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Adolescência e violência sexual facilitada pela tecnologia pós-rutura relacional: revisão sistemática

Rosa, Ana Filipa

Abstract

Os adolescentes utilizam os dispositivos tecnológicos que têm ao seu dispor para estabelecer relacionamentos íntimos. Este contexto possibilita a violência nas relações de intimidade, nomeadamente, a violência sexual, integrada num conceito amplo que se refere à violência sexual facilitada pela tecnologia, a qual engloba também outros fenómenos (e.g. sexting). Este estudo que realizamos consiste numa revisão sistemática da literatura, com o objetivo de identificar investigações acerca da violência sexual facilitada pela tecnologia em adolescentes vítimas, no contexto específico de rutura de um relacionamento íntimo. Seguindo as diretrizes PRISMA, foram realizadas pesquisas, em dezembro de 2022, em sete bases eletrónicas para a inclusão de estudos quantitativos, qualitativos, ou mistos, publicados em Português, Espanhol ou Inglês, sendo que 22 foram considerados elegíveis. A maioria foi publicada muito recentemente (no ano 2022) e desenvolvidos na Europa. Os estudos retratam a prevalência, motivações, impacto, percepções, estratégias de coping e outros resultados, no contexto de rutura de relacionamento. De forma geral, os resultados espelham a atualidade do tema e a necessidade de maior investimento científico para os diferentes contextos em que a violência sexual facilitada pela tecnologia ocorre, nomeadamente na população adolescente. Implicações para a prática para investigações futuras são discutidas.

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U niversidade do Minho Escola de Psicologia Ana Filipa Rosa Adolescência e Violência Sexual Facilitada pela Tecnologia Pós-Rutura Relacional: Revisão Sistemática junho de 2023 Adolescência e Violência Sexual Facilitada pela Tecnologia Pós -Rutura Relacional: Revisão Sistemática Ana Filipa Rosa UMinho | 2023 U niversidade do Minho Escola de Psicologia Ana Filipa Rosa Adolescência e Violência Sexual Facilitada pela Tecnologia Pós-Rutura Relacional: Revisão Sistemática Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia da Justiça Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Marlene Matos junho de 2023 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercialSemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Universidade do Minho, 05 de junho de 2023, (Ana Filipa Amorim Rosa) iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 05 de junho de 2023, (Ana Filipa Amorim Rosa) iv Agradecimentos À minha orientadora Professora Doutora Marlene Matos agradeço todo o conhecimento, disponibilidade, sugestões de melhoria e confiança em mim depositada. À Dra. Maria Vale toda a partilha de conhecimento, reflexão critica, dedicação, suporte e motivação. A ambas agradeço por me acompanharem neste percurso formativo, desafiante e de grande aprendizagem, e por me encorajarem ao longo deste caminho. Aos colegas da equipa de investigação agradeço as críticas construtivas e alento. A toda a minha família agradeço o ânimo e apoio que sempre me deram. Em particular, aos meus pais e à minha irmã, por me darem as condições para que pudesse fazer este percurso, por me incentivarem e por me ampararem em todos os momentos. Às minhas amigas, Ana, Catarina e Zaida agradeço por me acompanharem nestes cinco anos, pela amizade, diversão e companheirismo. Ao Miguel, por toda a paciência, compreensão e força, e por acreditar em mim, mesmo quando eu não acredito. Por fim, o meu mais sincero obrigada, a todos quantos permitiram a conclusão desta etapa e me auxiliam ao longo do meu percurso. v Índice índice ......................................................................................................................... V Resumo......................................................................................................................VII Abstract..................................................................................................................... VIII Introdução .................................................................................................................... 9 Metodologia ................................................................................................................ 11 I. ESTRATÉGIAS DE PESQUISA E ESTUDO ................................................................................................. 12 II. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO................................................................................................. 12 III. IDENTIFICAÇÃO E EXTRAÇÃO DOS DADOS ............................................................................................. 13 IV. QUALIDADE METODOLÓGICA E RISCO DE VIÉS ........................................................................................ 13 Resultados ................................................................................................................. 14 AVALIAÇÃO DA QUALIDADE METODOLÓGICA E RISCO DE VIÉS .............................................................................. 14 ANO E REVISTA DE PUBLICAÇÃO E LOCALIZAÇÃO............................................................................................. 14 CARATERÍSTICAS DA AMOSTRA ................................................................................................................. 15 TIPO DE VIOLÊNCIA SEXUAL FACILITADA PELA TECNOLOGIA E OBJETIVOS ................................................................. 15 PRINCIPAIS RESULTADOS ....................................................................................................................... 23 PRINCIPAIS RESULTADOS DOS ESTUDOS NUM CONTEXTO DE RUTURA DE UM RELACIONAMENTO ÍNTIMO ..................... 23 Discussão .................................................................................................................. 30 CONCLUSÕES E IMPLICAÇÕES.................................................................................................................. 33 Referências Bibliográficas: ................................................................................................ 35 Índice de figuras Figura 1FLUXOGRAMA DO PROCESSO DE REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA .............................................. 17 vi Índice de tabelas Tabela 1 – AVALIAÇÃO DA QUALIDADE METODOLÓGICA DOS ESTUDOS INCLUÍDOS ............................................. 18 Tabela 2 – CARATERIZAÇÃO DOS ESTUDOS INCLUÍDOS NA REVISÃO SISTEMÁTICA (n=22) ................................... 20 Tabela 3 –PRINCIPAIS RESULTADOS DOS ESTUDOS INCLUÍDOS NA REVISÃO SISTEMÁTICA EM CONTEXTO DE RUTURA DE UM RELACIONAMENTO ÍNTIMO.................................................................................................................. 25 vii ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA SEXUAL FACILITADA PELA TECNOLOGIA PÓSRUTURA RELAC IONAL: REVISÃO SISTEMÁTICA Resumo Os adolescentes utilizam os dispositivos tecnológicos que têm ao seu dispor para estabelecer relacionamentos íntimos. Este contexto possibilita a violência nas relações de intimidade, nomeadamente, a violência sexual, integrada num conceito amplo que se refere à violência sexual facilitada pela tecnologia, a qual engloba também outros fenómenos (e.g. sexting ). Este estudo que realizamos consiste numa revisão sistemática da literatura, com o objetivo de identificar investigações acerca da violência sexual facilitada pela tecnologia em adolescentes vítimas, no contexto específico de rutura de um relacionamento íntimo. Seguindo as diretrizes PRISMA, foram realizadas pesquisas, em dezembro de 2022, em sete bases eletrónicas para a inclusão de estudos quantitativos, qualitativos, ou mistos, publicados em Português, Espanhol ou Inglês, sendo que 22 foram considerados elegíveis. A maioria foi publicada muito recentemente (no ano 2022) e desenvolvidos na Europa. Os estudos retratam a prevalência, motivações, impacto, percepções, estratégias de coping e outros resultados, no contexto de rutura de relacionamento. De forma geral, os resultados espelham a atualidade do tema e a necessidade de maior investimento científico para os diferentes contextos em que a violência sexual facilitada pela tecnologia ocorre, nomeadamente na população adolescente. Implicações para a prática para investigações futuras são discutidas. Palavras-chave: Revisão Sistemática, Adolescentes, Violência Sexual Facilitada pela Tecnologia, Rutura Relacional 14 Incerteza ou desacordo nestas fases foi resolvida por consenso e, se não fosse possível tomar uma decisão, podia ser consultado um terceiro revisor independente. Resultados Da pesquisa nas bases de dados resultaram 4110 estudos, dos quais 441 eram duplicados e foram consequentemente eliminados. Assim, 3669 foram selecionados, com base no título, resumo e palavraschave, para a análise da elegibilidade. Desta análise, 3625 foram excluídos porque os critérios de inclusão não foram cumpridos. Como resultado, 44 estudos foram selecionados para a leitura integral, 17 foram incluídos e 27 foram excluídos por três motivos: a sua amostra não incluiu adolescentes, o estudo não abordou violência sexual facilitada pela tecnologia ou o estudo não integrou o contexto de rutura relacional. Cinco estudos foram adicionados através do procedimento de busca manual. Em suma, 22 estudos foram incluídos nesta revisão e os dados que foram extraídos de cada um deles encontram-se na tabela 2. Os estudos incluídos foram assinalados com um “*” na secção de referências. A Figura 1 apresenta uma descrição do PRISMA, discriminando o processo de identificação, selecção, elegibilidade e inclusão. Avaliação da qualidade metodológica e risco de viés Predominantemente, os estudos apresentam uma metodologia qualitativa (n=18) (e.g. Aborisade, 2022 e Walker et al., 2013), seguido de três estudos quantitativos descritivos (e.g. Rey et al., 2021) e um com métodos mistos (Reed et al., 2020). A avaliação da qualidade revelou que dezanove estudos atenderam a 100% dos critérios de qualidade (e.g. Aborisade, 2022) e três estudos atenderam a 60% desses critérios (Reed et al., 2019; Reed et al., 2020; Rey et al., 2021). Os critérios que resultaram em indicadores de avaliação global mais baixas incluíram a falta de representatividade da amostra e a falta de informação relativa ao viés de “não resposta”. O índice de acordo revelou uma concordância elevada entre os revisores, de 0.90. A avaliação detalhada de qualidade de cada critério e o índice de qualidade global dos estudos incluídos estão representados na tabela 1. Ano e Revista de Publicação e Localização Os estudos foram publicados entre o ano 2013 e 2022. O ano em que mais estudos foram publicados foi 2022 (n=8) (Aborisade, 2022; Eek-Karlsson et al., 2022¸ Henry et al., 2022; Henry et al., 2022; Huber, 2022; Meehan, 2022; Perry et al., 2022; Powell et al., 2022), seguido do ano 2019 (n=4) (Johansen et al., 2019; Reed et al., 2019; Ridder, 2019; Setty, 2019). A maior parte dos estudos foi realizada na Europa (n=10), nomeadamente na Bélgica (n=2) (Ridder, 2019; Van Ouytsel et al., 2017), Dinamarca (n=2) (Johansen et al., 2019; Mortensen, 2020), Espanha (n=1) (Rey et al., 2021), Inglaterra (n=2) (Setty, 2019; Setty, 2020), Países Baixos (n=1) (Naezer & Oosterhoutb, 2021), Reino Unido (n=1) (Huber, 2022) e 15 Suécia (n=1) (Eek-Karlsson et al., 2022), seguindo-se a América (n=6), concretamente Estados Unidos da América (n=5) (Eaton et al., 2021; Hasinoff, 2017; Lippman & Campbell, 2014; Reed et al., 2019; Reed et al., 2020) e Canadá (n=1) (Perry et al., 2022). Segue-se a Oceânia (n=3) onde os estudos se realizaram na Austrália (n=1) (Walker et al., 2013) e na Nova Zelândia (n=2) (Henry et al., 2022; Meehan, 2022). Dois estudos são transculturais e foram realizados na Austrália, Reino Unido e Nova Zelândia (Henry et al., 2022; Powell et al., 2022). Maioritariamente, os estudos foram publicados em jornais e revistas científicas que versam sobre a adolescência e juventude (e.g. Reed et al., 2019), violência interpessoal (e.g. Powell wt al., 2022), vitimologia (e.g. Huber, 2022) e sexualidade (e.g. Meehan, 2022). Caraterísticas da amostra Os estudos abrangeram 21 amostras independentes, uma vez que, dois recorreram à mesma amostra (Setty, 2019; Setty, 2020). O tamanho das amostras variou entre 3 (Mortensen, 2020) e 6162 participantes (Powell et al., 2022). A idade dos participantes variou entre os 11 anos (e.g. Eek-Karlsson et al., 2022) e os 64 anos (e.g. Powell et al., 2022). Na maioria dos estudos (n=12) os participantes encontravamse numa faixa etária entre os 11 e os 20 anos. Importa destacar que, foram incluídos estudos que abrangiam amostras de jovens adultos ou adultos quando a experiência de abuso era retrospetiva (e.g. Naezer & Oosterhoutb, 2021) ou o estudo contemplava um grande espetro de idades (e.g. Powell et al., 2022). A maioria das amostras era mista em termos de género, tendo participantes que se identificavam com o género feminino, masculino ou outro (e.g. Powell et al., 2022). Algumas amostras (n=5) eram exclusivamente compostas por participantes que se identificavam com o género feminino (e.g. Reed et al., 2019). Dois estudos não mencionaram explicitamente o género dos participantes (Meehan, 2022; Ridder, 2019). Adicionalmente, foram ainda incluídos dois estudos cujo objeto de análise foram notícias ou artigos de jornal dos mass media (Eaton et al., 2021; Hasinoff, 2017). Tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia e objetivos A maioria dos estudos abordou o sexting (n=11) (e.g. Lippman & Campbell, 2014) e abuso sexual baseado em imagens (n=5) (e.g. Huber, 2022). Os restantes relataram o assédio sexual (n=2) (Eek-Karlsson et al., 2022; Reed et al., 2019), pornografia não consensual (Eaton et al., 2021), partilha não consensual de fotografias ou vídeos íntimos/sexuais ( nudes) (Johansen et al., 2019), agressão sexual digital (Mortensen, 2020) e abuso digital no namoro (Reed et al., 2020). Mesmo que a denominação utilizada seja distinta, não raras vezes, incluia os mesmos comportamentos descritos como caracterizadores do fenómeno (e.g. Aborisade, 2022 e Eaton et al., 2021). 16 Maioritariamente, os estudos analisaram as experiências de vitimação em termos de perceções (e.g. Ridder, 2019), motivações (e.g. Henry et al., 2022), estratégias de coping (e.g. Mortensen, 2020) e. impacto (e.g. Huber, 2022)). Outros estudos tinham ainda o objetivo de fazer uma análise ao enquadramento legal (e.g. Hasinoff, 2017). Um estudo teve como propósito o desenvolvimento e validação de um questionário para adolescentes acerca do sexting (Rey et al., 2021). Alguns estudos (n=4) analisaram também os perpetradores, fornecendo conjuntamente dados relevantes sobre as experiências de vitimação como, por exemplo, sobre a prevalência (Reed et al., 2019) e sobre a relação vitima-perpetrador (e.g. Powell et al., 2022). 17 Figura 1 Fluxograma do processo da revisão sistemática da literatura. Nota : Adaptado de Page, M. J., McKenzie, J. E., Bossuyt, P. M., Boutron, I., Hoffmann, T. C., Mulrow, C. D., Shamseer, L., Tetzlaff, J. M., Akl, E. A., Brennan, S. E., Chou, R., Glanville, J., Grimshaw, J. M., Hróbjartsson, A., Lalu, M. M., Li, T., Loder, E. W., Mayo-Wilson, E., McDonald, S., … Moher, D. (2021). The PRISMA 2020 statement: An updated guideline for reporting systematic reviews. Journal of Clinical Epidemiology, 134 , 178–189. https://doi.org/10.1016/j.jclinepi.2021.03.001 Estudos identificados através de bases de dados eletrónicas: (n = 4110) Estudos removidos por serem duplicados: (n = 441) Estudos após os duplicados serem removidos: (n = 3669) Estudos lidos integralmente: (n=44) Estudos excluídos pela leitura de títulos, palavras-chave e resumos: (n=3625) (n = ) Estudos excluídos (n=27): a) amostra não inclui adolescentes: (n = 6) b) não aborda a violência sexual facilitada pela tecnologia: (n=10) c) não integra o contexto de rutura relacional: (n=11) Estudos identificados através de pesquisa manual: (n=5) Estudos incluídos na revisão sistemática: (n = 22) Identificação Triagem Incluídos Identificação dos estudos através das bases de dados Identificação dos estudos através de outros métodos 18 Tabela 1 Avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos Autor, Ano Triagem 1 Qualitativo 2 Quantitativo descritivo 3 Métodos Mistos 4 Índice de Qualidade 5 Q1 Q2 Q1 Q2 Q3 Q4 Q5 Q1 Q2 Q3 Q4 Q5 Q1 Q2 Q3 Q4 Q5 Aborisade (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Eaton et al. (2021) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Eek-Karlsson et al. (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Hasinoff (2017) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Henry et al. (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Henry et al. (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Huber (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Johansen et al. (2019) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Lippman & Campbell (2014) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Meehan (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Mortensen (2020) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Naezer & Oosterhoutb (2021) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Perry et al. (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Powell et al. (2022) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Reed et al. (2019) Sim Sim Sim Não Sim Não sei dizer Sim *** Reed et al., (2020) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim *** Rey et al. (2021) Sim Sim Sim Não Sim Não sei dizer Sim *** Ridder (2019) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Setty (2019) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Setty (2020) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Van Ouytsel et al. (2017) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** Walker et al., (2013) Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim ***** 19 Nota. 1 Questões de triagem. Q1 =As questões de investigação são claras?; Q2 =Os dados recolhidos permitem abordar a questão de investigação?. 2 Qualitativo. Q1 =A abordagem qualitativa é adequada para responder à questão de investigação?; Q2 =O método de recolha de dados qualitativos é adequado para abordar a questão de investigação?; Q3 =Os resultados derivam adequadamente dos dados ?;Q4 = A interpretação dos resultados é suficientemente fundamentada pelos dados?;Q5 = Existe coerência entre a fonte dos dados qualitativos, recolha, análise e intrpretação?. 3 Quantitativo descritivo. Q1 = A estratégia de amostragem é relevante para abordar a questão de investigação?; Q2 = A amostra é representativa da população alvo?; Q3 = As medidas são apropriadas?; Q4 = O risco de viés de “não resposta” é baixo?; Q5 = A análise estatística é apropriada para responder à questão de investigação?. 4 Métodos Mistos. Q1 = Existe uma justificação adequada para usar um design de métodos mistos para abordar a questão de investigação?; Q2 = As duas componentes do estudo estão efetivamente integradas para responder à questão de investigação?; Q3 = Os resultados da integração das componentes qualitativa e quantitativa são interpretados adequadamente?; Q4 = As divergências e inconsistências entre resultados quantitativos e qualitativos são adequadamente tratadas?; As diferentes componentes do estudo seguem os critérios de qualidade de cada tradição dos métodos envolvidos?. 5 Índice de qualidade. 1*= 20% dos critérios de qualidade cumpridos; 2* ou 40% dos critérios de qualidade cumpridos; 3*** ou 60% dos critérios de qualidade cumpridos;; 4**** ou 80% dos critérios de qualidade cumpridos; 5***** ou 100% dos critérios de qualidadecumpridos. 20 Tab ela 2 Caraterização dos estudos incluídos na revisão sistemática (n=22) Au tor(es ), an o d e p u b lic ação e Revis ta/Jorn al País d e p u b lic ação Caracterís tic as d a am os tra [N ; gén ero com o q u al s e id entificam (F eminino (F), Masculin o (M) ou outro) e faixa etária] Tip o de violência s exu al facilitada pela tenologia Ob jetivos d o es tu d o Des ign d o Es tud o Aborisade (2022) - Sexuality Research and Social Policy Nigéria N=27; género F=27; 16-45 anos Abuso sexual baseado em imagens Analisar a experiência das vítimas de abuso sexual baseado em imagens (perceções, relação com o perpetrador, impacto e estratégias de coping ) Qualitativo (entrevistas) Eaton et al. (2021) - Trauma, Violence & Abuse Estados Unidos da América 366 artigos de notícias dos mass media Pornografia não consensual Avaliar as estratégias de abuso da roda do poder e do controlo utilizadas pelos perpetradores Qualitativo (análise de conteúdo) Eek-Karlsson et al. (2022) - Sexuality & Culture Suécia N= 28; género F=28; 11-18 anos Assédio sexual (online e offline) Analisar as experiências das vítimas e as estratégias de coping Qualitativo (entrevistas semiestruturadas) Hasinoff (2017) - International Journal of Cyber Criminology Estados Unidos da América Artigos de notícias e entrevistas dos mass media Sexting não consensual Analisar o discurso socia e o enquadramento legal de um caso Qualitativo (estudo de caso/ análise de discurso) Henry et al. (2022) - Violence Against Women Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido N= 30; género F=29, género diverso= 1; 1840+ anos Abuso sexual baseado em imagens Analisar as experiências das vítimas, perceções e motivações dos perpetradores, num contexto de relacionamento íntimo ou de rutura Qualitativo (entrevistas semiestruturadas) Henry et al. (2022) - Criminology & Criminal Justice Nova Zelândia N= 25; género F=23, M=1 e “sem género”=1; 18-50+ anos Abuso sexual baseado em imagens Analisar as experiências das vítimas, impacto e as respostas legais existentes Qualitativo (entrevistas semiestruturadas) Huber (2022) - International Review of Victimology Reino Unido N=17; género F=17; 19-46 anos (no momento da entrevista) Abuso sexual baseado em imagens Examinar as experiências das vítimas o impacto Qualitativo (entrevistas semiestruturadas) (continua na página seguinte) 21 Au tor(es), ano de p ublicação e Revista/Jornal País Caracterís tic as d a am os tra [N ; gén ero com o q u al s e id entificam (F eminino (F), Masculin o (M) ou outro) e faixa etária] Tip o de violência s exu al facilitad a p elas tec n ologias Ob jetivos Design Johansen et al. (2019) - Culture, Health & Sexuality Dinamarca N= 90; género F=52, M=38, 15-27 anos Partilha não consensual de nudes Compreender as dinâmicas associadas à partilha não consensual de nudes , como uma forma de visual gossip, em jovens dinamarqueses e as suas perceções, à luz da teoria de Merry, 1997 Qualitativo ( focus group e entrevistas) Lippman & Campbell (2014) - Journal of Children and Media Estados Unidos da América N=51; género F=25, M=26; 12-18 anos (M=14.55, DP=1.83) Sexting não consensual Compreender as motivações, perceções, diferenças de género e de idade, em adolescentes Qualitativo ( focus group e questionários) Meehan (2022) - Sexualities Nova Zelândia N= 106; 12-16 anos Sexting : Consentimento, criação e partilha de imagens íntimas Analisar a perceção dos jovens acerca do consentimento para a criação e partilha de imagens íntimas Qualitativo (entrevistas em grupo) Mortensen (2020) - Society of Media researchers In Denmark Dinamarca N=3 Agressão sexual digital Explorar as experiências e compreender o papel do contexto público e social para a vergonha e as estratégias de coping utilizadas Qualitativo Naezer & Oosterhoutb (2021) - Journal of Gender Studies Países Baixos N=21; 15 perpetradores, género F=9 M=6; 4 bystanders , género F=2 M=2; 2 vitimas, género F=2; 15-21 anos na altura da entrevista; (14-18 anos no momento do abuso) Sexting : Partilha não consensual de imagem Explorar o fenómeno da partilha não consensual de imagem, especialmente, as motivações dos perpetradores Qualitativo (entrevistas) Perry et al. (2022) – Young Canadá N=115, género F=67 e M=48; 13-19 anos (M= 15) Sexting não consensual Explorar as experiências, motivações e significados que os jovens atribuem ao sexting e aos riscos que correm online Qualitativo ( focus group ) Powell et al. (2022) - Journal of Interpersonal Violence Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido N=6162, género F=3 181, M=2 928, transgénero= 26 e não binário= 27; (M= 39.02; DP =13.47); 16-64 anos Abuso sexual baseado em imagens Explorar a perpetração, analisando diferenças de género, o tipo de relação entre vítima e perpetrador e as caraterísticas que estão correlacionadas com a perpetração Quantitativo descritivo (continua na página seguinte) 22 Au tor(es), ano de p ublicação e Revista/Jornal País Caracterís tic as d a am os tra [N ; gén ero com o q u al s e id entificam (F eminino (F), Masculin o (M) ou outro) e faixa etária] Tip o de violência s exual facilitada pela tecnologia Ob jetivos Design Reed et al. (2019) - Journal of Adolescence Estados Unidos da América N=159; género F=159; 15-19 anos Assédio sexual online Avaliar e descrever a prevalência, os perpetradores e impacto Quantitativo descritivo Reed et al. (2020) - Children and Youth Services Review Estados Unidos da América N=262; género F= 57.1%, M=42.5%, outro= 0.4%; 14-18 anos Abuso digital no namoro Analisar as perceções dos jovens acerca das suas piores experiências de abuso digital no namoro e se existem diferenças de género Métodos mistos Rey et al. (2021) - Psicothema Espanha N= 1 362, género F=51.1% e M=48.9%; 1218 anos (M=14,28; DP=1,50) Sexting não consensual Desenvolver e validar um questionário e explorar diferenças de género no instrumento Quantitativo descritivo Ridder (2019) - European Journal of Cultural Studies Bélgica N=38; 15-18 anos Sexting não consensual Explorar as perceções dos jovens acerca do sexting Qualitativo ( focus group ) Setty (2019) - Sex Roles Inglaterra N=41; género F= 16, M=23 e género fluido= 2; 14-18 anos Sexting não consensual Explorar as práticas e perceções dos jovens acerca do sexting, significado social e normas culturais associados ao género e às implicações da prática de sexting Qualitativo (entrevistas semiestruturadas de grupo e individuais) Setty (2020) - Journal of Youth Studies Inglaterra N=41; género F= 16, M=23 e género fluido= 2; 14-18 anos Sexting não consensual Explorar percepções relativamente ao risco, impacto e padrões de género Qualitativo (entrevistas) Van Ouytsel et al. (2017) - Journal of Youth Studies Bélgica N=57; género F=38 e M=19; 15-18 anos Sexting não consensual Analisar perceções dos adolescentes (i.e meios, motivações e consequências) Qualitativo ( focus group ) Walker et al. (2013) - Journal of Adolescent Health Austrália N= 33; género F=18 e M=15; 15-20 anos Sexting não consensual Analisar as perceções dos adolescentes Qualitativo (entrevistas semiestruturadas) 23 Principais resultados Apenas um estudo abordou exclusivamente o contexto de rutura de um relacionamento íntimo (Hasinoff, 2017), sendo que os restantes integraram, também, outros contextos (e.g. relacionamento íntimo, amizade, entre outros). Na tabela 3 encontram-se os principais resultados dos estudos num contexto de rutura de um relacionamento íntimo Os resultados dos estudos cuja amostra inclui outras populações além dos adolescentes encontram-se marcados, nas tabelas, com asterisco (quando não é possível isolar os resultados para essa população nesses mesmos estudos). Principais resultados dos estudos num contexto de rutura de um relacionamento íntimo Focando no contexto de rutura de um relacionamento íntimo, estes estudos fornecem resultados relativamente à prevalência (n=2), motivações (n=5), impacto (n=2), estratégias de coping (n=2), perceções (n=10), e, ainda, outros resultados (n=2). Considerando a prevalência, e os comportamentos relativos ao abuso sexual de imagens, verificou-se que: 24.2% dos adolescentes reportou ter sido alvo de ameaças relativas à distribuição das suas imagens íntimas/sexuais, 21.6% de distribuição não consensual de imagens íntimas/sexuais e 17.8% de criação de imagens íntimas/sexuais sem o seu consentimento (Powell et al., 2022). Paralelamente, Reed et al. (2019), focados no assédio sexual, constataram que 16.7% reportou ter sido alvo de partilha não consensual de imagens íntimas/sexuais, 10.3% de pressão para enviar uma fotografia intima/sexual, 9.4% de solicitações sexuais indesejadas e 3.4% de mensagens ou fotografias intimas/sexuais indesejadas. Na perspectiva das vítimas, estes comportamentos tenderam a ser motivados porque o(a) exparceiro(a) intimo(a) ambicionava exercer poder e controlo (Henry et al., 2022), punir, humilhar, envergonhar (Henry et al., 2022; Henry et al., 2022), intimidar (Henry et al., 2022), manter a relação de intimidade ou evitar o seu término (Henry et al., 2022; Johansen et al., 2019), vingar-se (Naezer & Oosterhoutb (2021), ou “retribuir” pelo término desta (Aborisade, 2022; Henry et al., 2022). Na sequência deses comportamentos, várias consequências psicossociais foram reportadas: baixa auto-estima, perda de confiança, sentimentos de inutilidade, isolamento, a rutura de relações sociais (Huber, 2022) e vergonha (intensificada pelo contexto em que as imagens foram distribuídas, a família) (Mortensen, 2020). Importa que, por exemplo, o estudo de Reed et al. (2020), constatou que ser alvo de insultos relativos à sexualidade, como forma de retaliação pelo término, foi considerada uma das piores experiências de violência pelos adolescentes. 30 Discussão A presente revisão sistemática procurou analisar a violência sexual facilitada pela tecnologia em adolescentes, num contexto de rutura relacional, nomeadamente, a sua prevalência, as motivações, o impacto, as estratégias de coping e as percepções, dos adolescentes vítimas deste fenómeno, sendo que os resultados obtidos revelam uma realidade com uma dimensão preocupante. Uma das principais conclusões é a quantidade limitada de investigação sobre o tema, uma vez que, nesta revisão sistemática foram incluídos 22 estudos, mas apenas um se focou exclusivamente no contexto de rutura relacional (Hasinoff, 2017) sublinhando que é necessário um maior reconhecimento e investimento da comunidade científica nesta temática. Para além de escasso, o interesse da comunidade científica parece, também, ser muito recente, com uma grande parte dos estudos estudos a serem publicados no ano 2022. Se, por um lado, tal demonstra a contemporaneidade deste tema, por outro, é igualmente expectável, tendo em conta que o uso das TIC por parte dos adolescentes tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos (Dienlin & Johannes, 2020; Ponte & Simões, 2019; Smahel et al., 2020; Vogels et al., 2022). Adicionalmente constata-se que, enquanto objeto de estudo, assume maior visibilidade nos continentes Americano e Europeu. Na origem deste facto podem estar várias explicações, seja o desenvolvimento tecnológico que assume uma posição de destaque nestes continentes ou, eventualmente, uma maior consciencialização para estas problemáticas. Importa, também, reforçar que em Portugal, o investimento científico neste domínio parece inexistente, e que o reconhecimento legal de alguns destes comportamentos é, também, muito recente (e.g. Lei n. º26/2023 de 30 de Maio). A violência sexual facilitada pela tecnologia pode compreender vários comportamentos, sendo que a maioria dos estudos privilegiou a análise do sexting e abuso sexual baseado em imagens (e.g. Lippman & Campbell, 2014 e Huber, 2022), destacando a necessidade de um maior reconhecimento sobre fenómenos como o assédio, sextortion, entre outros. Por exemplo, o estudo de Wolak et al. (2018) retrata que a maioria dos perpetradores de sextortion são parceiros(as) íntimos atuais ou ex-parceiros(as) íntimos. Além disoso, conclui-se que nos 22 estudos incluídos, não raras vezes, os comportamentos que caraterizavam o fenómeno eram os mesmos, ainda que a denominação fosse diferente. Se esta heterogeneidade concetual pode ajudar a compreender o fenómeno de forma ampla e exaustiva, pode também inviabilizar a possibilidade de obter um retrato fidedigno da sua extensão, dinâmicas e impacto, o que nos permitiria delinear estratégias de prevenção e intervenção efetivas (e.g. McGlynn & Rackley, 2017; Patel & Roesch, 2022). As taxas de prevalência sobre a violência sexual facilitada pela tecnologia, relatadas nos estudos e associadas ao contexto de rutura de um relacionamento íntimo retratam que as vítimas foram ex-parceiros, 31 nos seguintes comportamentos: ameaçar distribuir as imagens íntimas/sexuais (24.2%), distribuição não consensual de imagens íntimas/sexuais (21.6%) e tirar/criar imagens íntimas/sexuais sem consentimento (17.8%) (Powell et al., 2022). O estudo de Reed et al. (2019) demonstrou que 6.4% das vítimas relataram que o seu perpetrador se encaixava na categoria “outro”, sendo que a maioria destas relatou que seria um exparceiro(a) íntimo(a). Destas 16.7% reportou ter sido alvo de partilha não consensual de imagens íntimas/sexuais, 10.3% de pressão para enviar uma fotografia íntima/sexual, 9.4% de solicitações sexuais indesejadas e 3.4% de mensagens ou fotografias íntimas/sexuais indesejadas. Estes resultados sugerem que poucos estudos procuram analisar as taxas de prevalência distinguindo-as para os diferentes contextos em que a violência sexual facilitada pela tecnologia pode ocorrer (e.g. contexto de amizade, relação íntima, rutura de relacionamento íntimo, desconhecidos, entre outros) Contudo, os estudos de Powell et al. (2022) e Reed et al. (2019) evidenciam números consideráveis de ex-parceiros como perpetradores/ vítimas, sublinhando a ocorrência da violência sexual facilitada pela tecnologia no contexto de rutura de um relacionamento íntimo. Não obstante, os questionários de autorrelato acabam por estar sujeitos às interpretações que cada participante faz acerca das questões, além de que estes podem responder de acordo com aquilo que é desejável socialmente e estes fatores podem contribuir para alguma variabilidade nestas taxas de prevalência. Diversos estudos apontam como motivação para a prática da violência sexual facilitada pela tecnologia a vingança pelo término da relação, existindo até a denominação “pornografia de vingança” (Dodge, 2021; Walker & Sleath, 2017). Porém, nesta revisão sistemática verifica-se que apenas um estudo se focou exclusivamente nesse contexto. Tal pode dever-se ao facto de recentemente os estudos apontarem outras motivações além dessa (e.g. reforço social) e também outros contextos para a ocorrência da violência sexual facilitada pela tecnologia (e.g. contexto de amizade; Henry et al., 2019; Walker & Sleath, 2017) e talvez por esse motivo, a maioria dos estudos incluídos nesta revisão teve uma abordagem vasta, incluindo diversos contextos (e.g. Reed et al., 2019). Assim, esta revisão sistemática também verificou que o término do relacionamento parece por si só originar a violência sexual facilitada pela tecnologia (Aborisade, 2022). No entanto, motivações como punição, humilhação, retribuição, tentativa de manutenção do relacionamento, intimidação ou exercício de poder e de controlo evidenciam que, mesmo neste contexto, as motivações dos perpetradores não se esgotam na vingança. Quanto ao impacto psicossocial da violência sexual facilitada pela tecnologia nas vítimas, no contexto de rutura de um relacionamento íntimo, os estudos descrevem um impacto intenso e significativo em termos psicológicos (baixa auto-estima, sentimentos de inutilidade), relacionais (perda de confiança, isolamento e rutura de relações sociais) (e.g. Huber, 2022) e de estigmatização (vergonha, intensificada pelo contexto em que as imagens foram distribuídas, a família) (Mortensen, 2020). Estes resultados são análogos aos 32 encontrados nos diversos fenómenos abrangidos pela violência sexual facilitada pela tecnologia que incluem também outros contextos (e.g. contexto de relações de intimidade, amizade, entre outros) (Mandau, 2021; Patel & Roesch, 2022), pese embora, neste domínio relativo ao impacto, seja necessária maior investigação e esclarecimento científico, nomeadamente, sobre fatores de risco (e.g. gravidade, duração) e de proteção (e.g. coping ) face a um maior impacto. Dois dos estudos incluídos nesta revisão sistemática demonstraram também a existência de algumas estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes para lidar com a violência sexual facilitada pela tecnologia neste contexto, estando em estudo concretamente os fenómenos de assédio sexual online e agressão sexual digital (sob a forma de partilha não consensual de imagens íntimas) (Eek-Karlsson et al., 2022; Mortensen, 2020). Essas estratégias consistiram em evitar ou normalizar o problema (Eek-Karlsson et al., 2022; Mortensen, 2020) e/ou ter procurado ajuda junto de autoridades policiais ou judiciais (Mortensen, 2020). Tendo em conta que estas estratégias decorrem de comportamentos online , parecem apresentar-se como ajustadas à forma como jovens podem lidar com estas situações e, com efeito, apresentam-se como eficazes para os participantes que as elencam. Porém, do que nos foi possível apurar, a literatura não tem ainda dado muito destaque a este domínio, sendo poucos os estudos que analisam estratégias de coping para a violência sexual facilitada pela tecnologia e não se focando exclusivamente nem no contexto de rutura, nem na população adolescente (e.g. O’Malley, 2023). De qualquer forma, procurar uma resposta multidisciplinar e abrangente, incluindo estratégias como procurar apoio junto da sua rede social ou procurar ajuda de um profissional da área da saúde mental foram já reportadas como frequentes (e.g. O’Malley, 2023; Scarduzio et al., 2018) e, no nosso estudo, tal não se apurou. Por outras palavras, é importante assumir-se uma ação concertada para se lidar com estes fenómenos, incluindo proporcionar o apoio especializado a nível psicológico e jurídico às vítimas (e.g. informação sobre direitos e preservação das provas, facilitar os mecanismos de denúncia e de proteção). As perceções dos adolescentes acerca da violência sexual facilitada pela tecnologia prendem-se essencialmente com o facto de estes considerarem a prática de cada fenómeno, ainda que de forma consensual, por um lado, um risco para o ciberabuso no momento da rutura, ou então como algo inevitável, com motivações como a vingança, ameaça ou chantagem (Lippman & Campbell, 2014; Meehan, 2022; Perry et al., 2022; Ridder, 2019; Van Ouytsel et al., 2017; Walker et al., 2013). Ora, sendo que, efetivamente uma das motivações apresentadas na literatura sobre este tema é a vingança aquando do término (Walker & Sleath, 2017), e que comummente surgem notícias na comunicação social dando conta que ex-parceiros distribuíram fotografias ou vídeos íntimos como forma de vingança ou retaliação (McGlynn & Rackley, 2017), torna-se expectável que os jovens detenham essa mesma perceção que os estudos documentam. 33 De forma geral, esta revisão sistemática permitiu esclarecer a atualidade desta temática e a necessidade de mais estudos abordarem, de forma independente, os diferentes contextos em que a violência sexual facilitada pela tecnologia ocorre, para que se possam distinguir, identificar eventuais diferenças e assim contribuir para uma maior compreensão dos fenómenos adaptados a cada contexto. Todavia, esta revisão sistemática tem também limitações. Primeiramente, um dos critérios de inclusão foi os estudos terem sido publicados em português, inglês ou espanhol, tornando-se uma limitação de idioma que pode significar também uma restrição às diferentes perspetivas culturais existentes. Além disso, foram incluídos estudos cuja amostra, apesar de incluir adolescentes incluía também jovens adultos e/ou adultos, o que complexifica a atribuição dos resultados existentes, pois não são distinguidos por faixa etária. Tal também demonstra a necessidade de pesquisas futuras para as diferentes populações, uma vez que, estudos atuais indicam que os adolescentes e jovens adultos são mais vulneráveis ou propensos à vitimação pela violência sexual facilitada pela tecnologia (Eaton et al., 2017; Lenhart et al., 2016; Patchin & Hinduja, 2020). Uma outra limitação relaciona-se com o facto de apenas um estudo se ter focado exclusivamente em analisar o contexto de rutura de um relacionamento íntimo, sendo que os restantes incluíram também outros contextos. Ademais, a avaliação do risco de viés e da qualidade metodológica é um processo que necessariamente envolve alguma subjetividade e que deixa também a descoberto algumas limitações nos estudos incluídos. Conclusões e Implicações A violência sexual facilitada pela tecnologia no contexto pós-rutura afigura-se como um problema social grave e relevante, merecedor de atenção por si mesmo, não só devido à elevada prevalência, como também, às diferentes motivações que lhe estão associadas, (in)adequadas estratégias de coping e potenciais consequências nefastas que implica. A presente revisão sistemática apresenta-se como um ponto de partida para a compreensão deste fenómeno, sendo notória a necessidade de uma ação multifacetada, envolvendo os adolescentes (como potenciais vítimas, perpetradores e/ou bystanders ), as suas famílias e a sociedade em que se inserem, no combate a esta problemática. Ora, os pais podem assumir uma postura mais participativa e de maior disponibilidade relativamente às atividades digitais dos filhos, supervisionando-as. Por sua vez, o meio em que os adolescentes se inserem tem também um papel preponderante, a saber: a educação nas escolas pode formar as crianças e adolescentes para a privacidade, a literacia e a segurança digital, promover ações de sensibilização acerca da violência sexual facilitada pela tecnologia; os profissionais da área da saúde mental, atendendo às taxas de prevalência e ao impacto retratados nesta revisão, devem estar preparados para apoiar 34 e intervir, seja no âmbito da prevenção primária, segundária ou terciária; na ação multissetorial (e.g. empresas de tecnologia), no desenvolvimento de práticas que permitam a deteção precoce e a denúncia deste tipo de fenómenos; e, na esfera política, destaca-se a urgência de que a legislação acompanhe o avanço tecnológico e, concretamente, o cibercrime, para um combate efetivo a esta problemática através de meios legislativos, tanto a nível nacional como internacional, que protejam as vítimas e responsabilizem os perpetradores. Um bom exemplo disso em Portugal é a muito recente lei nº. 26/2023 que reforça a proteção das vítimas de crimes de disseminação não consensual de conteúdos íntimos (e.g. pornografia de vingança). O combate eficaz à violência sexual facilitada pela tecnologia dependerá desse esforço conjunto. 35 Referências Bibliográficas: *Aborisade, R. A. (2022). Image-based sexual abuse in a culturally conservative Nigerian society: Female victims’ narratives of psychosocial costs. Sexuality Research & Social Policy: Journal of NSRC: SR & SP , 19 (1), 220– 232. https://doi.org/10.1007/s13178-021-00536-3 Baker, C. K., & Carreño, P. K. (2015). Understanding the Role of Technology in Adolescent Dating and Dating Violence. Journal of Child and Family Studies , 25 (1), 308–320. https://doi.org/10.1007/s10826-015-0196-5 Barroso, R., Marinho, A. R., Figueiredo, P., Ramião, E., & Silva, A. S. (2022). Consensual and Non-consensual Sexting Behaviors in Adolescence: A Systematic Review. 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