2020. O Presidente da CEICSH