scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Quando morrem as metáforas vivas e nascem as metáforas mortas: a rece(p)ção no processo metafórico

Teixeira, José

Abstract

As chamadas metáforas vivas sempre foram vistas como diferentes das apelidadas metáforas mortas ou catacreses pela retórica clássica. No entanto, pode haver situações intermédias entre metáforas mortas e vivas, pelo facto de que em cada uso de uma metáfora há (pelo menos) dois sistemas cognitivos em funcionamento, o do emissor e o do recetor. Ora são as possíveis diferenças entre a emissão e a receção que permitem as mutações, as evoluções e o caminho habitual que cada metáfora viva seguirá até se tornar num termo lexical que os falantes poderão deixar de ter de processar como metáfora. Assim, a morte das metáforas vivas não é uma perda, mas um mecanismo de economia linguística através do qual a mente faz rotinas de significado daquilo que era uma ponte construída por uma metáfora. Por isso, neste processo, nunca há perdas, mas eficiência, porque quando morrem as metáforas vivas nascem as metáforas mortas.

Full text

139 Quando morrem as metáforas vivas enascem asmetáforas mortas1: a rece(p)ção no processo metafórico José Teixeira Metaphors we live by: apáscoa da teoria da metáfora Embora já tenham passado 35 anos desde a publicação de Metaphors We Live By, para além de tudo o que já se disse sobre o legado que a obra trouxe às ciências da cognição, muito ainda haverá por perceber sobre o como a nova visão alterou e muito a perceção sobre o funcionamento metafórico. Na verdade, e apesar de os referidos 35 anos já terem passado, o funcionamento metafórico continua, por muita gente, a ser encarado na tradicional perspetiva retórica, na boa tradição de tropo ou figura de estilo, parecendo que, ao contrário do que acontece noutras áreas científicas, nas ciências humanas as evidências mais recentes custam a ser admitidas como tal, permanecendo apenas como visões de alguns teóricos que não podem, assim do pé para a mão, pôr de lado 1 por se tratar de português europeu, as normas deste texto foram mantidas conforme as de seu país de origem (n. do E.) linguistica-cognitiva_miolo.indb 139 28/11/18 15:17 Este texto de José Teixeira ([email protected]) corresponde à seguinte citação: Teixeira, José (2018). “Quando morrem as metáforas vivas e nascem as metáforas mortas: a rece(p)ção no processo metafórico”, in Almeida, A. Ariadne Domingues & Santos, Elisângela Santana dos, (Organizadoras) Linguística cognitiva: redes de conhecimento d’aquém e d’além-mar, EDUFBA-Editora da Universidade Federal da Bahia, Salvador, pp.139-159. (ISBN do livro: 978-85-232-1699-3) — 140 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR milénios de tradição retórica. Basta ver como ainda se fala e se ensina a metáfora "figura de estilo da linguagem" nos programas oficiais de ensino para comprovar que, afinal, e ao contrário do que dizia Galileu, o mundo, em certas áreas da ciência, não se move. Steven Pinker, embora não jogando na mesma equipa de Lakoff (e por isso mais imparcialidade terá a sua observação), reconhece que o contributo de Metaphors We Live By foi uma das ideias mais importantes da história da linguística e que pode alterar completamente todo o percurso dos estudos sobre a metáfora: A lingüística já exportou várias grandes idéias para omundo intelectual. [...] Até por esses padrões, ateoria da metáfora conceitual de Lakoff éextraordinária. Se ele estiver certo, ametáfora conceitual pode fazer qualquer coisa, desde virar de cabeça para baixo 2500 anos de equivocada confiança na verdade ena objetividade no pensamento ocidental (pinker, 2008:284). O grande mérito da referida obra de Lakoff & Johnson foi o de mostrar que a metáfora não é uma anormalidade, mas um fenómeno quotidiano, não é apenas uma técnica linguística, mas um processo de perceção manifestável em múltiplas formas de expressão. Parecendo pouco, esta nova visão fez, realmente, aquilo que a obra, desde as primeiras páginas, defendia que era necessário fazer: centrar o fenómeno metafórico no cerne de uma teoria da cognição e, através desta, nos fenómenos da linguagem quotidiana: [...] ametáfora desempenha um papel fundamental na linguagem eno pensamento do dia-a-dia – dados de que não podiam dar conta nenhuma das teorias anglo-americanas da significação, nem em linguística nem em filosofia. nestas duas disciplinas, considerou-se tradicionalmente ametáfora como um problema de interesse menor. pensamos que se trata, pelo contrário, de um problema central, que fornece, talvez, achave de uma teoria da compreensão (Lakoff; Johnson, 1980:7). Pode dizer-se, por isso, que Metaphors We Live By é uma espécie de Páscoa para a teoria da metáfora. Na verdade, se a palavra páscoa significa passagem (para o judaísmo) e ressurreição ou passagem para uma nova vida (para os cristãos), a teoria da metáfora, estando cientificamente morta por séculos de retóricas mais linguistica-cognitiva_miolo.indb 140 28/11/18 15:17 — 141 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | ou menos repetitivas, ressuscita, ganha nova vida, o que representa uma "passagem" para uma "realidade nova": o fenómeno metafórico será, doravante, visto como um dos elementos centrais da cognição e perceção e não apenas das línguas, mas de todas as formas de comunicação. Metáfora eprocessos assimétricos entre emissor erecetor Como todos os fenómenos linguísticos, o processo metafórico, enquanto processo integrado na comunicação, implica prototipicamente um sujeito linguístico produtor/emissor (chamemos-lhe emissor, para utilizar uma terminologia clássica) e um outro interveniente que processa a metáfora produzida (chamemos-lhe recetor). O entendimento tradicional do funcionamento da metáfora relativamente a emissor-recetor é a de que o emissor é o criador da metáfora como uma figura da linguagem, identificando o significado de um termo com o de um outro, num processo de "X é Y": "As gotas de chuva são lágrimas que caem do céu". O fenómeno, supõe-se, processa-se de forma inversa no recetor: este, mentalmente, identifica/ compara X com Y e reconstrói o que o emissor codificou. Se bem que nem sempre se explicite o facto, o corrente é que se entenda haver simetria entre o que o emissor codifica e o recetor descodifica. Se – assume-se – a língua é um sistema ou estrutura comum partilhada por todos os falantes, baseada em regras comuns (no sentido gerativista ou estruturalista), então o funcionamento metafórico implica que o recetor descodifique o que o emissor codificou. Com Metaphors We Live By há, evidentemente, diferenças a nível da relação emissor-recetor na metáfora. A ideia fundamental sobre a metáfora substitui o foco da criatividade pelo uso: retira-se ao emissor o papel quase exclusivo que tinha na metáfora como figura da linguagem passando esta a ser focada, sobretudo, como uma atividade cognitiva de uso quotidiano, expressa (também) pela linguagem verbal. Quer dizer que, na metáfora, não é apenas valorizado o processo de criação, mas todo o processo metafórico globalmente considerado, o que significa a atribuição do estatuto pleno de metáfora às metáforas mortas que, embora não constantemente criadas, são constantemente usadas. Equivale isto a dar novo linguistica-cognitiva_miolo.indb 141 28/11/18 15:17 — 142 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR valor ao processo de uso das metáforas (mortas) e não apenas ao processo de criação das metáforas novas. No entanto, vendo bem, não houve grande alteração à forma como a tradição encarava os papéis de emissor-recetor no processo. Pode dizer-se que a visão cognitivista antiestruturalista continuou a entender a metáfora, neste aspeto, de uma forma estruturalista, porque não muito cognitiva. A metáfora continua a ser frequentemente vista como uma "figura" que existe por si, não um processo metafórico dinâmico, e continua, portanto, como uma criação do emissor (ou Locutor, LOC) e não um processo que engloba interações complexas entre o emissor e o recetor. Ora, a complexidade do processo é um fator a que se tem de prestar bastante atenção. Poderá parecer paradoxal, mas, como veremos, a questão "existe aqui uma metáfora?", em rigor, em muitas verbalizações, pode não poder ser respondida. Repare-se, para ver até que ponto é possível isso acontecer, na visão clássica sobre a metáfora no que respeita aos papéis do emissor e recetor. Esta visão elege a língua como o domínio exclusivo da metáfora. Esta é tida como um fenómeno da linguagem e, portanto, joga-se entre os significados das palavras. Considerando-se que o mesmo significado é composto de unidades menores (elementos do significado, semas, traços etc), é entre estas unidades menores que o processo metafórico se desenrolará, pela confluência, identificação ou similitude entre estes elementos de duas unidades lexicais diferentes que a figura a seguir (Figura 1) poderá ajudar a explicitar. Figura 1 – Elementos de unidades lexicais Fonte: elaborada pelo autor. linguistica-cognitiva_miolo.indb 142 28/11/18 15:17 — 143 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | Entende-se que o metaforizado (alvo) implica que o emissor procure (que a seta com o n.º 1 representa) uma palavra metaforizante (fonte). Posteriormente, acionam-se os elementos/semas comuns (representado nas setas com o n.º 2). O que é comum – a, c, f –, por destaque, permite a construção metafórica, já que a finalidade e mais-valia da metáfora é precisamente, nesta visão clássica, destacar os traços ou semas comuns. E o que faz o recetor? Parece ser tão evidente, que a questão não costuma ser colocada. Subentende-se que nele o processo é inverso e idêntico (ou equivalente), ou seja, o recetor, tal como o emissor, também "confronta" o alvo com a fonte e chega aos traços comuns. A visão cognitiva, neste aspeto, incluindo Fauconnier & Turner (1998; 2002), no essencial, manteve a ótica do emissor e da sequencialização: a tripartição alvo> fonte> metáfora equivale a input 1>input 2> espaço de integração concetual (tudo relacionado com o espaço genérico). Também se subentende que no recetor o processo é inverso e idêntico (ou equivalente). Mas é óbvio que há diferenças, embora, por vezes, seja preciso bastante atenção para se reparar no óbvio. Parece lógico considerar que, no emissor, o alvo é a primeira instância a entrar em ação, e só depois a fonte. Até pela nomenclatura utilizada: temos um alvo e vamos buscar uma fonte para concetualizar esse alvo. Para o emissor, parece ser necessário este funcionamento. Ao descrever as gotas de chuva como lágrimas, tem que haver primeiro a perceção da realidade a expressar (as gotas de chuva) e depois a escolha de uma outra realidade para a metaforizar (as lágrimas). A tradição de a metáfora concetual representar a metáfora formalmente como X É Y (ALVO É FONTE) demonstra a preferência pela perspetiva do emissor. Mas para o recetor, o processo pode ser idêntico ou, então, inverso: se este aceder à metáfora através de expressões em que a ordem é ALVO É FONTE (como "As gotas de chuva são lágrimas") o processo é idêntico ao do emissor: primeiro o alvo e depois a fonte. Mas não é esta a ordem habitual na expressão da metáfora. Para o recetor, costuma aparecer primeiro a fonte e só depois o alvo: por exemplo, "As lágrimas que caíam das nuvens..." e o recetor, depois de processar "lágrimas" faz a descoberta "lágrimas = gotas de chuva". Na mente do recetor, a fonte (lágrimas) é processada primeiro (porque é a primeira a ser ouvida) que o alvo (gotas de chuva). A Figura 2 procura ilustrar esta diferença Alvo-fonte no emissor e recetor. linguistica-cognitiva_miolo.indb 143 28/11/18 15:17 — 144 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR Figura 2 – Diferença alvo-fonte no emissor erecetor Fonte: elaborada pelo autor. E é este jogo de "adivinha" para o recetor (de se partir da fonte para o alvo) que é um dos componentes mais atrativos da metáfora. E as palavras "adivinha" e "descoberta" são importantes neste processo de encontrarmos prazer e desafio no processamento cognitivo metafórico. Quando existe metáfora? As diferenças de funcionamento do processo entre emissor e recetor podem acontecer também no cerne da perceção de se uma construção é metáfora ou não. É que o pode ser para um e não ser para outro. Vejamos. A metáfora só acontece no espaço de interseção (Blending ou integração concetual de Fauconnier). Em rigor, não há "integração", no sentido de que havia um alvo (input 1), havia uma fonte (input 2) sem relacionamento entre si, "e depois" eles interagiram e integraram-se (integração). Na mente, para haver uma metáfora, os valores de fonte e alvo já têm que ter tido conexões e relacionamentos antes da linguistica-cognitiva_miolo.indb 144 28/11/18 15:17 — 145 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | realização da expressão metafórica. O que a metáfora faz é destacar esses relacionamentos percebidos e deles dar consciência explícita. É esta a dimensão do reconhecimento da metáfora enquanto tal. Para que se possa produzir (emissor) e perceber (recetor) a metáfora GOTAS DE CHUVA SÃO LÁGRIMAS, tem que, antes da verbalização e mesmo da construção cognitiva da metáfora, existir a perceção das lágrimas como água ou da chuva como água, das lágrimas como gotas e da chuva como gotas, de que a chuva cai e que as lágrimas também caem, de que as lágrimas vêm da cara e que o céu pode ser imaginado como algo animado e, por isso, também com uma cara ou rosto que pode estar triste. É isso mesmo que procura representar a Figura 3. Figura 3 – Perceção na metáfora Fonte: elaborada pelo autor. A Fase 1 não pode representar fonte e alvo como duas realidades independentes na mente. Na mente, nada de informativo é independente, mas está sempre associado direta ou indiretamente através das sinapses já realizadas. A representação da Fase 1 só pode ser entendida como uma representação de dois domínios diferentes (lágrimas/chuva), não implicando isso que a diferença de domínios não pressuponha o conhecimento de interconexões entre os componentes que os linguistica-cognitiva_miolo.indb 145 28/11/18 15:17 — 146 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR constituem – em ambos há água, em ambos há gotas que caem, as lágrimas caem de um rosto, o céu também pode ser visto como uma espécie de rosto etc. A passagem da Fase 1 para a Fase 2 não representa a construção das associações cognitivas entre alvo e fonte, mas a respetiva consciencialização, quando na integração a mente faz ressaltar para a consciência que, neste exemplo, as gotas de chuva têm qualquer coisa em comum com lágrimas a cair. Não é, pois, a metáfora que cria associações cognitivas entre domínios diferentes. Estas associações já tinham que existir antes, na mesma mente, na medida em que o cérebro, quando organiza o stock cognitivo, o organiza relacionalmente e não em listagens estanques. Portanto, a interseção concetual preexiste à metáfora: o que esta faz é torná-la consciente. O facto de os relacionamentos concetuais entre a fonte e o alvo pré-existirem à perceção metafórica/insight metafórico não implica haver, desde logo, metáforas: há um domínio/conceito/modelo mental fonte, um outro, o alvo, mas estes domínios são preexistentes à metáfora; esta só começa a existir quando, na mente do falante, se faz a interseção/blending consciente entre os dois. Emissor-recetor eaperceção cognitiva de metáfora Para haver metáfora percebida como tal, como se acentuou, tem de haver consciência da perceção metafórica/insight metafórico, o que acontece nas metáforas vivas, quando o são para emissor e recetor. Portanto, em rigor só há metáfora completa, numa interação linguística, quando ela existe simultaneamente para o emissor e para o recetor. Ora, isso implica que, para um processo metafórico completo, seja necessário que quer no emissor, quer no recetor, haja consciência da interseção entre determinados elementos da fonte e do alvo. Se só houver o acionamento de fonte e alvo num dos intervenientes da interação linguística e num outro apenas um sentido automaticamente disparado e já cristalizado no léxico mental, neste último falante, em rigor, não foram acionados os mecanismos e os processos cognitivos e linguísticos que designamos como metáfora. Apenas um sentido associado a uma forma, como no léxico não metafórico. Para um falante urbano contemporâneo, uma construção como "vasculhar o meu passado" é capaz de ser percebida sem a necessidade de acionar nenhuma relação metafórica, até linguistica-cognitiva_miolo.indb 146 28/11/18 15:17 — 147 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | porque o falante provavelmente não sabe a relação original que ligava a palavra vasculhar... à cozedura do pão. Mas para quem souber e perceber o que é e como funcionam os vasculhos quando se vasculha o forno, então o processo pode ser cognitivamente metafórico. Segue-se, portanto (como mais à frente se procurará explicitar melhor), que falar de metáfora não é o mesmo que falar de metáfora cognitiva. Pode ter havido diacronicamente uma metáfora que já não seja assim percebida por nenhum dos intervenientes, ou pode ser percebida como tal apenas por um. Isto implica que quando se fala em metáfora, se identificam e catalogam as metáforas, nem sempre estamos perante processos que envolvem o funcionamento cognitivo da metáfora e, por isso, é necessário distinguir a existência diacrónica da metáfora do seu funcionamento enquanto processo cognitivo específico. Ora, isto equivale a reconhecer que, em rigor, não é possível dizer "aqui está uma metáfora" quando se pega num fragmento conversacional que contenha uma expressão metafórica diacronicamente considerada. Pode dizer-se que a expressão se originou numa metáfora, numa equivalência metafórica, mas não é líquido que ainda assim continue a funcionar para emissor e recetor. Estes são os que, verdadeiramente, usam a expressão numa dimensão cognitivo-linguística de metáfora ou apenas de termo com o significado cristalizado. Emissor-recetor eametáfora para além da fonte edo alvo Olhando para o funcionamento do processo metafórico em exemplos que a história da língua nos fornece, podemos verificar como a metáfora pôde adquirir valores que não eram comuns à fonte e alvo, mas originados pela fonte (habitualmente designados valores "conotativos", simbolizados por [g] nas Figuras 3 e 6). Como é que se destacam e ficam na síntese metafórica uns valores e não outros? Naturalmente que isto vai depender da interação emissor-recetor e do acionar de uma determinada perspetiva pela receção. É o recetor que vai reutilizar, para novos recetores também reutilizarem, estes valores não comuns entre a fonte e o alvo. Isto demonstra como a metáfora se constrói à volta de elementos semânticos que ultrapassam em muito os chamados "semas/traços comuns". Um valor positivo ou negativo que está na fonte pode permanecer no processo e constituir-se linguistica-cognitiva_miolo.indb 147 28/11/18 15:17 — 154 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR viva no emissor e no recetor.5 Nestes casos, quer no emissor, quer no recetor, há a perceção consciente de que há um domínio a ser percebido em função de um outro domínio, que há zonas que se intersecionam e que são essas zonas que permitem a construção metafórica. Quando isso acontece, quando emissor e recetor se dão conta que estão perante uma construção metafórica, há a perceção de que se resolveu um puzzle e a satisfação interior que isso acarreta costuma ser descrita como prazer estético pela criatividade linguística. Por isso, apreciamos tanto metáforas criativas e inovadoras. A existência de metáfora viva não implica que emissor e recetor processam o blending com os mesmos resultados. Os esquemas tradicionais da síntese metafórica (incluindo o de Fauconnier & Turner dos espaços mentais) podem levar ao engano, ao apresentarem um esquema único. É uma simplificação metodologicamente aceitável, mas que não retrata a realidade do processo. Pode haver, mesmo em determinado uso, metáfora viva conscientemente processada pelo emissor, mas que para o recetor é apenas um termo não percebido como metafórico. Ou, então, o inverso. Como exemplificámos, para quem sabe o que é um vasculho e como funciona, pode ver vasculhar como metáfora; para quem nunca ouviu falar de vasculho e apenas teve acesso ao verbo, só o consegue entender como uma palavra com o respetivo significado de uso. Embora, na globalidade, emissor e recetor processem uma metáfora de forma semelhante, o recetor pode fazer pequenas inferências de significado não investidas pelo emissor. A metáfora, ao constituir-se um modelo mental que se pode autonomizar, pode ganhar valores que na sua constituição de metáfora não existiam ([i, j], no esquema da Figura 6). O que o emissor "quis dizer" pode ser ligeiramente diferente daquilo que o recetor processou. E são estes pequenos desvios que irão permitir a evolução e mudanças semânticas de que a história da língua nos fornece exemplos inesgotáveis. Na passagem da Fase 2 para a Fase 3, embora o processo seja contínuo, sem etapas discretas, podem distinguir-se duas subfases (à falta de melhor termo). Uma (representada em 3.1.) que corresponde ao que se pode chamar a fase em 5 Os valores que funcionam no blending metafórico nem são exatamente os da fonte ou os do alvo, mas arespetiva interseção. tal aparece simbolizado nos esquemas das Figuras 3 e6, onde os valores [a, c, f] (que forneceram os aspetos estruturadores da metáfora) são diferentes (ovais) de alvo efonte (círculos). linguistica-cognitiva_miolo.indb 154 28/11/18 15:17 — 155 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | que a metáfora já não tem a novidade, que implicou na fase primeira da criatividade e já se encontra solidificada. A nossa mente, para todas as atividades, gosta de criar rotinas que são atalhos mais económicos para o desempenho de uma tarefa. É, por isso, natural que, também no processo metafórico, crie rotinas que evitem que tenhamos de processar conscientemente cada metáfora entre a fonte e o alvo. As grandes equivalências metafóricas que Lakoff & Johnson (1980) identificam (A VIDA É UMA VIAGEM; PERCEBER É VER; MUITO É PARA CIMA etc) são exemplos destas metáforas solidificadas. Percebemos os dois domínios como diferentes (uma coisa é muito, outra coisa é para cima), mas os automatismos das equivalências (um ordenado alto) não implicam que processemos os dois domínios separadamente até encontrar e "descobrir" os valores que possibilitam a metáfora. São metáforas semiautomáticas. A prova de que não existe consciência metafórica no processamento destas metáforas é que elas não são reconhecidas como tais pelos falantes. Os professores de linguística cognitiva têm a experiência de como não é fácil fazer ver aos alunos que existe metáfora em "preços altos", e que em "vamos andando" está a metáfora A VIDA É UMA VIAGEM. Na metáfora solidificada, não há a consciência explícita da metáfora viva porque não há perceção metafórica/insight metafórico explícito e consciente: ao perguntar "Como vais?", respondendo "vou andando", os falantes não precisam de consciencializar que estão a equiparar andar/viajar a viver. O que se passa é que têm uma estruturação semântica sólida (solidificada) destas equivalências, de modo que podem continuar a usar expressões desta metáfora com verbos de movimento: "vamos indo" (ir), "agora já sou velho, mas cá me vou arrastando" (arrastar), "tu ainda tens muito tempo para andar por cá" (andar) etc. Para além das grandes equivalências metafóricas mais ou menos universais, estarão também neste subgrupo as metáforas que, se socorrendo de fontes culturalmente específicas, de tão usadas, já se comportam como fraseologias, expressões fixas, embora ainda processemos fonte e alvo como domínios diferentes, como em "mar de gente". Nas metáforas mortas, temos a fase final do funcionamento metafórico. Aliás, a designação de mortas já indica, na tradição, que não podem ser consideradas prototipicamente como metáforas, embora este aspeto seja frequentemente esquecido em estudos de pendor cognitivo. Apenas na diacronia podemos ver os rastos da sua constituição e percurso. Nelas já não existe nenhuma ligação entre linguistica-cognitiva_miolo.indb 155 28/11/18 15:17 — 156 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR alvo e fonte, como "3.2." representa no esquema da Figura 6. Elas são um atalho muito mais rápido para o significado, atalho que dispensa a passagem pela fonte de que o falante não tem consciência. E então, o que foi metáfora vai seguindo o seu caminho como termo "simples" da língua, que pode escolher os percursos que lhe apetecer, contrariando mesmo aspetos fundamentais de quando funcionava como metáfora. Se em vasculhar vimos como o processo ia evoluindo, já um pouco desligado da fase de metáfora, noutros casos as evidências são mais ilustrativas. Note-se o que acontece em chumbar = não passar um grau académico, uma etapa, um concurso [...]. Para a maior parte dos falantes, não é uma metáfora viva: perdeu-se a relação de blending, desconhecendo mesmo (quase todos) os falantes qual a fonte. Ora, chumbar = "não passar" deriva de chumbar = fixar com chumbo as dobradiças de uma porta, no tempo em que o chumbo era o único material que permitia fixar com segurança algo que exercia muita força. Portanto, chumbar era uma atividade agentiva e a metáfora correspondia a "o aluno foi chumbado" ou "o professor chumbou o aluno", fixou-o naquele ano ou fase tal como o ferreiro chumba a porta, fixando-a num determinado sítio. O usar-se, hoje, construções em que o aluno é o agente ("o aluno chumbou outra vez") prova como já não existe o modelo mental que originou a metáfora, caso contrário dever-se-ia dizer obrigatoriamente "o aluno foi chumbado/chumbaram-no outra vez". Alguns pontos (em forma de conclusão) Metaphors We Live By será, sem dúvida, a obra que marcará um antes e um depois sobre o estudo da metáfora. Foi uma das obras (senão mesmo a pioneira) que mais contribuiu para pormos em questão o predomínio da lógica e da racionalidade na cognição e na comunicação humana, ajudando-nos a compreender que o que mais nos carateriza não é a racionalidade lógica,6 mas sim as relações cognitivas, sobretudo metonímicas e metafóricas. Ou seja, que muito mais do que animais racionais, somos animais relacionais. 6 Ver, aeste propósito, teixeira (2013), "metaphors, We Li(v)e By: metáfora, verdade ementira nas línguas naturais". linguistica-cognitiva_miolo.indb 156 28/11/18 15:17 — 157 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | O sucesso de Metaphors We Live By e a enorme influência que teve e tem no erigir a metáfora como um dos fenómenos centrais da linguagem levou, contudo, a que se cometessem algumas falhas ou ligeireza de análise em determinados pontos. O primeiro, é o de querer ver como metáfora quase tudo o que é expressão linguística. Em determinados estudos, busca-se a etimologia mais longínqua, a semelhança mais duvidosa ou mesmo a simples designação terminológica para meter tudo no saco das metáforas. E até se pode dizer que este procedimento decorre de uma simplificação que, para muitos, a obra de Lakoff & Johnson parece permitir: as metáforas mortas são tão metáforas como as metáforas vivas. Ora, não é bem assim. O fenómeno metafórico não é um fenómeno simples e discreto, mas complexo e contínuo. E isto por uma razão simples e evidente, que muitos estudos cognitivos parecem esquecer: no funcionamento de qualquer processo metafórico não entra apenas um sistema cognitivo, mas dois, o do emissor e o do recetor. Esta interação na emissão e receção da metáfora introduz fatores que são obliterados pela visão tradicional, muito esquemática e que vê cada metáfora como "um fenómeno" da linguagem. Só que cada metáfora não deve ser vista como "um fenómeno", mas como um processo englobador de vários fenómenos cognitivos. E, então, se a metáfora é, na sua essência, um fenómeno não apenas linguístico, mas também cognitivo, ela só existe em pleno, prototipicamente, quando estão presentes os seus mecanismos caraterizadores (fonte, alvo e espaço de interseção ou blending), quer no emissor, quer no recetor. Como isto só acontece nas chamadas metáforas vivas, será correto não as confundir com aquelas em que não há acionamento dos mesmos mecanismos cognitivos, as apelidadas metáforas mortas ou catacreses pela retórica clássica. Além disso, pode haver situações intermédias entre metáforas mortas e vivas: pelo facto de que em cada uso de metáfora há dois sistemas cognitivos em funcionamento, pode dar-se o caso de apenas o emissor ou apenas o recetor percecionarem a verbalização como metáfora. E é a possibilidade das diferenças entre a emissão e a receção que permite as mutações, as evoluções e o caminho habitual que cada metáfora viva seguirá até se tornar num termo lexical no qual os falantes poderão deixar de tê-la de processar como metáfora. Assim, a morte das metáforas vivas não é uma perda, mas um linguistica-cognitiva_miolo.indb 157 28/11/18 15:17 — 158 — | LINGUÍSTICA COGNITIVA: REDES DE CONHECIMENTO D’AQUÉM E D’ALÉM-MAR mecanismo de economia linguística através do qual a mente faz rotinas de significado daquilo que era uma ponte construída por uma metáfora. Por isso, neste processo, nunca há perdas, mas eficiência, porque quando morrem as metáforas vivas nascem as metáforas mortas. Não deve ser obliterado este aspeto da distinção entre metáforas cristalizadas (mortas) e criativas (vivas). Em primeiro lugar, porque nos parece que a visão lakoffiana da metáfora pareceu querer apagar esta distinção que a retórica e as teorias literárias tanto acentuavam e de que os falantes têm a intuição de ter um fundamento real. E, na verdade, assim é. E não por outra qualquer razão, mas exatamente por razões ligadas ao processamento cognitivo. Neste ponto, pode dizer-se que a retórica clássica permaneceu mais cognitivista do que muitos autores cognitivos. E é na receção da metáfora que podemos verificar a diferença entre as criativas (vivas) e as mortas ou cristalizadas. Verdadeiramente, são as primeiras as que nos despertam o prazer estético do jogo metafórico. São elas que nos fazem sorrir perante uma construção engenhosa, a presença num título escrito ou num debate político; é nelas que os publicitários investem milhões em campanhas nos quais, por vezes, uma superconcisa metáfora ocupa todo o espaço do anúncio; é muito por elas que continuamos encantados por uma descrição num romance ou por um poema. É verdade que vivemos através de metáforas (Metaphors We Live By). Se esta vivência se refere às metáforas básicas, àquelas que correspondem às nossas correlações experienciais mais importantes (QUANTIDADE É NO ALTO, COMPREENDER É VER, CIMA É POSITIVO), então estamos a falar das metáforas mortas, importantes sim, mas tão assimiladas que já não estimulam a nossa perceção cognitiva mais aguda. Se a vivência se refere às metáforas vivas, então essa vivência é diferente: para estas, pomos em alerta toda a nossa capacidade percetiva e quando resolvemos o puzzle que algumas constituem ficamos com um bem-estar interior que frequentemente um sorriso de satisfação sublinha. Adorámos estas metáforas. Por isso, se é verdade que vivemos pelas metáforas mortas, não é menos verdade que quase que morremos por uma metáfora viva. linguistica-cognitiva_miolo.indb 158 28/11/18 15:17 — 159 — QUAnDO mORREm AS mEtáFORAS ViVAS EnAScEm ASmEtáFORAS mORtAS: A REcE(p)çãO nO pROcESSO mEtAFóRicO | Referências BLUTEAU, R. (1712-1728). Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architetonico… Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus. 8 v. Disponível em: http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/1/vasculho. Acesso em: 1 ago. 2015. FAUCONNIER, G.; TURNER, M. (1998). "Conceptual Integration Networks", Cognitive Science, 22(2), 133-187. FAUCONNIER, G.; TURNER, M. (2002). The way we think – conceptual blending and the mind's hidden complexities. New York, Basic Books. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. (1980). Metaphors We Live By, The University of Chicago Press, Chicago. PINKER, S. (2008). Do que é feito o pensamento: a língua como janela para a natureza humana, São Paulo: Companhia das Letras. TEIXEIRA, J. (2013). "Metaphors, We Li(v)e By: Metáfora, verdade e mentira nas línguas naturais", in Revista Galega de Filoloxía, Nº 14/2013, ISSN 1576-2661, Universidade da Corunha (Espanha), pp.201-225. Disponível em: http://hdl.handle. net/1822/28321. Acesso em: 1 ago. 2015. linguistica-cognitiva_miolo.indb 159 28/11/18 15:17