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Da Asia de Joao de Barros : dos feitos que os portuguezes fizeram no descubrimiento e conquista dos mares e terras do Oriente : decada segunda, parte segunda

Barros, João de, (1496-1570)

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PRÉ Aire ir NE E E o E Dep ESTO ae m AEE EAS ? I ue ii PHR Ê Oo ÁS VER ipi a ia . PETERT DA ASIA D E JOAO DE BARROS Dos FErTOS, QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM NO DESCUBRIMENTO, E CONQUISTA DOS MARES, E TERRAS DO ORIENTE. DECADA SEGUNDA. | PARTE SEGUNDA. LISBOA Na Regis OFFICINA TYPOGRAFICA. ANNO MDCCLXXVIL Com Licença da Real Meza Cenforia, e Privilegio Resh EE ao o ni na oa Eme to E a dig cp ue nim arma meant aro INDICE palio» em quanto invernou na Ilha Ca- maram: e depois que fe partio della té chegar á Cidade Adem. 286. CAP. IV. Como chegado Afonfo d Albo- querque à Cidade Adem , efieve alguns dias fobre ella fazendo-lhe o damno que pode: e do mais que alli fez té Je par- tir. 294. CAP. V. Como Afonfo d Alhoquerque par- tio de Adem, e chegou ao porto da Ci- dade Dio, onde fe vio com Melique Az Senhor delle: e dahi fe partio pera Chaul, onde chegou , e achou Triftão de Gá, que elle tinha mandado a ElRey de Cam- baya. 301. CAP. VI. Como Afonfo d Alboquerque bom ve certas nãos de Mouros, que com hum temporal carregadas de efpeciaria arri- báram á cofia da India , indo pera o ef- treito do mar Roxo: e partindo de Chaul, chegou a Goa , onde achou novas ferem vindas ndos defle Reyno, de que era Ca- pitão mór João de Soufa de Lima, e o mais que fez té o defpachar com carga . de efpeciaria. 310. pos CAPITULOS ERRO. AP. I. Como o Fao Pate Quetir, que 4 vivia na povoação Upi, depois que Afonfo d Álboquerque partio da Cidade Malaça , continuando a guerra, mandou tomar certa artilheria , onde matárant Affonfo Pefoa , que eltava em guarda da tranqueira , donde fe canfou ir Fernão Peres d Andrade fobre elle, e lhe quei- mou a povoação. | Papai `~ CAP. II. Como Fernão Peres d Andrade Capitão mór do mar foi commetter a fortaleza de Pate Quetir , e depois de żer vitoria delle , ao embarcar ihe ma- “Edram gente nobre: e do que paljou com Lacfamana Capitão mór do mar @ El- Rey Mahamud. “230% - CAP. TI. De algumas confas que Fernão Peres fez, e pafu : e da grande fome -que houve em toda a terra: e como com co foccorro que Affonfo d Alboquerque man- - 7 da India , Fernão Peres defiruio Pate uetir , o gual fugio pera a Fauha. 342 CAPS IV; Em que - oo Vha Sam - ba: e como hum Principe della chamado Pate Unuz fez buma mui groffe Arma- — da pera vir fobre Malaca : e o que os - nojos fobre ifo fizeram. Ss to x | E CAP. $ fi pir fi i į 2 N INDICE CAP. V. Como Pate Unuz não cufando commctter a noja Armada, mem menos Jahir em terra , por confelbo que teve, fe partio: e Fernão Peres foi trás elle, e o desbaraioi. 359. CAP. VI. Como a fortaleza -de Malaca per afincia debum criado PEIRey Mahamud elteve em termo de fer tomada: e do que Je mais pafon te chegada de forge d Al- boguergue , que foi fervir de Capitão della. | 374. CAP. VII. Como Forge d Alboguergue Ca- pitão de Malaca mandou per Abedelã Rey de Campar pera fervir oficio de Bendára: e quanto ElRey de Bintam tra- balhou polo eiie não fer, té que foi cau- Je de Jua morte. 385. LIVRO X e AP. I. Como Afon d Aboquerquê por algumas coufas o anno de gua- torze efieve provendo as fortalezas, no qual tempo mandou Pero d Alboquerque de Armada a Ormuz , e a Diogo Fer- nundes de Béja a ElRey de Cambaya, e a João Gonçalves de Caftello-branco ad Hlidalcão: e da Armada que defie: Rey- no partio, Capitão mór Chriliovão de Brito , que chegou a Goa em Setem- bro ESC Pag 200, <p CAPS pe Dos CAPITULOS CAP. II. Como o anno de quatorze partt ram defle Reyno cinco ndos , Capitão mór Chriflovão de Brito , das quaes defpa- Schadas algumas , a que Affonfo d Albo- -querque mandou dar carga , elle fe par- tio com huma grofa Armada pera Ors muz, aonde chegou. 7 406. CAP. II. De algumas coufas que entre ElRey de Ormuz, e Afonfo d Alhoquer- que palliram, té elle fer entregue da fortaleza , que tinha começado da pri- meira vez que alli veio. 415. CAP. IV. Como Aionfo d Alboquerque re- cebeo bum Embaixador do Xeque Ifinael com bum prefente que lhe trazia , e o defpacho que houve de fua Embaixa- da. Ada CAP. V. Em que fe diz que homem era Raez Hamed , que tinha fujeito a El- Rey de Ormuz: e como Áfonfo d Alho — querque fe vio com ElRey , nas quaes viltas foi morto Raez Hamed tyranno, e Ormuz defpejado de todolos feus pa- 7e » € ElRey pofo em fua liberda- Es 29. CAP. VI. Em que fe efereve o Mione to da fea de Hamed, e a diferença que tem os Mouros da Perfia com os de Arabia ácerca della : e donde nafceo o Principio das confas do Xeque ra ana = e : E HI! ÍNDICE CAP. VII. De algumas confas que Affon- fo d Alboquerque fez em Ormuz: e do “rendimento , e eftado que tem efie Rey- no: e a defpeza que ElRey faz em fua pefoa, e cafa. SATA CAP. VII. Como Afonfo:d” Alboquerque defpachou D. Garcia de Noronha pera fe vir pera efie Reyno com a carga dæ efpeciaria : e depois de fua partida de Ormuz adoeceo Afonfo d Alboquerque de enfermidade , que conveio partir-fe pe- ra a India: e do que paíjou no caminho zé o porto de Goa , onde faleceo. 484. en erp f Enaka E Ss a ae Ta (ironia es CER ae ESEC O À fe ES Gt Jete mr detesto destaco tetet ses odiado teet Dê Ly E + RR ID Eu So fa ato fo efe ata tostee noto rd miafe iost epret posposar oto À ipp E da sa REPRISE RSRS RIP IDP Ae £ A SETA BETO ACAO AE a e = tm DECADA SE GUNDA., = Dos Feitos, que os E fizeram no defeubrimento;, e conquifia dos ma- res, e terras do Out no qual fe oa a tomada do Reyno de Ma- laca, eo mais que Afonfo Al- boquerqie fez nos annos de onze, e doze. e eae DC es raiipesacaeeeea e e CGA PIE DLO 4 Em que fe defereve ofítio do Reyno de Ma- laca: e o fundamento da primeira po- voação da Cidade , e do LEMOS as e contas della. yi M a deferipção geral que fize- mos- de toda a- colla- da India, JE | e fuas Comarcas, relatando to- dolos portos, e principaes po- j voações do. maritimo della, fe vio como elta Cidade Malaca, que Ag Ton, IL Pih Ro agi E PEDE DE TA LE MACA TVA ASS l i it ii | | é JE + g 2t ii 2 ASIA DE Jožo DE BARROS d Alboquerque hia conquiftar, eftava fitua- da naquella parte da terra, a que Os Geo- grafos chamam Aurea Cheríonezo. E por- ue em as taboas da nofla Geografia a olho fe póde ver a fituação delta Cidade Mala- ca, aqui fómente pera entendimento da hif- toria trataremos da fundação, commercio , e coufas della, té o eftado em que Affonto dAlboquerque chegou a feu porto, o mais breve que em nós for. Porém primeiro que entremos na relação deftas coufas, porque como cka hiftoria vai em linguagem, e al- guns, que alerem, per ventura não enten- derão efte termo Cherfonezo ufado entre os Geografos : devem faber que he palavra Grega , e propriamente fe toma per huma pequena particula de terra pegada per tão “delgada coufa, como he o pé da folha da figueira pegada no ramo della; a qual figu- ra tem a terra Peloponezo, a que ora cha- mamos Morea , que antigamente era a flor da Grecia, polto que Plinio a quer compa- rar á folha do platano por a muita feme- lhança que tem com ella. Efte nome Cher- fonezo , peró que feja nome comimum de. todalas terras que tem efta figura, pera pro- pria denotação da terra, de que os Geo- grafos querem fallar , fempre lhe dam hum | epitheto, afli como a efta de que fallamos | Aurea, e aque faz o rio Tanais, que divide a Eu- É Decana IL Liv: VI Cap. I 3 a Europa da Afia, a que elles chamam Tau- rica Cherfonezo. Efta nofla de Malaca pa- rece que houve efte epitheto de Aurea por razão. do muito ouro que fe traz de Mo- nancabo, e Barros, que são duas Comarcas onde fe- elle tira na Ilha Camatra, que he a propria a que os antigos chamam Cher- fonezo, cuidando: fer contínua a outra ter- ra firme , em que ora eflá fituada Malaca, O tempo certo em que fe fundou efa Ci- dade , ácerca dos {eus moradores não ha elcritura que viefle à noffa noticia: fômen- te he fama commum entre elles que, ao tempo que nós entrámos na India, haveria pouco mais de duzentos e cincoenta annos que era povoada, e que a caufa de fua fun- dação foi efta. Antigamente a mais célebre povoação que havia naquella terra de Ma- laca era huma chamada Cingapura, que em fua lingua quer dizer falfa demora, a qual eltava fituada em huma ponta daguella ter- ra, que he a mais anftral da Afia fituada em altura de meio gráo da parte do Nor- te, fegundo nofia graduação. E- fe nefta parte havemos de dar credito á taboa de Prholomeu , deve fer aquella terra a que elle chama o. grande promontorio , onde fitua a Cidade Zába, em que faz tanta compu- . tação de duas diftancias , como coufa mui “eclebre; porque ante da fundação d a w E F | | | 4 -ASIA DE Jožo DE BARROS de Malaca nefa Cingapura, (que pelo fitio feria aquella Zába de Ptholomeu, ) concor- riam todolos navegantes dos mares Occi- -dentaes da India, e dos Orientaes a ella, que são as regiões de Sião, China, Choam- pá, Cambója, e de tantas mil Ilhas , como jazem naquelle Oriente. As quaes duas par- tes os naturaes da terra chamam Dybanan- guim , e Ataz , Anguim que quer dizer, abaixo dos ventos, e acima dos ventos, abaixo Ponente , e acima Levante. Porque «como os principaes, com que fe navegam aquellas partes, procedem de dous grandes solfãos, o de Bengala, e o outro que fe vai eitendendo contra as terras de China, furtando-fe em grande altura do Norte, tem. razão de chamar a efta parte, acima, ca ef- -toutra, abaixo. E tambem porque quando o-Sol lhe nafce, fe alevanta ; e quando fe põe, deíce , que parece imitarem o noflo modo, donde dizemos Levante, e Ponente; | e quanto ao fitio deita grande Cidade Cin- gápura, onde todos vinham deferir como a hum geral emporio, e feira, a huns fica- va hum mar Levante, e a outros Poúente. E {egundo os póvos Malaios dizem, (de | quem nós recebemos efta relação ,) notem- | o que a Cidade Cingápura florecia , era, Senhor della hum Rey per nome Sangefin- -ga, e nefe mefmo tempo faleceo outro Rey | nas na DecaDA IL Liv: VÊ Cap. L 5 ma Ilha Jaoa feu vizinho chamado Parárifá;; o qual leixou em tutoria dous filhos de mui pequena idade encommendados a hum feu irmão. Efte tio dos moços, depois que co- meçou- governar a Jauha , com cubiça do Reyno matou o maior delles, que foi cau- fa de fe-levantarem contra elle os Senhores da terra; e como a Fortuna fempre favore- ce nos primeiros principios a maldade, houve elle tantas viétorias delles, que mui- tos com temor começáram de fe defterrar , e-bufcar novas povoações , entre os quaes foi hum per nome Paramilóra. O qual vin- do fugido defte tyranno , que o queria ma- tar por elle defender a jultiça do fem Prin- cipe, e fendo recebido com amor, e gaza- lhado PEIRey Sangefinga de Cingápura, que elle foi bufcar por amparo, e refugio de feu defterro; commetteo contra elle ou- tra maior-maldade , que aquelle de quem elle vinha fugindo ; porque não tardou mui- to tempo que lhe não pagafle a honra , e gazalhado. que lhe fez, tendo modo como o matou , e fe fez fenhor da Cidade com o poder da gente Jauha que comíigo: trouxes Sabida efta maldade per ElRey de Sião, Se- nhor, e fogro defle morto , mandou logo hum feu Capitão fobre Paramiióra ; mas ali ekte, como outros que depois vieram e todos foram com. a cabeça quebrada, téque È PS AS ` kitr r H al E IE 12 ASIA DE Joko DE BARROS Choampá, Camboja, Sião, e das Ilhas de Burneo , com os quaes chegam ao Canal de Malaca per todo Março, e Abril, mas não pallam de Cingápura por acalmarem alli; e com elles fahem de Malaca em mo- do de embate pera toda a Jauha, Timor, . Maluco. E de Maio-té a fm de Agofto, pela maior parte curfam os ventos Sul, Suelte , que fervem- pera vir de Cunda, e de tanto número de Ilhas como eftam na- quellas partes, com os quaes chegam té o canal de Polimbam , que he o derradeiro porto de Camatra, quanto a nós os de Po- nente , e primeiro aos de Levante ; pofto que algumas vezes são tão telos que che- gam quali té Malaca, mas geralmente mor- rem nefte canal ante de chegar a ella. Po- rem fempre de Camatra, Ilhas de. Bintam, eSabam vizinhas a ella, per entre as quaes. vem o canal da navegação da parte Orien- tal, ferve vento, emaré que leva os navios tê Malaca, De maneira , que ambas efas navegações, afli da parte abaixo do vento a que elles chamam Ponente , como acima do vento, que he a de Levante, ainda que as monções geraes acalmem quarenta, e cin- coenta leguas ante de chegar à Cidade de Malaca que eftá fituada no meio daquelle eltreito., bafta pera tomarem o feu porto marés ; e ventos terrenhos d'ambas as te ras, DecaDdA I: Lis: Ve CAP IL B Tas. E como eftes temporaes do anno não ferviam tanto a proveito dos navegantes quando Cingápura profperava , de duas fa- ziam huma , e efta era a mais commum ; todolos que navegavam da parte do Ponen- te, hiam per fóra da Ilha Camatra entran- do per o canal que fe faz entre ella , e a Jauha, ou entravam per entre ella, ea terra de Malaca. E por lhe os tempos não fer- virem todo aquelle eftreito te vafarem da outra parte em Cingápura , forçadamente invernavam no meio delle; e per qualquer maneira que fole, era eita viagem afi per fóra , como per dentro da Ilha Camatra tão vagarofa , que não tornavam a fuas terras em menos tempo que dous annos. O qual eípaço de tempo tambem haviam milter os “que navegavam o mar de Levante, porque haviam de eiperar em Cingápura que fof- fem os de Ponente com- fuas. mercadorias pera fazerem {uas mutações. E porque gea ralmente todolos que navegavam per fora da Ilha, por fer viagem mais fegura ainda que comprida , eltavam feguros de invernar, como indo por dentro , ao modo que ora vemos: os noflos navegantes daqui pera a India, que quando partem tarde, vam per fóra da Ilha de S. Lourenço por terem os tempos mais largos defte coftume com al- gumas fabulas ,- que a antiguidade fempre E - tm, 14. ASLA DE João DE BARROS tems afli como os perigos de Scylla , € Charybdes no tranfito de Sicilia, bancos de Flandes entre a terra firme, e a Ilha In- glaterra, ou os baixos de Ceilão entre efa Ilha, e a terra do Cabo Comorij, haveria opinião na India não ter aquelle mar tran- fito de Ponente a Levante, donde os Gre- gos, e Pthelomeu chamariam aquella terra Cherfonezo. Peró povoada a Cidade Mala- ca emmeio daquelle eftreito , que pelas ra- z0es acima deo facil navegação pera fe nel- la fazerem brevemente as commutações , e commercio dos de Ponente, e Levante; fi- cou manifefto efte caminho, e havia a terra de-Camatra por Ilha, e não Cherfonezo. Com a facilidade das quaes navegações em breve tempo afli engroflou a Cidade Mala- “ca em trato, ecreíceo em povoação por fer eícala de Levante, e Ponente daquelle gran- de Mundo , que per commercio naquellas partes era a mais riquifima. Ọ fitio da qual fenão fora tão apaulado, e doentio aos ef- trangeiros , e mais tão vizinha da linha Equi- nocial, que eitá della pouco mais de-dous' grãos contra o Norte, fora huma das- mais populofas, e de maior policia em edificios -de todo o Mundo. A grandeza da qual deo animo aos Reys que fuccedêram a efte Xa- quem Darxá, que pouco , e pouco: começa- ram de levantar a obediencia aos Reys de | Erd SIãO 5 DecapA IL Liv. VE Car. I 15 Sião, principalmente depois queeites dein-, duzidos por os Mouros Parfeos , e- Guza- rates, (que alli vieram refidir por caufa do commercio, ) de Gentios os convertêram à feĝ&a de Mahamed. Da qual conversão por alli concorrerem varias nações , começou lavrar cita infernal pefte pela vizinhança de Malaca, afi como em Camatra, Jauha, e outras Ilhas em torno deftas.. Finalmente com a potencia de tanta riqueza , e favor dos Mouros, que elles Reys de Malaca ti= nham, totalmente delobedecêram a ElRey de Sião; e ao tempo que Diogo Lopes de Sequeira , (como atrás elcrevemos , ) veio ter a efta Cidade, haveria nove annos que ElRey de Sião tinha mandado huma grof- fa: Armada Ífobre ella, reinando Mahamed, o qual foi o derradeiro dos Reys daquella Cidade, que de todo lhe levantou a cbedien- cia. ElRey de Sião vita a defobediencia defte Mahamed , polto que havia já annos que a difimulava por andar occupado em guerra dos póvos Gucos, que per cima do Norte vem cercando todo o feu Reyno, como fe vio defoccupado defta guerra, man- dou fazer huma Armada de té duzentas vé- las, quafi todas lancharas, e calaluzes, que são navios de remo, em que diziam vir perto de feis mil homens, da qual Armada era Capitão mór o Poyoá da Cidade Lugor, SE | -e Ae mannna y ATEA r dad PEDRA P DU OMS DST BT IE GILA ONA AR AENT R S hamed Ífómente da vifta delles eftava fob- mettido a tudo o que elle mandafle ; por . “tanto que viefle de vagar à feu prazer, que | elles o hiam efperar a Malaca, Peró ElRey 6 ASIA dE Jožo DE BARROS que he como Vifo-Rey no modo do offi- cio, e governo. Ao qual Poyoá efte Rey de Malaca, e os Governadores de Patane, Calantam, Pam, e outros de toda aquella cofta, eram obrigados acudir com os tribu- tos que cada anno davam a ElRey de Sião; e a elle fe pedia conta delles , e por-efta razão , como coufa da fua governança, vi- nha por Governador deita Armada. Mas “como da Cidade Lugor a Malaca he cami- nho de duzentas leguas , {empre ao longa da cofta, a qual he mui fujeita atrovoadas, e temporaes, ante de chegar a Malaca lhe deo hum tempo, com que efta frota fe der- ramou, vindo ter alguns navios della a hu- ma Ilha chamada Pulloçapata tres leguas de Malaca. ElRey Mahamed como foube que eltes navios eram alli chegados , mandou- lhe muito refreífco, moftrando eftar á obe- diencia AElRey como efcravo que era feu: com as quaes fimulações de palavras eltes Capitães dos navios, fem efperar feu Capi- tão môr, fe foram a Malaca em companhia dos que lhe trouxeram o refreíco , efpedin- do: primeiro dous Calaluzes com recado ao Poyoa; per que lhe faziam faber como Ma- Sam e por -Ma l Ze Decapa II Ervi Vl Cap. A. T7 Mahamed os mandou hofpedar mui diffe- rente do que elles cuidavam, porque rece- bidoso-dia de fua chegada com a face ale- gre, foram repartidos per todolos morado- res de Malaca com recado, que cada hum hofpedafle os que lhe coubeífem em forte, a qual forte foi não ficar aquella noite ne- nhum . com vida. E como a coufa ellava cuidada pera aquelle fim, logo de noite, an- te que em os {eus navios houvelle remor: deb te feito pera irem avifar o Poyoá, fe met- teo muita gente yeftida ao modo dos Sia- mes; indo ao encontro delles: o qual como ainda não vinha com toda fua Armada Jūn- ta, e a fimulação deftes lhe fez parecer fe~ rem os feus , em mui breve foi desbaratada fua frota, e elle-efcapou á força de remo. Quando ElRey de Sião foube parte defa maldade de Mahamed , com grande .indina- ção , e prefla mandou fazer prefles outra Ar- mada., e per terra grande exercito , em' que entravam, quatrocentos Elefantes, e affi per mar; como na terfa haveria trinta mil-ho- mens. E potque na-Cidade de, Pam efavá por Governador hum primo. defte Rey, Ma- hamed.., que com feu favor tambem fe ti- - nha rebellado a ElRey de Sião-, mandou elle a efte Poyoá ~- que 'de caminho «com a Armada em que elle havia de v terra o outro Capitão, tomaflem: cite: revel; akom. Le Pil. Bo a 18 ASIA DE Jožo DE BARROS elho levaílem prezo, eem feu lugar puzef fe o Capitão que melhor o fizefle naquelle feito. O qual negocio o Poyoá commetteo mui bem com obra de tres mil homens com que fe achou, apertando tanto o: Governa- dor de Pam, que o tinha cercado em hu- ma fortaleza, donde elle movia alguns par- tidos pera. fe entregar , os quaes o Poyoá hia entretendo té chegar o exercito per ter- ra, ou aoutra parte de fua frota; mas pas rece que ainda não era chegada a hora con- tra a dElRey Mahamed, ou (por melhor dizer) tinha ordenado que o caítigo de fuas culpas foíle dado per nós, e não pelos Sia- mes. Porque vindo o exercito per terra hum pouco derramado ; como por fua propria terra”, acertou de vir ter huma parte delle à Cidade Calantam, que eitá entre Patane, e Pam; e como a gente da guerra he def mandada, e folta, e principalmente em au- {encia de feu Capitão mór , começou de fa- zer algumas forças em roubar , e forçar mu- lheres; entre as quaes foram duas mui no- bres cafadas com dous filhos do Governa- dor da Cidade: Os quaes como: naquele infante da força feita a fuas mulheres não pudéram acudir, difimulada a injúria, fecre- tamente convocando mais de quinhentos hos. mens, a maior parte dos quaes tambem | eram injuriados , deram de noite nos Sia à “Mess DecaDAÃ Hs brv VÊi-Cap: L 19 mes, em-que matáram grande número del- les. Feito efte eftrago nos que acháram pe- la Cidade, feguindo ocaminho de Pam em bufca do outro ramo de gente que hia já diante delta, foram matando nelles té che- gar à Cidade Pam, onde o Governador sef tava-cercado do Poyoá de Lugor, que (co- mo difemos) eftava efperando por eftes feus que ficavam mortos. Finalmente entra- dos eltes de noite com o Governador, cer- cado a quem deram conta do que leixavam feito, dem mais detença- todos em hum cor- po, ante queo Poyoá folle avifado, deram nelle, com que o fizeram recolher aos na- vios, ficando-lhe em terra a maior parte da gente morta, e parte dos navios tomados, O qual com efta tão grande perda, e mais com. a nova da outra per terra , leixou a via- de Malaca , tornando atrás per onde viera a recolher , e ordenar a gente que vinha per terra por fe não perder de todo. EiRey deSião, depois que per elle foube as caufas de tanto damno, e que a princi= pal caufa era Mahamed , mandou mais de vagar fazer dous exercitos, hum que havia de vir per efte caminho de Calantam , eper mar Armada grolla , e outro per eftoutra cofta de 'Tenaçarij, e Tavai , que he ao Ponente defte porto, por toda aquella: terra der fua, e per mar tambem outra Armada “e -Bai P 20 ASIA DE Joko DE BARROS pera totalmente deftruir a ete Rey Maha- med. Parte dos quaes apparatos viram em a Cidade Odiá metropoli defte Reyno “de Sião, Antonio de Miranda d' Azevedo; € Duarte Coelho : quando Affonfo PAlbo- querque, depois da tomada de Malaca fobre efte negocio, os mandou com huma embai- xada a ete Rey de Sião, que eftava nekta fua metropoli , (como adiante fe verá, ) per onde cefláram eftes apparatos: de vingan- ça ElRey Mahamed de Malaca como ti- nha per efta via indinado ElRey de Sião, e a nós pelo modo que teve com: Diogo Lopes de Sequeira, e ante dilto por reinar mortos a hum {feu irmão , é hum primo, e tambem a fua propria mulher: com eftes, e outros males tinha a vida que os tyran- nos tem, andarem com affombramentos;, e juípeitas , tudo temia, tudo receaya, e fe nalmente tudo eram cautelas, e refguardos, temendo o dia que fobre elle havia de vir o juizo de Deos. Com o qual temor ma- nhofamente trazia enganados por fe ajudar delles em fua neceflidade a EKlRey de Pam feu parente, e a ElRey de Linga, e a ou- tros Principes feus vizinhos com recados, €- promeffas que lhe queria dar huma filha por mulher, fabendo que cada hum a defejava | por razão do dote ; e mais fer fua-filha, de maneira , que quando Affonfo dAlbo. sá quer- Decana IL. Liv: VL Cap. I. 21 querque chegou a Malaca, eftava nella El- Rey de Pam vindo a efte negocio do cafa- mento. Pera o qual acto: tinha feita huma grande cafa de madeira fobre trinta rodas . a qual toldada , e paramentada de pannos de feda, havia de fer levada per Elefantes pela Cidade com os noivos, e as principaes peíloas dentro por mais folemnizar efta fef- ta; e porém elle hia dilatando eftas vodas “quanto podia a fim de ter comfigo muita gente , como homem a que o temor dava fuípeita, que mui cedo havia mifter todas eltas ajudas. Além deftes apparates das vo- das , tinha dentro na Cidade oito mil pe- ças de artilheria; porque como ella eftava toda ao longo do mar eitendida å maneira de huma touca per comprimento de legua, e era toda de madeira fem muro, nem ca- va, fómente a defensão dos homens , como geralmente fe vê nas grandes povoações: provia-fe defte grão número de peças dear- tilheria pera a pôr toda ao longo da ribei- ta, fe alguma Armada alli fofle ter, prin- cipalmente a nofla que elle mais temia que outra alguma , por as maravilhas que vira fazer a artilheria que Diogo Lopes de Se- queira levava: Porém-a mais defta fua arti- lheria tinha em feus armazens com grande cópia de munições , ea outra ordinariamen- te etava em certos lugares, onde a povoa- ia a ; gao 28 ASIA DEJoÃo DE BARROS meiro porto que tomou em huma Cidade per nome Pedir, cabeça do Reyno afli cha- mado, dos muitos que ha nefta grande Ilha Camatra , dos quaes, e della faremos re- lação em outra parte. Chegado Affonfo PAI boquerque a efte porto , por a Cidade fer per hum rio alima , em que não podiam entrar nãos groílas, veio a elle húma lan- chara remada , em que vinham feis Mov- ros honrados da terra, e hum Portuguez, per o qual o Rey della o mandava vifitar com ofertas do que houvelle mifter para rovisão da frota, como quem entendia o fim daquella fua viagem a Malaca. Do qual Portuguez , que fe chamava João Viegas, Affonto A Alboquerque foube fer elle hum dos vinte e quatro homens, que ficáram ca- tivos em Malaca, do tempo de Diogo Lopes de Sequeira; e que elle, e outros oito ho- mens houveram á mão huma lanchara e de pafláram áquella Ilha com efperança de fe E a qual foltura, e fugida fua fo- ra per induftria de huma filha do fenhor, em cujo poder elles etavam, que trouxera comfigo. E vindo nefta lanchara- defronte de Pacem, que he huma Cidade cabeça do Reyno afli chamado , que ellava adiante; fabiram a elles certas manchuas , em que vinham Mouros da terra, com que hou- veram peleja, na qual foi morto hum João - Dias Dran M Liye VL CAr. TI 29 Dias criado de Diogo Lopes de Sequeira”, e elle com os outros mal feridos vieram ter áquelle porto de Pedir, onde foram mui bem recebidos dElRey, e os mandou cu- rar, O qual gazalhado a elle parecia fer-lhe feito, por elles dizerem, que tanto que o Capitão mór da India foubefle o que fe fi- zera eni Malaca a Diogo Lopes, fem dú- vida não tardaria muito a-vit-tomar yin- gança daquella traição. Affonio d’Alboquer- que, depois que fe enformou mui particu- larmente de algumas coufas defte João Vie- gas ; per-elle-refpondeo a ElRey, dando- lhe agradecimentos de feus-oflerecimentos ; e tambem do gazalhado: que fez a elle João Viegas, € aos outros Portuguezes ; e em dous dias que alli efteve, foi vifitado El- Rey com algumas coufas que lhe mandou de refrefco ; e elle lhe-concedeo a paz que Diogo Lopes tinha com elle affentada. E porque Affonfo dAlboquerque foube per João Viegas- que eftava-alli hum Mouro honrado de Malaca per nome Nehodá Be- guea , que fora hum dos principaes:, que ordenáram a traição a Diogo-Lopes., pe- dio elle a ElRey de Pedir que lho man- dafle entregar, o que ElRey concedeo de palavra ; mas: per outra parte deo-lhe de mão em hum navio de remo » € que fof — deb levar recado a ElRey: de Malaca da ida 30 ASIA DE João DE BARROS delle Afonfo PAlboquerque. O qual reca- do deo a efte Nehodá Beguea mais por lhe fazer bem pola amizade que: com elle tinha, que por amor P'ElRey; mandando- lhe pedir per fua carta , que lhe perdoaffe o efcandalo que delle tinha , porque não eltava em tempo pera trazer feus vaífallos | fóra da {fua graça, e mais efte fendo pef {oa tão principal. A caufa do qual efcan- dalo que ElRey tinha delle , era, porque havia pouco tempo que mandára matar o {eu Governador Bendara, por fe dizer que andava copilando huma traição pera o ma- tar, e fe levantar com o Reyno., e que efte Nehodá era na traição; e á força de temo veio fugindo da furia PElIRey , e fe acolheo a efte de Pedir, por fer grande feu amigo. Vendo Affonfo d Alboquerque que ElRey lhe não entregava efte Mouro, pof to que não foube logo deítes feus artifícios, como era coltumado a diflimular palavras de Mouros, não quiz efperar mais reca- dos, nem menos os partidos que lhe mo- via, promettendo de lhe dar vinte e cinco mil cruzados: polas cinco náos que tomára dos Guzarates. Partido defte porto de Pe- dir , chegou ao de Pacem , onde também foi vifitado PEIRey, mandando-fe defeul par da culpa que lhe elle punha na morte | do Portuguez , e ferimento dos outros da = con Decana M Liv: VI Car. M. 31 companhia de João Viegas; o que elle re- cebeo: brandamente , porque não fe queria ir detendo na fatistação deltas coufas , ef- perando que à tornada de Malaca per aquel- les portos faria huma correição de fuas cul- pas. - Eípedido: PEIRey- de Pacem ,: peró que elle muito defejou de o ter alli hum par de dias com feftas, e reíreícos por cau- fa do que logo veremos ; como já come- cava entrar na paragem dos baixos, fegun- do lhe diziam os Mouros Pilotos que le- vava, mandou ir diante todolos navios pe- quenos ; huns ao longo da cofta da Ilha, e outros mais ao mar por reíguardo das outras nãos de maior porte. Indo afi nefita ordenança , foi Aires Pereira de Berredo Capitão de huma Taforea pequena dar coa huma pangajóa , que fe hia furtando ao longo da terra com temor das nãos , na qual hia Nehodá Beguea , o qual não fó- mente defendeo a entrada da fua pangajóa, mas ainda como homem de pefloa entrou à força da efpada no batel de Aires Perei- ra; e afli apertou com elle, que não ficou algum do batel , que não foíle bem fangra- do delle, eelle não de algum; té que mais canfado , que vencido , meio ataflalhado ca- hio , onde foi tomado ás mãos, fem haver remedio de morrer, nem de verter fangue per quantas feridas tinha. Alguns dos ma- - 22 MESA DE Jožo nE BARROS tinheiros, como elle vinha bem tratado no veftido, começando de o esbulhar , acertá- ram de lhe achar huma: manilha -de-oílo encaftoada em ouro da face de cima, e offo da banda: da carne do braço donde a elle trazia, tirada a qual, fe valou todo em fan- gue , e efpirou. Efpantados os noflos de tão nova coufa, fouberam dos Mouros que alli tomáram , que aquelle offo era de. hu- * ma alimaria que havia na Jauha, a que el. les chamavam: Cabal , coufa mui etimada entre os Principes daquellas partes, o qual tinha virtude de reter o langue da manei- ra que elles viam. Aires Pereira: mais con- tente com a manilha que com a vitoria, a levou a Affonfo d'Alboquerque, -que el- le cftimou em muito, e depois a-perdeo com outras muitas joias à tornada de Ma- laca em a não Flor de la mar, como 4e adiante vera. Paflada efta afronta de Aires Pereira, que Affonfo d'Alboquerque tomou per final de victoria que efperava ter de Malaca, pois já de caminho: per tal-acerto tomava vingança: daquelle Mouro auétor do damno , que os noflos nella recebêram , fo! com fua frota naquella ordem: que dante. levava; té que fendo tanto avante como à. Ilha, a que os noffos chamani a Polvorer | ra, -e os da terra: Barelá, que ferá de Ma- Jaca quarenta leguas , velpera de S. E = Aa Decana H. Liv. VI Car. H. 33 Baptita , houveram vifta de hum junco, não que feria de Íeiscentos toneis, ao qual logo foram demandar os bateis das nãos de D. João de Lima , Diniz Fernandes, Nuno Vaz de Caftello-branco , e Affonfo Pefloa na fua fufta. O junco não fómente fez pouca conta dos requerimentos que lhe elles faziam que amainaffe , mas ainda de fe elles entremetterem a querer fubir alima, “efpedindo-os de fi com muito arremeffo que fizeram de cima , de. que Affonfo Pefloa levou huma coixa atraveílada com hum zar- guncho. Pero dºAlpoem, que hia na eftei- ra do junco, quando o vio efpedir de fi os bateis, quiz abalroar ; mas em prepaf- fando per elle, tiveram os Mouros tanta induftria no marear das vélas , que ficou Pero- d’Alpoem contravento fem poder tor- nar a elle. Affonfo dºAlboquerque, como ifto era fobre a noite , tanto que amanhe- ceo: por afua não Flor de la mar fer gran- de, quiz abalroar o junco ; na qual che- gada com a artilheria lhe fez tanto damno, -que lhe matou quarenta homens de trezen- tos que trazia ; os quaes como eram in- “dultriofos na peleja do mar, puzeram fogo ao junco, com que fizeram afaftar Affonfo PAlboguerque , dafaferrando-fe delle a tem- po que já a labareda do fogo lambia pe- los caftellos da fua não. Do qual perigo Lom. di PIL Ta ; AE | H f 4 ji | Ni 4 i já po Ei | ji Hii | } pih: $ 24 ASIA pE Joño DE BARROS Affonfo d Alboquerqueeleapou ; porque co- mo fabia que os Mouros naquelas partes ufavam defte artificio , levava: o feu batel efquipado pera ilo., e á força-de remo fe afaftou. Os Mouros tanto que o víramafaf tado, a grão preffa começáram apagar o fo- go , que ardia em hum certo oleo de ter ta , de que em Pedir ha grande quantida- de; em huma fonte que mana; ao qual oleo os Mouros chamam Napta , coula ácerca dos Medicos mui notavel”, por fer excel- lente “pera algumas enfermidades , de-que nos houvemos algum, e temos experiencia fer mui appropriado pera coufas de frialda: de, e compreísão de nervos. Finalmente por não gaftarmos tanto tempo, quanto 0 junco fe defendeo , elle deo que fazer dous dias aos noffos , donde depois. entre-elles fe chamava o junco bravo : e per derrader ro mandou dizer per Fernão Peres ao Ca pitão que lhe perdoaífe, que não fabia fe elle a pefloa contra quem fe defendia, € que lhe aprouvefle de o receber não como imigo:, mas como vaffallo PEIRey de Por tugal; na elperança da protecção, e-ampá rodo qual elle fe entregava. Na qual ek perança “elle fe não enganou ;- cå fabendo Affonfo dº Alboquerque fua fortuna, elle 0. confotou; offerecendo-fe ao reftituir em fel. eftado ; "e fegungh elle Principe per nom, DecaDA IH. Liv. VI Car. IH. 35 Geinal lhe contou ,- elle era -o verdadeiro Rey de Pacem , e não aquelle, que eftava em poffe do Reyno , mas feu parente, e fora Governador d ElRey feu pai delle Gei- nal. No qual tempo por feu pai fer homem de muita idade, ete Governador no modo do governo fe fez tyranno, e elle Geinal;, em quanto foi moço, o foffreo : peró co- mo teve idade, e quiz entender em fuas coufas , eftava-já o tyranno tão {enhor da terra, que em duas batalhas ficou elle Gei- nal-desbaratado ; e vendo-fe fem favor dos naturaes , e fem forças pera refiftir a elte tyranno , com alguns que o quizeram fe- guir hia à Jauha a alguns Principes da fua linhagem; que o quizefem ajudar na refti= tuição de feu eftado. Affonio A Alboquer- que tornando-a feu caminho”, não tardou muito que não tomáram dous juncos : o primeiro- tomou D, João de Lima, Simão de Miranda, e Simão Affonio , por lhe cahirem naefteira em que elle hia pera Ma- laca, onde fe houve mur grofla preza ; e outro mais adiante tomou Nuro Vaz .,.a gente do qual que vinha de Malaca fe fal- vou-em terra em hum batel por fer já de noite; e como o mais que trazia era ouro, lalváram quafi todo ; Íómente algum, que fe achou com outro esbulho de fazenda que traziam pera Pacem, E de alguns Mou- o Cik - W 36 ASIA DE Jožo DE BARROS ros que fe tomáram nefte , foube Affonfo PAlboquerque como Ruy d’Araujo , e par- te dos cativos que ficáram com elle, eram vivos ; e afli o eftado da terra, e o gran de temor que lá havia daquella fua Arma- da, poo que á partida delles ainda não havia noticia della. Afonfo d'Alboquerque afli pelo que foube deítes Mouros", como por começar já entrar nos termos de Ma laca, e não labia fe ElRey por andar te- morizado , fabendo da fua ida, mandaria ao caminho entre aquelles baixos ao rece. ber com algumas lancharas por lhe derra- bar alguns navios mancos da véla que le vava, começou recolher ; e ajuntar toda fua frota, enfiando as vélas humas nas efteiras das outras por razão do canal, fem lhe acontecer algum daquelles grandes perigos, que os Mouros fabulavam haver naquelles baixos de Capaciá , como nos bancos do. canal de Frandes , ou perigos de Scylla, e Charybdes entre Sicilia, e Napoles. Com a qual frota toda em hum corpo ancorol “no porto de Malaca o primeiro dia de Ju lho do anno de quinhentos e onze ; junto de huma ilheta, que era poufo das: nãos dos Chijs , onde achou tres juncos “deles: À Cidade, pofto que em as nãos, que Diogo. Lopes de Sequeira levou , tinham vifto à feição dos noilos ; e a mareagem dellas, DECADA U: Erv: VIsCare H. 37 “todavia quando viram o grande número de velas, as bandeiras, .eilendartes, trombe- tas, e pompa da frota, e fobre tudo a tro= voada da artilheria, que durou per efpaço de meia hora, affi como lhe foi trifte cou- . fa a vifta das vélas, aí a fua mufica , e muito mais trite a imaginação em que ha- via de parar aquelle tão temerofo efpeéta- culo a elles. Os noflos tambem ainda que não viam grande magellade de edificios de pedra, e cal, muros, torres, ou alguma outra defensão , e formofura das Cidades de Hefpanha , viam huma povoação de com- primento de huma boa legua, coalhada a lua ribeira de muitas nãos de carga, e ou- tras velas de carreto , e ferviço della. E fe a povoação era quafi toda de madeira, e as cafas cubertas de olla, (como geralmen- te fe ufa naquellas partes, ) tambem viam outras torres , muros , e arquiteđturas de «melhor parecer, e defensão, que era grof- fo povo, que enchia todolos lugares altos, e baixos, que elavam em vifta da ribei- ta. Afli que fe elles em nos viam que te- mer, os nofios em ver a grandeza da Ci- dade, e o grande número de povo , a mul- tidão das nãos, e navios, tambem tinham que cuidar , polto que pela grão fama da fua riqueza tudo fe convertia em defejo--de a conquilar. Affonfo PAÁlboquerque ace = DOIS 44 ASIA DE JOÃO DE BARROS Portuguezes não tinham mais que hum rof- tro, huma palavra, hum Rey, e hum Deos, e delta vez per artificio trouxe efte Tuam Bandam hum moço chamado Baftião, que eltava com Ruy d'Araujo, e era aquelle , que Diogo Lopes achou na Ilha de S. Cou- renço, como atrás fica. O qual moço efte Mouro leixou em a não de Affonfo dºAl- boquerque , quafi como que o moço fe vie- ra com elle, tudo a fm de contar os gran- des apparatos de guerra, e número de gen- te que havia dentro na Cidade , porque o temor deftas coufas lhe faria tomar outro. confelho naquella vinda com algum bom concerto. Havia a efte tempo dentro na Ci- dade, além dos Mouros naturaes Malayos , como dilffemos , outros de mui-varias na- ções, e entre os Guzarates, que eram os mais deftes eltrangeiros, hum que fervia en- -re elles de Xabandar , officio como entre nós os Confules da nação. Efte, como ho- mem principal , era prefente aos confelhos que ElRey tinha fobre a chegada daquella nofla frota, e na prática que fe teve fobre efte derradeiro recado que levou Tuam Ban- dam, infiftio muito que não houvefle com- nofco concerto, eentre outras ofertas, que fez por fua parte, e de todolos mercadores Guzarates que alli eltavam ; afli de fuas fa- zendas , como peíloas pera defendimento DecaDa Il. Liv. VI Car. II. 47 da Cidade, diffe, que logo mandava tirar toda a artilheria das nãos; e com ella feis- centos homens. Contra o voto do qual hou- ve outros, que eram remirem efte negocio por alguma boa fomma de dinheiro., dizen- do, que entregues os cativos com mais efte dinheiro em recompenfa do damno que era feito ao primeiro Capitão que alli veio, fe riamos fatisfeitos. Finalmente huns per hu- ma parte, outros per outra. era repartido o parecer em hum genero de confusão, fem faber tomar huma boa conclusão , com que a Cidade ardia, não fe fabendo deter- minar. Affonfo dºAlboquerque tambem per fua parte eftava confulo; porque vindo em rompimento de guerra, podia perder aquel- les homens cativos, e principalmente Ruy d' Araujo, que particularmente defejava muito tirar daquelle cativeiro , que recebeo por amor delle; porque, como atrás vimos, o Vilo-Rey D. Francifco nas differenças que teve com elle Affonfo g’ Alboquerque , en- tregou a efte Ruy dAraujo prezo a Diogo = Lopes de Sequeira em modo de degreda- do. Per outra parte havia já feis, ou fete dias que não. podia tomar: conclusão: algu- ma com ElRey , e difimular tanto artificio, como com elle queria ter, pera fua condi- -ção era hum grave tormento, porém tudo dofíria. por: ver fe podia: ter o a 46 ASIA DE JoÃo DE BARROS de falvar Ruy d'Araujo. Elle tambem , fe- gundo lhe Affonfo d'Alboquerque efcrevia, vendo que a dilação deite calo era por amor delle, e de feus companheiros, refpondeo- lhe, beijando-lhe as mãos pelo defejo que tinha de os falvar; mas porque fegundo o que via, e fentia nos apercebimentos:, e for-. tificação da Cidade , tudo havia de parar em rompimento de guerra, e que quanto mais tardaíle, tanto lugar dava a fea Gi- dade mais fortalecer , e aquella fua frota começava já perder credito éntre os Mou- ros nos motes que fobre ifo lhes davam, todos lhe pediam que por elles não leixafle de fazer o que cumpria ao ferviço C El- Rey, e à confervação do nome Portuguez, por quanto elles eftavam oferecidos a Deos pera receber martyrio de morte, Je cum- priffe. Havido efte recado , e pollo em prá- tica com todolos Capitães, ailentou Affon- fo PAlboquerque com elles, que primeiro -que fahiflem em terra , irem ao feguinte dia, “quando agua eltivelle eftofa , dez bateis a -queimar alguns baileus, que são como va- randas fobre o mar, de es cafas no- bres que eftavam fobre elle , e affi as tres nãos dos Guzarates , que deram a-artilhe- ria a ElRey: ERR da Cidade; e acu- dindo alguma: gente, fizeffem- quanto da- mno pudeilem. O qual commettimento apro- ii `~ vel= Decana Liv. VI Cap. HI. 47 -Neitou muito; porque com efe damno que fizeram às nãos dos Guzarates, e afli a al- gumas- cafas, andando ainda os noflos net te aćto de pôr o fogo, mandou ElRey-em huma lanchara a Ruy Araujo, e aos ou- tros com elle. Por honra da vinda dos quaes, . eftes Capitães que andavam: nefta obra, não foram mais avante com ella , e vieram-fe com elles a Affonfo d'Alboquerque, que os recebeo com grande prazer; e por fefta da fua vinda , mandou tirar toda a artilheria das nãos, e que naquelle dia não fe fizeffe “mais damno na Cidade, porque todo fe ha- via milter pera ouvir a Ruy dAraujo , e. {feus companheiros. Os quaes entre muitos trabalhos que contavam de feu cativeiro, o maior era as tentações que tiveram, hu- mas por bem, eoutras por mal, que. fè fi- ciem Mouros, e que em nenhuma outra coufa acháram confolação , e amparo, fenão em hum mercador Gentio , que alli eftava de affento , natural do Quelira, a que cha- mavam Nina Chetu, porque-efle mitigava «com peitas os authores: do mal que-elles recebiam, e afli lhe matava a fome ; € foc- corria em quanto podia. Aqual conta He - os Mouros foffriam , por faberem' que os Gentios por preceitos de caridade são: ge- ‘faes em fe condoer de qualquer mifero , em tanto quevem ufar efta fua maneira de pie Es —— — dar 48 ASIA DE JoÃo pE BARROS dade té com os animaes; e ora que efta fua obra foíle por efta caufa , ora por alguma efperança de galardão, que por iflo- podia haver de nós, elle o fez fempre com que os cativos diziam delle muito bem, E ver- dadeiramente que na efperança , fe a elle teve de galardão, não fe enganou comnof- co; porque tomada a Cidade, Affonfo dº Al- boquerque lhe pagou efta fua obra com hon- ra, e mercê que lhe' fez, a qual foi caufa de fua morte voluntaria, (como adiante ve- remos em feu lugar.) Eltando Afonfo PAI boquerque neta prática com Ruy d'Arau- jo, ex-aqui Tuam Bandam a bordo da não, dizendo. que queria fallar ao Capitão mór. Alfonfo d’Alboquerque , polfto queda outra vez o não quiz ouvir, defa o mandou en- trar ; fazendo-lhe mais gazalhado que os dias paflados as vezes-que ante elle E E per fim das defculpas que deo-, e- coufas que dife da parte dElRey a: conclusão da reipofta de Affonfo A Alboquerque foi, que ElRey pera entre elles haver paz, lhe havia-de dar naquella Cidade lugar pera fa- zer huma cafa forte ao modo -das-que El- “Rey {feu Senhor tinha na India, pera nella deixar- gente com Feitor, e Officiaes: pera negocearem a fazenda do dito Senhor, que os Capitães móres da India alli mandaílem em {uas nãos, À qual cafa logo havia de | 7 | fer E EEE ER SEE E E S EEA Decapá IL Liy. VI Car. II. 49. fer feita ante que elle Affonfo P Alboquer- que fe partifle, e mais lhe havia de entre- gar toda-a fazenda, que fora tomada aos Portuguezes das nãos de Diogo Lopes, ou fua jufta valia pelos preços da terra ; a li- quidação da qual fe faria ao tempo da en- trega: e bem afli lhe havia de pagar toda a defpeza que era feita afli na Armada de Diogo Lopes , como naquella fua, que pat java de trezentos mil cruzados. Porque a primeira fe fez por caufa de o virem buf car, e tratar amizade com elle, e aquella não vinha amais que pedir os cativos, que forçofamente, e com mão tratamento havia anto tempo que retinha , e affi as outras coufas que naquelle infulto dos feus os Por- tuguezes perdéram.- E quanto ao mão tra- tamento, e outras coufas que fe fizeram a Diogo Lopes, ora foflem feitas per o feu Bendára morto, ( fegundo elle dizia Fora per qualquer outra peffoa, a elle pertencia a fatisfação , pois era Rey, e Senhor da terra ; e não querendo conceder eftas cou- fas, elle o havia por imigo de fogo; efan- gue, ifto podia elle Tuam- Bandam dizer à feu Rey. E a refpofta foffe logo, é qual deitas duas mais quizeffe acceitar , à paz com fatisfação do que dizia, ou a guerra como ` a fortuna de cada hum ordenaffe j: porque: os Portuguezes nunca foram bufcar alguem =. “Tom. IL. PIL D “que so ASIA DE JoÃo DE BARROS que fe lhe partiflem dante a porta fenão com alguma peça na mão por fua honra, e por {eu trabalho, e mais tão longe da fua patria; com as quaes palavras, fem ouvir réplica a Tuam Bandam , o efpedio. O Mouro. aflombrado com efta reípolta , foi-fe a ElRey , e fegundo fe depois ioube: no Confelho PEIRey , houve grande confusão ; porque os homens, cuja vida era negocio, e trato , feu voto era o que fempre diffe- ram, que fe remifle tudo per qualquer fom- ma de dinheiro. O Principe herdeiro do Reyno chamado Alodim , e ElRey de Pam, que , (como diílemos , ) era vindo pera cafar com fua irmã, e outros da fua valia, repro- vavam efte voto dos mercadores da terra, confiando no grande apparato que tinham pe- ra fe poder defender, que eram trinta mil homens, muita artilheria , Elefantes , e que hum homem em fua cafa valia por dez. Quanto mais que , fegundo o número das vélas dos imigos, o mais que nellas pode- ria haver, feriam té mil homens, os quaes ante de dous mezes não tinham vida, por- que haviam de comer, e beber, e finalmen- te a doencia da terra, fegundo ella tratava | Decana IL Liv. VI Cap II yr verem que temer , era mais confelho , ete- morde mulheres , que prudencia de homens; e mais que conta daria de fi a gente Ma- laya tão temida, e eftimada por cavalleiro- fa per todas aquellas partes, e que per tan- tas vezes refíftio á potencia de tamanho Rey, como o de Sião , com quem havia tanto tempo que contendiam ? ElRey Mahamed , por não mofttar efpirito de homem fraco, peró que o feu animo eftava atribulado, pro- gnofticando-lhe no temor do cafo fua total deftruição , e tambem por comprazer a El- Rey de Pam, que ecra vindo ás feftas das vodas , (como diflemos,) o qual eftava na opinião do filho; determinou-fe em defen- der a Cidade, e-quando o fuccello foffe contra o que elle efperava , concederia algu- ma parte dos apontamentos de Affonfo d'Al- boguerque. “Todavia em modo de amoef. tação diffe áquelles dous filhos , que elle lhe entregava a Cidade, que a defendeffem co- mo diziam, porque elle não tinha já mais forças que as do confelho, e que elle natu- ralmente nos homens de tanta idade s COMO elle era, fempre fe inclinava ao repoufo da paz; e pois a elles parecia melhor o eflado da guerra, que tambem podiam fazer con- ta que forças , e confelho tudo ficava nel- les, e que Deos os ajudafle, Porém por lhe não parecer que elle totalmente fe queria E =- Di = lan- =D e ml a Ds pa maio, q = ey ASIA DE Jožo DE BARROS lançar de tudo, a elle lhe parecia que-a defensão da Cidade fe havia de ordenar per tal, etal maneira: então começou de a re= “partir em quartos, e eltancias per os prin- cipaes. E pera melhor entendimento do mo- do defta defensão da Cidade, he neceflario faber-fe que havia nella dous mercadores Jãos de nação, que vieram alli aflentar vi- venda havia muitos annos , os quaes per trato fe tinham feito tão groflos em fazen- da, familia, e nãos, que de não haver já na Cidade onde fe ade agazalhar, deo- lhe ElRey a cada hum feu bairro nos ar- rabaldes della. A hum per nome Utimuti- raja deo hum lugar da Cidade chamado Upi , o qual agazalhava naquella fua po- voação todolos Jãos , que alli concorriam deftas Cidades Tubam , Japara, Cunda, Polimbam, ede todas fuas Comarcas, por ferem encommendados a elle em modo de confulado da nação, e nefte tempo era já homem de oitenta annos, e depois PEL Rey elle era a primeira pefloa em fubitan- cia de fazenda, familia de elcravos de {eu ferviço: cá entre elle, e feus genros, e fi- lhos, affi dos que traziam pelo mar ema navegação de fuas nãos, como alli em Ma- Jaca teriam mais de dez mil, e a fua po- voação Upi em força, e tráfego era huma Villa muito nobre Efte porque no feu peito Decapa I. Liv. VI Car. IL 53 não tinha boa vontade a ElR ey, como ho- mem fagaz , tanto que vio a nofla Armada no porto, e fentio que a fia vinda podia fer caufa da deftruição PEIRey, em quan- to Affonfo d Alboquerque não rompeo* de todo com elle, fecretamente mandou-lhe pe- dir feguro pera fua peíloa , filhos, e gen- ros. com fua familia, o que lhe Affonio A Alboguerque concedeo fabendo fer elle Jão, e não Malayo, e tambem por ter me- nos imigos, e mais efte que era tão pode- rolo. Peró quando veio a efta repartição, “que ElRey fez da guarda , e defensão da Cidade, coube-lhe parte della contra onde elle vivia, que era a mais povoada. Naou- tra parte contra o Oriente, que era da ban- - da onde ElRey vivia, no fim della havia outro lugar chamado Ilher , que per efte mefmo modo de Utimutirája , deo ElRe a outro Jão per nome Tuam Colafcar, ao qual concorriam os Jãos da Cidade Aga- cij, e fuas Comarcas , que era a fua patria, e a elle entregou ElRey a guarda , e de- fensão daquella parte pelo modo de Utimu- tirája; e afi como efte Senhor de Upi era mais poderofo que o outro, afli tinham di&- ferença em o nome. Porque onde entra efta palavra Raja , que he derivado do nome Real, fica na pefloa a quem o Rey da . co- mo ácerca de nós otitalo de Conde, e efta 6o ASIA DE JoÃo DE BARROS Alodim, e feu cunhado ; os quaés vendo que o rofto dos noílos era ir demandar a ponte, como força que queriam tomar, met- teram-fe entre elles, e ella,- onde houve huma peleja bem travada ; e encaminhando os noílos com elles per huma rua, fahio- -lhe ElRey per outra, como que-lhe que- ria tomar as coftas. O qual vinha com hum efquadrão de gente de té Ífetecentos homens em cima de hum Elefante mui armado ;-e arraiado , e outros dous, que em modo de {ua guarda vinham diante, a cujo am- pe alguns Mouros, que fugiam dos noÊ os, fe acolhiam. Sobre os quaes dous Ele- fantes , além de andarem: homens em feus caítellos , de: que pelejavam com fréchas;, trazia cada hum feu Governador, que o adeltrava a huma, e outra: parte, fegundo a neceflidade que-tinham. Os noffos vendo tão grande pezo da gente, etemendo mais tomarem-lhes as coftas que aquelles feras de peleja, repartiram-fe: huns ficando com a gente do Principe que levavam de venci- da , e outros acudiram a entreter å furia deftas feras ; e os principaes que puzeram as lanças; foram D. João de Lima, Baf tião de Miranda , Fernão Peres d'Andre de, Gafpar de-Paiva;, Jemes- Teixeira, O ferro dos quaes afli foi fentido dos Ele- fantes, que dando dous urtos , fizeram vol: > E ta Decana II. Liv. VI Car. IV. 6T ta em redondo ; e fem darem polos Go- yernadores que traziam em cima , foram efmagando quantos dos feus achavam ; com tamanho curfo de corrida , que pareciam ginetes, fendo tão pezados à vifta, de ma- neira que não os puderam os noflos feguir. ElRey com o feu Elefante, ao tempo que os outros voltáram em fugida , por {e guar- dar do impeto delles, tomou a boca dºou- “tra rua , afaftando-fe hum pouco do con- curfo dos noflos ; e tornando fobre elles, quafi como que lhes queria tomar as coftas , veio dar de rofto com Fernão Gomes de Lemos, Vafco Fernandes Coutinho, Mar- tim Guedes, e outros que os confeguiam: Os quaes vendo a furia do Elefante, fur- tando o corpo, deram-lhe lugar; e em per- paffando , puzeram-fe tão tefo ás lanças, que ellas mefmas:, e a gente que feafaftava por não fer trilhada do Elefante, deo com el- les arrimados a huma paliçada de madei- ra, que comella cahir por carregarem mui- ta fobre ella , paílon o Elefante fem delle receberem damno. O qual pela maneira dos outros, como fe fentio ferido, tambem fez volta per hum tefo de huma rua aflima;, que osnoflos não quizeram feguir, porque tinham o fentido na ponte que lhe Affon- fo dAlboquerque mandou que tomaflem; Finalmente tanto que eftes Capitães fe vÉ ram 62 ASIA DE JoÃo DE Barros” ram defapreílados dos Mouros , vieram-fe recolhendo per onde Affonfo dAlboquer- que eftava, o qual como os teve comíigo, começou de fe fechar d’ambalas partes da ponte com paliçadas de madeira da que os Mouros all tinham. E como veio a vira- ção do mar, mandou a Gafpar de Paiva com cem homens per huma parte, e a Si- mão Martins com outro cento per outra, que foffem queimar as cafas que eftavam mais vizinhas da ponte, por ficar mais def abafada. Porque além de lhe fazerem pras ça, doseirados recebiam muito damno com as fréchas, e zervatanas hervadas , que lhe os Mouros tiravam, onde fe não perdia tiro , por elles eftarem todos em pé fobre a ponte. O qual damno tanto que eftes Ca- pitães chegáram a ellas, logo ceflou ; por- que como eram de madeira, e cubertas da- quella fua olla , afi affoprou a viração no fogo, que em mui breve lavrou nellas, em que entráram alguns gudões , onde eftava muita mercadoria , e parte da mefquita, e aquella nova cafa armada fobre rodas; de que atrás fizemos menção , que eftava pera celebrar as vodas da filha PEIRey. Acabado efte feito às duas horas depois de meio dia , acudindo fempre os noílos aos rebates de Mouros , que commettiam per ambalas partes da ponte , com que andavam bem Decana H. Liv. VI. CAP. IV. 63 | bem caníados , fem lhes darem vagar a que acabaflem de fe fechar nas tranqueiras que faziam , fufteve-fe Affonfo d?Alboquerque hum pouco em prática com os Capitães afli em pé como eftavam , dando-lhe graças do que tinham feito, e tambem reprefentando- lhe algumas coufas que por então contra- riavam fufter a poffe daquella- ponte. Por- que vito como a gente, depois que fe ef- friou da furia do pelejar ; não fe chegava bem à obra daquellas tranqueiras que que- ria fazer, afi por razão do trabalho fer mui grande, como o ardor do Sol, com que os que andavam em pé eram j4 no èf- pirito tão decepados , e mortos como aquel- les que o foram naquella peleja , e fobre tudo nenhum tinha comido aquelle dia; e viltos tambem outros inconvenientes pe- ra temer , que era poderem os Mouros por o rio a baixo de noite na ajufante da ma- ré lançar algumas balfas de fogo com que os queimafle , e que nefte tempo poderia vir huma Armada grofla, que ElRey tinha mandado fóra , fegundo dizia Ruy d'Áraujo, de que era Capitão mór hum valente ho- mem de fua peíloa chamado Lacfamana, o qual poderia queimar a nofla frota; pof- tas todas eftas coufas em prática, affentoú com elles de ir dormir ás nãos , por fer mais feguro eftado pera tanta gente ferida, | e can- CCC A A E ão 64 ASIA dE JoÃo DE BARROS e canfada como tinha, e afi fe fez. Porém primeiro que fe partifle , porque a gente fe embarcava mal contente por irem com as mãos vazias, e mais tendo diante dos olhos dous gudões PEiRey , os quaes fe dizia eftarem cheios de fazenda , e elle os não podia entreter nefte impeto , deo-lhes trella té os gudões , com que fe tornáram carregados do esbulho, que foi para elles leve : pofto que ao embarcar a alguns for | carga pezada por acudirem os Mouros; que lhes deram affás trabalho, fendo já Sol pofto. E afli nefte recolher, como na pe- leja do dia, dos noflos foram feridos fe- tenta, os mais delles com herva de que os Mouros ufam muito naquella parte; e por lhe ainda não faberem a cura , depois.em as nãos falecêram dez , ou doze ; e ou- tros que houveram: faude della, fempre fi- cáram com aquella parte da ferida enfer- ma, e quafi hum tremor naquelle membro da maldade da peçonha. A qual tinha pro- priedade , que a hum certo tempo acudia à pefloa ferida della huma raiva, morden- do a fi mefmo, como fe foffe mordido de cão damnado: o que fe vio em hum Caval- leiro da Villa Eftremoz chamado Lopo de Villalobos , e em outros que alli foram fe- ridos. À cura da qual herva quizeram al- guns fazer com theriaga, e não lhes apro- vei- Decapa IL Ery. VI Car. IV, 65 veitou ; e outros mais à mingua de azeite que não tinham, que por faber que era an- tidoto daquella peçonha, queimavam as frê- chadas com toucinho velho, que lhes deo faude. Peró depois pelo tempo em diante os mefmos Malayos amoftráram aos nofios huma herva, que havia na terra contra ef- ta peconha, com a qual, como o homem era ferido, baftava pera fer feguro de mor- rer makigar huma folha della : tão mara- vilhofa he a Natureza na antipathia das cou-. fas, que não leixou alguma fem remedio, nem o poz mui longe do feu contrato, fe o nós foubeflemos conhecer. Dizem os Ma- layos que a invenção defta peçonha he dos moradores da Ilha Çamátra , a qual fe com- põe com a efpinha do peixe, a que nefte Reyno chamamos Bágre : e os Malayos officiaes defa compofição foram os-póvos Cellates que vivem no mar , de que atrás fallâmos. O número dos feridos entre os Mouros, -por fer grande, não fe pode fa- ber , nem menos dos mortos : bafte que não houve cafa na Cidade fem lagrimas de morte de pai , filho, irmão, &c. ElRey de Pam, que era vindo ás fuas vodas; quan- do as vio celebradas com fangue de muita gente que lhe feriram , e matáram, efo- bre tudo fer queimada a cafa pera aquelle: dolemne dia dellas , que elle tomou “por dom. II. P.il, sE -o mi 66 ASIA DE JoÃo DE BARROS mui mão prognoftico, recolheo-fe per ter- ra em feus Elefantes, dizendo que hia buf- car gente, e ajudas pera vir com maior poder à defensão daquella Cidade, a qual tornada elle não fez. CAPLCULO- X Como Afonfo d Alboquerqne por alguns impedimentos que teve, em quanto a gente Jarava do damno que recebeo na batalha, efteve recolheito em as ndos, té que fegun- da vez tornou commetter a Cidade, e to- talmente a tomou, B Ecolhido Affonfo d’Alboquerque às U nãos, mandou logo ElRey Mahamed com grão diligencia reformar fuas eftancias, e dobrallas em artilheria , e refiftencia. É porque vio que no dia da entrada dos nof fos começáram feguir a rua larga, além de novamente fazer na boca della huma tran- queira, mandou minar toda a rua, e enter- rar nella humas canas groffas cheas de pol- vora, e femealla de abrolhos de ferro com peçonha, eafli os lugares per onde podiam os noílos fazer entrada, pera os encravar, e queimar. Fez tambem além defta huma coufa muinova, que em fua vida em quan- tas guerras teve nunca fez, pagar Íoldo aos Jáos, porque foube que naquella e i Sn Decapa IL Liv. VI Car. V. 67 da que os noflos fizeram na Cidade , não pelejáram tambem como elles coftumam , e puderam fazer. Mas a caufa de não pele- Jarem como deviam não foi por razão de {oldo , mas por caufa de lhes ter mandado Utimutirája que não, aventurafem a vida por defensão do alheio , o qual preceito que deo aos feus , foi pelos concertos em que andava com Affonfo A Alboquerque ; e com tudo elle fe mandou queixar a elle Utimutirája deita ajuda que deo a ElRey, fabendo que a fua gente fora no dia da en- trada. Ao que elle Utimutiraja refpondeo que era verdade da ajuda que dizia, a qual foi mais apparecer a fua gente no feito, que pelejar ; e efte pouco que fazia , não era por {ua vontade, mas por fer homem efttangeiro, e viver na terra alhea sque fe afli o não fizeffe , não paflaria bem, e por iflo não lhe devia eftranhar o que tinha. fei- to, que fora tão pouco que obrigára a Ej Rey mandar dar {oldo atodolos Jáos , ven- do que não fe chegavam bem a pelejar com a fua gente, A qual defeulpa lhe Afonfo PAlboquerque recebeo , por fer tempo pe- ra dillimular todos eftes artifícios que com elle efte Mouro ufava , té que vieffe feu tempo , e mais por faber fer verdade que a fua gente não fe chegava bem » não fa- bendo fe era preceito feu, ou não. Nefes É E ii “dias 68 ASIA DE João bE BARROS dias mandou tambem Affonfo dAlboquer- que recado a todolos mercadores eftrangei- ros 4 por lhe ganhar a vontade , que por fva caufa não queimou a Cidade, nem con- fentio fazer-fe-lhe mais damno; que quem fe quizelle ir em boa hora pera {ua terra, que livremente o podia fazer; e querendo ficar, elle os fegurava, não tomando armas contra Portuguezes , por quanto elle não contendia fenão com ElRey de Malaca, e feus naturacs té lhe darem fatisfação do mal que lhe tinham feito. A qual notifica- ção aproveitou muito em noílo favor : cá eltes mercadores fe ajuntáram , e foram à EiRey, requerendo-lhe que acceitaíle qual- quer condição de paz; e que fe era pot dinheiro; ja lhe tinham dito que todos con- tribuiriam grofamente nio-, que melhor era que o pagalle a fazenda , que perecer tanta gente. Mas como o negocio: eftava já cevado com furia de vingança, tudo fe quiz leixar no juizo das armas, e não em concerto de paz, com que todolos merca- dores ficáram indignados contra ElRey, e: diziam entre fi, que tinham os noflos caufa de fazer todo o mal. Vendo Affonfo d'AL boquergue que de dia, e de noite tudo era: repairar os lugares fufpeitofos , e que a pon te .eftava feita huma fortaleza emartilheria; : e defensão de dobrada madeira , ordenou º hum Decapa IL Liv. VE Car. V. 69 hum junco o mais forte que tinha dos que tomou , mui bem armado de artilheria, e com {uas arrombadas , que fe fole por o mais que pudefle junto da ponte, pera dal- Ji varejar aos Mouros, que andavam fazen- do a obra de a fortalecer. Porque fua ten- ção era não tanto ir impedir a obra, que os Mouros faziam na ponte , quanto per elle mefmo fondar o lugar fe poderia com outro maior fubir tanto aflima, que puzel- fe a barba fobre a ponte; porque quando houvelle de commetter outra vez a Cida- de , per elle efperava entrar na ponte , e lhe ficaria em lugar de fortaleza, por fer de bom gazalhado:, e a gente ficava ampa- rada da artilheria, e fréchas. Mandado et. te junco , por razão de huma corda que fazia o rio ante de chegar dá ponte, não pode paflar, nem outro navio mais peque- no, que aefte fm mandava na fua efleira age vla- 76 ASIA DE JoÃo pE BARROS querque o caminho que commetteo com muitas bombardas , efpingardões, fréchas, zervatanas, e zargunchos de arremeflo, com “Os quaes foi recebido , e na primeira che- gada lhe feriram mais de oitenta homens, pelejando os Mouros como gente que que- ria defender mulher , filhos, fazenda, por fer mais fujeita a etas contas, que quantas havia naquellas partes, e fobre iffo grande opinião de cavalleiros, e em companhia , on- de eram viftos por fe moftrar mui oufados em commetter , e conftantes em efperai, -Mas como os noílos eram coltumados áquel- le officio de foffrer fogo , e ferro, ainda / E que à cufia do feu fangue , quebráram-lhes aquella furia, ferindo nelles tão mortalmen- te. que lhes fizeram alargar as eftancias, Às quaes eltancias tanto que lhes: foram toma- das, repartio Affonfo dAlboquerque o cor- po da gente em duas partes : elle tomou huma , com que foi tomar pofle da ponte; e fegurar que da outra parte da Cidade não paflaílem per ella á outra por acudir á que elle tomou , que era onde ElRey vivia: cå efta tinha encommendada a eftes quatro Ca- pitães , Jorge Nunes de Leão, Diniz Fer- nandes , Jemes Teixeira , e a Nuno Vaz de Caftello-branco, e mandou-lhes- que não pallaffem da mefquita, e que nella fe fizef- fem fortes té elle tornar a elles. Epei E x e ~ DECADA E LIV: VÊ CáPV: 77 eftes Capitães, foram ferindo, e recebendo feridas per o caminho que hiam a tomar a mefquita, a qual lhe os Mouros defpejáram como gente que os queria metter em cila- da, e nella houvera Diniz Fernandes de cahir com toda a gente de fua capitania que o acompanhava, e fômente huma cou- fa lhe deo a fnípeita della. E foi, que abo- cando elle huma rua larga; que era das principaes ferventias , atraveflou-fe ElRey diante delle com té mil e quinhentos ho- mens ; e leixou-fe eftar quedo como que queria que Diniz Fernandes fofle a elle per aquella rua, na qual efpera que ElRey fa- zia , e ver elle Diniz Fernandes huma tão principal rua defpejada , entendeo o que era, de que logo viram final eftar femea- da de abrolhos , e efterpes de peçonha, a fóra outro maior damno queelle não vio, que era minada de polvora, com que não ficára homem vivo. Pafado defta rua aou- tra, per que via correr o fio da gente, veio Afionio d’ Alboquerque ter a efte mefmo lu- gar; mas parece que infpirou Deos em hum homem que hia diante, que tornou a elle, dizendo : Tende-vos, Senhor , não pafeis per aqui, porque nefla rua efld algum perigo: cá Jendo tão principal, não a vejo trilha- da de gente. Affonfo d Alboquerque quana do cahio no cafo , porque podia. algum dos e 78 ASIA pE Jožo DE BARROS Capitães vir cahir naquelle perigo , leixou alli hum com gente pera dar avifo, e paf {ou adiante té fe ajuntar com os quatro, “que tinham já tomado poffe da mefquita; e o mais que fe deteve com elles, foi man- dar-lhes que entretivellem os Mouros pera que não chegaflem á ponte, em quanto elle dava ordem de fe fortalecer nella, por não lhe impedirem a obra. Tornado à ponte achou já muita parte da munição , que ti- nha no junco pofta em terra, que era enxa- das , celtos, machados, madeira, e pipas vazias, com as quaes cheias de terra , € madeira das paliçadas que os Mouros ti- nham feitas na parte da mefquita , mandou fazer hum repaito que encerrava no feu cit- cuito toda a boca da entrada da ponte , € huma ferventia que vinha beber na agua, pera lhe ficar o ferviço do mar feguro. E ao longo defte repairo da parte de dentro mandou tambem fazer de altura de hum homem hum lanço de parede enfoça de ti- jolo de huma fomma delle que alli eltava per ventura guardado pera outra obra de mais contentamento de feu dono que aquel- la em que alli fervio: a guarda da qual ef tancia deo a Jorge Nunes de Leão, Aires Pereira , Baftião de Miranda , Nuno Vaz. de Caftello-branco , e Jemes Teixeira , com a gente de Íuas capitanias. Per o qual — Q DEecapa II. Liv. VI. Cap. V. 79 do na outra parte da ponte, ainda que não foi com tijolo , fez outro tal repairo, e a guarda della deo a D. João de Lima, Duar- te da Silva, Fernão Peres dº Andrade, e Si- mão d'Andrade feu irmão. Na frontaria das quaes duas eftancias mandou eftar certos ba- teis grandes com artilheria, que varejavam pela banda de fóra todo o panno das pali- çadas, por os Mouros não virem per entre a madeira de noite ferir os que as guarda- vam. E por caufa do ardor do Sol, que af- fava os homens, fréchas, e zervatanas her- vadas , que os Mouros tiravam de alguns eirados das cafas mais vizinhas 4 ponte, mandou-a Affonfo dº Alboquerque toldar com vélas das nãos, que deo vida atodos. Por- que não fóômente a véla impedia o Sol, mas ainda como a viração quando corria vinha “enfiada pelo rio, fazia. duas obras , refre% car a gente com o movimento, e abanar da véla , e mais rebatia as fréchas , que não Vellem ferir a gente. Ss £&o ASIA pE João pe BARROS CAPITULO NI Como depois que Afonfo d Alboquerque defpejou a Cidade Malaca , fabendo que o Principe Álodim fe fazia forte no lugar da Cidade Beitam, mandou fobre elle, e o fez ir dalli: e do mais que fez pera feguran- ça, e governo da Cidade. Cabado efte feito da tomada de Ma- laca, que fe fez com oitocentos ho- mens d'armas Portuguezes , e duzentos Ma- labares da efpada , e adarga, por aquelle dia não fez Affonfo dAlboquerque mais que fortalecer-fe nefta ponte ; e ao fegun- do, porque de duas cafas grandes vizinhas a ella toda a noite lhe tiráram com mil E modos de tiros , que faziam muito damno, Ji mandou a ellas elles Capitães, Jorge Bo- | telho , Affonfo Pefloa, e Simão Martins. Os quaes tanto que as tomáram, puzeram em os eirados alguma artilheria miuda, com que fizeram a praça franca ante aquella par- te da ponte, donde recebiam o maior dam-( 7 no ; e trás elles mandou aos Capitães das o eftancias que foflem dar huma vifitação à i Cidade na parte que tinham por fronteria, com limitação té onde haviam de chegar.. O que elles fizeram, dando hum varejo de | lançadas a effes que achavam na Cidade; | em Drcapa II. Liy. VI. Cap. VI. 8r em que fe fizeram honrados feitos ; e ifto por continuação de nove dias, que eftive- ram recolhidos naquella força da ponte. E poto que efte jogo de lançadas não era muito aprazivel aos noflos, por fer á cufta do {feu langue , por menos perigo haviam eltes dos dias, que o das noites, com à commettimento dos Mouros , que elles não podiam afaftar da ponte: té que no fim def- tes dias era já tanto o damno que os Mou- ros tinham recebido , que dos mortos, fe- ridos, e fugidos ficou a Cidade meia def. pejada , recolhendo-fe pelos matos, e nos feus duções aquelles que os tinham. Porém era entre elles tamanha a fome, que antes queriam aventurar o corpo ao ferro dos noflos, por vir furtar hum pouco dearroz à Cidade pelas cafas onde fabiam que fi- cava , que perder a vida por não comer, A gente forafteira com a mefma neceflida- de, (pofto que tinham tomado armas con- tra nós, mais por temer receberem por iffo mão tratamento d'ElRey , que por lhe de- fender a fua Cidade, ) confiados no que Af- fonfo d’ Alboquerque mandou notificar, que aquella guerra não fazia a mercadores , fe- não aos naturaes , mandáram-lhe pedir fe- guro pera le tornarem á Cidade, e eflarem nella te fe embarcar pera fuas terras: E-a primeira nação que: ifto mandou requerer, 4 E i 83 ASIA DE João pe BARROS foi a dos Péguus, aos quaes em geral elle Affonfo d'Alboquerque mandou” fegurar, e per elles mandou notificar lá per onde andavam outros, que não dizia aos eftran- geiros , mas ainda aós proprios Malayos , como foflem mercadores , elle os fegura- ya, querêndo-fe fometter à bandeira PEL Rey de Portugal, como a Senhor daquel la Cidade , que já era ganhada per força das armas daquelles feus Capitães, e cria- dos que nella eltavam. Os quaes Malayos podiam tornar pera fuas cafas , e fegura- mente vender {uas mercadorias, cá lhes feria guardada tanta juítiça como a hum Por- tuguez vaílallo dElRey {feu Senhor : por quanto elle os receberia naquelle amparo, e defensão , e que dava efpaço de quinze dias pera o poderem fazer; e paflado efte tempo , todos feriam perfeguidos como mortaes imigos. A qual notificação, pera maior folemnidade, além de o dizer a ef- tes Péguus , e eftrangeiros, que logo co- meçáram de {e recolher à Cidade, a man- dou fazer com trombetas , e pregões na linguagem da terra pera fer notorio a to- dos: com a qual notificação, e gazalhado, com que Affonfo dºAlboquerque recebia a todos ; não ficou eftrangeiro no mato, € dos Malayos muitos que fe não tornaflem á Cidade. E o principal foi o grande Uti- Ro) é mu- DEcAaDA IL Liye VL Cap. VI 83 mutirája Senhor da povoação Upi , que, (co- mo diflemos y) tinha já com Affonfo dºAI- boguerque , ante da Cidade tomada, intel- ligencias de paz; polto que eftes feus tra- tos fempre foram de homem maliciofo, o que-lhe elle perdoou, fimulando que não era fabedor diflo ; porque nas duas entra- das, principalmente no derradeiro, elle o pagou bem com muita gente fua , que alli foi morta, e ferida, e hum feu filho bem acutilado , que era-aquelle que efteve com O cris na mão pera matar Diogo Lopes de Sequeira , fegundo elerevemos em {eu lugar. Porémante que eita gente fetormaf- fe á Cidade, tinha Affonto: dAlboquerque dado tres dias de cevadura 4 gente d'ar- mas no deípojo della; eRuy Araujo foi ekar em guarda das cafas de Nina Chetu o Gentio , de quem tanto benefício tinha recebido. E fegundo a Cidade era rica , foi o defpojo de roupa, e alfaias de cafa pou- co mais de cincoenta mil cruzados ; por- que O mais os Mouros o tinham falvo per effes matos nos dias que tiveram tempo, que foram muitos pera defpejar quanto ti- nham. E da artilheria-não feacháram mais de'tres mil peças das oito que Ruy Araujo dizia haver na Cidade, parte da qual Hl- Rey mandou levar comfigo; e entre citas Peças fe acháram algumas mui grollas, e e Fi ~ m EES O RAT E EO pm EEE A S E o à E PS RSS EENAA 84 ASIA pe JoÃo nE BARROS huma-mui formofa, que havia pouco tem- po que lhe mandára ElRey de Calecut. Acabado efte defpojo, e tornada muita par- te da gente à Cidade, por dar ordem ao governo della, fez Affonfo dAlboquerque duas principaes cabeceiras, a quem entre gou a juíliça, e governança, fegundo feus coftumes : a Utimutirája o governo dos Mouros, e a Nina Chetu o dos Gentios, que foi caufa de o povo fe recolher de melhor vontade dos matos per onde an- dava comendo fruitas bravas. E porque AF fonfo d'Alboquerque foube que o dia da batalha, quando fe ElRey recolheo, fora pera-o lugar chamado Beitam , onde tinham feus duções , e que dalli fe paffára mais longe, leixando naquele lugar o Principe, o qual fe fazia forte com grandes eftacadas , ‘e cerca de madeira em modo de fortaleza com fua artilheria pofta ao longo do rio, que vinha ter a Malaca , mandou fazer preftes em bateis té quatrocentos homens, e eltes Capitães: Fernão Peres Andrade, Simão d'Andrade, Jorge Nunes de Leão, Gafpar de Paiva, Aires Pereira, Francifco Serrão, e Ruy d'Araujo, que ellivera ca- tivo, pera darem todos fobre aquella obra que fazia o Principe , e o lançarem dalli, em cuja companhia Utimutirája mandou tam- bem té fetecentos homens de fua familia; e os Es ENTE A E i Decana I. Lrv. VI Cap. VI. 83 e os mercadores Péguus trezentos. Os quaes Capitães chegados ao lugar de eltancia do Principe: Alodim , alevantou o arraial, e foi bufcar feu pai, no qual lugar os nof- fos não tiveram mais que fazer, que man- . “ . EA dar queimar aquella madeira que alliachã- . ram, e tornar-fe-á Cidade, e por defpo- jo trouxeram fete Elefantes do ferviço do Principe todos fellados , e as guarnições dos ailentos eram de marfim layrados de ouro , e córes, em que fuas mulheres ca- minhavam, que parece não puderam tomar com a prefla da fugida, e no lavramento ; e riqueza da guarnição dellas mais mof- travam o eftado da paz que da guerra. Com a qual ida dos noflos fe alargou ElRey mais outra jornada, não fe havendo ainda por feguro eltar: tão perto de Malaca , e . nefta mudada começou alguma- gente de -O leixar , vendo que Affonfo dAlboquerque não fe contentava de tomar a Cidade, mas ainda mandava perfeguir ElRey pelos ma- tos per onde andava: e principalmente-co- mo entre o pai, e o filho houve delaven- ças; dando ElRey a culpa ao Principe: da- qal eftado em que andava, por elle, e feu cunhado, e outros de fua valia férem caufa de mover a guerra. Às quaes dife- renças entre-o pai, e filho fizeram que de apartalem hum do outro , cada hum buf- = a a as mera EA pe CS aema traindo se meets EEE NA eee e ig as rrap neee o» ASIA bE Jožo ne BARROS T CAĽITULO Vi. “Como Utimutirája por algumas coufas que commetteo , foi julgado á morte com feus filhos : e dos movimentos de guerra que os feus por io fizeram té Afonfo A Al- boquerque fe partir pera a India: e de al- gumas embaixadas que lhe vieram, e man- dou a diverfas partes ante que fe partif- Je; e afi huma Armada a deftubrir Ma- luco , e Banda. = JF Stando as coufas de Malaca nefte ef- A “tado , veio nova como depois que El- Rey Mahamed, e o Principe Alodim feu filho fe defavieram por as coufas que atrás dilemos , cada hum fazia cabeça per fi, bulcando parentes, e amigos pera com fua ajuda ver fe poderia per algum modo tor- nar-fe a reftituir na poffe daquella Cidade, que perdêram. E entre algumas peíloas com que efte Principe fe carteava pera efte fim, era o Jão Utimutiráia Senhor da povoação EE o qual polo odio em que eltava com ElRey Mahamed , folgou de acceitar efta amizade com o filho; porque como ainda eltava inteiro na fua povoação Upi, defe- Java metter o negocio em revolta , pera ver fe poderia ficar por Senhor da Cidade, que elle mui bem poderia fuftentar com RA gran- DECADA T. Lry. VI. Cap. VII 93 “Brande familia, e fubftancia de fazenda que tinha. Do qual trato que elle trazia, veio ter á mão de Affonfo d'Alboquerque huma carta per meio de alguns imigos do pro- prio Utimutirája, por fer mui mal quito: e a caufa era por elle com o favor do officio fazer algumas tyrannias aos Mou- ros, e mercadores da fua jurdição, a huns tomando-lhes as mercadorias pelos preços que queria, ea outros naturaes de Mala- ca os duções, e propriedades: e fobre tudo todolos efcravos que podia haver à mão, como entravam na fua povoação , nunca dalli fahiam, os quaes logo mandava met- ter no ferviço da obra que fazia, que era fortalecer-fe. Além difto por mais delcubrir a maldade do feu peito, mandou atrayef= far quanto arroz havia na terra, com que o povo clamava por não fe achar a ven- der, fenão o feu a pezo de ouro : e com ifto mandava na fua povoação que não cor- refe a noíla moeda novamente feita, mas a do Rey Mahamed , fendo elle tão gran- de feu imigo, fómente a fim que com efta neceflidade de não haver efta moeda nater- ra, venderia melhor o feu ; e ao tempo que Affonfo d’Alboquerque mandou pregoar aquella nova moeda , elle, nem coufa fua foram prefentes. Finalmente chegou a ow- fadia deite Jão a tanto, que indo hum Nai- TES cam qt a 94 ASIA De Jožo Dr Barros re já feito Chrifião- dos da terra Malabar á fua povoação , elle o mandou prender; e porque o Meirinho da Cidade foi a elle, que lhe mandafle entregar aquelle homem, não lho quiz dar, e {obre ifo diffe ainda mais palavras ao Meirinho chamado Fran- cifco de Figueiredo. E afi injuriou hum. mercador Gentio -o mais honrado dos Que- lijs, per nome Midele Alrája, indo á fua povoação Upi a lhe requerer pagamento de certa fazenda, que lhe tomára : e quafi efcapou de o não matarem os feus elcras vos, que o apedrejáram com pães de efta- nho, que eftavam em huma cafa, que era feu almazem , por não haver pedras na ter- Ta, O qual mercador fe veio: logo quei- xara Affonfo d’ Alboquerque. Sobre as quaes coufas praticando elle com Ruy Araujo, que fervia de Feitor, e outros Officiaes que alli haviam de ficar na fortaleza, aflentáram, vifto como elle Jão diante dos feus olhos todolos dias fazia mil forças , e os finaes de fuas obras eram, que como viefle tem- po, os havia de metter em revolta, feu vo- to era que ante de proceder mais em ou- tras maldades, que não tiveffem remedio; devia de morrer por o melhor modo que ahi houveffe pera ifo , e de menos efean- dalo. Nefte mefmo tempo foube mais AF- fonfo PAlboquerque , que efte-Jáo todo- > “os Decana T. Liv. VL=Ca?. VIL 95 los dias mandava contar quantas covas ha- via dos noífos que: faleciam ; porque além daquelles que morréram a ferro, começou a terra de os apalpar , e morriam alguns dos muitos que adoeciam: e pera mais con- firmação de fua foberba per vezes que Af- fonfo d'Alboquerque o mandou chamar; elle, nem o filho nunca quizeram vir, fi- mulando doença , e outras coufas. Andando Affonfo & Alboquerque mui cheio das fuas, aconteceo, que hum Coge Habraem Mou- ro , Parfeo de nação , grande amigo defte Uti- mutirája veio pedir a elle Affonio Al- boquerque o officio de Quetual da Cida- de; ao qual refpondeo , que os taes oficios não os havia de dar fem confelho dos ho- mens principaes da Cidade, que os ajuntaf- fe elle ahum certo dia, e que per ante el- les lho-daria. Coge Habraem como teve efta palavra, houve logo que tinha o offi- cio, pois não eltava em mais que ajuntar os Mouros principaes ante elle Affonfo &º Al- boquerque; e teye logo maneira, pola ami- zade que tinha com Utimutirája, como ajun- tou aelle, e'a Patiáco , e Patiprá {feu filho, e genro, ea Tuam Colafear Governador dos Jáos da povoação de Ilher, Nina Chetu Governador dos Gentios , Pate Quetir Jãos ji e a outros dos mais principaes da terra. Affonfo- d’ Alboquerque tanto que foube : à -e Vito a j ESSE Es - Ee 96 ASIA Dr JoÃo nz Barros vinda delles, ajuntou-fe com os Officiaes; e Capitães em modo que os queria ouvir ; e elles ouviram outra prática mui differen- te; porque ante que fallaíflem, mandou a Ruy d'Araujo que lefe os capitulos das coufas que Utimutirája tinha commettido , e a carta que tinha efcrito ao Principe Alo- dim ; muitas das quaes coufas: elle confef- fou , dando algumas mais razões de fua defculpa. Finalmente daquella feita, elle, o filho, e genro, e hum neto já homem ficáram prezos, e Pate Quetir que-era pre- fente, entregue do officio delle Utimutirá- ja, fobre o qual cafo Affonfo dAlboquer- que mandou proceder judicialmente, tiran- do-fe teftemunhos de Mouros , e Gentios: E a primeira execução que fez fobre fuas culpas, foi mandar-lhe reftituir o roubado em que entráram mais de quinhentos efera- vos de partes, e dos PEIRey chamados Ambarages , que diflemos : e fobre iffo man- dáram-lhe desfazer as tranqueiras que no- vamente tinha feito , e encher de terra as cavas : a execução das quaes coufas fazia Pate Quetir , como official que já era da- quella parte de Upi, e per derradeiro deo- fe fentença que morreíle elle, o filho, e genro, e neto. A mulher fabendo parte def- ta fentença, mandou pedir a Affonfo Al- boquerque houvelle por fatisfação defte = = q Do erea VIL 97 Tó elles com toda {ua familia fe irem vi- ver ajãoa, pois Malaca os havia por odio- fos; e-que daria por-fuas vidas tantos mil — pezos: de ouro, que da nolla moeda: pafa- riam dé cem mil cruzados. Ao que Afion= fo d’ Alboquerque reípondeo ; que elle era Minifiro da juítiça PEIRey D. Manuel de Portugal feu Senhor, o qual não-coltuma- va: vender jnítica: por dinheiro”, por fer a mais preciofa-coufa do Mundo; e por ilfo que fe confolafle, porque-elle padecia con- forme a vida que téve , e enfinou a feus filhos té “os trazer áquelle eftado. E. pare- ce que permittio ainda Deos que a maior. parte do cadafalfo, que per feu confelho é e do Bendara, que af acabou , fe fez na praça em que elles efperavam banquetear com crua morte-a Diogo Lopes de Sequei- ra, (Como; elcrevemos., ) efte fervio pera efa lentença: que fe deo contra elle ;- porque foi degollado nelle , e feu - filho Patiáco , que tambem ao tempo que Diogo Lopes jogava o enxadrez elteve com o cris pera O matar; e alli os outros que-erâm os mais chegados a elles por fangue, com pregões. que denunciavam has culpas. A qual ju tiça-foi a primeira que per-noffas leis -€ dg | € ordenações.; e proceflada- fegundo yfórma de Direito; fe fez naquella Cidadela yit= te e feto dias de Dezembro de quinhente 4am. I Pal, aG o eor 98 ASIA pr JoÃo DE Barros eonze, havendo dezefeis dias que era pre- zo. Com o qual feito o povo de Malaca ficou mui defaflombrado daquelle tyranno, e houveram fermos gente de muita juítiça, eque a não vendiamos por tão pouco pre- co, como le naquellas partes entre elles ufa, pois dando a mulher de Utimutirája tanta | tomma de ouro, ante Affonfo dºAlboquer- que lhe quiz mandar entregar os corpos pera lhes dar fepultura, que as pefloas, fem nelle fe executar o que deviam por fuas cul- pas. Eita mulher movida com a dor deftes filhos, e marido , determinou, pois Affonfo q Alboquerque lhos não quiz dar polo ouro que mandava prometter , de gaftar todo ef te ouro na vingança de fua morte, e pera ifo não achou melhor meio , que dar a Pate Quetir feis, ou fete mil pezos de ou- ro, que fizefle quanto mal nos pudeffe fa- zer, porque ella lhe entregaria pera iflo tos da fua familia; e mais dando-lhe efta vin- gança, que o cafaria com huma filha fua. Pate Quetir, como era homem poderofo na terra , ainda que em vida de Utimutirája não eltava bem com elle, com cubiça do premio de que logo via boa entrada ; e tam- em com eíperança que podia Malaca com efta revolta vir a termos que feria elle fe- nhor della , por a grande familia de Ut- mutirája, e riqueza que ficára delle, e se ni e Mio Decana IL Liv. VI Car. VII 99 nito não aventurava coula alguma , pois era á culta alhea ; huma ante manhã veio queimar toda aquella parte da Cidade con- tra a povoação Upi , por alli viverem os Chats do Quelim , dos quaes fe ella quei- xava, dizendo ferem authores da morte de feu marido , e filhos , por os queixumes que delles foram fazer a Affonfo d’Alboquer- que. O qual infulto tanto que oelle foube, andando já os Jáos com as mãos tintas do fangue dos mortos, mandou alguns Capi- tães que acudiflem a iflo, os quaes fizeram recolher a Pate Quetir na povoação Upi. Maselle não contente com efta vez, man- dava daquella gente que tinha per effes du- ções de Quelijs, com que fazia grão dam- no, e aíli naquella parte da Cidade, dan- do de fubito alguns rebates, de que os Ma- laios andavam aflombrados, por temerem muito a eftes Jáos como a gente defefpera- da que não temem morrer com tanto que jatisfação fua vingança. A qual furia durou per dez dias, té que o mefmo Pate Que- tir veio aflentar paz com Affonfo d’Albo- querque , moftrando que por ganhar fua amizade , e defejar o ferviço PEIRey de Portugal, amanfára os corações daquella gente, á qual fe lhe não fora concedido aquelle modo de vingança, quafi como cho- qto nos calos tão trifles, como foi o de feu = G = Deu PS EAD PEN EPA DE PS EE A ngoo ASIA DE Jožo DE BARROS Senhor , fegundo a gente dos Jáos he fus riofa naquelles actos, fempre fizeram maior damno ; mas com aquella cevadura, que foi artificio de os amanfar , elle cs tinha já pacíficos , e obedientes a feu mandado. Affonfo d'Alboquerque porque foube- que efte Jão defejava muito cafar com a filha: de Utimutirája , que lhe fua mãi promettia, pareceo-lhe. que: por comprazer à mulher delle pera efeito daquelle cafamento fizera aquelles commettimentos:, que caufou difi- mular o melhor que pode com elle, levan- do-lhe em conta fuas defculpas. E porque via tambem que começava elle ter credito entre os Jáos , gente a mais principal, e poderofa da terra, e dando-lhe de todo o officio que fora de Utimutirája, ficava mais “honrado pera a mulher delle lhe dar fua filha em cafamento, com que ficaria de to- do afiocegado , deo-lhe o officio; com que per ete modo ficou em paz fobmettido à nofla obediencia. Mas ifto durou mui pou- cos dias; cá a mefma honra que lhe Af- fonfo d?Alboquerque fez na dada do offi- cio , caulou tornar-fe a rebellar ; porque vendo-fe cafado com- a filha de Utimutirá- ja, com que ficou fenhor daquella fua grão familia, e fazenda, ficoulogo vingador de fua morte , porque com cha condição lhe deo a logia a filha, Porém logo no prit z “ei E dE Decapa H. Ery. VÊ Cap. VIL 107 cipio não fe moftrou mais que revel aos mandados: de Affónfo dºAlboquerque fem fazer guerra , efperando que fe fofle elle pera a Índia, que feria tanto que a monção vicde. Eftando as coufas nefte eftado, El- Rey de Campar , cujo Reyno he na Ilha Camatra obra de vinte e feis leguas ao Le- vante de Malaca, porque fora calado com huma filha A ElRey “de Malaca , de que era viuvo , donde entre elles houve defa- vença, determinou de fe metter em noíla graça pera che fim. Sabendo elle como Affonfo dAlboquerque 4 mingua de ho- mens nobres per morte de Utimutirája pro- vêra do officio que elle tinha a Pate Que- tir, o qual fe rebellava, determinou de lhe mandar pedir que o leixafle vir a Malaca a fervir a ElRey de Portugal, cujo vaffal- lo quéria fer , parecendo-lhe que os Ma- layos-por razão da nobreza de fua peffoa; como o vilem em Malaca, pelas intelligen- cias que já fobre ifo tinham , pediriam a Affonto dAlboquerque-que lhe déffe o of ficio que tinha Pate Quetir. Com a qual, entrada , de duas o tempo lhe podia dar huma, ficar fenhor de Malaca, ou provo- , | MM TT Ã E 108 ASIA DE Jo0Ão DE BARROS e Cayalleiros ; ella era tamanha coufa, que regueria fempre prefente a pefloa delle Ca- pitão mór, principalmente naquelle tempo, Por tanto elles como bons , e fieis vaflal- | los PEIRey de Portugal, os quaes elle Ca- pitão mór tinha ganhado per armas, e de- pois per amor de boas obras; emercê que delle recebêram:, lhe requeriam que por en- “tão não fe partifle pera a India, ao menos té a outra monção ; e que fe per ventura na feitoria PEIRey havia alguma neceffi- dade pera pagamento. da gente de armas, elles a fuppririam com fuas fazendas, Af- fonfo PAlboquerque; pofto que elles mo- radores o apertavam muito , quafi imputan- do a elle o mal que ao diante fuccedelle com {fua breve partida , todavia efte zelo. que vio naquelias: peífoas tão principaes, de quem dependia-a governança, e afloce- go da terra , o fegurou mais em fua ida; e: dando-lhe por ifo muitas graças, e as razões que obrigavam acudir ao eftado da India, os efpedio, e dahi a tres ; OU qua- tro dias fe partio com quatro vélas. Elle em huma, e nas tres vinham Jorge Nunes de Leão, Pero d'Alpoem, que era nas em que foram da India, e Simão Martins em hum junco, que tomou naquelle caminho, todo amarinhado de Jáos , em que entra- yam muitos carpinteiros, calafates, e offi- Es claes Decana Liv. VI. Car. VIL 109 cines mecanicós, que Affonfo dºAlboquer- que levava em grande cítima, por eftes jãos ferem grandes homens deite miter do mar, os quaes. feriam quafi feffenta peffoas , a fó- ra mulheres, e filhos, que elles coftumam trazer -comfigo.- E ao tempo-que Affonfo & Alboquerque fe embarcou , o Principe Gei- nal, que elle tomou em o junco Bravo; def- appareceo : parece que defconfiou de poder fer reftituido em feu Reyno , como lhe AF fonfo P Alboquerque tinha promettido, ven- do que'levava elle comfigo poucas velas, “e gente. E poko que Affonio dAlboquer- que mandou fazer diligencia em fua bulcas nunca o puderam achar: e depois {e foube fer ido: pera ElRey Mahamed , que fora de Malaca por tratos que andaram entre elles, onde efteve alguns annos, tè quë. per feu favor veio cobrar O Reyno de Pacem, em que durou pouco, como veremos em {eu tempo. E nefte de feu delterro, o ty- ranno que o lançou do Reyno , temendo que Affonfo d Alboquerque lhe pediffe con- ta daquella obra, e mais-do-que era feito a João: Viegas no feu porto de Pacem; trabalhou fempre de o contentar, e ganhar a vontade com boas obras; porque -alguns homens que foramter ao feu porto da não. Flor de lamar ,- que naquela: viagem que Affonfo PAlboquerque fezopera a India, e ~ pes nirani Ap Rg nT," PEF EE ENE TIEPE ELEA e E a a i rro ASIA- dE João DE Barros fe-perdeo, ( como veremos ,) elle os aga- zalhou, e mandou com davidas em as nãos de Choromandel, que hiam carregar ao feu porto, pera dahi fe irem a Cochij. E lei- xando Affonfo d'Alboquerque a viagem, do qual efcrevemos adiante, convem, pri- meiro que entremos em o anno de doze, darmos conta do que paflou na India , e principalmente em Goa, em quanto elle an- dou fóra. ESASP IES LO VIE “Como os Mouros das terras firmes de Goa , partido Afonfo d Alboquerque pera Malaca , lhe vieram fazer guerra, té bum Capitão do Hidalcão entrar na Ilha , em que o Capitão Rodrigo Rabello, e Manuel da Cunha foram mortos. d “Omo muitas terras firmes de Goa não 7 eltavam de todo aflentadas, nem o ani- mo de feus moradores mui fieis na obedien- cia nofla, tanto que viram partido Affonfo dAlboquerque pera Malaca, lugar tão re- moto da India, e terra pera que os noflos não tinham navegado, e mais mui duvido- fa pelo que nella aconteceo a Diogo Lopes de Sequeira , como gente que não temia fua tornada, começou de fe rebellar, não que- rendo acudir com o rendimento das tāna- RE da- Dre IE Liv: VI Gar VIIL TIT darias ao Capitão Melrao, a quem Affonfo L Alboquerque as tinha dado pela maneira que diflemos. E pofto que coma gente da guerra que elle trazia ordenada pera defen- são daquellas tanadarias , ás vezes fazia a arrecadação dellas com trabalho , muito maior o teve tanto que com força de gente veio fobre elle hum Capitão do Hidalcão chamado Pulate Can, té que per derradeiro vindo efte Pulate Can a lhe dar huma ba- talha , Melrao lhe fahio , e o desbaratou com quatro mil peães , e quarenta de ca- vallo que tinha , tendo Pulate Can muito maior número de gente. Seguindo o alcan- ço do qual hum {feu Capitão delle Melrao per nome Içarao , quiz tanto perfeguir os imigos, que quafi defeíperados de falvação em hum lugar eftreito tornáram {obre f, onde Içarao foi morto, e a maior parte da gente que levava , com o impeto da qual victoria: vieram dar com Melrao:, que eftava repoufado: daquelle feito, e foi alli desba- Tratado. “E porque lhe tomáram o caminho de Goa, e elle fer homem de honra, e fa- ber, que ácerca de nós he injúria perder o campo , não oufou vir ante o Capitão Ro- drigo Rabello naquelle eftado de vencido e foi-fe pera ElRey de Narfinga , levando comíigo Timoja , que (como vimos) elle tinha tomado fobre f por caufa do roubo A) ai | i d | | À ERR Le cd e TO RR a rn Sed D AT Cipa, 7, OO 112 ASIA DE JoÃo pE BARROS das nãos, os quaes damnos fe os não pa gou com a fazenda, foram pagos com {üa morte lá em Narfinga de [ua chegada a poucos dias. Com a qual nova fua mulher, e filhos fugiram de Onor onde eftayam , e fe vieram a Goa bufcar nofo amparo , aos quaes Affonfo d?Alboquergque-depois de fua vinda de Malaca, ( pofto que elle “Timoja vera travello,) por memoria dos ferviços que fez na tomada de Goa, e exemplo ao Gentio daquella terra, que as mulheres, e filhos daquelles que militavam, e morriam por nós, eram amparados, lhes mandou or- denar certa coufa de que fe mantivelfem, Melrao depois que foi em Narfinga , não tardou muito que não foi chamado por o. povo do Reyno de Onor , por fer morto o irmão , com que tinha guerra fobre a fuc- ceísão do Reyno. E como era homem gra- to ; tanto que foube que Affonfo LP Albo- querque era vindo de Malaca, lhe mandou algumas peças de ferviço , em que entrou hum aflento forrado: de ouro -ao modo de tripeça , que lhe ElRey de Narfinga deo quando, fe delle efpedio por vir herdar , e {empre foi grande. amigo de Portuguezes em quanto viveo. Ficando asterras de Goa defamparadas com ella batalha, em que Mel- rao foi desbaratado , fem Rodrigo Rabello lhe poder foccorrer, por a pouça gente que fi> Dec Lia Ml. Ci VE Iis tinha ; levantou-fe nekta conjunção hum Mou- TO coixo , e com prégações per modo de religião começou de induzir, € convocar muito povo dos Mouros dos que lançaras mos da Ilha de Goa, e de outros à ella vi- zinhos que vieílem fobre ella, promettendo com feus fermões de Satanaz reftituição del- la, de maneira, que com a gente que efte Mouro ajuntou, e outra que Pulate Can ti- nha fe fez hum corpo de mais de oito mil homens , com que elle Pulate Can al- gumas vezes vinha dar moftra derredor da Ilha, edo {fucceffo tomar confelho do mo- do que teria em commetter a entrada del- la. A qual elle não commettêra, fe Rodri- go Rabello fizcra a torre, e baluarte, que lhe Affonfo dAlboguerque leixou ordenado que fizefle no paífo Beneitarij na parte da Ilha onde eftava hum muro velho largo, e loberbo fobre o rio, com huma porta como. que já em outto tempo fe fizera alli aquella defensão por guarda da entrada da Ilhas Porque como toda era cercada de rio largo, fegurado efte paflo , por fer o mais corrente da terra firme”, ficava O mais da Ilha guardado com pouca vigia; é quando: per qualquer outra parté foffe entrada , pe ya fahir. della aepreíla , não podia fer fenão- per aqui , o qual lugar tomado ; ficava a gente defta entrada perdida, é ifo cer dom. IE Pal, EIS mta ne TR ra do SR a Isqeçisio= SEI pad ag STO ra reator E II4 ASIA DE Joño pE BARROS que Affonio d’Alboquerque lamentava de- pois da fua vinda. A qual obra Rodrigo Rabello por então houve por efcufada , por ter outras da Cidade a que acudir, e mais vendo que Melrao andaya com gente de guerra nas terras firmes , e que não havia nellas Mouros de que temer a entrada da Ilha, depois que Melique Agrij perdeo ef tas terras firmes, e o Hidalcão com fuas occupações da guerra que tinha no fertão não acudia a ellas. Peró depois que elle Ro- drigo Rabello vio Melrao desbaratado com a vinda de Pulate Can, e que com elle fe ajuntáram os Mouros do outro prégador, com que lhe vinha dar moltras derredor da Ilha, e podia em jangádas, como da outra vez , commetter a entrada della, ordenou navios de guarda, porque té então a vigia dos. paílos era encommendada ao Tanadar Cogequi) homem de guerra, e mui fiel fer- vidor. O qual com certos Naiques , que são Capitães da gente de pé, fegundo ufo da terra, de noite, é de dia roldavam os paffos de fufpeita ; porque como elles eram do Gentio Canarij da Ilha, que tinham nel- la mulher , e filhos, tanto importava a el- les a guarda da Ilha, por lhes não deftrui- rem fua pobre aldea onde viviam + como aos noflos a Cidade onde eftavam mais fe- guros ; e {obre tudo fempre o Adail Dio- meiu | “go Dec HM. Liv. VI. Cap. VII. 115 go Fernandes ordinariamente com a gente de cavallo , epé a elle ordenada, a gyros vilitava todolos paílos. E porque os de Be- neftarij, e Agacij eram de maior fufpeita, tanto que Pulate Can deo mofira de fi, mandou Rodrigo Rabello a hum Pero Pre- to morador da Cidade, que eftivele com hum batel grande com alguns homens, e “duas peças de artilheria em o paflo de Be- neftarij, eno de Agacij outros dous bateis , em hum delles Aires Dias, e no outro Ai- res da Silva por Capitão de todos tres, dando vifta a huma, e outra parte. É elle Rodrigo Rabello per muitas vezes cavalga- va com té quarenta de cavallo, e gente de pé da terra, e andava favorecendo as al- deas, e dava tambem alguma moftra a Pu- late Can , que apparecia da outra banda do tio. Havendo já dias que a guarda da Ilha procedia per elta maneira, como Pulate Can era homem de guerra, e de induítria, or- denou humas jangadas per huns efteiros den- tro do rio de Antrux, que vinham dar no pafo de Agacij, molirando que per aquel- la parte havia de fazer a entrada , e pera ifto tinha fuas intelligencias com alguns Gen- tios moradores na Ilha, que como foffe dentro, que leixallem os noflos, è fe ajun- talem com elle. Do qual commettimento MS a E Hu Ci rg Rd a dd a Caça ETR ES 116 ASIA DE JoÃo nE BARROS Capitão delles o defcubrio a Rodrigo Ra- bello; e paflando alguns dias que elle Pu- late Can andou com elles nefte trato, tudo induftriofamente pera que Rodrigo Rabello o foubelle, mandou dizer a eftes principaes que tinha convocado pera o negocio, que pera huma tal noite o vieflem efperar ao. pafo de Agacij, Rodrigo Rabello como foi avifado delta noite de fua entrada per aquella parte , mandou a Pero Preto, que eltava em Beneftarij , que fe viefe ajuntar com Aires da Silva. Pulate Can como não efperava outra coula , tinha no paílo Benel- tari) gente preítes, e a nado pafláram a Ilha fobre as adarpas , e ceftos obra de trezen- tos homens, que vieram logo ao longo da ribeira te o pafo de Agacij tomar a gente. da terra, que eltava alli em guarda do paf- fo Agacij. A qual como tinha os olhos no mar, e o deícuido na terra, quando fenti- ram o ferro em f , houveram que a Ilha era entrada per muitas partes, e não de gen- te que os convocava em fua ajuda , mas que lhes queria tirar a vida, e por iflo co- meçou cada hum acudir a fua aldea a poer em cobro mulher, efilhos. Aires da Silva, que eftava defronte na terra firme vigiando afahida das jangadas , quando ouvio os alas. ridos dos Mouros, e arder a aldea dos Gen- tios, que eltavam em guarda do paílo, pe R tes Dec. IL Liv. VI Cap. VII. 177 recendo-lhe que algumas jangadas das que elle efperava cram pafladas da banda da- i lém , foi demandar a Ilha pera ver fe as yia; e não as achando, nem menos o Nai- que que eftava fobre o paflo, tornou-fe ao lugar que ante tinha, que era aquelle per onde efperava que haviam de fahir as jan- gadas , fegundo o avifo de Rodrigo Ra- bello, parecendo-lhe que a grita, e arder da aldea era alguma maldade dos Gentios da terra feita per a induftria de Pulate Can; pera que em quanto acudifle alli com os bateis, fahir elle com fuds jangadas. À qual fufpeita era ai, porque não feria Aires da Silva tornado a efte lugar quando fentio o rumor da gente que vinha nas jangadas; e porque o cfcuro da noite , e chuva lhe não dava vifta pera as commetter , conver- teo-fe a mandar tirar com artilheria aefmo, onde fentitam o rumor ,-que caufou não fe mudarem os Mouros donde eftavam ; © que aproveitou muito pera fe falvarem, Por- que quando veio pela manha com a maré | valia, e o mar efpraiar muito, por ferem aguas vivas, ellavam todos em Íecco: huns E fobre coroas de aréas, outros em vala; de maneira, que os noffos bateis não podiam ir à elles, e eltayam hum pouco affaftados pera com artilheria lhes fazer algum damno: «Aires da Silva em quanto os tinha alli pre- | / EE AS SA EEE SR TO PIRES EOE raon: = ADS iij p A dv em xr é ny 124 ASIA DE JoÃo ne BARROS dade da morte de taes peífloas, houve nel: la grande confusão ; porque ainda que ti- nham fabido da vitoria que dante houve- ram, com fua morte tudo elqueceo ; e mais vendo que o Gentio da terra atallalhado grande número delle entrava clamando que a Ilha era entrada de muitos Mouros. E polto que per Regimento PEIRey os Al caides móres fuccedem aos Capitães, por o negocio da defensão da Cidade eftar em grande rilco , e pera o governo della havia milter hum homem de madura idade, e de muita experiencia nas coufas da guerra , a maior parte da gente foi , que a capitania delle fe défle a Diogo Mendes de Vafcon- cellos , em que concorriam as qualidades que convinham pera iffo, vifto tambem co- mo Francifco Pantója Alcaide mór quafi defitió do direito da fuccefsão. E por elle Diogo Mendes ficar prezo no caftello pelo calo que atrás fica, Francifco Corvinel Fei- tor, e os Officiaes da Camara da Cidade, e outras peíloas principaes lhe foram com acto: folemne levantar a menage de prezo, . e lhe entregáram o governo da Cidade com nome de Capitão della. Aires da Silva, que foi dar no paflo Beneltarij fem fer fabedor deftas coufas , andou a huma , ea outra parte ver fe era alguma gente entrada na Ilha; e tornado ao paílo de Agacij, onde a lei- Dec. IE Liv. VI Cari VI. 125 leixára os Mouros em fecco , achou que com a vinda da maré muita parte delles eram recolhidos , e outros eftavam em tal lugar, que lhes não podia fazer damno. An- dando na qual diligencia , veio faber per gen- te da terra que delciam à ribeira buicar am- paro do mal que fe fazia nas aldeas , que a terra era cheia de Mouros de Pulate Can, que entrára de noite, e ante manha per o paffo Beneftarij. Com a qual nova, de que . foi logo mais certificado com o grande nú- mero de Mouros , que acudiam ao porto de Agaci) ver fe poderiam paflar em jan- gadas , determinou-fe que fua efancia alli era efcufada, pois os Mouros tinham tan- tas partes per onde entrar, e mais que da Cidade não lhe vinha recado, como occu- pada em alguma grande neceflidade. E com elte fundamento fe foi a ella, onde achou os trabalhos que diflemos , e a partida del. le fez que a gente de Pulate Can -paffaffe mais preítes, e à fua vontade, por lhe não fer defendida a paffagem. O qual Pulate Can como homem que fazia fundamento de pôr em cerco a Cidade, quiz fegurar a entrada, e fahida na Ilha, fazendo no paf- jo Beneltarij cavas, e vallos pera de vagar fazer huma fortaleza , tomando parte- de hum onteiro; por lhe não ficar aquelle par ece- gs | per drafto {obre a cabeça , donde poderia + 16 ASIA DE Joño ve BARROS ber damno , ecom pouca artilheria lhe po- diam defender a ferventia da terra firme, donde efperava todo feu provimento. CAPITULO K Como o Hidalcão mandou outro Capitão Jobre Goa , e o moda que teve pera com zoja ajuda lançar Pulate Can da fortale- za que começou fazer: e omais que acon- żeceo no tempo que a Cidade efteve cerca- da , té fe nella lançar foão Machado hum Portuguez que andava entre os Mouros. Hidalcão como foi certificado defta entrada da Ilha fem fer per carta de Pulate Can, e da fortaleza que fazia no paf- fo , e outras coufas como homem izento, começou de tomar prefumpção que não ek tava muito fiel nas coufas de feu ferviço; porque Já dantes não lhe refpondia com o rendimento das terras firmes, dizendo def- pender tudo com a gente que trazia a fol- do pera as defender de nós. Com a qual fuípeita ante que elle Pulate Can fe fizefe mais poderofo , ordenou de mandar outro Capitão, e foi hum feu cunhado per nome Roztomocan , a que os noffos chamam Ruz- çalcão , porque por fer peffoa tão principal, e mais por levar té fete mil homens , em que entravam muitos Mouros brancos de DecaDa TI. Liv. VI Cap. IX. 127 toda nação, Pulate Can lhe obedeceria. À qual coufa fuccedeo pelo contrario: cá Pu- late Can fe moitrou mui aggravado , dizen- do que o Hidalcão lhe tomava fua honra em mandar a elle Roztomocan , pois com tanto fangue vertido tomára aquella Ilha, de que o mandava tirar , não tendo delle Hidalcão recebido mais ajudas pera efte fei- to, que huns poucos de homens que per feu mandado trouxera logo no princípio da- quella guerra, e que tudo o mais té aquel- le eftado era induftria , e trabalhos: delle Pu- late Can. Roztomocan quando o vio tão indinado , e folto em palavras, confirmou o que fe delle fufpeitava, eftar meio alevan- tado, e como homem prudente, e manhoio fez a efte negocio dous roftos , que lhe mui- to aproveitaram: pera tudo lhe ficar na mão. O primeiro foi a Pulate Can, dizendo-lhe, que não fe podia negar elle Pulate Can ter commettido aquelle feito como cavalleiro que era, por o qual merecia mercê ao Hi- dalcão , e que elle lhe efcreveria como as coufas eflavam em melhor eftado do que lhe fora dito ; que a culpa de elle alli vir fora delle mefmo Pulate Can não eferever ao Hidaleão o que tinha feito, e havia mit ter pera acabar de levar de todo aguella. empreza na mão. Que entretanto como com- panheiros fizeffem o que convinha ao fervi- dia 2 S . : e ço De 128 ASIA DE JoÃo DE BARROS ço dé feu Senhor, fortalecendo bem aquel- la fortaleza que tinha começado té vir re- cado do Hidaicão, e que elle confiava fer tal, qual convinha a fua honra. -O outro rofto que efte Roztomocan fez por achar ete Mouro tão alevantado , foi diffimular fuas coufas por não virem 4 noticia de to- dos, e mandou fecretamente a Diogo Men- des de Vafconcellos Capitão da Cidade hum Portuguez per nome Duarte Tavares , que do outro cerco paffado fora alli cativo, e andava l4 com outros que foram tomados com Fernão Jacome. Per o qual lhe man- dou dizer, que o Hidalcão eftava em pro- pofito mais de-ter paz, e amizade com El- Rey de Portugal, que andar com feus Ca- pitães em continua guerra, e que com ella tenção elle não mandára mais gente fobre aquella Cidade , polto que era huma das coulas mais principaes do feu eftado; por- que mais eftimava a amizade PEIRey de Portugal, que a propria Cidade em fi, com tanto e a renda das terras firmes ficaffe com elle Hidalcão da maneira que entre elle, e Affonfo dAlboquerque eflava affen- tado. E porque ao prefente elle era em Ma- laca, o Hidaleão feu Senhor o mandava a duas coufas: a primeira lançar dalli Pulate Can como perturbador defta paz, mui en- carniçado nos roubos da terra, per e z em Dresca M. Liv. VI Cap. IX. 179 “fem licença do Hidalcão commettêra entrar naquellallha; e a fegunda affentar efta paz com elle Capitão. À qual fegundo tinha en- tendido, Pulate Can contrariava, e todo o feu negocio era ir avante com aquella guer- ra, como homem que fe via rico ; e hon- rado depois que a começou. E que a lhe defcubrir o que palflava em verdade , elle o achava rebel aos regimentos , e manda- dos. do Hidalcão , a qual confa elle difi- mulava té faber delle Diogo Mendes o que determinava {obre o negocio defta paz, que lhe o Hidalcão mandava dizer. Porque que- rendo elle aflentar nella, convinha primei- ro: dar-lhe huma certa ajuda, que havia mif- ter pera lançar Pulate Can daquella fortale- za» e todolos feus fequazes que eram con- trarios a efta paz, a qual ajuda era de al- guns- bateis, e artilheria nelles , que foflem ao pallo Beneftarij em favor delle Rozto- mocan, Diogo Mendes quando vio efte re- cado , havido confelho com os principaes da Cidade, e com o mefmo Duarte Tava- Tes, o qual enganado de Roztomocan não fômente promettia liberdade dos outros ca- tivos , mas ainda dava grandes efperanças de outros negocios ácerca do Hidalcão fol- tar de todo. as terras firmes, como todolos da Cidade eftavam neceflitados de a a vimento , e do que. convinha á: defensãa Aom JR PE o e fes ce | if sm i Hi | 1 $ h iH $ niig | S TEENETE O ANA AA PER ENS e ee es pu a ae sm eea = siye 730 ASTA DE JoÃO DE BARROS - delle, pareceo-lhe vir aquelle requerimento de Roztomocan ordenado per Deos; e jun- tamente todos foram, que logo fe lhe devia dar a ajuda que pedia ante que ambos fe concertallem , e allentar a paz com elle Roz- tomocan té a vinda de Affonfo dºAlboquei- que , que a confirmaria., e mais pois era, conforme ao queelle já movêra. Finaimen- te fem mais cautela Diogo Mendes o fa- voreceo per mar , como elle pedia, com que lançou Pulate Can fóra da fortaleza; o qual indo-fe aggravar ao Hidalcão dáquel- la injúria, tendo-lhe tanto ferviço feito, lá lhe deram fecretamente peçonha, com que acabou. Roztomocan-como ficou defaflom- brado delle, em lugar de desfazer a for- taleza, começou novamente a fe fortalecer mais com dezefeis mil homens que tinha “comíigo, dos que elle trouxe, e de outros que ficáram de Pulate Can , que lhe logo obedecêram por fer peífoa tão notavel , e pera ifo amoltrou os grandes poderes que trazia do Hidalcão feu cunhado. Pofto em paz feu arraial, a primeira coufa em que moftrou a Diogo Mendes que tratára com elle cautelofamente , como: homem de guer- ra, foi mandar-lhe dizer que elle tinha já deípejado a fortaleza daquelle trédor Pula- te Can, que dahi por diante não lhe ficas va mais por fazer , que deípejar a elle das des i Sae quel- DecaDa Ti. Liv: VL Cap. IX. 131. quella Cidade, cabeça, e principal affento “de {feu Senhor o Hlidalcão; que como ami- go lhe pedia , e aconfelhava que afli o fi- “zefle, e logo, Ífenão que o iria elle fazer, Haveria nefte tempo dentro na Cidade Goa té mil duzentos e cincoenta: homens de pe- leja , os quatrocentos e cincoenta Portugue- zes , emque entravam trinta, que logo com o novo cerco de Pulate Can Diogo Correa Capitão de Canantr mandou em foccorro , de que vinha por Capitão Francifco Perei- ra de Berredo, e todolos mais eram Cana- tijs da terra. Os quaes na entrada que-os Mouros fizeram na Ilha, fe recolhêram á Cidade com fuas mulheres, e filhos, e pe- lo tempo em diante foram mui proveitofos ; porque como o cerco da Cidade durou mui- to, e os combates eram a miude;, elles, e as mulheres ajudavam bem , não lhes fahin- do da cabeça de dia, e de noite os ceftos da terra, e os cochos de barro; acudindo ao > e repairar com hum fervor, como fe foram os proprios Portuguezes ; temen= do os noílos, logo quando fe acolhéram 4 Cidade , que com a entrada delta gente, | além de não fer mui fiel, haviam de pade- cer à fome , por os poucos mantimentos que havia nella, e elles foram caufa de vi Tem de fóra nos mezes do inverno», que fora o de maior trabalho. Porque como os gs da e EMO 132 ASIA pr João DE Barros moradores das Ilhas Divar, e Choran eram feus parentes, e muitos delles já liados com os Portuguezes per via das filhas, que eram cafadas com elles , acudiam com grande | perigo de fuas pefloas furtadamente por amor dos Mouros com quanto podiam haver pe- ra provisão da Cidade, não fómente como vaffallos fieis, mas como parentes, que foi huma das maiores ajudas que os noflos ti- veram. Diogo Mendes yendo-fe enganado de Roztomocan, algum tanto fe confolou em fer per commum confelho de todos; e peró que nefte primeiro ardil dellenão teve muita cautela , dahi em diante teve gran- de cuidado, e dobrada diligencia, por re- compenfar huma coufa por outra, repar- tindo a vigia da Cidade em eftancias per ellas peíloas mais principaes. E pofto que os Mouros logo nos primeiros dias vieram dar vita á Cidade , {empre daquelle com- mettimento leváram a peor , por fer per entre os vallos que foram dos arrabaldes que Affonfo dAlboquerque mandou desfa- zer por delabafar a Cidade. Peró depois que Roztomocan entrou em o noflo modo de pelejar , não curou mais daquella ordem de travar efcaramuça por os tirar a campo; como era fua tenção; mas de propofito veio com grande corpo de gente à elcala vifta combater os muros da Cidade, dando-lhe gs com Decana IL Liv. VI Cap. IX. 133 combates mui apreílados, e continuos, por ter tanta gente comfigo, que a repartia em "quadrilhas pera de dia, e noite; e queren- do entrar per cima do muro novo, que Af- fonfo 4 Alboquerque fizera , tomáram al- gumas lanças, que os noílos tinham poítas ao longo delle, e começáram commetter a porta da entrada com vai, e vem; e entre todos quem fe naquelle -dia mais moftrou em fazer coufas fóra do que fe póde eípe- rar do alento de hum homem , foi hum Francifco de Madureira , que era cafado na Cidade. Nos quaes tres combates não fómente vieram- com os noflos a mão te- nente , mas ainda com bombas de fogo houveram de fazer grande damno , fenão fora no inverno, que tolhia as cafas palha- gas dos moradores não tomarem fogo ; e fe pegava, dava lugar a que o apagaffem , com que a gente da terra tinha aflás de tra- balho; porque como efte era o feu apofen-. to , nao havia outro amparo fenão aquel- la pouca de olla, de que as cafas eram cu- bertas , e defendia a elles do Sol, e chuva, porque ambas. eftas coufas efcaldava aquel- la pobre gente da terra. Além deltes dous - fogos, que lhe efcaldavam as carnes , ha- via outros dous artificios que os matava, e trazia mui aílombrados, que eram asbom- . bas de fogo , e humtiro groflo de metal: Os Ñ o AS a i z » 236 ASIA DE João DE BARROS dia, e afi de dentro do eftreito do mat | Roxo na Cidade Judá, fe pafliram alli. A n caufa foi , porque ante que navegaffemos l aquelles mares, eram navegados pelos Mou- i ros fem temor de lhos alguem impedir, e | partiam do porto de Judá com as mercado- | rias do Cairo, e daquelle eftreito nos me- | zes da navegação, em que curfam os Po- nentes, que lançavam pelas portas do eltrei- | to fóra caminho da India fem terem necef- i fidade de tomar a Cidade Adem, e quan- i do tornavam da India per o mefmo modo, paffavam por efta Cidade , e entravam as portas do eftreito com os ventos Leftes. Po- rém tanto que per noffas Armadas lhes foi impedida efta liberal navegação , como quem navegava a temor faziam efte caminho a pedaços, tomavam o porto de Adem , quan- do queriam entrar na India, e fabiam pri- meiro de noflas Armadas, e fegundo a no- va afli faziam feu caminho, e muitas vezes nao paflavam , mas faziam commutação;, e commercio com as coufas que alli acha- vam da India. As quaes eram vindas em nos do Malabar tambem furtadas das nof- R fas Armadas , muitas no cabo da monção = dos ventos, com que aquelle golfão fe na- n yegava, por não oufarem fahir dos portos onde carregavam, de maneira que afli eftas “nãos que vinham do Malabar, e as de to- da Decana II. Liv. VII. Car. VII. 237 da a cofta da India, Cambaya, e Ormuz, como as d'eltoutra cofta de Melinde com “temor de noffas Armadas vieram a fazer ca Cidade Adem huma efcala de Ponente , e Levante, ao modo da Ilha Calez em Hef panha, dando alli carga, e tomando outra. Com o trafego da qual per commutação, e commercio fe fez nobre, e rica, e com nofo temor mui forte , e defenfavel com hum baluarte , que defendia a entrada da ribeira , onde tinham aíleítado muita arti- lheria, e era afli alcantilado o lugar delle, “que as nãos tinham alli feu prois. E ao tempo que Affonfo dAlboquerque chegou a efta Cidade , era fenhor della hum Xe- que , a que alguns chamavam Rey, cujo nome era Hamed, o qual o mais do tem- po eftava dentro no fertão, por ter guerra com hum feu vizinho, que era Rey do Reyno Saná, cuja metropoli he huma Ci- dade afli chamada, de que elle fe intitulou, mui antiquifima , a que Ptolomeu -chama Sanaregea. Por razão da qual neceflidade ti- nha elle nefta Cidade Adem o Capitão Mi- ramirzan, que diflemos, o qual determinou de a defender , como fez, e não entregar a Affonfo d Alboquerque , como veremos neke feguinte Capitulo, sã 238 ASTA DE Jeo DE BARROS - Carilo IX Como Aijonfo d Alboquerque commetteo to- mar a Cidade Adem d eftala vifta : eo gue nifo popou , per onde não hou- ve effeito romalla de todo. Ffonfo d Alboquerque vifto o fitio def- ta Cidade Adem , pofto que lhe pa- receo mui diferente pera a determinação que trazia do modo de a commetter pola informação que lhe tinham dado della , to- davia determinou-fe no confelho que fobie ifo teve com os Capitães, de a combater, e fahir em terra em amanhecendo fabbado vefpera de Paícoa, por não dar tempo aos Mouros recolherem inais gente da terra fir- me , da que recolhêram naquelle dia , è noite, por fer logo appellidada. Sómente no ado do combate nefte confelho orde- -nou fer de outra maneira do que tinha affentado em Cocotora,. porque nefta Ilha repartia a gente em tres, ou quatro par- tes, com fundamento que per tantas havia. de commetter a Cidade » e€ mais havia de fer em chegando fem fe metter mais efpa- ço, que em quanto fe embarcavam nos bar- cos. Porém como ao tempo de fua chega- da a efte porto de Adem , por o mar an- dar furiofo, teve naquelle dia bem que fa- À É Zer E sord 3 A modo de repartição da gente, nao-i 1 Decana I. Liv. VII. Car. IX. 239 ger em fe amarrar , e fegurar toda a frota”, e tambem o fitio da Cidade requeria outro fez O que trazia ordenado , e tomou o que lhe o cafo deo ; e foi ficar com toda a gente em hum corpo pera combaterem a Cidade áefcala vita, per hum lanço de muro que corria ao longo do mar, onde fe fazia hu- ma praça comprida entre ambos. O qual corpo da gente, que-era de mil e quatro- centos homens, mil Portuguezes, e quatro- centos Malabares , hia repartido em duas capitanias , huma que elle levava, e outra D. Garcia feu fobrinho; e na fua hiam ef “tes Capitães , D. João de Lima; D. João Eça, Jorge da Silveira, Duarte de Mel- Jo, Aires da Silva, Manuel de la Cerda; Garcia de Soufa, Diogo Fernandes de Bè- ja, Antonió Rapofo, e João Gomes. E com D. Garcia hiam Lopo Vaz de Sam- payo , Fernão Gomes de Lemos , Simão PAndrade, Ruy Galvão, Pero P Affonte- ca de Caftro, Simão Velho. Ordenou mais Affonfo VP Alboquerque João Fidalgo Ca- pitão da Ordenança com Henrique Homem, que fervia por Ruy Gonçalves tambem Ga- pitão da Ordenança, por eftar doente, que ambos com fua gente, que feriam feiscen- tos homens, trabalhaffem por tomar o ab to da Cidade ao longo do muro. té chegar =- Se e ae 240 ASIA DE JoÃo DE Barros a fe fazerem fenhores da ferventia, que per aquella parte ella tinha da terra firme, por~ que com ifto faziam duas coufas ; tolher que não eniraflem nella os Barbaros- dater- ra, que eram já appellidados , e mais fica- va-lhe a Cidade ao fob pé pera darem nel- la à fua vontade, depois que fegurallem a entrada da ferra. Aos quaes dous Capitães “entregou as duas barcaças da Cidade que alli tomáram , pera nellas poiarem fua gen- te em terra ,-e os outros Capitães ficáram com os bateis das fuas nãos , levando al- guns delles em modo de capitanias certas efcadas feitas tão largas, per que folgada- mente podiam ir feis homens juntos , per as quaes haviam de {ubir ao muro; de hu- ma das quaes, que era a delle Affonfo P AL boquerque , tinha cuidado Diogo Fernan- des de Beja. E afi levavam bancos pincha- dos , marões ; picões, polvora, e outros artificios ; porque Íiua tenção era-não fómen- te commetter o muro à eícala vifta -mas ainda ver per alguma parte fe o podiam picar; e com polvora dar com hum lanço delle em terra , e entrar per aquella que- brada. Dada eita ordem como haviam de fahir, quando veio pela manhã, todos efta- vam tão preftes , que em breve tomáram terra fem haver quem lha defendeffe „ por- que a tenção dos Mouros foi cíperar o im- pe- Drema I: Ly. VIE Cat. IX. 24% peto dos noflos “detrás dos muros, e não fóra delles, por duas caufas :“a primeira , porque-lhe pareceo , que fahindo” elles. à praça; todos haviam de fer alli mortos com a noila artilherias porque como os viflem juntos, e defeubertos , delcarregariam as nãos-nelles: e a fegunda, que nãofabiam quanta gente era a nofia, e leixando-lhe a praça franca, onde fe elles haviam de ajun- tar , podiam mui bem eftimar quanta era; pera fegundo a quantidade della afli- fe re- partiriam pelos lugares do combate. Os Ca- pitães , e principaes Fidalgos , que neftes lugares de honra {empre querem fer os pri- meiros, vendo a praça da ribeira defpeja- da, e que a gente commum que hia com elles, que havia. de tirar. as efcadas, fe em- baraçára , e detinha, não foffrendo o va gar delles:, mettêram-fe pela agua perati- rar asefcadas dos bateis, e com grande al» voroço, dizendo : -Ao muro, ao muro, Ca- da hum arvorou a fua. Na fubida do qual houve tanta preffa , que feria coufa-diffi- cultofa determinar qual foi o primeiro: cá os Capitães, que arvoráram: feus aguiões {obre o muro, tanto que foram nelle, cafli como D. João de Lima, e Jorge da-Silz veira , que fubiram per huma- efcada que levavam a feu cargo, dizem ferem elles os Primeiros. As pefloas que não são «de qua- li- Er CE ER Ea n42 ASIA pe Jožo DE BARROS lidade pera arvorar aguiões , afli como João ` Pereira Repofteiro que fora da Infante D. Beatriz, e hum Clerigo per nome Dio- go Mergulhão, dizem que fe não arvorá- ram aguiões, que arvoráram o Crucificio, que Diogo Mergulhão levava ,-bradando alta voz : Vitoria ; o qual Crncifício de- pois como: eicudo da fua falvação o falvou de não morrer-onde outros ficåram , efca- pando elle com fete feridas : Diogo Fernan- desde Beja, que levava a efcada, que lhe Affonfo 4º Alboquerque encommendou ; tam» bem quer fer dos primeiros ; e teftemunha efa verdade com fer o primeiro que veio per ella abaixo derribado com hum. pelou- ro-de efpingarda;, que lhe tiráram do mu- ros, de que efteve à morte, e depois o trou- xe muito tempo no corpo. Finalmente por- que- nefte primor de fubir primeiro tambem entráram marinheiros fem nome, que leva- vam selcadas ás coftas; e contende nefta parte-tanto a honra de cada hum; que fi- camos fem poder julgar qual foi primeiro. Baite faber em {omma , que per todalas par- tes onde fe puzeram efcadas, os primeiros que foram no muro , que å nolla noticia vieram ;-são os nomeados aflima , e eftas pefloas principaes , D. João dEça, Aires da Silva , Vicente dºAlboquerque, Ruy Pa- Iba, Gafpar Cam, Manuel d’Acofta Feitor aii Ea SA “= das O OO TT Decana TE Lay: Vile Cap. IX. 243 das prezas, Antonio Ferreira Fogaça, João Gonçalves de Caftello-branco , Garcia de Soula, D. Alvaro de Caftro, Manuel de Ja Cerda, João de Meira, Henrique Ei- gueira; João de Caminha, Balthazar Mon» teiro. Os quaes como em fua companhia levaram muita gente, e o alvoroço de to- dos era grande por fubir, e os degráãos da elcada largos , como diffemos , foi tamanho o pezo da gente , que quebráram as efca- das , ficando defta cahida os debaixo mal tratados , e os acima nomeados em cima do muro. Os Mouros como viram as ef cadas quebradas , e quão poucos ficavam em cima , repartiram-fe em partes, huns correndo ao longo do muro, que da ban- da de dentro era mui baixo, por fer entu- lhado , com que fizeram recolher a hum cubello alguns dos noflos; e outros ficáram {obre o lugar das efcadas, por defenderens efta fubida, E pofto que elles faziam em os noilos aflás de damno-, por lhes tu- do feryir de armas , pedras, pos, alcatrão, enxofre , ardendo té cortiços de abelhas, muito maior lhe fizeram asmefmas efcadas* cá tornadas a concertar per mandado de Allonfo dºAlboquerque, que acudio a iffos quando {oube ferem quebradas , tornáram outra vez a quebrar com o alvoroço que a gente tinha Faso por ferem. todos eg Qi E ao X | Ea i | 344 ASIA DE JOÃO DE BARROS tão cubiçofos defta honra, que ficou em dels ordem com morte, e ferimento de muitos. Porque vendo Affonfo P Alboguerque, que atando com cordas os troços quebrados da efcada, não ficava muito fegura, mandou aos alabardeiros de fua guarda, que com fuas alabardas a fuftentallem; e quando com o pezo , e alvoroço de fubir tornou a que- brar , não fômente dos alabardeiros , que eitavam debaixo ; ficáram efmagados, e mal feridos , mas ainda muitos dos cahidos fe vieram elpetar nas alabardas, que foi cou- . fa piedofa de ver. Nefta fegunda fubida fi- cáram em cima do muro perto de quaren-, ta homens , que fizeram faltar os Mouros em baixo, e Garcia de Soufa foi tomar pof- fe de hum cubello, por fe alli fazer forte - té fubir mais gente; e porque Affonfo PAL boquerque os houve por perdidos com ef- te defaftre das efcadas, mandou em conti- mente duas coufas. Huma repairar dous tro- cos da efcada pequena; e porque não che- gavam ás ameas per cordas que foram ata- das nellas, mandou aos que eftavam em cima que fe defcelem; e a outra mandou deitapar duas bombardeiras rafas do muro, e afi huma de hum baluarte tirando della com muito perigo huma bombarda , que os Mouros alli tinham pofta , per onde man- dou entrar alguns béfteiros, e efpingardei» Decada II. Liv. VII Cap. IX. 245 ros, e com elles João d’Ataide, não con- fentindo entrarem primeiro alguns Fidalgos que o quizeram fazer, por não terem-mais armas que fua lança, e efpada, e com as béftas, e elpingardas fe apartariam os Mou- ros da boca das bombardeiras, onde logo acudiram. Porém foram naquella primeira chegada tão efcozidos das elpingardas der- ribando alguns, que fizeram bom terreiro , e muito maior quanto dos noflos, que efta- yam em cima do muro, defcêram a elles. De que eram os principaes Aires da Silva, Jorge da Silveira, Vicente d"Alboquerque , D. João d'Eça , João de Caminha, Ruy Palha, e João de Meira. Os Mouros co- mo fe víram apartados , leixando o terrei- ro quafi como cilada, mettêram-fe pelas tranqueiras das ruas, por elpalharem os, noflos;; -ao qual tempo acudio Miramirzam a cavallo com outros que o feguiam tam- bem a cavallo, e por- o lugar fer efpaçofo naquelle terreiro feríram alguns dos noílos. Os quaes como eram poucos , e não po- diam refiftir a tanto pezo- de gente , parte fe tornáram recolher pela bombardeira, e os outros foram demandar o pé do cubel- lo; onde Garcia de Soufa eltava recolhido, ficando daquella feita Jorge da Silveira mor- to; afi das pernas que lhe jarretáram, cos mo dos pés dos cavallos que lhe psapárari 252 ASIA DE JoÃo DE BARROS GA)ATTEULO XY Como recolhido Afonfo d Alboquergque ds naos , por algumas vazões que importa- vam, leixou de fegunda vez commetter q Cidade , e dahi fe partio pera as portas do efireito, onde chegou. Ecolhido Afonfo dAlboquerque ás nãos , a primeira coufa que mandou fazer, foi commetter hum baluarte com hu- ma torre, que os Mouros tinham feito no cabo de hum molde , onde fe defcarrega- vam as nãos, de que as da fua frota, em quanto elle andou no combate da Cidade, recebiam aflás damno com muita artilheria que tiravam. E como a náo de Manuel de la Cerda, por eftar mais perto delle, era a pior tratada; o feu Meftre per nome Alva- - ro Marreiro em vingança defte damno , fen- do em companhia dos outros mareantes, a quem Affonfo dAlboquerque commetteo ef- te feito, foi o primeiro que entrou no ba- ' luarte, donde trouxeram trinta e fete bom- bardas de ferro, em que entravam peças , que lançavam pelouros quafi de palmo em diametro , ficando o baluarte em noffo po- der fem muito trabalho, por não haver nel- le quem o defendeffe, fenão alguns Mou- ros que tirayam com a artilheria , que fos ram DECADA IL Lry. VIL Car. X. 253 ram mortos á efpada. Affonfo P Alboquer- que, tirado efte impedimento às nãos, en- trou em confelho fobre o mais que deviam fazer ácerca do que tinham paflado ; e pof- to que muitos Capitães, e a maior parte da gente de armas era, que tornaflem com- metter a Cidade , levando alguma artilhe= ria grofla pera darem com hum lanço de muro em terra, reprefentando algumas ra- zões, porque todas vinham a concluir a fe- rem fenhores da Cidade, onde fe moltrava terem mais reípeito ao esbulho della , que à tenção que ElRey tinha quando mandou a Affonfo d’ Alboquerque que a tomafle, fen- do-lhe coufa facil , refpondeo elle a eftes Capitães com a tenção dPElRey. A qual era não querer fultentar tão grande coula, como era aquella Cidade, pera que haveria mifter mais de quatro mil homens, por ef- tar mui remota da India , e mais na boca daquelle eftreito , e com ascoftas na flor de toda Arabia, fómente queria a obediencia della ao modo de Ormuz com ter alli hu- ma fortaleza favorecida de algumas vélas, que podiam andar de Armada defendendo aos Mouros a entrada daquelle eftreito. E pois hiam pera o entrar, nas portas delle, ou na Ilha Camatra , ou em algum porto de Prete João {e poderia fazer: cá ElRey acerca da fortaleza quedefejava ter naquella — zA es par- z | | $ 254 ASIA DE JoÃo DE BARROS parte; em todas eftas lhe apontava, ea eleição do lugar leixava a elle Affonfo d'Al- boquerque, que havia de ver o fitio deftes quatro. É porque além do negocio da for- taleza , correo mais a prática fe combate- riam ainda a Cidade com artilheria, como no primeiro confelho os mais delles apon- táram , deo tambem Affonfo dAlboquer- que {uas razões como não era ferviço PEL Rey, por eftar no cabo da monção dos le- vantes com que haviam de entrar o eftrei- to, que importava mais que quanto esbu- lho a Cidade tinha. Porque perdendo a monção , convinha ir invernar a Ormuz, por dalli té lá não haver outro lugar fegu- ro, com as quaes razões, e outras mui evi- dentes, todos foram que leixaflem o cafti- go daquella Cidade pera outro tempo. E porque em tres dias que fe Affonfo d' Albo- querque alli deteve no exame deftas coufas, e tambem em mandar queimar as nãos dos Mouros, que eftavam naquele porto depois de esbulhadas, fempre o vento lhe foi quafi traveisão , e temia durar muitos dias , ás toas per bateis mandou tirar todalas nãos do porto, as quaes poftas no largo, fez-fe à vêla caminho das portas -do eftreito. O qual como he perigolo de navegar, princi- palmente com nãos grandes, e Affonfo d'Al- boquerque não levava Pilotos delle , e às EE fuas as Decada M Lay: VEL Car. X 255 fuas portas eltá huma povoação toda de Pi- lotos pera efta navegação , ao modo dos Pi- lotos dos bancos de Frandes , cujo officio he tirar , e metter as nãos daquelles peri- gos, mandou diante a não de Chaul, que tomou a João Gomes com vinte homens dos noílos, que lhe foffe defcubrindo a cof- ta; e tanto que abocafle às portas, lhe hou- vefle tres, ou quatro daquelles Pilotos, a que elles chamam roboões, e os retivelem té fua chegada. Partida a não com efte re- cado, quando Affonfo d”Alboquerque che- gou aelia, tinha já reteúdos dous Pilotos, per a pilotagem dos quaes toda a Armada tomou poulo em hum porto logo 4 entra- da da porta do eftreito da parte de Ara- | bia, porque efte canal he o mais geral, Por fefta da qual entrada mandou Affonfo Al- boquerque embandeirar a frota, e tirar to- da a artilheria. À imitação do qual, pois elle Affonfo dºAlboquerque foi o primeiro que navegou aquelle eftreito té aquelle tem- po tão encuberto aos mareantes da Chriftan= dade, queremos entrar no oCtavo Livro def ta nolla fegunda Decada tambem com ou- tra pompa de efcritura , relatando fua na- tureza , navegação, e portos, como Affon- fo PAlboquerque entrou pompefo de nãos, bandeiras , e eftendartes , por celebrar a fef- ta de-luacentada. CS E - DE- ER E ua ee. DECADA SEGUNDA. LIVRO VII Dos Feitos , que os Portuguezes fize- ram no defcubrimento , e conquifta dos mares, e terras do Oriente: em | que fe contém o que Afonfo d'Albo- querque fez depois que partio da In- dia pera o mar Roxo, té tornar a ella, CAPITULEO “Em que fe defereve o mar Roxo: e todas las povoações , e portos doma- ritimo delle. Frevra do eftreito do mar Roxo | quer parecer ao corpo de hum la- & A garto , cujas portas são o lugar do collo, onde elle he mais delgado, e a-ca- beça podemos dizer que he o mar que jaz fóra dellas entre o Cabo Guardafu , e o de Fartaque. O lançamento delta figura das portas té o fim della , que he a povoação de Suez, jaz quali per o rumo ;.a que os mareantes chamam Nornoroefte, e haverá nefte comprimento efpaço de trezentas e cincoenta leguas. Os Mouros, que o nave- gam , repartem a largura delle em doze jós ai mos ; 1i Decana IL Liv: VIN: CAR Í. 37 mos ; em-que haverá pouco mais de trin- ta e feis léguas: no mais largo delle, a qual medida jómo áderca delles quer dizer oitava parte de vinte e quatro, dando por fingradura entre dia, e noite outras tantas partes de caminho , a razão de farçanga por hora, tres das quaes farçangas fazem hum jómo:, medida antiga dos Parfeos, a que osGregos corruptamente chamáram pa- rafanga. Repartem mais-os Mouros elles doze jómos em tres partes de longo a lon- go, com que o mar fica dividido em -tres faixas: à faixa do meio, que hero lombo defte-lagarto , chamam mar largo, por fer limpo , e navegavel de dia , e de noite; começando das portas do eftreito té quafi o fim delle, não defcendo-a fua altura de “vinte e cinco braças, nem fubindo de cin- coenta. O que não tem as outras duas fai- xas que vam pelas ilhargas, huma ao lon- go das praias de Arabia, e outra da terra África, a que elles chamam Ajam;, e por outro nome Abafia, porque ambas eftas duas coftas fazem o mar mui cujo de ilhetas; reftingas, e baixos com canaes retorcidos; per que fe -navega de oito té quinze bra- ças, tão temerolos aos navegantes, que co- mo he Sol pofo lançam ancora. Pera a qual navegação, por fer mui perigofas fer- vem os Pilotos chamados Rebões,- que-dif dom IL PI SR A N 258 ASIA pr JoÃo DE Barros {femos viverem nas portas defte eftreito ; & de levarem dellas té o porto de Judá hu- ma não, levam vinte e cinco: té trinta cru- zados, e navegam efte mar com dous ven- tos geraes , que são Levante, e Ponente; e quando não são mui tendentes , ventam alguns terrenhos, e porém poucas vezes. Em todo elle não entra rio de agua doce que {eja notavel ; porque a terra de Ara- bia, depois que entram as portas do eftrei- to, he mui fecca , -e efteril, fômente tem hum rio, a que elles chamam Bardillo , que quer dizer branco , e preto por fe ajuntar de dous pequenos ribeiros;, hum dos quaes tem a-agua branca , e o outro preta. O qual rio fe vem metter no mar quatro leguas aci- ma de hum. lugar chamado Bahãor, e dez de Judá; e he a fua agua tão pouca, que primeiro que chegue às praias, já vem fal- gada da maré ; que -avai receber hum bom pedaço: per dentro da terra. Os que naícem “das lerranias , que correm ao longo deite mar da parte da Abafia , a Natureza pro- vida os mais notaveis, e cabedaes enca- minhou que foflem entrar em o rio, aque os da terra chamam Tagazij , que fe vai metter em- outro maior chamado per elles Abauhij, que quer dizer pai das aguas, € ambos já em hum corpo entram em o Ni- lo pera regarem a terra do Egypto e DecaDda TE Liv. Vis Cap. I 259 não tem outra chuva pera dar {fuds novida- des. Alguns pequenos rios que vertem pera efte -mar Roxo por a terra das ferranias donde elles nafcem té as praias fer mui efteril , e hum pouco folta com pedregu- lho, primeiro que entrem no mar, fe fu- “mem per baixo no veram; donde os nave- gantes, quando vam ao longo defta cofta, conhecem já as madres dos taes rios, que no inverno são poderofos , e cavando na aréa, e pedregulho, acham a agua do rio que corre furtada per baixo. Geralmente os Mouros chamam a efte mar Bahar Corzum,, que quer dizer mar cerrado, peró que efte nome dam elles mais propriamente ao mar Caípio, por não ter entrada alguma ; € ou- tros lhe chamam mar de Meca, por a ca- fa que alli tem da abominação do-feu Ma- hamed , e todos fe efpantam de lhe cha- marmos mar Roxo. À caufa do qual no- me Roxo querendo Affonfo dAlboquer- que entender nefte tempo que o navegou, diz em huma carta que fobre io efcreveo a ElRey D. Manuel, que lhe convem mui- to ete nome Roxo, por fer mui cheio de manchas vermelhas ; porque querendo elle abocar com a frota que levava ás portas delle; vio fahir per elas huma vea grofa de agua vermelha, 4 qual fe eftendia con- tra Adem, e pera dentro das portas quan- il AO 460 ASIA DE JoÃo DE BARROS to hum homem podia divifar do capiteo da não, era deita côr vermelha; e depois que entrou ao largo deite mar, muitas ve- zes ovia manchado da mefma côr. E per- guntando aos Mouros Pilotos a caula del: la, difleram-lhe fer revolução das aguas de baixo ao tempo das marés, e aquellas man- chas corriam com a jufante, e montante da- quelle eftreito, por não terem as aguas ou- tra corrente fenão entrar, e fahir per as portas delle; e por {er aparcellado, e mar de pouco fundo , que às vezes quando o vento era tefo, corriam eftas aguas 4 von- tade delle, e que então faziam aquella re- volução debaixo em alguma coufa daquel- la côr que o mar tinha por laftro. D. João “de Caftro filho de D. Alvaro de Caftro Go- vernador da Cafa do Civel que foi em Lis- boa, ante que fole à India por Governa- dor, e Vilo-Rey della, andando lá no tem- po que D. Eftevão da Gama filho do Gon- de da Vidigueira D. Vafco da Gama era Governador della , e foi a efte eltreito te chegar ao porto de Suez , como fe verá em feu tempo, trabalhou muito por faber as caufas defte nome Roxo com muita prá- tica que teve com Mouros Pilotos ; e al- guns homens letrados, da qual viagem fez hum roteiro, em que notou portos, ma- res, alturas do pólo com todalas outras ss : as Decapa IL Liv. VIII Cap. I. 267 fas que pertencem á navegação, tudo mui particularmente, como quem nefta arte da navegação era douto, e mui diligente. O qual diz nefte Roteiro, que pera nenhuma outra coufa daquela entrada do elireito te= ve mais alvoroço, que pera notar as cau- fas defe mar fer chamado Roxo; e como homem eftudiofo traz o que elereve Plinio , e outros Cofmografos ácerca da opinião da- quelle tempo , (como largamente trataremos em a noífa Geografia, ) e per derradeiro dá feu parecer fundado nas obfervações que fobre ifo fez; e o modo que pera ifto te- ve foi -efte. Indo aquella Armada que Dom - Eftevam da Gama levava ao longo da cofta da Abafia , (porque na Arabia não tocou fenão do Toro pera baixo, ) como era de navios de remos , que podiam correr per cima de muitos baixos , e reftingas , que aquelle mar tem tanto, que elle D. João via agua chea de manchas vermelhas -per muita dillancia, e às vezes agua tão baixa que tocava o catur em-terra, furgia logo, e mandava com baldes tomar daquella agua, a qual vinda acima, via fer muito: mais clara, e cryftallina, que a do mar fóra das portas do eftreito. Não contente com ikto, mandava mergulhar alguns marinheiros, e traziam-lhes do latro do chão huma ma teria vermelha 4 maneira de coral ab mo- É PESO o Ra o bt fo, AM ES a e AS 268 ASIA DE João DE BARROS a qual per excellencia entre os Mouros dizendo a Ilha das portas, fe entende por efta, pofto que os naturaes per proprio no- me lhe chamem-Mehum. Terá em com- primento legua e meia, lançada ao longo das correntes das aguas que fahem, e en- tram do eftreito, a terra da qual da parte de Arabia he mui alta, e foberba , toda eicalada dos ventos, que vertem per aquel- la garganta do eltreito; e a parte que jaz contra a terra: do Abexij , tem huma an- gra abrigada delle, onde fe póde agazalhar huma grande frota de náos, e-della 4 ter- ra firme de Arabia haverá obra de huma legua , e efte canal he o principal per que aquelle eftreito fe mais ferve; e pegado com terra firme, faz à terra hum mamillo alto, que de longo quer parecer fortaleza , que no tempo da maré chea fica torneado de agua, no qual lugar vivem os Pilotos da- quelle eftreito: De dentro, e de fóra deftas portas tem as nãos bom Íurgidoúro em an- gras que a terra faz, com que ficam abri- gadas de huma parte do Levante, e da ou- tra do Ponente. Começando: deftas portas, a terra maritima que jaz ao longo das pra- las de Arabia quafi té Ilha Camaram, que podem fer quarenta e quatro -leguas, he PEIRey de Adem, fem ter no maritimo gefta tão grande terra alguma Cidade, ou BO= Decapa IL Lry. VHL Car. I. 269 nobre lugar, por todos eftarem dentro pe- la terra firme, fómente os portos de Mo- cá, e outros-pouco nomeados. E defta Ilha Camaram pegada á terra firme té Gezam lugar nobre , de que he Senhor hum Xe- rife intitulado delle, havera feílenta leguas; na qual diftancia eltam eftes portos , Celi- ba, Cubit, Holhedia, Macobam, Culi, Halhor , Homara. De Gezam té a Villa Imbo , que ferão de cofta cento e trinta leguas , he tudo do eftado do Xerife Barac Senhor de Méca : às quarenta e duas eita Zidem lugar mui notavel, e nefta diltancia ficam os portos de Malabo, Gobaalcarne, Bocá ,- Gudufi, Magaxa. E de Zidem a trinta e feis leguas eftá Judá, Cidade pe- ró que em edificios , em trato, e com- mercio, por aqui concorrerem quafi toda- las nãos que vem da India, he mui -céle- bre, e a mais nobre povoação de toda ef- ta cota de Arabia dentro do eflreito. Da qual à Meca, que eftá mettida no fertão , onde jaz o-corpo de Mahamed, haverá pouco mais, on menos quinze leguas, na qual diftancia de trinta e feis leguas eftam eites dous portos notaveis Badea , e Co- «rom ; e-de Judá té Imbo,- que diffemos, haverá per cofta cincoenta e duas, entre os quaes dous termos eftam eftes portos, Ba- haor, Rabá, Hejar. Da Villa Imbo té ou- tra N 270 ASIA DE Jožo DE BARROS tra chamada Tor, e per nós Toro, em que havera per cofta feflenta e oito leguas, pof to que toda a terra que atrás fica he efte- ril , efta muito mais, e por iflo não tem fenhor proprio: o fertão della he de Alar- ves ; que andam em cabildas a roubar os Mouros , que vam em romaria a Méca; (como já atrás efcrevemos;, ) e fômente nef- ta diftancia ha hum fó porto notavel cha- mado Maluy. Na Villa Tor ha mais al : guma policia afli nos edificios , como no i! modo do tratamento das peffoas , do que E fe acha em todalas povoações que nomea- mos , por fer povoada a maior parte de Chriftãos Gregos da cintura; onde-ha al- guns Frades em hum Mofteiro , que alli tem da vocação de Santa Catharina, por razão da vizinhança do outro Mofteiro; que elles tem em Monte Sinay , onde ef- tá o corpo defta Santa Virgem, que pode- rá fer delte lugar obra de dezoito leguas. Entre os moradores defte lugar Tor he fa- ma que per alli paffou Moyfês o povo de Ifrael vindo fugindo de Faraó, porque aqui -fe vizinham as duas terras de Arabia, e do Egypto per diftancia de tres leguas, e tanto foi (Ífegundo elles dizem) o traníito do mar, D. João de Caro no Roteiro que fez da navegação defte mar Roxo , diz, que efta Villa Tor lhe parece fer a Villa Ella- nas DecaDa IL Liv: VIII Cap. I. 27% na, de que todolos Geografos fizeram men- ção , donde-a enfeada, que fe faz adian- te, fe chama Ellanitica ; poto- que Ptolo- meu ponha efta Villa em vinte enove grãos, e hum quarto da altura do Norte , e elle D. João tomou a do Tor em vinte e oi- to e hum fexto. E entre outras razões que dá pera approvar efte feu parecer, he, que daqui té a povoação de Suez; que ferão quarenta leguas , não ha entre os Mouros memoria de fituação de algum lugar, que naquella diftancia em que Ptolomeu a põe, houvelle , nem o maritimo da cofta mof- tra poder ter povoação, por a maior par- te della fer de ferranias quali tê Suez”, e mui efteril fem agua alguma; e neta Vil- la Tor ha muita difpofição, afi por haver nella agua: , e ter hum campo que começa onde eftam doze palmeiras obra de hum tiro de bombarda da Villa. O qual campo fe vai eltendendo hum bom pedaço té ir dar ao pé de huma ferra, que vem acabar alli de mui longe donde elle corre , atra- vellando toda aquella terra de Arabia, com que faz a divisão deftas duas partes della; a que chamam Felix, e Petrea; e ante de chegar ao porto de Suez obra de tres le- guas dizem os Mouros eftarem huns poços, que elles afirmam abrir Moyfés depois que -paílou o mar Roxo, por o clamor que lhe o po- 27» ASIA DE Jožo de BARROS o povo fez da agua que lhe falecia , os quaes poços elles entre fi tem por coufa mui fanta. Hum Venezeano comitre de hu- ma galè, que foi na Armada de Soleimão Bailá Capitão do Turco, quando foi á In- dia combater a nofla Cidade Dio no Rey- no Guzarate, (como veremos em feu lu- gar, ) fez defta viagem hum Roteiro de to- dolos portos que Soleimão Baffi tomou nef- ta cofa da Arabia; e diz que o lugar don- de Moyfés paflou da parte do Egypto á outra de Arabia, he hum chamado Coron- dolo , que ferá de Suez quinze leguas, e vinte e cinco do Tor. E- porque feria cou- fa mui eltranha fahirmos do-curfo da nofla hiftoria pera concordarmos eitas opiniões do tranfito, e paflagem de Moyés, em o Commentario da nolla Geografia o faremos, - por fer mais proprio lugar , por iffo paf- faremos avante com noflo intento, que he tornar caminho das portas defte eftreito po- la outra cota do Egypto , e Abafia. O qual caminho começaremos do ultimo termo def- te eltreito , que he a povoação de Suez, pofta emaltura do Norte vinte e nove gráos e tres quartos, tomada per D. João de Caf- tro, e per muitos Pilotos que foram na- quella Armada : e fegundo as razões que elle D. João dá , parece que nefta povoa- ção de Suez foi a fituação da ses = | | | DecaDall Liv. VIM: Car. I. 273 Heroas , peró que Ptolomeu a ponha dif- “tante do mar, Eita povoação Suez ao pre- fente não he habitada-de mais gente, que de ofiiciaes de fazer navios pera as Arma- das que. o Soldão fazia, eora-o Turco faz pera. a Índia, e de gente que eftá em guar- da deltas velas. A terra em di he mui -efte- ril, {fem agua, etoda a que fe alli bebe fe traz em camelos perto de duas leguas , e ainda tão falobra, que he mais pera osca- melos que a. trazem, que pera homens: e -o-que confirma, o parecer de D. João fer all a Cidade dos Heroas, he que naquel- de fitio le moftram algumas ruinas dos edi- ficios della, meios cubertos de arêa , e gran- «de -número de.cifternas mais cheas della, que de agua.. Às quaes‘, fegundo: parece. fe -enchiam da agua do Nilo no tempo-de feu creícimento. per Huma aberta á maneira de darga levada , que vinha delle té efta Gida- de, a qual-o tempo, eos Barbaros a to- piram;, fegundo a opinião. da gente do-Cai- ro., da qual ainda em. algumas partes ap- parecem ios finaes. Defta povoação de Suez à Cidade Cairo. Metropoli . de Egypto ha tres.dias de.andadura de camelo: contra Po- nente; que podem ier-vinte leguas; e cos meçando della. a conta da diftancia que, tem os portos, e povoações. da outra. colta deite mar, haverá ao porto Corondolo., que dif- E Hom. IL Pal é S fe- 274 ASIA DE JoXo DE BARROS femos , quinze leguas, e daqui a Alcocer quarenta e cinco. O qual Alcocer he hum lugar notavel naquella cofta, não por ama- geltade de feus edificios, e policia" dos mo» radores, porque tudo he conforme a huns poucos de Alarves que nelle habitam : fó- mente- por fer huma aberta das ferranias que té aqui correm ao longo do mar; e per efte porto aquella parte de Egypto, à que elles chamam Rifa, vafa todalas fuas novidades, e mais grande parte dos Mou- tos dete Ponente“, quando vam á Íua ro- maria de Meca, por não defcerem abaixo ao Cairo, vem demandar efte porto. Junto da qual povoação obra de duas leguas ef- tam humas rúinas đe habitação , “a que os “Mouros chamam Alcocer o velho : e diz - D: Joao de” Caftro no feu Roteiro; que hum chamado Santo Antonio quafi na pa- Tigem- de Corondolo , e outro per nome Decana Tl Liv. VII Car. 1. 275 S: Paulo na fronteria do Toro , e efte he mais vizinho do marque o outro”; porém longe “das praias, e poito no alto” das fer- ras, ambos povoados de Chrifiãos de va- rias nações, que allicfazem penitencia, os quaes le commúunicam com outros da-mef- ma ordem que ha per aquella região do Egypto: Tornando a nofo caminho defte lugar Alcocer ‘acento e trinta leguas eftá a Cidade Cuaguem em altura ‘de dezenove grãos , e hum terço, na qual“diftancia ha efes portos, Tuna, Goalibo, Xoana, Xa- cara, Xamelquiman , Somol!, Tgididy Fa- ráterio-, Calacal, Fuxa, Dradáte, e ou- tros, “Os quaes não são povoações, fómen- te“portos dos marcantes, ou (por melhor dizer) aguadas' que: elles alli fazem. A Ci- dade Cuáquem he o melhor porto de todo efte eftreito, porque. o` mar entra per hum boqueirão , e pallado” hum pequeno efpa- co nefta eftreiteza ; faz depois huma' gran- de lagôs, no meio da qual eft huma ilhe- ta, que quali não tem mais terra que quan- to occupa a Cidade; toda de pedra, e cal com cafas nobres ao modo: de Hefpanha, e tem Rey per fi. E ao tempo que D: João de Caftro notou efta Cidade ,que forno anno de quarenta e hum”, D. Eftevão da Gama com a Armada que levava a defiruio, (como fe verá em feu tempo, ) e della em o Sü dian- N 276 ASIA nt Jožo bz BARROS diante tê Maçuá haverá fetenta leguas ; nã qual diftancia eftá o porto de Xabáque , e outros fem nome que. á goffa noticia vief fe. Efta povoação Maçuá he huma: Cida- de , que tomou o nome da: Hha, em que ella eá fituada, tão vizinha á terra firme, que ferá de eípaço tiro de huma efpingar- da; e a vizinhança-que tem nefta terra fir- me, he hum lugar chamado ÁArquico , que he do Prefte João. Tem -età Cidade Ma- çuá hum Xeque, que he Senhor da terra, o qual fenhorea a Ilha Dalaca, que aílima dilemos, onde fe pefcaya aljofre”, e afii outras Ilhas a eftas vizinhas, e eltá em paz com os Abexijs povo do Prefte João polo grande proveito que recebe delles em -one- gocio do commercio , porque per efte por- - to de Árquico fahem: todolos mantimentos, onde ha grande cópia, deque a maior pat- te defte eftreito principalmente da cofta da Arabia fe mantem. Defta Cidade Maçuá ás portas do: eflreito , onde começamos: efta defcripção , haverá oitenta e cinco leguas; a qual ribeira, paílada a Ilha Daláca , por fer mui pejada, e cuja com ilhetas, e -ref tingas , não tem tantas acolheitas, e por- tos; e fe os tem, não he coufa célebre a que navegantes acudam , porque tambem o fertão da terra naquella paragem he monf- truolo. À gente que habita ao longo defta j ri- l i | Decana IL Liv. VOL Car. I 277 ribeira do mar, tirando os lugares célebres, he mui agrefte, e barbara, a que os mef mos Mouros chamam badois, como cá di- zemos campeftre , é montanheza, a qual “toda vive de faltos , e rapina , -e quando podem, commettem as povoações. Per de- trás das ferranias, em que elta gente agref- te vive, as quaes correm ao longo da ri- beira deta cofta, ficam as terras do eltado do Prefte João , que contra o Cairo não defcem mais que té a paragem da Cidade Cuáquem , e dahi pera o Meiodia, e Po- nente fe eltendem per muita diftancia, e de tanta terra fómente tem hum porto de mar, que he Arquico. E fe D. Elftevao da Ga- ma, quando per alli paffou, lhe não lci- xára D. Paulo feu irmão com quatrocentos homens em {eu favor contra os Mouros, que havia treze annos que fe tinham feito fenhores da-maior parte de feu Reyno , Já não houvera reliquias daquella chriftanda- de , que N. Senhor alli depofitou tantas centenas de annos , tão defamparada dos Principes da Igreja. Com o qual defampa- ro fe podem chamar homens de muita fé, pois mettidos no coração daquella Ethiopia lobre Egypto, cercados de tanta idolatria de Gentio , -e blasfemia de Mouros , tem viva aquella luz. de fé do nome de Chri- Ro nofla Redempção: peró que feja de mui~ z tos 284 ASIA DE Jožo DE BARROS que era da terra do Prete , hum final de Cruz no Ceo de côr vermelha mui refplan- decente; e de largura de huma braça, e'o comprimento em proporção della, Á vifta da qual, Ee foi per hum bom efpaço, to- dos fe aflentáram em giolhos adorando-a, e Affonfo d Alboquerque levantando as mãos a ella em alta voz começou dizer : O? fi nal de noja vredempção , ó final de nofjas vitorias efpirituaes , e temporaes, ornada, e decorada com o preciofifimo Sangue de Chrifto Jefus : d arvore Divina , cujo fruto remio o peccado do fruto, que nos trouxe à morte, eu confefo ferdes o final, emque efe tá a efperança de nofas vitorias: nós te confejjamos , reconhecemos , e adoramos , pes dindo-te que per mar, e per terra fejas noja defenfor. Com as quaes palavras toda a gente foi pofta em lagrimas de devoção; e fervor de fé , levantando-fe em todalas nãos huma grita, dando gloria a Deos , que parecia romperem os Ceos, no fim da qual grita tangéram as trombetas, etirou toda a artilheria , em meio do qual tempo huma nuvem branca foi cubrindo aquelle final. Do qual cafo Affonfo dAlboquerque man- dou tirar hum efiromento , que enviou a El- Rey D. Manuel; e tanto animou aquelle final a todolos noflos, que lhes fez perder q nojo de quão enfadados andavam, elpane can- Decana E. biv. VIE CARSIL 265 cando aquelle mar fem fazer viagem , pa- recendo-lhes fer N. Senhor fervido daquel- les trabalhos-que levavam , eque lhes dava tal moftra- pera os confolar. E porque nefta paragem eftiveram tantos dias, que fe paf fou o mez de Maio, em que.os Pilotos fe determináram ferem os levantes paflados;, tornou-fe Affonfo d’ Alboguerque a Cama- ram -com fundamento de invernar ahi, e efpedio a João Gomes , que-fofle à outra banida da terra do Abafij) , com regimento que trabalhaffe: por tomar os: portos das Ilhas Maçuá, e-Dalaca, e lhas defcubrifle com toda-a informação que dellas pudeffe haver, e ito: fem fazer damno; e-quando tornafle , fe pudefle haver á mão alguma ge- lua das que navegam per aquelle mar, que a tomaffe, perai dos Mouros della faber al guma nova-, pe pera efta-ida-lhe deo: hum dos- Pilotos: Mouros que trazia comfigo , o qual negocio; João Gomes fez; trazendo às Ilhas arrumadas como jaziam fem mais ou- tra coulas Casio 286 ASIA DE TS tod BARROS CADA ULO IL Do que Aiono. d Alboguergue palha em manto invermou na Nha Comarams e depois que fe partio della té che- É gar d Cidade Adem. Efte tempo ; que Affonfo L Alboguer- que eiteve invernando 'nefla-Tlha Ca- maram, de alguns Mouros «que acudiam á terra firme foube como-o Xeque de Adem eftava junto- de huma Villa” chamada Ze: bit, que he do feu fenhorio ;. ao qual quiz - mandar huma carta. E pera fer certo de lha darem , e haver reípofta, mandou-a per hum Mouro mercador , que-já' em outro tempo fora feu cativo, ea rogo de Me- lique Az Senhor de Dio lhe-dera liberdas de juntamente com outros “que foram tò- mados em huma ndo; e chegando áquella Hha , o tornou outra vez tomar, e a fúa mulher, e filhos; e pelo conhecimento: que delle tinha, e eftes lhe ficarem em poder, o mandou , promettendo-lhe liberdade fe fole, e viefle com recado. Na qual carta elle Affonfo d' Alboquerque efcrevia ao Xe- que como tinha fabido que em feu poder eftavam cativos certos Portuguezes , que vie- ram ter ao feu porto, que lhe pedia hou- veíle por bem de os reígatar, ou a u ee Quer” 3 YAUA NIDIA GRASA EA E A a E a pa ms pre prnr reeememe — Decana I. Liv. VOL Car. II. 287 de Mouros de muitos que elle trazia ca- tivos daquella Ilha,” e outros que houvera de algumas nãos que tomou naquelle mar, ou per qualquer outro modo de refgate. EF tes cativos lobre que Affonfo dAlboquer- que efereveo efta carta, eram aquelles cin- co Portuguezes do bargantim de Gregorio da Quadra , que efgarrou- da Armada de Duarte de Lemos, (como atrás fica) na liberdade dos quaes o Mouro que levou a carta, não fez coufa alguma. Ante quando tornou á terra firme defronte da Ilha Ca- maram , mandou dizer a Affonfo Albo» querque, que não podia vir a elle, porque o Xeque o' mandava vir alli em poder de “certos homens, que o traziam prezo, não pera lhe trazer recado; fômente pera ver fe com elle podia refgatar fia mulher, e filhos. Sobre o qual refgate de huma par- te, e Poutra foram”, e vieram recados; fem o Mouro tomar' conclusão alguma “no que promettia ; fómente mandou de prefente a Affonfo & Alboquerque algum refrefco de carnes, efíuta da terra; e dos Mouros que fe alli tómáram, fabendo elles a caufa por que -Affonfo dAlboguerque mandára “elle ao Xeque, veio elle faber novas deftes ho- mens. Ás quaes foram, que haveido todos hum barco á mão , fé meitêram no mar caminho. da India, e ao fegundo -dia foram 288 ASIA DE João DE BARROS tomados, e circumcidados com todalas cé- remonias de Mouros per mandado do Xe- que: eefte auto lhe fora feito, eftando el- les quali fem fentimento do que lhes faziam com. huma certa femente , que meida em agua. lhe deram. a beber. E afli louve. mais delles, depois que os-veio a communicar, que em Suez, em quanto Mir Hocem an- dou na India proípero com a morte de Dom Lourenço dº Almeida, o Soldão por favo- recer aquella fua empreza, mandárá come- çar quinze navios de remo, os-quags efta- vam meios feitos , e eram guardados per té cincoenta Mamelucos, por os não quei- marem os Alarves, e que cada, dia lhe agua- vam os coftados por-não efvaecerem., fem haver hi mais outro final de Armada pera | a India: fenão: aquelles cafcos por acabar, fem haver official. pera ilo.. A qual coufa fe cavfára de duas, a huma fora por fer tomada huma fomma de madeira, que lhe vinha: pera fazer mais navios, que haviam de ir em companhia deftes , e (fegundo di- ziam ) efa tomada fizera huma Armada dos Cavaleiros de Rodes; e a outra fora fer Mir -Hocem desbaratado ,-com--que tudo fe esfriou , e que elle Mir Hocem -eftava recolhido- em Judá. E. que nefta Cidade hou- ve-tanto temor , como fe foube- dar entra- da delle: Affonfo. 2 Alboquerque ,- que,.0s mer- tas Decana M. Liy.VIL Cap IL 289 mercadores: puzeram toda fua fazenda fóra; e Mir Hocem não entendia em mais que fortalecella : etambem do dia queelle com- bateo “a Cidade Adem a quinze dias per dromedarios fe !oube a nova no Cairo, per os quaes o Xeque fenhor della efcreveo ao Solidão , pedindo-lhe ajuda contra os Por- tuguezes; ao-que elle reipondeo , que guar- dafe bem fua Cidade, porque: elle teria cuidado: de mandar: guardar feus portos. E que no Cairo havia grande revolta, e o Soldão eltava mui receofo ; porque obre- 2 i efte recado do Xeque foubera. como elle Affonto d Alboquerque entrara no eftreito, e tinha por nova que da Chriftandade par- tia huma grande Armada pera vir tomar Alexandria ; e afi tinha nova que o Xe- que Ifmael Rey da Perfia hia fobre Alep- po. E por elle Soldão nefte tempo ter mor- to tres grandes Capitães daquelles, que per ordenança do Reyno o podiam fucceder nelle- e-hum-que tinha por Governador da Cidade Damaíco , com temor de lhe fa- = zer outro tanto, não quiz ir a feu chama- do, e eltava levantado com favor do Xe- que Hmael, eram: para elle todas-eftas cou- fas huma grande confusão , porque em ne= nhuma confiava; e diziam que-efta opprefs são das Armadas. da Chriftandade procedês ra dò movimento que elle Soldão-teve-com “Com. II. PiL A “o Te- A se E a qe 290 ASIA DE Jožo pE BARROS o recado que per Fr. Mauros mandou ag Papa fobre a deltruição do Templo de Je- rufalem, e Reliquias fantas da terra de feu eftado, fegundo atrás elcrevemos. Affonfo dAlboquerque com eftas , e outras novas já no fim do inverno efpedio dalli hum homem, que fabia bem o Arabigo, a El- Rey D. Manuel; e por fimulação o mef mo homem em hum batel com huma bra- ga de ferro, como cativo, fe paflou á ter- ra firme, o qual veio a efte Reyno, e per elle foube ElRey do que Affonfo &ºAlbo- querque tinha paífado naquelle eftreito té fua partida, é o que lhe parecia ácerca de fazer fortaleza naquellas partes, e a parti da pera efte Reyno. Se todolos da Arma- da fouberam Arabigo , menos teméram o trabalho do caminho, que os que alli paf favam; porque o tempo que alli eftiveram, padecêram grandes neceflidades, além dos trabalhos de repairar navios, e todos hou- veram fer aquelle lugar hum purgatorio: . cá ácerca da fome na Ilha não ficou cou- fa viva de gado , camelos, afnos, que fe não comeffe , té hum palmar que Affonfo dAlboquerque logo no princípio quiz guar- dar , parecendo-lhe que podia fazer alli fortaleza, não ficou delle raiz alguma. E affi dete mantimento, como de huma for- te de peixe å maneira de cações , ofiras; RE Es cen pi É DecaDa LU. Lay VI CAp II 29% centolas, e cangrejos mais azues, e verdes, que da-côr que ha neftas partes, fe caufou em toda a frota hum genero de enfermida- de, que ellando hum homem rindo, e jos gande-'às cartas , ou enxadrez, cahia da outra. parte morto ; que fez hum grande elpanto ,- e terror em tódos; por fe have- rem por defuntos per morte fubitania. No qual tempo aconteceo hum cafo , -que tame bem allombrou a: gente, e foi, que fales cido delta morte hum homem d'armas, lan- cáram-o no mar , fepultura dos que nelle morrem; € eltando de noite os que vigia- vam feus quartos em vigia de huma não, ouviram grandes pancadas nella; e parecen- do-lhe que fundiava em alguma cabeça de arca , acudiram: per fóra com hum batel ver O lugar onde fentíram as pancadas, e acháram o defunto pegado com as nãos na quilha junto: do leme. -Tirado daquelle lugar, foi enterrado em terra ; e quando velo ao dia feguinte,- foi achado fobre a cova. Ao qual mifterio acudindo Fr. Fran- cifco Pregador, e parecendo-lhe eftar aquel- le defunto em alguma excommunhão , o abfolveo; e tornado a enterrar ; ficou pera “fempre. Com eftas, e outras coulas , de que a gente andava quebrantada no efpirito , e€ no corpo; tinha Afionfo dAlboquerque grane rat des requerimentos que fe fahiffe daquelle put- a : ii l ad gas J Ea geo ar FREE cu a e e Op tr em 292 ASIA DE JoÃo DE BARROS gatorio ; porque ainda que ao tempo que alli fe detinham chamavam invernar , não era por razão de haver chuva, cá muitas vezes naqueilas partes pallam tres, e qua- tro annos que não chove , e quando vem alguma agua , he ao modo de trovoada, que vem do mar,' e paíla logo : Íómente chamam invernar, quando não podem na- vegar pera fóra do eltreito com os Levan- tes, que curlam per algum tempo, e lhes dam por davante. Peró vindo os Ponentes, que começaram a quinze de Julho , fahio Affonfo dPº Alboquerque com toda a frota, leixando aquella Ilha Camaram fem herva verde, nem coufa viva, e aflolado quanto nella havia fem ficar pedra fobre pedra; porque quantos edifícios dos antigos efta- vam em pé, todos per mandado de Affon- fo PAlboquerque foram arrazados per ter- ra, por não dar caula a que es Mouros de Judá alli fizeflem alguma força , pera que tornando alguma Armada noffa , lhe fofle impedida a fahida em terra. Affonfo PAl- boquerque chegado ás portas do eftreito, porque à entrada não tinha notado o fitio da terra , principalmente a Ilha Mehum, onde ElRey D. Manuel era informado que fe podia fazer huma fortaleza, foi-fe a el- la; e a primeira coufa que fez, foi mudar- dhe o nome barbaro que tinha com outro mais mação Decapa IL Liy. VIIL Car. III. 293 mais digno de memoria, chamando-lhe Iha da Vera Cruz, o qual nome procedeo def- ta obra. Mandou arvorar huma Cruz fei- ta em hum mafo, o qual final era tão no- tavel por fua altura fobre o canal da par- te da Arabia, que fe via de huma legua; e ao tempo que fe arvorow, tirou toda ar- “tilheria ; era gente trás ella foi pofta em hum clamor com os olhos no Ceo, dando cada hum louvor , e gloria a Deos, pois lhe aprouvera” naquellas partes cafaras per gentilidade , e infieis per crença. daquelle Di- vino final, ferem elles os primeiros que o levantátam em gloria, e exalçamento de fua Fé , e per elle tomavam poffe de to- do oque fe continha dentro daquele eftrei- to.- Notadas as coufas, de que atrás ja ef crevemos , partio-fe Affonfo dºAiboquerque yia de Adem , efpedindo dalli Ruy -Gal- vão em o feu navio, e com-elle Joao Go= mes-na.fua caravella a defcubrir a Cidade Zeila ; que efta na outra cofta de Africa. E nefa ida, porque a gente della não quiz fómente dar-lhe falla , e fobre iffo- fahio muita à praia-a cavallo, e a pé, toda ar- mada , moftrando eltarem preítes pera de- fender a-terra , fe nella quizellem fahir; conformando-fe Ruy Galvão com o Regi- mento que lhe Affonfo dAlboquerque de- ra, depois que notou o ditio- da Cidades € a E = o por- 300 ASIA DE Joäo DE BARROS por muitas caufas que alli foram apontadas, Sómente fegundo a informação que elle Af- fonfo dºAlboquerque tinha da Ilha Maçuá tão pegada na terra do Prefte João Stela dhe ficava efperança de poder fer; por terem elte Principe Chrifião nas coftas com ajuda de gente, e mantimentos, como elle man- dava prometter per o feu Embaixador Mat- theus , que Affonfo dAlboquerque tinha “mandado a efte Reyno, pofto que ElRey D: Manuel a eleição do lugar pera fe fa- zer fortaleza naquela entrada do eftreito leixava a elle Affonfo d"Alboquerque, elle a não quiz tomar fobre fi té lhe fazer faber eltas coufas, de que efperava haver refpof- ta, ora folle pola chegada de Mattheus Em- baixador do Prefte a efte Reyno, ora pelo homem. que efpedio de Camaram : cá fe lhe bem fofle., podia dar feu recado ante — que as nãos partiflem pera a India. Quanto mais que pera haver effeito o fazer da for- taleza , e elle dar huma vifta-4 Cidade Ju- dä , como lhe ElRey D. Manuel encom- mendava , era neceflario partir elle da In- dia muito mais cedo , por não chegar do citreito no cabo da monção dos ventos, com que o havia de navegar. E pera mais confirmação defte feu fundamento de fazer a fortaleza na Ilha Maçuá , vieram lançar na frota tres Abexijs da terra do Prefte, que Dec TE Lay» VHL Car; IV. EV. 36% que ostinham os Mouros cativos , os quaes deram grande efperança a Affonfo PAlbo- querque , de quão proveitofa coufa feria afl pera ElRey D. Manuel, como pera O Pref- te, fazer fortaleza em Maçuá. Affonfo d'Al- boguerque a derradeira coufa que quiz fa- zer, ante que fe partifle daquelle porto, foi queimar as nãos de mercadores que eftavam nelle , efperando com ellas fazer efte nego- cio, que era dallas polos cinco cativos , que elle de Camaram mandou pedir ao Xeque; e quando vio que tão mal- lhe refpondêram efta fegunda vez , como a primeira, man- dou fazer feu officio de fogo às naos, com “que foram queimadas. CAPITULO Z Como Afonfo d Alboguerque partie de Adem, e chegou ao porto da Cidade Dio, onde fe vio com Melique Az fenhor delle: e dahi fe partio pera Chaul, onde chegou , e achou Triftão de Gá , que elle tinha man- dado a ElRey de Cambaya. AVA Indo o tempo da Lua, que Affonfo -~ & Alboquerque elperava , fegundo a pilotagem dos Mouros daquellas partes; partio-fe a quatro de Agoito com toda lia frota. via da India. E como os tempos eram- foi ainda hum pouco verdes, naquella paffagem 302 ASIA pe Jožo ve BARROS foi com tanta força delles, que abrioa ndo de Pero d'Affonfeca , por fer velha , e já de Camaram vir arrochada ; e aprouve a Deos que fe falyou toda a gente, € paste da fazenda, por lhe logo acudirem D. João de Lima, e Manuel de la Cerda. Seguindo fua viagem, quando veio aos dezefeis dias de Agolto houveram vifta da cofta , onde o tio Indo entra no mar, e como mais adian- te le faz huma enfeada mui penetrante cha- mada de Jaquete, por razão de hum fole- mne templo de Gentios, que eftá na ponta de hum cabo , onde a enfeada começa, a qual tem muita femelhança com a outra mais adiante de Cambaia; com a cerração do tempo , cuidando o Piloto de Affonfo d'Alboguerque que dobrava o cabo de Ja- quete , achou-fe a ré delle. E as outras vé- las da Armada , por irem mais a la mar, pafláram avante, ealguns delles foram fur- gir diante do porto da Cidade Dio , que Affonio PV Alboquerque muito fentio , por- que a foram efpertar de fua vinda » € por dilo lufpendeo ós Capitães das capitanias por algum tempo. Melique Az fenhor de Dio quando vio Affonfo dAlboquerque com tamanha frota ante {eus olhos, coufa que elle muito temia, como ra homem fagaz, com grande diligencia mandou encher mui- tos barcos de refreíco , de carnes > Pão ; : di= Decana H. Liv. VEL Car. V. 303 arroz, fruta, e verdura, e juntamente com eftas coufas o mandou vifitar, dizendo, que “os homens que andavam no mar com ne- nhuma coula mais folgavam , que com ver- dura, e refrefco da terra, que lhe mandava aquella como feu fervidor que era. Aa que Affonfo d'Alboquerque refpondeo com do- ces palavras do contentamento que tinha de chegar áquelle porto, por fe ver com elle Melique Az , e lhe dar muitos abraços, como ao máior amigo que tinha naquellas partes, fem oter vito, fômente per cartas. E poto que Affonlo dAlboquerque vinha armado contra a prudencia , e fagacidade de Melique Az, em quanto alli cfteve nun- ca pode acabar com elle que {e vilem am- bos, fazendo-lhe crer que cada hora eitava pera oir ver, eenchia eftas fimulações com mandar reíreico em abaítança, e muitas pê- ças, não fómente pera a pefloa de Affonfo PAlboquerque, mas pera todolos Capitães ; e aos que lhe eram mais acceitos, dobrava no prefente, tratando cada hum fegundo a, qualidade de fua pefoa. E ainda pera os mais contentar em particular houve licença que poucos, e poucos folem à Cidade, o que Affonfo dAlboquerque permittia, por- que per olho delles poderia ter melhor in- formação della; e elle Melique Az de ma - nhofo nenhuma oytra coufa lhe moftrava, e € a fe- 304 ASIA DE Jožo pe Barros fenão os feus armazens cheios de armas; munições, e artilheria. Finalmente por as grandes ofertas que Melique Az fazia de {ua pelloa , e da Cidade pera negocio de commercio, leixcu Affonfo d'Alboquerque nella por Feitor com alguma fazenda a Fer- não Martins Evangelho-, e por feu Eferi- vão Jorge Correa, e a náo Enxobregas pe- ra a elles carregarem de bifcoito, e outros mantimentos, e coufas que fe: haviam mit ter pera as feitorias PEIRey. Fazendo Af- fonto & Alboquerque fundamento: que per meio deite commercio viria tomar hum pé de entrada naquella Cidade, «e depois com o favor PEIRey de Cambaya, fegundo as eiperanças que Melique Gupi lhe dava, po- dia alli fazer huma fortaleza com titulo de “Feitoria, fobre o qual negocio Melique Az trabalhava em contrario com ElRey de Cam- baya, como logo veremos, mandou: dizer a Afonfo P Alboquerque , e depois lho dif. fe per fi, que nenhuma coufa mais defeja- va, que ter alli huma Feitoria PEIRey de Portugal, e que de boa vontade daria lu- gar pera fetazer, mas que temia não aque- rer ElRey de Cambaya conceder. Affonfo dAlboquerque depois que-vio que em tres dias que fe alli deteve , Melique Az não je confiava delle pera o ir ver, partio-fe huma manhã; peró o Mouro era tão lagaz, a e gran- Decana Liv. VIL Cis V. 305- e grandiofo em fi, que guardou ver-fe com elle pera aquella hora, e não quiz que foffe eltando elle furto no porto , porque não pu- dera cile moltrar-fe em mais que chegar com hum par de fuftas a bordo da náo, e “por elle modo moftrou a grandeza- de-feu elado. Sahio com huma frota de té cem navios de remo, todos tão apercebidos de louçainha, que parecia irem a vodas, e tão providos de artilheria , e munições de ars mas, como fe houveilem de pelejar. Affon- {o A Alboquerque quando foube por huma fufta que elle mandou diante como o hia ver, voltou fobre elle com toda a frota ao receber , e os abraços que houve de hu- ma, e de outra parte, foram de quanta ar- tilheria cada hum trazia, porque os das proprias pefloas afli de maliciofo , como de honrado, não quiz Melique Az cue foflem de mais perto , -que eftar Affonfo P Albo- querque encoftado no bordo de fua não, e elle-em baixo em huma fufla. E dalli diffe tanta. diferição a Affonfo º Alboquerque fo- bre o não vir ver em quanto clleve emo porto de Dio, que dife Affonfo d’Albo- querque depois por elle, que nunca vira melhor homem de paço , nem mais pera: enganar hum homem difereto-, e per der- radeiro ficar contente delle. É quanto ás ou-' tras coufas do negocio fobre que tratáram ado ll PiL e “per 306 ASIA pe JoÃo dr Barros per recados , afii-o achou cautelofo”, que dife por elle aquelle dito Portuguez , que fe diz polos homens maliciofos: Eu te en- tendo , que me entendes , que te entendo , que me enganas. Finalmente elles fe defpeditam os maiores amigos do Mundo no exterior; e na vontade cada hum fe vigiava do ou- tro, e por efpedida Affonfo d Alboquerque lhe deo- quatro Mouros homens nobres, além de-lhe já leixar em Dio duas nãos, que tomáram de preza naquella traveíla com toda a gente, e fazenda, por fer da terra, o que elle muito eftimou. E muito mais ef- timára elle Afonfo d’ Alboquerque faber , an- te que fe delle efpedira , o que foube em Chaul, onde chegou, porque foi a tempo que havia poucos dias que alli era vindo “Iriftão. de Gá , que alli tinha mandado a ElRey de Cambaya, em companhia do qual vinha hum feu Embaixador. E per elle Trif tão de Gá foube que Melique Az trazia grandes requerimentos com ElRey , que em nenhuma maneira concedefle aos aponta- mentos que elle levava delle Afonfo PAL boquerque, fobre a fortaleza que pedia em Dio, reprefentando-lhe mil inconvenientes por parte de feu ferviço, e pera effeito def- te negocio peitava muito aos privados d'El- Rey ; mas parece que nefte cafo, prevaleceo mais a valia de Melique Gupi o ; a. ; gel A DecaDA TE. Liv: VII. Car. V. 307 delle Melique Az, Porque ElRey de Cam- baya elereveo a elle Affonfo º Alboquerque , que por defejar a paz, e amizade PElRey de Portugal, e por amor delle feu Capitão mór , pelfoa tão illnfire, e vitoriofa, con- cedia: as mais das coulas que lhe mandára pedir por agquelle feu menfageiro; pera con- firmação das quaes, e afli de outras que elle-eiperava delle, mandou aquelle feu Em- baixador , ao qual podia dar credito- ao que lhe -de fua parte requereíle. E quanto ao que elle Afonfo d’Alboquerque mandava pedir , principalmente ácerca da fortaleza, que ElRey de Portugal defejava ter nas fuas terras para aflentar alli feitoria, e fe trata- sem. entre elles as coufas do commercio, : elle fe reportava ao que Melique Gupi lhe eicrevia , a quem elle dera a refolução. de deus requerimentos. E com eita refpofta lhe «nândou algumas peças ricas pera ElRey, e pera elle, e hum-cavalio acubertado de laminas de aço , que era de fua pefloa; e ao tempo que eípedio Trillão de Gá, fica- va em campo nos confins do Reyno Man- do, com hum grande exercito de muita, e Jimpa' gente, pera fazer guerra a efte Rey- no; no qual exercito Trilão de Gá notou | grandezas , e potencia PEIRey, porquevio, que -com dificuldade hum Principe -deftas Partes da Europa: poderia ajuntar tanta gen- Ei te aa V ER 308 ASIA pE JoÃo Dz BARROS te de cavallo. E como homem poderofo, econfiado, que a fortaleza que Affonfo d’ Al- boquerque pedia , lhe não podia damnif-. “car, elcreveo Melique Gupi a elle Affonfo dAlboquerque ; que dizia ElRey, que era contente de lhe dar lugar pera em Dio fa- zer fortaleza, pois não era contente da Ilha junto de Góga , nem de Maim polas razões jue feu menfageiro apontára ; e quanto a não ferem Rumes recolhidos em {uas terras, elle proveria como o não foflem. Com ef ta reípolta vinham os feus requerimentos, eeram, queeile Afionfo d Alboquerque lhe havia de mandar tambem dar lugar em Ma- laca, onde os Mouros Guzarates de feu Reyno tivelem huma cafa forte pera guar- da de fuas mercadorias quando lá foffem, + e afi que lhe mandafle dar a não Menij, que lhe fora tomada. E pofto que Affonfo dAlboquerque, quanto ao que tocava å ten- cão PEIRey, entendia fer afli ifto que lhe ElRey mandava dizer, o que entendia por parte de Melique Gupi ácerca de dar for- taleza em Dio, e pedir cafa em Malaca, tudo procedia de feu particular interefle. Porque como elle era imigo capital de Me- lique Az , defejava haver em Dio huma fortaleza nofla, polo ver mettido em algu- ma revolta comnofco: cá fegundo elle tra- balhava com ElRey que a não houyelle, e | Bios E $ Decapda IL Livs VII Car. V. 309 modos que tinha comnofco , e havia deter; como alli a fortaleza. eftivele ; -eltava certo que lhe haviam de cuftar fuas cautelas al- guma coufa; e quanto a feitoria, e cafa de Malaca, como elle Melique Gupi era. o principal que Já tratava > tudo era afim de feu proveito, e não do bem commum dos Guzarates-de Cambaya. E pofo que Affon- fo LAlboguerque {entio ekas coulas, leve- mente as-concedeo , com o mais .que O Em- baixador tequereo ,-e logo dalli o quizera efpedir, mas elle não fe quiz ir, dizendo que ElRey feu Senhor lhe mandava que fe não folle fem levar à não Merij; e-que ha- yendo delle Affonfo d"Alboquerque ante da entrega della qualquer outro defpacho , que lho mandaífe per homens que comfigo trå- zia pera iflo. Afonfo d'Alboquerque vendo fua determinação, confentio nella , e logo dalli por a pefloa que o Embaixador man- dou com recado do que tinha feito , elle elereveo a ElRey , e a Melique Gupi, f cando o mefmo Embaixador pera lhe fer entregue a não que pedia”, que èftava cni Cochi)., onde Affonfo d Alboquerque aman- “dou metter no rio, efperando que com ella havia de fazer alguma boa troca. E parece que -o efpirito lhe dizia que havia de {er cedo, porque em partindo de Dio , efpedio, tres Capitães, Ruy Galvão, Jeronymo de a RR Sa pi 316 ASTA DE JoÃo DE BARROS com ElRey de Cochij, que nifto mais in- fiftia, que o de Cananor por as razões de feu proveito , que Já apontâmos, houveram por bem todos eita: paz, a qual durou: mui- tos annos; e na fortaleza que-fe fez por o trabalho que nella leváram:, Francifco No- gueira por Capitão, e Gonçalo Mendes Fei- tor, e leu Eferivao João Serrão; e afi lhe ordenou Affonfo d’ Alboquerque mais os of- ficiaes ; e gente de armas , como a cada huma das outras fortalezas. E porque Nam- bear guazil, que fora do Camorij paffado, por caufa nofla era lançado do Reyno , e depois em Cananor , onde tambem fervia à ElRey delte cargo, elle o efpedio, tudo por noflo refpeito; quando Affonfo dAl- boguúerque aflentou eitas coufas da paz com o novo Camorij, trabalhou com elle-que tornafle a reftituir- em feu officio a Nam- bear, o que elle fez. E não fômente em as naos , que Afonfo d’ Alboquerque defpachou com Carga pera efte Reyno-;-veéio -o Em- baixador do Camorij-com grandes prefen- tes pera ElRey D. Manuel; mas ainda el- le lhe mandou -outres ; que -todolos Princi- pes daquellas partes lhe tinham enviado. E tambem lhe mandou alguns cativos; e cas tivas que houvera de diverfas partes, prin- cipalmente: no eltreito,- pera per elles ter informação daquellas terras ; e com elles a en- ger: s Decana IL Liv. VIIL Car. VI. 377 enviou os Abexijs, que em Adem fe lar- cáram na Armada-pera confirmação do que lhe tinha eferito das coufas do Prefte João, e abonação do feu Embaixador Mattheus , que elle cuidava eftar jà nefte Reyno, e a não de Bernaldim Freire em que elle vi- nha, com outra de Franco Pereira Peftana eftayam em Moçambique, por invernarem alli, e vieram em companhia das defte an- no. Per as quaes, além das coufas que lhe mandava , tambem lhe efcreveo as coufas do eltado da India, e dos Principes della, como do Soldão do Cairo”, entre as quaes não fómente lhe efcreveo as que foube del- le no eftreito- do mar Roxo, (fegundo atrás vai relatado, ) mas como tinha cartas de Fernão Martins Evangelho , que elle lei yára por Feitor em Dio , que per Cambaya eram paffados Embaixadores pera os Reys, e Principes daquellas partes, principalmen- te pera o Rey de Cambaya ; e o do De- can. Os quaes Embaixadores vinham em nome do Cadij do Cairo, que naquele tempo reprefentava em dignidade do pon- tificado dos Mouros o que eram os Gali- fas de Arabia, que já não havia; e fegun- do a opinião dos Moutos , efte vinha do real fangue dos antigos Reys do Cairo: E peró que a fucceísão do eltado real andava per modo de eleição, fegundo a E E : eia di in ii sim bididaca Siaasoa co ma q Ps 2" CAES SIE fg a aa T re dr o e o E E a e ri ça ia 316 ASIA de JoÃo pr Barros deita linhagem ficou o facerdocio. da fus festa ; e efte era o que aflentava o Rey elei- to nā cadeira Real , e o confirmava naquel- le eftado per huma certa ceremonia de ben- ção. E o negocio, a que eftes Embaixa- dores eram vindos, -procedêra da entrada delle Affonfo dºAlboquerque no efireito, e commetter.ir a Judá; e a fubfiancia de fua embaixada era “reprefentar quanto damno todolos Mouros daquellas partes tinham re- cebido de nolla: entrada na India, e como os mares eram cheios de noflas Armadas; e não nos contentando com navegar os da Jndia, novamente entrára- huma mui grofla no eltreito do mar Roxo , e commettéra querer ir ao porto de Judá. Mas fora im- pedida com ventos contrarios , o que Deos permittira por meritos do feu profeta Ma- hamed , por, fua fanta cafa de Méca não receber alguma offenfa; e que eftas coufas da ouladia nofla tudo eram defcuidos de na chegada que fizeram em Adem, o pe- a que- j Dzrcana H. Liv. VI: Car. VI. 319 queno poder: que tinham, pois não eftan- do apercebida, mas mui defeuidada, e o fenhor della fóra , fómente hum feu Capi- tão os lançára dalli. Finalmente per eltes termos fuas exhortações eram lançar-nos fóra da India, e pera iffo traziam grandes in- dulgencias a todos que niffo foffem ; ea pefloas notaveis huma veltidura, a qual di- ziam vir benta- per elle Cadij com palavras do Alcorão: ;-promettendo-lhe, que veltin- do-as contra nós, além de ferem vencedo- res, falvariam fuas almas. E nefte mefmo “tempo tambem chegou hum Judeo do Cai- ro, que dizia fer Portuguez: de nação, e viver em Jerufalem , e aprefentou a Affon- fo d Alboquerque humas contas, e huma campainha com huma carta da parte do “Guardião de S. Francifco, debaixo da cuf todia dos quaes eftå o templo de Jerufa- lem , o qual era vindo ao Cairo ao cha- mado do Soldão pera lhe fazer faber ou- tro tal allombramento que queria deftruir aquella cafa , como fez ao Padre Fr. Mau- ros, que veio a Roma, como efcrevemos. Às quaes contas dizia ferem tocadas em to- dalas reliquias daquella Cidade de Jerufa- lem, e a campainha fora de huma Capella de N. Senhora , com a qual fe tangia ao alevantar a Deos à Mifla quotidiana, que fe naquella Capella dizia; e com feu tini- S ao do 320 ASIA pe Jožo pe BARROS do denunciara alguns milagres, que acon teceram naqueile acto do alevantar a Deos, e por fer mui antiga no ferviço-daquelle fanto ađto , e tida em grande veneração, lha enviava ; as quaes peças com as mais novas que lhe mandava do eftado daquel- las partes, e movimentos do Soldão, Af- fonlo Alboquerque enviou tambem a El- Rey D. Manuel. E o Judeo, que as apre- fentou a elle Affonfo dAlboquerque, fen- do tão imigo da caufa porque aquellas pé- ças eram eitimadas:, as trouxe em guarda té as entregar, porque com ellas efperava de fazer {feus negocios ante elle Affonfo q Alboquerque , por cuja caufa fora ter á India. Tea he o amor que os homens tem aos bens delta vida, que aborrecendo efte Judeo eltas peças polo que reprefenta- vam , as eflimou em muito, porque pos diam fer meio de acguirir bens temporaes;, que levam trás fi a maior parte dos homens , eltimando o que não crem por haver o que defejam , como fez efte Judeo. DE- DECADA SEGUNDA. Ev RO IX Dos Feitos, que os Portiguezes fize- “ram no defcubrimento , e conquilta dos mares, e terras do Oriente: em que fe contém o que fe fez em Ma- laca depois que Affonfo d"Albogquer- que fe veio della : e o que elle fez na India o anno de quatorze té fe partir pera Ormuz, CAPUT OS Como o fdo Pate Quetir , que vivia na povoação Upi depois que Affonfo d Alboquer- gue partio da Cidade Malaca; continuan- do a guerra, mandou tomar certa artilbe- ria, onde matáram Afonfo Peljoa , que ef- tava em guarda da tranqueira , donde fe caufon ir Fernão Peres d Andrade fobre el- le, e lhe queimou a povoação. € * Ecunpo atrás eferevemos ,-ao tempo que Affonfo d'Alboquerque' fe partio > da Cidade Malaca, Pate Quenr calado: com huma filha de Utimntiraja ficava ale- vantado contra a nofla fortalezas commet- tendo algumas vezes, depois que paflou o T: ] i ori Lom. LE PẸ. IL X pi- X m 4 É nb à E Ji VR $ | l | | | | H d 322 ASIA DE Jožo DE BARROS primeiro infulto de queimar a Cidade da parte da habitação della , de a querer ou- tra vez commetter a fogo, e fangue, com que obrigou a Affonfo d'Alboquerque, em quanto lá eftava, mandar fazer huma tran- queira no cabo da Cidade té enteftar em hum efteiro, que a vinha cercando pela parte do fertão. Em guarda da qual tran- queira leixou Affonto Peíloa com té fetenta homens ; e onde fe fazia hum cunhal que tinha duas faces, huma ao longo do mar, em que começava a povoação da Cidade, e outra que fazia a mefma tranqueira; nef- te canto , por fer lugar de fufpeita, e vi- zinho a Affonfo Peíloa, mandou pôr huma, barcaça com hum camello , e outras feis pe- ças pequenas de metal, que tiravam ao lon- go deftas duas faces, da qual era Capitão Áffonfo Chainho. Pate Quetir porque quan- do afua gente vinha commetter a tranquei- ra recebia mais damno do camelo , e pe- ças delta barcaça, por varejarem ao longo della , que dos efpingardeiros de Affonio Peíloa, huma ante manhã ao tempo que a gente eftava mais quebrantada da vigia de toda a noite, per mar de que os noflos fe não temiam por té então não terem com- mettido per alli, mandou dous calaluzes , a gente dos quaes affi veio calada, e fubi- “ta, que matáram Aflonfo Chainho , e os E “que DecapA IL Liv, IX.Car. I. 323 | que com elle eftavam, fômente ficou hum bombardeiro que tirava com o camelo que levaram pera fe fervir- delle nefte mifter. O qual cafo aconteceo a tempo que Fernão- Peres dº Andrade Capitão do mar era ido ao rio de Muar, cinco leguas além de Ma- laca em bufca de Laciamana Capitão mór da Armada do Rey que fora de Malaca, o qual fe mettia alli pera com rebates da- quella parte ajudar a Pate Quetir: peró da- quella ida Fernão Peres não pelejou com elle; por lhe efcapar como- Capitão aftucio- fo que era. Chegado Fernao Peres a Malaca- eta manhã que Affonfo Chainho foi mor- to, achou a Cidade pofta em grande trif- teza por efte delaítre, e muito mais quando fouberam como Lacfamana queria guerrear a Cidade , e não pelejar com elle Fernão Peres. Finalmente logo aquella manhã pof- to elle em confelho com os Capitães que trazia, e com Ruy de Brito Capitão da for- taleza , aflentáram que elle Fernão Peres com fua Armada, em que levaria té duzen- tos e cincoenta homens , e Affonfo Pefloa per terra com. os feus fetenta efpingardeiros defer juntamente na povoação de Upi, on- de Pate Quetir eftava recolhido em huma fortaleza de madeira. Partido Fernão Peres per mar, foi Affonfo Peíloa ao longo da praia. igual delle com os feus fetenta efpin= Ss SS - gar- 324 ASIA DE Jožo pE BARROS gardeiros, e em fua companhia mais de quinhentos homens da terra dos de Nina Chetu , e das outras peíloas principaes, a que Affonfo dºAlboquerque tinha dado os mais honrados cargos da Cidade. E porque ante de chegar ao lugar Upi fe fazia hum efteiro, que de maré vazia fe paflava a pé, era tão má efta paílagem por caufa da va- fa, que fe deteve Affonfo Pefloa tanto, que primeiro que elle chegaffe, tomou Fernão Peres terra, e porém com affás perigo. Por- que Pate Quetir tinha feito huma cerca de madeira mui forte com entulho de terra per dentro, e cava per fóra, e ficava efta parte de dentro tão foberba fobre a cava com o entulho que fobia té o meio da ma- deira, que lhe fervia em lugar de hum for- te muro com muita artilheria affeftada onde convinha. Fralém defta cerca que era gran- de, tinha dentro outra pequena feita à ma- neira de fortaleza , onde fe elle recolhia, a qual era tão apartada do mar, e mettida pa terra, quanto fe eftendia o circuito da grande, e per derredor era a terra retalha- da em efleiros feitos 4 mão. De maneira que efta fortaleza per fitio era brigofa de commetter , e per repairos muito forte pera entrar: cá a madeita da primeira cerca era de ferro, porque os noflos pão ferro cha- mam áquelle genero: de madeira por gago a “qa Decana II. Liv. IX. Car. I. 325 da fua fortaleza , e fer tão duravel ; que Sol, nem agua lhe faz damno , a qual com- mummente chamam barbufano. Somente a fegunda cerca, onde eftava o apofento de Pate Quetir, era de fandalo branco, e ver- melho , e'pãos tão groífos, como fe elles nafcêram pera aquelle mifter , e não pera fe moer em hum almofariz de boticairo pera as mezinhas em que ufamos delle : tão grof fo era o cabedal daguelle-Jão Utimutirája fogro defte Pate Quetir, que as coufas de mercadoria afli as tinha- em quantidade, que podia fazer huma cerca “de fandalos , como: de madeira do mato ; que elle tinha por vizinho. E com eita confiança das forças que tinha feito, eftava Pate Quetir tão fe> - guro, que lhe parecia coufa impofivel po- derem os nolos entrar dentro ;- e por ifo quando lhe diferam que Fernão Peres to- mára aterra, polo muito que havia de fa- zer na entrada da primeira cerca, e depois de enxotar o grande número de gente que comíigo tinha, que poderia fer té feis mil almas, não fez muita-conta delle, e leixon- fe eltar, mandando feus Capitães que acu= difem á praia, os quaes com a grande mul- tidão da gente que traziam; em chegando ao lugar onde Fernão Peres commetteo que- rer entrar, deram-lhe tanto que fazer, «que per hum grande eípaço o detiveram de fó- e zofa 322 ASIA DE Jožo DE Barros fas Armadas; e a outra datia caufa a que ellas acudiflem áquella parte ,-e entretanto teria elle tempo pera fazer fua fortaleza fem “eftar fempre com-a lança na mão , e tam- bem podia dar hum falto em Malaca, co- mo fe fez na tomada da barcaça-com-a ar. tilheria , fendo-a nofla- Armada no-rio de Muar. Ruy de-Brito Patalim Capitão da fortaleza -de Malaca, porque huma das cou- fas em que mais trabalhava era em trazer entre eftes imigos pefloas , que foubeflem parte de qualquer movimento delles, enef tas Intelligencias, e avifos gatava muito, veio faber parte defta carta de Pate Quetir; e porém foi a tempo, que tinha elle já fei- tò: a fua fortaleza de madeira no lugar que elegeo ,: que foi acabada em poucos dias com a muita gente que tinha. E tambem alguns dos juncos de mantimento que efpe- rava: da jauha eram já vindos ; os quaes tantos que chegáram; e foram defpejados, em quanto lhe não fazia tempo pera fe tot- nar, ordenáram-fe logo pera fe defender, temendo noíla Armada. E porque o lugar per onde os noflos podiam commetter en- trår na fortaleza era de vafa, e a tefta do fecco da terra foberba a modo de alcanti= lada, puzeram os juncos com as popas em {ecco hum junto do outro de maneira, que ficavam hum baluarte com muita artilheria Ê que Ega i Drcana IL. Livy. IX. Car. I. 333 que tinham. Sabendo Ruy de Brito , e Fer- não Peres como Pate Quetir já eftava for- talecido, e provido de mantimento, € que ito refpondia ao que tinham fabido da car- ta que diziam elle ter mandado a EiRey Mahamud, houveram quetodo o mais del- la era verdade, e que fe urdia huma tea trabalhofa pera desfazer, ou cortar fe fof- fe mais avante. Finalmente havido confe- ho com todolos Capitães, allentáram que Fernão Peres foffe commetter aquella for- taleza, e trabalhaffe por a desfazer: e praze- ria a Deos que lhe feria mais leve de to- mar, do que foi a outra que lhe queimou , com que acabariam de deftruir efte-Jão; que os inquietava. Partido Fernão Peres com todolos Capitães a cite feito , quando vio o fitio, e modo como os juncos eftavam, e que commettellos de rofto era coufa mui perigofa , afaitou-fe hum pedaço da fron- teria delles, e fahio mais a baixo com to- da lua gente em hum corpo. Ao encontro do qual; depois que foi emtetra, (porque de induftria ao defembarcar não o quize- ram impedir ,) fahiram huns poucos de Jáos ao modo de cilada de dentro de hum pal- mar, Os quaes tanto que os noílos comecd- ram ferir, foram-fe recolhendo pera o pal- mar , molftrando temor. E como os tiveram bem afaftados da ribeira, e engodados. na Eis | é vi- i i i i 334 ASIA DE JoÃo DE BARROS vitoria , fahio do palmar hum corpo de gen- te grofla, e affi apertou com os noflos, ne os fizeram vir recolhendo té que paf fido aquelle primeiro fubito , tornáram a elles já em modo de vingança, com que os fizeram logo recolher delles ao palmar, e outros à fortaleza, A qual per o circui- to de fóra, além de fer terra alagadiça, e retalhada em efteiros á mão , per dentro tambem era feita hum labyrintho com le- vadas, cavas , e paliçadas de madeira, per onde os Mouros andavam tão leves, como per hum campo mui defpejado, e os nof los carregados de armas , fe queriam dar hum falto, cahiam no meio da vafa. Fer- não Peres , depois que á ponta do ferro defpejou hum terreiro da primeira cerca, quando entrou na fegunda, onde havia efb tes impedimentos, não quiz metter a gen- te' naquelle labyrintho, e mandou pôr fo- go a hum lanço da fortaleza, e que fe re- colheílem, por não vir o fogo, e lhes fa- zer algum damno. E andando já o fogo ateado nella, e affi em humas lancharas met- tidas em hum efteiro , acertou de fe embar- car com Ruy dAraujo em hum pardo tan- ta gente , que não pode nadar, e como à maré vafava , ficou envafado na vafa. Os Mouros como vinham ladrando trás os nof- fos, (por efte lugar fer alcantilado ,) a Eis o DacapA IL Liv, X.C T. 335 do de cima como: os do paro eilavam pre- zos, começáram de frechar , e alancear nel- les, fem perder lança, nem-frécha. Fernão Peres que eftava mais em baixo já embar- cado pera vir do mar pôr fogo aos juncos, quando vio o que padeciam eítes do parão , mandou remar contra elles, bradando aos outros paráos, que eltavam pouco carrega- dos, que acudiflem áquelle : chegando os quaes , foi tamanha a revolta dos que efta- vam no pardo pera fe paflar a elles, que fe mettiam bem pela agua. Ruy d'Aravjo, cujo era o parão, querendo-fe tambem paf- far aos outros , travouílhe da faia de ma- lha que trazia hum tolete do remo , com que SE pera fempre: cá nefte defem- peçar veio huma lança de arremefÃo , que o matou, e foi caufa de morrerem outros; porque cobraram os Mouros tanto animo nefte embaraçar dos noflos, que defcêram abaixo , mettendo-fe na agua às lançadas com elles; na qual revolta morrêram eftes Capitães, Chriltovão Malcarenhas, Anto- -nio Azevedo, Jorge Garces filho do Se- cretario Lourenço Garces , e afli matáram Chritovao Pacheco., e outros té número de doze peíloas. O qual defaftre favoreceo tanto a Pate Quetir, que dahi em diante começou de querer per terra commetter a tranqueira da Cidade, onde eftava: adido se: Pef- fi 336 ASIA DE JoÃo DE BARROS Pefloa , ao qual Ruy de Brito per morte de Ruy dºAraujo proveo de Feitor , por os trabalhos que nefte lugar tinha levado. ElRey Mahamud como foube de Pate Que- tir efta vitoria que houvera , começou de pôr em obra o que lhe elle per fua carta mandára pedir, ácerca de o favorecer com a Armada de Lacfamana per os lugares que. lhe apontára , o que té então não fizera, parecendo-lhe que ficara daquella feita , que Fernão Peres lhe queimou a povoação Upi, tão quebrado, que não levantaria mais ca- beça. E não paffáram muitos dias depois da morte deftes noflos , que Lacfamana não veio ao rio de Muar , onde Fernão Peres determinou de oir buícar: cá pelo que tis nha fabido dos avilos que mandavam a Ruy de Brito, fabia fer elle vindo alli pera fa- voreter a Pate Quetir. Porém Lacfamana como era fabedor na guerra, e não queria haver rompimento -com -Fernão Peres de batalha de peffoa a peílos, [ómente andar ladrando derredor daquella Cidade, e pol- la em cerco de lhe não virem mantimentos» tanto que teve avilo que elle partia de Ma- laca, fahio-fe do rio de Muar pera fe met- ter per o eftreito de Cingápura, cá por não fer fabido inda dos noflos ifto lhe faria não oufarem de entrar perelle. Mas não fe po- de tão preites acolher , que Fernão Peres O não: Decana IL Lav. IX. Cap. TE 337 não alcançafle junto de hum efteiro largo; e que entrava muito pola terra, onde fe elle Lacfamana recolheo, pera ter favor de alguma gente, que havia em terra. E tan- to que foi dentro no lugar melhor difpof to pera fe defender, varou quafi em fecco todas fuas lancharas , e calaluzes, que fe- riam- mais de cincoenta peças, todos navios lubtis; que demandão pouco fundo á ma- neira de tuftas , e bargantis, parte dos quaes eltavam com as proas em terra, e o mais na agua, afli juntos em baítida, que pare- ciam hum folhado de madeira, que fe po= dia 'andar por cima, todos com fua arti- lheria pofta em ordem. E arredados deftes , mandou pôr algumas lancharas das maiores atreveffadas, que emparaffem: as outras, e dar-lhes furos , com que fe enchéram de agua, pera que quando os noílos o viellent demandar , não pudeflem chegar com ‘efta defensão. Fernão Peres quando o achou pof- to nefta ordem, vendo que lhe não podia chegar com as lancharas. alagadas, as quaes ficáram à maneira de recife de pedras com canaes retrocidos , pera os noffos:bateis fe ' atravellarem , poz-fe com hum navio ,-e huma galé:, de-que eram Capitães Jorge “Botelho, e Pero de Faria, hum pouco: de largo , temendo que lhe ficaflem em fecco; algm. Il. Pol por começar a maré-a defcer , e com a mais XY Är- 338 ASIA DE JoÃo DE BARROS Armada, que tudo eram bateis, e outros navios de remo dos da terra, chegou-fe ás lancharas, que eftavam alagadas. E pofto que logo em chegando não as pode paffar, tanto que a maré as começou defcubrir, e os noflos viram per onde podiam andar de „humas em outras , foram dar com as que eltavam por fortaleza; na chegada dos quaes houve tanto tiro de huma, e da outra par- te, que andava oar, e o mar coalhado de fettas, e fréchas. Porque além de Lacfama- na trazer comfigo muita gente, a maiot parte della Jáos, homens mui atrevidos em commetter , e animofos em efperar, da ter- ra concorreo alli muita gente; e pofo que fe não mettefle nas lancharas de Lacfama- na, pornão poderem caber nellas, era tão perto delles aos noflos, que com as fréchas hiam fréchar a gente dos navios, que efta- vam afaítados. A artilheria dos quaes não tirava de fóra, temendo que poderiam fa- zer damno aos noffos dos bateis, que an- davam envoltos com os imigos; e-tão tra- vados, que não havia entre elles mais ef- paço, que o comprimento de arma, com que fe feriam. Peró como a maré era já tanta, parte della vafia, que eftes noílos: que - pelejavam , temêram que podiam ficar em fecco entre as lancharas alagadas, e.as da terra com que contendiam , pa x Ag “o del- Decana fl Liv. IX. Cap. IL 339 dellas pera o mar, trazendo alguns calalus zes dos imigos , que puderam tomar, aos quaes puzeram fogo entre as lancharas ala- gadas, por fe atear nellas ; mas os Mou- ros o apagáram logo, e com efte deípejo a nolla artilheria começou a jogar. A qual lhe fez tanto damno, que fenão fobrevie- ra a noite, muito mais houvera de lavrar nelles do. que lavrou o ferro dos noflos em-efpaço detres horas, que mão por mão pelejáram com elles; pofto que a peleja foi tão-crua, que houve dos noílos muitos fe- ridos. Laciamana, poíto que tambem teve feridos; e mortos, todo feu cuidado daquel- la noite foi ordenar-fe como poderia efca- par de não pelejar outra vez; porque nas tres horas da peleja daquelle dia pafado experimentou que vinda a manhã, tornan- do Fernão Peres a commettello , não lhe ficaria homem vivo, vendo que tanto dam- no lhe fazia o animo dos noflos em com- metter , como dos feus Jáos em efperar, oiterecendo-fe á morte como falvagens por fe vingar. Finalmente com a muita gente que tinha, aquella noite affi os navios ala- gados, como por alagar, elle os vartou to- dos em terra ; e diante delles com madei- ra, é terra fez hum repaito tão forte, como o pudera fazer muito de vagar em tres, ou quatro dias. Fernão Peres per Íua Si XY H par- N | | i i l Ji i a 340 ASIA DE Jožo DE Barros” arte tambem curados os feridos ; á-maneis ra de pelcador que atravefla -o rio: com fua rede , por não perder o peixe que corre, com todolos navios que tinha de terra a terra atravellou todo o rio , temendo que Lacíamana aquella noite não fe lhe fofle pera fóra. Porém quando amanheceo, que elle vio a maneira da força que elle Lacta- mana tinha feita, ficou efpantado , e teve-o por homem de grande efpirito , e indüftria : cá não fómente fez coufa que havia mifter muita gente, e munições pera a commet- ter ; mas ainda foi tão caladamente, que de o não fentirem cuidava elle Fernão Pe- res que fugira pelo rio aílima com parte da frota, E o que ainda lhe deo prefum- ção delta ida foi, porque ante manhã aca- bada a obra, como quem repicava em fal- vo, mandou Lacfamana tanger todolos feus finos , que são de metal ao modo de ba- cias grandes, e -dellas taes, que o feu tom quando são muitas em huma frota, fe ou- vem no mar huma. legua. A qual alvorada Fernão Peres cuidou que dava a gente-da terra áquelle tempo per induftria delle mef- mo Lacíamana, porque cuidailem os nof fos eltar elle alli , e que de Ífeguros diflo não o iriam commetter fenão manha clara, eelle com ifto teria mais tempo pera remar. pelo rio acima. Vendo Fernão Peres o mo- w Decani I Liv: IX. Car- I. 343 do que efte Capitão teve no recolher-fe na- quelle rio, furtando a volta a Jorge Bote- -Jho , que cuidava que quando entrou- pri- meiro nelle , lhe tomava adiante, pera fe não poder acolher per elle alima, e afia induftria tão incontinente que teve no alar- gar das fuas lancharas por lhe não chega- rem, e o que fez aquella noite, teve con- felho com os Capitães, e aflentáram não fer a força que elle tinha feito coufa pera commetter; por não terem gente, nem mu- nições pera lilo ; e que aventuravam per- derem-le todos; e mais quantos ficavam em Malaca, pois a vida dos que lá etavam pendia da defensão delles » fazendo conta de o tornara bufcar apercebidos de outra “maneira, pera 0 commetterem em qualquer parte que fe recolheffe: com a qual deter- minação por eípedida mandou Fernão Pe- res esbombardear-lhe os navios per todo aquelle: dia, e de noite paftio-fe pera Ma- laca onde chegou. 7 348 ASIA DE JoÃO DE BARROS mettiam aquelle feito,. e fe eram da Jauha partidos mais jnncos em favor de Pate Que- tir, e outras confas que convinham pera -fua informação. O qual refpondeo , que feu fundamento era a natureza dos Jáos matar quem os cativa, ou a pefloa de que rece- bem mal; e quanto a fe eram partidos jun- cos da Jauha , em fua companhia vieram tres, os quaes ficavam no eftreito dé Cin- gapura, donde não haviam de partir té ve- rem recado feu , porque elle vinha diante em-maneira de defcubridor ,. temendo po- dello topar , e que entre aquelles tomados eftava hum filho de Pate Quetir. Fernão Pe- res: tanto que teve efta informação , man “doucarrecadar eltes cativos, e partio-fe com aquella preza pera Malaca, e dahi mandou Jorge Botelho, e Lopo d'Azevedo em feus navios: bufcar os juncos onde lhe difera o Capitão Jão, os quaes elles tomáram leve- mente, etrouxeram 4 Cidade. E nefte mef- mo tempo chegou de Pegu outro junco de mantimentos , no qual vinha Gomes da Cu- nha sique Affonfo dº Alboquerque lá enviou aflêntar paz com o Rey da terra, notifican- do-lhe-a tomada de Malaca, e que fegura- mente podia mandar feus juncos, e vaflal- los- a ella pera “o negocio do commercio, como fempre fizeram. E porque com a to- mada deites juncos, que vinham, pera Pate ais Que- Decapa IL Liv: IX.-Gar. III. 349 Quetir ella ficou mui quebrado ; e com mui- ta dor por caufa- do filho que lhe cativá- | ram, (pofto que dahi a poucos dias o man- | cebo fugio da prizão, e fe foi pera QUE) | e os noflos ficáram com as forças reftitui- das da fome paffada , affentou-fe em confe- | lho entre todolos Capitães, que ante de Pa- | te Quetir fe prover , deffem {obre elle, por- | que com elle deftruido perderia ElRey Ma- hamud a efperança que tinha de cobrar Ma- laca com fua ajuda, e Lacfamana não vis ria dar os rebates que dava. Partido Fer- não Peres com toda a-fua frota, e a-mais gente que pode levar, e outra per terra pe- | la maneira que Affonto Peffoa foi duas ve- | zes, deo-lhe Deos tal vitoria que matáram muita gente a Pate Quetir , e queimáram- lhe aquella força, e elle acolheo-fe ao ma~ to com mui poucos, € delta feita ficou tão deftruido , e quebrado no animo, que não oufando efperar alli mais, em dous juncos que alli efavam da Jauha , fe partio pera já com determinação de não tornar mais a Malaca; e no modo de fua partida teve-tan- to fegredo , € aftucia , que havia tres dias que era partido fem fe faber em Malaca. E pa- recendo-lhe a Fernão Peres que o podia al- cançar ; foi tras elle .té vazar fora do efreito de Sabam, per onde elle havia de fazer feu caminho , e em lugar delle topou com Lacçfa- ES -= ma- x 350 ASIA DE JoÃo DE BARROS mana”, que andava alli efperando os juncos, que vinham per Malaca : peró não houve entre elles peleja, polto que Fernão Peres O feguio huma tarde toda , peró que com a vinda da noite Lacfamana efcapulio per entre aquellas Ilhas fem mais delle haverem vifta, Vendo Fernão Peres que andar lá mais dias era tempo perdido , e mais go- vernando pela pilotagem dos Mouros da terra, porque ainda os noffos Pilotos não tinham navegado daquelle eftreito por dian- te, tornou-fe pera Malaca , onde achou quem lhe contou daguella navegação, que foi Antonio dºAbreu, que Affonfo dºAlbo- querque tinha mandado às Ilhas de Maluco, (como elcrevemos.) Da viagem do qual, € do que elle , e Francifco Serrão, que hia em fua companhia pafláram , adiante fare- mos relação, quando começarmos a tratar em o defcúbrimento das Ilhas de Maluco, - onde elles eram enviados. E fegundo o tempo em que elle Antonio d&ºAbreu veio, que foi andando Lacfamarna atravelfando os mares per fóra das bocas daquelles dous eftreitos , Cingapura, e Sabam, e afi fer partido Pate Quetir pera a Jauha , pelo qual caminho elle Antonio d'Abreu vinha, foi grão dita não o toparem, e muito maior partir-fe naguelle mefmo tempo Pate ry Porque, de dilatára {ua partida vinte Dec: TE ‘Erv: IX. Car. HI. £ IV. 359 dias, fe Deos milagrofamente não defendê- sa Malaca, houvera-fe de perder, polo que fuccedeo com huma groíla Armada que veio da Jauha, como fe verá no feguinte Capi- tulo. E API TUDO: IV. Em que fe defereve a Nha Jauha: e como bum Principe della chamado Pate Unu z fez buma mui grofa Armada pera vir fobre Malaca: e o que os nofjos fobre iljo fizeram. Terra Jauha he huma Ilha, que eftá ao Oriente de Camatra , tão vizinha a ella que entre ambas fica hum efreito;, que ferá de largura té quinze leguas. O lan- camento defa Ilha Jauha he quafi pelo ru- mo de Levante, e Ponente; tem a primeira ponta Occidental em altura de feis grãos do pólo do Sul, e em fete e meio a outra Oriental, e aqui faz outro boqueirão , por que fe vam continuando a efta primeira hu- ma corda dellas grandes, e per grande ef- paço contra o Oriente. Terá de compri- mento efta Ilha Jauha cento e noventa lë- guas , e da largura não temos certa noti- cia, por aquella face do Sul não fer ainda Z por nós navegada ; e fegundo fama dos na turaes, toda a cofta daquella parte por ra- zão do grande golfão do mar do Sul, he E ; de 352 ASIA DE JoÃo DE BARROS de poucos portos, e eftes que habitam a parte do Norte, não fe communicam com o Gentio daquella colta : cá per meio da Ilha 20 comprimento della corre huma cor- da de ferrania que os impede , e todavia dizem que a largura defta Ilha ferá o terço de {eu comprimento. Geralmente he povoa- da de povo idólatra , a que chamaYáos do nome da terra, gente da mais policia daquellas partes, a que fegundo elles di- zem veio alli povoar da China ; e parece dizerem verdade, porque no parecer, e no modo de fta policia imitam muito aos Chijs; e afli tem Cidades cercadas, e andam a ca- vallo , e tratam o governo da terra como elles. Porém depois que Mouros de Mala- ca navegáram a ella , de mercadores pou- co, € pouco fe fizeram conquiltadores, to- mando pofle, das Cidades portos de mar; com o que o Gentio ficou fem navegação ; e por caufa da guerra que lhe os Mouros faziam, começáram de fe recolher pera den- tro da terra ao pé da ferra, que diflemos, E entre alguns Mouros da mefma linha- gem dos Jãos , (porque per doutrina dos Malayos fe convertêram muitos Jáos,) ao tempo que nós tomámos Malaca , era O principal Senhor da Cidade Japára hum per nome Pate Unuz , o quai depois fe fez Rey da Cunda, como veremos adiante. -Efte co- mo tod Do all Liga DG Can. e mo era homem poderofo , e aparentados e-que per modo de coflairo fe tinha feito fenhor da terra, tomou penfamento de vir fobre a Cidade Malaca, vendo que a maior parte dos moradores della eram Jáos , em os quaes elle havia de ter muito favor. Fi- nalmente com efte penfamento começou de mandar fazer hum junco, que feria em car- ga do tamanho de huma das noflas nãos de quinhentos toneis; ao qual mandou lan- çar outro coftado , e fobre efte outros té número de fete, com hum certo betume de cal, e azeite entre coftado , e coftado , a que elles chamam lapes, com que o junco ficou de tres palmos de groflura de manei- ra, que em qualquer parte que o puzellem podia fervir de hum forte baluarte, Fazen- do elle Pate Unuz fundamento, que quando na primeira chegada, com a muita gente que efperava levar, não pudefle tomar a Cida- de, com efte junco em modo de fortaleza fe leixaria eltar fobre ella defendendo não entrar, nem fahir coufa alguma, com que a tomaria á fome ; e alem deite junco fez outros navios, na qual-obra fe deteve fete annos. E quando foube que Affonfo. P Al- boguerque com menos Armada , e gente do que clle efperava levar, tomára a Cida- “de, cobrou maior animo, concebendo. ef- perança de nos lançar fóra, porque os mef- Tom US ZE = Mos y | N os na = e re mara 7 aee cena s e erne vas Še 374 ASIA DE Joño pe Barros mos Malayos em: odio noflo feriam em fua ajuda. E porque já com efta côr de nos lançar de Malaca, podia encubrir feu prin- cipal intento, começou de ter algumas in- telligencias com os principaes Jáos que vi- viam em Malaca, principalmente com Uti- mutirája em quanto viveo , e depois com Pate Quetir , e Curia Deva, que eram os mais poderofos, os quaes liberalmente lhe fizeram offerta de fuas pelloas , e o feito mui leve de acabar ; apreílando-o muito que viefle a elle. Finalmente elle fe fez pref tes com noventa vélas, de que a maior pat» te eram navios peguenos de remo de toda forte, e os mais juncos, em que entravam além defte notavel que diflemos , outros mui grandes, afli como hum em que vinha hum Jão mui poderofo Senhor da Cidade Polim- bam , que era a fegunda peíloa deita Ar- "mada, ao qual chamavam Timungam. E em outro junco vinha hum feu fobrinho, que por fer homem de fua pefloa era temi- do naquellas partes, e affi outros Jáos prin- cipaes, trazendo todos voz que nos vinham lançar da terra , fem algum delles faber a tenção de Pate Unuz , fendo elles convoca- dos per elle com a voz que todos traziam, na qual Armada, ( fegundo fama ,) viriam doze mil homens, com muita artilheria fei- ta na Jauha, por ferem grandes homens de DrcaDA IL Liy. IX: Car. IV. 355 fundição , e de todo lavramento de ferro e outra que houveram da India. À nova da vinda defte Pate Unuz , poito que fe encubrio muito tempo aos noilos , foi fabi- da em Malaca na entrada de Janeiro do anno de quinhentos e treze , a tempo que Fernão Peres eftava de todo preftes pera fe partir pera a Índia com as tres nãos carre- gadas da Armada de Diogo Mendes de Vafconcellos, que por ferem de armadores, per ordenança de Affonfo dºAlboquerque:, (como atrás fica, ) haviam de vir a efte Reyno com carga de efpeciaria. Sobre O qual cafo, fem termais noticia do número, e poder das nãos, fômente por lhe certifi- carem alguns mercadores que tinham nova da vinda defte Jáo em ajuda de Pate Que- tir, Ruy de Brito, e Fernão Peres com todolos Capitães em confelho aflentáram fer ferviço PEIRey ir Fernão Peres com toda a Armada efperallo ao eftreito de Sabam , onde {e podia melhor ajudar delle. Partido Fernão Peres a efte cafo , não achou em todo o eltreito nova, nem noticia de tal Armada; e porque os noflos fempre anda- vam fuípeitos com as novas que davam os Mouros, por as mais vezes ferem falas; tornou-fe Fernão Peres a Malaca acabar de fe aperceber pera a India. E havendo cin- co, ou feis dias que a — i E u is 356 ASIA pe Jožo ne Barros: efireito, tendo já fóra toda a artilheria quê levava da fortaleza , e eltando quafi de to- do carregado , e de verga d'alto pera fa- zer fua viagem, els-aqui apparece contra o Cabo Rachado , que he de Malaca obra de tres leguas. contra -a India, todo o mar coalhado de velas da Armada de Pate Unuz. O qual de induftria por dar de fubito fobre a Cidade , tanto que paffou o eftreito de Sabam , foi-fe cozendo com a terra de Ca- matra, que elá defronte de Malaca, met- tendo-fe per entre as Ilhas por fe encubrir, te que veio fahir por o rio chamado Cya- ca, € dalli atravelou a terra de Malaca, e defcahindo com as aguas, vinha demandar a Cidade per aquella parte por fegurar os noflos: cá fe fole vito cuidariam que eram velas da India , que ficava daquella parte do Ponente ~ onde elle apparecia, e não da Jauha:;, que jaz ao Levante de Malaca. Vif- ta tão. gránde frota, entendêram os noflos der Pate Unuz, e logo em continente tiye- ram os Capitães confelho , no qual entre Ruy de Brito Capitão da fortaleza, e Fer- não Peres houve algumas palavras, dizendo Fernão Peres a Ruy de Brito, que fe que- ria metter na nofla Armada como pefloa principal, que elle fe fofle a fua fortaleza, de que tinha dado menage , e leixafle aelle ufar de feu officio de Capitão mór doin gi ço O: et. Pobi ft De Capo IV 357 Todavia naquelle primeiro confelho , como quem acode a hum fogo geral , porque O tempo não dava lugar a mais, todos {e ar- máram , e mettêram em os navios , Ruy de Brito em a galé de Pero de Faria , e Fernão Peres na fua não, leixando em guar- | da da fortaleza Aires Pereira Alcaide mòr della, Pero Pefloa Feitor; e Antonio PA- breu por doente ; que havia poucos dias que viera de defcubrir Maluco, € com el- les té vinte homens. Seriam as vélas que fe apercebêram contra Pate Unuz dezelete, de que eram Capitães Fernão Peres, João Lo- pes dAlvim , -Lopo PAzevedo, Francilco de Mello, Jorge de Brito, Joannes Impo- la fenhotio da não em que hia, Jorge Bo- telho , Martim Guedes, Vafco Fernandes Coutinho, Chriltovão Mafcarenhas , e Pe- ro de Faria, com quem fe metteo Ruy de Brito, e Tuam Mahamed Tamungo de Ma- laca , homem fel, e cavaleiro em hum junco da China feu, na qual frota iriam té trezentos e cincoenta Portuguezes , e alguns naturaes da terra homens havidos por fieis. Partida efta frota contra onde vinha Pate Unuz , metteo-fe hum pouco ao-mar pot lhe darem a elle a parte da terra, por ye- rem que fe cozia com ella , como quem não queria perder aquella poffe , levando ante f abrigados da nofla frota todolos na- Ras e vios e 364 ASIA DE Jožo DE Barros. yio a fortaleza das noflas nãos, e o animo daquelles que hiam nellas, que tão oufada- mente, fendo tão poucos, commettêram a grandeza da fua frota ; de maneira , que com a experiencia teve maior opinião de nos , e menos elperança do que trazia, € não tanta facilidade, como Curia Deva, e os outros Jáos lhe promettiam per cartas. Finalmente havido confelho fobre o modo que teriam em commetter a nofla Armada, e mais a fortaleza , pafladas muitas dúvi- das, e debates, o melmo Curia Deva ven- do algum receio nos principaes Jãos, que vinham com Pate Unuz, lhe reprefentou a relolução do que devia fazer , por alguns Inconvenientes que elles apontáram , e prin- cipalmente por elle fegurar fua fazenda, te- mendo a natureza dos Jáos , que fahindo em terra, o poderiam faquear por efpedi» da, ora lhe fuccedeffe bem, ou mal no ca- fo; A qual refolução foi, que a elle Pate Unuz lhe não convinha fahir em terra a tomar a fortaleza; porque ainda que tivel- fe certo poder-fe fazer , corria a fua Ar- mada rico de os noflos a queimarem, € fendo afli, elle ficava o cercado, e desba- ratado, e nós os vencedores; porque como a vida daquella Cidade era os mantimen- tos que lhe vinham pelo mar, tanto que lhe puzellem a mão na garganta da entrada del- 3 “les SS Decana IL Liv. IX. Cap. V. 365 les não tinha mais folego. Tambem pelejar com as noflas nãos a elle não parecia bem, por fermos a mais oufada gente que elle tinha vito, fem ter conta com muitas, ou poucas vélas, nem fe eram grandes, ou pe- quenas , porque qualquer das noffas nãos commetteria abalrcar com o {feu junco. E pois qualquer defes modos que elle com- mettelle, por caufa do grande apparato que trazia, defefperava os noílos, com que lhe dava dobrado animo do que tinham ; de- via elle- Pate Unuz commetter efte negocio não tanto á força de braço, mas com par- te de prudencia , e de vagar , e não tão apreffado como vinha. E pera não cahir neftas coufas que apontava, lhe parecia que elle Pate Unuz fe devia tornar ao rio de Muar com toda fua frota, e na entrada delle leixar todolos juncos grandes, por fer lugar eftreito , onde os noflos não fe ha- viam de metter, e ca Armada eftava alli fegura , e os noflos com temor de a terem nas coftas , não haviam delamparar a fua por acudir à fortaleza. E com as outras velas mais pequenas podia vir de noite, e fahir em terra na parte de Ilher , onde tinhamos a fortaleza , e elle Curia Deva com todolos que alli eftavam , e outros mui- tos de fua valia, que havia na Cidade, pe- do rio aflima , onde não foflem viltos em E Jan- us 266 ASIA DE Jožo DE BARROS jangadas fe paflariam a ella pera junta- mente commetterem a fortaleza. E quando a fortuna lhe fofle tão contraria, que per combate , ou per fome a não pudeffe to- mar, e vendo-fe elle em alguma grande ne- ceflidade per terra, lugar que os noífos não haviam de commetter, fe recolheria na fua principal frota, que leixava em o rio Muar; e osnavios pequenos, por ferem leves com fe acharem deípejados , áforça de remo em huma apertada dos noflos navios levemente fe podiam recolher a elle. Praticado efte confelho de Curia Deva, achou Pate Unuz que era o melhor que podia ter, fegundo via a difpofição das coulas, e nifo affen- | táram todolos feus Capitães. E porque os noílos não fentilem fua partida, toda aquel- la noite houve na frota delles tanto tanger dos {eus finos, e inftrumentos de guerra, e grande vozaria de cantares, que eltrugiam as orelhas dos noflos; e quando veio ante manha, que lhe a maré começou a fervir, que elle leixaya o poufo por fer menos fen- tidos; foi tamanha a grita delles, que cui- dou Fernão Peres que parte da Armada ti- nha tomado terra, e a grita era final que es = A a outra o viele commetter, E de Fernão Peres, e toda a fua Armada effarem com o tento em terra por caufa deftas gritas, € em fi mefmo pera o que fobreviefle E 3 Pa- fm DecaDA MoE IX: Car. V. 307 Pate Unuz tempo pera fe alargat ao mar, enfiando-fe no caminho que havia de levar. Porém como ifto era ante manhã, e a luz d'Alva moftrou a fua Armada que ainda hia á vifta dos noflos, entendeo Fernão Pe- res que os tangeres detoda a noite, e gri- ta d'ante manhã fora artificio , por não fe- rem fentidos que fe queriam partir; e por final que levavam temor, vio muitas anco- ras ficar no poufo , que não puderam levar. E porque quem dá coftas, dá animo a feu imigo-, foi tanto alvoroço em os noflos, que juntamente afli na fortaleza, como na Armada, começaram bradar : Vztoria , vi- toria, fogem ; e desferindo Fernão Peres a fua vela, dizendo: Sant-lago, a elles, foi coufa maravilhofa o que niflo cada hum fez; e feria a nós mui difficultofa efcrever a oufadia , animo, diligencia, e aftucia, que cada hum teve naquelle feito. Bafte fa- ber em fumma , que aflı fe haviam os noffos “poucos navios entre aquelle grande núme- ro de vélas, como fe hão os lobos em hum pegulhar de ovelhas; porque os noflos não faziam mais que chegar aos navios peque- nos, e lançar-lhes dentro fogo com os ar- tificios que tinham feito , e paffar avante, e os imigos fem modo de defensão , fem fazerem caminho do rio de Muar com olho no Junco de Pate Unuz , que poz a proa Es pe- 368 ASIA DE JoÃo DE BARROS pera o eitreito de Sabam caminho da Jaw ha, todos o feguiram. E ainda por fegu- rar {ua peíloa, quando vio que da {ua fro- ta parte ardia em fogo, e outra era metti- da no fundo , mandou aos principaes jun- cos que levava, que fe achegailem a elle, temendo fer abalroado, ou ao menos met- tido no fundo com a artilheria , por mais lapes que o cotado do feu junco: tinha, Fernão Peres quando vio o modo que Pa- te Unuz tinha em fe fechar entre os juncos,. e que fegundo a grandeza do few, não lhe podia fazer damno fenão com a artilheria, poz.a proa no fegundo junco da frota, que era do Timungão Senhor da Cidade Po- limbam, e em chegando a elle, o enveftio per hum coftado ; e como á ilharga delle hia feu fobrinho, que diflemos por fua ca- valleria ter grande nome entre os Jãos; tanto que vio Fernão Peres afferrado com o tio , afferrou-o elle. pelo outro coftado de maneira, que ficou Fernão Peres com à fua naveta entalado entre ambos. Peró el- le não fentio a entrada que efte Jáo fez nel- la, por andar já na popa do junco do tio ás lançadas , no qual tempo pela proa do mefmo junco entrou Francifco de Mello. O Jão mancebo como era cavalleiro, ven- do que efes dous Capitães cada hum per lua parte entraram o tio, € andavam E | dJe- Decapa Nave DE CárV. 369 lejando com elle; fem fazer conta da náo de-Fernão Peres, fenão como que lhe fer- via de ponte, com alguns que o leguiram per ella, - paffou-fe ao junco do tio onde entre todos andava a peleja tão travada, que não- fe fabia determinar: quem. era fenhor dos-juncos , nem os -fenhores das navetas dos: noffos ; por todos: andarem já miltura- dos. No qual tempo Jorge Botelho acertou de vir em à fua caravella; e vendoa- não de Fernão: Peres entalada entre es Juncos, entrou per bordo do fobrinho do Timun- gam, é veio-fe encontrar com Fernão; Pe- res, que acudia á fua não, que lhe entra- vam muitos Jáos nella. Finalmente todas ef tas cinco vélas bordo com bordo, e os Ga- pitães mão por mão andáram huns den- tro, e outros fóra tão travados: entre fi per hum grande efpaço y té que não podendo os Jáos foffrer mais o ferro dos noflos;, começáram de fe baldear em lancharas, e pangajoas que traziam derredor de fi; e os que não puderam: haver à mão vafilha, lan- cáram-fe ao mar, com que os juncos ficá=. ram vazios deltes, echeios de muitos: man- timentos , que os noflos levaram pera Ma- laca, depois que os juncos foram queima- dos niaquelle lugar. Fernão Peres tanto que houve a vitoria deftes dous juncos, que eram os principaes , Ífeguio a Pate Unuz:, com skom. Il. Por - Aa fun- zo ASIA pe JoÃo DE Barros fundamento de às bombardadas o metterem no fundo, ou ao menos deftruir-lhe a ma- reagem, com que ficaria decepado pera o tomarem “ás mãos. Peró não houve eifeito fua tenção, porque veio fobre a tarde hu- ma trovoada tão furiofa, que ante elles qui- zeram contender huns-com os outros: como andavam, que com ella; porque como veio fubita , e tomou-a-todos delcuidados , € mais mettidos em pelejar , que no temor della, fe os noflos-tiveram algum falvamen- to foi por não trazerem as mãos cortadas do temor, e do ferro; como as traziam os Jãos, e por iflo foram mais leftes em ma- rear fuas vélas. Finalmente Fernão Peres com ella correo pera Malaca com a maior par- te de fua frota, e- outros per effas abriga- das de-rios; fómente Jorge Botelho, e Fu- am Mahamud Tamungo de Malaca , que fe acháram ambos contra aquella parte pe- ra onde correo Pate Unuz , ao qual não uderam fazer mais damno, que queimar- hes cinco, ou feis pangajoas que o feguiam , porque tinham já defpeza toda a polvora, com que o podiam offender. Jorge Bote- lho vendo quão desbaratado efte Jão fica- va, e que tornando Ífobre elle com polvo- ta o podia metter no fundo ,: veio-fe lo- go a Malaca dar conta diflo a Ruy de Bri- to, por-Fernão Peres não fer ainda lã; e oo (ini Ex Decapa Ik Lav IX CAr V. 371 pofto que Ruy de Brito o não queria pro- ver de polvora , e coufas que elle pedia, havendo que {ua tornada: aproveitaria já pouco, porque o Jão nefta fua demora de it, e vir feria pofo em falvo, todavia lhe mandou dar o neceffario, e ito a requeri- mento do Gentio Nina Chetu , que diffe que daria polo junco: de Pate Unuz dez mil cruzados. Peró com quanta diligencia Jor- ge Botelho niflo fez, correndo mais de qua- renta leguas, já não achou Pate Unuz, o qual fe poz em falvo na Jauha em a Cida- de Japára , e alli mandou varar o junco pot memoria de fua pefloa , dizendo que baf- tava pera a ter pór muitos tempos verem como. aquelle junco ficára da peleja que te= ve com os Portuguezes. Os quaes ainda que tiveram efta tão illuftre vitoria delle, não foi fem culta de muito fangue ; que todos naquelle alcanço derramáram : cá não houve Capitão que não abalroafle junco, e fizeffe affás de fua pefloa, onde morrêram alguns dos noflos; principalmente com João Lopes 2 Alvim, e Martim Guedes, que fe viram em grão perigo com os juncos que abalroáram. E muito maior Fernão Peres, que foi derribado; e ferido, eftando hum om pedaço meio atordoado de hum arre- mello; que lhe fizeram de cima dos caftel- los do junco ; «e polo ajudar; morreo Si- se e mão 372 ASIA SE JoÃo DE BARROS mão Affonfo , que foi a peíloa mais prin- cipal que naquelle feito pereceo. Finalmen- te elle foi tão notavel, que affombrou to- do aquelle Oriente, e nelle acabou a guer- ra que tinhamos com os Jãos, dos quaes Malaca ficou defaffombrada , porque como | he gente mui vizinha a ella, e são fenho- res de todolos mantimentos, de que fe el- la mantem, € mais-são homens cavalleiros;, e poderofos, todolos outros rebates que ti- veram VElRey Mahamud pelo tempo em diante, tiveram em pouco em refpeito do perigo que palláram por caufa deftes dous Jãos Pate Quetir, e Pate Unuz. Fernão Pes res como eltava meio: carregado pera: fe par- tir pera a India, ( fegundo diflemos,) em poucos dias fe tornou a perceber de todo, e entregue a- capitania mór do mar a João Lopes Alvim, a quem Affonfo d'Albo- querque -proveo della , partio de Malaca com tres vélas carregadas de efpeciaria; el- le em huma, e nas duas Lopo dAzevedo; e Antonio Abreu, que vinha de delcu- brir Maluco. E pera dar maior contenta- mento a Affonfo d'Alboquerque com fua chegada, além deir carregado das vitorias que houve naquelas partes , e de efpecia- ria, fendo tanto avante como: os baixos de Capacia , topou Antonio de Miranda d'Aze- vedo, que vinha do Reyno de Sião, com ci — que EE a | DecaDA IL Liv. IX. CAD. V. 373 que levou tambem outra carga de todalas novas que elle Affonfo d'Alboquerque ef- perava daquellas partes, onde mandára feus menfageiros , e defcubridores ante que fe partifle de Malaca. Afi como Antonio d À- breu com Francifco Serrão defcubrir Ma- luco, e Gomes da Cunha a ElRey de Pe- gu, queera já vindo em o navio que trouxe mantimentos a Malaca , (como fica atrás, ) “o qual hia com elle Fernão Peres, e An- tonio de Miranda com Duarte Coelho a Sião; o qual Antonio de Miranda, pofto que não viele em companhia delle Fernão. Peres, e fizefle feu caminho pera Malaca, mandou-lhe cartas per elle, o qual chegou a falvamento 4 India. E porque em outro lugar, (fegundo já apontâmos ,) fe ha de fazer relação do caminho , e coulas que Antonio d' Abreu fez naquelle defcubrimen- to de Maluco , leixamos de a fazer aqui, e tambem o que fizeram eftoutros em Pe- gu, € Sião, porque a difpofição das cou- fas da hiftoria tem lugar proprio, por guar- dar a qual ordem leixamos o que ora oc- correo na chegada de Antonio de Miran- da; e procederemos ainda hum pouco nas coufas de Malaca té quafi todo o tempo que Affonio dºAlboquerque governou. im Ar e % 380 ASIA DE Jožo DE BARROS elle eltava efperando recado do feu Tuam Maxeliz, creo verdadeiramente que o cafo era delcuberto ao Capitão Ruy de Brito, e que por effe refpeito mandava aquelles navios {obre {eu porto pera offenderem a Armada que-elle havia “demandar em fa- vor do calo , a qual elle tinha de todo pref tes; enão oulou de a mandar fahir deden- tro, temendo que a nofla Armada era toda ida aquelle feito , e que lhe lançavam aquel- las cinco vélas diante pera elle lançar a lua fóra. Jorge Botelho , e Vafco da Silveira vendo o fitio onde ElRey tinha feito huma fortaleza, e que a fua Armada eftava den- tro de huma eftacada., que de maré vazia os navios ficavam: mettidos na vafa , eas eltacas de maneira que parecia hum laby- rintho o canal que ficava entre ellas per on- de entravam., e fahiam os navios, não lhe pareceo coufa que pudeílem commetter por a pouca poffe que levavam, e tornáram-fe a Malaca. Ruy de Brito quando per elles foube a força que ElRey- tinha feita, e quão brigola , e defenfavel era , affi polo fitio; como pela induftria , e trabalho-dos homens, e que fegundo lhe alguns Mouros diziam, eftava: aquella Ilha Bintam em pa ragem que-fe podia fazer: outra Malaca; com ElRey trazer alli Armada, que-fizefê arribar as nãos a-ella , dobrou a Armada Pg que Decana Il Liv. IX. Car. VI 361 que João Lopes Alvim trazia pera às ves Zes a repartir em partes, porque não hou- velfe algum daguelles dous canaes Cinga- pura, e Sabam , onde fe não achaílem nof- fos navios contra a Armada d'ElRey de Bintam, pera lhe defender aquelle arribar de vélas que fazia. Com o qual modo ator- mentou tanto a ElRey, que como homem defefperado pola muita fome que padecia com lhe tolhermos prover-fe de mantimen- tos, mandou pedir a Ruy de Brito concer- to de paz. E como elle attribuia a caufa de {fua deftruição a {eu filho, e genros; em não confentirem que elle affentaífle paz com Afonfo d Alboquerque quando chegou à Malaca , houve entre elles tanta differença fempre, que nefte tempo da paz que man- dou pedir, dizem que afogou o filho com huma touca. ElRey de Campar , poito que foffe feu fobrinho., e genro, polos modos que lhe via ter, e principalmente ácerca do odio que tinha a feu proprio filho o Principe Alodim , não quiz feguir fuas cou- fas , ante por fegurar as proprias , e não viver alfombrado de nós -como genro. feu, (egundo eferevemos , ) eftando Affonfo PA- boquerque em Malaca, com hum prefente que. lhe enviou , fe offereceo querer viver em Malaca como vaífallo PEIRey de Por- tugal, a vinda do qual por então não how- o E ve T ea E E S SP a e 282 ASTA E Jožo DE Barros ve effeito, Peró fabendo clle-oque-fe dizia como afogára feu filho , determinou de fe vir logo pera Malaca, temendo a maldade do fogro , e pera io não fez mais que co: | mo homem feguro fem cautela alguma met- ter-fe com Pero de Faria, que com huma Armada andava no eftreito de Sabam. O qual chegou a Malaca na entrada de Julho do anno de quinhentos e quatorze, a tem- po que era vindo da India Jorge d’Albo- querque filho de João dAlboquerque pera Capitão da Cidade , e eftava já em poffe della, e Ruy de Brito efperando tempo pe- ra fe vir pera a India. E porque Jorge d'Al- boguerque levava recado de Affonfo PAL boquerque do modo que havia de ter com elte Rey de Campar, fe lhe mandaffe com- metter que fe queria vir viver a Malaca, polo que já tinha paflado com elle, quar- do fe mandou oferecer. pera ifo , em fia chegada fez-lhe muita honra”, peró não fi- cou ElRey de Campar daqueila vez em Malaca , ante fe tornou logo como prati- cou algumas coufas com Jorge dº Alboquer- que do modo que fe havia de ter com eF le vindo affêntar fua cafa em Malaca. Em quanto efte recado foi á India, e tornou refpofta de Affonfo dº Alboquerque:, elle ef teve em Campar, a qual refpofta foi man- dar elle a Jorge d'Alboguerque que a é ia é. a EA Decana I Liv. IX. Car. VI 383 ehe Rey o officio que Nina Chetu Gentio tinha, E a caufa por que lho mandava ti- tar, tendo tanto benefício feito a Ruy d'A- raujo, por cujo reípeito o elle houve, foi porque a gente nobre de Malaca fofíria mal ferem governados per elle, que era homem de pouca forte ; e fe-em algumas coufas lhe queriam ir a mão , às tzes pefloas man- dava-lhes dar hum certo genero de peço- nha, com que engafecia, e em mui pouco tempo morria, o que fe foube ter feito a tres, ou quatro mercadores principaes, é polo muito ferviço que tinha feito na falva- ção de Ruy d'Araujo, e dos outros cati- vos, e- affi na tomada da Cidade, diflimu- lavam com elle té vir efte recado de Affon- {fo d'Alboquerque. Nina Chetu como por fuas culpas andava vigiado de o tirarem do cargo , tinha fuas intelligencias; tanto que chegava algum navio da India pera faber fe mandava Affonfo d'Alboquerque bulir com elle; e como foi certificado do reca- do que vinha, teve maneira que por efpa- ço de oito dias fe não denunciafie que o mandavam tirar do officio. No qual tempo em hum terreiro grande mandou fazer hum cadafalfo de madeira cuberto , e toldado de muitos pannos de feda, e ouro, e delle té fua cafa foi arua toldada da meíma for- te, e a huma parte do cadafalfo no chão S man- X à 384 ASIA pe João dz Barros mandou pôr huma mui grande quantidade de fandalos brancos , vermelhos, e lenho alóes, pera arder tudo quando: fofle tempo de lhe pôrem fogo. Acabado todo efte ap- parato pera o derradeiro dia que fe lhe aca- bava o termo que pedia, convidou todolos feus amigos, eajuntou {ua familia, que era grande , toda veítida de feta , e elle dos mais ricos pannos de ouro que pode haver, e partio de {fua caía, indo por aquella rua toldada; a qual áquella hora eftava cuber- to o chão de todalas flores: ,-e cheiros do campo. Chegado com efta pompa ao ca dafalfo, onde era quafi toda a Cidade ver aquelle acto, de que ainda não entendiam o fim, Íubio-fe a elle, e começou em mui alta voz dizer as coulas que-per-nos fize- ra, € os perigos que por iflo elle paflára, por meritos das quaes coufas Affonfo d'Al- boquerque lhe dera o officio que: tinha de Bendára , que elle te aquella hora feryira, o qual, (fegundo lhe era dito, ) elle man- daya que elle nunca o fervifle mais, e fof fe dado o officio a outra peffoa. E porque elle não: queria ver aquella injuria executa- da em a fua ; era alli vindo pera mofirar que o fogo que todos viam accendido na- - quelle fandalo, era mais poderofo que to- dolos Principes do Mundo , porque elles podiam titar oficios, e vida; e-o fogo te o quei- se o Dec. I Live IX Car VI. E VIL 385 - queimava o corpo, recebia em fi a alma: q J 3 e como-era efpirito ; e creatura de Deos , elle a hia aprefentar a feu Creador , on- de tinha: perpétua gioria; e quanto mais af- fligida nefta vida, maior a tinha lá, e efta lhe não podia tirar o grão Capitão Affon- fo PAlboquerque por mais poderofo que fofle na India, € com ifto fe leixou cahir no fogo, onde fe fez cinza. Cone Pd OL O VI Como Forge d' Alboquerque Capitão de - Malaca mandou per Abedelá Rey de Cam- par pera fervir oficio de Bendára: e guan- to ElRey de Bintam trabalhou polo elle não fer, té que foi caufa de fua morte. A Cabado efte acto da gentilidade, que fez grande admiração a todos ver a conftancia com que aquelle Gentio morreo por honra, foi logo fabido per toda a ter- ra como ElRey de Campar havia de fer Bendára de Malaca, que entre os Malayos fe tinha por tanta dignidade no tempo que profperava Mahamud Rey della, que ha- viam fer maior coufa que Rey de Campar, cujo eftado não era mais que fer fenhor de huma povoação, a que elles chamam Ci dade, a qual era mettida per hum rio gran- “de, que entra por aterra da Ilha Camatra, Tom, Il P.il. Bh e dif 386 ASIA DE Joño DE BARROS e diftará de Malaca contra o Oriente pou- co mais de trinta leguas na entrada do cf treito Sabam. ElRey de Bintam feu fogro tanto que foube que elle era eleito pera Ben- dára, e que efte era o fim pera que elle fe déra á nofla amizade; e a caufa do prefen- te que mandára a Affonfo PAlboquerque, e depois ir em pefloa a Malaca ver-fe com o Capitão della, ordenou logo de lhe im- pedir que não folle, e pera illo convocou outro feu genro , e vallallo, que era Rey de Linga, huma Ilha vizinha à de Bintam, onde elle Mahamud aflentára fua vivenda, (como diflemos.) Os quaes fogro, e gen- ro fizeram huma Armada de té fetenta ve- las de remo , em que iriam dous mil e qui- nhentos homens , na qual Armada o pto- prio Rey de Linga foi; e entrado pelo rio de Campar, acháram Abedelá Rey da Ci- dade já provido de tranqueiras , e forças, com que refiftio como homem animofo a feu imigo, polto que ElRey de Linga na- quellas partes era havido por muito caval- leiro. O qual vendo que per algumas ve- zes que deo combate a Abedelá não opo- dia entrar, ordenou-fe em modo de o ter. cercado , e tomar à fome: no meio do qual tempo elle foi foccorrido de nós fem o elle efperar, per efta maneira. Pelo recado que Afonfo. & Alboquerque mandou , e E x 3 - ; RO s Decana He Liv: IX. Car. VIL 397 de Nina Chetu , ordenou Jorge d Alboquer= que de mandar por ete Rey de Campar pera vir fervir o officio de Bendára ; de que elle já era fabedor, e pera ifo fe fa- zia preites , quando ElRey de Linga de fobre elle ; e polo mais hontar, mandou Jorge Botelho que otrouxele em o feu na- vio, e com elle tres navios de remo, Ca- pitães Jurdão de Figueiredo, Alvaro Vaz, e Diogo Dias. O qual Jorge Botelho en- trando no eftreito de Sabam , achou alli nova em hum Mouro feu amigo chamado Meana, que ElRey, de Linga eflava dentro vo rio de Campar, e tinha cercado a EL Rey Abedelá com huma Armada de feten- ta vélas com muita gente , e munições de guerra, por illo olhaífe onde fe hia metter. Jorge Botelho por efte Mouro fer homem certo, efeu amigo , efpedio logo dalli hum des Capitães, que vielle a Malaca-dar efa nova a Jorge d' Alboquerque, o qual a grão preffa eípedio eftes Capitães em foccorro de Abedelá, Iriftão de Miranda, Antonio de Miranda d'Azevedo, Aires Pereira de Ber- redo, e Francifco de Mello, todos-em na- vios redondos , e mais algumas lancharas de remo Capitães moradores da Cidade. E porque nenhum levava a capitania mór de toda afrota, quando fe ajuntáram com Jor- ge Botelho, que fe haviam de ordenar pe- dei Bp A : ra N Tt il | E | | Ni il 388 ASIA DE João DE BARROS. ra commetter a Armada dos imigos , co- meçou entre elles haver diferença, a qual apagáram com elegerem por Capitão a An- tonio de Miranda d’Azevedo , per ordenan- ça do qual entráram pelo rio acima té on- de fe fazia hum elteiro , dentro do qual obra de meia legua eftava a Cidade Cam- par. O qual efteiro como era eftreito pros fundo , e com ribas tão altas que ficava em partes a terra fobre agua perto de duas lan- ças , tornáram-fe os noílos abaixo ao rio largo ; porque como não fabiam a terra, temêram que vieffem os imigos, e de cima às terroadas , quando não tiveflem outra coula , os metteriam no fundo , fazendo fundamento de oster alli encerrados, eem tão eftreito cerco, como elles tinham ElRey Abedelá. Poltos nefte lugar largo , como entre alguns Capitães havia huma frieza do cafo , por cada hum não fer o eleito em Capitão mór , e tambem alli não faziam mais que ter fechada aquella entrada, por, onde os imigos fe ferviam , eftavam hum pouco defcuidados, como quem não tinha que temer, galtando o dia em lançar a bar- ra, e lança, e outros paflatempos em ter- ra. ElRey de Linga por efcuitas que tra- zia ao longo do rio, foi avifado defte def- cuido; e como homem cavalleiro que era, determinou dar nelles, e ES e De ; & Decana M. Liv. IX. Car, VI. 389 fe com toda fua frota pelo rio a baixo, e elle diante todos , por ter huma forte, e | formofa lanchara do comprimento “de hu- ma galé, mui armada, € guerreira com té duzentos e tantos homens, com tenção de “rd 4 abalroar com o Capitão mór da nofla fro- ta. E fendo onde à terra fazia hum coto- velo; ao longo do qual com a maré que deícia, a agua corria mais teza, deo de iu- - bito. com Jorge Botelho , que eltava alli am- parado do tesão da agua em huma lancha- ra das de fua companhia com té vinte ho- mens; o qual apartando-Íe do corpo- da Armada, onde tinha o feu navio, determi- nou naquelle de remo por fer leve faber o que hia dentro. E quando vio a ponta da lanchara delRey que começava apparecer detrás do cotovelo, de improvifo fem fa- ber oque vinha detrás, deo huma grita com os feus, e mandou defparar a artilheria que trazia, a qual ainda pe era miuda, elia , e as efpingardas -dos feus derribáram logo alguns dos remeiros da lanchara d'EIRey. Na qual por o cafo fer fubito , e mais cui- dando que alli etava toda nofla frota, por ainda não defcubrirem o anco que fazia a terra, houve entre todos: tanto temor, que | do remoinhar dos remadores. não: fabendo - | o que haviam de fazer ; ficou a lanchara — QElRey fem governo, e com o- tesão da = maaa `Z X N ED EE Decana IL Livi X., Cap VIH, 481 no, outro tanto. Emagua rofada, vinagre de cheiro, e romans, dous lègues ;-e ao barbeiro-que lhe fazia a barba cincoenta aza- res „€ quarenta em pannos , onde vem a candea cuberta , quando, fe traz pesa fe pôr ante ElRey. Em azeite, e cera pera alu- miar, e ferviço da cafa , {feis legues, e gua- renta e dous azares; e outros feis, e tres azares em cinco tochas, que ardem no Pa- ço , e mantimento de outros tantos elcravos, que as tem na mão. E de perfumes, e ou- tros-cheiros dous leques e meio 5 € oito cadins; e hum legue, e oitenta azares pera algodão, com que enchem os colchões, e almofadas ; e em certas ordinarias que dá de açucar hum leque , e vinte azares; e na agua, que fe depende em fua cafa , e eltre- baria , a qual vem da terra firme em bar- cas , feis legues. Nos veftidos de fua pefloa , e algumas cabaias , que dá a Fidalgos, e Embaixadores com feus feitios , cento e dous leques;-e hum e meio em vivos das fotas que traz na cabeça; e cincoenta azares em feitio dos carapuções. E pera veítido de fuas mulheres, mancebas, eelcravas, quinze le- “ques. Em duas paícoas que faz o Rabadão ; em que dá de comer a certas peíloas, qua- tro leques; etres em duas feitas na Lua de Maio ; e Setembro , que fazem os feus Ca- cizes ; e vinte leques em certas vezes que Top t. Pol mo E 482 ASIA DE Jožo DE BARROS ElRey vai à caça, onde chamam: Turum- baque; que he huma pontada Ilha , na qual caça ElRey dá de comer aos que-vam com elle: Em falcões; açores, ecaçadores, que tem no: Mogoltão ;-nove leques; e dous; e quatro azares em huma horta que tem; onde chamam Broco ; equinze , que defpen- de em cavallos ; e trinta- e feis leques em cevada para elles, e de alcacér no tempo do-verde , e hum leque em ferragem; e ou- tro: em freios , cabeçadas, Íellas communs | pera cavalgarem eferavos, que osenfinam; e quinze leques em cavallos, que ordinaria- mente dá a certos Fidalgos do Mogofão; e dez em mercês a pefloas de cafa, e ou- tros dez a mulheres viuvas de feus officiaes , eoutras pefloas pobres que pedem á porta, cinco legues ; e em outras efmolas mais grof- fas a Cacizes , e parentes de Mahamed, qua- renta e cinco leques; e em outras efimolas pelas almas dos paffados, doze. E: quaren- ta leques , oitenta e oito azares a quarenta e feis Cacizes da fua mefquita , que tem or- denado ; e tres legues; e feffenta azares à outros, que de contino: eftam rezando por o pai defunto. Ao feu Guazil, e Governa- dor pera cinco cavallos que tem, de orde- nado cada hum anno cincoenta legues ; e dous pera agua, que o Guazil defpende em fua cala; e em compra de elcravos dez le- | DEcapa IL Liv. X. Caf VIL 483 ques; e. tres que fe saftam com os Embais xadores , quando chegam ao porto de Ban- der Angon; evinte, que fe galtam em mer- cês ordinarias; e trinta e tres em comedias de eferavos, eefcravas dos Reys paflados ; e ås fuas bailadeiras”, cinco ; e aos tange- dores, que vam diante delle quando caval- ga, hum leque, e doze azares ; e ao feu ourives hum leque e meio ; é aos ataba- leiros , que eftam no Paço, outro tanto; e a doze homens, que vigiam de noite a gy- ros, e ao Guardamoór delles, feis leques, e fetenta e dous azares; e àos tintureiros, cin- coenta azares; e a quatro porteiros, hum le- que, e cincoenta e feis azares; e em repai- ro de cafas de pedraria, e gelo, dez le- ques; e a fua mãi pera veftidos , outros dez ; e pera mantença fua , e de feus parentes, cento quarenta e quatro leques; é dez a cin- co mancebas:; e a feis amas, e pefloas da creação: de feus filhos, vinte etresleques ; e de ordenado a feus oficiaes, e mires, du- zentos-e cincoenta legues; e de certas def- pezas miudas, cinco; é vinte e cinco de quitas a rendeiros. E tirada efta defpeza, O inais que fobejava fe mettia no thefouro delRey; e fenão foram algumas liberdades, que antigamente eram concedidas aos vizi- - nhos; tivera elle Reyno dobrada renda; porque o Rey da Perfia , que então era o fa Ah li Xea | Hi 434 ASIA pe JoÃo pe BARROS Í Xeque Ifmael, fua mulher, filhos, e Em- baixadores de tudo o que tirafem, e met- telem em Ormuz não pagavam direito al i gum. E pela melma maneira ElRey de La- ii ra, O de Xiraz , o de Macram, o Xeque de | Batçora, o de Gualdel, o de Rexet, nem Os Portuguezes , depois-que alli tivemos for- taleza. - : | GAP O Es | E Como Affonfo d Alboquerque defpachou | D. Garcia de Noronha pera fe vir pera | efle Reyno com a carga da efpeciaria : e | ? depois de Jua partida de Ormuz adoeceo k Afonfo d Alboquerque de enfermidade , que | conveto partir-fe pera a India : e do que. | pelou no caminho té o porto de Goa , on- de faleceo. - À Ffonfo d’Alboquerque como vio que fe chegava o tempo: de ordenar a car- ga da efpeciaria , que havia de vir a efte Reyno , e que feu fobrinho D. Garcia de Noronha fe queria vir aquelle anno , deo-lhe a capitania mór da Armada, e defpachou-o que fe fofle pera Cochij dar aviamento, porque quando as nãos defte Reyno che- gaflem , eitivelle tudo preítes, ao qual deo todolos poderes queelle Affonfo d Alboa querque tinha pera melhor aviamento. E o dia que D. Garcia partio per vontade d'El- E RE Rey Decana IL Liv. X. Car. VIII 485 Rey de Ormuz, mandou-lhe metter em a fua náo Belém todolos: parentes que alli ti- nha cegos com fuas mulheres, filhos; ecria- dos os quaes além de fazerem defpeza a ElRey, eram caufa de muita torvação na terra; e efcreveo aos Officiaes de Goa, que lhes deflem cafas, e todo o neceffario á cuf ta da fazenda PEIRey. Eftes cegos coitu- mavam os Reys de Ormuz fazer naquelles de fua linhagem, afi como: irmãos , e pa- rentes, que podiam herdar o Reyno ; porque “como todos eftavam naquella Ilha , era efte berço tão pequeno pera creação de tanto Principe, que por oster quietos, efóra de alguns rebuliços, de que muitos foram cau- fa, não achavam os Reys melhor modo de os amanfar, que privallos da vita com hu- ma bacia dearame accendida em fogo. pot ta ante os olhos. Partido D. Garcia já no fim de Agolto, ficou Affonfo d’ Alboquerque acabando de rematar algumas coufas pera fegurança daquella fortaleza; cuidando elle que fe podia ainda alli deter mais dias do “quefedeteve; mas quando veio a quinze de Setembro , adoeceo de camaras , as quaes elle “Já trazia doprincipio de Agoito; mas como era fragueiro , e pouco mimofo de fua peé foa , não fe lançava em cama fenão quando mais não podia. E: porque- a «enfermidade não era pera vifitações, e onze dias apertou o O na mui- Es f. p | 486 ASIA DE JoÃo DE BARROS muito comelle, houve fufpeita que era fal- lecido: de maneira, quelheconveio dar hu- ma vifta de fi a quantos o quizeram-ir-ver. E hum dia que fe achou bem, por fegurar as contas daquella Cidade, que eltavam müi “frefcas, e fazendo Deos delle alguma cou- fa, podia haver entre osnoffos alguma dif- ferença {obrea fuccefsão, mandou chamar todolos Capitães, aos quaes propoz o efta- do em que eftava, e a enfermidade que ti- nha, quão: perigofa era nos homens de fua idade; e que olhando elle quanto cumpria a fua confciencia, e ao ferviço PEIRey fey “ Senhor , queria, em quanto tinha tempo pe- ra illo, ordenar huma peíloa , pera que fe o Deos levaffe, o pudeffe fucceder naquelle cargo que tinha, té ElRey feu Senhor niflo prover. Por tanto lhe pedia como ledes a Deos , e ao ferviço CEIRey, eftarem por. a nomeação que elle fizeffe , e confiaffem delle que faberia fazer efta eleição , pola ex- periencia que tinha, e tempo em que efla- va, em que os homens não devem mentir a Deos; e-a feu Rey. E com eftas palavras difle outras, que movétam todos a compai- xão, no fim das quaes todos promettéram | eltar polo que elle fizefle;, de que mandou fa- zer hum auto a Pero d"Alpoem , em que to- dos aflináram , e em fegreédo , (fegundo fe de= pois vio ,) nomeou a Pero & Alboquerque w -Ru Decapa IL Lry: X. Car. VII 487 feu fobrinho. E porque a enfermidade o tor- nou apertar, per confelho de Medicos dé- terminou de fe partir pera a India, dizendo que nomar fe havia-de achar bem: com a qual nova ElRey de Ormuz o-veio ver, fentindo muito efta {ua partida; porque co- mo Affonfo P Alboquerque o tratava como filho em: amor, e como a Rey em reveren- cia, e nas coufas de feu-eltado , e ordem de fuafazenda trabalhou muito; quando {e yio ante elle começou de chorar, dizendo quão defamparado ficava fem fua prefença, etão temerofo: de fua vida, por as coufas de Raez Hamed ,- que lhe parecia não poder viver “muito, Ao: que Afonfo P Alboquerque re- fpondeo, que elle lhe leixava alli feu fobri- nho Pero dº Alboquerque , o qual o havia de guardar , e defender, e procurar por fuas coufas, como fe foílem d'ElRey de Portu- gal feu Senhor, e outras palavras com que o confolou. Efpedido ElRey; dahi a pou- cos dias o quizera tornar a ver; mas Affon- fo dAlboquerque fe eleufou por fua enfer- midade não fer pera vilitação de Principes, e como quem fe acolhia; ao remedio do mar; por na terra o apertar muito à doen- ca, hum dia pela féftia enroladamente fem tumor feembarcou em a não de Diogo Fer- “nandes-de Béja, por ir já tão aborrecido da converíação da gente , guri a | ua 466 ASIA pt Jožo dz BARROS fua não Nazareth a feu fobrinho Vicente d’Alboquerque , ao qual- mandou que reco= lheffe todolos Fidalgos; e criados dºEIR ey, e lhe défle a meza que elle coftumava dar. E mandou diante à não Enxobregas; Ca- pitão Simão d'Andrade que foffe-ao porto de Calayate tomar huns cavallos- qué ahi mandára comprar pera guarda dastanadarias de Goa, e levou comíigo Aires da Silva, que elle leixava por Capitão: mór do mar em favor da fortaleza de Ormuz , com duas caravelas, e duas galcotas pera dar huma vita áquella cofta de Calayate , onde-elle fazia fundamento de chegar. ElRey de Or- muz como foube fer elle partido polo mo- do que foi, houve rumor que o embarcá- ram morto; e por fer certo diflo + mandou duas terradas trás elle cheas de refrefto, e nellas Hacem Alle, que o vifitafe de fua parte, pera fe defenganar fe era verdade o que fulpeitava; o qual recado o foi tomar na paragem de Calayate em dia que a en- fermidade lhe deo algum repoufo. E quan- do vio Hacem , por fer muito feu familiar,- e affi a lembrança que ElRey tivera de fua vifitação ; ficou com. o prazer diffo- muito melhor de maneira ; que quando Hacem tor- nou a Ormuz , diffe que hia já são. Peró quando pafiou per Calayate, tornou a en- fermidade outra vez apertar tanto » que ef- E Decana I- Liv. X. Car. VII. 489 pedio Aires da Silva , e não quiz efperar por Simão dº Andrade, pondo a proa na cof ta da India , na «qual volta aquella tarde houve vifta de huma não , a que mandou hum bargantim que levava: pera recados que lhe trouxefle o Capitão, Meltre, e Piloto. Com os quaes depois que vieram”, ficou fó; e porque Ífentio em Alexandre d Ataíde lin- gua, que tinha fabido deftes Mouros algu- ma coula, de que não eftava contente; e que podia dar a elle paixão , deo-lhe jura- “mento nos Evangelhos. que não encubriffe nenhuma coufa das que aquelles Mouros difleflem : então começou de lhe perguntar donde vinham, e que novas havia da In- dia. Os quaes refpondêram virem de Dio, e que à India eram chegadas doze nãos de . Portugal, e nellas vinha por Capitão mór Lopo Soares; e oque logo mais confirmou eta nova , foram duas cartas que lhe eftes Mouros aprefentáram , dizendo que nellas veria fua Senhoria mais certas nevas do que elles podiam dar, porque huma era de Ci- de Alle de Dio- feu fervidor, e outra do Embaixador do Xeque Ifmael , que-eftava em Cambaya. E na carta de Cide Alle não fômente nomeava Lopo Soares por Capitão mór , e Governador da India, mas ainda “ os-Capitães-das nãos , e-das fortalezas, e afli algumas peíloas- notaveis que vinham com 496 ASIA DE João da/Baunos fez mercê de trezentos mil reaes de juro, e o calou com D. Maria filha de D. An- tonio de Noronha Efcrivão da Puridade TEIRey D. Manuel, e filho do Marquez de Villa Real D. Pedro de Menezes , að qual D. Antonio ElRey D.João o Terceiro Noílo Senhor fez Conde de Linhares. A Fim DO o RE DA DECADA Th. ENZ Ra -o Da L fu e LC AS RNET S Sono E neea ss di UNIVERSIDAD DE SEVILLA | E 2 < Es j “aa AD S | 5 É 79336 | qa E dr Zi colorchecker CLASSIC | RD) | calibrite o Iodo nm