A imagem dos cientistas no ensino secundário angolano: um estudo com alunos de ciências
Abstract
Nesta investigação pretendeu-se averiguar a imagem dos cientistas perfilhada pelos alunos do ensino secundário angolano. Desenvolveu-se um estudo com 80 alunos, distribuídos em seis municípios da província do Uíge. Os dados recolhidos através de um questionário revelaram que os alunos possuem imagens estereotipadas acerca dos cientistas e seu trabalho, consideram-nos como pessoas com aparência esquisita, do sexo masculino, génios que trabalham de forma individual no laboratório, seguindo os passos do método científico. Também consideram que a atividade científica sofre influência da religião, da política e da família. Estes resultados mostram que é necessário repensar os processos de ensino e aprendizagem.
Full text
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 1 A IMAGEM DOS CIENTISTAS NO ENSINO SECUNDÁRIO ANGOLANO: UM ESTUDO COM ALUNOS DE CIÊNCIAS THE IMAGE OF SCIENTISTS IN HIGH SECONDARY SCHOOLS IN ANGOLA: A STUDY WITH SCIENCE TEACHERS AND STUDENTS LA IMAGEN DE LOS CIENTÍFICOS EN LA EDUCACIÓN SECUNDARIA DE ANGOLA: UN ESTUDIO CON ESTUDIANTES DE CIENCIAS Kanga João1 Luís Dourado2 Resumo: Nesta investigação pretendeu-se averiguar a imagem dos cientistas perfilhada pelos alunos do ensino secundário angolano. Desenvolveu-se um estudo com 80 alunos, distribuídos em seis municípios da província do Uíge. Os dados recolhidos através de um questionário revelaram que os alunos possuem imagens estereotipadas acerca dos cientistas e seu trabalho, consideram-nos como pessoas com aparência esquisita, do sexo masculino, génios que trabalham de forma individual no laboratório, seguindo os passos do método científico. Também consideram que a atividade científica sofre influência da religião, da política e da família. Estes resultados mostram que é necessário repensar os processos de ensino e aprendizagem. Palavras-chave: Angola. alunos de ciências. ensino secundário. imagem dos cientistas. Abstract: In this reseacrh it was intended to search the image of scientists espoused by angolan secondary school students. A study was carried out with 80 students, distributed in six municipalities of Uíge province. The data colleted through a questionaire revealed that students have stereotyped images about scientists and their work, they consider them as weird – looking, male, geniuses who work individually in laboratory, following the steps of the scientific method. They also consider that scientific activity is infuenced by religion, politics and family. These results show that it is necessary to rethink the teaching and learning processes. Keywords: Angola. Science students. Secondary education. Image of scientists. Resumen: En esta investigación se pretendió verificar la imagen de los científicos desplegada por estudiantes de enseñanza secundaria angoleño. Se desarrolló un estudio con 80 estudiantes, distribuidos en seis municipios de la provincia de Uíge. Los datos recopilados a través un cuestionario revelaron que los estudiantes tienen imágenes estereotipadas sobre el científico y su trabajo, los consideran personas de aspecto extraño, de hombres, genios que trabajan individualmente en el laboratorio, siguiendo los pasos del método científico. También consideran que la actividad científica se resiente influencia de la religión, la política y la familia. Estos resultados muestran que es necesario repensar los procesos de enseñanza y aprendizaje. Palabras clave: Angola. estudiantes de ciencias. Enseñanza secundaria. imagen de los científicos. Submetido 30/06/2022 Aceito 10/10/2020 Publicado 13/10/2020 1 Mestre em Supervisão Pedagógica na Educação em Ciências. Instituto Superior de Ciências de Educação do Uíge/Angola. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4359-7420. E-mail: [email protected]. 2 Doutor em Educação em Ciências. Universidade do Minho/Portugal, ORCID: https://orcid.org/0000-00033888-5409.E-mail: [email protected].
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 2 Introdução O desenvolvimento e o impacto das ciências e da tecnologia numa sociedade tornam necessária a formação dos indivíduos para que estes compreendam a atividade científica (Santos, Bispo & Omena, 2005) bem como os resultados desta. De acordo com Viecheneski, Lorenzetti e Carletto (2012), as interações que o homem estabelece com a sociedade e as exigências que esta impõe àquele, mostram a importância de ensinar ciências. As sociedades de hoje necessitam que o ensino das ciências veicule aos alunos uma adequada cultura científica e tecnológica necessária ao exercício da cidadania (Cachapuz, Praia & Jorge, 2002; Aikenhead, 2009), promovendo assim a sua literacia científica (Aikenhead, 2009). Assim, de acordo com Hodson (2000), os alunos precisam aprender ciências em torno de três aspetos fundamentais, nomeadamente, aprender ciências: implica, adquirir e desenvolver os conhecimentos teóricos e conceituais; aprender acerca das ciências: envolve a compreensão da natureza das ciências e dos métodos usados para a construção do conhecimento científico, ter a consciência das interações entre ciências, tecnologia, sociedade e ambiente e aprender a fazer ciências: implica o desenvolvimento e aquisição de experiência na investigação científica e resolução de problemas. A educação em ciências e os mitos acerca dos cientistas e do seu trabalho As conceções acerca das ciências e dos cientistas, bem como acerca da construção do conhecimento científico têm sido objeto de várias investigações (Zanon & Machado, 2013). O ensino das ciências, transmite muitas vezes certos mitos relativamente ao empreendimento científico (Acevedo, et al, 2005), também designados por visões inadequadas (Reis & Kiouranis, 2016). De acordo com Midgley (2011), "mitos são padrões imaginativos, redes de símbolos poderosos que sugerem formas particulares de interpretar o mundo" (p. 1). Vários autores investigaram sobre as imagens inadequadas que se tem acerca dos cientistas e do seu trabalho. McComas (1998) nos quinze mitos que apresenta sobre as ciências, faz referência ao mito sobre trabalho dos cientistas, onde se afirma da existência de um método científico geral e universal, e ao mito sobre os cientistas que defende que estes são particularmente objetivos e as ciências são um empreendimento solitário. Valentim (2013) analisou a imagem dos cientistas e do seu trabalho no álbum de banda desenhada as "aventuras de Tintim", e constatou que estes são apresentados como loucos,
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 3 génios, heróis, distraídos, ou até perigosos. Allchin (2003) as histórias de alguns cientistas (Gregor Mendel, H. B. D. Kettlewell, Alexander Fleming, Ignaz Semmelweis e William Harvey) e a forma como os educadores as utilizam para retratar o processo científico. O autor constatou que, existem elementos narrativos como a grandiosidade dos cientistas, o drama afetivo no trabalho, e relatos idealizados que muitas vezes os transformam em mitos e deturpam a sua imagem. O mesmo autor afirma que, "considerar os cientistas como pessoas especiais, extraordinárias, cuja autoridade está fora de questão é colapsar a atividade científica em familiar" (p. 346). Os investigadores Reis e Kiouranis (2013) e Acevedo et al (2005) sistematizam alguns mitos sobre o trabalho dos cientistas: - Descontextualizado e socialmente neutro: o conhecimento científico é discutido sem estabelecer nenhuma relação com o contexto em que o mesmo foi construído, ignorando as ligações entre CiênciasTecnologiaSociedade e Ambiente, o cientista é visto como um ser perfeito e que não precisam participar na tomada de decisões; - Individualista e elitista: o fazer ciências como obra para os inteligentes que trabalham de forma isolada, ignorando-se o trabalho coletivo para a construção do conhecimento científico; - Empírico-indutivista e ateórica: uma conceção que destaca o papel “neutro” da observação e da experimentação, esquecendo-se as linhas orientadoras da investigação (as hipóteses e as teorias disponíveis); - Rígido, algorítmico, infalívelapresenta-se o “método científico” como um conjunto de etapas a seguir mecanicamente. Aikenhead (2009) e Avanzi et al (2016) afirmam que o atual ensino das ciências proporciona imagens positivistas, estereotipadas e ultrapassadas, das ciências e dos cientistas, associadas à ideia da verdade absoluta e objetiva, e do trabalho individual. Pavão (2008), assinala que é mistificar a atividade científica ao considerá-la que é apenas para os europeus e norte-americanos, ou somente para o género masculino de raça branca. Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007) afirmam que essas crenças constituem um grande obstáculo na aprendizagem das ciências. De acordo com vários autores (Buske, BartholomeiSantos & Temp, 2015); Tan, Jocz & Zhai, 2015; Praia, Gil-Pérez & Vilches, 2007), a imagem negativa que os alunos apresentam os cientistas afeta negativamente o seu interesse pelas carreiras científicas e põe em causa a literacia científica dos mesmos.
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 4 Para Hodson (2009), essas imagens são resistentes à mudança porque são constantemente reforçados pelos programas de televisão, filmes, sites de internet, jornais. As imagens inadequadas sobre os cientistas e seu trabalho podem também resultar da ação dos professores quando apresentam os conhecimentos como já elaborados, sem dar aos alunos possibilidades de conhecer como se desenrola o trabalho dos cientistas (Isabel et al, 2002; McComas, 1998). Também podem resultar do fato da atividade científica ser tratada pelas artes, pela media e pela literatura como um empreendimento que ostenta várias inquietações, perigosa e fonte de um conhecimento objetivo e democrático, embora, concomitantemente, místico e, aparentemente, fora do alcance das possibilidades humanas (Valentim, 2013), bem como, a sua apresentação nos diversos discursos que englobam os contextos social, cultural, político, histórico e fundamentalmente, o educacional (Lisboa et al, 2015). Para melhorar a imagem dos cientistas e do seu trabalho, vários autores sugerem ou opinam no que se pode fazer. Segundo Pavão (2008), no ensino das ciências deve ser explicitado que o cientista não tem nada de anormal, que é um cidadão normal como os outros e um simples trabalhador. Deve também ser explicada de que, os cientistas usam a imaginação e estudam os trabalhos dos outros para poderem sustentar as suas ideias (Chiappetta & Koballa, 2004). As imagens sobre os cientistas presentes nos manuais escolares Os manuais escolares de ciências influenciam de alguma forma a imagem que os alunos de ciências perfilham sobre o cientista e o seu trabalho (She, 1995). Diversos autores realizaram estudos em manuais escolares de ciências de diferentes países e níveis de ensino. Barbosa e Almeida (2015) analisaram os aspetos ligados a construção do conhecimento científico e do trabalho dos cientistas em nove manuais de ciências da natureza do 5º ano de Portugal. Constataram que, apenas alguns deles referem os fracassos e êxitos do trabalho dos cientistas, bem como a cooperação e as discordâncias entre eles. Wei, Shen e Li (2013) examinaram os aspetos da história das ciências presentes em manuais de ciências do ensino secundário da China e constataram que, estes apenas mencionam os dados biográficos dos cientistas e narrativas acerca de descobertas dos cientistas, omitindo relatos de mudanças nas ideias científicas e das circunstâncias que as envolvem, que, de acordo como os autores, ajudam os alunos a entenderem o funcionamento do empreendimento científico.
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 5 Bungum (2008) realizou um estudo exploratório de imagens em manuais de física para o ensino secundário utilizados na Noruega (desde 1943 até 2008), e constatou que os manuais da primeira metade do século XX apresentam os materiais científicos e a forma em que são feitos os experimentos na vida real e nos mais recentes, a imagem do cientista dá uma visão que condiz com a sua realidade. Elgar (2004) ao analisar manuais escolares de ciências utilizados no ensino secundário da Singapura notou a falta de imagens de mulheres cientistas. Este investigador defende a inclusão de mulheres cientistas nos manuais escolares para assegurar uma educação científica equitativa que estimule tanto os meninos como das meninas para a escolha de carreiras científicas. As imagens sobre os cientistas perfilhadas por alunos Têm sido realizadas diversas investigações com a finalidade de conhecer as conceções que alunos do ensino básico e do ensino secundário perfilham sobre os cientistas. Desta feita, Fernandes, Rodrigues e Ferreira (2018) aplicaram um questionário e realizaram entrevistas para analisarem o papel do cientista, da natureza das ciências e da tecnologia a um grupo de alunos dos 4º, 5º e 6º anos de escolaridade, de diferentes nacionalidades (Portugal, Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola e Senegal), residentes em Portugal. Notaram que os alunos acreditavam que o cientista é um génio, que realiza experiências (de química, física e biologia), do sexo masculino, solitário, que se fecha sempre no laboratório. De acordo com os mesmos autores, as representações dos alunos associavam o trabalho do cientista em atividades como, explicar, ensinar, descobrir, inventar e conhecer, também representaram alguns símbolos de conhecimento nomeadamente, quadros, frascos e tubos nas bancadas de laboratório e explosões de reações químicas, como sinónimo de perigo. Guimarães e Castro (2019) constataram que alunos do 6º e 7º ano (ensino de jovens e adultos), brasileiros acreditam que o cientista é um profissional que procura provar as suas previsões por meio de experimentos realizados nas bancadas de laboratório. Também, Stapleton et al. (2018) utilizando uma versão do DAST investigaram as perceções de alunos do ensino secundário, irlandeses sobre os cientistas e o seu trabalho, e constataram que, estes representaram mais cientistas do sexo masculino, a trabalharem de forma individual e a usar óculos e bata. Baseando-se na mesma técnica, Meyer, Guenther e Joubert (2018) investigaram as perceções de 445 estudantes universitários, sul africanos e constataram
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 6 que os desenhos dos alunos evidenciam que também eles acreditam que os cientistas são do sexo masculino, usam óculos, usam bata e estão rodeados de equipamentos de laboratório. Além disso, constataram que os desenhos repsentavam os cientistas com idades indefinidas e de género correspondente ao do próprio desenhador. Samaras, Bonoti e Christidou (2012) exploraram as perceções sobre os cientistas de alunos do ensino básico da Grécia através de análise de desenhos, complementados com entrevistas, e notaram a existência de representações positivas sobre os cientistas, ao descrevêlos como pessoas gentis e bem-educadas. Os mesmos autores, notaram maior frequência de cientistas homens, mas os alunos não os achavam misteriosos, nem os associavam a tarefas e características negativas. Metodologia A investigação foi realizada com 80 alunos da 12ª classe, na opção de Ciências Físicas e Biológicas de oito escolas, distribuídas em seis municípios da província do Uíge, Angola. O desenho da investigação é qualitativo, do tipo fenomenológico. Em função da questão da investigação, a recolha de dados foi feita utilizando a técnica de inquérito por questionário concretizado através de um teste de conhecimentos, que foi aplicado aos alunos, de modo a que tivéssemos acesso às imagens dos cientistas perfilhadas por eles. Este questionário tinha 10 questões adaptadas a partir dos estudos de Silva (2006) e Souza e Silva (2013), sendo que estes basearam-se em Draw Scientist Test (DAST). O questionário foi aplicado pelo próprio investigador, depois de se explicarem os objetivos do estudo e de se ter garantido o anonimato e confidencialidade dos dados recolhidos. O questionário foi aplicado numa das salas disponibilizadas pela direção da escola, normalmente na sala da turma dos alunos em causa. Resultados e discussões Género dos cientistas Na primeira questão foi solicitado aos alunos que desenhassem três cientistas atuais, no seu local de trabalho.
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 7 Tabela 1Agrupamento dos desenhos por género Género Alunos f % Apenas homens 50 62,5 Apenas mulheres 01 1,25 Dois homens e uma mulher 14 17,5 Duas mulheres e um homem 01 1,25 Género não identificável 14 17,5 Depois de analisados, os desenhos foram agrupados por género dos cientistas e foram calculadas as respetivas frequências (Tabela 1). Fonte: Produção do próprio autor Fonte: Produção do próprio autor Assim, da análise da tabela 1, podemos verificar que, a maioria dos alunos (62,5%) representaram apenas homens, e nota-se também, que são escassos os desenhos que representam a mulher, e que apenas um aluno desenhou três meninas (Fig. 1). Embora, existam desenhos em que não foi possível identificar o género dos cientistas, verifica-se que o género que é mais retratado é o masculino, e quando são representadas mulheres, são também, com exceção de um caso, representados homens. Conceções semelhantes foram identificadas num estudo realizado por Nunes (2020) com os alunos brasileiros de um centro juvenil de ciência e cultura. Fig. i: Cientistas meninas, desenhadas pelo aluno A10 Fig. ii: Cientistas com género não identificado, desenhados pelo aluno A
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 8 Local de trabalho dos cientistas A análise dos desenhos permitiu também identificar materiais que os alunos associam ao trabalho dos cientistas. Na tabela 2 mostra os materiais tradicionais do laboratório que os alunos associam ao trabalho dos cientistas. Pese embora, a existência de materiais que não se conseguiu caracterizar, talvez por falta de habilidades de desenho de alguns alunos, nota-se que muitas vezes nas representações dos alunos o cientista se encontrava, normalmente, a realizar experiências, utilizando os instrumentos de observação, a realizar apontamentos ou a misturar produtos químicos. Tabela 2Materiais tradicionais do laboratório Materiais frequência % Materiais de observação 11 13,8 Materiais de medida 1 1,3 Materiais de vidro 23 28,8 Materiais de eletricidade 1 1,3 Mesa/bancada/cadeiras de laboratório 34 42,5 Substâncias químicas 9 11,3 Não identificáveis 24 30,0 Os alunos também desenharam materiais não tradicionais do laboratório, referidos na Tabela 3. Tabela 3Materiais não tradicionais do laboratório Materiais Frequência % Computador 21 26,3 Materiais de anotações 29 36,3 Materiais de escrita 7 8,8 Materiais não identificáveis 9 11,3
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 9 Fonte: Produção do próprio autor Pode-se notar frequentes representações de instrumentos reveladores de tecnologias avançadas e símbolos de conhecimento (livros, lapiseiras, computadores, quadros) expressando uma ideia de que estes alunos possuíam um estereótipo do cientista ser estudioso. De forma geral, verifica-se que os alunos desenharam diversos materiais (tradicionais e não tradicionais), o que também aconteceu no estudo realizado por Nunes (2020). Forma de trabalhar dos cientistas A partir da análise dos desenhos também se procurou averiguar a forma de trabalhar dos cientistas. A tabela 4 apresenta a frequência das diferentes formas de trabalhar dos cientistas (individual, em grupo ou individual e grupo) representados nos desenhos efetuados pelos alunos que participaram na investigação. Tabela 4Frequências das formas de trabalhar dos cientistas Formas de trabalhar dos cientistas frequências % Em grupo 5 6,3 Individual 57 71,3 Individual e grupo 8 10,0 Forma de trabalho não identificável 10 12,5 Estes resultados mostram que 71,3% dos alunos desenharam os cientistas a trabalharem individualmente, 10,0% a trabalharem em grupo e individualmente, em simultâneo. É de realçar Fig. iv: Cientistas utilizando as novas tecnologias, desenhados pelo aluno A2 Fig. iv: Cientistas utilizando as novas tecnologias, desenhados pelo aluno A2 Fonte:Produção do próprio autor Fig. iii: Microscópio e bancadas no laboratório, desenhados pelo aluno A48
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 16 grupo de alunos, pese embora em pequena dimensão, 3,7%, alegou que o cientista ao realizar uma investigação não procede sempre da mesma forma. Pode verificar-se assim que grande parte dos alunos considera que o cientista trabalha na base de um método que tem passos bem definidos, parecendo assim estar presente a ideia de o cientista executa o seu trabalho de acordo com um conjuto de etapas pré definidas, correspondente ao método científico, como foi também constatado no estudo desenvolvido por Souza e Silva (2013). Verificou-se ainda, que os alunos acham que o trabalho dos cientistas é de descobrir ou criar coisas novas. Procurou-se ainda, saber as opiniões dos alunos quando foram questionados se o trabalho dos cientistas envolve sempre a realização de trabalho num laboratório. Na análise verifica-se que 21,3% dos alunos concordaram que os cientistas utilizam sempre o laboratório e que o fazem para comprovar o conhecimento científico. 15,0% dos alunos consideraram que os cientistas não utilizam sempre o laboratório e defendem que a realização de atividades de laboratório depende da natureza do trabalho. Houve ainda, 7,5% dos alunos que não concordaram que o cientista utiliza sempre o laboratório para realizar o seu trabalho. Pode aferir-se de forma geral que os alunos atribuem uma certa importância à realização de experiências no trabalho dos cientistas, onde grande parte acha que depende do tipo de trabalho, como também para comprovar o conhecimento científico, tal como foi também constatado no estudo realizado por Souza e Silva (2013). Influência da religião, da política e da família no trabalho dos cientistas Acerca das opções escolhidas pelos alunos quando foram questionados se a religião influencia o trabalho dos cientistas, verifica-se que 63,8% dos alunos consideram que a religião influencia o trabalho dos cientistas, onde 39,2% destes acharam que a religião ajuda no trabalho dos cientistas e 15,7% dos alunos defenderam que Deus influencia tudo. Relativamente à influência da política no trabalho dos cientistas, verifica-se que grande parte dos alunos (58,8%) consideraram que a política influencia o trabalho dos cientistas e os restantes opinaram o contrário. Os primeiros referem, por um lado, os alunos que a política ajuda o cientista no seu trabalho (19,2%), mas também consideraram que cientista faz política ou é político (14,9%). A grande maioria dos alunos que consideraram que a política não
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 17 influencia limitaram-se a referir que a política é independente do trabalho científico (54,5%) ou não avançaram com qualquer justificação (45,5%). Procurou-se saber as opiniões dos alunos acerca da influência da família no trabalho dos cientistas. Constatou-se que grande parte dos alunos (57,5%) consideraram que a família influencia o trabalho dos cientistas. Estes justificam a sua resposta referindo que, a família o incentiva (41,3), o ajuda (21,8%) ou contribui (4,3%) no trabalho do cientista ou também o perturba (8,7%). Os alunos que consideraram que a família não influencia o trabalho dos cientistas (42,5%), justificaram a sua resposta referindo que o cientista desenvolve o seu trabalho de forma independente (30,7%), muitas vezes isolado no laboratório (11,5%). Em forma da sinopse, parece que os alunos perfilham imagens adequadas, onde acham que o trabalho dos cientistas sofre influência da religião, da política e da família, resultado semelhante foi notado no estudo efetuado por Souza e Silva (2013). Considerações finais Os resultados obtidos nesta investigação mostram que os alunos perfilham mais imagens estereotipadas do que imagens adequadas sobre os cientistas e o seu trabalho. Desta forma, os alunos acham que a atividade científica é mais para as pessoas do sexo masculino, o laboratório é o seu único lugar de atuação, os cientistas são muito estudiosos e trabalham de forma individual. Já para as características físicas dos cientistas, os alunos acham que podem ser jovens ou adultos. Os participantes na investigação acham ainda que os cientistas usam bata, possuem cabelos arrepiados e com muitos pelos na face como também, podem ser calvos. Ao comparar os cientistas com as outras pessoas, os alunos de forma semelhante acham que os cientistas cuidam menos da beleza, da aparência, não têm tempo de conviver, são os mais objetivos, inteligentes, dedicados no trabalho, rigorosos e persistentes em relação às outras pessoas. Relativamente ao trabalho dos cientistas, os alunos parecem mostrar também imagens estereotipadas. Assim, uns e outros, acham que o trabalho dos cientistas é somente realizado por génios ou por pessoas muito inteligentes, dedicadas, objetivas e acham que é uma atividade infalível.
Rev. Int. de Pesq. em Didática das Ciências e Matemática (RevIn), Itapetininga, v. 3, e022005, p. 1-21, 2022. 18 Quanto aos procedimentos usados pelos cientistas no seu trabalho, os alunos acham que os cientistas são profissionais que seguem resolutamente os passos do método científico, porque executam um plano definido à priori. No que toca à realização de experiências no laboratório, atribuem uma certa importância à realização de experiências, achando que a sua realização serve para comprovar e desenvolver o conhecimento científico. Parece possuir uma imagem adequada por que são de opinião, de que a religião, a política e a família influenciam o trabalho dos cientistas. Agradecimentos “Este trabalho é financiado pelo CIEd - Centro de Investigação em Educação, Instituto de Educação, Universidade do Minho, projetos UIDB/01661/2020 e UIDP/01661/2020, através de fundos nacionais da FCT/MCTES-PT.” Referências ACEVEDO, J. et al. Mitos da didática das ciências acerca dos motivos para incluir a natureza da ciência no ensino das ciências. Ciência & Educação, v. 11, n. 1, p. 1-15, 2005. AIKENHEAD, G. Educação científica para todos. Mangualde: Edições Pedago, 2009. ALLCHIN, D. Science Myth – Conceptions. Science Education, v. 87, n. 3, p. 329 – 351, 2003. AVANZI, M. et al. Concepções sobre a ciência e os estudantes de ensino médio. Atas do I Congreso Iberoamericano de investigación en enseñanza de las ciencias. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/294871811_Concepcoes_sobre_a_Ciencia_e_os_Cientista s_entre_estudantes_de_ensino_medio_do_distrito_federal, 2016. BARBOSA, N. & ALMEIDA, A. Conceções acerca da natureza da ciência em manuais escolares do 5.º ano de escolaridade. Interacções, v. 11, n. 39, p. 418-429, 2015. BUNGUM, B. Images of physics: an explorative study of the changing character of visual images in Norwegian physics textbooks. Nordina, v. 4, n. 2, p. 132-141, 2008. BUSKE, R., BARTHOLOMEI-SANTOS, M. & TEMP, D. A visão sobre cientistas e ciência presentes entre alunos do Ensino Fundamental. In S. SELLES & A. ECHEVERRÍA (Org), Atas do X Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências-X ENPEC, p. 1-8. Águas de Lindóia, São Paulo: ABRAPEC, 2015. CACHAPUZ, A., PRAIA, J. & JORGE, M. Ciência, Educação em ciência e ensino das ciências. Lisboa: Ministério da Educação, 2002.
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