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Ondas de calor, vulnerabilidade e risco da população envelhecida em Portugal Continental (2000-2020)

Ildefonso, Inês Alexandra Teixeira

Abstract

A ocorrência de ondas de calor, tem sido alvo de discussão, cada vez mais recorrente em Portugal e no mundo, no contexto das alterações climáticas. A exposição a temperaturas extremas tem fortes impactes na saúde e origina aumentos na mortalidade da população, dependendo da duração, intensidade e frequência das ondas de calor, bem como da vulnerabilidade de certos grupos demográficos e socioeconómicos, de que se destacam os idosos (65 ou mais anos). A principal causa de morte diretamente atribuível ao calor é o golpe de calor, no entanto a ocorrência de uma onda de calor pode provocar um aumento da mortalidade por todas as causas, particularmente por doenças circulatórias, respiratórias, cerebrovasculares, digestivas e diabetes. O objetivo principal deste trabalho foi o de estabelecer a relação espacial entre a ocorrência de ondas de calor nos meses de verão, a vulnerabilidade socioeconómica da população envelhecida e idosa (65 anos ou mais), e o excesso de óbitos neste grupo etário durante esses meses, nos últimos vinte anos (de 2003 a 2020), ao nível das NUTS III, com base num Sistema de Informação Geográfica (SIG). As regiões do Interior Norte e Centro destacaram-se claramente das restantes do território continental pela maior frequência e duração das ondas de calor no verão, entre 2003 e 2020. Estas mesmas regiões viram aumentar o peso dos idosos no conjunto da população residente, entre 2001 e 2018, estando atualmente entre aquelas em que se observa maior vulnerabilidade social (isolamento) e económica (poder de compra mais baixos) no âmbito deste grupo etário. O excesso de óbitos por doenças do aparelho circulatório e do aparelho respiratório, em especial nas mulheres idosas, relaciona-se significativamente com os episódios de ondas de calor ocorridos nos anos de análise de 2010 a 2018. As Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto surgem como mais problemáticas ou críticas no território nacional, uma vez que registaram simultaneamente um forte envelhecimento da população e um excesso de óbitos significativo relacionado com as ondas de calor nos períodos em análise.

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1 Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Inês Alexandra Teixeira Ildefonso Ondas de Calor, Vulnerabilidade e Risco da População Envelhecida em Portugal Continental (2000-2020) junho de 2022 Ondas de Calor, Vulnerabilidade e Risco da População Envelhecida em Portugal Continental (2000-2020) Inês Alexandra Teixeira Ildefonso UMinho | 2022 2 3 Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Inês Alexandra Teixeira Ildefonso Ondas de Calor, Vulnerabilidade e Risco da População Envelhecida em Portugal Continental (2000-2020) Dissertação de Mestrado Mestrado em Geografia Área de Especialização em Sistemas de Informação Geográfica Trabalho efetuado sob a orientação da Professor a Maria Manuela Laranjeira Professora Maria José Caldeira junho de 2022 iv DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. v AGRADECIMENTOS Expresso um especial e sincero agradecimento à Professora Maria Manuela Laranjeira e à Professora Maria José Caldeira, que ao longo deste percurso, demonstraram orientação, ajuda, sugestões e revisões concernentes ao projeto desenvolvido. Deixo um especial e profundo agradecimento à minha família, em particular aos meus pais, que me incentivaram a inscrever neste Mestrado e concluí-lo com a mesma motivação quando o iniciei. A persistência e o apoio que me deram, foi essencial para o sucesso deste capítulo da minha vida, mesmo quando eu própria desacreditei. Ao Instituto Nacional de Estatística pela disponibilização dos dados referentes aos óbitos por causa de morte e pela Guarda Nacional Republicana pelo fornecimento dos dados relativos aos Idosos Isolados, deixo a minha sentida gratidão. Por fim, a todos aqueles que me acompanharam neste longo processo, amigos e colegas de curso. vi DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vii RESUMO A ocorrência de ondas de calor, tem sido alvo de discussão, cada vez mais recorrente em Portugal e no mundo, no contexto das alterações climáticas. A exposição a temperaturas extremas tem fortes impactes na saúde e origina aumentos na mortalidade da população, dependendo da duração, intensidade e frequência das ondas de calor, bem como da vulnerabilidade de certos grupos demográficos e socioeconómicos, de que se destacam os idosos (65 ou mais anos). A principal causa de morte diretamente atribuível ao calor é o golpe de calor, no entanto a ocorrência de uma onda de calor pode provocar um aumento da mortalidade por todas as causas, particularmente por doenças circulatórias, respiratórias, cerebrovasculares, digestivas e diabetes. O objetivo principal deste trabalho foi o de estabelecer a relação espacial entre a ocorrência de ondas de calor nos meses de verão, a vulnerabilidade socioeconómica da população envelhecida e idosa (65 anos ou mais), e o excesso de óbitos neste grupo etário durante esses meses, nos últimos vinte anos (de 2003 a 2020), ao nível das NUTS III, com base num Sistema de Informação Geográfica (SIG). As regiões do Interior Norte e Centro destacaram-se claramente das restantes do território continental pela maior frequência e duração das ondas de calor no verão, entre 2003 e 2020. Estas mesmas regiões viram aumentar o peso dos idosos no conjunto da população residente, entre 2001 e 2018, estando atualmente entre aquelas em que se observa maior vulnerabilidade social (isolamento) e económica (poder de compra mais baixos) no âmbito deste grupo etário. O excesso de óbitos por doenças do aparelho circulatório e do aparelho respiratório, em especial nas mulheres idosas, relaciona-se significativamente com os episódios de ondas de calor ocorridos nos anos de análise de 2010 a 2018. As Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto surgem como mais problemáticas ou críticas no território nacional, uma vez que registaram simultaneamente um forte envelhecimento da população e um excesso de óbitos significativo relacionado com as ondas de calor nos períodos em análise. Palavras-Chave: ondas de calor, mortalidade, vulnerabilidade, população envelhecida, NUTS III viii ABSTRAT The occurrence of heat waves has been the subject of an increasingly recurrent discussion, both in Portugal and globally, in the context of climate change. Exposure to extreme temperatures can have strong impacts on health, leading to increases in population mortality, depending on the duration, intensity, and frequency of heat wave events, as well as on the vulnerability of certain demographic and socio-economic groups, of which the elderly (65 years and over) stand out. Heat stroke is the main cause of death directly attributable to extreme heat, however, the occurrence of heat waves causes an increase in mortality from all causes, namely diseases of the circulatory, respiratory, vascular, and digestive systems, and also diabetes. The main objective of this work was to establish the spatial relationship between the occurrence of heat waves in the summer months, the socioeconomic vulnerability of the aged and elderly population (65 years and over), and the excess of deaths in this group during these months in the last twenty years (from 2003 to 2020), at NUTS III level, based on a Geographic Information System (GIS). The Northern and Central Interior regions clearly stood out from the rest of Portugal territory due to the higher frequency and duration of heat waves in summer, between 2003 and 2020. These same regions saw an increase in the weight of the elderly in the resident population as a whole, between 2001 and 2018, currently being among those with greater social (isolation) and economic (lower purchasing power) vulnerability within this age group. The excess of deaths from diseases of the circulatory system and respiratory system, especially in elderly women, is significantly related to the episodes of heat waves that occurred in the years of analysis from 2010 to 2018. The Metropolitan Areas of Lisbon and Porto appear as most problematic or critical in the national territory, since they simultaneously registered a strong aging of the population and a significant excess of deaths related to heat waves in the periods under analysis. Key words: heat waves, mortality, vulnerability, aging population, NUTS III ix ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS ........................................................................................................................................ v RESUMO ....................................................................................................................................................... vii ABSTRAT...................................................................................................................................................... viii ÍNDICE GERAL ...............................................................................................................................................ix ÍNDICE DE FIGURAS .......................................................................................................................................xi ÍNDICE DE TABELAS ..................................................................................................................................... xii INTRODUÇÃO................................................................................................................................................. 1 IMPORTÂNCIA DO TEMA E OBJETIVO PRINCIPAL............................................................................................... 1 OBJETIVOS ESPECÍFICOS E METODOLOGIA ....................................................................................................... 2 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO .......................................................................................................................... 5 1. ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM PORTUGAL CONTINENTAL NO PERÍODO 2003-2020 ............................. 6 CONCEITO DE ONDA DE CALOR ................................................................................................................. 6 CONCEITO DE VULNERABILIDADE CLIMÁTICA ............................................................................................ 7 ONDAS DE CALOR E MORTALIDADE ........................................................................................................... 9 Ondas de Calor e Mortalidade em Portugal Continental ...................................................................... 13 OCORRÊNCIA DE ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM PORTUGAL CONTINENTAL, NO PERÍODO DE 2003 A 2020 ............................................................................................................................................................... 18 ANÁLISE ESPACIAL DAS ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM 2003-2020, POR NUTS III .............................. 20 Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Junho ................................................................ 20 Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Julho ................................................................. 22 Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Agosto ............................................................... 23 Grupos de Nuts III com Semelhante Exposição às Ondas de Calor no Verão ....................................... 24 2. VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO ENVELHECIDA EM PORTUGAL CONTINENTAL NO PERÍODO 2001-2018 .................................................................................................................................................. 29 ENVELHECIMENTO POPULACIONAL ......................................................................................................... 29 Envelhecimento em Portugal ............................................................................................................. 31 ENVELHECIMENTO E VULNERABILIDADE SOCIAL ..................................................................................... 33 INDICADORES DE VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO ENVELHECIDA EM PORTUGAL CONTINENTAL EM 2001-2018 ......................................................................................................................... 34 ANÁLISE ESPÁCIO-TEMPORAL DA VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO ENVELHECIDA EM 20012018 POR NUTS III .......................................................................................................................................... 35 GRUPOS DE NUTS III COM SEMELHANTE VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO IDOSA EM 2018 .. 53 Taxa de Variação da vulnerabilidade social da população idosa em 2001-2018 .................................. 53 3. RISCO DA POPULAÇÃO IDOSA (EXCESSO DE ÓBITOS) ASSOCIADO ÀS ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM PORTUGAL CONTINENTAL NO PERÍODO 2010-2019 ................................................................................... 59 3 Tabela 1 – Objetivos Específicos e Metodologia do Estudo. OBJETIVO ESPECÍFICO METODOLOGIA Caracterizar a frequência e a duração das ondas de calor ocorridas no verão, no período entre 2003 e 2020, por NUTS III  levantamento e análise da informação sobre a ocorrência de ondas de calor, publicada nos boletins climáticos do IPMA;  espacialização, por NUTS III, da frequência (nº total) e da duração (nº total de dias) das ondas de calor ocorridas em 2003-2020, para os meses de junho, julho e agosto;  determinação de grupos de NUTS III com exposição semelhante às ondas de calor no verão, através da estatística espacial multivariada de clusterização ‘ Grouping Analysis’ , do ArcGIS/ArcMAP. Caracterizar a população envelhecida e idosa (≥65anos) no período em análise, por NUTS III, de modo a compreender os fatores socioeconómicos que a podem tornar desproporcionalmente vulnerável às ondas de calor  levantamento e análise espácio-temporal de indicadores demográficos, sociais e económicos disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), PORDATA – Estatísticas sobre Portugal e Europa (da Fundação Francisco Manuel dos Santos) e Guarda Nacional Republicana (GNR), para o período de 2001 a 2020 (ver Tabela 2);  determinação de grupos de NUTS III com similar vulnerabilidade da população idosa às ondas de calor no verão, através do ‘ Grouping Analysis’ , do ArcGIS/ArcMAP. Avaliar o excesso de óbitos por causa de morte, na população idosa (≥65anos), associado às ondas de calor no verão, em relação ao período de 2010 a 2019, por NUTS III  levantamento dos óbitos, por causas de morte (as mais diretamente afetadas pela ocorrência de ondas de calor, com base na bibliografia), relativos aos homens e mulheres do grupo etário de ≥65anos, para os meses de junho, julho e agosto, de acordo com os dados disponibilizados pelo INE;  avaliação do excesso de óbitos por causa de morte, nos homens e nas mulheres idosos, em função das anomalias positivas calculadas para os meses de junho, julho e agosto, tendo por referência o valor médio mensal de óbitos relativo aos anos sem ocorrência de ondas de calor, no período de 2010 a 2019. A Tabela 2 sintetiza-se a informação respeitante aos indicadores coligidos para caracterizar a população envelhecida e idosa e, consequentemente, o seu grau de vulnerabilidade em Portugal Continental. Tabela 2 – Indicadores Utilizados para Avaliar a Vulnerabilidade da População Envelhecida e Idosa (2001-2020) 5 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO A dissertação foi estruturada em torno dos três objetivos específicos que conduziram o trabalho empírico, tendo sido subdividida em três partes/capítulos temáticos:  Ocorrência das ondas de calor no verão;  Evolução dos fatores socioeconómicos que condicionam a vulnerabilidade da população envelhecida às ondas de calor;  Risco da população idosa (excesso de óbitos) associado às ondas de calor no verão. Os dois primeiros capítulos temáticos foram organizados de modo a incluir: (i) Abordagem aos conceitos de base; (ii) Breve revisão teórica; (iii) Análise dos dados recolhidos. 6 1. ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM PORTUGAL CONTINENTAL NO PERÍODO 20032020 CONCEITO DE ONDA DE CALOR Segundo o IPMA, e de acordo com o estabelecido pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), considera-se que ocorre uma onda de calor quando num intervalo de pelo menos 6 dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5oC ao valor médio diário no período de referência (IPMA, 2022). Embora seja esta a definição de onda de calor adotada noutros setores em Portugal, como a proteção civil e a saúde pública, o IPMA faz a ressalva de que esta é uma definição de natureza estatística, diretamente relacionada com o estudo e análise da variabilidade climática e não com as consequências das temperaturas extremas, que possam observar-se num período mais curto, nomeadamente sobre a morbilidade e a mortalidade. Perante esta limitação inerente à definição da OMM, outras formas para se estabelecer em que condições um episódio de calor extremo pode ser considerado como uma onda de calor foram propostas por diferentes instituições e autores. Seguem-se alguns exemplos, citados em Paixão e Nogueira (2003).  O Royal Netherlands Meteorological Institute considera, para os Países Baixos, que uma onda de calor corresponde a um período de, pelo menos, 5 dias consecutivos com temperatura máxima diária de, pelo menos, 25oC, incluindo 3 ou mais dias com temperatura máxima diária de, pelo menos, 30oC;  O National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) define onda de calor, para os Estados Unidos da América, como um estado de tempo anormal e desconfortavelmente quente, com a duração de dois ou mais dias consecutivos, incorporando explicitamente a perceção do conforto térmico pela população;  Paixão e Nogueira (2003) sugerem que, em Portugal, se pode considerar como onda de calor um período de, pelo menos, 2 dias consecutivos, em que a temperatura máxima diária se mantém igual ou superior a 32oC. As diferentes definições de onda de calor que têm surgido variam sobretudo em relação à duração mínima (dias consecutivos) que deve ser considerada como referência ou limiar. Porém, independentemente da duração, uma onda de calor carateriza-se, em geral, não só por temperaturas máximas diárias muito elevadas como também por temperaturas mínimas diárias 7 muito altas. No contexto climático de Portugal Continental, e tal como consta no Portal do Clima, consideram-se dias com temperatura máxima ≥25oC como dias de verão, com temperatura máxima ≥30oC como dias quentes e com temperatura máxima ≥35oC como dias muito quentes; por seu lado, o registo de temperaturas mínimas diárias ≥20oC definem noites muito quentes, designadas por noites tropicais. CONCEITO DE VULNERABILIDADE CLIMÁTICA Segundo Trigo et al. (2009), a região mediterrânea – em que se insere o território continental português – é considerada o ‘ hot spot ’ das alterações climáticas, tendo em conta que os diversos modelos climáticos da circulação global e regional corroboram entre si os resultados das projeções climáticas que sugerem o incremento de eventos extremos. Abrantes e Silveira (2009) mencionam ainda que diversas simulações realizadas apontam para um aumento da temperatura média na Península Ibérica entre 4 e 7oC até 2100. Assim, nas duas últimas décadas, os estudos relacionados com as alterações climáticas em Portugal têm tido um grande desenvolvimento, incluindo os riscos climáticos, estratégias e medidas de adaptação e mitigação climática e, ainda, a vulnerabilidade da população, de setores económicos e de certas regiões ou áreas geográficas (em especial, as áreas urbanas). Vulnerabilidade refere-se, em termos genéricos, ao grau de suscetibilidade ou de propensão para sofrer danos devido à exposição a um determinado perigo (Bao et al ., 2015). Schumann e Moura (2015) mencionam que a noção de vulnerabilidade tem sido utilizada em diferentes estudos de diversos domínios do saber – podendo destacar-se as ciências da vida, ciências naturais e ciências sociais, em especial nas áreas da saúde, bioética, geografia, demografia e economia –, expressando a multidimensionalidade de um conceito em construção. No contexto climático, vulnerabilidade traduz o grau em que um sistema é suscetível ou incapaz de lidar com os efeitos adversos do clima, incluindo a sua variabilidade e mudança (Bao et al ., 2015). Estes autores referem ainda que, sob o ponto de vista da saúde, a vulnerabilidade climática pode ser definida como a soma de todos os fatores de risco e de proteção, que determina se parte da população, ou certa área geográfica, experimenta resultados adversos para a saúde devidos às caraterísticas do clima. 8 Kelly e Adger (2000) entendem que, para caracterizar a vulnerabilidade, é preciso compreender e avaliar adequadamente os processos sociais e económicos, e que, por isso mesmo, a condição de vulnerabilidade representa o ponto de partida da análise de riscos. Por outras palavras, o estudo da vulnerabilidade pode contribuir para a compreensão das circunstâncias que colocam certos indivíduos ou áreas sob risco, bem como das condicionantes que reduzem a capacidade desses mesmos indivíduos ou áreas responderem às ameaças ambientais, ou seja, que reduzem a sua resiliência (Almeida, 2011, citando Cutter, 2003). Seguindo esta linha de pensamento, para o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), a vulnerabilidade climática resulta da interação de três componentes: exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação (IPCC, 2007). Para Pinheiro e Laranjeira (2016), a exposição diz respeito ao modo como uma determinada área é afetada por um dado evento climático extremo, em termos de magnitude e de frequência; e, por sua vez, a sensibilidade corresponde à predisposição de certos grupos populacionais ou indivíduos para sofrer danos em resultado de um evento climático extremo, tendo em conta as suas debilidades intrínsecas (idade, estado de saúde, condições económicas, hábitos socioculturais). Por fim, a limitação ao acesso ou mobilização de recursos necessários para antecipar, suportar e recuperar de um evento climático extremo, compromete a capacidade de adaptação de uma população ou área afetadas (Birkmann et al. , 2013). Nesta dissertação, adotaram-se os conceitos de vulnerabilidade anteriormente expostos para desenvolver a análise sobre as ondas de calor, entre 2003 e 2020, e as suas consequências sobre a população idosa, concretamente no que respeita o risco de mortalidade. 9 ONDAS DE CALOR E MORTALIDADE O calor extremo, devido ao registo de temperaturas máximas e mínimas diárias excessivamente elevadas (relativamente aos valores-padrão para o período em causa), é um conhecido perigo para a saúde pública. A relação entre os extremos de calor, no que respeita a frequência, duração e intensidade, e os inúmeros desfechos no que toca a saúde, em particular o aumento da mortalidade, tem vindo a ser documentada em muitos estudos epidemiológicos. A onda de calor de 2003 que assolou a Europa e a preocupação com os efeitos das alterações climáticas, aumentaram o interesse pela investigação sobre o impacte do clima na saúde. Inicialmente, a grande maioria dos estudos centrava-se apenas numa única cidade ou um pequeno número de cidades, bem como num único evento extremo ou num período do tempo (ou seja, uma série de anos) relativamente curto, dificultando assim a generalização de resultados e conclusões. Uma investigação mais abrangente, quer em termos geográficos quer em termos temporais, começou, portanto, a ganhar maior relevância. A título de exemplo, citam-se as principais conclusões de alguns trabalhos internacionais. Anderson e Bell (2009) realizaram um estudo, para 1987-2000, que incluiu 107 comunidades urbanas dos Estados Unidos da América, concluindo que existe uma grande variação nos efeitos das ondas de calor sobre a saúde por raça, nível de educação, densidade populacional e fruição de ar condicionado. D’Ippoliti et al. (2010) apresentam os principais resultados do projeto EuroHEAT ( Improving Public Health Responses to Extreme Weather/Heat Waves ). Este projeto envolveu 9 cidades europeias (Atenas, Barcelona, Budapeste, Londres, Milão, Munique, Paris, Roma e Valência), abrangendo uma população total de cerca de 25 milhões de indivíduos e representando uma variedade considerável de condições climáticas, socioeconómicas e de poluição atmosférica no contexto da Europa Ocidental e Mediterrânica. Um dos principais objetivos do EuroHEAT foi o de comparar o impacte das ondas de calor entre estas cidades europeias. Foram realizadas estimativas específicas para cada cidade sobre o efeito das ondas de calor na mortalidade diária, por causa de morte (doenças respiratórias, cerebrovasculares e cardiovasculares), entre indivíduos com mais de 65 anos. Em todas as cidades, o aumento maior da mortalidade deveu-se a causas respiratórias. Nas cidades mediterrânicas, registou-se um aumento estatisticamente significativo 10 do impacto das ondas de calor no género feminino e na faixa etária entre os 75 e os 84 anos. Son et al. (2012) estudaram a mortalidade associada a ondas de calor em 7 grandes cidades coreanas, entre 2000 e 2007, em função de características como a intensidade, duração e época do ano em que ocorreu a onda da calor. Concluíram que a mortalidade estimada foi maior para ondas de calor mais intensas, longas e precoces no verão, e o grupo populacional mais atingido foram os idosos, em especial as mulheres. Tong et al. (2013) avaliaram os impactes das ondas de calor sobre a mortalidade, durante o período de 1988 a 2009, nas três maiores cidades australianas (Brisbane, Melbourne e Sydney), determinando que estes impactes variam com a idade e o género dos indivíduos, com a duração do evento de verão mais longo (´ Heat Wave Duration Index´ , ou HWD) e com a área geográfica. Os idosos, principalmente mulheres, são mais vulneráveis aos impactes da onda de calor. Botelho et al. (2004) fazem referência a um estudo no Japão, por Nakai et al. (1999), cujos resultados mostraram que o maior número de óbitos devido ao calor se registou principalmente em dias em que se atingiram picos de temperatura máxima muito elevados (no caso, superior a 38oC), sendo que esse número aumenta exponencialmente com o número de dias consecutivos com estas temperaturas. Corroborando os resultados obtidos nos trabalhos supracitados, Paixão e Nogueira (2003) referem que a análise em diversos estudos sobre de ondas de calor com diferente duração sugere que os eventos mais longos têm de facto um maior impacte sobre a mortalidade. Isto dever-se-á aos efeitos de uma mais prolongada exposição do corpo humano a temperaturas muito mais elevadas do que aquelas a que a população está habituada (Paixão e Nogueira, 2003, citando McGeehin e Mirabelli, 2001). Com efeito, a resiliência humana aos extremos térmicos exige adaptações rápidas e uma boa capacidade de resistência do organismo à variabilidade das condições meteorológicas (Cunha e Leal, 2013). Como tal, assiste-se à relação direta entre a intensidade e a duração de uma onda de calor e o aumento da morbilidade e da mortalidade (Cunha e Leal, 2013, citando Marques e Antunes, 2009; Nogueira et al. , 2009). Mas, por outro lado, isso pode também justificar o facto de serem as ondas de calor que ocorrem nos primeiros dias de verão as que causam taxas de mortalidade mais elevadas (Marto, 2005). Embora a causa mais frequente de morte diretamente atribuível ao calor extremo seja o golpe de calor – que, segundo a Direção-Geral de Saúde (DGS), se trata de uma anomalia que acontece quando o sistema de controlo da 11 temperatura corporal não funciona, porque o corpo deixa de produzir suor e não arrefece –, uma onda de calor provoca um aumento da mortalidade por todas as causas, sobretudo por doença cardiovascular e respiratória (Marto, 2005). Dadvand et al. (2013), num estudo realizado na Área Metropolitana de Barcelona relativo ao verão, entre 1999 e 2006, concluíram que o aumento da mortalidade devido a ondas de calor varia entre regiões, de acordo com as caraterísticas sociodemográficas e nível de urbanização. Já num trabalho anterior, por Gabriel e Endlicher (2011) – que compararam a mortalidade causada por ondas de calor na área urbana de Berlim com a registada na área rural de Brandenburg, para o período de 1990 e 2006 –, se concluiu que a mortalidade foi mais elevada na cidade de Berlim, em particular nas áreas mais densamente urbanizadas. Zeng et al . (2014) demonstraram igualmente que as ondas de calor aumentaram significativamente o risco de mortalidade em 66 comunidades da China, sendo que esses efeitos foram mais significativos em áreas urbanas com elevada densidade populacional. As mortes, na sua grande maioria foram causadas por doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e respiratórias na população mais idosa, especificamente do género feminino. Estes são alguns dos estudos que evidenciam a maior exposição das áreas urbanas aos riscos associados a ondas de calor, facto que se deve à formação da ilha de calor urbano, que amplia a magnitude do calor extremo (Pinheiro et al ., 2020) e, consequentemente, dos seus efeitos negativos sobre a saúde (Klock et al ., 2012; Depietri et al. , 2013). Além disso, os níveis mais elevados da poluição do ar nas áreas urbanas podem contribuir para o excesso de óbitos, durante as ondas de calor (Haines et al ., 2006). Fischer et al. (2004) mencionam que a poluição do ar, durante o verão de 2003, nomeadamente através dos níveis mais elevados da concentração do ozono na baixa atmosfera, contribuiu para o excesso de óbitos, nos Países Baixos. Inúmeros estudos documentam a maior suscetibilidade da população com mais de 65 anos, constituindo este grupo um dos mais atingidos pelo excesso significativo de óbitos causado pelas ondas de calor (Keating et al. , 2000; Michelozzi et al. , 2003; Hutter et al ., 2007). Schifano et al. (2009) referem que, na ocorrência de ondas de calor, se destacam igualmente números mais elevados de mortalidade e morbilidade entre outros grupos vulneráveis, que incluem indivíduos que apresentam doenças crónicas, população isolada ou que vive sozinha, população com condições socioeconómicas precárias, com acesso limitado ao ar condicionado. Os sem abrigo e turistas também se contam entre os grupos populacionais mais vulneráveis (Haines et al. , 2006). 12 Fatores como o género, a capacidade respiratória e cardiovascular, o tamanho e a composição corporal têm também sido implicados na relação entre o calor extremo e a mortalidade (Andrade et al ., 2013, citando Havenith, 2005). Com efeito, as mulheres são mais sensíveis ao calor, devido a fatores hormonais (Canário et al. , 2010, citando Havenith, 2005) e a percentagem de gordura corporal é um fator importante na sensibilidade à temperatura (Canário et al. , 2010). Outras condições debilitantes são a doença psiquiátrica, o alcoolismo, a falta de autonomia física ou psíquica, o uso de medicamentos que interfiram com a regulação da temperatura corporal, para além da já mencionada população cujas habitações não possuem ar condicionado e os residentes em áreas urbanas (Marto, 2005). O isolamento social, o estatuto socioeconómico, a menor disponibilidade e recetividade à informação, bem como a dificuldade no acesso aos serviços de saúde, são fatores socioeconómicos (e/ou culturais) que condicionam fortemente a vulnerabilidade de determinados indivíduos ou grupos populacionais (Andrade et al ., 2013, citando Kovatz e Hajat, 2008). Andrade et al . (2013) salientam que, para além dos aspetos relativos à morbilidade e às condições socioeconómicas, os fatores relativos à exposição – como as características dos locais de residência e de trabalho (incluindo a presença de espaços verdes), a qualidade da habitação, o tipo de alojamento, entre outros – determinam igualmente a vulnerabilidade individual. Canário et al. (2010) e Nogueira e Mateus (2013) reforçam que a avaliação da vulnerabilidade de cada indivíduo aos extremos térmicos deve considerar fatores relativos à sensibilidade, à exposição, e suas inter-relações, dando o exemplo da vulnerabilidade de um indivíduo idoso que pode resultar da sinergia entre as alterações fisiológicas decorrentes do envelhecimento (ritmo cardíaco, capacidade de transpiração), a existência de patologia respiratória ou cardíaca, o baixo rendimento, que condiciona as condições da habitação e a capacidade de pagar cuidados de saúde, a reduzida mobilidade e o isolamento social. 19 Por sua vez, não se registaram ondas de calor nos anos de 2004 e 2008, nas estações meteorológicas do IPMA. Tabela 3 – Registo das ondas de calor em Portugal Continental identificadas pelo IPMA, para o período de 2003 a 2010 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos (mensais, sazonais e anuais) do IPMA, de 2003 a 2010. (https://www.ipma.pt/pt/publicacoes/boletins.jsp?cmbDep=cli&cmbTema=pcl&idDep=cli&idTema=pcl&curAno=-1) Na segunda década (Tabela 3), não se registaram quaisquer ocorrências nos anos de 2011, 2012 e 2019. Não obstante, destaca-se o ano de 2013, com 4 ondas de calor, que atingiram sobretudo as regiões do Interior Norte e Centro; é, ainda, de notar que as duas ondas de calor de junho (duração de 9 dias) e julho (duração de 11 dias) se sucederam com apenas dois dias de intervalo entre elas, o que perfaz quase 20 dias consecutivos em onda de calor. Os anos de 2015 e 2018 evidenciam-se pela ocorrência de ondas de calor que se estenderam a grande parte do território português, no mês de junho e no mês de agosto, respetivamente. Em relação às regiões do país mais atingidas, estes dados mostram bem que a suscetibilidade a ondas de calor aumenta progressivamente do litoral para o interior, sendo mais elevada no Interior Norte e Centro. 2004 2007 2008 1 O.C - 3 a 11 de agosto (Alcacer do Sal e Monção) e 6 a 11 de agosto (Anadia, Dois Portos, Guarda, Monte Real, Nelas, Sagres e Sines) 2010 24 a 31 de julho (Portugal Continetal) 2 O.C 27 de maio a 3 de junho (Região do Interior) 10 a 22 de junho (Região do Sul) 2 O.C 2009 2006 1 O.C - 2 a 7 de junho (Portalegre) 1 O.C - 24 de maio a 8 de junho (Região Centro) 2 O.C 3 a 11 de julho (Miranda do Douro) 3 a 8 de julho (Guarda) 6 a 11 de julho (Mirandela) 1 O.C - 11 a 19 de agosto (Interior Norte e Centro, na Região Sul apenas Sagres) 27 a 9 de setembro (Interior Centro e Sul) 1 O.C - 7 a 18 de julho (Regiões Litoral Norte, Centro e Alentejo) 2 a 13 de agosto (Regiões Litoral Norte e Centro) 1 O.C - 5 a 13 de julho (Alvega) e 5 a 10 de julho (Benavila/Avis) 2 O.C 30 de maio a 11 de junho (Interior Norte e Centro) 15 a 22 de junho (Portalegre e Amareleja) 2005 Meses 2003 1 O.C - 29 de julho a 14 agosto (Interior Norte, Centro e parte da região Sul) Anos Junho Julho Agosto 20 Tabela 4 – Registo das ondas de calor em Portugal Continental identificadas pelo IPMA, para o período de 2011 a 2020 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos (mensais, sazonais e anuais) do IPMA, de 2011 a 2020. (https://www.ipma.pt/pt/publicacoes/boletins.jsp?cmbDep=cli&cmbTema=pcl&idDep=cli&idTema=pcl&curAno=-1) ANÁLISE ESPACIAL DAS ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM 2003-2020, POR NUTS III Com base nos dados recolhidos a partir do Boletins Climatológicos do IPMA, sintetizados nas Tabelas 2 e 3, espacializou-se a informação sobre o número de ondas de calor e o número de dias em onda de calor, ao nível das NUTS III, de forma a poder analisar, respetivamente, a frequência e a duração total destes eventos no período de 2003 a 2020, para cada um dos meses de verão nestas regiões. Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Junho Os mapas da Figura 1 ilustram a frequência e a duração total das ondas de calor ocorridas no mês de junho, entre 2003 e 2020. Pode-se constatar que a região que mais se destaca por ter registado uma maior frequência de ondas de calor no período em análise é a região da Beira Baixa, com um total de 9-10 eventos. Seguem-se as regiões, também localizadas no interior centro do 2011 2012 2019 2020 1 O.C - 4 a 13 de julho (Regiões do Norte e Centro), 9 a 18 de julho (Interior Norte) e 25 a 31 de julho (Interior Norte) 1 O.C - 4 a 10 de agosto (Interior Norte e Centro - Montalegre, Vila Real, Guarda, Penhas Douradas) 1 O.C - 7 a 24 de junho (Regiões Interior Norte e Centro) 1 O.C - 12 a 17 de julho (Região do Interior) 2017 1 O.C - 1 a 6 de agosto (Abrangeu quase a totalidade do Território Continental, à exceção do Litoral Norte) 2018 1 O.C - 15 a 25 de junho (Região do Interior Norte e alguns locais do Centro) 14 a 19 de julho (Região do Vale do Tejo) 23 a 30 de julho (Regiões do Interor Norte e Centro Vale do Tejo e Alto Alentejo) 2 O.C 1 O.C - 5 a 13 de agosto (Regiões Norte, Centro, Lisboa e Setúbal) 2016 26 a 3 de setembro (Porto) 2 O.C 2013 1 O.C - 22 a 30 de junho (Região Centro) 1 O.C - 3 a 13 de julho (Região de Trás os Montes) 1 O.C - 11 a 17 de junho (Regiões Norte, Centro e Alentejo) 2014 9 a 15 de agosto (Guarda, Mirandela e Montalegre 1 a 11 de junho (Grande parte do Território à exceção do Interior Norte e Centro) 25 a 30 de junho (Regiões Norte e Centro) 2 O.C 1 O.C - 5 a 10 de julho (Portalegre, Évora e Mértola) e 13 a 18 de julho (Mirandela e Guarda) 2015 Anos Junho Julho Agosto Meses 21 país, de Viseu Dão-Lafões, Beiras e Serra da Estrela e Médio Tejo, que se distinguem por apresentarem uma frequência total de 7-8 ondas de calor. Este facto justifica-se pelo seu grau de continentalidade, estando por isso mais sujeitas aos extremos térmicos, uma vez que não beneficiam da função amenizadora das temperaturas do ar associada ao mar (Oceano Atlântico). O mesmo acontece com as restantes regiões do interior norte e Alto Alentejo, embora de modo menos acentuado no que respeita o total de ondas de calor (5-6 eventos). Já no que concerne o número total de dias em onda de calor, as diferenciações entre estas regiões mais interiores não se notam tanto – todas, à exceção do Alto Alentejo, registaram um total superior a 61 dias. Figura 1 - Frequência e Duração Total de Ondas de Calor no mês de junho entre 2003-2020 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos do IPMA. Por sua vez, as regiões da Área Metropolitana de Lisboa, do Alentejo Litoral e Algarve são as que apresentam o menor número de eventos (1-2 ondas de calor) e, excetuando o Algarve, o total mais baixo de dias de onda de calor (<20 dias) em junho, ao longo destes 17 anos. Nestas regiões, a influência da proximidade ao mar é evidente, tal como nas regiões localizadas no Noroeste do país. No caso da Lezíria do Tejo, do Alentejo Central e Baixo Alentejo, as razões para a menor frequência e duração total das ondas de calor em junho são outras; com efeito, como estas já são regiões onde os verões são quentes, longos e secos, a tendência para ocorrerem picos de temperaturas elevadas, de maneira que sejam estatisticamente considerados como ondas de calor é menor, pelo menos, no início do verão. 22 Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Julho À semelhança do mês de junho, as regiões do interior norte e centro destacaram-se em julho pelo maior número de eventos e dias em onda de calor, de 2003 a 2020 (Figura 2). No entanto, e ao contrário do que sucedeu em junho, as regiões de Terras de Trás-os-Montes e de Tâmega e Sousa foram as únicas onde se registam mais de 61 dias em onda de calor. De facto, nota-se grosso modo uma diminuição da frequência e duração destes episódios de calor extremo em relação ao mês anterior, em quase todas as regiões do norte e centro do país. A Área Metropolitana de Lisboa, o Alentejo Litoral e o Algarve voltam a ser as regiões menos atingidas por ondas de calor. Figura 2 - Frequência e Duração Total de Ondas de Calor no mês de julho entre 2003-2020 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos do IPMA. 23 Frequência e Duração Total das Ondas de Calor em Agosto A distribuição espacial da frequência e duração total das ondas de calor no mês de agosto, no período de 2003 a 2020 (Figura 3), é significativamente diferente por comparação com os meses anteriores. Em primeiro lugar, é notável a alteração do padrão oeste-este pelo norte-sul, observando-se assim a substituição do grau de continentalidade pela latitude enquanto fator com maior influência no território continental sobre estas caraterísticas das ondas de calor, no final do verão. Não obstante, em torno do vale do Douro, as regiões do Tâmega e Sousa e do Douro passam a distinguir-se claramente das restantes regiões do interior norte e centro, com um total de apenas 3-4 eventos e 21-40 dias em onda de calor. Por sua vez, a Área Metropolitana de Lisboa e o Algarve, destacam-se da metade meridional do país, pelo aumento da frequência e duração total das ondas de calor relativamente aos meses anteriores, sobretudo no caso da primeira. Em agosto, a região mais afetada pelo calor extremo é a correspondente às Beiras e Serra da Estrela. Figura 3 - Frequência e Duração Total de Ondas de Calor no mês de agosto entre 2003-2020 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos do IPMA. 24 Grupos de Nuts III com Semelhante Exposição às Ondas de Calor no Verão Considerando que, no contexto da vulnerabilidade climática, a exposição corresponde ao modo como uma dada área geográfica é afetada por um evento climático extremo, em termos de frequência e de magnitude, procurou-se sintetizar neste trabalho os resultados das análises espaciais anteriores, determinando as grandes regiões do país que se caraterizam por uma exposição semelhante às ondas de calor no verão. Para tal, com base no conjunto das 6 variáveis relativas ao número total de ondas de calor e dos dias em onda de calor, recorreu-se à estatística espacial multivariada de clusterização ‘ Grouping Analysis’ , do ArcGIS/ArcMAP, de maneira a estabelecer grupos de NUTS III com um comportamento similar no que respeita a ocorrência destes eventos térmicos extremos. Para esta análise, optou-se por pré-definir 3 grandes grupos. O resultado obtido é ilustrado pelo mapa da Figura 4, cuja descrição estatística se apresenta na Tabela 4 e no diagrama de extremos e quartis (ou box-plot ) da Figura 5. É importante notar que as cores que identificam cada grupo no mapa são geradas automaticamente pelo programa, sendo repetidas no respetivo diagrama, pelo que foram aqui mantidas. 25 Figura 4 - Grupos de NUTS III com semelhante exposição às ondas de calor no verão, entre 2003-2020 Fonte dos dados: Boletins Climatológicos do IPMA. Tem-se, então, como resultado, a divisão do território continental nos seguintes grupos: o Grupo 1, a que foram atribuídas as regiões de Aveiro, Coimbra, Leiria, Oeste, Área Metropolitana de Lisboa e Algarve (total de 6 NUTS III); o Grupo 2, que integra o Alto Tâmega, Terras de Trás os Montes, Tâmega e Sousa, Douro, Viseu Dão-Lafões, Beiras e Serra da Estrela, Beira Baixa e Médio Tejo (total de 8 NUTS III); e, por fim, o Grupo 3, a que pertencem as regiões do Alto Minho, Cávado, Ave, Área Metropolitana do Porto, Lezíria do Tejo, Alto Alentejo, Alentejo litoral, Alentejo Central e Baixo Alentejo (total de 9 NUTS III). Em síntese, o Grupo 1 agrega a maior parte das regiões do litoral, exceto as do Noroeste, o Grupo 2 abrange as regiões do interior norte e centro e, por sua vez, o Grupo 3 inclui as regiões do litoral Noroeste, Lezíria do Tejo e Alentejo. Pela análise conjunta dos dados da Tabela 4 e Figura 5, depreende-se que o Grupo 2 é o que se destaca pelo facto de possuir os valores médios bastante mais elevados, quer do total de ondas de calor quer do total de dias em onda de calor, sobretudo nos meses de junho e julho. 26 Tabela 5 - Estatísticas descritivas dos grupos de NUTS III, com semelhante ocorrência de ondas de calor no verão (2003-2020) Grupos de NUTS III Variável Média Desvio Padrão Mínimo Máximo Grupo 1 N_total_dias_jun 39,2 15,7 11,0 50,0 N_total_dias_julh 22,7 10,4 8,0 30,0 N_total_dias_ago 37,7 8,7 21,0 49,0 Total_oc_jun 3,8 1,7 1,0 5,0 Total_oc_julh 2,3 0,9 1,0 3,0 Total_oc_ago 3,8 0,7 3,0 5,0 Grupo 2 N_total_dias_jun 72,4 9,0 64,0 89,0 N_total_dias_julh 51,4 9,4 35,0 64,0 N_total_dias_ago 45,0 9,5 32,0 64,0 Total_oc_jun 7,0 7,0 6,0 10,0 Total_oc_julh 6,3 6,3 4,0 8,0 Total_oc_ago 4,5 4,5 3,0 7,0 Grupo 3 N_total_dias_jun 27,7 6,1 19,0 41,0 N_total_dias_julh 30,6 6,2 20,0 45,0 N_total_dias_ago 14,8 5,6 7,0 20,0 Total_oc_jun 3,2 0,8 2,0 5,0 Total_oc_julh 3,4 1,1 2,0 6,0 Total_oc_ago 1,7 0,5 1,0 2,0 No período compreendido entre 2003 e 2020, as regiões do Grupo 2, foram em média atingidas por 7 ondas de calor em junho, sendo que apresentaram um valor máximo de 10 eventos neste mês. Simultaneamente, registou-se um total de dias em onda de calor muito elevado, particularmente em junho, com um valor máximo de 89 dias e um valor mínimo de 64 dias. Não obstante, este é um grupo onde existe uma razoável variação, sobretudo no que respeita a duração das ondas de calor, tal como o desvio padrão de 9 a 9,5 dias traduz. A maior exposição ao calor extremo das regiões do interior norte e centro do Grupo 2 justifica-se principalmente devido à sua localização. Afastadas do Oceano Atlântico e/ou caracterizadas por um relevo montanhoso, não beneficiam da advecção das massas de ar marítimas, frescas e húmidas, provenientes do anticiclone dos Açores, que asseguram a renovação do ar nas regiões litorais, ficando assim sujeitas à acumulação das massas de ar continentais muito quentes e secas, que chegam progressivamente do interior da Península Ibérica e/ou do Norte de África e, consequentemente, tornando-se mais suscetíveis à ocorrência de ondas de calor. 27 Figura 5 - Diagrama de extremos e quartis dos grupos de NUTS III, com semelhante ocorrência de ondas de calor no verão (2003-2020) O Grupo 1 e o Grupo 3 mostram um comportamento médio completamente oposto entre si (Figura 5). O mês de agosto foi o que mais diferenciou as regiões destes grupos em relação à ocorrência de ondas de calor. Neste mês, o Grupo 1 assemelha-se mais ao Grupo 2, com valores relativamente elevados de frequência e duração das ondas de calor. Ao contrário, as regiões incluídas no Grupo 3 são claramente as menos afetadas por eventos de calor extremo no final do verão, não ultrapassando o máximo de 2 ondas de calor no conjunto dos anos entre 2003 e 2020 (Tabela 4). Em julho, é o Grupo 3 que comparativamente se evidencia por uma ocorrência muito baixa de ondas de calor, não tendo ultrapassado o máximo de 3 eventos e de 30 dias em onda de calor no período em estudo (Tabela 4). O Grupo 3 apresenta um comportamento similar durante este mês, embora a ocorrência de ondas de calor tenha sido em média relativamente superior (Figura 5). No início do verão, os Grupos 1 e 3 mantém valores próximos, sobretudo da média de ondas de calor (3,8 e 3,2, respetivamente; Tabela 4). Em relação ao total de dias em onda de calor, este é em média relativamente mais elevado nas regiões do Grupo 1 (Figura 5). As regiões do Grupo 3 são as menos expostas às ondas de calor, exceto no pico do verão, em julho. Isto deve-se, por um lado, porque este grupo integra as regiões do litoral Noroeste, protegidas do calor extremo devido à sua proximidade ao mar, e, por outro, porque nas restantes regiões da 28 Lezíria do Tejo e do Alentejo, os verões são quentes, longos e secos, com temperaturas diárias geralmente elevadas, sendo por isso menos evidente a ocorrência de picos de temperatura excecionalmente altos ou extremos. O Grupo 1, que inclui o litoral centro e oeste, bem como o Algarve, está mais exposto às ondas de calor no início e, sobretudo, no final do verão. Com efeito, em agosto, o papel amenizador do Oceano Atlântico parece perder consideravelmente importância nestas regiões. 35 que podem ser preponderantes na capacidade de mitigar ou combater algumas situações de vulnerabilidade, neste caso ultrapassar as ondas de calor. O objetivo desta análise é no final, selecionar um subgrupo de indicadores que nos pareçam mais relevantes para determinar grupos de NUTS III com similar vulnerabilidade da população idosa às ondas de calor no verão, através do ‘ Grouping Analysis’ , do ArcGIS/ArcMAP. ANÁLISE ESPÁCIO-TEMPORAL DA VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO ENVELHECIDA EM 2001-2018 POR NUTS III População Residente e Densidade Populacional No período temporal em análise a evolução da população residente em Portugal continental foi irregular. Entre 2001 e 2011 a população aumentou 1,7% e entre 2001 e 2018 diminui -3,4%. Figura 6 – População Residente 2018 Fonte: PORDATA, NUTS III, 2018 36 Figura 7 – Densidade Populacional, 2018 Fonte: PORDATA, NUTS III, 2018 Se analisarmos a distribuição da população é evidente a sua concentração ao longo do litoral, entre Viana do Castelo e Setúbal e no Algarve. Todo interior do país à exceção da NUT Beiras e Serra da Estrela registam quantitativos populacionais muito menores, (figura 6). Se considerarmos a densidade populacional esta dicotomia litoral/interior Norte/Sul é ainda mais evidente com o litoral e o Norte com densidades populacionais muito mais elevadas que o interior e o Sul. Esta situação é o resultado de um processo continuado de concentração das cidades e das atividades económicas no litoral, acompanhando o investimento inicial nas acessibilidades que privilegiaram o litoral em detrimento do Interior. A população, procurando melhores condições de vida, deslocouse para as cidades e para o litoral, consubstanciando um êxodo rural que conjugado por fortes vagas emigratórias deixaram o interior do país despovoado. Se analisarmos a evolução populacional à escala das NUT III, verificamos que no período de análise, existem situações muito díspares. A única NUT onde a população aumentou entre 2001 e 2018 foi a Área Metropolitana de Lisboa (figura 7), sendo esta, igualmente, a região de Portugal Continental que regista o valor mais elevado de densidade populacional (em 2018, registava quase 947 hab/Km2), afirmando a sua primazia no contexto português, marcado pela importância das 37 duas áreas metropolitanas quer em termos populacionais quer em termos económicos. No entanto, neste período de análise a Área Metropolitana do Porto registou um comportamento diferente do da Área Metropolitana de Lisboa, entre 2001 e 2011 ocorreu um aumento da população, mas no período seguinte esta diminui. Comportamento semelhante registaram as NUT do Cávado, Oeste, Aveiro, Leiria, Lezíria do Tejo e Algarve. Ou seja, corresponde a um conjunto de regiões que têm um forte desenvolvimento económico, mas que devido à crise económica que o país atravessou (entre 2011 e 2015) levou à falência de muitas empresas e ao recrudescimento dos fluxos migratórios de saída que resultaram numa diminuição da população residente entre 2011 e 2018. Todas as outras regiões de Portugal continental perderam população entre 2001 e 2018, a maioria delas localizadas no interior de país, acentuando as disparidades existentes entre o litoral e o resto do país. Convém igualmente referir que relativamente à densidade populacional, em 2018, cinco NUT registavam densidades populacionais inferiores a 20 hab/km2: uma no interior norte - Terras de Trás-os-Montes, outra no interior Centro - Beira Baixa e quase toda a NUT II Alentejo. Nesta região temos a NUT III (Baixo Alentejo) com o valor mais baixo do país, 13,6 hab/km2 (Tabela 19 em Anexo). Figura 8 - Taxas de variação da População Residente, por NUT III, em Portugal Continental População sem Escolaridade ou com o 1º ciclo A análise da distribuição da população sem escolaridade ou com os níveis de escolaridade do 1º ciclo de ensino evidencia um aspeto muito positivo que é o de todas as NUT III (entre 2001 e 2011) registarem uma diminuição da população com estes dois níveis de escolaridade, o que - 15,0 - 10,0 - 5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 % NUT III 2001/2011 2011/2018 38 confirma o aumento do nível de escolaridade da população portuguesa que resulta da aposta política de aumentar a escolaridade mínima obrigatória. Esta decisão e infelizmente a morte da população mais idosa (que é a que possui níveis de escolaridade mais baixa) têm contribuído para a reversão deste problema. No entanto, se observarmos os mapas elaborados com base nos valores absolutos, figura 9 e 10, é nítido que é nas regiões mais populosas, (NUT III – Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, Oeste, Coimbra, Aveiro, Tâmega e Sousa, Cávado e Ave) entre que existem os maiores quantitativos de população com níveis de escolaridade mais baixos. No entanto, se tivermos em consideração o peso destes grupos no total da população então a realidade seria oposta, com a preponderância desta população nas NUT do interior do país. Figura 9 – População sem nível de escolaridade Fonte: INE, 2011 39 Figura 10 – População com o 1ºciclo do Ensino Báscio Fonte: INE, 2011 40 População Residente com 65 anos e mais e Índice de Envelhecimento No que toca à distribuição da população residente com mais de 65 anos, em Portugal Continental, verifica-se que as regiões que evidenciam um maior número de idosos são as regiões do litoral, as mais populosas, em especial, as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. No período de análise (entre 2001 e 2018) é visível que se verificou um agravamento da situação em praticamente todo o território nacional (Figuras 11 e 12). Neste período, 18 das 23 NUT III de Portugal continental viram aumentar o número de idosos. As exceções são as NUT das Beiras e Serra da Estrela e Alentejo Central que viram aumentar o número de idosos entre 2001 e 2011, mas esses quantitativos diminuíram entre 2011 e 2018. As NUT da Beira Baixa, Baixo Alentejo e Alto Alentejo foram as únicas onde se verificou uma diminuição dos idosos (tabela 22 em Anexo). Estas situações, apesar de aparentemente positivas, não o são, estes territórios são áreas de muito baixa densidade, com pouca população e, a diminuição de idosos poderá indicar taxas de mortalidade mais elevadas na população idosa ou a saída destes para casas de familiares ou instituições situadas noutras localidades. Figura 11 – População com 65 anos e mais 2018 Fonte: PORDATA, NUTS 2018 41 Complementando esta análise com a evolução e o padrão de incidência espacial do Índice de envelhecimento (que estabelece a relação entre a população idosa e a população jovem, em percentagem) é possível verificar que uma parte muito considerável do país (todas as regiões do interior) está de facto muito envelhecida, com valores muito mais elevados de idosos que de jovens, demonstrativo de um duplo envelhecimento. Este é o retrato de regiões, sobretudo rurais, com grandes dificuldades na fixação de jovens, com escassas oportunidades de emprego ou, sem perspetivas de progressão na carreira, levando muitos deles a emigrar. No período em análise (2001, 2011 e 2018) o envelhecimento agravou-se em todas as regiões de Portugal continental (Tabela 23 em Anexo). Em 2001, o valor mais baixo do índice de envelhecimento verificava-se na NUT Tâmega e Sousa com um valor inferior a 57%, decorridos 17 anos esse valor tinha atingido quase 123%. No mesmo ano, o máximo verificava-se na NUT Beira Baixa com cerca de 238%. Em 2011, a região da Beira Baixa continuava a ser a mais envelhecida com o máximo, um pouco superior a 270%. Em 2018, registou-se uma alteração no ranking e a região mais envelhecida passou a ser o Alto Tâmega com quase 315% (Figura 12). Convém destacar que as regiões com menor índice de envelhecimento, em 2018, eram as NUT do Cávado, Ave, Tâmega e Sousa, Área Metropolitana de Lisboa e Algarve com valores inferiores a 145%. Figura 12 – Índice de Envelhecimento 2018 Fonte: PORDATA, NUTS III, 2018 42 Índice de Longevidade Outra das variáveis escolhidas para a caracterização da população envelhecida em Portugal, foi o índice de longevidade, que representa a relação entre a população com 75 ou mais anos e a população com 65 ou mais anos. Como é possível verificar a população mais idosa concentra-se sobretudo no interior do país, fator potenciado pelo retorno de uma parte importante da população reformada aos locais de origem. As Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e a extensão desta última (Ave, Cávado e Tâmega e Sousa) são as regiões do país com menor índice de longevidade (Figura 13). No período de análise (entre 2001 e 2018) a situação agravou-se em quase todas as NUT de Portugal continental, com a exceção das NUTCávado, Ave, Área Metropolitana do Porto e Tâmega e Sousa que registaram um aumento entre 2001 e 2011, mas no período subsequente viram o índice de longevidade diminuir ligeiramente (Tabela 24 em Anexo). A NUT da Beira Baixa foi a região que sempre apresentou o índice de longevidade mais elevado, 46.7%, 55,7% e 58,2%. Em contrapartida as regiões com menor índice foram a NUT do Ave com 38,7% (em 2001) e a Área Metropolitana do Porto com 45,1% e 44%, em 2011 e 2018. Figura 13 – Índice de Longevidade 2018 Fonte: PORDATA, NUTS III, 2018 43 Mortalidade da População com 65 anos ou mais O padrão e a evolução da mortalidade da população idosa, acompanha, como é natural, a repartição da população idosa em Portugal. Assim, as regiões que registam os valores mais elevados de mortalidade são as do litoral (com a exceção do Alentejo Litoral uma das poucas regiões do litoral que não tem quantitativos populacionais muito relevantes devido a uma aposta mais controlada no turismo e um setor económico pouco diversificado, apesar de aí se localizar o Porto de Sines) em especial, as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa (Figura 14). Na análise evolutiva deste indicador convém destacar que no período entre 2001 e 2011, a mortalidade nos residentes idosos diminuiu em 11 NUT (Tabela 25, em Anexo), para aumentar no período subsequente (2011 a 2018). Neste período a situação agravou-se em praticamente todo o território nacional. Esta diferenciação de comportamento poderá ficar a dever-se à crise económica que o país atravessou (entre 2011 e 2015) e que afetou o acesso a cuidados de saúde ou até à aquisição de medicamentos para os mais idosos, que normalmente têm pensões de velhice muito baixas. Figura 14 – Óbitos da população com 65 anos ou mais Fonte: PORDATA, NUTS III, 2018 44 Idosos Isolados A Organização Mundial de Saúde em 2002, num documento sobre o envelhecimento ativo, sublinha a sua preocupação com o aumento da proporção de população idosa no total da população, bem como com o número de idosos a residirem sozinhos, fator que tem vindo a originar a discussão em torno da problemática do isolamento social. A condição de idoso e o facto de se viver sozinho e por vezes isolado potencia a vulnerabilidade deste grupo. Relativamente à avaliação desta situação a Guarda Nacional Republicana (GNR) tem prestado um contributo muito importante com a implementação da Operação Censos Sénior, este trabalho tem possibilitado o conhecimento prático sobre esta temática em Portugal, permitindo caracterizar esta população a nível nacional e sinalizar situações de vulnerabilidade que carecem de acompanhamento social (Carneiro et al , 2012). Assim, os dados sobre o número de idosos isolados foram fornecidos pela GNR, por norma são trabalhados à escala do distrito, sendo que por NUT III só foi possível obter os dados relativos a 2019. Para analisar a evolução tivemos que utilizar os dados por distrito para os anos de 2015 e 2020. Figura 15 – Idosos Isolados 2019 Fonte: Recenseamento Sénior, GNR, 2019 51 Figura 21 – População sem ar condicionado, 2011 Fonte: INE, NUTS III, 2011 No final da análise dos indicadores selecionados é possível verificar que os índices de envelhecimento têm vindo a aumentar substancialmente. É evidente que temos um país muito desigual, com a maior parte da população e das atividades económicas no litoral enquanto no interior encontramos as NUT que denotam mais dificuldades. Normalmente correspondem a áreas de baixa densidade populacional e económica, tornando-se cada vez menos dinâmicas. Em termos relativos estas são as mais envelhecidas e as mais pobres. Salienta-se, igualmente, o aumento do índice de dependência dos idosos. Ou seja, temos o número de idosos a aumentar e ao mesmo tempo a população ativa a diminuir, colocando novos desafios à subsistência do sistema de segurança social. Em Portugal, a população idosa é um dos grupos mais desfavorecidos em termos económicos, apresentando taxas de risco de pobreza elevados. O índice de longevidade mostra que o número de pessoas com mais de 75 anos tem aumentado, apesar de ser muito positivo que a esperança média de vida aumente, esta situação contribui para a crescimento dos grupos vulneráveis. Uma parte muito substancial dos idosos tem a sua qualidade de vida muito condicionada, para além da apresentarem problemas de saúde, muitos vivem isolados, no interior do país e nas 52 grandes cidades, frequentemente a viver em habitações sem grandes condições de habitabilidade. Resumindo, toda a análise evolutiva efetuada mostra que o grau de exposição e o grau de fragilidade da população idosa tem vindo a aumentar, em muitos casos a capacidade de adaptação também é reduzida, sendo que o litoral do país possui mais condições (equipamentos, serviços, etc.) que podem permitir aos idosos uma maior capacidade de adaptação do que no interior. Assim, podemos concluir que se regista um aumento da vulnerabilidade social em Portugal. 53 GRUPOS DE NUTS III COM SEMELHANTE VULNERABILIDADE SOCIAL DA POPULAÇÃO IDOSA EM 2018 Após a análise da evolução dos fatores socioeconómicos que condicionam a vulnerabilidade da população envelhecida, resolvemos realizar um ‘ Grouping Analysis’ , com a finalidade de determinar grupos de NUTS III com características semelhantes e, portanto, com níveis similares de vulnerabilidade na população idosa. Este exercício foi efetuado utilizando as taxas de variação (entre 2001 e 2018 - cobrindo o período de análise das ondas de calor) de cinco indicadores, que pretendem mostrar a evolução do envelhecimento em Portugal (População Residente com 65 anos ou mais, Índice de Dependência de Idosos, Densidade Populacional, Mortalidade da População com 65 anos ou mais e índice de Envelhecimento). Para este exercício decidimos optar por um ‘ Grouping Analysis’ que nos apresentasse quatro grupos. Taxa de Variação da vulnerabilidade social da população idosa em 2001-2018 A tabela 7 apresenta a estatística descritiva das variáveis e o diagrama de extremos e quartis dos grupos obtidos, informação que vai servir de base para a interpretação dos diferentes grupos. 54 Tabela 7 - Estatísticas Descritivas dos grupos por NUTS III, com semelhante vulnerabilidade da taxa de variação da População Idosa em 2001 - 2018 Fonte: NUTS III, INE, PORDATA, GNR, 2001/2018 Para avaliar de que modo a população idosa evoluiu ao longo dos anos em estudo, foi necessário proceder a uma fórmula estatística, como foi o caso da taxa de variação, para cada uma das variáveis (População com mais de 65 anos, índice de Dependência de Idosos, Densidade Populacional, óbitos com mais de 65 anos e índice de Envelhecimento), entre o ano mais antigo e o mais recente (2001-2018). De forma a obter a taxa de variação para cada uma das variáveis, subtraiu-se o ano mais recente com o mais antigo e dividiu-se pelo mais antigo, para depois multiplicar por 100. Após realizadas as taxas, utilizou-se o mesmo método de à semelhança das variáveis anteriores, como foi o caso das ondas de calor e da vulnerabilidade populacional, de forma a simplificar a análise. Através do método utilizado, o programa dividiu o território português em 4 grupos, sendo que o grupo 1 corresponde às NUTS do Interior Norte e Centro e o Alentejo Litoral, o grupo 2 integra as regiões do Litoral Norte e área metropolitana de Lisboa, o grupo 3 é composto pela região do Alto Grupos de NUTS III Variável Média Desvio Padrão Mínimo Máximo Grupo 1 Pop_+65 anos 10,1 5,5 0,1 18,5 Dep_Idosos 30,1 7,3 18,5 41,6 Dens_Pop -11,9 4,2 -17,6 -6,4 Óbitos_+65 anos 4,5 4,4 -4,10 9,4 Envelhecimento 63,1 20,3 30,1 100 Grupo 2 Pop_+65 anos 45,6 7,8 34,7 56,1 Dep_Idosos 50,2 10,4 35,4 67,4 Dens_Pop -0,1 3,2 -3,9 5,2 Óbitos_+65 anos 21,6 4,6 14,6 28,6 Envelhecimento 92,9 31,8 31,10 128,9 Grupo 3 Pop_+65 anos 22,10 4,9 15,6 27,9 Dep_Idosos 27,4 4,7 21,5 35,4 Dens_Pop 1,0 6,2 -7,7 10,4 Óbitos_+65 anos 26,1 15,5 9,10 54,3 Envelhecimento 41,2 19,6 12,4 64,2 Grupo 4 Pop_+65 anos -7,4 5,5 -12,2 1,10 Dep_Idosos 8,9 6,1 4,4 19,3 Dens_Pop -14,4 1,6 -16,8 -12,3 Óbitos_+65 anos 0,3 4,7 -4,1 7,8 Envelhecimento 19,6 7,9 8,1 30,1 55 Minho, Região de Leiria, Oeste, Lezíria do Tejo e Algarve e por fim o grupo 4 que incorpora as regiões do Interior Alentejano. Quando se visualiza a tabela acima representada, é possível verificar que o grupo 2 é o que mais se destaca por apresentar valores mais elevados no que toca à média da variação relativamente aos dois anos de referência (2001-2018), sendo que a explicação possível para este acontecimento, é o simples facto do grupo integrar as regiões que se encontram na zona litoral do país, especialmente as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa, que são as regiões que registaram as evoluções mais significativas. Ao contrário do grupo 4, que corresponde às regiões do Interior Alentejano e Beira Baixa, que para além de registar os valores mais baixos em relação aos restantes grupos do território, apresenta também evoluções negativas, principalmente no que toca à população com mais de 65 anos e à densidade populacional. Estas variáveis, ao longo dos anos sofreram uma diminuição significativa, relativamente aos restantes grupos. À semelhança do grupo 4, o grupo 1 também foi diminuindo a densidade populacional, porém, não tão significativa. Figura 22 - Diagrama de Extremos e Quartis dos Grupos por NUTS III, com semelhante vulnerabilidade social da taxa de variação da População Idosa em 2018 Fonte: NUTS III, INE, PORDATA, GNR, 2001/2018 56 De uma forma resumida, podemos dizer que, como resultado do ‘ Grouping Analysis’, obtivemos 4 grupos: o grupo 1 corresponde às NUTS do Interior Norte e Centro, o Médio Tejo e o Alentejo Litoral, o grupo 2 integra as regiões das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto bem como o conjunto de regiões que circundam a AMP, o grupo 3 é composto pela região do Alto Minho, Região de Leiria, Oeste, Lezíria do Tejo e Algarve e por fim o grupo 4 que incorpora as regiões do Interior Alentejano e Beira Baixa. A partir da análise do diagrama de extremos é possível verifica que existem duas linhas em forma de espelho, que correspondem a comportamentos antagónicos de dois grupos, o 2 e o 4, com posições extremadas relativamente às taxas de variação dos indicadores. Os outros dois grupos (1 e 3) reúnem as NUT com comportamentos mais intermédios. Assim, o grupo 2 é o que mais se destaca por apresentar valores mais elevados no que toca à média das variações (2001 -2018) dos vários indicadores, este grupo engloba as regiões mais dinâmicas do país, as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e as regiões vizinhas da AMP, também elas áreas com quantitativos populacionais importantes e dinamismo económico acentuado. Estas são as áreas que concentram mais população (densidades populacionais elevadas com ligeira tendência para diminuir) mais equipamentos e mais serviços, mas não estão imunes ao processo de envelhecimento que o país tem sofrido, como tal, é o grupo que apresenta taxas de variação mais elevadas, sobretudo, no índice de envelhecimento e no índice de dependência dos idosos (fig 22). 57 Figura 23Taxa de Variação da vulnerabilidade da População Envelhecida dos grupos por NUTS III O grupo 4, reúne as regiões do Interior Alentejano e Beira Baixa, uma área que engloba territórios de baixa densidade, muito envelhecidos e com um índice de dinamismo muito baixo, continua a perder população e apresenta uma situação tão grave e sensível que as taxas de variação dos indicadores selecionados são pouco significativas. No que diz respeito ao grupo 1, que integra essencialmente as regiões do interior, Norte e Centro, Médio Tejo e Alentejo Litoral, apresenta um comportamento intermédio relativamente aos indicadores selecionados: têm vindo a perder população mas tem aumentado a população com 65 ou mais anos e apresenta variações mais significativas nos índices de envelhecimento e de dependência, ou seja, temos um grupo de regiões que apresenta problemas que decorrem de alguma estagnação e que resultam sobretudo da proporção dos idosos relativamente ao total da população e à população ativa. O grupo 3 que integra essencialmente as regiões litorais entre Lisboa e Coimbra, a que se juntam o Médio Tejo, Alto Minho e Algarve, é um grupo que integra um conjunto de regiões que ganharam alguma população. Aumentou o número de idosos, mas como também aumentou a população, 58 não apresenta taxas de variação muito elevadas relativamente ao aumento dos índices de envelhecimento ou de dependência dos idosos. É, no entanto, o grupo que apresenta a maior taxa de variação de óbitos na população com 65 anos e mais. 59 3. RISCO DA POPULAÇÃO IDOSA (EXCESSO DE ÓBITOS) ASSOCIADO ÀS ONDAS DE CALOR NO VERÃO EM PORTUGAL CONTINENTAL NO PERÍODO 2010-2019 O risco da população idosa (>65 anos) perante os eventos de calor extremo foi avaliado a partir da estimativa do excesso de mortalidade, em cada um dos meses de verão, relativamente aos óbitos registados num período análogo em que não se observou a ocorrência de ondas de calor, adotando assim uma metodologia semelhante à utilizada para o cálculo do índice-ÍCARO. Os dados do INE sobre os óbitos por causa de morte, por NUTS III, só estão disponíveis para o período de 2010 a 2019 (à data da realização deste estudo), pelo que esta avaliação apenas se refere à última década. Acresce ainda que as causas de morte investigadas foram as doenças dos aparelhos circulatório, respiratório e digestivo, doenças cerebrovasculares e diabetes (Diabetes Mellitus), que de acordo com a revisão teórica são as que ocasionam mais mortes em caso de onda de calor (para além do golpe de calor, para o qual não há dados disponíveis). Como se viu anteriormente, durante a década de 2010, nos anos de 2011, 2012 e 2019 não ocorreram ondas de calor (Tabela 3). Assim sendo, calculou-se a média dos óbitos nestes 3 anos, por causa de morte, em relação aos homens e às mulheres, para os meses de junho, julho e agosto, de forma a obter 3 valores mensais de referência para cada NUTS III, relativamente aos quais se avaliou o excesso de mortalidade. Nesta sequência, calcularam-se os desvios ou anomalias em função destes valores de referência, para os restantes anos do período em análise (ou seja, 2010, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018), subtraindo o valor médio de referência ao número absoluto de mortes em cada mês. As anomalias positivas (valores acima da média) foram tomadas como um excesso de óbitos, que se poderá atribuir à ocorrência de ondas de calor. Os resultados obtidos apresentam-se nas tabelas que se seguem abaixo, em que se realçou não só todos os registos de anomalias positivas como também os valores das anomalias iguais ou superiores 10 – ou seja, um excesso de 10 óbitos ou mais, em relação ao valor de referência. Comparando todas as tabelas, é possível concluir que o excesso de mortalidade plausivelmente atribuível aos eventos de ondas de calor é muito mais significativo no que respeita a causa de morte por doenças do aparelho circulatório. Em seguida, vem a causa de morte por doenças do aparelho respiratório. Todas as outras causas de morte estão associadas a um excesso de óbitos comparativamente menos relevante no conjunto de todos os anos analisados. É possível verificar que no que respeita o excesso de mortalidade por doenças do aparelho 60 circulatório (Tabelas 8 e 9), o sexo feminino é o mais afetado, sendo que o ano de 2010, particularmente no mês de julho, foi o que mais se destacou por registar valores mais elevados de anomalias acima de 10 óbitos. Realça-se que, de 24 a 31 de julho desse mesmo ano, ocorreu uma onda de calor, que afetou todo o território português. Assim, que metade das NUTS III registam anomalias acima de 10, sendo que o Alto Minho e a Área Metropolitana de Lisboa são as que mais se destacam. O mês de julho de 2013 volta novamente a evidenciar-se pelo excesso de óbitos devidos a doenças do aparelho circulatório, tanto no caso dos homens como nas mulheres; no entanto, as mulheres foram o grupo mais atingido. Nesse mês, a região de Trás-osMontes foi a que mais sofreu com a onda de calor registada de 3 a 13 de julho, contudo no caso dos homens, a anomalia registada não é superior a 10, ao contrário do sexo feminino que é de +13 óbitos. Em 2014, o mês de junho foi o que mais se destacou, para além de que foi o único mês com onda de calor nesse ano, sendo que esta se iniciou a 11 e terminou em 17 de junho, atingindo as regiões do Norte, Centro e Alentejo. Desta vez, o excesso de mais de 10 óbitos afetou sobretudo os homens, especialmente nas regiões do Ave, Porto, Viseu e Área Metropolitana Lisboa, onde o excesso de óbitos nas mulheres predominou. Tabela 8 - Excesso de óbitos (anomalias positivas) por doenças do aparelho circulatório, nos homens com >65anos, no período de 2010 a 2019 Fonte: INE, Óbitos por causa de morte no Sexo Masculino (Aparelho Circulatório H >65 anos NUTS III jun jul ago jun jul ago jun jul ago jun jul ago jun jul ago jun jul ago jun jul ago Alto Minho 10,3 19,7 7,3 44,3 Cávado 2,7 9,7 7,3 2,7 3,7 6,3 5,7 0,3 12,7 6,7 1,3 2,7 1,7 1,3 36,7 2,3 8,7 0,3 Ave 13,0 3,0 17,0 17,0 2,0 4,0 3,0 9,0 2,0 A.M.Porto 1,3 15,3 10,3 16,3 6,3 1,3 16,3 0,3 4,0 18,3 15,0 Alto Tâmega 6,3 6,3 3,3 2,3 1,3 1,3 0,3 2,3 3,3 Tâmega e Sousa 3,0 10,0 1,3 4,0 3,3 1,3 2,3 9,3 13,3 1,3 Douro 3,0 5,3 7,0 3,3 1,3 5,3 2,0 6,3 2,3 2,3 6,3 Trás-os-Montes 1,7 3,3 1,3 4,7 3,3 0,3 3,7 0,3 0,3 9,7 5,3 0,3 1,7 5,3 1,3 2,7 5,3 4,3 3,7 6,3 Oeste 5,0 7,3 2,7 1,7 5,7 15,7 12,7 4,7 Região de Aveiro 2,3 2,3 11,7 0,7 2,3 7,3 3,7 -7,3 13,3 7,7 Região de Coimbra 3,7 2,0 7,7 7,0 6,7 5,0 1,3 11,0 13,7 9,7 4,3 Região de Leiria 2,0 0,3 3,0 1,0 7,0 5,3 3,0 1,0 2,3 Viseu Dão Lafões 3,7 7,0 9,7 13,0 11,0 6,7 6,0 7,7 2,0 4,0 2,0 1,0 3,7 4,0 9,0 Beira Baixa 7,7 8,3 6,0 3,7 3,3 0,3 1,0 2,7 0,3 Médio Tejo 0,7 6,0 4,7 1,0 0,3 0,3 2,0 1,3 Beiras e S. Estrela 5,3 4,3 5,0 10,3 6,0 1,3 24,0 3,0 4,3 A.M.Lisboa 5,0 38,7 19,0 13,7 22,0 10,7 11,0 0,7 1,0 1,7 1,0 Alentejo Litoral 10,7 6,0 4,7 9,0 6,7 6,7 1,0 6,7 2,0 1,7 2,7 6,7 10,7 2,7 2,0 1,7 Baixo Alentejo 5,7 0,3 1,3 2,7 2,3 0,7 Lezíria do Tejo 7,7 11,3 7,7 3,3 4,7 11,7 2,7 3,3 11,7 5,7 14,3 Alto Alentejo 2,7 2,3 4,0 5,3 5,0 4,7 13,0 9,0 Alentejo Central 4,3 7,3 4,3 1,3 5,0 2,3 5,3 6,0 7,3 1,0 0,3 8,3 5,0 5,3 1,0 10,3 Algarve 2,3 0,3 7,3 1,0 3,3 0,3 8,0 6,0 3,3 8,0 2017 2018 2010 2013 2014 2015 2016 67 NOTAS CONCLUSIVAS As ondas de calor são fenómenos climáticos extremos, mas recorrentes em Portugal Continental, nos meses de verão (junho julho e agosto). O estudo das temperaturas extremas e ondas de calor, no que respeita à ocorrência, duração e intensidade, tem vindo a ser desenvolvido por diversos investigadores desde há vários anos, em diversas regiões do mundo. O calor extremo provoca sérios impactes ao nível do conforto e da saúde humana, porém não afeta de igual forma toda a população. A sensibilidade a ondas de calor é sobretudo maior no que respeita a população idosa (65 anos ou mais) e infelizmente um desfecho muito comum é o da mortalidade. A principal causa de morte diretamente atribuível ao calor é o golpe de calor, no entanto, a ocorrência de uma onda de calor provoca um aumento da mortalidade por todas as causas, especialmente as doenças do aparelho circulatório, respiratório, cerebrovasculares, digestivo e diabetes. Relativamente à contabilização das ondas de calor em Portugal Continental, registadas de 2003 a 2020, para os meses de verão, verificou-se que na primeira década, a onda de calor ocorrida em julho do ano de 2003 foi a que mais se destacou, tendo-se prolongado por 17 dias e estendido a uma grande parte do território. Na segunda década, o ano de 2013 destacou-se com 4 ondas de calor, que atingiram sobretudo as regiões do Interior Norte e Centro, seguindo-se o mês de agosto do ano de 2018 com uma onda de calor que afetou a totalidade do território continental, à exceção do Litoral Norte. No que respeita a análise espacial deste fenómeno extremo, concluiu-se que o Interior Norte e Centro, especialmente as regiões de Terras de Trás-os-Montes, Beiras e Serra da Estrela e Beira Baixa, se destacam por registarem os números mais elevados de frequência e duração das ondas de calor no período em análise. De um modo geral, as regiões do Interior Norte e Centro viram aumentar o peso dos idosos no conjunto da população residente, no período entre 2001 e 2018, estando atualmente entre as regiões onde se observa maior vulnerabilidade social (isolamento dos idosos) e económica (poder de compra mais baixo). As regiões mais fortemente atingidas pelo envelhecimento da população e o aumento da mortalidade dos idosos entre 2001 e 2018 foram, de um modo geral, as do Litoral Oeste e Sul, com destaque para as Áreas Metropolitanas do Porto e de Lisboa, regiões estas menos atingidas pelas ondas de calor entre 2003 e 2020. O excesso de óbitos por doenças do aparelho circulatório e do aparelho respiratório, em especial nas mulheres idosas, relaciona-se significativamente com os episódios de ondas de calor ocorridos nos anos de 2010 a 2018. No entanto, a relação espacial entre o excesso de óbitos e as regiões 68 mais afetadas por ondas de calor não é evidente, tendo em conta os dados utilizados e os resultados obtidos neste trabalho. Não obstante, as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto surgem como das mais problemáticas ou críticas no território nacional, uma vez que registaram simultaneamente um forte envelhecimento da população e um excesso de óbitos significativo relacionado com as ondas de calor nos períodos em análise. 69 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Adger, W. (2006) “Vulnerability.” Global environmental change . V16.3. pp.268-281. Anderson, B. e Bell, M. (2009) “Weather-Related Mortality – How Heat, Cold and Heat Waves Affect Mortality in the United States.” Epidemiology (Cambridge, Mass.) , V.20.2, pp,205-213. Andrade, H.; Nogueira, H.; Canário, P. (2013) “Utilização da análise multi-níveis para avaliação da vulnerabilidade da população da AML ao calor.” Cadernos de Geografia , nº32, Coimbra, pp.261-267. Bandeira, M., Azevedo, A., Gomes, C., Tomé, L., Mendes, M., Batista, M., Moreira., M. 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Densidade Populacional em Portugal Continental por NUTS III (2011/2011/2018) Fonte: PORDATA, NUTS III 2001/2011/2018 NUTS III 2001 2011 2018 Alto Minho 112,7 110,3 104 Cávado 316,1 329,7 324,4 Ave 293,9 293,3 284,1 Área Metropolitana do Porto 848,9 862,2 845,2 Alto Tâmega 35,7 32,2 29,5 Tâmega e Sousa 236,8 236,5 227,5 Douro 54,6 50,8 47,4 Terras de Trás-os-Montes 22,9 21,2 19,4 Oeste 153 163,4 161,1 Região de Aveiro 215,9 218,6 214,4 Região de Coimbra 108,8 105,9 100,1 Região de Leiria 117,8 120,2 116,2 Viseu Dão Lafões 85,1 82,5 77,8 Beira Baixa 20,4 19,2 17,4 Médio Tejo 76,1 73,8 69,6 Beiras e Serra da Estrela 40,9 37,3 33,7 Área Metropolitana de Lisboa 899,6 941 946,8 Alentejo Litoral 18,8 18,5 17,6 Baixo Alentejo 15,8 14,8 13,6 Lezíria do Tejo 56,4 57,9 55,6 Alto Alentejo 20,8 19,4 17,3 Alentejo Central 23,5 22,5 20,6 Algarve 79,5 89,8 87,8 Densidade Populacional 75 Tabela 20 - População Residente sem Nível de Escolaridade em Portugal Continental por NUTS III (2001/2011) Fonte: INE, NUTS III 2001/2011 NUTS III 2001 2011 Alto Minho 53 588 31 431 Cávado 50 294 31 037 Ave 60 325 36 568 Área Metropolitana do Porto 193 880 117 585 Alto Tâmega 26 825 15 382 Tâmega e Sousa 72 917 44 538 Douro 49 042 27 711 Terras de Trás-os-Montes 30 647 17 557 Oeste 61 046 35 967 Região de Aveiro 51 878 30 690 Região de Coimbra 85 446 48 729 Região de Leiria 54 188 32 747 Viseu Dão Lafões 55 633 31 795 Beira Baixa 24 399 13 420 Médio Tejo 48 872 27 706 Beiras e Serra da Estrela 57818 32 222 Área Metropolitana de Lisboa 271 923 166 351 Alentejo Litoral 24 408 14 952 Baixo Alentejo 33 340 18 896 Lezíria do Tejo 48 085 27 805 Alto Alentejo 30 807 17 744 Alentejo Central 37 365 21 906 Algarve 65 810 41 966 Sem nível de escolaridade 76 Tabela 21 - População Residente com o 1ºciclo do Ensino Básico em Portugal Continental por NUTS III (2001/2011) Fonte: INE, NUTS III, 2001/2011 NUTS III 2001 2011 Alto Minho 64 521 63 325 Cávado 97 888 90 844 Ave 119 635 110 681 Área Metropolitana do Porto 461 283 423 456 Alto Tâmega 30 309 29 520 Tâmega e Sousa 130 531 120 523 Douro 61 932 58 194 Terras de Trás-os-Montes 34 595 33 002 Oeste 92 585 89 221 Região de Aveiro 96 969 89 367 Região de Coimbra 119 867 111 618 Região de Leiria 73 356 70 625 Viseu Dão Lafões 74 664 71 993 Beira Baixa 25 781 24 763 Médio Tejo 67 391 63 887 Beiras e Serra da Estrela 74 925 68 914 Área Metropolitana de Lisboa 572 830 522 618 Alentejo Litoral 26 571 23 240 Baixo Alentejo 35 019 30 585 Lezíria do Tejo 64 349 60 627 Alto Alentejo 33 723 30 369 Alentejo Central 44 662 40 135 Algarve 98 553 94 947 Nível de escolaridade (Básico 1ºCiclo) 83 Tabela 28 - Pensões por Velhice em Portugal Continental por NUTS III (2001/2011/2018) Fonte: PORDATA, NUTS III 2001/2011/2018 NUTS III 2001 2011 2018 Alto Minho 42 687 47 028 47 963 Cávado 44 715 58 471 66 616 Ave 50 003 71 261 80 720 Área Metropolitana do Porto 204 799 299 054 335 121 Alto Tâmega 20 755 21 109 19 635 Tâmega e Sousa 48 147 57 726 62 631 Douro 39 024 39 900 38 350 Terras de Trás-os-Montes 26 763 26 470 24 253 Oeste 55 408 67 256 70 272 Região de Aveiro 50 357 66 704 70 320 Região de Coimbra 81 772 93 287 95 315 Região de Leiria 46 655 55 812 57 637 Viseu Dão Lafões 48 433 54 664 54 321 Beira Baixa 24 195 22 296 20 419 Médio Tejo 47 929 53 150 52 430 Beiras e Serra da Estrela 55 041 57 780 55 058 Área Metropolitana de Lisboa 358 037 491 613 515 775 Alentejo Litoral 21 143 22 328 21 415 Baixo Alentejo 31 845 29 970 27 318 Lezíria do Tejo 44 724 51 535 51 994 Alto Alentejo 31 393 30 479 27 744 Alentejo Central 37 056 38 922 37 165 Algarve 60 995 72 276 76 130 Pensões por Velhice 84 Tabela 29 - Poder de Compra per Capita em Portugal Continental por NUTS III Fonte: PORDATA, NUTS III 2011/2017 NUTS III 2011 2017 Alto Minho 77,6 79,7 Cávado 85,9 89,9 Ave 79,4 84,9 Área Metropolitana do Porto 103,5 104,4 Alto Tâmega 66,5 69,5 Tâmega e Sousa 66,5 73 Douro 74,1 76,1 Terras de Trás-os-Montes 75,9 79,6 Oeste 89,5 89,4 Região de Aveiro 91,3 91,6 Região de Coimbra 93,9 93,7 Região de Leiria 91 92,2 Viseu Dão Lafões 78,4 80 Beira Baixa 82,6 85,4 Médio Tejo 84,5 85,6 Beiras e Serra da Estrela 76,8 78,5 Área Metropolitana de Lisboa 131 124,1 Alentejo Litoral 92,9 92,5 Baixo Alentejo 81,2 85,3 Lezíria do Tejo 91,3 90,7 Alto Alentejo 81,7 85,9 Alentejo Central 89,9 94,4 Algarve 96,7 99,1 Poder de Compra per capita