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A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades. III Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação

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A geoconservação no contexto do Antropoceno: desafios e oportunidades 4 Cofinanciado por Cofinanciado por A geoconservação no contexto do Antropoceno: desafios e oportunidades III Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação 2019 G GG III ELBPGG A terceira edição do Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação, realizado na Universidade do Minho, em Guimarães, Portugal, pretende promover a pesquisa luso-brasileira em torno doPatrimónio Geomorfológico,componente maior do Geopatrimónio, mas abrindo espaço também para a reflexão sobre as outras formas de Geopatrimónio, suas bases conceptuais, estratégias de geoconservação e formas de promoção dos seus valores e potencialidades junto da sociedade. Assim, abrimos espaço à discussão, centrada nos seguintes temas: -Aspetos teóricos noestudo do Património Geomorfológico -Património Geomorfológico e Geoturismo -Património Geomorfológico e os Serviços Geossistémicos -Conflitos do Património Geomorfológico no Antropoceno -Património Geomorfológico e Educação Neste sentido, este livro reúne as contribuições de investigadores dos dois lados do oceano Atlântico, discutindo problemáticas comuns e procurando soluções para o desenvolvimento e a promoção do conhecimento científico em torno do geopatrimónio e da geoconservação e sua promoção. Organizadores: António Vieira Adriano Figueiró Adriano Simon Lúcio Cunha Maria Lígia Cassol-Pinto Valdir Steinke Organizadores: António Vieira Adriano Figueiró Adriano Simon Lúcio Cunha Maria Lígia Cassol-Pinto Valdir Steinke C M Y CM MY CY CMY K K_Atas.pdf 2 25/09/2019 11:12 António Vieira, Adriano Figueiró, Adriano Simon, Lúcio Cunha, Maria Lígia Cassol-Pinto, Valdir Steinke Editores A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades III Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação CEGOT-UMinho Guimarães, 2019 2 Ficha Técnica: Título Editores ISBN Edição Ano de edição Comissão Científica: A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades. III Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação António Vieira, Adriano Figueiró, Adriano Simon, Lígia CassolPinto, Lúcio Cunha, Valdir Steinke 978-989-54317-5-5 CEGOT-UMinho, Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade do Minho 2019 André W. de Borba (UFSM) Adriano Figueiró (UFSM) Adriano Simon (UFPel) Alfonso García de la Vega (UAM) Antônio Carlos de Barros Correa (UFPE) António Bento Gonçalves (UMinho) Antonio José Teixeira Guerra (UFRJ) Antonio Liccardo (UEPG) António Vieira (UMinho) Artur Sá (UTAD) Charlei Aparecido da Silva (UFGD) Claudia Maria Sabóia de Aquino (UFPI) Edson Soares Fialho (UFV) Flávia Lopes Oliveira (UERJ) Francisco Costa (UMinho) Gracieli Trentin (FURG) Isabel Paiva (UC) Jaciele C. Sell (UFSM) Jairo Valdati (UDESC) Jasmine Moreira (UEPG) Juliana Silva (UEM/PR) Juliana Maria Oliveira Silva (URCA) Kátia Leite Mansur (UFRJ) Laryssa Sheydder Lopes (IFMA) Lígia Cassol-Pinto (UEPG) Lilian Bento (UFU) Luca Dimuccio (UC) Lúcio Cunha (UC) Marcelo Martins de Moura Fé (URCA) Márcia Carvalho (UFS) Marcos A. L. do Nascimento (UFRN) 3 Capa Imagem da capa Design da capa Paginação e formatação Maria Luisa Rodrigues (IGOT) Maristela Moresco Mezzomo (UTFPR) Moisés Ortemar Rehbein (UFPEL) Múcio do Amaral Figueiredo (UFSJ) Nadja Costa (UERJ) Paulo Pereira (UMinho) Rafael Albuquerque Xavier (UEPB) Roberto Verdum (UFRGS) Sandro Sidnei V. de Cristo (UFT) Tais Kalil Rodrigues (UFS) Telma Mendes (UFRJ) Thais Baptista da Rocha (UFF) Úrsula Ruchkys de Azevedo (UFMG) Vanda Claudino Sales (UFC) Valdir Steinke (UnB) Venicius Juvencio Mendes (UNIPROJEÇÃO) Vivian Costa (UERJ) Litoral de Natal (Brasil) António Vieira Venícius Juvêncio Mendes, LAGIM-UnB Adriano Luis Heck Simon Ana Cláudia Peixoto José Rocha Trabalho cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e por fundos nacionais através da FCT, no âmbito do projeto UID/GEO 04084/2019 4 Instituições Organizadoras: Apoios: Patrocínios: III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 5 NOTA INTRODUTÓRIA A terceira edição do Encontro Luso-Brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação, realizada na Universidade do Minho, em Guimarães, Portugal, promove a pesquisa luso-brasileira em torno do Património Geomorfológico, componente maior do Geopatrimónio, mas abrindo espaço também para a reflexão sobre as outras formas de Geopatrimónio, suas bases conceptuais, estratégias de geoconservação e formas de promoção dos seus valores e potencialidades junto da sociedade. Esta iniciativa teve a sua primeira edição em Coimbra (Portugal), em maio de 2014, com a organização do CEGOT, tendo a segunda edição do evento decorrido em outubro de 2017, na cidade brasileira de Ponta Grossa (Paraná-BR), com a coordenação da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Esta terceira edição, a decorrer entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro de 2019, é organizada, de novo, pelo Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território, mas na Universidade do Minho (CEGOT-UMinho), aproveitando as naturais parcerias com a Universidade de Coimbra, a Universidade Federal de Santa Maria, a Universidade Federal de Pelotas, a Universidade Estadual de Ponta Grossa e a Universidade de Brasília. Com o objetivo de abrir espaço à discussão das problemáticas abrangidas pelo subtítulo escolhido, “A geoconservação no contexto do Antropoceno: desafios e oportunidades”, propôs-se uma organização dos debates em torno dos seguintes temas: - Aspetos teóricos no estudo do Património Geomorfológico - Património Geomorfológico e Geoturismo - Património Geomorfológico e os Serviços Geossistémicos - Conflitos do Património Geomorfológico no Antropoceno - Património Geomorfológico e Educação Consequentemente, foi possível reunir mais de meia centena de trabalhos neste livro de atas, que sintetiza as contribuições de investigadores dos dois lados do oceano Atlântico, discutindo problemáticas comuns e procurando soluções para o desenvolvimento e a promoção do conhecimento científico em torno do geopatrimónio e da geoconservação e sua promoção. Não podemos deixar de fazer referência e agradecer publicamente às instituições que apoiaram e tornaram possível a realização deste evento e da visita de estudo, nomeadamente a Câmara Municipal de Baião, a III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 6 Câmara Municipal de Guimarães, a HERE, os TUB, o Armazém das Oportunidades, a Associação Geoparque Arouca, a Associação Portuguesa de Geomorfólogos, a União Brasileira de Geomorfologia, o LAGESOLOS, o Grupo Super Bock e a Cátedra UNESCO de “Geoparques, Desenvolvimento Regional Sustentado e Estilos de Vida Saudáveis”. A todos Muito Obrigado! António Vieira Adriano Figueiró Adriano Simon Lúcio Cunha Maria Lígia Cassol-Pinto Valdir Steinke III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 7 TEMA 1: ASPETOS TEÓRICOS NO ESTUDO DO PATRIMÓNIO GEOMORFOLÓGICO III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 8 GEOCONSERVAÇÃO EM MONUMENTOS NATURAIS NO BRASIL 1 Milene Couto1, 2; Carlos Augusto Figueiredo1, 3 ¹ Departamento de Ciências do Ambiente, Instituto de Biociências, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO; 2 [email protected]; 3 [email protected] Resumo O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza do Brasil - SNUC - gerencia as áreas protegidas no país. Entre seus objetivos está “proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural” e entre as 12 categorias de manejo existentes das chamadas Unidades de Conservação - UC -, segundo esta Lei a categoria de Monumento Natural destaca-se pelo seu objetivo de “preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica”. Esta definição depende inevitavelmente das feições geomorfológicas que moldam a paisagem e são componentes indissociáveis das belezas cênicas. Este estudo teve como objetivo evidenciar a relevância da geodiversidade para a conservação da natureza através de um levantamento sobre as unidades de conservação da categoria de monumentos naturais no Brasil. Foram analisados o conceito brasileiro e as peculiaridades da categoria Monumento Natural de modo a contribuir para identificar a forma de conceituação mais apropriada para este tipo de área protegida. A pesquisa foi desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico e teve como principais fontes a Lei dos SNUC (n° 9.985, de 2000), documentos de criação de unidades de conservação, estudos técnicos e planos de manejo dos Monumentos Naturais Brasileiros e sítios institucionais na Internet de órgãos governamentais, especialmente o Cadastro Nacional de Unidades de Conservação - CNUC. São apresentados os conceitos de Monumento Natural no âmbito do Brasil e internacionais encontrados na literatura e órgãos de proteção ao património, nomeadamente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, da UNESCO e IUCN. Foram identificadas 60 unidades desta categoria no Brasil. A criação de Monumentos Naturais apresentou em 76% dos casos, como principal motivação a preservação, conservação ou restauração de aspectos ligados à geodiversidade, por vezes associados à biodiversidade e/ou aspectos culturais. Os objetivos da categoria de Monumento Natural descritos na legislação brasileira não abrangem a diversidade de atributos encontrados nestas unidades de conservação. A maioria destes atributos está relacionada com aspectos geomorfológicos que estruturam a paisagem natural e servem de substrato para os biomas protegidos dando origem à beleza cênica local. Frequentemente, mais de um tipo de feição geomorfológica ou atributo é encontrado em um mesmo Monumento Natural. Os elementos da geodiversidade que compõem os Monumentos Naturais brasileiros são: resquícios paleontológicos (11,9%); maciços (11,5%); cavidades naturais (11,5%); serras (10,4%); inselbergs (8,3%); rios (7,3%); lagoas (2,1%); cânions (3,1%); cachoeiras (2,0%); falésias (2,0%); dunas (2,0%); e ilhas oceânicas (2,0%). Além destes, outros aspectos culturais e de biodiversidade estão presentes. São eles: resquícios arqueológicos (8,2%); espécies endêmicas (6,1%); fatos históricos (4,1%); espécies raras (4,1%); lendas (2,0%); refúgio de espécies (1,0%); e ninhais (1,0%). Os Monumentos Naturais possuem também uma relação direta com a ideia de herança, ao se vincularem a aspectos geomorfológicos e culturais. Aponta-se a possibilidade de revisão do conceito de Monumento Natural na legislação brasileira para aproximar-se do conceito da IUCN que explicita componentes geológicos, culturais ou espirituais e sua associação com a biodiversidade local. Palavras chave: unidade de conservação, geodiversidade, áreas protegidas, categorias de proteção, patrimônio natural. 1 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 15 Tabela II: Proposta de ficha de caracterização do caráter interpretativo Ficha de caracterização interpretativa ambiental baseada nos cinco primeiros Princípios de Tilden (1977) Nome da estratégia:_____________________________ 1 - A estratégia faz alguma menção ou analogia a elementos ou experiências comuns à vida cotidiana? ( ) não / ( ) sim Como?________________________________________________________________ 2 - A estratégia revela a informação através de explicações ou esquemas, utilizando-se de textos ou ilustrações? ( ) não / ( ) sim Como?________________________________________________________________ 3 - A estratégia se utiliza da combinação de outras artes, seja de elementos científicos, históricos, arquitetônicos, cartográfico, culturais, teatrais, música, pinturas, desenhos, fotografias, etc.? ( ) não / ( ) sim Quais?________________________________________________________________ 4 - A estratégia se utiliza de provocações como: questões, curiosidades, suspense, mistério, melodrama, ironia, humor, uso dos sentidos? ( ) não / ( ) sim Como?________________________________________________________________ 5 - A estratégia leva à compreensão da informação dentro de uma escala maior de análise? ( ) não / ( ) sim Como?________________________________________________________________ Fonte: Oliveira (2017), com base em Tilden (1977). Foram identificados seis tipos de estratégias de educação ambiental do PNMNI: visitas guiadas, sala de educação ambiental, plantio de mudas, guia do visitante (folder), painéis (informativos da UC; de percursos; sinalizador das direções dos atrativos; de indicação de atrativos para recreação em rio; de indicação de atrativos III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 16 históricos; de indicação de atrativo para atividade física de aventura; indicadores da fauna; e do Projeto Caminhos Geológicos - DRM-RJ) e banners. Com base na análise da geodiversidade peculiar contemplada em cada uma das estratégias, foi verificado que aquelas voltadas à educação ambiental, no Parque, quatro tipos abrangem a sua geodiversidade: visitas guiadas, sala de educação ambiental, painéis (informativos da UC, de percursos, sinalizador das direções dos atrativos, de indicação de atrativos para recreação em rio, e do Projeto Caminhos Geológicos - DRM-RJ) e banners. Estas, foram classificadas como: Estratégias de Educação Ambiental para Geoconservação, sendo analisadas quanto ao caráter interpretativo, com base nos IIAs. 3. Resultados e discussões 3.1. Análise de estratégias de educação ambiental do PNMNI com base nos IIAs 3.1.1. Visita guiada As visitas guiadas são realizadas pela equipe do PNMNI, com agendamento prévio feito com a administração do Parque, mediante a solicitação de escolas, cursos e universidades, para aulas de campo, ocorrendo também com grupos, em geral, para lazer e conhecimento. A prática consiste na visitação dos atrativos naturais e culturais do Parque, com explicações da história ambiental local, suas espécies nativas e características da geodiversidade peculiar, relacionando com o “Vulcão de Nova Iguaçu”, sendo os principais percursos utilizados: Caminho das Águas, até o sítio Poço do Casarão, e trilhas da Varginha e da Contenda. Utilizam-se dos painéis do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ), além dos outros painéis existentes na UC. O visitante tem acesso também à sede administrativa do Parque, e é permitida recreação em rio, nos poços e quedas d’águas, de locais indicados, podendo haver o plantio de mudas de árvores com a orientação da equipe do Parque. Caracteres interpretativos identificados: a) caráter explicativo – a visita acontece mediante explicações referentes ao Parque, sua história ambiental e diversidade natural e cultural; b) caráter artístico – são utilizados os painéis existentes no Parque ao longo da visita guiada; c) provocativo – é mostrado para os visitantes, como algo curioso e até mesmo misterioso, no sítio geológico-geomorfológico Pedreira São José, a imagem de um rosto talhado pela mineração (Figura 2). É mencionada também a possibilidade da existência de vulcão extinto nos limites do Parque (Figura 3). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 17 d) caráter integral – são verificadas na visita explicações que relacionam o que está sendo apresentado com o contexto histórico, geológico, geomorfológico (Figura 4) e ambiental da área. Figura 2: Sítio geológico/gemorfológico Pedreira São José (rocha sienítica), com recorte ampliado referente ao destaque (retângulo vermelho) de um rosto talhado na rocha, Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2017) Figura 3: Vista do sítio Geológico/Geomorfológico Mirante Centro da Suposta Cratera, Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2018) Figura 4: Sítio Geológico/Geomorfológico Poço do Casarão, Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2016) III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 18 3.1.2 Sala de educação ambiental Na sede administrativa do PNMNI (Figura 5) existe uma sala de educação ambiental, onde são realizadas atividades educativas, palestras e reuniões. Há a presença de cartazes, além de coleções didáticas, com amostras de rochas do Parque. Caracteres interpretativos identificados: a) caráter explicativo – etiquetas explicativas em coleções didáticas; realização de palestras/instruções; cartazes com textos e ilustrações. b) caráter artístico - cartazes com ilustrações; prateleiras confeccionadas com a reutilização de caixas de madeira. c) caráter provocativo – possibilidade de estimular o conhecimento a partir da observação das coleções didáticas. d) caráter integral – informações em etiquetas de algumas espécies da fauna local; informações em cartazes sobre animais em extinção. Figura 5: Sede admistrativa do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2014) 3.1.3 Sistemas de painéis São encontrados no PNMNI diferentes tipos de painéis, sendo indicados, no presente trabalho, como estratégicas de educação ambiental para geoconservação os seguintes: painéis informativos da UC, painéis de percursos, painel sinalizador das direções dos atrativos, painéis de indicação de atrativos para recreação em rio e painéis do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ), por conterem informações da geodiversidade do Parque. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 19 Os painéis informativos da UC estão localizados na entrada oficial do PNMNI (Figura 6) e na Estrada do TatuGamela, vertente norte do Parque (Figura 7). Tais dão informações gerais do Parque com relação ao seu funcionamento, regras de visitação e características naturais, ambientais, históricas e culturais, além do painel localizado na entrada do Parque fazer referência aos valores geológicos, indicando a presença de rochas de origem vulcânica. Figura 6: Entrada oficial do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, Estrada da Cachoeira (foto: 2016) Figura 7: Entrada do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, vertente norte (foto: 2018) É citada ainda a importância geológica do Parque, mencionando-o como Geoparque e com referência à UNESCO, entretanto é importante ressaltar que o PNMNI não faz parte da Rede de Geoparques Mundiais da UNESCO, portanto encontra-se na Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEPCPRM), em Propostas Aprovadas, com o nome: Complexo Vulcânico de Nova Iguaçu, RJ, dentro da tipologia ígnea (Geraldes et al., 2006). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 20 São identificados também na entrada do Parque, ao longo do Caminho das Águas e na sede administrativa, painéis de localizações de percursos: Caminho das Águas, Trilha da Varginha (Figura 8) e Trilha do Pau Pereira, com indicações de atrativos naturais e históricos. Figura 8: Início da Trilha da Varginha – sinalização do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ) (foto: 2014). Na primeira bifurcação, depois da entrada principal do Parque, encontra-se um painel sinalizador das direções dos atrativos. Tal contempla as orientações dos principais percursos e atrativos para lazer e conhecimento, inclusive da geodiversidade do Parque, indicada em dois Caminhos Geológicos (DRM-RJ): I - Caminho das Águas e II - Trilha da Varginha, o que possibilita a visita autoguiada de sítios geológicos/geomorfológicos existentes no Parque (Figura 9). Figura 9: Painel sinalizador das direções dos atrativos, Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2016) III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 21 Ao longo do Caminho das Águas são sinalizados, com painéis, poços e quedas d’água propícios para recreação, com informações gerais dos atrativos e formas de uso. Tais foram identificados no trabalho como: painéis de indicação de atrativos para recreação em rio (Figura 10). Figura 10: Painel com localizações para recreação em rio, Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2016) No que se refere à geodiversidade do PNMNI, o principal meio de informação científica e educativa é o sistema de painéis implementado pelo Projeto Caminhos Geológico (DRM-RJ), que contempla dois percursos no PNMNI denominados Caminhos Geológicos I e II, localizados no Caminho das Águas (com cinco painéis) e na Trilha da Varginha (com seis painéis e mais uma placa sinalizadora no início da trilha) (Figura 8), e um painel com explicação integral da formação do Complexo Vulcânico de Nova Iguaçu, na área da sede administrativa da UC (DRM-RJ, 2019) (Figura 11). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 22 Figura 11: Painel do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ) localizado na área da sede admistrativa do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (foto: 2017) Caracteres interpretativos identificados: Painéis informativos da UC. a) caráter explicativo - está na prestação de informações existentes nos painéis; b) caráter integral – é identificado na relação das características do Parque com os contextos maiores que ele está inserido, tais como: área protegida, atividades vulcânicas antigas, ecossistema da Mata Atlântica e período colonial do século XIX. Painéis de percursos. a) caráter explicativo – é identificado nas informações explicativas nos percursos apresentados nos painéis; b) caráter artístico – está relacionado à utilização de fotografias dos atrativos, design dos percursos (trilhas e caminho) e símbolos de indicadores de graus de dificuldade; c) caráter integral – a estratégia integra as informações dos percursos no contexto ambiental do Parque, localizando elementos e informando principais características da área. Painel sinalizador das direções dos atrativos. a) caráter explicativo – verifica-se mediante a indicação das direções, com utilização de setas, de alguns dos principais atrativos, percursos e sede administrativa do Parque; III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 23 b) caráter integral – é identificado na relação das informações contidas no painel à perspectiva patrimonial, sendo esse o motivo apontado para a proteção da UC. Painéis de indicação de atrativos para recreação em rio. a) caráter explicativo – informam a existência de locais propícios para banho, suas principais características físicas e regras de uso; b) caráter artístico – se utilizam de desenho do percurso e fotos para ilustração e localização dos atrativos; c) caráter integral – integra os atrativos no contexto do Parque, na medida em que são inseridos em um mapa simplificado do percurso (Figura 10). Painéis do Projeto Caminhos Geológicos (DRM-RJ). a) caráter significativo – aparece em analogias a elementos do cotidiano de um indivíduo comum; b) caráter explicativo – revelam através de explicações os elementos e processos da geodiversidade contidos no local; c) caráter artístico – utilizam desenhos esquemáticos, mapas, perfis e fotografias para ilustrarem e exemplificarem as informações geocientíficas interpretadas; d) caráter provocativo - foi identificado, principalmente, no painel instalado na sede administrativa (Figura 11), onde são feitas perguntas relacionadas ao processo de vulcanismo, informando sobre a geodiversidade peculiar do Parque; e) caráter integral - a integralidade está nos painéis que contextualizam o exemplo da geodiversidade interpretada com os processos físicos endógenos e exógenos transformadores da Terra, como também o caráter integral se encontra na localização dos sítios em mapas geológicos. 3.1.4 Banners Na área da sede administrativa do Parque são encontrados banners com informações a respeito do patrimônio natural e cultural da UC, inclusive de sua geodiversidade indicando a presença de remanescentes de atividades vulcânicas de aproximadamente 60 milhões de anos. Caracteres interpretativos identificados: a) caráter significativo – acontece em analogias a elementos da vida cotidiana. b) caráter explicativo – está relacionado à indicação dos patrimônios, valores e usos da área protegida; c) caráter artístico – são ilustrados com fotos de elementos da diversidade natural e cultural do Parque, como também das suas principais atividades e atrativos; III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 24 d) caráter integral – contextualiza a UC dentro de uma esfera maior de sentido ambiental patrimonial, relacionando com o Complexo vulcânico de Nova Iguaçu, o bioma da Mata Atlântica e a conjuntura histórica colonial do século XIX. 3.2 Análise conjunta das estratégias de educação ambiental do PNMNI com base nos IIAs Analisando as Estratégias de Educação Ambiental para Geoconservação do PNMNI, de forma conjunta, e à luz dos “Princípios de Tilden” (1977), para a interpretação do patrimônio, verificou-se que o caráter Explicativo, ou seja, que se refere à revelação de um conhecimento com base em informações, foi encontrado em todas as estratégias analisadas. As estratégias são enriquecidas também pelo caráter Artístico, por intermédio da utilização de ilustrações esquemáticas, mapas simplificados e fotografias, não ocorrendo apenas a utilização do caráter Artístico nos painéis informativos da UC e no painel sinalizador das direções dos atrativos, esses painéis não integram outras artes no recurso, além dos designs das placas, ou seja, não utilizam elementos artísticos. A utilização de artes ilustrativas como figuras, por exemplo, é importante para diversificar a interpretação, em particular a geocientífica, tornando-a mais acessível, inclusive diante da possível existência de visitantes não alfabetizados ou com carências em conhecimentos prévios específicos no tema interpretado. Entretanto, Morales (2001) ressalta que os gráficos e ilustrações não são um fim, mas um dos meios que podem transmitir a mensagem. O Caráter Provocativo foi identificado em estratégia implementada pelo Projeto Caminhos Geológicos (DRMRJ), a exemplo do painel instalado na sede administrativa do Parque (Ghizi de Mello et al., 2009; DRM-RJ, 2019) (Figura 11). Nesse painel são feitas questões relacionadas ao conhecimento do visitante com relação aos processos vulcânicos, identificando o PNMNI como um dos locais que agrega essa especificidade e no Painel “Feições Misteriosas do Poço do Casarão”, onde são apontadas feições geológicas de difícil explicação (Geraldes, M. C. et al., 2009). Foi percebido também o Caráter Provocativo na estratégia Visita Guiada, no momento em que é mostrado, como algo curioso e até mesmo misterioso, no sítio geológico-geomorfológico Pedreira São José: um rosto talhado na pedreira pela mineração. No que se referem às estratégias interpretativas das Geociências, estas podem funcionar como importantes provocadoras de pensamentos a respeito das configurações geológicas e geomorfológicas da área, uma vez que, em muitos casos, são difíceis de serem compreendidas devido à complexidade dos processos e elementos envolvidos. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 31 Figura 1: Localização da área de estudo. A área de estudo está inserida na Província Hidrogeológica Brasileira denominada de Escudo Central. É caracterizada de acordo com a geologia regional que abrange a Faixa de Dobramentos Brasília. Na parte das Faixas Paraguai e Araguaia e parte do Cráton da Amazônico, aparecem rochas dos grupos Canastra e Paranoá, de idade Meso/Neoproterozóico (Figura 2) (Moraes & Campos, 2008). O grupo Canastra situa-se de forma restrita na área de estudo, apenas ao sul da Lagoa Bonita, apresentando dois tipos de rochas: clorita-fengita-quartzo filito e quartzito micáceos. Já o Grupo Paranoá são encontrados os seguintes conjuntos geológicos: na Unidade R3 está o metarritmito arenoso, situado ao extremo leste da área, representado por intercalações de camadas de rochas arenosas e de materiais argilosos (alternância de quartzitos muito finos e metapelitos); já na Unidade Q3, o quartzito médio corresponde a uma faixa de direção nordeste situada na porção leste da área, representados por quartzitos brancos e ocres, silicificados, maciços, fraturados e com granulação fina a média; a Unidade R4 possui metarritmito argiloso que ocorrem na área central da Estação Ecológica e é representada por intercalações regulares de material arenoso fino e material argilo-siltoso; e a Unidade PPC tem o pasmo-pelito-carbonatada, localizado na porção oeste e nas adjacências da Lagoa Bonita é composto por natureza distinta, o que inclui material síltico-argiloso (lamas), material arenoso e material carbonático (rico em calcita e dolomita) (Moraes & Campos, 2008) III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 32 Figura 2: Geologia da área da Estação Ecológica de Águas Emendadas. As linhas pontilhadas indicam que se trata de contatos geológicos encobertos ou inferidos, devido à espessa cobertura de regolitos presentes na região e ausência de informações de subsuperfície (fundações de obras, poços tubulares, cortes de taludes, etc.). FONTE: Adaptado de Moraes & Campos (2008). Segundo Moraes & Campos (2008), as rochas encontradas na região da Estação Ecológica foram formadas em ambientes marinhos de água rasa e as condições de metamorfismo são de baixo grau, o que indica que o aumento da pressão e temperatura foram restritos e o soterramento e as compressões exercidas sobre as rochas foram de baixa magnitude. Todo o substrato rochoso da área sofreu deformação relacionada ao evento compressivo chamado de Ciclo Orogenético Brasiliano (entre 600 e 700 milhões de anos atrás) e o seu estágio final se deu quando o conjunto foi soerguido e submetido a erosão. Este evento foi marcado pelo desenvolvimento dos processos que resultam na formação da paisagem atualmente observada, ou seja, a nascente (em uma vereda), que dá origem a duas das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras, do rio Tocantins-Araguaia e do rio Paraná. À vista disso, somando o trajeto das águas superficiais geradas na Estação, a vereda contribui para uma extensão territorial de 5450 km que percorrem quatro diferentes países, representando, por conseguinte, uma singularidade marcante desta área (Carvalho, 2008; Moraes & Campos, 2008). Para Nascimento (2008), a melhor proposta de compartimentação geomorfológica em escala de detalhe do Distrito Federal que representa a área de estudo foi elaborada por Martins & Baptista (1998), no qual foi identificado cinco compartimentos: Chapadas Elevadas, Rebordos, Escarpas, Planos Intermediários e o Vale III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 33 da Vereda. O relevo da ESECAE possui um controle lito-estrutural evidenciado pela disposição espacial dos compartimentos geomorfológicos, dos lineamentos de drenagem, da assimetria de formas de vale e da ruptura de declive; compreendendo o flanco oeste do domo estrutural do Pipiripau, formado por rochas do grupo Paranoá, que apresentam mergulho com direção NW. A área de estudo possui canais de drenagem principais que seguem linhas de fraqueza (falhas e fraturas) e possuem direção NE ou NW (Nascimento, 2008). 3. Metodologia A identificação, catalogação e avaliação dos locais de interesse ao geopatrimônio é uma tarefa complexa que se situa entre a análise científica e a avaliação do patrimônio histórico, artístico ou cultural, implicando na necessidade de combinar critérios, abordagens e contextos culturais disciplinares muito diferentes (Bruschi & Cendero, 2005). A subjetividade desempenha um papel importante nos procedimentos de avaliação e metodologias de seleção (Bruschi & Cendero, 2005; Reynard, 2009), fazendo uma combinação de critérios científicos com outros critérios relacionados a valores intangíveis mais comumente associados a objetos artísticos ou históricos, incluindo valores, como a qualidade do patrimônio natural, interesse cultural ou educacional, potencial de turismo e recreação ou necessidade de proteção (Grandgirard, 1997; Panizza, 2001; Reynard et al., 2007; Coratza & Giusti, 2005; Panizza e Piacente, 2005). Não há um método universal de escolha e classificação definido para ao geopatrimônio, sendo que várias iniciativas levaram a uma reflexão sobre as metodologias em questão e têm em comum o objetivo de valorizar as características patrimoniais das formas (locais de interesse), que são traduzidos por diferentes tipos de valores. Geralmente é aceito o valor científico como o valor essencial, incluindo, portanto, três grupos de subcritérios: a consciência, a representatividade e a integridade, além de complementar com o quarto critério, a diversidade (Grandgirard, 1997; Brilha, 2005; Coratza & Giusti, 2005). Dessa maneira, a escolha dos critérios para uso na avaliação é o ponto crucial da pesquisa e a maioria dos critérios propostos por diferentes pesquisadores revelam um consenso nas características a serem valorizadas, ou seja, o valor científico/didático/educativo, o valor ecológico, o valor cultural, o valor estético, o valor econômico e o valor funcional. Os critérios de valores adicionais são geralmente menos precisos dependendo da sensibilidade do avaliador, mas eles são essenciais para uma avaliação completa. Em termos de gestão, temos como critérios mais usuais: a acessibilidade, a visibilidade e a vulnerabilidade para medir a necessidade de proteção. Outros critérios úteis para avaliar o potencial de uso e a necessidade de proteção incluem: a proximidade de instalações e serviços e a relação com o planejamento ou limite de mudanças aceitáveis (Bruschi e Cendrero, 2005; Serrano & González-Trueba, 2005; Reynard, 2009; Pereira & Pereira, 2010). Simić et al. (2014) propôs um modelo teórico para a identificação de sítios patrimoniais hidrológicos, ou seja, hidrossítios. Este modelo é formado por critérios fundamentais e complexos, bem como o critério de raridade e determinação em ranking, baseado em valores de um fenômeno, utilizando simultaneamente métodos analíticos e sintéticos, que, em certas fases do processo, se misturam e se complementam. Considerando que III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 34 estudos para a inventariação e avaliação específica do patrimônio hidrológico não foram elaborados, este modelo teórico se baseia no método comparativo através do estudo dos modelos de avaliação e seleção que já foram descritos dos estudos de patrimônio geológico e geomorfológico (Simić et al., 2014). Essa metodologia inicialmente parte da análise das características essenciais da água e sua dinâmica, dividindoa em três grupos de acordo com a sua estética, valor natural e sociocultural. Simić et al. (2014) defende que essas características podem ser descritas e avaliadas a partir de seis critérios fundamentais, sendo eles: o científico; o ecológico; o educacional; a estética; o sociocultural; e o valor como recursos ou valor funcional, sendo este valor que desempenha um papel primordial, uma vez que avalia a água como um reservatório de água potável, bem como um local para atividades de turismo e recreação (Figura 3). Este método é semiquantitativo e descreve a dinâmica hidrológica/fluvial com valores universais, estabelecendo um ranking de significados para a escala de valores proposto, determinando, assim, o potencial quantitativo do valor e definindo o valor complexo. Este valor complexo é definido por critérios indiretos e derivados (por exemplo o habitat, modelo, e etc.) que desempenham um papel importante na avaliação do potencial hidrológico, podendo ser unicamente dominante ou um conjunto de valores dominantes (como neste caso). De acordo com esse método, o critério de raridade (raridade natural, singular, extraordinária) é aplicado, é um critério independente que se relacionado a um grande número de critérios indiretos como demonstrado na figura 03, e sendo um critério essencial e de monitoramento, tornando-se assim a principal diretriz para avaliar um local com potencial hidrológico (Simić et al., 2014). Simić et al. (2014) propõe ainda utilizar subcritérios universalmente reconhecidos para avaliar a raridade como: escassez, diversidade, originalidade, independência dentro de uma área mais próxima, funcionando em comparação com outros locais localizados na área de referência escolhida. Para tanto, foi realizado um levantamento bibliográfico a fim de dar suporte teórico à discussão sobre geopatrimônio, patrimônio hidrológico, hidrogeomorfologia e modelos de avaliação e feito levantamento da área de estudo que foi pautado no livro publicado em 2008 sobre a ESECAE. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 35 Figura 3: Fluxograma metodológico mostrando os critérios usados para selecionar um local de patrimônio hidrológico. Fonte: Modificado de SIMIĆ et al. (2014). 4. Análise Hidrogeomorfológica da Estação Ecológica de Águas Emendadas A Estação Ecológica Águas Emendadas (ESECAE) trata-se de uma área típica de Cerrado, e, segundo Munhoz & Ribeiro (2008), as veredas — áreas em que o lençol freático fica próximo à superfície durante o ano todo — apresentam destaque por causa do seu tamanho, da grande quantidade de nascentes, da sua importância ecológica e beleza cênica. Na área de estudo, encontram-se seis veredas e o lençol freático propicia uma lâmina permanente de água sobre a superfície do solo, devido a baixa declividade do terreno e as características físicohídricas dos solos. A Vereda Grande, a maior entre as seis, está estrategicamente localizada na nascente de duas grandes bacias hidrográficas e é divisora de águas destas mesmas bacias. Estas bacias atravessam uma única vereda de 6 km de extensão e o fundo do vale varia entre 100 a 300 m de profundidade (Figura 4). Nesta vereda, são formados dois córregos: o Córrego Brejinho, que deságua no rio São Bartolomeu, tributário da Bacia do Paraná, e o Córrego Vereda Grande, nascente do Rio Maranhão, tributário da Bacia do Tocantins-Araguaia (Lima & Silva, 2008). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 36 A área representa um exutório natural de águas oriundas de aquíferos rasos e profundos. Eles são representados pelos domínios intergranular e fraturado, localizado na unidade geológica dos metarritmitos argilosos com intercalações de quartzitos e metalamitos, capaz de manter uma lâmina d’água sobre a superfície do solo durante o ano todo. Estas características geológicas, em conjunto com a baixa declividade do terreno e as características físico-hídricas dos solos hidromórficos, fazem desta área um reservatório de regularização das vazões dos córregos Brejinho e Vereda Grande, abastecidos lentamente e regularmente com suas vazões máximas reduzidas e vazões mínimas, aumentadas. (Campos, 2008; Lima & Silva, 2008) A principal feição local mapeada na área de estudo é uma falha geológica linear de direção NNE-SSW. Conforme o autor, esta falha atravessa a Vereda Grande controlando a drenagem local, evidenciando que, a partir do alagadiço central, a água corre por uma extensa linha de buritis que formam o córrego Vereda Grande. Em direção oposta, parte desse alagadiço central, por meio de um pequeno dreno por entre a vegetação brejosa, caracteriza a formação do córrego Brejinho, sendo esta vereda formada por pequenas poças. Este torna-se o elo das duas bacias hidrográficas Tocantins-Araguaia e Paraná. A junção dessas duas bacias é bastante efêmera, apresentando uma permanência de aproximadamente 15 dias. Após esse período, a água retrai progressivamente nas duas vertentes, sendo encontradas poças alagadas apenas nas proximidades da linha imaginária do marco simbólico da divisa das bacias. (Ribeiro et al., 2008) Para Nascimento (2008), a Vereda Grande encontra-se, geomorfologicamente, localizada no Vale da Vereda, entre o limite inferior dos Rebordos Suaves e do limite leste dos Planos Intermediários. Suas altitudes variam entre 1032 m a aproximadamente 1025 m, onde a drenagem se concentra e se canaliza, devido ao controle estrutural, em um vale encaixado assimétrico, no sentido do Córrego Vereda Grande ao norte (N) e, em um vale encaixado simétrico, a drenagem corre no sentido do Córrego Brejinho sudeste (SE). Por conseguinte, o Vale da Vereda se comporta como um divisor de águas de fluxos opostos que tende, por processo de erosão regressiva, chegar ao fenômeno de captura de drenagem. Figura 4: Vista da Vereda Grande, com vegetação típica e buritis. Fonte: Karen Aparecida de Oliveira III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 37 Munhoz & Ribeiro (2008) destacam ainda que esta vereda é plana e brejosa, fazendo limite com cerrado stricto sensu em suas duas bordas. Na borda norte da vereda, próximo ao marco simbólico do divisor de águas, há uma faixa com vegetação em solo hidromórfico drenado com presença de algumas espécies arbóreas do Cerrado, como: pequi, pau-santo, barbatimão e laranjinha-do-cerrado, estando em meio a indivíduos arbustivos espaçados e densas touceiras de capim rabo-de-burro. Onde o solo é alagado, há a formação de campo limpo úmido alagado com muitas palmeiras Buriti em diferentes idades e espécies herbáceas típicas de áreas úmidas, sendo: capim arrozinho, amarelão, capim colchão, ruibarbo, entre outras. Ainda junto aos Buritis, ocorre uma pequena aglomeração de indivíduos arbóreos, formando moitas com a presença de espécies lenhosas de mata de galeria inundável. Os autores supracitados destacam a Vereda da Lagoa Bonita, que se encontra às margens da Lagoa Bonita, maior lagoa natural do Distrito Federal. Esta vereda possui aproximadamente 620 m de comprimento e de 10 a 80 m de largura, apresentando uma faixa de buritis não inundada pela Lagoa, onde o solo é hidromórfico. Ela faz limite com a mata seca ao sul, com o cerrado stricto sensu contíguo a uma estreita faixa de campo limpo úmido ao fundo e com a extremidade norte. Cabe destacar que os buritis se encontram em vários estágios de desenvolvimento, estando a maioria crescendo em pequenas ilhotas de terra espalhadas, sujeitas a inundação sazonal, e no espelho d’água da Lagoa em locais de pequena profundidade. As águas superficiais e subterrâneas se interligam transferindo fluxo do aquífero para um curso d’água superficial e vice-versa. Geralmente durante a seca, o fluxo de base fica responsável pela manutenção das vazões dos canais superficiais e da lâmina d’água das lagoas, que é garantido pela água subterrânea, como é o caso da Lagoa Bonita (Figura 5). Figura 5: Vista da Lagoa Bonita, com vegetação típica do cerrado e buritis. Fonte: Karen Aparecida de Oliveira III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 38 Segundo Moraes & Campos (2008), esta lagoa possui uma bacia de contribuição de 18,3 km², com uma lâmina de água de 1,7 km², profundidade média de 1,4 m e volume de 2.423,350 m³, drenada em épocas de chuvas pelo córrego Ribeirão Mestre d’Armas, afluente do rio São Bartolomeu, concebendo, desta maneira, a nascente deste córrego. Para os autores, a entrada de água superficial é restringida a pequenos canais ou nascentes intermitentes situadas ao norte da Lagoa, classificando hidrologicamente a Lagoa Bonita como alimentada por água subterrânea e drenada por água subterrânea e superficial. Quanto ao tipo de aquífero localizados na bacia de contribuição da Lagoa Bonita, Moraes & Campos (2008) ressaltam que ela pertence ao domínio poroso representado por áreas encobertas por latossolos vermelhoamarelado argiloso, podendo apresentar algumas variações locais mais arenosas relacionadas à presença de quartzitos, e cobertas, também, por áreas de cambissolos e gleissolos, com fraturas de direção N30º - 40ºW e N45º - 50ºE, que condicionam suas nascentes, uma vez que estão posicionadas sobre lineamentos nessa direção. De acordo com Munhoz & Ribeiro (2008), existem outras quatro veredas, localizadas nas nascentes de pequenos córregos, são elas: a Vereda do Monteiro, situada na cabeceira do Córrego Monteiro; a Vereda do Córrego Cascarra, localizada na nascente do córrego Cascarra; A Vereda do Cocho, por sua vez, dá vida ao Córrego Cachoeirinha; por último, temos o Córrego Vereda da Serrinha cuja nascente é o Córrego Vereda Grande. A Vereda do Monteiro está situada na cabeceira do Córrego Monteiro — um remanescente de mata de galeria — e sua vegetação é marcada por poucos buritis, no qual solo é tipo glei pouco húmico. Esta vereda sofre alagamento apenas no auge da estação chuvosa e faz divisa com campo limpo de murundus. A Vereda do Córrego Cascarra é peculiar, pois apresenta duas áreas de veredas disjuntas: a primeira localiza-se junto à cabeceira do remanescente de mata de galeria do Cascarra e possui cerca de 570 m de extensão e 45 m de largura, sendo ocupada por uma faixa de buritis próxima à borda da mata e uma outra campestre; a segunda vereda apresenta-se totalmente degradada. A Vereda do Cocho ocorre em uma área de declive e dispõe de uma cabeceira de mata de galeria margeando 600 m de sua extensão, com a presença de uma estreita zona de buritis em solo hidromórfico alagado, onde ocupam, no máximo, 70m de largura. A Vereda da Serrinha está localizada ao norte da Estação, no alto de um morro, cuja nascente corre para o Córrego Vereda Grande, de aproximadamente 150 m de comprimento e 100 m de largura. Esta vereda ocorre em uma área de campo limpo úmido em solo hidromórfico, limitando-se com cerrado stricto sensu e com campo sujo. (Munhoz & Ribeiro, 2008) Quanto às nascentes e os córregos, podemos dizer que todos que se encontram dentro da Estação pertencem ou ao córrego Vereda Grande ou ao córrego Brejinho-Fumal (Figura 6). O córrego Vereda Grande segue para o norte por cerca de 4326 m até a confluência com o córrego Formosa, que é quando se juntam para formar o rio Maranhão. Dentro da estação, ele percorre 3520 m, recebendo quatro pequenos contribuintes em sua margem direita: os córregos Tabatinga, Cachoeirinha, Grota Seca e Serrinha (Ribeiro et al., 2008). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 39 Figura 6: Representação hidrográfica da Estação Ecológica de Águas Emendadas e suas respectivas áreas de drenagem e adjacências. Fonte: Adaptado de Lima & Silva, 2008. O córrego Brejinho corre por aproximadamente 530 m até receber o único afluente da margem esquerda. A partir daí, percorre por mais 2638 m até a confluência com o córrego Cascarra: é quando passa a ser chamado de córrego Fumal, que percorre mais 2252 m até receber as águas do córrego Monteiro. A partir disso, flui por mais 600 metros até a BR-020, antes de sair da Estação (Ribeiro et al., 2008). O córrego Fumal é afluente do Ribeirão Mestre d’Armas, que se junta ao rio Pipiripau para formar o rio São Bartolomeu, tributário do rio Corumbá e afluente do rio Paranaíba, que origina o rio Paraná e integra a Bacia do Rio da Prata. Conforme Ribeiro et al. (2008), a nascente principal do Ribeirão Palmeiras, representada por uma área de brejo, apresenta forte indícios de que, no passado, formava, junto com a cabeceira do córrego Cascarra, uma outra área de Águas Emendadas dentro da ESECAE. 5. Discussão, Caracterização e Avaliação do Patrimônio Hidrogeomorfológico da Estação Ecológica de Águas Emendadas Simić et al. (2014) propõe fazer uma avaliação de cada elemento (aquífero, águas superficiais, etc.) e, em seguida, fazer um ranking. Para este trabalho, optou-se aplicar o método considerando o sistema hidrogeomorfológico como um todo, devido ao fato de que todo o sistema da Estação Ecológica de Águas Emendadas apresenta as suas características e relações constantemente entrelaçadas com todos os seus elementos, podendo, destarte, considerar como um único e complexo sistema hidrogeomorfológico de águasistema. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 40 A análise de cada elemento do sistema hidrogeomorfológico (vereda, lagoa, nascentes e córregos), descritos na figura 03, leva à identificação das características essenciais (estética, natural e sociocultural). Para descrevêlas e avaliá-las, utilizaremos os seis critérios fundamentais, de acordo com o método proposto por Simić et al (2014). Os seis valores universais (UV), são considerados e apresentados também como seis funções, e serão examinados abaixo: 1. Valor: Função Estética (V.U.1) - A área da Estação Ecológica de Águas Emendadas já era conhecida por sua beleza muito antes da construção de Brasília. Em 1857, o geógrafo Visconde de Porto Seguro citou em seus relatórios uma área triangular formada pelas Lagoas Formosa, Feia e Mestre D'Armas, que hoje corresponde a Lagoa Bonita (Alves et al., 2004). Ao chegar à Estação Ecológica de Águas Emendadas, é possível avistar os campos com cerrados e a Lagoa Bonita, podendo ser considerada como uma paisagem cênica. Ou seja, em meio à áreas planas com cerrado, tem-se à vista a Lagoa Bonita. Ao longo da trilha para a Lagoa Bonita, pode-se visualizar o espelho d’água e a vegetação local com buritis e cerrados. Ao marco simbólico da divisa de duas bacias hidrográficas, temos a área da Vereda Grande, e, entrando na mata de galeria, pode-se observar a grande vereda com alguns buritis localizados e, conforme se pisa, a água vai brotando da terra. Em outra trilha, pode-se observar alguns dos córregos que estão dentro da ESECAE, com suas águas puras e cristalinas podendo ver o leito do rio. Além da aparência visual e da paisagem, podemos ressaltar que a área abriga fauna ameaçada de extinção, como a anta, a suçuarana, o tamanduá, o lobo-guará, pássaros entre outros, que depende da sorte podem ser vistos; 2. Valor: Função Educacional (V.U.2) - A ESECAE pode ser considerada, de fato, um laboratório aberto, utilizado para fins educacionais e de pesquisa. Tanto é que as visitas ao local são controladas, reservadas principalmente à educação ambiental e aos estudos científicos. A Estação possui um centro de formação ambiental, onde são desenvolvidas atividades de educação ambiental nas escolas de Planaltina e com moradores da região, além de receber pesquisadores das universidades que desenvolvem pesquisas sobre fauna, flora, hidrologia, monitoramento de impactos, etc; 3. Valor: Função Científica (V.U.3) - A Estação Ecológica de Águas Emendadas possui um valor e função científica muito importante, devido ao acidente geográfico raro. Ela pode ser avaliada por diversos argumentos como genético, hidrológico, geomorfológico, hidrogeológico, fauna e flora, além do ponto de vista da proteção ambiental. Segundo Maia (2008) desde a década de 1980 a ESECAE tem sido alvo de importantes pesquisas que a colocaram entre as áreas de relevante interesse: as chamadas reservas de biosfera ou hotspots, destacando os trabalhos de Maitelli (1987), sobre balanço de energia e evapotranspiração de um cerrado stricto sensu, de Conde (1995), sobre fluxos de vapor de água de um cerrado stricto sensu, de Santos (1995), sobre características aerodinâmicas de uma vegetação de um cerrado stricto sensu na estação chuvosa, de Monteiro (1985), sobre fluxos de CO2 no Cerrado que foi realizada exclusivamente na ESECAE, de Breyer (2001), sobre fluxos de energia, carbono e água em áreas de cerrado stricto sensu, submetidas a diferentes regimes de queima, de Salgado-Labouriau (1997), que desenvolveu estudos de paleoclima do quaternário para as savanas da América do Sul e usou a Estação como o ponto de coleta para a latitude 15° sul, de Rego (1998) e Pinelli III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 47 Para os autores citados, os hidrossítios são identificados como "os locais de interesse patrimonial no domínio da água, que são representativos pela sua condição de exclusividade e representatividade, importância científica, [...] de suporte ecológico, de valor estético, entre outros [...]". Dentre os parâmetros que Brilha et al. (2010) sugerem a ser considerados “no processo de inventariação é a definição da área geográfica de ocorrência e abrangência do objeto”. Na temática da água, independente dos critérios e dos valores superlativos considerados, a área de abrangência e unidade de circulação da água é a sub-bacia hidrográfica, que pode aparecer com ocorrência diversa: nascente, rio e lago quando superficial, ou aquífero quando subterrânea. Os locais de ocorrência e disponibilidade de água variam no tempo e espaço, levando a que a água nem sempre esteja disponível em quantidade adequada aos múltiplos usos. Os critérios de valoração apresentados por Brilha et al. (2010) - “científico, estético, pedagógico, econômico, cultural ou de uso” - para os casos da escassez da água mostram-se sobrevalorizados. Quando o recurso água é o único manancial disponível e potável para o consumo humano e se torna indispensável à vida, não será exagero atribuir o status de património hidrológico, o que obriga a uma ponderação dos critérios de valoração. Em casos de mananciais disponíveis em quantidade para atender os usos múltiplos, recomendamos a inventariação, com necessidade de valor superlativo nas propriedades físicas, químicas e biológicas vinculadas à origem, circulação, e composição diferenciada. A complexidade para selecionar e atribuir valoração no processo de inventariação hidrológica decorre do facto da água ser um elemento dinâmico, que altera suas propriedades e quantidade no tempo e espaço. Pode ocorrer em aquíferos e mananciais superficiais, lênticos e lóticos. Se o geopatrimónio é constituído de elementos raros da geodiversidade geológica, geomorfológica, pedológica e hidrogeológica, o desafio é identificar os critérios que atribuem valor patrimonial a este elemento. Na análise e interpretação da paisagem, podemos identificar os locais de interesse e atribuir valor patrimonial com base em elementos hidrogeológicos como é o caso das nascentes da Serra da Penha. 2. A SERRA DA PENHA: LOCALIZAÇÃO E CARATERIZAÇÃO GEOGRÁFICA O abastecimento de água à cidade de Guimarães é um tema de estudo com bastante relevância, devido à presença dos vários imóveis hidráulicos de grande valor patrimonial que testemunham o abastecimento de água à população ao longo dos tempos. Remontando ao fim da Idade Média, o abastecimento público em Guimarães deve ser visto como uma herança do passado e por isso objeto de estudo e preservação no âmbito do património ligado à água. A aquisição e exploração de águas de nascentes na Serra da Penha para o abastecimento de água a Guimarães datam do final do século XVI (Costa, 2014). A Serra da Penha constitui, indiscutivelmente, o principal reservatório de água da cidade de Guimarães resultado de diversas pesquisas que permitiram identificar as minas que ainda hoje contribuem para o abastecimento público da sua área. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 48 Localizado no Noroeste Português, o concelho de Guimarães pertence, administrativamente, à Região Norte (NUT 4 s II), ao Ave (NUTs III) e ao distrito de Braga (Figura 1). Guimarães é sede de município com 242,85 km² de área e 159.577 habitantes (2011), subdividido em 69 freguesias. A Serra da Penha estende-se por 8 freguesias do sueste do concelho de Guimarães – Costa, Infantas, Mesão Frio, Pinheiro, União das Freguesias de Abação e Gémeos, União das Freguesias de Atães e Rendufe, União das Freguesias de Serzedo e Calvos e Urgeses – cobrindo uma área de 1140 ha (Figura 1). Em termos morfológicos, a Serra da Penha contata com o vale de Atães, a norte, o monte de Santa Marinha a oeste, o vale do Selho a noroeste e Senhora do Monte a sudoeste. Figura 1: Concelho de Guimarães – Localização. A Serra da Penha foi até à década de 1950 do século XX o principal reservatório de água da cidade resultado de diversas pesquisas que permitiram identificar as minas que ainda hoje contribuem para o abastecimento público da sua área (Neves et al., 2007). Na vertente NW da Serra da Penha, encontramos sete conjuntos de 4 Nomenclatura das Unidades Territoriais Estatísticas, elaborada pelo Eurostat com o objetivo de proporcionar uma discriminação única e uniforme das unidades territoriais para a produção das estatísticas regionais da União Europeia. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 49 minas caracterizadas por uma certa homogeneidade no que diz respeito aos aspetos físicos da área de implantação. Distinguimos morfologicamente dois topos mais importantes: o que corresponde à Penha e outro que corresponde à Senhora da Lapinha (Figura 2). O topo da Penha (que atinge a altitude máxima aos 613 m) apresenta uma forma aplanada, orientado no sentido N-S, com cerca de 1,5 km de comprimento e 300 m de largura (Figura 3). O topo da Senhora da Lapinha (com 505 m de altitude) possui uma forma semelhante ao da Penha (aplanado e alongado) e com a mesma direção (N-S) (Oliveira, 2001). Figura 2: Ortofoto em relevo com a identificação da Serra da Penha. Fonte: CMG; IGEOE. Aqui, abundam grandes monólitos de granito, de forma boleada pela intensa erosão (localmente chamados de Penhas; Figura 4). É possível identificar pequenas rechãs e algumas portelas que separam morfologicamente alguns dos topos identificados. Um outro elemento morfológico a considerar são os denominados valeiros, isto é, formas de entalhe relativamente desenvolvidas, podendo degradar pronunciadamente as vertentes (Oliveira, 2001). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 50 Figura 3: Perspetiva aérea da Serra da Penha (pode-se ver o santuário e, ao centro, a estátua de homenagem a Pio IX, no ponto mais alto da serra). Uma das principais características do relevo desta área é a sua amplitude altimétrica (entre os 195 metros e os 613 metros) associada a vertentes moderadamente declivosas sendo que grande parte da área se situa entre os 16 e os 40% (62,05% da área da serra). De uma forma geral, sobressai uma inclinação do terreno que se situa entre os 32 e 40%, o que denuncia uma declividade moderada a elevada e uma exposição do terreno que se manifesta predominantemente no quadrante Oeste (Oliveira, 2001). Os terrenos voltados a Sul, Sudoeste e Sueste representam aproximadamente 35% da área total da Serra da Penha (Oliveira, 2001). A análise do tipo de solos existentes constitui um ponto fundamental, na medida em que a permeabilidade depende das características inerentes a cada variedade pedológica. Atendendo à classificação proposta pela Direção Regional de Agricultura do Entre Douro e Minho, predominam os Regossolos Úmbricos, os Antrossolos Cumúlicos e os Leptossolos Úmbricos. Os Regossolos resultam de materiais não consolidados (excepto materiais de textura grossa ou com propriedades fluviais) que possuem apenas um horizonte de diagnóstico: Horizonte A, úmbrico no caso da Serra da Penha. São os solos mais representados na serra (59%) sobretudo na área que diz respeito ao “núcleo duro” do maciço montanhoso. Os Antrossolos Cumúlicos são também muito comuns na área, representando cerca de 40%. Os Antrossolos são solos sujeitos a modificações profundas dos seus horizontes originais devido às atividades humanas (Oliveira, 2001). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 51 Figura 4: Penhas na Serra da Penha. A serra da Penha é quase totalmente constituída por rochas Eruptivas Plutónicas, patenteando uma variação muito paralela entre a história do relevo e a evolução dos solos. Os Regossolos Úmbricos estão representados nos locais onde predominam os processos erosivos por efeito topográfico. Neste caso, há propensão para o afloramento da rocha que ocorrem, sobretudo, nas áreas de declives mais acentuados e, essencialmente, nos níveis mais altos da Serra, quase sempre associados a afloramentos rochosos. Estes solos têm larga representação no “núcleo duro” do maciço montanhoso, onde é possível encontrar os maiores declives que marcam a transição brusca de diferentes níveis de aplanação. Os Antrossolos Cumúlicos encontram-se sobretudo na base do maciço montanhoso onde predominam as edificações humanas, ou seja, aparecem em áreas de altitudes baixas e declives pouco pronunciados (Oliveira, 2001). A textura é uma das propriedades mais estáveis do solo e apresenta uma grande influência, principalmente na sua capacidade de infiltração. Na Serra, predominam solos com textura ligeira a média que apresentam uma boa retenção de água e de outros nutrientes e com um arejamento regular o que permite a água atravessá-los com relativa facilidade. A permeabilidade elevada dos solos da Serra é vital para a alimentação das nascentes, já que influencia a disponibilidade de água no seu interior. A infiltração e retenção de água no subsolo são desencadeadas por III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 52 uma combinação de fatores que se complementam e interligam entre si e que estão relacionados com condicionantes biogeofísicas (morfologia, clima, geologia, solos e vegetação) do território e que geram o processo de constituição do reservatório de águas subterrâneas (Figura 5). Figura 5: Condicionantes biogeofísicas que geram o processo de constituição do reservatório de águas subterrâneas da Serra da Penha. 3. AS MINAS DA PENHA NOS PRIMÓRDIOS DA EXPLORAÇÃO DA ÁGUA EM GUIMARÃES O abastecimento de água à Guimarães remonta ao fim da Idade Média (século XVI), com a aquisição e exploração de águas de nascentes na serra da Penha. Em 1587, a câmara de Guimarães fez a aquisição de duas nascentes, denominadas da Piolhosa e da Presa do Monte, e introduziu-as no encanamento geral de forma a encaminhá-las até à cidade e abastecer o chafariz do Toural (Guimarães, 1903). Nos séculos XVIII e XIX, novas nascentes continuavam a ser adquiridas e exploradas com a tentativa de aumentar a oferta de águas públicas: - As nascentes oriundas do Sabugal e da rua de Santa Clara (em 1720); - A abertura de uma mina na Penha com 5 nascentes (1764); - A introdução de “…duas pennas d´agua exploradas na serra, das quaes somente uma accresceu ao município (Guimarães, 1903)” (1788); - A construção de uma mina na serra para alimentar um tanque na cidade (1818); - A tentativa da aquisição das nascentes pertencentes ao Convento da Costa, em virtude do decreto de 30 de maio de 1834; III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 53 - A construção de uma mina nova em 1870 no sítio de Villar “…defronte da primeira mãe d´agua…São estas as nascentes adquiridas na serra de Santa Catharina durante o período de que nos ocupamos (Guimarães, 1903)”. Até ao fim do século XIX, não são encontradas outras referências no que diz respeito à aquisição de nascentes para o abastecimento público de águas a Guimarães. Embora a câmara municipal estivesse autorizada a explorar outras nascentes, após a declaração de utilidade pública em Diário de Governo de 1895 para a expropriação de duas parcelas de Terreno na freguesia da Costa, mais nenhum trabalho seria realizado até o início do século XX. Seriam particulares a desenvolver esse esforço localmente destacando-se aqui o papel desempenhado pela Comissão de Melhoramentos da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha 5 . Tendo em conta toda a atividade desenvolvida pela Comissão de Melhoramentos da Penha, podemos destacar os estudos e projetos, a exploração e abertura de minas, as concessões, os trabalhos de melhoramentos das estruturas existentes, como algumas das áreas de maior importância no âmbito do abastecimento de água (Costa et al., 2007). 4. CONDICIONALISMOS FÍSICOS DAS MINAS DE ÁGUA DA SERRA DA PENHA As condições geológicas da região, associadas à elevada precipitação e permeabilidade dos solos, são os principais responsáveis pela ocorrência de numerosas captações de água subterrânea destinadas ao abastecimento público. A Serra constitui indiscutivelmente o principal reservatório de água da cidade onde nasceram, em resultado de diversas pesquisas, uma panóplia de minas que ainda hoje contribuem para o abastecimento público da área envolvente à Serra (Costa, 2014; Costa et al., 2007) (Figura 6). 5 A Irmandade da Nossa Senhora do Carmo da Penha data do ano de 1872 e afirma-se como a primeira instituição social que se dedica ao desenvolvimento da Penha e que até hoje perdura. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 54 Figura 6: Localização dos conjuntos de minas na Serra da Penha. Fonte: Vimágua-Empresa de Água e Saneamento de Guimarães e Vizela EIM SA. Na vertente NW da Serra da Penha encontramos sete conjuntos de minas caracterizados por uma certa homogeneidade no que diz respeito aos aspetos físicos da área de implantação (Quadro 1). Os grupos 1, 4 e 5 são constituídos por cinco minas e localizam-se a uma altitude compreendida entre os 350 e os 550 metros. A uma altitude situada entre os 450 e os 550 metros enquadram-se os grupos 2 e 7 que possuem igualmente quatro minas. Os grupos 3 e 6 são ocupados por três minas localizadas a uma altitude superior a 400 metros. Em termos gerais, pode inferir-se que as minas se situam a uma altitude superior a 350 metros, numa área dominada pelos monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro. Morfologicamente, verificamos que estas captações de água se localizam preferencialmente em valeiros de fundo em “berço” ou, com menor expressão, em vertentes com declives moderados. No que diz respeito à litologia predominam os Regossolos Úmbricos, verificando-se apenas uma exceção referente aos Antrossolos Cumúlicos do grupo 1. De uma forma geral, sobressai uma inclinação do terreno que se situa entre os 32 e 40%, o que denuncia uma declividade moderada a elevada e uma exposição do terreno que se manifesta predominantemente do quadrante Norte. Relativamente ao tipo de ocupação do solo, as minas enquadram-se III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 55 em solo de uso florestal, embora, nas áreas correspondentes a altitudes mais baixas (grupo 1) esta superfície florestal coabita com manchas de uso agrícola (Oliveira, 2001). Quadro 1: Grupo de Minas da Penha e sua caracterização física. 4.1. O Relatório de Paul Choffat (1898) Paul Choffat 6 foi convidado a participar no desenvolvimento de um relatório hidrogeológico sobre o abastecimento de água de Guimarães, de forma a avaliar as potencialidades da Serra da Penha e as necessidades da cidade partindo das formas de interação entre a água e o sistema geológico (Costa e Oliveira, 2012). O documento, denominado Relatorio hydro-geologico sobre o abastecimento d’agua da cidade de Guimarães, divide-se em duas partes: Considerações gerais e Aumento das águas atuais. A primeira parte reúne informações sobre as características naturais (incidindo nas condições meteorológicas, geológicas e pedológicas), as origens das águas que abastecem a cidade e as necessidades atuais e futuras relativas ao consumo urbano. A segunda parte desenvolve generalidades sobre as águas da Serra da Penha, a produção aquífera e as potencialidades da sua exploração. No sentido de contextualizar a cidade de Guimarães na sua envolvente próxima, Choffat faz um enquadramento geográfico onde reúne, de um modo sumário, uma série de aspetos globalizantes relacionados essencialmente com a morfologia e a hidrografia. Choffat refere a conjugação de diferentes fatores para avaliar a quantidade de água durante o período estival: a precipitação, o deslizamento superficial, a evaporação e a espessura do solo (Figura 7). 6 O suíço Paul Choffat (1849-1919) desenvolveu atividade científica em Portugal a convite de Carlos Ribeiro depois de 1878. Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3 Grupo 4 Grupo 5 Grupo 6 Grupo 7 Altitude (m) 350-400 450-500 450-500 350-450 500-550 400-450 450-550 Geologia Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Granitos de Guimarães: Monzogranitos biotíticos, porfiróides, de grão grosseiro Solos Antrossolos Cumúlicos Regossolos Úmbricos Regossolos Úmbricos Regossolos Úmbricos Regossolos Úmbricos Regossolos Úmbricos Regossolos Úmbricos Morfologia Valeiro de fundo em “berço” / Vertente de declive moderado Valeiro de fundo em “berço” Valeiro de fundo em “berço” Valeiro de fundo em “berço” / Vertente de declive moderado Valeiro de fundo em “berço” / Vertente de declive moderado / Rechã Valeiro de fundo em “berço” Valeiro de fundo em “berço” III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 56 Figura 7: Fatores que avaliam a quantidade de água durante o período estival segundo Paul Choffat. Fonte: Costa e Oliveira, 2012. As condições geológicas da região, associadas à elevada precipitação e permeabilidade dos solos, são os principais responsáveis pela ocorrência de numerosas captações de água subterrânea destinadas ao abastecimento público. Na abordagem ao tema da circulação da água no subsolo, Choffat relaciona quatro fatores essenciais: geologia, clima, pedologia e morfologia (Figura 8). Figura 8: Fatores essenciais a circulação das águas subterrâneas da Penha, segundo Choffat. Fonte: Costa & Oliveira (2012). O abastecimento de água, feito essencialmente a partir das fontes, bicas e chafurdos existentes na cidade, era alimentado por nascentes privadas e pelas águas provenientes das minas da Serra da Penha. Na parte do seu estudo sobre as nascentes, Choffat divide as águas da Serra em dois grupos, com os respetivos caudais (Guimarães, 1903): - Grupo Sul (águas nascendo junto às da Câmara): 1 - As águas da Câmara (captadas a NW do alto da Penha) – com um total de águas a pesquisar e já aproveitadas: 120m3; III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 63 Conforme Figueiró et al. (2013), esses são os dois sistemas inter-relacionados que compõem o patrimônio da paisagem: o Biótico e o Abiótico. Segundo os mesmos autores, o Patrimônio Natural Biótico contempla a fauna e a flora, e os seres vivos enfim, e que pelas suas especificidades evolutivas, funcionais, pelo risco de destruição que estão suscetíveis, precisam de proteção. O Patrimônio Natural Abiótico apresenta valores patrimoniais de ordem não biológica (Rodrigues & Fonseca, 2008), possui características peculiares e fundamentais das quais depende a biodiversidade para sobreviver (Pereira et. al., 2004), "representa a base macroestrutural sob a qual se definem e se diferenciam as feições de cada paisagem" (Figueiró et al. 2013, p. 61). Ainda se dá pouco valor ao patrimônio e para a sua preservação, mas se acredita que com o desenvolvimento socioeconômico e a criação/melhoria de legislação específica essa tendência vá se modificando. É o que se observa nos países mais desenvolvidos, a onde o patrimônio é associado a "uma herança colectiva a preservar para passar às gerações vindouras de formas a perpetuar os vestígios directa ou indirectamente ligado à História do Homem e da Sociedade" (Vieira & Cunha, 2004, p. 03). Essa maior predisposição em se preservar a biodiversidade e em ignorar, muitas vezes, a geodiversidade (Rodrigues & Fonseca, 2008) é visível, pois se verifica uma forte discrepância entre a implementação de políticas de geoconservação e aquelas voltadas para a bioconservação (Santos, 2014). O conjunto de patrimônios de um território ou região chama-se Geopatrimônio (Rodrigues & Fonseca, 2008; Santos, 2014). Ele compreende os Patrimônios Geológico, Geomorfológico, Hidrológico, Pedológico, Paisagístico, entre outros (Santos, 2014), representando a Geodiversidade que é o conjunto de elementos abióticos com excepcionais valores patrimoniais de um determinado território/região (Rodrigues & Fonseca, 2008). As áreas que concentram o geopatrimônio são chamadas de Geossítios e Geomorfossítios que são áreas ou sítios de interesse geológico e geomorfológico que devido aos valores que contemplam são alvo de iniciativas e medidas de conservação, chamadas de Geoconservação. Os geossítios permitem visualizar o passado e o presente do planeta e possuem valores especiais e de expressiva raridade, despertando interesse de ordem científica, de pessoas de categorias diversas como, por exemplo, de investigadores, alunos, turistas que terão a oportunidade de entender a gênese, os processos, os fenômenos que promovem a evolução dos lugares (Santos, 2014). Para Claudino-Sales (2018) os geomorfossítios são altamente ricos do ponto de vista natural e cultural e segundo Lopes et al. (2017): Geomorfossítio é, portanto, uma forma de relevo, um depósito ou processo geomorfológico em uma paisagem, que pode ser delimitado em diferentes escalas, ao qual foi atribuído valores (científico, didático, cultural, turístico, dentre outros), em interação com os demais elementos da geodiversidade, assim como os biológicos e culturais, reconhecendo sua excepcionalidade e direcionando-o para a geoconservação (Lopes et al., 2017, p. 54). 2.1. A soberania do Patrimônio Geológico O Patrimônio Geológico é considerado um dos tipos patrimoniais mais antigos da Terra, demonstrando a geologia desse planeta, documentando sua evolução que é evidenciada pelos relevos antigos, contemplando III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 64 objetos e locais com características geológicas que possibilitam a demonstração dessa evolução, portanto se deve garantir sua valorização e preservação (Rodrigues & Fonseca, 2008; Pereira et al., 2004; Santos, 2014). O patrimônio geológico pode agregar, segundo a explicação de Meléndez-Hévia et al. (2017), afloramentos geológicos que permitem identificar acontecimentos importantes ocorridos no passado como impactos de meteoros, variação do nível do mar, extinções massivas, entre outros. Esses fenômenos sempre despertaram a atenção e isso contribuiu para a popularização da Geologia que, devese pontuar, começou bem antes da popularização da Geomorfologia, talvez em decorrência dos avanços nos estudos científicos por parte da primeira estarem mais à frente e graças aos seus aliados midiáticos e tecnológicos (rádio, televisão, internet, entre outros). Hose (2000b) afirma que a ciência geológica teve uma maior divulgação e cita exemplos ocorridos nos anos de 1972 e 1974, quando foram realizados programas televisivos sobre a temática geológica envolvendo as produções da BBC, intituladas The Restless Earth e The Weather Machine. No ano de 1998, realizou-se o programa Earth Story e no ano de 1999 foi realizado o programa Walking with Dinosaurs. Em 1973, ocorreu a primeira exposição permanente sobre Tectonismo chamada de História da Terra, promovendo o surgimento de várias outras exposições. Em 1977, foi inaugurada uma trilha educacional a fim de promover a Geologia, era A Mortimer Forest Geology Trail, Ludlow (Hose, 2000b). Hose (2000b) acrescenta que em 1994, em Gerolstein na Alemanha, foi inaugurada a primeira trilha com foco em turismo e na Grã-Bretanha, já no final da década de 1980, os visitantes puderam acessar o patrimônio e os centros de visitantes focados em Geologia como o National Stone Center e também o Charmouth Heritage Coast. Talvez seja por essa razão que diversos trabalhos são conduzidos enfatizando o Patrimônio Geológico como aquele que abarca exclusivamente os elementos abióticos, ou seja, toda a geodiversidade existente em um sítio, inclusive, os variados tipos de patrimônio que compõem o Geopatrimônio. Essa tendência alimenta a ideia de que o Patrimônio Geológico é soberano sobre os demais tipos patrimoniais, em especial sobre o Geomorfológico. A questão pode ser observada como, por exemplo, na elucidação de Costa-Casais & Alves (2016, p. 231) ao explicar sobre a importância de se estipular estratégias eficientes de avaliação de sítios geológicos, eles ressaltam que os geossítios geomorfológicos, estratigráficos e sedimentológicos são componentes do Patrimônio Geológico. Pereira et al. (2004) confirmam que o Patrimônio Geológico está inserido na componente abiótica e que ele contempla tipos de geótopos e geoformas como os Patrimônios Geomorfológico, Paleontológico, entre outros. Deve-se enfatizar que, na verdade, todos os elementos que possuem valores patrimoniais, ou seja, os patrimônios de um modo geral, são todos componentes do Geopatrimônio. Meléndez-Hévia et al. (2017) pontuam que os elementos geológicos atraem um público cada vez maior e justificam isso citando exemplos de locais como As Cataratas do Iguaçu situadas no Brasil e Argentina, o Parque Nacional Grande Cânion e o Parque Nacional de Yellowstone situados nos Estados Unidos que são importantes locais turísticos, verdadeiros ícones do turismo nacional e internacional. Esses autores III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 65 acrescentam que esse interesse crescente por Geologia teria ocasionado na criação do Geoturismo, sendo este segmento quase sempre ligado à conservação do Patrimônio Geológico. Contudo, Claudino-Sales (2018) pondera: Assim, a nós nos parece que patrimônio geomorfológico não pode ser reduzido à ideia de patrimônio geológico. Processos, escalas espaciais e elos sociais são elementos geográficos, geomorfológicos, que merecem identidade própria. Não é à toa que tais aspectos vêm sendo muito pouco trabalhados na produção científica associada ao geopatrimônio. Não é à toa que ainda pouco falamos de patrimônio geomorfológico e de sítios do patrimônio geomorfológico (os geomorfossítios) nos meios geográfico e geológico mundial (Claudino-Sales, 2018). Deve-se esclarecer que não se compactua com a condução das ideias apresentadas acima, integralmente, sobre o Patrimônio Geomorfológico ser parte integrante do Geológico, pois assim como argumentado por ClaudinoSales e conforme Rodrigues & Fonseca (2008) bem ponderam, acredita-se ser pertinente considerar que embora alguns associem os valores abióticos exclusivamente ao Patrimônio Geológico, não se pode ignorar que tanto a Geomorfologia quanto a Geologia são ciências da Terra independentes entre si, mesmo que a Geologia tenha avançado de uma forma mais expansiva. Reforça-se que a Geologia se ocupa dos relevos antigos obliterados pelos processos de erosão, enquanto que a Geomorfologia se liga ao relevo atual, observado na superfície da Terra. Enquanto a Geomorfologia busca entender a relação da paisagem com um afloramento rochoso, a Geologia busca compreender a relação de um afloramento rochoso com outros ao redor (Rodrigues & Fonseca, 2008). 2.2. A importância do Patrimônio Geomorfológico A geomorfologia, segundo Bosetti (2010), pode ser entendida como uma ciência natural que busca compreender os processos formadores da superfície terrestre, as formas de relevo, buscando descrevê-las, classificá-las e, também, explicá-las, sendo seu campo de estudo a superfície de contato entre a parte sólida (litosfera) e a parte líquida e gasosa. Esses processos que dão forma ao relevo podem ser classificados em endógenos e exógenos. Os endógenos referem-se aos fenômenos que ocorrem internamente, promovendo e causando modificações em decorrência de movimentos como dobramento da parte da crosta terrestre, afundamentos e subidas, resultando na formação de depressões, montanhas, entre outros (Bosetti, 2010). Os Exógenos são os fenômenos de ordem externa que vão desgastando lentamente o resultado produzido pelas forças endógenas, aplainando e nivelando as formas de relevo (Bosetti, 2010), conferindo peculiaridades à paisagem. As paisagens, pelos distintos atributos que podem apresentar os seus componentes, podem compor complexas estruturas que uma vez que possuam valores excepcionais, seja pela sua exuberância, raridade, beleza, entre outros, deverão ser protegidas/conservadas e poderão ser definidas como patrimônio. O Patrimônio Geomorfológico está inserido no Patrimônio Natural, assim como o Patrimônio Hidrológico, o Biológico, o Geológico e outros mais (Vieira, 2007, p. 08). Ele compreende as ocorrências Depósitos III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 66 correlativos referentes à evoluçao do planeta (passado e presente) e as Formas de relevo na superfície da Terra - emersos ou submersos - (Rodrigues & Fonseca, 2008). Podem está dispostos sozinhos, isoladamente ou em conjunto, podem ser pequenas ou grandes, excepcionais, originais e/ou raras (Vieira & Cunha, 2004). Podem apresentar diversos níveis de vulnerabilidade e podem combinar-se na formação da paisagem natural e na antrópica (Vieira & Cunha, 2004). Além de abranger formas de relevo, depósitos correlativos e processos geomorfológicos que dotam a paisagem de peculiaridades, seja por sua "originalidade, raridade e mesmo pela sua capacidade estruturante", é possível atribuir-lhe uma identidade e valores de cunho estético, cultural, ecológico, científico (Vieira, 2002, p. 211). Esses valores patrimoniais totalizados refletirão na promoção desse patrimônio para fins de criação de medidas legais para sua proteção e para o desenvolvimento de atividades educacionais e socioeconômicas (Vieira, 2007, p. 08). É possível destacar diversos argumentos que fomentam a reflexão sobre a importância desse patrimônio. Por exemplo, o patrimônio geomorfológico é importante já que dá embasamento para a realização de diversas atividades humanas (Vieira, 2005) como aquelas voltadas para o “uso tradicional das montanhas para pastoreio ou o uso agrícola de solos enriquecidos por depósitos fluviais e/ou eólico” e também “para atividades de turismo, lazer ou desporto" (Figueiró et al.,2013, p. 65). Para Alves et al. (2018) e Vieira & Cunha (2004) o patrimônio geomorfológico é importante porque possui o valor educativo como recurso pedagógico, contribuindo para a propagação do conhecimento morfológico e ambiental, possibilitando conhecer a história da terra e do homem em si. Seu estudo colabora “para o ordenamento do território, uma vez que é elemento estruturante da paisagem, condicionando por sua vez a vegetação e todos os restantes elementos naturais, sociais e culturais de cada paisagem", estando a leitura da paisagem intimamente ligada à "análise geomorfológica do conjunto das formas de relevo, dos agentes e processos que as geram e fazem evoluir" (Brandão, 2009, p. 18). Ou seja, a análise geomorfológica viabiliza o direcionamento mais eficaz, mais correto, dos projetos de uso e ocupação do solo, a indicação da utilização dos recursos naturais de forma mais equilibrada, bem como a utilização das técnicas e tecnologias mais interessante, do ponto de vista do causar menos impacto negativo ao meio natural (Kelting, 2005). Apesar das argumentações supracitadas que demonstram a essencialidade do Patrimônio Geomorfológico na composição da paisagem, ele tende a ficar em segundo plano. Vieira & Cunha (2004, p. 02) confirmam essa alegação quando dizem que apesar da alta potencialidade de contribuir para o desenvolvimento econômico das regiões e para a conscientização ambiental, é um patrimônio que tende a ser esquecido ou até mesmo "subalternizado face a outras formas patrimoniais". É possível que essa desvalorização esteja ocorrendo devido à baixa exposição nos níveis escolares básico e secundário, no que tange à Geografia Física e à Geologia, o que suscita a necessidade de estratégias que fomentem melhores abordagens do ensino de ciências da Terra no sistema de ensino para fins de conscientização e preservação do Patrimônio Natural (Vieira & Cunha, 2004; Piranha et al., 2011). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 67 Vale ressaltar que antes de propor estratégias de valorização e divulgação do Patrimônio Geomorfológico e antes de pensar o desenvolvimento turístico, deve-se submeter esse patrimônio a um processo de avaliação, cujos passos incluem etapas de inventariação, classificação e sistematização. Kubalíková & Kirchneros (2015) e Reynard (2008) clarificam que tanto a avaliação quanto a análise podem ser instrumentos que fluem para além das questões de proteção ambiental, colaborando, também, para elaboração de propostas de utilização de sítios para o turismo. Reynard (2008) ressalta que a avaliação de geossítios é desenvolvida desde 1990 em três domínios principais: 1 - avaliação do impacto ambiental; 2 - elaboração de conhecimento geográfico sobre Patrimônio Geomorfológico no contexto do ordenamento de território; 3 - promoção do Patrimônio Geomorfológico. Quanto à valorização de áreas geomorfológicas, convém destacar os valores atribuídos ao Patrimônio Geomorfológico que dão embasamento ao processo de conservação da paisagem: o funcional, o cultural, o econômico e o científico-pedagógico (Figueiró et al., 2013). O valor funcional, explicam Figueiró et al. (2013, p. 64), refere-se ao "controle entre forma e função na escala ecossistema", enquanto o valor cultural diz respeito ao "sentido estético da interpretação da paisagem”. O valor econômico refere-se à "exploração direta (o uso tradicional das montanhas para pastoreio ou o uso agrícola de solos enriquecidos por depósitos fluviais e/ou eólicos, por exemplo) quanto do seu uso indireto para atividades de turismo, lazer ou desporto" (Figueiró et al., 2013, p. 65). Vieira & Cunha (2004, p. 07 - 08) acrescentam que o processo de classificação considera critérios e valores que podem ser assim considerados:  Critério 01 - Importância Ciêntífica: 1.1) Valor, corresponde à quantidade de interesse que desperta da comunidade científica; 1.2) Diversidade, diz respeito à multiplicidade de ocorrências geomorfológicas por proximidade física; 1.3) Conservação, refere-se ao estado de conservação, no âmbito da gênese e evolução, sem influência antrópica; 1.4) Datação, identificação de informações paleogeográficas (documentação da história da Terra); 1.5) Raridade/originalidade, trata-se da identificação da unicidade, raridade, originalidade; 1.6) Vulnerabilidade, é sobre possibilidade de riscos ou ameaças.  Critério 2 - Valor educativo: 2.1) Recurso pedagógico, refere-se à capacidade de passar informação sobre processos morfológicos para um grande público; 2.2) Recurso didático, trata-se da utilização do Patrimônio Geomorfológico como instrumento didático; 2.3) Recurso turístico, diz respeito à observação de fenômenos geomorfológicos, em períodos do ano, em percursos pedestres, temáticos, por exemplo.  Critério 3 - Significado cultural: 3.1) Valor ambiental, refere-se aos elementos como propagadores de mensagens conservacionistas e pelo seu "enquadramento dentro de áreas protegidas"; 3.2) Situação sociogeográfica, trata-se de elementos que se localizam em espaços antrópicos; 3.3) Valor histórico, refere-se à ligação de elementos geomorfológicos aos acontecimentos históricos (história, natural e cultural); 3.4) Valor espiritual, trata-se da relação entre formas de relevo e crenças religiosas ou pagãs. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 68 3. Geoturismo e Geopatrimônio O aumento da conscientização sobre a importância dos recursos naturais tem conduzido a uma nova forma de ocupação dos espaços voltados às práticas de lazer e turismo e, também, conduzido à promoção do patrimônio natural. Vieira (2005, p. 161) explica que no âmbito do Patrimônio Natural, essa conscientização tem colaborado para a criação de "espaços naturais" protegidos, cujos elementos além de estarem sujeitos à preservação, podem ser incluídos em propostas de educação ambiental, de esporte e de lazer. Neste contexto, vale destacar o surgimento das diversas modalidades de turismo em meio natural motivado pela busca de paz interior, por estratégia de desenvolvimento socioeconômico, por interesse científico, por alternativas menos degradantes ao meio ambiente, entre outros. O Geoturismo surge, assim, como uma opção para viabilizar essas buscas, já que se trata de um segmento do turismo que possibilita a promoção e a conservação do geopatrimônio, ou seja, de diversos tipos de patrimônios, cujos atributos, características e peculiaridades complementam-se na composição paisagística. Vale trazer alguns conceitos que, embora enfatizem o Patrimônio Geológico como o elemento principal e o mais essencial de um modo geral, trazem importantes contribuições. Segundo Dowling (2011) o geoturismo surge como uma espécie de turismo geológico, cujo enfoque concentrase em geologia e paisagem, formas de relevo, afloramentos rochosos, tipos de rochas, sedimentos, solos, cristais e, também, em processos, tais como: vulcanismo, erosão, glaciação. Segundo esse autor, essa vivência possibilita ao geoturista aprender, apreciar e se engajar em geossítios. Ele vem agregando ao ecoturismo (enfatizado na biodiversidade) os elementos abióticos, por se tratar de atividade apoiada firmemente em turismo geológico, promovendo a conservação do Geopatrimônio, fomentando a criação de medidas de sustentabilidade e, portanto, possibilitando a compreensão geológica por meio da interpretação e da educação (Dowling, 2011). Para Farsani & Coelho (2012), o geoturismo contempla o turismo rural, ele segue os princípios da sustentabilidade e é uma forma de turismo em área natural focada na Geologia e na paisagem. Essa atividade do turismo promove os geossítios e a geoconservação, bem como uma maior compreensão das ciências da Terra, através da apreciação e da aprendizagem (Farsani & Coelho, 2012). Para que haja desenvolvimento desse segmento turístico é necessária, como ressaltam Nascimento et al. (2007, p.07), “a identificação de aspectos geológicos que sejam - ou possam a vir a se tornar – atrações turísticas”. Piranha et al. (2011) acreditam que, no caso específico do Brasil, o desenvolvimento do geoturismo é favorável porque esse país porta uma diversidade natural e cultural admiráveis e isso propicia, inclusive, a criação de geoparques, embora o conceito de Patrimônio Geológico esteja apenas iniciando perante a comunidade geológica. Esses autores acrescentam que é fundamental programas de educação geocientífica para fomentar o desenvolvimento econômicocultural, já que isso favorece o entendimento do sistema Terra e, portanto, da III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 69 preservação do Patrimônio Geológico. Para Moreira (2010), geoturismo é um termo que significa Geologia e Turismo, em vez de Geografia e Turismo e para Meléndez-Hévia et al. (2017) este é um segmento que está mais relacionado ao Patrimônio Geológico. Com exceção ao modo como foi dado ênfase ao Patrimônio Geológico no que tange à abordagem ao conceito de geoturismo, as concepções apresentadas reforçam a credibilidade no potencial desse segmento em promover aspectos geopatrimoniais e propagar o conhecimento científico. Essa credibilidade, pode-se dizer, vem sendo construída a partir das primeiras definições sobre geoturismo. Segundo Hose (2000a), alguns autores apresentam a tendência de correlacionar o termo turismo geológico ao termo geoturismo e isso demonstraria fragilidade investigativa, enquanto que outros autores o confundem com outros tipos de turismo como o turismo geológico, por causa da correlação com o prefixo "Geo" de geoturismo, significando para eles “Geo” de Geologia, em vez de significar “Geo” de Terra (Rodrigues et al., 2011). A discussão que deu origem ao conceito de geoturismo surgiu no final da década de 1980, tendo por base uma pesquisa em desenvolvimento em locais que apresentavam perdas de elementos abióticos, perda de locais de trabalho/pesquisa dotados de valores expressivos, possivelmente por insuficiência de conhecimento sobre Geologia e Geomorfologia ou por pura negligência (Hose, 2000b). Ressalta-se que Thomas Hose foi quem definiu pioneiramente esse segmento, trazendo a ideia, em sentido amplo, de incentivar a conexão entre comunidade, turista e Geopatrimônio e, também, conectando ao Patrimônio Cultural, potencializando, assim, a oferta turística, favorecendo a promoção e o desenvolvimento sustentável das áreas detentoras de riqueza patrimonial (Rodrigues et al., 2011; Hose, 2000a; Hose et al., 2011). A oferta turística pode ser entendida como uma associação de elementos que juntos possibilitam a experiência ou a vivência turística, como explicam Meléndez-Hévia et al. (2017), envolvendo um agregado de atrações turísticas, equipes, infraestrutura e serviços de apoio que viabilizam a realização de atividades. A primeira definição de geoturismo, a princípio, destacava basicamente a necessidade da disponibilização de serviços e processos interpretativos para que os turistas capitassem o conhecimento sobre a Geologia e a Geomorfologia do sítio em visitação e diversos conceitos foram surgindo à luz dessa definição pioneira. Algumas enfatizando bem mais o Patrimônio Geológico como foi apresentado acima e outras enfatizando amplamente o Geopatrimônio. Por exemplo, para Reynard (2008), o geoturismo pode ser entendido como a junção de produtos turísticos, serviços e infra-estruturas desenvolvidas, promovendo o Patrimônio Geológico e o Geomorfológico de modo a integrar outras partes do Partimônio Natural e Cultural, tais quais ecologia, história, arqueologia, agregando-os à base de composição das ofertas geoturísticas e aos geossítios. Ólafsdóttir & Tverijonaite (2019) entendem essa atividade como o conjunto de serviços e produtos que propiciam ao turista a interpretação e a compreensão dos elementos geológicos e geomorfológicos de um sítio, promovendo e divulgando, deste modo, as ciências da Terra. Já Santos (2014) defende que o geoturismo pode ser enquadrado como um segmento do turismo de natureza que ganha notoriedade em meados de 1990 em meio às questões ambientais e possibilita a descoberta e o conhecimento in situ do Geopatrimônio, bem como sua divulgação e valorização. O Geopatrimônio, neste caso o conjunto patrimonial, seria um atrativo turístico III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 70 e boa ferramenta voltada para a conservação e sustentabilidade regional, através da educação e interpretação (Santos, 2014). Nos últimos anos, o conceito de geoturismo foi ressignificado, tornando-se mais abrangente (Hose, 2000a; Hose et al., 2011). A segunda definição, proposta também por Hose, surgiu da reavaliação da primeira, aumentando a sua abrangência: provision of interpretative facilities and services to promote the value and societal benefit of geologic and geomorphologic sites and their materials, and ensure their conservation, for the use of students, tourists and other recreationalists (Hose, 2000b, p.136). Ou seja, para a realização do geoturismo deve estar disponível instalações e serviços que auxiliem o turista na interpretação dos elementos paisagísticos, deve-se promover os benefícios sociais e os valores dos sítios geológicos e, também, dos geomorfológicos, assegurando a sua conservação e assim favorecendo o desenvovimento turístico, a realização de estudos e pesquisas científicas e contemplação paisagística. Neste sentido, é validada a fala de Bento & Rodrigues (2013) quando enfatizam que o geoturismo contribui em três aspectos: 1) educativo por promover o conhecimento, a valorização e a valoração do patrimônio geomorfológico; 2) econômico, pois gera serviços de apoio ao turismo; 3) de conservação, com a sensibilização despertada pela transmissão de conhecimento. Vieira (2002, p. 212) reforça, ainda, o papel do turismo em si como agente promotor e divulgador das potencialidades naturais, geomorfológicas e culturais. No âmbito da interpretação da paisagem, a criação de instrumentos científicos de modo a favorecer a promoção do geopatrimônio é fundamental. Bouzekraoui et al. (2018) citam, por exemplo, que o mapa geoturístico é uma forma funcional de explicar e promover a importância dos geossítios para o público em geral por ele agregar informações geomorfológicas e geológicas, além de turísticas e; as rotas de geoturismo são facilmente acessíveis, podendo aumentar positivamente o número de visitantes e ajudando a geologia e a geomorfologia a obter mais reconhecimento público. Em relação às pessoas que vivenciam o geoturismo, a título de curiosidade, Hose (2000b) informa que eles podem ser chamados de geoturistas que podem ser classificados em dois grupos: os geoturistas dedicados que são aqueles que querem visitar os sítios geológicos e geomorfológicos para fins de expandirem seus conhecimentos e; os geoturistas casuais que são aqueles que desejam visitar os sítios supracitados para fins de lazer, principalmente. Confirmando e reforçando o que foi dito nas falas anteriores, Moura-Fé (2015) destaca que a interpretação da paisagem, pode sensibilizar o turista que será estimulado a desenvolver posturas no sentido de contribuir para a proteção/conservação do patrimônio natural, confirmando a relevância do caráter científico-educacional no que tange ao desenvolvimento econômico da região visitada. De fato, essa concepção está conectada aos objetivos do geoturismo que também preconiza esse caráter educativo e conservacionista, o que pode ser confirmado pela fala de Hose (2000b, p.136): "Further, they indicate that geotourism includes an examination and understanding of the physical basis of geological (and geomorphological) sites”. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 71 Vale enfatizar um ponto sobre a abrangência das palavras conservação e preservação. Preservar remete a impedimento de acesso, interferências e modificações, enquanto conservar vislumbra a possibilidade de mudanças, mas de forma controlada, acompanhando o processo, sendo esse termo o mais adequado para correlacionar ao geoturismo. Hose (2000b) explica que o geoturismo visa o manejo controlado do local do patrimônio, para que o acesso intelectual e físico sejam possibilitados e desse modo se consiga prever possíveis danos a ele. Hose traz uma visão muito interessante de geoconservação. Ele aproveita o objetivo/função do Comitê de Geoconservação na Grã-Bretanha para demonstrar sua percepção. A função/objeito do comitê supracitado visa estimular a promoção da conservação do Patrimônio da Terra (ou seja, do Geopatrimônio), de modo a garantir que ele seja transmitido em condições boas às futuras gerações (Hose, 2000b). E por fim, vale pontuar que Hose (2000b) demonstra uma certa preocupação com a utilização do termo Geoturismo por parte de alguns que tendem a considerar esta atividade como algo que envolve, simplesmente, um passeio a locais geológicos ou algo que proporciona um simples desfrute da herança terrestre, dissociando, inclusive, a proposta deste segmento turístico que também contempla a ideia de geoconservação. Este autor enfatiza que a definição de Geoturismo vai além da contemplação paisagística. 4. Considerações finais Os objetivos deste estudo foram elaborados no sentido de identificar a importância dos Patrimônios Geológicos e Geomorfológicos, se existe uma relação de superioridade entre os diversos tipos patrimoniais e se algum é mais fundamental que outro no desenvolvimento do geoturismo. O estudo dos trabalhos científicos levantados permitiu diversos esclarecimentos, conforme relatado abaixo. Foi possível compreender o significado de Patrimônio e o que ele abarca. Trata-se da perpetuação de um legado/ herança para as futuras gerações, por possuir especificidades que lhe confere valor. Ele pode ser dividido em Patrimônio Cultural e Patrimônio Natural que se classifica em Patrimônio Natural Biótico (biodiversidade) e Patrimônio Natural Abiótico (geodiversidade). O Patrimônio Natural Biótico envolve a fauna, a flora e os seres vivos, enquanto que o Patrimônio Natural Abiótico contempla os elementos abióticos que dão suporte à vida, à sobrevivência da biodiversidade. Foi possível visualizar a preocupação acerca do tratamento que o patrimônio tem recebido, no que tange ao seu valor e sua importância, suscitando a necessidade de legislação específica que favoreça sua preservação/conservação. Acredita-se, assim como abordado por diversos autores, que a propagação do conhecimento científico pode colaborar para a popularização das ciências da Terra e do patrimônio. O conjunto de patrimônios é chamado de Geopatrimônio que compreende diversos tipos patrimoniais como o Geológico, Geomorfológico, Pedológico, Paisagístico, entre outros. Não se detectou nos artigos consultados a valorização de um tipo de patrimônio em detrimento de outro, mas alguns autores demonstraram a tendência em considerar, exclusivamente, os elementos abióticos e outros tipos de patrimônio como parte do Patrimônio Geológico e, também, foi observado discordâncias a respeito disso. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 72 A argumentação dos autores que discordam desse tipo de direcionamento é de que a Geologia e a Geomorfologia devem ser compreendidas como ciências independentes entre si e que o fato da Geologia ter tido maiores avanços nas suas pesquisas e, também, maior popularidade, não lhe confere superioridade sobre os demais domínios do saber. Não se pode afirmar com base nos trabalhos analisados que haja um patrimônio mais importante do que outro na composição das ofertas geoturísticas, embora alguns autores tenham dado uma maior ênfase no Patrimônio Geológico como elemento essencial. Conforme os estudos pioneiros em Geoturismo, esse segmento do turismo é importante por uma série de razões, dentre elas pela promoção do Geopatrimônio, por meio da educação e da interpretação. Logo, o Geopatrimônio é a base dessas ofertas. Neste sentido, o Geoturismo pode contribuir para a popularização de todos os tipos patrimoniais existentes nas regiões que promovem sua realização, valorizando as características específicas de cada um. 5. Bibliografia ALVES, E. R.; HOLANDA, D. M. C.; MARQUES, J. M. R.; LIMA, T. R. S. (2018). Educação patrimonial ambiental e patrimônio geomorfológico na perspectiva do desenvolvimento sustentável. rede - revista eletrônica do PRODEMA, Fortaleza, v. 12, n. 01, p. 74-83. ISSN 1982-5528. 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Towards a european heritage diversity: geosites on the galician coast (nw spain) / hacia una diversidad patrimonial europea: geositios en la costa gallega (nw españa). Portugal: FLUP, LUP, p. 221-236. In: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15452.pdf. CLAUDINO-SALES, V. (2018). Morfopatrimônio, Morfodiversidade: pela afirmação do Patrimônio Geomorfológico Strictu Sensu. Universidade Estadual Vale do Acaraú. Sobral/CE: Revista da Casa da Geografia de Sobral, v. 20, n. 3, p. 3-12. ISSN 2316-8056. DOWLING, R.K. (2011). Geotourism's global growth. geoheritage, v. 3, n. 1, p. 1-13. DOI: doi.org/10.1007/s12371-0100024-7. FARSANI, N. T.; COELHO, C.; COSTA, C. (2012). Geotourism and geoparks as gateways to socio-cultural sustainability in qeshm rural areas, iran. irã: asia pacific journal of tourism research, v. 17, n. 1, p. 30-48. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 79 TEMA 2: PATRIMÓNIO GEOMORFOLÓGICO E GEOTURISMO III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 80 AVALIAÇÃO DE IMPACTOS EM CAVERNAS TURÍSTICAS DO PARQUE ESTADUAL DE TERRA RONCA 8 Vinícius Galvão Zanatto¹; Bárbara Costa Silva²; Wallace Vieira da Silva³; Valdir Steinke 4 ¹Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, GP Territorialidades e Governança Socioambiental na Amazônia, Tefé, Amazonas, (97) 33439700, vini.galvaoza[email protected]m ²Universidade de Brasília, Departamento de Geografia. (61) 992757380, [email protected] ³Universidade de Brasília, Departamento de Geografia. ICC norte, módulo 25; (61) 31077249; [email protected] 4 Universidade de Brasília, Departamento de Geografia. ICC norte, módulo 25; (61) 31077249; [email protected]m Resumo O Parque Estadual de Terra Ronca está localizado nos municípios de São Domingos e Guarani de Goiás. A motivação turística na região está relacionada ao geoturismo, em especial com a visita às cavernas. Os ambientes cársticos possuem uma dinâmica própria o que cria ambientes singulares. Visando a conservação desses ambientes empregam-se ferramentas de diagnóstico ambiental focando nos impactos existentes na área. A pesquisa ocorreu em 4 cavernas do Parque Estadual de Terra Ronca e foi aplicado um protocolo de avaliação de impactos, elaborado por Donato et al (2014), para diagnosticar a situação das cavernas abertas ao turismo no parque, chegando aos seguintes valores de impactos: São Mateus - 21, São Bernardo - 29, Terra Ronca II - 34 e Terra Ronca - 40. A partir do protocolo de avaliação rápida de impactos na caverna Terra Ronca verifica-se que as principais atividades causadoras de impacto são a criação de gado e a visitação desordenada, sendo classificada como vulnerável. Os resultados demonstraram que as cavernas estão em risco e suscetíveis a diversos impactos, sendo necessárias medidas urgentes para a conservação dos ambientes associados a elas. A implementação do plano de manejo, específico para cada caverna, é urgente, visto que esse documento é fundamental para guiar as ações de manejo e monitoramento das cavernas em questão. É importante destacar que além de tais iniciativas é preciso estabelecer programas paralelos de educação e difusão da importância destes geossistemas, propiciando conhecimento da sociedade em geral sobre cavernas e sua conservação. Palavras Chave: geodiversidade, geoturismo, geoconservação, carste. 8 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 81 A CARTOGRAFIA DO PATRIMÔNIO GEOMORFOLÓGICO VOLTADA À INTERPRETAÇÃO GEOTURÍSTICA 9 Adriano Severo Figueiró¹; Maurício Mendes Von Ahn² ¹Avenida Roraima, n. 1000, sala 1132. Santa Maria (RS); (+55) 5532208908; E-mail: [email protected] ²Rua Coronel Alberto Rosa, n. 154, sala 105. Pelotas (RS); (+55) 47996906201; E-mail: [email protected] Resumo A representação cartográfica dos elementos associados ao patrimônio geomorfológico ainda é pouco explorada apesar de relevante, assumindo-se na atualidade como um problema para quem trabalha com a temática da geodiversidade, geoconservação e geoturismo. Atualmente não existe uma metodologia específica para a representação cartográfica de geossítios e geomorfossítios e a sua ausência pode ser explicada pelo fato das pesquisas nesse âmbito serem extremamente recentes, bem como pela ausência de padrões internacionais de mapeamento geomorfológico. Carton et al. (2005) propuseram a distinção entre duas categorias de mapas, dependendo do usuário: mapas para especialistas e mapas para não especialistas. O primeiro grupo pode ser muito útil no planejamento territorial e na sua elaboração são utilizados símbolos geomorfológicos tradicionais, enquanto o segundo grupo consiste em mapas produzidos, sobretudo, para a comunicação do conteúdo científico com o público não especialista. Este trabalho tem como objetivo colaborar com as discussões que envolvem a representação cartográfica dos elementos associados ao patrimônio geomorfológico, a fim de investigar como vem ocorrendo no Brasil a comunicação do conteúdo geocientífico com o público não especialista. Para atender ao objetivo da pesquisa utilizou-se a classificação de mapas geoturísticos para não especialistas proposta pela pesquisadora Géraldine Bissing, da universidade de Lausanne. A autora analisou 51 mapas de oito países europeus e os classificou em 5 diferentes grupos, levando em consideração fatores como escala (pequena e grande), simbologia (símbolos pontuais, símbolos de mapeamento geomorfológico clássico e símbolos figurativos) e quantidade de informações adicionais (poucas ou muitas informações). Com base nesta classificação, foram selecionados 27 mapas geoturísticos oriundos de pesquisas brasileiras, onde buscou-se enquadrá-los dentro da classificação de mapas geoturísticos. Identificou-se que 85% dos mapas geoturísticos elaborados no Brasil são de pequena escala e, consequentemente, apresentam uma falta de informações, o que não permite ao usuário apreciar imediatamente o conteúdo, onde tanto a informação científica quanto a informação turística é insuficiente. Em relação a simbologia, 85% dos mapas são marcados por símbolos pontuais, indicando a localização das informações, e apenas 4% utilizam símbolos geológicos e geomorfológicos tradicionais, o que é um ponto positivo, pois a leitura efetiva desta simbologia técnica se torna complexa para o público não especialista. Os demais 11% utilizam símbolos figurativos, os quais são os mais adequados para fins geoturísticos, uma vez que a informação não foi apenas simplificada, mas sim traduzida para uma linguagem facilmente compreensível pelo público não especialista. No caso dos mapas elaborados no Brasil, constatouse uma particularidade, onde 15 dos 27 mapas analisados fazem uso de fotografias de campo no entorno do layout do mapa, algo que em geral não ocorre nos mapas europeus. Acredita-se que essa seja uma forma que os pesquisares brasileiros tenham encontrado para tornar mais efetiva a comunicação do conteúdo com o público não especialista. Conclui-se que se faz necessária uma cartografia geomorfológica própria à interpretação geoturística, baseada em representações e interesses de grupos e indivíduos, a fim de compreender a sua efetividade na comunicação e difusão do conhecimento sobre o patrimônio geomorfológico com o público não especialista. Palavras-chave: patrimônio geomorfológico; geoconservação; geoturismo; interpretação ambiental; cartografia geomorfológica. 9 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 82 POTENCIALIDADES DO GEOSSÍTIO PAREDÕES DE JANEIRO, PARQUE NACIONAL DE UBAJARA, CEARÁ, BRASIL: A GEOMORFOLOGIA COMO PATRIMÔNIO 10 Suedio Alves Meira1; Marcos Antonio Leite do Nascimento2; Edson Vicente da Silva3 1Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Geografia, +558533669489, [email protected]m 2Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Geologia, +558432153805, ca[email protected] 3Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Geografia, +558533669489, [email protected]m. Resumo O Geossítio Paredões de Janeiro (GPJ), Tianguá (Ceará), reúne algumas das mais espetaculares feições geomorfológicas do Parque Nacional de Ubajara (PNU). Contempla o contato do Glint da Ibiapaba com a Depressão Sertaneja, fendas estruturais e uma cachoeira, porém, apesar do potencial, a área não dispõe de ações diretas de conservação e trabalhos científicos. Nesse contexto, tem-se por objetivo realizar o inventário, a avaliação e propor estratégias de valorização e divulgação para o GPJ. A metodologia adotada compreende etapas de uma estratégia de geoconservação. Parte-se do inventário das potencialidades e vulnerabilidades do geopatrimônio, seguida da avaliação quantitativa segundo a metodologia do GEOSSIT. Por fim, são propostas ações de valorização e divulgação pautadas na geocomunicação e educação/interpretação ambiental. No GPJ foram inventariados dois mirantes (Pedra do Espia e Mirante da Fenda Comprida), quatro fendas estruturais (Fenda da Trilha, Fenda Norte, Fenda do Riacho da Rocha da Rosa e Fenda Comprida) e a Cachoeira do Riacho da Rocha da Rosa. A avaliação quantitativa classificou o GPJ como de relevância nacional, com valor científico de 285, educativo de 305, turístico de 255. Quanto à valorização foram selecionadas a Pedra do Espia e a Fenda Norte para a confecção de painéis interpretativos. Para a divulgação, é proposto um cartão postal e sua inserção em três roteiros geoturísticos. A presente pesquisa demonstra de forma quantitativa e qualitativa os valores científicos, educativos e turísticos do GPJ, erguendo esse espaço enquanto prioritário para a instituição de ações de conservação e educação ambiental no contexto do PNU. Palavras chave: Geopatrimônio, geoconservação, geodiversidade, geoturismo. 10 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 83 OS AREAIS DO SUDOESTE DO RIO GRANDE DO SUL, BRASIL, COMO PATRIMÔNIO GEOMORFOLÓGICO 11 Sidnei Luís Bohn Gass1; Roberto Verdum2; Lucimar de Fátima dos Santos Vieira3; Jean Carlo Gessi Caneppele4; François Laurent5 1Professor da Universidade Federal do Pampa, Campus Itaqui, e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Rua Luis Joaquin de Sá Brito, sn, Promorar, 97650-000, Itaqui, RS, Brasil; +55-55-99904-4676; [email protected]m 2Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Geografia, Programa de Pós-Graduação em Geografia e Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural; Avenida Bento Gonçalves, 9500; 90540-000, Porto Alegre, RS, Brasil; +55-51-99917-5306; [email protected] 3Professora do Departamento Interdisciplinar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; [email protected] 4Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Rua Rodolfo Schlieper 135/06, Canela, RS, Brasil, +55-51-98214-9007; [email protected] 5Professor do Laboratoire Espace Société (ESO) da Le Mans Université, França; [email protected] Resumo Os processos de arenização encontrados no sudoeste do Rio Grande do Sul, Brasil, são um fenômeno único. Localizamse, em relação às unidades geomorfológicas, entre a escarpa do Planalto de Uruguaiana e a Depressão Periférica Gaúcha; com predomínio de andesitos e basaltos (Formação Serra Geral) no planalto, seguidos de latitos, arenitos finos e quartzo associados às rochas sedimentares oriundas de deposição eólica (Formação Botucatu) e deposição fluvial (Formação Guará) na depressão. Os areais, neste caso como resultado da arenização, se constituem como produto do intemperismo destas formações e que lhes confere uma condição geomorfológica particular. O presente trabalho tem por objetivo estabelecer relações entre o processo de arenização, seu aproveitamento turístico enquanto patrimônio geomorfológico e os conflitos ambientais ocasionados pelo modelo econômico dominante. Dentre os areais que podem ser identificados na região, o do Cerro da Esquina, no município de São Francisco de Assis, possui condições de exploração turística, pois permite que parte da “memória da Terra” seja compreendida a partir da sua observação. Analisando os dados do Cadastro Ambiental Rural, observa-se que, vinculadas à escarpa do Planalto, encontram-se pequenas propriedades rurais, com uma média de 35 hectares de área, e na Depressão, aonde podem ser verificadas formações de Cerros (relevos testemunhos), a área das propriedades atinge mais de 900 hectares. A esta condição de estrutura fundiária associa-se o uso da terra, condicionado às características do terreno, ou seja, nas pequenas e médias propriedades (até 500 ha) predominam as formações florestais e nas grandes propriedades as formações campestres e cultivos anuais. Considerando o modelo econômico agropecuário predominante na região, a implantação da silvicultura baseada em eucalipto como “alternativa” para reduzir o avanço dos areais tem sido amplamente utilizada. No Cerro da Esquina, tal prática foi implementada a partir do ano de 2013 e tem afetado substancialmente a manutenção da dinâmica natural do areal. O potencial dos areais enquanto patrimônio geomorfológico para o desenvolvimento do turismo pode ser avaliado a partir de diferentes aspectos. Um primeiro, é a compreensão do próprio processo em si, ou seja, o que são os areais e como surgiram, sob o aspecto da temporalidade de formação da Terra. Num segundo momento, a sua vinculação no contexto da bacia hidrográfica do arroio Inhacundá, dentro da qual, da nascente a foz, passa-se por diferentes compartimentos do relevo, até chegar aos relevos testemunhos, associados às formações sedimentares (Botucatu e Guará), aos areais e às turfeiras nos fundos dos vales de seus tributários. Outro contexto que merece destaque é a beleza cênica do conjunto paisagístico da região. Nesta perspectiva, cabe questionar a implantação da monocultura silvícola, uma vez que esta interfere no processo de conservação do patrimônio geomorfológico (mudando a dinâmica natural), reduzindo o potencial geoturístico apresentado pela região (através da implantação de barreiras visuais). Palavras-chave: arenização, belezas cênicas, geoturismo, uso da terra. 11 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 84 O GEOPATRIMÔNIO E O POTENCIAL GEOTURÍSTICO NO DISTRITO FEDERAL, BRASIL 12 Gabriella Emilly Pessoa¹; Karen Aparecida de Oliveira²; Valdir Adilson Steinke³ ¹Graduanda em Geografia, UnB, gabriellae[email protected]m ²Doutoranda em Geografia, UnB, [email protected]m ³Professor adjunto do Dpto. de Geografia, UnB, [email protected]om Resumo O termo geopatrimônio pode ser compreendido como conjunto de valores que representam a geodiversidade. Esta geodiversidade é baseada nas características físicas originais, interagindo com as medidas de geoconservação e divulgação, tanto científica como governamental e social, promovendo a interpretação de geossítios a partir da análise dos processos que ocorrem na dinâmica da paisagem. Essa abordagem pode resultar em benefícios à comunidade, como o turismo e a educação científica observacional. Neste contexto, o presente trabalho buscou abordar o geopatrimônio, a geoconservação e o geoturismo, apresentando um diagnóstico dos locais potenciais de interesse ao geopatrimônio. Partiu-se de mapear dois cenários: um com base em pontos de cunho geoturístico — sendo as principais cachoeiras e cavernas do Distrito Federal (DF), Brasil — e, num segundo contexto, foram utilizadas as jazidas minerais como recurso geocientífico, especialmente para o entendimento do potencial patrimonial da gênese geológica e geomorfológica do Distrito Federal. Assim, a pesquisa teve como objetivo indicar os locais em que os processos de origem da paisagem possam ser observados de maneira peculiar, que abriga a geodiversidade e o geopatrimônio da unidade federativa, oferecendo, portanto, um novo olhar geográfico sobre o potencial geoturístico e educacional científico na região, propiciando a preservação e conservação do meio-ambiente. Essa abordagem, centrada nos aspectos descritos, resultou em um mapa com mais de duzentos pontos de interesse ao patrimônio geomorfológico no DF. Palavras-chave: geodiversidade, geoconservação, potencial educacional científico, dinâmica da paisagem, patrimônio geomorfológico, geossítios. 12 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 85 ASPECTOS GEOLÓGICOS E GEOMORFOLÓGICOS DA CACHOEIRA DE CASCA D’ANTA (PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CANASTRA – MINAS GERAIS, BRASIL): PRIMEIROS PASSOS PARA O SEU APROVEITAMENTO GEOTURÍSTICO 13 Lilian Carla Moreira Bento; Sílvio Carlos Rodrigues Universidade Federal de Uberlândia, Av. João Naves de Ávila, 2121 - Bairro Santa Mônica Uberlândia - MG - CEP 38400-902, (34) 3239-4169, [email protected] Resumo A Cachoeira de Casca D’anta está localizada na escarpa sul da Serra da Canastra, no estado de Minas Gerais (Brasil), onde nasce um dos rios mais importantes do país, o Rio São Francisco. Compreende uma queda com 200 metros de desnível, esculpida em quartzitos do Grupo Canastra. É um dos atrativos mais visitados do Parque Nacional da Serra da Canastra (PARNA Serra da Canastra), unidade de conservação do tipo integral. Apesar de ser uma área de proteção que permite a visitação, não existe no parque um programa de educação e interpretação ambientais que aborde o patrimônio geomorfológico. Nesse sentido, tendo em visto essa carência e o fato da Casca D’anta ser um dos atrativos mais visitados no parque, o objetivo deste trabalho é apresentar um levantamento científico no que diz respeito aos aspectos geológicos e geomorfológicos da área, de modo a compreender a origem e evolução dessa feição. De posse dessas informações, num segundo momento, espera-se subsidiar a proposição de um painel interpretativo para que os visitantes passem a associar o aspecto contemplativo ao educativo, superando a subutilização do local do ponto de vista pedagógico e de valorização do patrimônio geomorfológico, indo ao encontro dos objetivos da prática do Geoturismo. Palavras chave: queda d’água, conhecimento, ciência, educação, valorização, geoturismo. 13 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 86 MARCADORES GEOQUIMICOS, INDICADORES DE ATRIBUTOS CULTURAIS NA PAISAGEM GEOMORFOLÓGICA NO PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA, PIBRASIL 14 Beneilde Cabral Moraes1; Liége de Souza Moura2; Rita de Cássia Pereira Santos Carvalho; Antonio Carlos de Barros Corrêa. Universidade Estadual do Piauí – UESPI, Centro de Ciências da Natureza, Coordenação de Química. Rua João Cabral, Nº 2231, Bairro Pirajá, CEP: 64002-150, Teresina – PI, Brasil.; Telefone: 55 86 99422-6263; [email protected] [email protected] Resumo O presente estudo foi desenvolvido com base na descrição geoarqueológica, geomorfológica e geoquímica de sedimentos arqueológicos de sítios do Parque Nacional Serra da Capivara - PI, Brasil, e tem como objetivo aprofundar as investigações sobre indícios de ocupação humana pré-histórica, no viés de fornecer dados que identifique, através de análise química elementar, marcadores geoquímicos que possam ser aplicáveis às sequências sedimentares. Tais marcadores apresentam o potencial de evidenciar a presença do homem pré-histórico, com aplicação nos sítios Toca Sítio do Meio e Toca do Gordo do Garrincho, localizados no Parque, e em seu entorno. Para tanto, realizou-se um estudo morfoestratigráfico, sedimentológico e geoquímico de depósitos, utilizando métodos físicos e químicos, com técnica granulométrica, ensaio químico e instrumental por espectrofotometria de UV-vis, FTIR, DRX, FRX. Os dados obtidos e o cruzamento das informações mostraram resultados para a determinação da textura do solo com classificação em areia e areia síltica, significando uma maior e menor concentração de argilominerais respectivamente, dessa forma influenciando na fixação de fósforo e outros marcadores no solo. Os teores elementares (Al, Fe, Si, K, P, Na, Ca, Mg, Ti, Zr, H) e a matéria orgânica foram determinantes na análise geoquímica dos sedimentos. Identificou-se que o elemento P está presente em todas as amostras de sedimentos de forma significativa, embora não esteja presente no material parietal, indicando que houve um input externo (input alóctone), representando um forte indício da existência de níveis de ocupação ou pela presença do homem. Deve-se considerar que a associação climática que se faz entre argilominerais e sedimentos deve ser um pouco mais cautelosa, pois se observa que há um controle muito grande da rocha, como no caso dos depósitos oriundos da Bacia Sedimentar, que são muito pobres em elementos trocáveis, em bases, e praticamente só resultam em quartzo e caulinita, embora a presença alóctone do fosfato também gere hidroxiapatita ou ferro hidroxidoapatita, em algumas situações, enquanto que nos sítios localizados no calcário (na depressão) sobre as rochas cristalinas da Faixa de Dobramentos do Riacho do Pontal, ao contrário do que se poderia esperar, a presença do Ca não levou à formação de argila 2:1, esmectitas, mas sim reforça a presença das caulinitas e, secundariamente, a presença de compostos que contêm ferro, indicando que o clima de deposição desses minerais foi um clima provavelmente mais úmido, ou mesmo que o manto de intemperismo de onde esses sedimentos provieram se desenvolveu sob condições de lixiviação, de perda de bases, e portanto essas bases não ficaram guardadas sob forma de argilominerais. Correlacionando os dados obtidos a partir de conhecimentos da arqueologia, de paleoambientes, e da geomorfologia do quaternário na descrição dos sítios, foi possível estabelecer parâmetros teórico-metodológicos de indicadores ambientais com aplicação de marcadores geoquímicos, a níveis estratigráficos, para a reconstrução da dinâmica e evolução ambiental de paleopaisagens, bem como a indicação de níveis de ocupação humana pré-histórica na região e sua inter-relação com a dinâmica da Paisagem. Palavras-chave: Ocupação humana, Marcador químico, Paleoambientes, Dinâmica da Paisagem. 14 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 87 GEOMORFOLOGIA, BIODIVERSIDADE E O POTENCIAL GEOTURÍSTICO DO ESTUÁRIO DO RIO SADO - PORTUGAL 15 Neise Mare de Souza Alves1; Maria Conceição Pombo de Freitas2; Miguel Inacio3; Ana Graça Cunha4; Manel Leira5 1 [email protected]; 2 [email protected]; 3 [email protected]; 4 [email protected]; 5 [email protected] 1 Universidade Federal de Sergipe, 2, 3, 4, 5 Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Resumo A geomorfologia é uma ciência-ponte no campo das geociências, em razão de se estabelecer na interface dos processos geodinâmicos internos e processos atmosféricos. No decorrer do tempo geológico, a dinâmica natural definiu uma topografia diversificada que favoreceu a formação de solos e substratos que permitiu o desenvolvimento de biomas distintos. Na atualidade, há um segmento diferenciado de turistas, formado por pessoas que se interessam em conhecer áreas onde os atrativos sejam os recursos naturais, a gastronomia e o modo de vida de comunidades locais. Este trabalho tem por objetivo analisar os aspectos geológico-geomorfológicos e a biodiversidade do estuário do rio do Sado, reconhecendo o potencial para o geoturismo. A metodologia seguiu a proposta sistêmica para a análise integrada da paisagem. Para os estudos foram consultadas publicações sobre a área de estudo de Bettencourt & Ramos (2003), Sousa (2006), Gutierres & Neto (2012), Inácio (2017), entre outros autores. A análise multitemporal de imagens de satélite serviu de base para identificar as unidades de paisagem com base na geomorfologia. Além disso, foram realizados trabalhos de campo. O estuário do Sado tem aproximadamente 200 km2 e componentes ambientais únicos - geologia, geomorfologia e ecossistemas. Quanto à geomorfologia, o estuário está inserido nas unidades geomorfológicas Planície Baixa do Tejo e Costa Alentejana e Vicentina (PEREIRA et al. 2014). Predominam os modelados de acumulação correspondentes à planície fluviomarinha formada por raso de maré, sapal baixo e sapal alto; dunas, lençol de areia e terraços fluviais. A biodiversidade está presente nessas unidades de paisagem, que abrigam distintos ecossistemas. A vegetação nos sapais composta por espécies halofíticas possui distribuição condicionada pela topografia do terreno, flutuações diárias das marés, textura do substrato e teor de salinidade. As dunas são colonizadas por vegetação nativa herbácea e arbustiva, e por uma floresta de pinheiro-manso, que em algumas situações foi plantada para evitar o transporte eólico dos sedimentos quartzosos. Estes ambientes servem de habitat para aves migratórias e de berçário para as espécies aquáticas. Por sua vez, as praias fluviais e marítimas são de uso recreativo. Vale ressaltar que no estuário vive a única comunidade de golfinhos roazes-corvineiros no país. Atualmente, Portugal vem se consolidando como um dos principais destinos turísticos da Europa. É crescente o interesse do turista por atividades diferenciadas, em contato com a natureza, possibilitando o crescimento do geoturismo, que busca aliar o conhecimento científico às atividades turísticas, proporcionando ao indivíduo melhor compreensão do patrimônio natural e cultural de determinada localidade. Esse novo segmento do turismo promove práticas mais sustentáveis, pois valoriza o patrimônio geológico-geomorfológico, a biodiversidade e o modo de vida das comunidades. Assim, apresenta o turismo para o público sob outra perspectiva. Desse modo, os estudos ambientais sobre o estuário do Sado são importantes por ampliar o conhecimento sobre a dinâmica da paisagem e, consequentemente, propiciar formas de controle e monitoramento de problemas ambientais relacionados aos processos naturais e às atividades antrópicas. Palavras-chave: geomorfologia, biodiversidade, geoturismo, estuário do rio Sado, planície fluviomarinha, sapal. 15 Este texto foi proposto para integrar o número especial da revista Physis Terrae – Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente dedicado à temática do geopatrimónio, que será publicado em 2019, onde constará o trabalho completo e desenvolvido, pelo que aqui apenas se reproduzirá o resumo do mesmo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 88 GEOTURISMO E INTERPRETAÇÃO AMBIENTAL: ANÁLISE DOS CRITÉRIOS TÉCNICOS E ESTRUTURAIS DOS PAINÉIS INTERPRETATIVOS DA REDE GLOBAL DE GEOPARQUES Maurício Mendes Von Ahn¹; Adriano Luis Heck Simon². ¹Rua Coronel Alberto Rosa, n. 154, sala 105. Pelotas (RS); (+55) 47996906201; E-mail: [email protected] ²Rua Coronel Alberto Rosa, n. 154, sala 105. Pelotas (RS); (+55) 5332845500 (r. 212); E-mail: adriano.simo[email protected]u.br Resumo Os painéis interpretativos são ferramentas potenciais para o geoturismo em geossítios e geomorfossítios de geoparques. A proposição de painéis interpretativos busca estimular geoturistas, estudantes, cientistas, professores e a comunidade a entenderem o local que estão conhecendo e compreender os aspectos espaciais e temporais das feições geológicas e geomorfológicas. O presente artigo tem como objetivo identificar aspectos técnicos e estruturais utilizados para a elaboração de painéis interpretativos de geossítios e geomorfossítios da rede global de geoparques, a fim de contribuir para a padronização destes equipamentos voltados ao geoturismo em geossítios e geomorfossítios de propostas de geoparques brasileiros. O procedimento metodológico adotado partiu da obtenção e análise de informações técnicas sobre painéis interpretativos já elaborados e atualmente expostos em geoparques, que representam uma das melhores estratégias de proteção e promoção da geodiversidade. Esta análise contou com a seleção de, no mínimo, um painel interpretativo de cada continente onde existam geoparques vinculados à Rede Global de Geoparques, que opera de acordo com os regulamentos da UNESCO. A seleção dos painéis ocorreu em dois momentos distintos: (1) a partir da busca de imagens de painéis dos geoparques em artigos científicos no Portal de Periódicos CAPES/MEC, no Google Acadêmico e no Scientific Eletronic Library Online (SCIELO); e (2) a partir do acesso às imagens de painéis nas páginas eletrônicas dos geoparques. A busca final levou a seleção e análise de 37 painéis, distribuídos por geoparques de 23 países da Ásia, Europa, América Latina, América do Norte e África. Com base nas análises realizadas, verificou-se que não existe um padrão, em termos estruturais e técnicos, para a elaboração dos painéis interpretativos expostos em geoparques da Rede Global de Geoparques, sob a chancela da UNESCO. Entende-se que a falta de uma padronização mínima nestes painéis é algo a ser discutido em eventos específicos sobre geoconservação e geoturismo, uma vez que o estabelecimento de geoparques é uma das estratégias mais modernas e bem-sucedidas de proteção e promoção da geodiversidade e os painéis podem ser melhor explorados por serem métodos simples e eficazes de proporcionar as informações necessárias aos visitantes. Palavras-chave: geopatrimônio; geoconservação; geoturismo; interpretação ambiental. 1. Introdução O termo “interpretação”, ligado a uma prática de comunicar o patrimônio, começa a ser utilizado somente no final do século XIX, apesar de ser uma das práticas mais antigas de transferência cultural. De acordo com Vasconcelos (2006) & Souza (2010), a utilização do termo e o desenvolvimento das práticas esteve ligado à instituição dos parques nacionais norte-americanos, inspirados na ideia de uso público e da conservação da natureza, ainda que o fazer interpretativo tenha uma origem anterior. O desenvolvimento e a preservação dos parques eram influenciados pelas características da vida social e cultural norte-americana, que à época criou uma crescente demanda pelo ócio e lazer nestes espaços naturais, e consequentemente um esforço maior da sua administração para atender tal demanda (Souza, 2010). A partir de 1957, o filósofo e dramaturgo americano Freeman Tilden contribuiu para a formalização da Interpretação Ambiental em trilhas, através da publicação intitulada “Interpreting Our Heritage” (Interpretando III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 95 cinza; bordô e laranja. A Figura 5 mostra o painel interpretativo do Geopark Arouca (Portugal) enquanto exemplificação do plano de fundo na cor branca. Figura 5: Painel Interpretativo do Geopark Arouca (Portugal) com plano de fundo na cor branca. Fonte:http://www.aroucageopark.pt/en/explore/what-do/biodiversity-stations/biodiversity-station-merujal (2016). Em relação aos painéis com planos de fundo compostos por imagens, todos identificados são da Rede Asiática de Geoparques. A Figura 6 mostra o exemplo do painel interpretativo no Aso Global Geopark (Japão) que tem como plano de fundo uma imagem de satélite tridimensional de um fragmento espacial do geoparque. Figura 6: Painel Interpretativo do Aso Global Geopark (Japão) com plano de fundo composto por imagem. Fonte: www.aso-geopark.jp/en/about (2015). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 96 A linguagem é um elemento importante que deve ser considerado na elaboração de um painel interpretativo (Moreira, 2008). Desta forma, decidiu-se observar se o texto contido nos painéis considera apenas o idioma do país em questão, ou apresenta tradução em outro idioma. A análise dos 37 painéis evidenciou que 13 deles apresentam somente o idioma local impresso no painel, sendo todos eles da Rede Europeia de Geoparques (diferentes países). Dentre os 24 painéis restantes, 18 apresentam o idioma local acrescido da tradução na língua inglesa; cinco (5) apresentam o idioma local com tradução em dois idiomas sendo um deles o inglês; e um (1) dos painéis (Stonehammer Geopark – Canadá), apresenta o idioma local com tradução para o Francês. A Figura 7 mostra um painel interpretativo no Lushan Geopark (China) enquanto exemplo de painel com texto no idioma local com tradução para o Inglês. Figura 7: Painel Interpretativo no Lushan Geopark (China) enquanto exemplo de painel com texto no idioma local com tradução em Inglês. Fonte: http://www.lushangeopark.com/english_web/english_newsdetail.aspx?id=552 (2018). Decidiu-se compreender também as características e padrões textuais dos painéis dos geoparques analisados. No que se refere ao alinhamento, o texto de 25 painéis se encontra justificado, enquanto que em 12 painéis encontra-se alinhado à esquerda. Ainda sobre a disposição do texto, se observou que em 22 dos 37 painéis o texto encontra-se “solto” no painel interpretativo (Figura 8a), em 10 painéis o texto está organizado dentro de caixas com bordas externas (Figura 8b), e em cinco (5) painéis ocorre à distribuição do texto em caixas com bordas e solto. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 97 Figura 8: a - Painel Interpretativo no Wangwushan-Daimeishan Geopark (China) enquanto exemplo de painel com texto “solto” no painel; b - M’Goun Global Geopark (Marrocos) enquanto exemplo de painel com texto dentro de caixas com bordas externas. Fonte: www.mafengwo.cn/i/6934808.html (2017) e https://viagallica.com/maroc/ville_demnate.htm (2018). No que tange as imagens e representações cartográficas, verificou-se que todos os painéis interpretativos analisados contêm representações cartográficas ou imagens na sua configuração. Alguns painéis contêm ambos elementos, enquanto outros contêm apenas um deles. Em relação às representações cartográficas, observou-se que dos 37 painéis analisados, 28 trazem uma ou mais destas em seu conteúdo. Dentre estes 28 painéis, 23 trazem apenas uma representação cartográfica, e os cinco restantes possuem entre 2 e 5 representações. Além da análise quantitativa, realizou-se uma análise qualitativa dos mapas inseridos nos painéis, com o intuito de identificar os tipos de mapa presentes e a utilização ou não de um rigor cartográfico na sua elaboração. Em relação aos tipos de mapas, identificou-se que em geral os autores e/ou instituições envolvidas na elaboração dos painéis utilizaram-se das representações cartográficas somente com a finalidade de mostrar aos usuários onde a área de estudo está localizada (28 mapas de localização). Entende-se que este fato de certa forma limita o uso de mapas, os quais em muitos casos poderiam substituir textos com explicações técnicas de determinado assunto, proporcionando, a partir de uma legenda acessível, um maior entendimento sobre a temática abordada, e possibilitando uma maior aproximação do usuário com o uso e interpretação de mapas temáticos e do painel interpretativo em âmbito geral. Os demais mapas identificados nos painéis são caracterizados como mapas turísticos (roteiros e propostas de trilhas turísticas - 4 mapas), e por mapas que trazem informações geológicas e geomorfológicas (5 mapas). O painel interpretativo do Gea Norvegica Geopark – País de Gales (Figura 9) é um exemplo de painel interpretativo com a presença de dois mapas com informações geológicas e geomorfológicas, sendo um deles um mapa geológico do geoparque, e o outro um mapa indicando pontos de interesse geomorfológico da área em estudo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 98 Figura 9: Painel Interpretativo no Gea Norvegica Geopark (País de Gales) como exemplo de painel interpretativo com a presença de informações geológicas e geomorfológicas. Fonte: www.op.no/nyheter/nye-skilt-over-turistattraksjoner/s/1-85-6576136 (2013). As imagens aparecem na configuração de grande parte dos painéis. Dos 37 painéis, 34 contêm algum tipo de imagem, sendo: 24 painéis com a presença de 1 a 5 imagens; 5 painéis com 6 a 10 imagens; e 4 painéis fora da média, sendo: 1 com 12; 1 com 18; 1 com 23; e 1 com 25 imagens. No que se refere ao rigor cartográfico, os mapas foram distinguidos a partir das orientações de Fitz (2008), em mapas com rigor cartográfico (apresentam os seis elementos listados na Figura 2) e mapas sem rigor cartográfico (não apresentam os seis elementos citados na Figura 2). O resultado final mostrou apenas nove mapas com rigor cartográfico, e 28 mapas sem rigor cartográfico. Este fato demonstra que a elaboração da maioria dos mapas presentes nos painéis desconsidera o uso dos elementos necessários para a organização de um mapa, de acordo com as proposições de Fitz (2008). Esta situação nos leva a reflexão sobre quais profissionais estão trabalhando na representação cartográfica que está III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 99 sendo inserida nestes painéis, uma vez que a análise realizada considerou os elementos básicos para o mínimo entendimento do mapa sem comprometimento das informações. Neste contexto, entende-se que a prática do geoturismo deve buscar possibilidades para que o público leigo compreenda determinada área de interesse a partir de uma representação cartográfica adequada às suas necessidades, porém, não ao ponto de ocorrer a perda da legibilidade do documento cartográfico. Diante disso, considera-se o geoturismo como uma via de duas mãos, pois ao mesmo tempo em que os proponentes de um painel interpretativo (sejam eles geólogos, geógrafos, ou outros profissionais), devem buscar trazer uma linguagem cartográfica e teórica acessível aos geoturistas, que procuram a área por ter um interesse peculiar nela, estes precisam também ser desafiados e aprender como foi concebido aquele mapa que estão interpretando. No tocante à acessibilidade, o resultado da pesquisa mostrou que apenas cinco painéis são acessíveis, e 32 painéis foram considerados como inacessíveis ao público cadeirante. Esta análise levou em consideração as orientações de Moreira (2014), que considera os painéis interpretativos com inclinação adequada e mais próximos ao chão como acessíveis para leitura por cadeirantes. A Figura 10 mostra o painel do Unzen Volcanic Area Geopark (Japão) como exemplo de painel interpretativo acessível aos cadeirantes (destaque para a inclinação e proximidade do painel com o chão). Figura 10: Painel Interpretativo no Unzen Volcanic Area Geopark (Japão) como exemplo de painel interpretativo acessível aos cadeirantes. Fonte:www.metro-nomad.blogspot.com.br/2014/04/japan-day-6-shimabara-unzen-onsen-and.html (2014). Por fim, levou-se em consideração a interatividade, a partir da observação do uso ou não do QR Code nos painéis interpretativos. Os QR Codes (Quick Response Code) são desenvolvidos com o objetivo de aumentar a quantidade de dados contidos em códigos de barras convencionais, ocupando menor espaço após sua III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 100 impressão. Estes códigos passaram a ser amplamente utilizados em diferentes segmentos ao longo da última década (Baptista & Moreira, 2017). De acordo com Legoinha et al. (2017), através dos QR Codes os celulares, tablets ou computadores portáteis possibilitam fácil acesso às informações, em tempo real e em qualquer lugar, e vem sendo utilizados no ensino das geociências e no geoturismo. Para Baptista e Moreira (2017), o uso de smartphones e sua interação com o meio ambiente por meio da tecnologia poderá despertar a curiosidade dos visitantes em descobrir o que os códigos ‘escondem’, estimulá-los a aprender de forma lúdica e incentivá-los. Os resultados demonstraram que os QR Codes aparecem associados a 11 dos 37 painéis. A análise dos 37 painéis da Rede Global de Geoparques possibilitou a estruturação de uma síntese dos critérios técnicos e estruturais com maior ocorrência nos mesmos (Figura 11). Figura 11: Síntese dos critérios técnicos e estruturais dos painéis interpretativos da Rede Global de Geoparques. Fonte: Os autores. Diante dos resultados apresentados, torna-se possível a elaboração de painéis interpretativos levando em consideração as características com maior ocorrência em painéis já elaborados dentro dos geoparques analisados, devendo-se considerar, também, as características específicas do local em que está sendo inserido. 4. Considerações finais Com base nas análises realizadas, verificou-se que não existe um padrão, em termos estruturais e técnicos, para a elaboração dos painéis interpretativos expostos em geoparques da Rede Global de Geoparques, sob os III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 101 auspícios da UNESCO. Entende-se que a falta de uma padronização mínima nestes painéis é algo a ser discutido em eventos específicos sobre geoconservação e geoturismo, uma vez que o estabelecimento de geoparques é uma das estratégias mais modernas e bem-sucedidas de proteção e promoção da geodiversidade. O presente estudo permitiu o levantamento de informações científicas sobre a elaboração de painéis interpretativos que podem ser úteis para levar a sociedade um maior entendimento acerca da compreensão dos elementos da geodiversidade. Entende-se que existe um amplo espaço para o desenvolvimento de projetos dentro da temática abordada, e os resultados obtidos devem ser levados em conta para a elaboração de painéis interpretativos em propostas de geoparques brasileiros. Desta forma será possível promover o geoturismo de modo mais efetivo com o uso de painéis interpretativos. Por fim, considera-se, ainda, que o maior obstáculo a ser superado é a comunicação com a público-alvo. Para tanto, precisa-se avançar no conhecimento sobre o usuário dos painéis interpretativos. É necessária, portanto, a realização de pesquisas sobre o público-alvo e planejamento prévio da interpretação, ou seja, deve-se melhorar cada vez mais a comunicação para despertar o interesse do visitante. 5. Referências BAPTISTA, L.; MOREIRA, J. C. Simbiose entre tecnologia móvel e patrimônio natural: uma proposta pedagógica. Revista Brasileira de Ecoturismo, São Paulo, v.10, n.2, p. 227-246, 2017. BENTO, L. C. M. 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III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 103 PAISAGEM E GEOMORFOSSÍTIOS DO PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CAPIVARA, PIAUÍ, BRASIL Liége de Souza Moura1; Antônio Carlos de Barros Corrêa2 1Universidade Estadual do Piauí (UESPI); 55 86 98163-3955; E-mail: [email protected] 2Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); 55 81 98223-9900; E-mail: [email protected] Resumo O Parque Nacional Serra da Capivara (PNSC), localizado no sudeste do Piauí, apresenta uma paisagem singular para a geoconservação considerando os aspectos geomorfológicos representativos do ambiente semiárido brasileiro. O objetivo principal deste estudo é apontar os atributos geomorfológicos a partir da paisagem do PNSC para fins de geoconservação e identificar os geomorfossítios enquanto locais de interesse geomorfológico (LIGs). A metodologia empregada para esse fim foi a reconhecida internacionalmente para LIGs de Pereira, Pereira & Alves (2007). Em virtude de se tratar de uma Unidade de Conservação a identificação dos geomorfossítios partiu dos sítios mais visitados no parque, considerando sua geomorfologia. As formações rochosas e feições geomorfológicas que integram o PNSC como formas representativas do semiárido nordestino brasileiro no contexto das bordas de bacias sedimentares soerguidas estabeleceram os elementoschave dessa análise. O estudo implicou em desenvolver uma tipologia de paisagem para indicação dos atributos geomorfológicos da área, considerando os objetivos da geoconservação, reunidas como Front, Serrotes, Baixões e Tocas, relacionadas às unidades geomorfológicas do Front da Cuesta, Depressão Subsequente e Reverso da Cuesta. Assim, os aspectos geomorfológicos do parque se constituem primordiais para a geoconservação, através da interpretação da paisagem associada ao desenvolvimento de processos educativos possibilitando a manutenção sustentável dos geomorfossítios identificados. Palavras chave: paisagem, geomorfológica, locais de interesse para geoconservação, Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí, Brasil. 1. Introdução Para pensar a geomorfologia da área em estudo é necessário compreender os condicionantes naturais de sua paisagem. Os estudos levantados preponderam sobre os aspectos geológicos, climáticos e da vegetação, e a sistematização destes foi elaborada na perspectiva de apresentar a região na qual está inserida a paisagem do Parque Nacional Serra da Capivara, objetivando entender as características naturais que definem a sustentação da paisagem em questão. Mützenberg et al. (2012, p. 1) caracterizam a paisagem do PNSC como sendo: Paisagens geomorfológicas de rara beleza e dramaticidade, no qual sua dramaticidade sobrepõe-se um patrimônio pré-histórico dos mais importantes no continente Sul-americano. A presença humana destaca-se nessa paisagem desde o pleistoceno superior, marcada por um exuberante conjunto de pinturas e gravuras rupestres. Nessa paisagem, podem-se encontrar as maiores concentrações de sítios arqueológicos das Américas, com seus inúmeros sítios característicos não apenas de arte rupestre, mas também, sítios históricos, de oficinas líticas, sítios paleontológicos, com enterramentos e de ceramistas, o que desperta interesse científico, com potencial turístico cultural e ecológico para a região. Em função dessas características, a área torna-se de significativa importância para o desenvolvimento de estudos geomorfológicos, pois o relevo local influencia na variedade paisagística, principalmente, na III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 104 vegetação que depende dos fatores morfoclimáticos. A história geológica, climática e biológica que possibilitou o desenvolvimento das paisagens da Caatinga do Parque Nacional Serra da Capivara foi e é complexa. A paisagem é discutida neste estudo na perspectiva da Geografia, e se apresenta como uma categoria de análise dada à necessidade de compreendê-la na magnitude que as formas imprimem. Com vistas à criação de uma tipologia dos geomorfossítios, fez-se necessário pensar em como registrar os aspectos morfológicos da paisagem do PNSC a partir da relação conhecimento geológico/geomorfológico. Para tanto, levou-se em consideração os atributos físico-geográficos, bem como os critérios propostos para fins de valorização geomorfológica, efetivando o reconhecimento da paisagem e propondo a tipologia. Na elaboração desta pesquisa, a definição de um percurso metodológico com base na paisagem a partir da observação, permitiu maior detalhamento dos locais observados. Os estudos da paisagem nessa perspectiva conduzem à análise, avaliação e interação com diferentes aspectos, considerando que essas são assumidas como categoria de análise, tendo o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como principal instrumento de aferição destes. A pesquisa bibliográfica se deu por meio consulta a literatura especializada, e visou o aprofundamento acerca do conhecimento sobre geoconservação, paisagem, patrimônio geomorfológico e áreas protegidas. A apropriação do objeto por meio da pesquisa de campo constituiu-se necessária, uma vez que a paisagem é tomada como cenário primordial e, assim, a imersão no campo permitiu o reconhecimento dos sítios já estruturados para visitação nos aspectos geomorfológicos, bem como identificar os sítios como geomorfossítios através da elaboração de uma tipologia. Na identificação dos geomorfossítios, tomaram-se as ideias de Pereira, Pereira & Alves (2007) quando da avaliação do patrimônio geomorfológico, com a finalidade de inventariação e definição de uma forma como geomorfossítio a partir da paisagem. Para eles, a paisagem é aquilo que resulta da nossa percepção da imagem do espaço de grande escala e ao ar livre. A paisagem pode conter simultaneamente elementos naturais (bióticos e abióticos) e culturais (arquitetônico, agrícolas, industriais etc.) e pode ter ou não valor patrimonial. Os autores consideram ainda a existência de paisagens que, pelo seu valor científico, histórico/cultural, estético e/ou socioeconômico podem e devem ser consideradas patrimônio. 2. Paisagens, locais de interesse geomorfológico e geoconservação O texto em tela apresenta um cenário sobre geoconservação e o patrimônio geomorfológico a partir da paisagem, elencando como vem se desenvolvendo no mundo e quais as estratégias estão sendo trabalhadas nos diferentes países, na difusão deste conhecimento e, consequentemente, como este se integra ao contexto da geoconservação. Neste cenário, faz-se referência ao contexto europeu, dado ao avançado processo de desenvolvimento e implementação das estratégias de geoconservação, considerando as iniciativas de diferentes III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 111 Tabela I: Sítios para fins de Geoconservação no PNSC Sítios Pontos Lat / Long Geomorfologia Descrição Geomorfológica Contexto Boqueirão da Pedra Furada 8° 50' 2.40" S / 42° 33' 13.30" W Do Front Base do Front da Cuesta sob rochas metamórficas Circuito BPF Sitio do Meio 8° 49' 42.10" S / 42° 32' 41.10" W Pedra Furada 8° 50' 14.10" S / 42° 32' 29.00" W Garrincho 8° 55' 29.60" S / 42° 40' 57.00" W Depressão Subsequente Pedimentos dissecado sob rochas metamórficas com restrita cobertura elúviocoluvial Serrote Calcário Barra da Janela do Antonião 8° 48' 7.90" S / 42° 24' 59.80" W Cristais de calcário metamórfico Lajedo do Escrito 8° 52' 30.20" S 42° 37' 14.10" W Front da Cuesta Morros Testemunhos Circuito dos Oitenta Toca da Invenção 8° 50' 59.80" S / 42° 33' 54.20" W Base do Front da Cuesta em rochas metamórficas Sitio do Mocó Travessia da toca do Braz 8° 51' 43.60" S / 42° 35' 27.00" W Front da Cuesta fortemente dissecado por drenagens obsequentes Circuito Jurubeba Toca do Alexandre 8° 51' 43.80" S / 42° 35' 21.10" W Toca do Inferno 8° 46' 50.80" S / 42° 29' 5.80" W Reverso da Cuesta Reverso da Cuesta moderadamente dissecado acima de 450m com restrita cobertura elúviocoluvial Desfiladeiro da Capivara Toca do Barro Caldeirão dos Rodrigues 8° 48' 50.70" S / 42° 33' 34.80" W Circuito Zabelê Baixão do Meio 8° 46' 3.50" S / 42° 33' 38.40" W Toca do João Sabino 8° 38' 47.70" S / 42° 42' 18.50" W Reverso da Cuesta Reverso da Cuesta fracamente dissecado, abaixo de 450 m com restrita cobertura elúviocoluvial Circuito Serra Branca Toca do Juazeiro 8° 38' 55.50" S /42° 42' 11.20" W Pedra Solta 8° 34' 19.90" S / 42° 41' 54.40" W Toca do Pau Doía 8° 34' 29.80" S / 42° 41' 37.00" W Olho D'água Serra Branca 8° 38' 55.40" S / 42° 42' 7.60" W Baixão das Andorinhas 8° 51' 42.70" S / 42° 41' 13.90" W Reverso da Cuesta moderadamente dissecado acima de 450m com restrita cobertura elúviocoluvial Circuito Serra Vermelha Caldeirão do João Pimenta 8° 52' 29.03" S / 42° 42' 38.08" W Morro da Figura 8° 28' 24.90" S / 42° 42' 7.20" W Reverso da Cuesta fracamente dissecado, abaixo de 450 m com restrita cobertura elúviocoluvial Circuito Angical Arco da Pedra Furada do Gongo 8° 39' 46.70" S / 42° 31' 18.50" W Reverso da Cuesta moderadamente dissecado acima de 450m com restrita cobertura elúviocoluvial Serra do Gongo III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 112 4. Geomorfossítios para fins de geoconservação do PNSC Os sítios geomorfológicos estão apresentados a partir de sua distribuição em relação às três principais unidades morfoestruturais e seus respectivos compartimentos, sendo referenciados nos circuitos conforme se apresentam para a visitação turística, uma vez que por meio da visitação pode-se favorecer um dos objetivos da Geoconservação. A tabela II apresenta a proposição da tipologia dos sítios geomorfológicos ou geomorfossítos referenciados com base na descrição da paisagem. Tabela II – Geomorfossítios propostos para o PNSC. Geomorfossítio Unidade Geomorfológica Compartimentos Sítios Circuito Do Front Front da Cuesta Morros Testemunhos Lajedo do Escrito Jurubeba Front da Cuesta fortemente dissecado por drenagem obsequente Toca do Alexandre Da Base do Front Front Base do Front da Cuesta em rochas metamóficas Sítio Boqueirão da Pedra Furada BPF Sitio do Meio Pedra Furada Dos Serrotes Depressão Subsequente Pedimentos dissecados sob rochas metamórficas com restrita cobertura elúviocoluvial Toca do Gordo do Garrincho Serrotes Barra da Janela do Antonião Dos Baixões Reverso da Cuesta Reverso da Cuesta moderadamente dissecado acima de 450m com restrita cobertura elúviocoluvial Caldeirão dos Rodrigues Zabelê Baixão das Andorinhas Serra Vermelha Das Tocas Reverso da Cuesta fracamente dissecado, abaixo de 450 m com restrita cobertura elúviocoluvial. Toca João Sabino Serra Branca Toca do Juazeiro Toca da Pedra Solta Toca do Pau D’Oía Olho D'água Serra Branca O front da cuesta apresenta-se subordinado às linhas de falhas e fraturas de direção NE-SW e secundariamente à erosão regressiva de suas drenagens obsequentes, que também se encontram diretamente condicionadas pelas estruturas rúpteis e acamamento sedimentar. As camadas sedimentares de contato tabular e estrutura homoclinal, ao decaparem se detêm sobre níveis mais resistentes, ora mais silicificados, ora menos permeáveis, estabelecendo um processo de exumação que dá origem a patamares estruturais e litológicos característicos de planaltos sedimentares de baixa inclinação. Estão submetidos à ocorrência das falhas gravitacionais ao longo da linha de recuo do front (Mützenberg, 2010). Os geomorfossítios representam os paredões festonados da cuesta imprimindo na paisagem a ideia de ruínas, o relevo ruiniforme, no contexto de visitação do PNSC compreendem os Circuitos Jurubeba e Invenção e se III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 113 inserem nesta paisagem, tem seu acesso através da estrada que liga a BR 020 a comunidade Sítio do Mocó. Os sítios fazem parte de um contexto histórico e cultural cujas experiências estão registradas em momentos distintos, um relacionado à pré-história pelos registros rupestres nos paredões e outro a usos mais recentes, por parte das famílias do Zabelê, do Sitio do Mocó e do Garrincho, que utilizavam os abrigos sobre rocha durante suas atividades extrativas ou de cultivo na área que hoje é PNSC. Os circuitos estão abertos à visitação guiada, com trilhas interpretativas do ponto de vista arqueológico e cultural. Geomorfossítio em Morro Testemunho - Lajedo do Escrito Coordenadas Geográficas: Latitude: 8º53’31,6” S / Latitude: 42º44’33,5” W; Elevação: 474 m Descrição: Fisionomia dos paredões rochosos subverticais que compõem o front, marcada pela textura, gradiente e cores diferenciadas das camadas alternadas de arenitos e conglomerados grossos, às quais se sobrepõem formas de erosão diferencial. Constitui o principal landmark do PNSC, e sua mais sintética expressão paisagística. A existência de morros testemunhos, balizando o front e paralelos ao mesmo, reforça a ideia da evolução erosiva dessa morfologia a partir do ataque morfogenético sobre linhas de falhas e fraturas. Geomorfossítio em Front de Cuesta fortemente dissecado por drenagem obsequente - Toca do Alexandre Coordenadas Geográficas: Latitude: 8º53’31,6”S / Latitude: 42º44’33,5” W; Elevação: 444 m Descrição: Fisionomia marcada por surplombs inseridos sob paredões rochosos verticais, formando abrigo arqueológico. Evidência da erosão diferencial atuando em estratos de granulometria distinta dentro da mesma formação geológica. Litologia marcada pela presença de arenitos com estratificação cruzada acanalada e conglomerados e intercalações de camadas finas de folhelhos. Presença de discordância angular entre o arenito com estratificação cruzada planar e conglomerados acima e o arenito fino abaixo. Área de contato das formações Itaim e Ipu, com a presença de arenito com estratificação cruzada acanalada de porte médio, localmente cavalgante, granulometria de média a grosseira, formado por correntes de velocidades moderadas em regime de fluxo inferior (Picard & High, 1973). Do Front e a Depressão Subsequente A depressão subsequente apresenta o maior número de unidades de modelado, vinculadas também à diferenciação litológica intrínseca à Província da Borborema. Os pedimentos encontram-se em sua totalidade na área dissecados, chegando a 60m de entalhamento dos vales. Sendo categorizados pela maior presença de pedimentos totalmente recobertos por mantos de intemperismo, classes de solos tais como argissolos, luvissolos, neossoloslitólicos e alguns pontos com ocorrência de paleossolos calcinomorfos ligados às áreas de pedimento estruturado sobre rochas calcárias metamórficas (Mützenberg, 2010). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 114 Os geomorfossítios no contexto de visitação do PNSC se encontram no Circuito do Boqueirão da Pedra Furada – BPF se apresenta como um dos mais significativos para a visitação, por registrar a pesquisa arqueológica que referenciou o reconhecimento do PNSC como patrimônio cultural da humanidade. Faz parte também do contexto de visitação o Geomorfossítio dos Serrotes Calcários, as comunidades próximas são Garrincho e o Sítio do Mocó e o acesso à área é feito preferencialmente a partir de Coronel José Dias. Do ponto de vista geomorfológico ressalta-se que em algumas áreas, como no Boqueirão da Pedra Furada a dissecação fluvial ao longo de linhas de fraqueza estrutural resultou na formação de cânions, gargantas e formas erosivas de grande beleza e valor cênico e ainda por apresentar um relevo marcado pela rusticidade das formas. Ressalta-se ainda sobre essa unidade morfoestrutural a presença de inselbergs calcários com desenvolvimento de incipiente relevo cársico, sob a forma de lapiás, portanto, estes aspectos da paisagem diferenciam as morfologias a ponto de as indicarem como geomorfossítios. Geomorfossítios do front da cuesta - Sítio Boqueirão da Pedra Furada Coordenadas Geográficas: Latitude: 08º50'0,9" S / Longitude: 42º32'12,1" W; Elevação: 440 m Descrição: Abrigo sobre Rocha (Paredão) em arenito ao longo de um vale apresentando feição de relevo marcada pela presença de encosta negativa. A litologia é dominada pela exposição da Formação Ipu, com arenitos, arenitos conglomeráticos e conglomerados suportados por clastos predominantemente quartzosos com leve imbricação. A estratificação é horizontal de leitos longitudinais, depósitos residuais e de peneiramento típicos de deposições continentais flúvio-glaciais do Siluriano (Lima Filho et al., 2003). Há ainda presença de falhas e fraturas de direção NW-SE e NE-SW, predominantemente, concordantes ao próprio lineamento que define a borda sudeste da Bacia do Parnaíba. O Sítio do Vale do Boqueirão da Pedra Furada apresenta indícios das ocupações mais antigas da Toca do Boqueirão da Pedra Furada que estão relacionadas ao Último Máximo Glacial. - Sitio do Meio Coordenadas Geográficas: Latitude: 08º52’32,0” S / Longitude: 42º41’59,0” W; Elevação: 460 m Descrição: Abrigo sob rocha no sopé da cuesta apresentando queda de blocos associadas à repetição de eventos torrenciais, com blocos de arenito e siltito, desprendidos e fortemente retrabalhados pela erosão. A deposição em abrigo ocorreu por fluxos canalizados, registrando mudflows com rotas preferenciais de preenchimento do mesmo. A textura do paredão rochoso é marcada pela alternância de camadas de arenito, com cimento ferruginoso, intercaladas por espessas lentes de siltito. É notável ainda a presença de estratificação cruzada de pequeno porte, com níveis de siltito cujo contato com o arenito conglomerático é marcado por um nível de grano decrescência ascendente, com a presença de pequenos cristais de granada. Os paredões que estruturam o abrigo possuem um número significativo de registros rupestres, bem como também em seus blocos III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 115 desprendidos. No abrigo foram registradas datações de carvão extraídos de fogueiras remontando a 12.440 e 14.430 anos AP. Geomorfossítio em Pedimento dissecado sobre rochas sedimentares com restrita cobertura elúviocoluvial. - Pedra Furada Coordenadas Geográficas: Latitude 8° 50' 14.10" S / Longitude: 42° 32' 29.00"; Elevação: 422 m Descrição: O arco da Pedra Furada constitui um elemento erosivo natural, característico da ação da erosão diferencial atuando em ambiente semiárido sobre litologias siliciclásticas com acamamento horizontal ou subhorizontal em interseção a planos verticais de fraturas, que isolam o morro testemunho no qual as diferenças de resistência litológica do pacote sedimentar resultam no esvaziamento de camadas mais tenras sotopostas a níveis mais silicificados. O monumento geológico “Arco do Triunfo da Pedra Furada” constitui assim o marco da paisagem geomorfológica mais conhecido do PNSC (landmark), conferindo-lhe identidade visual e agregando a ideia de rusticidade e amplitude dos conjuntos paisagísticos que o integram. Estudos estratigráficos desenvolvidos neste sítio permitem inferir que mudanças climáticas na região do Parque Nacional Serra da Capivara tiveram início antes do Pleistoceno final. Geomorfossítios em Pedimento dissecado em rochas metamórficas com restrita cobertura elúviocoluvial - Toca do gordo do Garrincho Coordenadas Geográficas: Latitude: 8° 55' 29.60" S / Longitude: 42° 40' 57.00" W; Elevação: 431 m Descrição: Constitui-se em um afloramento de calcário metamorfizado do Pré-cambriano (Neoproterozóico) que se eleva na paisagem como um inselberg delimitado por knickpoints bem pronunciados, recobertos por rampas de colúvio descontinua em quase todos os seus quadrantes. Calcários com a presença de incipiente relevo cársico sob a forma de lapiás que se desenvolvem sobre os paredões rochosos de maior declividade. Apresenta abrigos e cavernas que se sobressaem dos pedimentos que integram a depressão periférica do São Francisco. Identificou-se nas áreas de exposição de calcários mais de cinqüenta espécies de mamíferos (Guérin et al., 1996), mais de trinta espécies de aves e algumas espécies de anfíbios e peixes da megafauna e avifauna fósseis. - Barra da Janela do Antonião – Cristas de calcário metamórfico Coordenadas Geográficas: Latitude: 8° 48' 7.90" S / Longitude: 42° 24' 59.80" W; Elevação: 389 m Descrição: Domínio cárstico com mármores cinza-escuros laminados do Grupo Casa Nova. Ocorrência como pequenas elevações (morrotes), com camadas tectonicamente movimentadas de um metacalcáriocalcítico, microcristalino finamente laminado com extensão de 600m x 450m. Os morrotes individualizados representam lâminas calcárias, basculadas por uma fase tectônica de cavalgamento (Rodet, 1997). Constitui sítio III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 116 paleontológico e arqueológico onde foram encontradas ferramentas líticas, ossos humanos e fósseis da megafauna pleistocênica com remanescentes holocênicos e micro-mamíferos e avifauna. Também foi encontrado um esqueleto de uma mulher datado em 9700 anos e 1918 peças líticas (Peyre, 1993). Reverso da Cuesta O reverso da cuesta é o topo suavemente inclinado da cuesta, que inicia na parte superior do front e progride em direção ao centro da bacia sedimentar e ocupa cerca de 75% da área analisada. Apresentando-se ora como divisores largos e contínuos ou dissecados com drenagem entrincheirada. As áreas de cimeiras preservadas foram divididas ainda em duas unidades, a partir de diferentes classes altimétricas, acima e abaixo de 450m. Estas unidades estão majoritariamente recobertas por coberturas eluviais de latossolos amarelos com ou sem ferricrete. Acima de 450m o reverso da cuesta ainda apresenta feições moderadamente dissecadas com grau de entalhamento dos vales chegando a no máximo 50m. Abaixo de 450m o reverso pode ser dividido em duas unidades, uma fraca e outra fortemente dissecada (Mützenberg, 2010). O reverso da cuesta no contexto de visitação do PNSC se diferencia em distintos circuitos: O circuito da Serra Branca, o da Serra Vermelha, Angical e o Gongo. A maioria desses percursos oferece os desafios de trilhas que se insinuam entre as serras e vales. Nesse contexto pelo menos dois circuitos históricos se destacam o dos maniçobeiros que ocupavam as tocas da Serra Branca e o do antigo Zabelê. Constitui-se uma área significativa do parque para visitação, sendo seu principal acesso feito pela guarita da Serra Branca, localizada a 33 km da cidade de São Raimundo Nonato através da PI-140. Os aspectos geomorfológicos e paisagísticos em destaque para indicativo da composição desses geomorfossítios residem no fato da área em que se encontram constituir um compartimento morfoestrutural bastante dissecado, com ocorrência de gargantas e boqueirões ao longo do vale, que contribuem para o barramento dos sedimentos arenosos que se desprendem das encostas, criando assim corredores alongados de planícies de fundo chato e intensamente colmatados pelos sedimentos arenosos. Acrescenta-se que no caso do Vale da Serra Branca, a depressão em tela constitui um hemi-graben, embutido na superfície de cimeira do reverso. No contexto da Serra Vermelha o maior destaque morfológico recai sobre os caldeirões e slot cânions, já na Serra do Gongo o destaque vai para o Arco de pedra em relevo ruiniforme. Reverso da Cuesta moderadamente dissecado acima de 450m com restrita cobertura elúvio-coluvial. - Caldeirão dos Rodrigues Coordenadas Geográficas: 08º48’50.7” S / 42º33’34.8”W; Elevação: 520 m Descrição: Trata de um cânion decorrente da ação erosiva das drenagens ressequentes do reverso atuando sobre linhas de fraturas. O resultado deste processo geomorfológico levou ao entalhamento dos boqueirões, no quais aparecem cavidades dissecadas ao longo do cruzamento de linhas de fraturas de direções diversas formando gargantas que acumulam água no período chuvoso. Essas áreas são também notáveis pela presença de blocos que se desprendem da encosta com relevo negativo gerando reentrâncias e saliências, formando abrigos. A III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 117 litologia dominante são os arenitos da Formação Ipu, com granulometria de média a fina, coloração clara, com intercalações de siltitos e intervalo conglomerático na porção superior da encosta. O conglomerado é grosseiro, com seixos, sendo o contato arenito-conglomerado brusco e bem marcado por uma linha de seixos grosseiros. A alternância entre conglomerados e arenitos ao longo das exposições de encostas gera uma textura de importante expressão cênica, por romper com a monotonia da paisagem geralmente plana e sem ressaltos do reverso. - Baixão das Andorinhas Coordenadas Geográficas: 08º51'41,2" S / 42º41'11,9" W Descrição: A morfologia desse geomorfossítio é marcada por um Slot canyon formado em ambiente de soerguimento de borda de bacia sedimentar com entalhamento de canais profundos e estreitos. O arenito apresenta níveis com maior concentração de seixos de até 15 cm, com rupturas erosivas e linha de seixos grosseiros marcando o contato entre o arenito fino e o conglomerático. Nos paredões rochosos que expõem os níveis areníticos e conglomeráticos, é possível observar uma sucessão de elementos arquiteturais de barras de conglomerados e formas de leito compostos pelas fácies conglomerado suportado por matriz maciço, conglomerado suportado por clastos, com estratificação horizontal fraca e intercalações de areia, arenito com estratificação cruzada planar, arenito com laminação horizontal, na base, e conglomerado suportado por clastos com estratificação cruzada e arenito com estratificação cruzada acanalada, no topo. Essa significativa variedade de estruturas sedimentares, aliada à incisão vertical da drenagem, ajustada à rede de diaclases e fraturas, confere a esse geomorfossítio aspecto de grandiosidade, drama e variação textural, conferindo-lhe grande singularidade dentre as paisagens que integram o reverso, em particular, e o próprio PNSC, do qual constitui um dos principais landmarks. Reverso da Cuesta fracamente dissecado, abaixo de 450 m com restrita cobertura elúvio-coluvial. Concentram-se nesta unidade um conjunto de abrigos sobre rochas areníticas fracamente dissecadas, e dispostos numa linha da continuidade de orientação NE-SW, acompanhando a encosta da margem direita do Vale da Serra Branca. - Toca João Sabino Coordenadas Geográficas: 8º 38' 47.7" S / 42º 42' 18.5" W Elevação: 446 m - Toca do Juazeiro Coordenadas Geográficas: 8º 38' 55.5" S / 42º 42 '11.2" W Elevação: 437 m - Toca da Pedra Solta Coordenadas Geográficas: 8º 34'19.9" S / 42º 41' 54.4" W Elevação: 394 m - Toca do Pau D’Oía Coordenadas Geográficas: 8º 34 '29.8" S / 42º 41' 37" Elevação: 408 m III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 118 Descrição: Agrupou-se os abrigos, chamados de tocas, em uma única descrição em função da repetição das morfologias que definem a singularidade desses geomorfossítios. Trata-se de incisões laterais decorrentes da ação do processo de erosão diferencial atuando sobre a base de paredões rochosos submetidos a um avançado grau de desagregação e fragmentação. Ao contrário de outros tipos de abrigos situados no front da cuesta, estes geomorfossítios são marcados por uma menor expressão topográfica, sendo sua unicidade decorrente muito mais da sequência espacial linear de repetição dessas formas agrupas em um dos lados do vale estrutural. - Olho D'água Serra Branca Coordenadas Geográficas: 08º38’54” S / 42º42’06,3” W; Elevação: 441 m Descrição: Ao longo do Vale da Serra Branca, a drenagem se encaixa em paredões subverticais, sobre os arenitos e conglomerados da Formação Cabeças (devoniano). O arenito fino da Formação Cabeças, micáceo, poroso, permeável, friável, apresenta estratificação cruzada por onda com linha de seixo marcando a superfície erosiva discordante. De modo localizado, e onde o arenito apresenta uma granulometria mais grosseira, a estratificação cruzada é de grande porte. Os grãos variam de subangulosos a arredondados, foscos, bem selecionados e estratificados. Os afloramentos desta unidade na área apresentam-se intensamente fraturados e com alguns níveis conglomeráticos, com seixos de quartzo angulosos e subangulosos. No caso deste geomorfossítio a situação de incisão da drenagem no reverso da cuesta propiciou o afloramento da linha de exudação correspondente ao nível do lençol freático inferior, cuja profundidade é atingida nessa área pela grande dimensão do entalhe vertical. Do ponto de vista cênico, a combinação de texturas e cores, decorrentes do encontro do paredão rochoso com os filetes de água que favorecem a colonização vegetal e amenizam localmente o clima agregando-lhe maior umidade e frescor, constitui em si própria um atrativo paisagístico diferenciado. 5. Conclusão A descrição da paisagem geomorfológica da área em estudo possibilitou algumas reflexões. O mapeamento da paisagem para fins interpretativos e de valorização destas deve considerar uma escala de detalhe, e ainda aproximar o conhecimento sistemático. Para elaboração de tipologias de paisagens deve-se associar os elementos integradores objetivando aprofundar o conhecimento sobre o olhar da paisagem. Estes aspectos são primordiais no exercício de campo, não simplesmente o olhar de contemplação, mas de aferição sobre a paisagem, de marcas que evidenciem a sua organização, e ainda que permitam compreendê-la na sua dinâmica. A partir do estudo da geomorfologia e da observação em campo foi possível compreender que a paisagem em apreço se apresenta em três grandes conjuntos morfoestuturais, e que os limites entre estes se distinguem a partir dos elementos que se destacam hierarquicamente, como a tectônica, os litotipos, os processos superficiais etc. Estes, por sua vez, são representativos do ponto de vista da elaboração de uma proposta de tipologia de paisagem, partindo dos níveis mais gerais e interpretativos, à escala aplicada dos geomorfossítios. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 119 O estudo do conhecimento geomorfológico da área foi primordial na identificação e interpretação das unidades de paisagem e seus compartimentos geomorfológicos no campo, a partir dos quais foi possível estabelecer de forma sistemática os diferentes caminhos a serem adotados para registro da paisagem e suas interpretações, considerando que as feições geomorfológicas nesta paisagem se apresentam como marcadores cheios de significados e significantes para vários tipos de usuários; moradores, visitantes, cientistas etc. 6. Bibliografia BARROS, J. S.; FERREIRA R. V.; PEDREIRA, A. J.; GUIDON, N. (2012) Geoparque Serra da Capivara-Proposta. In SCHOBBENHAUS, C.; SILVA, C. R. (org.). Geoparque Serra da Capivara-Proposta. DIEDIG/DEPAT, Rio de Janeiro: p. 493-542. ERIKSTAD, L. (2008). History of geoconservation in Europe. 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III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 127 Definidos os pontos de parada, partiu-se para a elaboração de um mapa do roteiro, das estratégias interpretativas para cada um dos pontos selecionados e, por fim, elaboração de um folder de apoio aos visitantes. O roteiro proposto, batizado como “caminho dos imigrantes”, parte do centro de Santa Maria, realizando sua primeira parada ao entrar no território do projeto Geoparque Quarta Colônia, percorridos 28 Km da BR-287. 4. Desenvolvimento Após a identificação de possíveis temas interpretativos para visitação através da análise da imagem de satélite confrontada com o inventário do patrimônio natural e cultural existentes no Geoparque elencaram-se pontos de parada denominados aqui de Locais de Interesse Patrimonial (LIPs) que são os apresentados a seguir (figura 3): Arroio Veado (processos fluviais em planície aluvial e vista da escarpa), Moinho do Moro (incorporação da energia hidráulica na cultura imigrante), Monumento ao Imigrante (processos geomorfológicos na escarpa do planalto e desafios à instalação dos imigrantes), Gruta Nossa Senhora de Fátima (religiosidade imigrante), Conjunto Histórico da Pompéia (histórico da extração de argila e indústria cerâmica), Centro Cultural Bom conselho (arquitetura italiana), Igreja Santo Antônio de Pádua (características da religiosidade imigrante), Praça central da cidade, com monumento a Gaspar Silveira Martins (Presidente da Província do Rio Grande do Sul, que coordenou a imigração) e monumento a Giuseppe Garibaldi (revolucionário italiano considerado "herói de dois mundos"). A proposta é que o roteiro encerre com um almoço tipicamente italiano no Ristorante La sorella, onde o visitante terá a oportunidade não apenas de compreender e apreciar a cultura gastronômica do imigrante, como também conhecer mais sobre as agroindústrias familiares do território que fornecem os alimentos aos restaurantes. A seguir, apresenta-se uma breve descrição dos Locais de Interesse Paisagístico escolhidos e a importância cultural e geomorfológica dos mesmos. 4.1 O Arroio Veado Por localizar-se na escarpa de transição entre o Planalto Meridional Brasileiro e a planície central, o município de Silveira Martins conta com 81 nascentes identificadas e mais de 142 km de arroios, que nascem no topo do planalto e se dirigem à depressão central, com grande energia hidráulica ao vencer o desnível de mais de 400m entre estes dois compartimentos. O Arroio do Veado tem sua nascente localizada próxima ao ponto cotado de 489 metros e lança suas águas no Arroio Grande, o qual desemboca no rio vacacaí-mirim, tributário do Rio Jacuí (Becker, 1999). Correndo em paralelo à RS 804, a observação do arroio permite aos turistas perceber o significado de competência fluvial no processo de transporte de sedimentos de diferentes granulometrias, que vão sofrendo uma separação III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 128 gravimétrica de montante para jusante. Para além disso, é possível interpretar aspectos da geomorfologia fluvial como aprofundamento de vale e formação de terraços. 4.2 Moinho do Moro A vinda dos imigrantes italianos para o Brasil resultou em profundas mudanças no panorama cultural. As influências trazidas por eles, ainda hoje, são percebidas através do legado patrimonial presente no cenário das colônias. A arquitetura da imigração italiana caracteriza-se por sua construção artesanal, onde todos os elementos necessários para compor o conjunto eram elaborados pelos próprios imigrantes. A forma de construir e as técnicas adotadas pelos italianos ganharam destaque no âmbito arquitetônico brasileiro por sua originalidade na solução de problemas de acordo com a disponibilidade de recursos e mão de obra em cada região (Venturini & Gaspari, 2015). Figura 3Mosaico dos Locais de Interesse Paisagístico do roteiro “Caminho dos Imigrantes” Fonte: Banco de imagens do LAGED III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 129 Devido ao desenvolvimento da região em função do aumento crescente de imigrantes italianos na colônia e às necessidades da população, o mercado tornou-se favorável para instalação de indústrias como moinhos, serrarias, ferrarias, marcenarias, cantinas, entre outros. Em Silveira Martins, a arquitetura industrial imigrante não se desenvolveu de forma tão pronunciada, possuindo somente alguns representantes significativos. Dentre eles, dois conjuntos arquitetônicos ganharam destaque pelas características peculiares típicas desse patrimônio, sendo eles o Moinho Moro e o Conjunto Pompéia (Venturini & Gaspari, 2015). Esse patrimônio industrial da imigração italiana, de forma geral, caracteriza-se, segundo Posenato (1983 apud Venturini & Gaspari, 2015), por sua arquitetura rústica, desprovida de acabamentos e elementos ornamentais, principalmente quando a edificação era construída independente da residência. Na arquitetura industrial de Silveira Martins, a roda hidráulica surge como um elemento característico desse patrimônio. Ela é responsável pela força motora que permitiu o desenvolvimento dessas indústrias na região. Portanto, neste LIP pode-se observar a perfeita integração entre o patrimônio natural (a força hidráulica e o arenito utilizado para a construção da roda de moagem) e cultural (a tradição familiar italiana de produção de farinha de milho e cachaça) do território. Localizado no distrito de Val de Buia, o Moinho Moro é o único em Silveira Martins, exercendo uma função importante na produção da farinha de trigo e milho que, na época, era a base da alimentação dos imigrantes. O moinho faz parte do conjunto de edificações (residência, cantina, moinho e alambique) da propriedade da família Moro. Atualmente, com todas suas características culturais e históricas, continua sendo um instrumento de trabalho da família para a produção de farinha e de cachaça. A edificação possui aproximadamente 140 anos e foi construída entre os anos de 1877 e 1890 pelos próprios imigrantes, sendo feita de tijolos fabricados no próprio local. 4.3 Monumento ao Imigrante O Geossítio Monumento ao Imigrante Italiano encontra-se às margens da RS 804, no município Silveira Martins, a 2,5Km da sede. Trata-se de um miradouro, com infraestrutura e iluminação, construído em 1977 em alusão ao centenário da imigração e colonização italiana em Silveira Martins. O monumento foi erguido como homenagem aos imigrantes que se instalaram naquele local em 1877. Este local apresenta importância geológica por basicamente dois motivos: pela facilidade de observação dos depósitos de tálus de basalto a jusante do monumento, e pela exposição do afloramento de arenito do outro lado da estrada, com a presença de fácies de argilito entremeado, mostrando que à época da formação da rocha, o canal era meandrante e carregava os sedimentos da planície de inundação (Ziemann, 2016). Soma-se ao potencial paisagístico o valor cultural/histórico, já que no local onde hoje se encontra o monumento, os colonos imigrantes ficaram cerca de quatro meses esperando a destinação de seus lotes, alocados em um “barracão” e em tendas cobertas com lençóis por eles mesmos construídas. O lugar, que ficou conhecido como “barracão” é um dos símbolos mais importantes desse processo migratório inicial, sendo III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 130 lembrado e invocado em praticamente todas as falas sobre a saga dos antepassados. O Monumento ao Imigrante agrega simbolicamente o que poderia ser considerado a síntese de um processo bem sucedido e é um marco do processo colonizador local (Zanini, 2008). 4.4 Gruta Nossa Senhora de Fátima A Gruta de Nossa Senhora de Fátima está localizada na RS-804, no Km 10, próximo ao Monumento ao Imigrante Italiano, a 3 Km do centro do município de Silveira Martins. A gruta, construída em rocha vulcânica, permite discutir o último grande evento geológico do mesozoico na Bacia do Paraná, além de demonstrar, pela presença de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, a forte religiosidade e o espírito empreendedor dos descendentes italianos. A imagem foi alocada pelos condutores da linha de ônibus entre esta cidade e Santa Maria, em meados do século XX. A Gruta Nossa Senhora de Fátima é um dos pontos Turísticos da Rota turística e gastronômica Santa Maria - Silveira Martins e é mais um dos inúmeros pontos, que inclui igrejas, capitéis e grutas. 4.5 Conjunto arquitetônico Histórico da Pompéia O Conjunto arquitetônico Histórico da Pompéia é composto pela Capela Nossa Senhora da Pompéia, Olaria dos Guerra e Casarão dos Guerra. A Capela, em formato octogonal, foi construída no início do século 20, no ano de 1926, em cumprimento de promessa de recuperação de sua saúde feita pelo imigrante italiano Vincenzo Guerra, cuja família povoou a comunidade de Pompéia e até hoje zela pelo patrimônio histórico-arquitetônico do local. A construção centenária não possui vigas, nem concreto, ferro ou cimento. Ela foi construída com tijolos e barro para dar liga; as madeiras de lei que sustentam o telhado, inteiriças e encaixadas umas nas outras, são os únicos elementos que compõem o seu projeto arquitetônico. Chapas de ferro dão sustentação às madeiras que formam o octógono da cobertura. Sob o piso de ladrilho hidráulico, preservam-se os tijolos que compunham o antigo chão da capela (Barichello,2010). Para além do patrimônio arquitetônico, o grande destaque deste LIP se refere à produção oleira, que forneceu telhas e tijolos artesanais para toda a Colônia italiana. Assim, neste ponto o visitante poderá conhecer um pouco mais sobre a origem da indústria cerâmica local, como também sobre as características físicas de formação da argila a partir da intemperização das rochas vulcânicas locais. 4.6 Centro Cultural Bom Conselho O atual Centro Cultural Bom Conselho, surgiu como um colégio internato. A construção possui uma arquitetura de estilo neoclássico, rica em detalhes ainda preservados, colunas clássicas adossadas, frontão III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 131 marcando acesso, simetria, molduras nas esquadrias (Ruviaro, 2011). O início das atividades do colégio Bom Conselho data de 1908, quando as irmãs do Imaculado coração de Maria instalam uma escola de ensino particular em Silveira Martins. A partir de então centenas de moças provenientes de diversas regiões do Estado passaram pelo colégio que funcionava em regime de internato e externato (Pereira, 2008). Bom conselho cresce, torna-se sinônimo de excelência em ensino o espaço além de além do currículo escolar as alunas aprendiam bordados pintura música etc. Ademais, este colégio, objetivava, por meio de ações educativas, atender as exigências ideais quanto a conduta e formação das mulheres que fariam parte da elite Rio-Grandense e mudar o status dos imigrantes italianos. A partir do início da década de 80, o prédio foi alugado para o governo do estado e o colégio transformou-se na escola estadual Bom Conselho, onde permaneceu por quase 20 anos até mudar-se para um prédio próprio. Em 2002 a Prefeitura Municipal adquiriu o edifício e criou no espaço um Centro Cultural, realizando atividades como aulas de música, dança, biblioteca, museu, entre outros. A partir de 2008, o prédio foi cedido para a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde atualmente funciona um centro multidisciplinar de pesquisa e extensão, onde se pretende, no futuro, instalar um dos centros interpretativos do Geoparque Quarta Colônia. 4.7 Igreja Nossa Senhora de Pádua As igrejas têm um papel de destaque na região da Quarta Colônia, pela característica marcante de religiosidade dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil. A igreja Santo Antônio de Pádua é um dos mais belos exemplos de arquitetura. Ela foi construída em 1884 por imigrantes Italianos e inaugurada em 1920. Seu interior foi pintado na década de 50 por Ângelo Lazzarini, pupilo do pintor italiano Aldo Locatelli. Lazzarini pintou praticamente todas as igrejas da Quarta Colônia. A igreja possui sua torre cilíndrica em estilo bizantino com 42 metros de altura - a única nesse estilo na América (Stecker, 2010). A torre foi construída posteriormente à igreja, iniciando-se no ano de 1912 com projeto e fiscalização da obra pelo padre Frederico Schwinn e concluída pelo padre Antônio Bombassaro em 1921 (Barichello, 2010). Ela obedece à tradição italiana de se constituir elemento independente do corpo da igreja. No norte da Itália existem duas torres semelhantes à de Santo Antônio. Uma fica em Ravena, dedicada a Sant’ Apolinare Nuovo, construída no século IX, e a outra fica em Caorle (Veneza), datada do século XI. 4.8 Praça Central da Cidade Na praça central da cidade, antes de finalizar o roteiro, os visitantes terão a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida de dois significativos personagens envolvidos com a imigração italiana no Brasil. A praça é denominada Garibaldi, como forma de homenagear Giuseppe Garibaldi, considerado herói de dois continentes, devido à sua participação em conflitos na Europa e na América do Sul, sendo uma das mais III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 132 notáveis figuras da unificação italiana (Zanini, 2008). Na praça, no ano de 1910, foi construído e inaugurado um monumento dedicado a este personagem que, quarenta anos antes da chegada dos imigrantes da Quarta Colônia, foi comandante da marinha farroupilha, lutando pela formação de uma república sul-riograndense. Ainda no centro da praça ergue-se um monumento a Gaspar Silveira Martins, político (deputado provincial, deputado geral, presidente de província, ministro da Fazenda e senador do Império) da segunda metade do século XIX, que defendeu a vinda de imigrantes para o Brasil, especificamente para o Rio Grande do sul. O município que leva o nome do senador imperial inaugurou, no ano de 2007, um busto em homenagem aos 172 anos de nascimento de Gaspar Silveira Martins. 4.9 Ristorante La Sorella Como último ponto, e opção de local de alimentação da rota, elencou-se o Ristorante La Sorella, que possui um cardápio com comidas típicas Italiana, funcionando com trabalho familiar de descendentes de imigrantes desde 1992. O restaurante atende em dias de semana grupos de 15 a 80 pessoas, sob reserva, e em domingos e feriados. Neste local os visitantes poderão conhecer mais acerca da cultura gastronômica dos imigrantes, com degustação de salame, queijo, polenta, lasanha, galeto, sopa de agnolini e um cardápio variado de massas, além de uma carta de vinhos que inclui o vinho colonial produzido no território. Todos os produtos consumidos no restaurante são produzidos localmente e de forma artesanal, o que acrescenta uma possibilidade de aprendizado ao visitante que vai para além do paladar. A figura 4 apresenta o mapa do roteiro elaborado III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 133 Figura 4Mapa do roteiro “Caminho dos Imigrantes” 5. Considerações finais Considerando que o geoturismo realizado em geoparques está baseado em processos interpretativos de paisagens naturais e culturais, pode-se afirmar que esta integração desperta os visitantes para a necessidade de um uso sustentável dos atrativos naturais e das manifestações culturais que se apresentam no território. O projeto Geoparque Quarta Colônia apresenta uma riquíssima potencialidade para o desenvolvimento de roteiros integrados que podem permitir que o visitante conheça e interprete não apenas as características geopatrimoniais do território, como também sua história de ocupação e o patrimônio cultural que ali sobrevive a partir das suas marcas espaciais na paisagem. A partir desta aproximação dos visitantes com a natureza, a história e a cultura do território, espera-se poder despertar um maior respeito pelas heranças da Terra e da sociedade, respeito esse que é, em última instância, o maior objetivo dos processos de geoconservação atualmente em curso. A eficácia deste roteiro, portanto, deverá ser medida “pelo grau em que mudam atitudes e comportamentos das pessoas que visitam e dos cidadãos que residem no local” (Binz e Portela, 2016, p.14), já que os geoparques III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 134 não se configuram como “museus” abertos voltados exclusivamente à conservação patrimonial mas, acima de tudo, a espaços de aprendizado que buscam aliar a qualidade de vida dos habitantes e visitantes à conservação do patrimônio, promovendo o desenvolvimento local endógeno do território. 6. Bibliografia BARICHELLO, C. A. (2010). 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III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 143 Tabela I: Categorias e critérios de análise geoptrimonial do Monte M'ponduine Critério Científico 1-Raridade 2-Diversidade 3-Representatividade 4-Interesse Paleogeográfico 5-Integridade 6-Conhecimento Científico 7-Adequabilidade Pedagógico 1O geossítio data entre o Terceário e o Quaternário da formação do complexo de Pequenos Libombos. No entanto, o geossíto ainda conserva a “originalidade” do vale tectónico herdada embora seja influenciada pela erosão fluvial tornando-o profundo e estreito. 2Situa-se numa região onde a diversidade geofísica é pouco relevante caracteristicamente morfológica e litológica. Apresenta uma descontinuidade morfolófica entre planaltos e planícies com uma biodiversidade relativamente pobre 3A região representa um geossítio com caracteristicas geomorfológico originais. 4É um geossítio de formação recente com sinais visíveis de influência de meteorização física e química de pouca intensidade, tendo como catalisadores a temperatura, humidade e vegetação. 5Localiza-se numa região com elevada influência antrópica, degrau de degradação natural e relativamente insignificante 6Dadas as características já mencionadas, este geossítio desperta algum interesse para estudos geomorfológicos, porém poucos estudos de âmbito local foram realizados. 7Este geossítio encerra, no contexto da Geografia Física, conteúdos/matérias de interesse geomorfológicos importantes e possíveis de ser estudados e que possa contribuir para produção de conhecimentos e conservação escolar. Valor Patrimonial Cultural O geossítio não apresenta vestígios arqueológicos de relevância histórica. Apesar de ser um local que pode ser “adequado”, não se vislumbram práticas religiosa, espiritual e eventos artísticos. Entretanto, uma particularidade excepcional sob ponto de vista geopolítico, ele divide, simultaneamente três pais da África Austral: Moçambique, África do Sul e o Reino de Eswatine (Suazilândia). Económico Este geossítio apresenta características litológicas e climáticas favoráveis à prática agrícola, com maior enfoque para a cultura de milho. É um local de com algum interesse turístico, com uma paisagem espectacular para o turismo de cinegético, com a modalidade de escalagem. Estético Apresenta pouca diversidade paisagística espectacular, com a cor verde caracterizando o local. Porém, dada alguma interferência antrópica, apresenta alguns vestígios de degradação decorrente de prática de agricultura familiar nas encostas do monte e instalação de instrumentos de suporte à rede de comunicação. Ecológico Este geossítio apresenta baixo valor ecológico em termos da biodiversidade, onde o grupo observou Myriapoda e estrutura da vegetação arbustiva-herbacea, não são visíveis acções de conservacionistas e proteccionistas. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 144 Uso Acessibilidade Este geossítio é de acesso moderado, uma vez que o terreno é pouco íngreme. Vulnerabilidade De uma forma geral, este geossítio tem pouca pressão da acção humana. Ocorre nele a produção agrícola caracterizada pela policultura (milho, abobra, amendoim) Integridade Este geossítio é autêntico e o grau de degradação natural é lento. Protecção Neste geossítio não apresenta uma protecção legal. Visibilidade Este geossítio com visibilidade excelente. A descontinuidade uniforme entre planaltos e planícies possibilita a visibilidade da maior parte dos pontos do geossítio, onde é possível observar algumas infraestruturas habitacionais nos três países anteriormente mencionados. Intensidade de uso Este geossítio apresenta sinais relativamente de pouco uso, ou seja, verifica-se com mais intensidade a produção agrícola, mas também existência de uma via de acesso construída pela empresa que gere o equipamento de comunicação (Telecomunicações de Moçambique). Modelo adaptado a partir de Vieira & Cunha (2004) Dada a dificuldade de âmbito de escala e aliada também a escassez de estudos em torno do geopatrimónio do monte M'Ponduine, a análise da observação do geossítio mostrou fraca biodiversidade e geodiversidade dos elementos naturais e consequentemente, fraca valorização geopatrimonial e de geoconservação. No entanto, não nos distanciamos da possibilidade de se fazer o uso e aproveitamento deste geossítio. A tabela 1 permite concluir que o geossítio Monte Mponduine é pouco explorado, mas, pode constituir um local de pesquisa pois apresenta elementos importantes para exploração, objectos de estudo, para visita de estudos e trabalhos de campo para as escolas locais. A preocupação pela natureza e o ambiente ao longo dos anos tem contribuído principalmente para o desenvolvimento de políticas e medidas de conservação dos recursos naturais e sua sustentabilidade. Como salienta Ziemann (2016), a natureza é um sistema complexo, que por um lado, deve-se pensar e entendê-la de modo multidimensional, o que exige uma reflexão das relações de interdependência entre seus diversos elementos e por outro lado, na perspectiva ecológica, é onde a relação do objecto em estudo é interpretada de acordo com o ambiente cultural, econômico, político, natural e social no qual ele se integra (MORIN & KERN, 2003 citado por Ziemann, 2016). Embora se verifique pouco valor ecológico, este geossítio apresenta uma paisagem natural espectacular, muito verde com poucos vestígios de degradação natural e com um potencial geopatrimonial histórico importante do ponto de vista administrativo, isto, nele encontra-se, o limite territorial entre Moçambique, Reino de Suwatine (Suazilândia) e África do Sul, separados por uma cerca (Figura 7). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 145 Figura 7: Habitações e produção agrícola na zona de planície ao redor do Monte M’Ponduine (Extraída pelo grupo, 2019) O geossítio do Monte M'ponduine é de carácter importante do ponto de vista físico. Pode-se contemplar pequenas manchas de planície com altitudes que variam entre 100-200 metros, é nessa zona de planície onde se desenvolve com maior expressão, a actividade agro-pecuária para o auto-sustento das famílias e grande área de habitação simultaneamente, ou seja, sendo uma área rural, as habitações ficam próximas as áreas de produção, como se pode ver na imagem abaixo. Lembra-nos desse modo o facto que o património cultural, natural e histórico como salientam Cunha & Vieira (2004) prende-se com a importância que as sociedades atribuem aos diferentes bens à sua disposição. Assim, o uso e aproveitamento deste geossítio pode contribuir para abrangência da actividade económica. Deste modo, um projecto de desenvolvimento da actividade turística bem estruturada, o distrito de Namaacha pode considerar este geossítio como um ponto turístico, o que contribuirá para economia e mudança de vida da população local. 5. Considerações Finais O estudo do geossítio Monte M'Ponduine, Namaacha-Moçambique com o objectivo de verificar as potencialidades geopatrimonial e de geoconservação, os elementos geomorfológicos permitiram fazer uma análise do valor científico, estético, cultural, ecológico e económico. Pode-se concluir que o geossítio apresenta um potencial relativamente baixo ou reduzido para o desenvolvimento de acções de geoconservação, mas é importante para actividades académicas como pesquisas científicas, visitas de estudo dos alunos – na disciplina III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 146 de História (delimitação de limites administrativos territoriais) e Geografia (produção agrária e ocupação e produção do espaço na zona fronteiriça) e do desenvolvimento de actividades turísticas. O artigo constitui um esforço no sentido de contribuir para a divulgação no seio da comunidade académica sobre as potencialidades ambientais, culturais e académicas do Monte M'ponduine. 6. Bibliografia CUNHA, L.; VIEIRA, A (2004) Património Geomorfológico, Recurso para o desenvolvimento Lucal em espaços de montanha. Exemplos de Portugal Central. In: Cadernos Geografia 21/23. Coimbra FLUC. 15-28 p. INE (2017). Divulgação dos resultados preliminares IV RGPH. LÄCHELT, S. (2014) Geologia e Potencial Mineral de Moçambique. Ministério dos Recursos Minerais, Moçambique. Maputo.1556 p. MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO ESTATAL (MAE). (2014) Perfil do Distrito de Namaacha, Província de Maputo. Maputo. MOREIRA, M. E. S. de A. (1999) Formas de Modelado dos Leitos Rochosos dos Rios no Sul de Moçambique. In: Finisterra, XXXIV, 57-68 p. MUCHANDOS, A. dos. (1999) Moçambique: Paisagens e Regiões Naturais. República de Moçambique. 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III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 147 FEIÇÕES GEOMORFOLÓGICAS DO PROJETO GEOPARQUE SERIDÓ (RN, NE DO BRASIL) E SEU USO GEOTURÍSTICO Marcos Antonio Leite do Nascimento¹; Suedio Alves Meira². ¹Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Geologia, +558432153805, ca[email protected]m.br; ²Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Geografia, +558533669489, [email protected]. Resumo O Seridó Potiguar apresenta um dos mais completos e belos geopatrimônios encontrado no Nordeste do Brasil, com destaque para paisagens exuberantes (serras, picos, cânions, platôs). O Projeto Geoparque Seridó contempla os municípios de Cerro Corá, Lagoa Nova, Currais Novos, Acari, Carnaúba dos Dantas e Parelhas, com cerca de 2.803 km2 de área e uma população em torno de 133 mil habitantes. Nele são encontrados vários geossítios de importância internacional, nacional ou regional de interesses científico, educativo, turístico, além de cultural. Nestes geossítios se destaca um patrimônio geomorfológico onde o relevo está sob constantes mudanças ao longo do tempo, mostrando-se com diferentes feições. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo discutir as morfoestruturas, as morfoesculturas e as unidades geomorfológicas que caracterizam a paisagem do Projeto Geoparque Seridó. Tomando como base estudos sobre aspectos geomorfológicos no Rio Grande do Norte, identificou-se que dos sete domínios geomorfológicos descritos (i) Planícies Costeiras; (ii) Vales dos rios Piranhas e Apodi; (iii) Tabuleiros Costeiros; (iv) Baixos Platôs da Bacia Potiguar; (v) Planaltos Residuais Sertanejos; (vi) Planaltos da Borborema e (vii) Depressão Sertaneja; três estão inseridos no território do geoparque, são eles: Planaltos Residuais Sertanejos; Planaltos da Borborema e Depressão Sertaneja. Dos dezessete padrões de relevo mapeados, sete foram identificados (i) planaltos; (ii) chapadas e platôs; (iii) superfícies aplainadas retocadas ou degradas; (iv) inselbergs e outros relevos residuais; (v) domínio de colinas dissecadas e de morros baixos; (vi) domínio de morros e serras baixas; e (vii) escarpas serranas. No mapeamento geomorfológico do Estado do Rio Grande do Norte apenas uma das quatro unidades morfoestruturais foi identificada, o Cinturão Orogênico Brasiliano, já das sete unidades morfoesculturais, somente duas estão no território (i) Depressão Sertaneja e (ii) Planalto da Borborema. Na Depressão Sertaneja duas subunidades morfoesculturais, denominadas de (a) Depressão interplanáltica do Piranhas-Açu e (b) Inselbergs e Campos de Inselbergs, foram mapeadas. Já no Planalto da Borborema cinco subunidades morfoesculturais foram identificadas, são elas (a) Depressão Intraplanáltica do Acauã; (b) Compartimento Potengi-Trairí; (c) Compartimento Seridó; (d) Compartimento Monte das Gameleiras; e (e) Compartimento Serra de Santana. Por fim, diferentes geoformas são encontradas no Geoparque Seridó com destaque para as pedras do Caju, do Dinossauro, do Nariz e do Coração, as quais permitem aos visitantes não apenas contemplar a paisagem natural em si, mas também se aproximar de conhecimentos ainda não adquiridos em outros momentos. O Rio Grande do Norte possui uma área territorial de 52.811,107 km2, desses 2.803 km2 fazem parte do território do Geoparque Seridó, portanto compondo cerca de 5% do Estado. Mesmo em uma área tão pequena fica clara que as diferentes formas de relevo encontradas mostram uma ampla diversidade. Dessa forma, o levantamento acerca das feições geomorfológicas encontradas no território faz desse um palco importante para seu uso na educação e no turismo. Palavras-chaves: geomorfologia, relevo, geoturismo. 1. Introdução O relevo da Terra passa por constantes transformações ao longo do tempo, onde processos endógenos e exógenos esculpem diferentes modelados. Por se encontrar sobre a camada superficial da Terra é fácil perceber que o relevo terrestre se mostra com diferentes fisionomias, algumas mais elevadas, outras mais baixas, umas mais acidentadas, outras mais planas. Assim sendo, o ato de descrever e avaliar as formas de relevo permite com que essas porções da paisagem sejam utilizadas com fins educativos, servindo como palco para estudos em diferentes níveis do ensino ou sendo úteis na definição de áreas atrativas para o uso turístico. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 148 Na porção centro-sul do Estado do Rio Grande do Norte, conhecida como Seridó, o relevo expõe uma grande diversidade de formas. Compreender como, porque e quando elas se formaram é de suma importância para traçar medidas práticas de conservação e planejar os usos de forma sustentável, especialmente diante do fato de muitas serem únicas e particulares. Desta forma, com a chegada do Geoparque Seridó, tais informações estão sendo obtidas com o objetivo de levar esse conhecimento à sociedade e assim permitir que ela faça parte dessa história que teve início a milhares de anos atrás. Sem falar que se formos pensar na história das rochas que compõem essas diferentes formas de relevo estaríamos falando de bilhões de anos. Assim, o presente trabalho tem como objetivo central apresentar as principais características geomorfológicas do território que compõe o Geoparque Seridó, com base em publicações já existentes para o Estado do Rio Grande do Norte, lançando mão de trabalhos realizados em diferentes escalas e aspectos. 2. Materiais e métodos Os procedimentos metodológicos necessários para a realização deste trabalho envolveram os levantamentos cartográfico e bibliográfico relacionando à temática em estudo, com especial destaque aos trabalhos de mapeamentos geomorfológicos já realizados no território do Geoparque Seridó (Dantas & Ferreira, 2010; Diniz et al. 2017) e identificação e contextualização da área, com observação in loco das diferentes feições do relevo e dos aspectos geológicos, com registro fotográfico das principais características da paisagem. 3. O projeto Geoparque Seridó O projeto Geoparque Seridó localiza-se na porção centro-sul do Estado do Rio Grande do Norte e compreende um estudo técnico que serviu como base inicial para a inventariação de 16 geossítios contendo valores científico, educativo e turístico (Medeiros et al. 2017), situados nos municípios de Cerro Corá (geossítios Serra Verde, Cruzeiro de Cerro Corá e Vale Vulcânico); Lagoa Nova (Mirante de Santa Rita); Currais Novos (Pico do Totoró, Morro do Cruzeiro, Mina Brejuí, Cânions dos Apertados); Acari (Gargalheiras, Poço de Arroz, Cruzeiro de Acari e Marmita do Rio Carnaúba); Carnaúba dos Dantas (Xiquexique e Monte do Galo); Parelhas (Açude Boqueirão e Mirador). O Seridó Potiguar apresenta um dos mais completos e belos patrimônios geológicos encontrados no Nordeste, o qual é decorrente de inúmeros processos naturais a que esta região foi submetida ao longo do tempo geológico. Tendo em vista o caráter excepcional deste patrimônio geológico, associado ao aspecto cultural da região, a área proposta atende as necessidades para criação do Geoparque Seridó. O portão de entrada do geoparque, para quem vem de Natal, pode ser considerado a cidade de Currais Novos que está a 172 km da capital potiguar. Parelhas é dentre as cidades da região do Seridó, a mais afastada da capital, distando 232 km. Já a distância entre os municípios situados em pontos extremos do referido geoparque não ultrapassa os 100 km, como é o caso de Cerro Corá (extremo norte da área) até Parelhas (extremo sul). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 149 A soma das áreas que envolvem os 6 municípios do Geoparque Seridó totaliza 2.802 km2 (Figura 1) e para uma região que apresenta médios índices de desenvolvimento humano (variação de 0 a 1), população relativamente numerosa e carente de recursos, a implantação de um projeto de desenvolvimento territorial sustentável, como é o caso de um geoparque, seria mais uma alternativa de geração de renda. 4. Feições geológicas do Geoparque Seridó O território do Geoparque Seridó é formado geologicamente por um embasamento composto por ortognaisses e augen gnaisses paleoproterozoicos correlacionados ao Complexo Caicó, além de augen gnaisses paleoproterozoicos associados a Suíte Poço da Cruz (Figura 2). Figura 1: Mapa de localização do Geoparque Seridó e dos geossítios que o integram. Fonte: o autor. Posicionado de forma discordante sobre essas rochas do embasamento cristalino ocorrem rochas metassedimentares do Grupo Seridó, formadas por uma sequência neoproterozoica, compostas na base por paragnaisses, quartzitos e mármores da Formação Jucurutu, no meio por quartzitos e metaconglomerados da Formação Equador, e no topo, por micaxistos da Formação Seridó. Afetando todas essas rochas ocorrem diferentes tipos de granitóides, com destaque para as suítes intrusivas Dona Inês (granitos equigranulares de granulometria fina e cor rósea a cinza) e Itaporanga (granitos III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 150 inequigranulares, de granulometria grossa, com fenocristais de K-feldspato, de cor rósea), além de dioritos/gabros (equigranulares de granulometria fina, de cor preta a verde) da Suíte Intrusiva São João do Sabugi, todas de idade neoproterozoica. O magmatismo meso-cenozóico está representado no território por diabásio do Vulcanismo Rio-Ceará-Mirim e basaltos do Vulcanismo de Macau. Finalmente, os conglomerados e os arenitos da Formação Serra do Martins constituem a cobertura cenozóica da área. Figura 2: Mapa geológico do Geoparque Seridó. Fonte: o autor. 5. Feições geomorfológicas do Geoparque Seridó 5.1 O Geoparque Seridó no Mapa de Domínios Geomorfológicos do Rio Grande do Norte Dantas & Ferreira (2010) tomaram como base a classificação dos domínios morfoclimáticos do Brasil (Ab’Saber, 1969), para definir o relevo do Rio Grande do Norte. Este relevo encontra-se inserido em dois domínios e uma faixa de transição, descritos como (i) Domínio de Mares de Morros correspondendo aos Tabuleiros Costeiros do Nordeste Oriental; (ii) Domínio das Depressões Intermontanas e Interplanálticas das Caatingas, que é formado por quatro conjuntos de feições morfológicas principais: superfícies de aplainamento da Depressão Sertaneja; chapadas sustentadas por rochas sedimentares; serras isoladas; e Planalto da III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 151 Borborema; e intercalando esses dois domínios, existe uma importante (iii) faixa de transição morfoclimática, do litoral úmido para o sertão semi-árido, denominado Agreste Potiguar. Tomando como base a análise dos produtos de sensoriamento remoto disponíveis, perfis de campo e estudos geomorfológicos regionais anteriores (IBGE, 1995; Ross, 1985; 1997), Dantas & Ferreira (2010) definiram para o estado do Rio Grande do Norte sete domínios geomorfológicos, descritos como Planícies Costeiras; Vales dos rios Piranhas e Apodi; Tabuleiros Costeiros; Baixos Platôs da Bacia Potiguar; Planaltos Residuais Sertanejos; Planaltos da Borborema e Depressão Sertaneja, com esses três últimos inseridos no Geoparque Seridó (Figura 3). Figura 3: Mapa de Domínios Geomorfológicos do Rio Grande do Norte. Fonte: Dantas & Ferreira (2010). 5.2 O Geoparque Seridó no mapa de padrões de relevo do Rio Grande do Norte Diversos padrões de relevo podem ser caracterizados nos domínios apresentados anteriormente, como explicam Dantas & Ferreira (2010). Esses autores apresentam os diversos padrões de relevo do estado do Rio Grande do Norte, totalizando dezessete (Figura 4), que estão inseridos nos domínios morfoclimáticos. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 152 Figura 4: Mapa de Padrões de Relevo do Rio Grande do Norte. Fonte: Dantas & Ferreira (2010). A individualização dos diversos padrões de relevo foi obtida tendo como base a análise de imagens SRTM (Shuttle Radar Topography Mission), com resolução de 90 m, além de imagens GeoCover, sendo agrupadas as unidades de relevo de acordo com a análise da textura e rugosidade das imagens. A escala final de trabalho foi de 1:500.000. As feições de relevo regionais presentes no território do Geoparque Seridó estão contidas no Domínio das Depressões Intermontanas e Interplanálticas das Caatingas, sendo encontrados naquele território sete padrões de relevo, que estão representados no Mapa de Padrões de Relevo do Geoparque Seridó (Figura 5). Os padrões de relevos encontrados estão descritos a seguir. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 255 fortemente ondulado e ondulado, presente na unidade, predominam declividades acima de 20%, e em pequenas áreas a podem alcançar 39%, restrigindo-se nas encostas de declive abrupto. A conjugação destas características geológicas e topográficas associadas à outros fatores de formação, possibilitaram o desenvolvimento do Neossolo Litólico Eutrófico típico, com textura média ou média arenosa associado à Argissolo Vermelho-amarelo Eutrófico típico com textura média/argilosa. Na Unidade de Paisagem Pediplanada, os litotipos do Complexo Gnáissico-migmatítico representados por biotita-gnaisse migmatitíticos com anfibolitos e lente de quartzos, que em relação as rochas das superfícies residuais são menos resistentes aos processos intempéricos. Por tratar-se de superfícies aplainadas predominam as classes de relevo plano, que ocorre nas margens direita e esquerda do rio Arauá no alto curso, e em áreas que no passado foram alcançadas por vazões mais expressivas deste rio, demonstrando a ação erosiva fluvial. E o relevo suave ondulado que encontra-se em menor proporção, em colinas suaves, caracterizadas pelo entalhamento incipiente da rede de drenagem. Estas condições favoreceram o desenvolvimento dos Planossolo Háplico Eutrófico, os Argissolo VermelhoAmarelo Eutrófico e distrófico e os Neossolo Litólico. O Planossolo Háplico, principal tipo de solos nestas superfícies, apresenta mudança textural abrupta de arenosa a argilosa, facilitando a permeabilidade da água no horizonte superficial, nos horizontes adensados o processo de infiltração ocorre de forma lenta, provocando a concentração de água entre os horizontes, também favorecida pela baixa declividade. A cobertura vegetal original nestas superfícies, contempla o conjunto florístico da Floresta Estacional Semidecidual, atualmente representada por fragmentos isolados em processo de regeneração. Nas superfícies residuais a presença vegetacional é mais expressiva em função da baixa aptidão agrícola relacionada aos solos e a declividade. Nas superfícies pediplanadas a vegetação original se manifesta nas margens dos canais fluviais com aspectos de degradação, em outras áreas a pastagem é a cobertura vegetal recorrente. 4. Patrimônio geomorfológico e serviços ecossistêmicos De acordo com a metodologia adotada foram identificados a partir do processo de inventariação duas áreas de patrimônio geomorfológico situadas na Unidade de Paisagem Residual referindo-se as superfícies residuais denominadas serra da Pedra Branca (330 m) e serra da Pioneira (338 m), definidas como um conjunto de geoformas de dimensões variadas, ambas situadas no município de Itabaianinha no médio curso do sistema hidrográfico do rio Arauá na abrangência do Cráton do São Francisco (Figura 3). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 256 Figura 3: Localização dos geomorfossítios do sistema hidrográfico do rio Arauá/Sergipe A avaliação quantitativa destes geomorfossítios resultou, inevitavelmente, em uma síntese de informações que integra os demais elementos da paisagem como os solos, litologia e recursos hídricos possibilitando evidenciar os seus respectivos serviços ecossistêmicos (Tabela 1). Tabela 1: Matriz de quantificação dos geomorfossítios da área de estudo Valor Turístico Valor Didático Gemorfo ssítio Acessibilidade Aspecto estético Associação com elementos culturais Condições de observação Estado de conservação Potencial didático Diversidade Variedade de geodiversidade Valor final Serra da Pedra Branca 3 3 3 3 2 3 2 2 21 Serra da Pioneira 3 2 1 3 2 3 2 2 18 Fonte: Bruna Santana (2019) III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 257 A serra da Pedra Branca é uma superfície residual dissecada por inúmeros canais fluviais de primeira ordem que desaguam no rio Arauá. A diferenciação no processo de intemperização das biotita-ortognaisses tonalíticos e granodioríticos que compõe a área originou uma formação serrana com padrão irregular, caracterizada por vertentes de maior inclinação no setor sul, a presença de blocos rochosos nos terços médio e inferior das encostas sinaliza a ocorrência de movimentos de massa do tipo rolamento. Neste geomorfossítio, tem-se vista panorâmica do Pediplano Sertanejo do estado de Sergipe, intercalado por outras superfícies residuais. Assim, torna-se um ponto de observação de um conjunto de geoformas de dimensões variadas a barlavento e a sotavento (Figura 4 e 5). Figura 4: Vista panorâmica a barlavento da serra da Pedra Branca, Itabaianinha/SE Autora: Bruna Santana (2019) Figura 5: Vista panorâmica a sotavento da serra da Pedra Branca, Itabaianinha/SE Fonte: Bruna Santana (2019) A acessibilidade para a serra da Pedra Branca até o ano de 2017, era restrita a motocicletas e bicicletas, em razão das péssimas condições das estradas não asfaltadas, contudo, a melhoria e ampliação das estradas III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 258 permitiu que qualquer tipo de transporte tenha acesso ao seu ponto mais extremo. Como consequência da intervenção, afloramentos rochosos que integravam a paisagem foram soterrados no processo de terraplanagem. Em nota, a gestão municipal de Itabaianinha justificou que a serra representa um atrativo para ser explorado para fortalecimento da economia através do turismo. Em março de 2018, parte da vegetação nativa que ocupava o topo da serra da Pedra Branca foi desmatada, com perda de inúmeros exemplares de bromélias e cactáceas. Para os moradores locais, a ação facilitou o acesso dos turistas, mesmo representando uma perda para biodiversidade. Além disso, existe um projeto de âmbito municipal para construção de uma capela, uma vez que a comunidade local costuma desenvolver atividades religiosas. Anualmente ocorre a tradicional caminhada da “Quinta-Feira Santa”, estes fatos permitem associar a geoforma com elementos culturais destacando o serviço ecossistêmico cultural pelo uso da paisagem para fins religiosos e estético. Este geomorfossítio abriga também espécies arbustivas e arbóreas da Floresta Estacional Semidecidual em um fragmento vegetal que apresenta diferentes estágios de regeneração. A topografia e cobertura pedológica não favorece o desenvolvimento de atividades produtivas como a agricultura, limitando-se a pequenas áreas com pastagens sem presença de rebanhos. Os usos de maior relevância são a extração de madeira e as visitações turísticas e didáticas, por esta razão o estado de conservação foi considerado com deterioração moderada. O serviço de suporte é exemplificado pela colonização da macambira (Bromélia sp.), planta da família das Bromeliáceas, do gênero Bromélia, registrada como Bromélia laciniosa Mart. ex Schult. nas áreas com afloramento rochoso (Figura 6). Enquanto o serviço de regulação é atribuído a vegetação original que estabiliza dos solos pouco evoluídos, Neossolo Litólico, e contribui na eficiência do processo de infiltração da água. Figura 6: Aspectos da serra da Pedra Branca no seu ponto de maior representatividade turística de diádica. Fonte: Almir Brito (2019) III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 259 Diferentemente da serra da Pedra Branca, a serra da Pioneira apresenta declividades mais suave, solos com maior aptidão agrícola e diversidade no uso e ocupação dos solos. Na área verifica-se o cultivo de lavouras permanentes e temporárias no terço inferior das vertentes, pastagem no terço médio e vegetação original no terço superior (Figura 7). Figura 7: Aspectos das características morfológicas e topográficas da serra da Pioneira, Itabaianinha/SE. Fonte: Bruna Santana (2019) Considerando os critérios definidos na avaliação do patrimônio geomorfológico a serra da Pioneira apresentou excelente acessibilidade associada as propriedades destinadas a agricultura. O aspecto estético foi classificado como possui algum elemento com apelo estético, neste caso, deve-se a própria feição morfológica e a mudança na coloração da vegetação no verão quando os Ipês-amarelo (Handroanthus albus) florescem tonalizando a vegetação de amarelo. No município de Pedrinhas esse geomorfossítio é o único relevo de expressão que compõe a paisagem, facilmente observável. Em relação ao estado de conservação observou-se que o geomorfossítio possui deterioração moderada devido o desenvolvimento de atividades produtivas que repercutiu na supressão da vegetação nativa, exposição de solos a processos erosivos, principalmente em locais com declividades mais elevadas. Quanto aos valores didáticos, a serra da Pioneira enquadra-se na categoria passível de ser utilizada para fins didáticos por público de qualquer nível pela possibilidade de explorar conteúdos geológicos e geomorfológicos. É comum que os professos de escolas públicas utilizem a paisagem para trabalhar os conteúdos da Geografia Física, justamente pela alta diversidade da geodiversidade, conferindo a área o serviço ecossistêmico de conhecimento. Além deste, tem-se o serviço de provisão relacionado a cobertura pedogenética que estrutura a dinâmica agrícola no gemorfossítio. Na Unidade de Paisagem Pediplanada não foram identificados geomorfossítios, no entanto, esta superfície de aplainamento possui grande relevância ecossistêmica e social através dos seus serviços ecossistêmicos de suporte, materializado em solos bem evoluídos como os argissolos, que favorecem a inserção de diferentes III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 260 tipos de usos, como a extração mineral que também atribui a unidade o serviço de provisão que disponibiliza argila destinada a fabricação de tijolos e telhas (Figura 8). Figura 8: Áreas de extração de argila no município de Itabaianinha/SE Fonte: Almir Brito (2019) A atividade de extração mineral se manifesta predominantemente, no município de Itabaianinha, em áreas de contato com pastagem e vegetação original secundária. Esta atividade se apropria dos Argissolos evoluídos sobre Complexo Gnáissico-migmatitíco. A argila e areia extraídas são utilizadas nas indústrias de cerâmicas do município de Itabaianinha, maior produtor do Estado Sergipano. Esta atividade gera com destaque para a extração mineral destinada a produção de cerâmica vermelha, que pode gerar redução dos fragmentos da vegetação pela ampliação nas áreas de lavras e pelo uso de lenha, principal recurso energético. 5. Conclusão Com base nos resultados apresentados no trabalho, afirma-se que geomorfossítios avaliados possuem médio e alto potencial turístico e didático, de acordo com os parâmetros adotados, justificando a possibilidade de ampliar os mecanismos que impulsionam o turismo e pesquisas científicas na área. A conjugação destes dois elementos social e científico poderá ser utilizada em estratégias que tenham como prioridade a conservação da fauna, flora e recursos hídricos presentes nos geomorfossítios, e consequente dos seus serviços ecossistêmicos. É notório que as atividades produtivas desenvolvidas no sistema hidrográfico do rio Aruá, avançam sobre as superfícies residuais através da supressão da vegetação nativa e ampliação das áreas de pastagem. Nas superfícies pediplanadas os únicos locais com vegetação original são as margens fluviais do rio Arauá. Nestas áreas, não foram inventaridos nenhum geomorfossítio, contudo ressalta-se a importância dos serviços ecossistêmicos de suporte e provisão que estão comprometidos pela ação antrópica, materializada principalmente, pela extração mineral. Quanto as metodologias adotadas, reconhece-se o cumprimento do objetivo proposto e salienta-se a importância na consolidação de metodologias que possibilitam a análise da geodiversidade, do patrimônio III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 261 geomorfológico e dos serviços ecossistêmicos para serem empregadas também em planos de ordenamento territorial e na definição de unidade de conservação. No estado de Sergipe as pesquisas voltadas para os aspectos da geodiversidade ainda são incipientes, e acreditase que as pesquisas voltadas para este âmbito possam contribuir para gestão das bacias hidrográficas que constituem unidades de planejamento estaduais. Atualmente, o único documento oficial referente a geodiversidade do território é o livro Geodiversidade de Sergipe da CPRM publicado em 2017. 6. Agradecimentos A Universidade Federal de Sergipe, ao programa de Pós-graduação em geografia PPGEO, ao Laboratório de Dinâmica Ambiental e Geomorfologia (DAGEO/UFS) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de bolsa doutorado. 7. Bibliografia BRASIL. (1983). Ministério das Minas e Energia. Projeto RADAMBRASIL: folha SC.24/25 Aracaju/Recife: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação, uso potencial da terra. Rio de Janeiro, 851 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 30). BRILHA, J. (2005). 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III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 263 OS SERVIÇOS DE SUPORTE PRESTADOS PELA GEODIVERSIDADE NO CONTEXTO DOS SERVIÇOS DOS ECOSSISTEMAS Diamantino Insua Pereira1; José Brilha1; Paulo Pereira1; Murray Gray2 1Centro de Ciências da Terra, Universidade do Minho, Campus de Gualtar, Braga, Portugal; 2 School of Geography, Queen Mary, University of London, UK Resumo A natureza fornece todos os bens, condições e serviços para a manutenção da vida, das sociedades e do bem-estar humano. Muitas das abordagens públicas anunciam esses benefícios como serviços dos ecossistemas, maioritariamente ou exclusivamente prestados pela biodiversidade, ignorando a maioria dos valores da geodiversidade. Apesar desta limitação, os serviços da geodiversidade, entendidos como bens não renováveis e renováveis, condições e processos abióticos que são fundamentais para a manutenção da vida e para o bem-estar humano, devem igualmente ser enquadrados nas categorias de serviços dos ecossistemas: serviços de regulação, de suporte, de provisão e culturais. As condições físicas naturais regulam o planeta, e os minerais, rochas, água, solos e formas de relevo providenciam o suporte e os bens fundamentais à vida e ao desenvolvimento social. Por fim, os serviços culturais agregam os valores patrimoniais, como por exemplo o património geomorfológico, merecedores de especial atenção na perspetiva da conservação da natureza. Os serviços de suporte prestados pela geodiversidade estão em grande parte relacionados com a geomorfologia, quando as formas de relevo são a base essencial para a biodiversidade (serviços da geodiversidade aos ecossistemas) e atividades humanas (serviços de apoio direto ao bem-estar humano). A dinâmica da Terra é expressa por paisagens diversificadas, com planícies, montanhas, planaltos ou vales esculpidos numa grande variedade de rochas, de que resulta a variedade de habitat e a diversidade biológica. A compreensão dos processos lentos, à escala do tempo geológico, de formação e renovação do solo e em particular os processos físicos e químicos de meteorização, permite alcançar a importância da sua conservação. Também o conceito de endemismo está intimamente associado ao isolamento provocado por especificidades da rocha e do solo, pela tectónica e por imposições geomorfológicas. Também a especificidade de algumas atividades agrícolas está relacionada com a geodiversidade. O terroir, conceito hoje muito associado ao vinho, mas que também se refere ao azeite, constitui um exemplo de especialização por via da combinação de diversos fatores, com destaque para os que se relacionam com relevo, solo, rocha e clima. Resultando da interação entre processos de dinâmica interna e externa, as formas de relevo constituem o elemento estruturante da paisagem que suporta não só os ecossistemas, mas também as mais variedades sociedades e atividades humanas. Os serviços de suporte da geodiversidade fornecidos diretamente para o bem-estar humano são exemplificados pelas barragens, construídas sempre em função da rocha e do relevo que proporcionam maior segurança, menor custo e maior rentabilidade. A presença de estruturas de defesa (castelos e fortificações) e de geradores eólicos no topo das montanhas são também exemplos de serviços de suporte proporcionados pela geodiversidade. Aeroportos, pistas de esqui e muitas outras construções e estruturas superficiais estão relacionados com a geomorfologia. Outras construções são executadas em função do relevo e das rochas, com destaque para aterros sanitários, cemitérios, armazenamento de resíduos radioativos e sequestro geológico de carbono. Palavras chave: geodiversidade, serviços, ecossistemas, suporte, geomorfologia, relevo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 264 TEMA 4: CONFLITOS DO PATRIMÓNIO GEOMORFOLÓGICO NO ANTROPOCENO III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 271 Figura 03: Vegetação Campestre associada ao uso da terra através da pecuária extensiva em área de abrangência do Geomorfossítio Guaritas do Camaquã. O contexto histórico das Guaritas do Camaquã está associado às estratégias militares da Revolução Farroupilha, na qual as formas naturais que se assemelham a guaritas e casamatas (termos regionalmente utilizados para se referirem a espaços de proteção) foram utilizadas estrategicamente pelos soldados, dando origem ao nome “Guaritas” do Camaquã (Paim et al., 2010). 2.2 Procedimentos metodológicos Como base para o desenvolvimento do mapa de concentração espacial do patrimônio geomorfológico do geomorfossítio Guaritas do Camaquã, foram utilizados os dados vetoriais referentes ao mapeamento geomorfológico na escala de 1:50.000, elaborado por Santos (2016). Santos (2016) propôs um mapeamento geomorfológico de detalhe no geomorfossítio Guaritas do Camaquã, pois essa área ainda não havia sido explorada sob o viés geomorfológico de caracterização das formas do relevo que compõe a paisagem e possuem relevância sob o ponto de vista do geopatrimônio destacado por diferentes autores (Borba, 2011; CPRM, 2012). A cartografia geomorfológica é reconhecida na literatura geomorfológica como a principal técnica de caracterização geomorfológica para todas as variedades de ambientes. A proposta de cartografia das formas do relevo realizada por Santos (2016) enfatizou a morfografia, com ênfase nas feições que possuem maior evidência na paisagem, utilizando como orientação metodológica a prosposta de Cunha (2001), que, ao hibridizar duas simbologias de mapeamento geomorfológico tradicionais – Tricart (1965) Verstappen; Zuidan (1975) – propôs um mapeamento geomorfológico voltado à gestão ambiental e, portanto, adequado ao contexto da geoconservação do geomorfossítio em questão. No entanto, o mapeamento geomorfológico realizado por Santos (2016) serviu para uma caracterização geomorfológica geral, possibilitando uma leitura complexa desse arranjo de formas do relevo. Cabe destacar ainda que Santos (2016) realizou as análises de seu mapeamento geomorfológico para toda a área do geomorfossítio, mas também averiguou condições específicas de três setores (setor borda oeste, setor central III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 272 e setor borda leste) (Figura 01) definidos pelas condições lito-morfológicas da área em estudo. Por este motivo, os mesmos setores de análise foram mantidos na elaboração dos mapeamentos e para a estrutura de análise dos resultados propostos para esta pesquisa. Por se tratar de um conjunto de dados espaciais e apresentar uma compexidade na morfografia expressa por pontos, linhas e polígonos que representam as principais formas do relevo na área (Figura 04), os dados do mapeamento geomorfológico podem ser tratados dentro de um SIG e relacionados a partir do geoprocessamento, dando respostas mais específicas para a concentração espacial das formas do relevo identificadas para essa área. Figura 04: Setor Central do Geomorfossítio Guaritas do Camaquã Santos (2016). A partir dos dados referentes ao mapeamento geomorfológico de detalhe foram utilizadas ferramentas presentes na extensão SpatialAnalyst do software Arc.Gis 10.2 (Licença de uso da Laboratório de Estudos Aplicados em Geografia Física da UFPEL). Primeiramente foram selecionados os planos de informações referentes às feições geomorfológicas presentes na área em estudo: patamares estruturais, rupturas de declive (suaves e abruptas), caimentos topográficos, cristas estruturais, colos erosivos, morros residuais, formas de vertentes, linhas de cumeada (suaves e agudas) e os canais fluviais (em compartimentos de fundo de vale com seção transversal plana e em “v”). Depois de realizada a seleção destas feições, ocorreu a conversão individual dos dados vetoriais em dados raster. Essa conversão dos dados permitiu constatar a existência de áreas com expressiva concentração espacial das formas do relevo em cada setor. Para realizar a conversão dos dados vetoriais foi utilizada a ferramenta density line, onde cada uma das feições foi classificada com valores de concentração espacial que variam entre nulo (quando não há a existência de feições geomorfológicas), muito baixo, baixo, regular, alto e muito alto, de acordo com as orientações de Souza et. al (2013) (Figura 05). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 273 Figura 05: Conversão dos dados vetoriais (Santos, 2016) para dados raster no Setor Central do Geomorfossítio Guaritas do Camaquã. Nesse sentido, a representação dos dados ocorre através de um modelo matricial, onde o terreno é representado por uma matriz M (i, j), composta por i colunas e j linhas, que definem as células, denominadas de pixels (Francisco, 2014). Os valores correspondentes às classes foram definidos pelo método de quebra natural (natural break). As quebras de classe ocorrem de maneira a agrupar valores semelhantes e maximizar as diferenças entre as classes. Os valores então foram divididos em classes cujos limites são definidos onde há diferenças relativamente grandes nos valores de dados (ESRI, 2017), e referem-se às concentrações dos comprimentos de linha de cada feição selecionada. Após realizar a classificação optou-se por individualizar somente os valores alto e muito alto, a fim de representar apenas os maiores valores de concentração espacial de cada feição citada e que, portanto, são aqueles mais expressivos no que se refere à ocorrência de formas do relevo na paisagem (Figura 06 – letra A). Figura 06(A): Individualização dos valores alto e muito alto. Figura 06(B): Reclassificação dos valores alto e muito alto. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 274 Na etapa seguinte as 12 feições foram reclassificadas (reclassify), atribuindo apenas dois valores: zero (referente às classes nulo, muito baixo, baixo e regular), e um (referente às classes alto e muito alto), de forma que pudessem ser individualizadas somente as áreas com as maiores concentrações espaciais das feições geomorfológicas citadas (Figura 06 letra – B), auxiliando na orientação dos trabalhos de campo para validação inicial dos dados. Após a atribuição destes valores, foi gerado o mapa de concentração espacial do patrimônio geomorfológico a partir da ferramenta WeightedSum presente na extensão SpatialAnalystTools/Overlay, onde a soma ponderada dos valores atribuídos para cada feição possibilitou identificar a sobreposição das áreas de concentração espacial com valores alto e muito alto das feições geomorfológicas. Esse procedimento metodológico de elaboração do mapa de concentração espacial foi realizado para cada setor do geomorfossítio, levando em conta os setores individualizados por Santos (2016), tendo como objetivo avaliar as potencialidades de cada setor do geomorfossítio de acordo com a concentração espacial do patrimônio geomorfológico. Por fim, como forma de reconhecer a complexidade geral de toda a área, o mapa de concentração espacial também foi proposto para o geomorfossítio inteiro, a fim de verificar possíveis diferenças na resposta da metodologia aplicada, e com a finalidade de reconhecer peculiaridades dos setores no que se refere às suas concentrações espaciais das formas do relevo. Aliados aos procedimentos metodológicos foram realizados trabalhos de campo que auxiliaram na validação do mapeamento geomorfológico realizado na área e no reconhecimento das informações obtidas a partir das técnicas aplicadas. 3. Análise dos Resultados 3.1 Identificação e análise das áreas de ocorrência das classes alta e muito alta das feições geomorfológicas e da concentração espacial do patrimônio geomorfológico do geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS: 3.1.1 Setor oeste O Setor Oeste possui amplitudes altimétricas que variam entre 134 e 317 metros, apresentando uma hidrografia com altas densidades de drenagem associadas às áreas mais elevadas deste setor. No setor oeste algumas feições geomorfológicas ocorrem de forma mais isolada e apresentam, por consequência, menor concentração espacial dos valores alto e muito alto. São elas: os patamares estruturais, as linhas de cumeada aguda, os caimentos topográficos, as cristas estruturais e os morros residuais (Figura 07). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 275 Figura 07: Concentração Espacial das formas do relevo das classes alta e muito alta no Setor Oeste do geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS. Apesar de suas concentrações espaciais serem restritas, são estas feições que competem para a organização de complexos geomorfológicos que apresentam beleza cênica com forte potencial geoturístico. Isso porque estas feições demarcam seccionamentos bruscos ou constantes da superfície terrestre em escala local, e possuem relação direta com as áreas deste setor onde ocorrem as maiores amplitudes altimétricas (Figura 07). Esta situação compete para ocorrência de paredões rochosos e descontinuidades pronunciadas nas vertentes, evidenciando afloramentos rochosos e estratos das diferentes aloformações que ocorrem no geomorfossítio e estão sob forte controle estrutural. A organização das formas do relevo associada com a rede de drenagem pode ocasionar a ocorrência de quedas de água abruptas, confluindo em áreas de maior interesse para ações de geoconservação e práticas de geoturismo no interior do geomorfossítio. Outras feições como as linhas de cumeada suave, as rupturas topográficas suaves e os canais fluviais em compartimentos de fundo de vale com seção transversal em “V” apresentam maior abrangência dos valores alto e muito alto de concentração espacial (Figura 07), ou seja, ocorrem de forma mais espraiada. Este tipo de comportamento é esperado para estas feições, pois a presença homogênea da rede de drenagem, das linhas de cumeada e das rupturas topográficas está associada à evolução das paisagens geomorfológicas em ambientes III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 276 úmidos e condicionada à ação dos sistemas fluviais em bacias e sub-bacias hidrográficas. Portanto ambas tendem a se apresentar de forma mais densa na paisagem, se tornando as feições de maior relevância para a concentração espacial do patrimônio geomorfológico do setor oeste. A análise do mapa de concentração espacial do patrimônio geomorfológico do setor oeste (Figura 08) possibilitou a identificação de apenas quatro (04) áreas que apresentam a coexistência de quatro (04) feições geomorfológicas com concentrações espaciais altas e muito altas, sendo que este foi o número máximo de concentrações altas e muito altas coexistentes. As áreas com maior representatividade espacial destas concentrações estão destacadas pelos círculos A e B. Figura 08: Mapa da Concentração Espacial do Patrimônio geomorfológico no Setor Oeste do geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS – Brasil Estas duas áreas foram selecionadas para a análise e caracterização da concentração espacial (Figura 08). Na área do círculo A foi verificada a coexistência de densidades espaciais altas e muito altas as feições geomorfológicas referentes a patamares estruturais, colos erosivos, cristas estruturais e canais fluviais em compartimento de fundo de vale em seção transversal em “V”. Estas feições estão ligadas às maiores cotas altimétricas e também às maiores amplitudes altimétricas deste setor, onde as feições estruturais (patamares e cristas estruturais) presentes na paisagem estão associadas à organização (fortemente influenciada pelos lineamentos) e dinâmica de entalhamento da rede de drenagem (canais fluviais) e por colos erosivos, desencadeados pelos processos erosivos. Esta área é caracterizada também pelo difícil acesso às feições geomorfológicas, fator positivo, que viabiliza a conservação a médio e longo prazo das feições III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 277 geomorfológicas por estarem fora do alcance direto de turistas e protegidas das práticas agropastoris presentes na região. A Pedra das Guaritas (Figura 08 – letra B) é um exemplo de organização espacial das feições geomorfológicas nas altimetrias mais elevadas do setor oeste do geomorfossítio. Predominam feições estruturais (patamares estruturais e cristas estruturais) com até 50 metros de altura e divisores de água suaves que delimitam as subbacias inseridas no interior do geomorfossítio. A Pedra das Guaritas é a feição mais conhecida do geomorfossítio, sendo utilizada para práticas de campo e estudos de caráter científico em função da sua importância enquanto afloramento que evidencia aspectos dos conglomerados da aloformação Varzinha e o isolamento de feições residuais provocados pela ação de paleoclimas e das condições morfoclimáticas atuais. Nesta área situa-se a Sede da Associação dos Moradores das Guaritas do Camaquã, e por apresentar uma paisagem excepcional já serviu de cenário para filmagens diferentes de séries e filmes. 3.1.2 Setor central O Setor Central, diferente dos demais setores, apresenta um relevo extremamente suavizado, que, apesar da ocorrência de amplitudes altimétricas que variam entre 135 e 337 metros, não apresenta seccionamentos ou rupturas bruscas nas formas do relevo, competindo para a organização de feições fortemente arrasadas. O setor central do geomorfossítio se localiza em compartimento de fundo de vale do Arroio João Dias, que é um dos principais níveis de base regionais da Bacia Sedimentar do Camaquã. Por este motivo, esta área se encontra submetida aos processos morfodinâmicos que competiram para uma maior evolução das paisagens geomorfológicas deste setor, com consequente arrasamento quase integral de feições residuais que se encontram mais presentes nos demais setores próximos as bordas da referida bacia sedimentar. As formas do relevo, em sua maioria, indicam uma menor abrangência espacial dos valores alto e muito alto de concentração espacial das feições geomorfológicas. Ocorrem de forma mais isolada no setor central as feições geomorfológicas referentes aos colos erosivos, caimentos topográficos, cristas estruturais, morros residuais e canais fluviais em compartimento de fundo de vale com seção transversal plana (Figura 09), sendo a ocorrência desta última feição fortemente influenciada pelas áreas de deposição aluvial que se formam ao longo do Arroio João Dias e dos segmentos finais de seus principais afluentes. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 278 Figura 09: Concentração Espacial das formas do relevo das classes alta e muito alta no Setor Central do Geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS. As formas do relevo que possuem maior representatividade espacial dos valores alto e muito alto de concentração espacial das formas do relevo são os patamares estruturais, as linhas de cumeada suave, as rupturas topográficas abruptas, as formas de vertentes e os canais fluviais em compartimentos de fundo de vale com seção transversal em “V” (Figura 09). A organização espacial das feições geomorfológicas referentes aos patamares estruturais e as rupturas topográficas abruptas sofrem grande influência do aumento gradual da altimetria. Foi possível identificar também que os canais fluviais de fundo de vale em “V” encontram-se próximos às áreas com grande amplitude topográfica, evidenciando que mesmo o setor central apresentando cotas altimétricas mais baixas, a rede de drenagem possui poder de entalhe quando associada às áreas onde ocorre a presença de rupturas topográficas abruptas com grande amplitude topográfica. A análise do mapa de concentração espacial do patrimônio geomorfológico do setor central (Figura 10) constatou que as áreas de coexistência dos valores alto e muito alto das feições geomorfológicas nesse setor também são restritas e ocorrem em menor quantidade de coexistências. Foram identificadas diversas áreas que apresentam a coexistência de apenas três (03) feições geomorfológicas (número máximo de coexistência de concentrações altas e muito altas identificadas neste setor do geomorfossítio). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 279 Figura 10: Mapa da Concentração Espacial do Patrimônio geomorfológico no Setor Central do geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS – Brasil Verifica-se, em contraste com as paisagens mais representativas dos demais setores, um maior espraiamento das feições e a menor interferência das amplitudes altimétricas no arranjo espacial das feições geomorfológicas que, de forma geral, pode ser considerado como o menos representativo do patrimônio geomorfológico do geomorfossítio das Guaritas do Camaquã no que se refere à beleza cênica e às exposições dos estratos sedimentares que podem representar valores científico-pedagógicos. Para realizar a análise da concentração espacial do setor central, foram selecionadas duas áreas (Figura 10 – áreas circuladas A e B). Foram verificadas na área envolvida pelo círculo A feições referentes às rupturas topográficas suaves, colos erosivos e canais fluviais em compartimento de fundo de vale em seção transversal plana. A área envolvida pelo círculo B encontra-se sob forte influência das altimetrias mais elevadas do setor. Nessa área foram constatadas feições geomorfológicas referentes aos patamares estruturais, colos erosivos e rupturas topográficas abruptas. Mesmo sendo o setor menos expressivo referente à organização espacial do conjunto de formas do relevo, o setor central apresenta um agrupamento de feições que possui potencialidades distintas, tendo em vista as práticas geoturísticas. 3.1.3 Setor leste No setor leste, as feições geomorfológicas como patamares estruturais, linhas de cumeada suave, rupturas topográficas suaves, formas de vertente e os canais fluviais em compartimentos de fundo de vale com seção III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 280 transversal em “V” apresentam concentrações espaciais altas e muito altas mais abrangentes. Isso indica que o setor leste possui os arranjos geomorfológicos mais complexos e, portanto, com maior expressão e extensão da evidência cênica do patrimônio geomorfológico (Figura 11). Figura 11: Concentração Espacial das formas do relevo das classes alta e muito alta no Setor Leste do geomorfossítio Guaritas do Camaquã – RS. Essa diferença na predominância entre as feições geomorfológicas possui relações diretas com as maiores amplitudes altimétricas verificadas no geomorfossítio. As variações das maiores altimetrias ocorrem predominantemente em compartimentos de topo, amplamente dissecados por nichos de nascentes que seccionam divisores de água suaves. Isso faz com que as vertentes também respondam às incisões, com desenvolvimento de rupturas no declive (abruptas) que contribuem para a complexidade e concentração espacial do arranjo de formas identificadas. Os patamares estruturais possuem maior predominância nesse setor e estão dispostos de forma concentrada, conferindo beleza cênica notável na área. A partir do mapa de concentração espacial do setor leste (Figura 12) foi possível analisar a ocorrência da heterogeneidade na concentração espacial das feições geomorfológicas, onde a concentração das feições não está relacionada com as áreas de maior altimetria, mas sim às áreas de transição entre os divisores de água e III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 287 A DEGREDAÇÃO DO MANGAL NA COSTA DO SOL Rosalina Inácio Fumo Departamento de Ambiente e Desenvolvimento; Faculdade de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Pedagógica, Maputo; Mestrada em Gestão Ambiental e Doutoranda em Geografia, rosalin[email protected]m.br Resumo Os mangais têm uma história de adaptação e sobrevivência de mais de cem anos. Num passado muito distante estas plantas, adaptaram-se à água salobra e tornaram-se no núcleo ou na base da flora da floresta de mangal. O mangal da Costa do Sol estende-se desde o centro da capital moçambicana até a foz do Rio Incomáti, no distrito de Marracuene, província de Maputo, numa extensão de cerca de 30 quilómetros. A área da Costa do Sol é constituída por três espécies de mangal: Rhizophora mucronata, Avicennia marina e Ceriops tagal e apresenta vegetação esparsa e pouco desenvolvida. Constitui objectivo geralIdentificar os principais problemas e desafios à luz da legislação em vigor em Moçambique; sendo objectivos específicosMencionar as causas da degradação do mangal no Bairro da Costa da Sol; Explicar as consequências da degradação do mangal; Avaliar o estado actual de preservação e conservação do mangal e Propor medidas correctivas para mitigar o actual cenário. Para a elaboração deste trabalho científico baseou-se nos seguintes métodos: revisão de literatura, observação directa, observação indirecta e como técnica privilegiou-se a entrevista estruturada. A construção de infra-estruturas sem estudos prévios do impacto ambiental, consequências directas ou indirectas da expansão de zonas urbanas; a expansão agrícola e exploração de madeira e lenha para a confecção de alimentos, bem como a subida do mar, devido às mudanças climáticas constituem factores da degradação do mangal na área do estudo. Concluiu-se que a degradação do Mangal é resultado do abate das árvores para obtenção da lenha, estacas., varras e outros fins e não só, mas também, pelas construções de moradias. Enquadra-se no Eixo Temático Recursos Naturais, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Palavras chaves: degradação, mangal, construção, abate. 1. Introdução Uma das grandes preocupações relacionadas com o desenvolvimento da humanidade ao nível mundial, africano e em particular Moçambique, é a degradação do mangal e seus efeitos que-se traduzem em prejuízos materiais, económicos e sociais cada vez maiores. Este ecossistema que é de extrema importância para os diferentes seres vivos que nele habitam como também dele depende. Porém apesasr da sua extrema relevância esse ecossistema está em constante perigo devido as acções humanas que perigam a vida neste ambiente através da desflorestação e da urbanização. A metodologia consistiu na selecção e leitura de obras ligadas ao tema em causa que permitiu acumular informação e posterior análise da mesma. Na deslocação ao campo, para ver in loco os efeitos, tendo se usado máquinas para captar as imagens e usou se o método de entrevista estruturada para uma amostra de 350 agregados familiares. A pesquisa teve como abordagem qualitativa, embora inclua ferramenta de pesquisa quantitativa, tal é o caso da entrevista com uma amostra já que teve como foco a descrição convincente e ter sido feita por pesquisadora/narradora. O trabalho foi feito com base na pesquisa bibliográfica, observação direta e busca na internet/ A pesquisa teve como objectivo geralIdentificar os principais problemas e desafios à luz da legislação em vigor em Moçambique; sendo objectivos específicosMencionar as causas da degradação do mangal no Bairro III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 288 da Costa da Sol; Caracterizar o mangal; Explicar as consequências da degradação do mangal; Avaliar o estado actual de preservação e conservação do mangal; Localizar geograficamengte a área de estudo e Propor medidas correctivas para mitigar o actual cenário. 2. Degradação do mangal 2.1 Discussão de conceitos Vários autores realizaram estudos relacionados com este importante recurso natural. Assim, para a sustentação teórica desta pesquisa utilizou-se as ideias defendidas por esses destacados autores: FAO (1994), define o “mangal” como sendo formações características de plantas litorais, que ocorre ao longo das costas tropicais e subtropicais, que habitam numa área sujeita ao regime de marés, em litorais planos e que marca uma lenta transição entre a plataforma continental e o mar. Muanazi (1995), advoga que o mangal é composto por árvores e arbustos que se desenvolvem em certas zonas de influência de água salgada. Assim, a floresta mangal desenvolve-se na costa do litoral influenciada pelas águas do mar, o mangal pode ser ainda encontrada em estuários e deltas dos rios. DNFFB (1999), advoga que a degradação é a alteração adversa das características do ambiente, que incluem entre outras o desflorestamento, a perda de habitats, a desertificação, e a erosão. Figura 1: Mangal do Bairro da Costa do Sol 2.2 A nível mundial: Há mangais em 112 países e territórios. Os mangais situam-se, em geral, nas regiões situadas a 30 graus a Norte e a Sul do Equador. Dentro destes limites, os mangais estão largamente distribuídos, embora o seu III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 289 desenvolvimento latitudinal seja restrito ao longo das costas orientais das Américas e África. As excepções notáveis fora desta faixa encontram-se nas Bermudas, no Japão, na Nova Zelândia e na Costa Ocidental da África do Sul. Os países com maior extensão de mangal no mundo são a Indonésia e a Austrália com 2.5 milhões e 1.1 milhões de hectares respectivamente (FAO, 1994). Ao nível do continente africano, as maiores florestas encontram-se no Quénia (96 mil hectares), Moçambique (85 mil hectares) e Tanzânia (45 mil hectares) (Kulima, 1999). 2.3 A nível nacional Os mangais ocorrem ao longo de toda a costa moçambicana, com excepção das zonas sem dunas costeiras e abundantes na região norte, cobrindo uma área estimada em 400 mil hectares. As árvores de mangal existentes são a Rhyzofora mucronata (mangal vermelho), a Avicenia marina (mangal branco), a Brughiera gymnorhyza e o Ceriops tagal. (UEM) Moçambique tem a maior floresta de mangais da África Oriental. Ao sul do Rio Save os mangais ocorrem extensivamente no estuário de Morrumbene, Baia de Inhambane, Baía de Maputo (a maior) e Inhaca. As maiores florestas de mangal ocorrem no centro do país devido às consideraveis descargas de água doce de cerca de 18 rios incluindo os deltas do Zambeze, Pungué, Save e Búzi. (Micoa, 2009). 2.4 Caracterização do Mangal Nos nossos dias, os padrões de distribuição dos mangais são resultado de uma grande variedade de factores históricos e contemporâneos. Os padrões mais evidentes de distribuição e os limites latitudinais são determinados pela baixa superfície do mar, pelas temperaturas do ar e, particularmente, pelas temperaturas extremas. A pluviosidade também exerce uma forte influência na reducao da salinidade. Embora os mangais estejam adaptados a ambientes salobros e, por vezes, às mais elevadas salinidades associadas com as áreas inter-marés sobretudo nos países áridos, frequentemente reduzem o crescimento. Por ser uma espécie muito tolerante a condições extremas de salinidade e facilmente adaptável a outras condições difíceis, a Avicennia marina é a espécie amplamente distribuída, por exemplo na região Austral de África. 2.5 Na área de estudo O mangal da Costa do Sol estende-se desde o centro da capital moçambicana até a foz do Rio Incomáti, no distrito de Marracuene, província de Maputo, numa extensão de cerca de 30 quilómetros. A área da Costa do Sol é constituída por três espécies de mangal: Rhizophora mucronata, Avicennia marina e Ceriops tagal e apresenta uma vegetação esparsa e pouco desenvolvida. (Barbosa, 2001). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 290 2.6 Causas da degradação do Mangal As causas de degradação do mangal são naturais e antrópicas. 2.6.1 Naturais Os factores climáticos jogam o seu papel no processo da degradação natural do mangal apesar da flexibilidade, dinâmica e capacidade de adaptação deste ecossistema. Com efeito, a subida do nível das aguas do mar é seguida de uma reacção e resposta natural deste ecossistema, pois na ausência de barreira permitem apesar de tudo em situação de regressão, a acumulação de matéria orgânica em zonas anteriormente continentais, que poderão ser progressivamente colonizados pelo mangal. (Bangoura, 2007). 2.6.2 Antrópicas As causas antrópicas ocorrem sobretudo devido a pressão exercida pela comunidade local de 2000 a 2005 registou-se um crescimento populacional que acelerou a devastação do Mangal a procura de lenha para a venda e consumo no bairro da Costa do Sol., A queima, as construções e as práticas agrícolas são também factores que propiciam a pilhagem/degração acelerada do Mangal. Vide as figuras abaixo: Figura 2: Mangal queimado III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 291 Figura 3: Condomínios e supermercados Figura 4: Distância entre a Construção Habitacional e o Mangal A deposição de resíduos sólidos e o fecalismo a céu aberto são outras práticas levadas a cabo pela populaca neste local, contribuindo para a degradação sócio-ambiental acentuada. . III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 292 Figura 5: Deposição de resíduos sólidos no Mangal Figura 6: Latas de cerveja no chão De acordo com (Bouillon, 2009), desde os tempos remotos que o Homem vive dependente da floresta, através da caça, recolecção e prática de agricultura para garantir a sua sobrevivência. Portanto, a cobertura florestal é danificada pela extracção de combustíveis lenhosos, madeiras e outros. Durante o século passado, a floresta tornou-se o palco de privados e outros interveniente que, exercendo uma pressão sobre ela, foi se modificando e degradando-se acentuadamente . III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 293 Figura 7: Mangal degradado 2.7 Importância do mangal na protecção da área costeira e na garantia da biodiversidade marinha O Mangal é um recurso natural de extrema importância para a protecção da área costeira à erosão, ele impede o movimento de sedimentos originados pelos ventos; contribui também na reprodução de várias espécies marinhas como (peixe, crustáceos, moluscos) entre outras. Ele alimenta as águas do litoral com substâncias nutritivas e matérias orgânicas que proporcionam o melhor habitat natural para o desenvolvimento dessas espécies. FAO (1985), advoga que os mangais desempenham um importante papel como exportadores de matéria orgânica para os estuários, contribuindo para a produtividade primária na área costeira. Por essa razão constituem-se em ecossistemas complexos e dos mais férteis e diversificados do planeta, criam condições para o desenvolvimento de habitats favoráveis à fauna, ajuda a estabilizar outros ecossistemas dando extrema contribuição na manutenção da biodiversidade, por um lado. Por outro lado, a sua biodiversidade faz com que essas áreas se constituam em grandes “berçários” naturais, tanto para as espécies típicas desses ambientes como para animais, aves, peixes, moluscos e crustáceos, que aqui encontram as condições ideais para reprodução, eclosão, criação e abrigo, quer tenham valor ecológico quer económico. 2.8 Consequências da destruição do mangal O Mangal desempenha um papel muito preponderante para a vida da população e evita os efeitos ecológicos nefastos. A destruição do Mangal tem consequências muito graves pela perda da produtividade das suas florestas, baixa fertilidade do solo, diminuição da biodiversidade biológica e da qualidade do ambiente, aumento do escoamento superficial e da erosão, facto testemunhado pela figura abaixo. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 294 Figura 8: Diminuição da biodiversidade e aumento da erosão. 2.9 Caracterização geográfica da área de estudo 2.9.1 Situação Geográfica O Bairro da Costa do Sol localiza-se no extremo Sul de Moçambique no Município de Maputo, Distrito Municipal KaMavota, entre as latitudes 25º 51´ 30´´S e 25º 56´0´´S e as longitudes de 32º 37´ 0´´E e 32º 41´0´´E, tal como ilustra abaixo a figura 3. A Norte faz fronteira com o Bairro de Albazine por uma linha imaginária que atravessa uma zona pantanosa e, a Sul com o Bairro da Polana Caniço “B” pela Rua 4.500 e por uma linha imaginária que atravessa sucessivamente uma casa de construção espontânea, um caniçal, Campo de Golfe e um canavial/bananal e uma casa de construção espontânea; a Este com a Baía de Maputo incluindo as Ilhas da Xefina do Meio e da Xefina Grande; e a Oeste com os Bairros Ferroviário “B” e Laulane por meio de um carreiro, por uma linha imaginária que atravessa terrenos de cultivo de hortícolas, Ruas 4.704 e 4.695, 3 de Fevereiro pela Rua 4.695 e Mahotas por meio de um carreiro com uma área aproximada a 1974,9ha ou 19,749km2 e uma densidade populacional de 103.5km²/591 habitantes por km². (CMM/DMPUA) Limites Norte: Bairro de Albazine; Sul: Bairro Polana Caniço “B” Oeste: Baía de Maputo ;Leste: Bairro Ferroviário, Laulane, 3 de Fevereiro e Mahotas. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 295 Figura 9: Mapa do Bairro da Costa do Sol 2.9.2 Geomorfologia Para análise paisagística da Cidade de Maputo e em particular o bairro Costa do Sol, o aspecto fundamental a ter em conta é o relevo no qual são aceites e ocorrem todas as diversidades climáticas, pedológicas, vegetação, a distribuição ou assentamento urbano que permite também identificar as principais regiões com condições diferenciadas e sensíveis. Geormofologicamente, a Cidade de Maputo caracteriza-se pela ocorrência de dunas paralelas à costa plateaux, baixas e mais ou menos extensas, com declives pouco acentuados, vales estreitos e mangais (Muchangos, 1994). III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 296 2.9.3 Hidrografia A análise dos vários factores permite observar que as condições hídricas da cidade e província de Maputo se caracterizam por uma nítida diferenciação entre o período seco e o período das chuvas. Os rios Infulene, Matola, Umbelúzi, Tembe e Xandane têm uma foz comum: Estuário da Lagoa ou do Espírito Santo. 2.9.4 Solo “Na maior parte de Sul de Moçambique e em todo o litoral, os solos zonais se desenvolvem a partir de sedimentos não consolidados. São em geral solos de idade recente (quaternário) com horizontes indiferenciados e com constantes alterações no seu perfil”. (Muchangos, 1999, p. 27). Na área de estudo abundam solos de sedimentos marinhos estuarinos, argilosos cinzentos, profundos e frequentemente saturados. 2.9.5 Cobertura vegetal O clima determina o tipo de vegetação, daí que a cobertura aqui existente depende das condições climáticas num dado período, não só, porque a cobertura vegetal influência no tipo de solo. Muchangos (1999, p. 29), advoga que “a vegetação natural que de acordo com o regime pluviométrico corresponderia à da floresta aberta, foi desde há bastante tempo substituída por uma cobertura vegetal do tipo savana, destacando-se a influência antropogénica que se designou por savana em uso”. 3.Considerações finais O Bairro Costa do Sol, no Distrito Municipal Ka Mavota, sito na cidade de Maputo que, pela sua localização, sofre de problemas de degradação ambiental desde a destruição do mangal e a consequente erosão do solo. O Mangal da Costa do Sol encontra-se degradado, árvores dispersas, apresentando muitas clareiras. A degradação do Mangal do bairro da Costa do Sol é resultado do abate desregrado das árvores para obtenção da lenha, estacas., varras e outros para fins diversos. A ocupação espontânea e desordenada, a ausencia da fiscalização e controlo bem como a falta de incentivos para envolver a comunidade na gestão dos problemas identificados são as principais causas, factores associados à pobreza e o alto poder calorífico que a lenha das espécies do Mangal possui, agucca a apetência deste recurso pela população, acelerando, assim, a sua degradação. As variações climáticas que ocorrem no espaço, alteram o regime das marés e modificam o nível de crescimento e desenvolvimento do Mangal. III Encontro Luso-brasileiro de Património Geomorfológico e Geoconservação “A geoconservação no contexto do antropoceno: desafios e oportunidades” 303 PROCESSOS GEOEDUCATIVOS E VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO GEOMORFOLÓGICO DO LITORAL DO PIAUÍ, BRASIL Elisabeth Mary de Carvalho Baptista; Liége de Souza Moura; Brenda Rafaele Viana da Silva. Universidade Estadual do Piauí (UESPI); 55 86 99498-6868; E-mail: b[email protected]om Universidade Estadual do Piauí (UESPI); 55 86 98163-3955; E-mail: [email protected] Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI/Floriano); 55 86 99413-5217; E-mail: [email protected] Resumo O patrimônio geomorfológico de um determinado lugar corresponde às formas e processos associados característicos de seu modelado que são significativos para a manutenção da dinâmica dos processos naturais. As formas de relevo, como componentes da geodiversidade também carecem de serem valorizadas e mantidas enquanto conjunto patrimonial de onde se inserem. Para o litoral do Piauí, nordeste do Brasil, os estudos relacionados à Geoconservação iniciam-se a partir de Silva & Baptista (2014a,b), dentre outros, com a identificação do potencial de aplicação de estratégias geoconservacionistas para a área em questão considerando sua singular geodiversidade, tendo sido realizado posteriormente as etapas de inventariação e quantificação desta por meio dos trabalhos de Lopes (2017) e Silva (2019). No entanto, embora com a indicação de algumas ações geoconservacionistas relacionadas a processos educativos como palestras, jogos e atividades lúdicas, considera-se importante ampliar a perspectiva para a valorização das formas do litoral do Piauí através da Geoeducação, evidenciando neste estudo o valor patrimonial do modelado litorâneo piauiense. Sendo assim, o objetivo do presente artigo se constituiu em analisar a contribuição dos processos educativos para a valorização do patrimônio geomorfológico do litoral do Piauí. O procedimento metodológico delineou-se exclusivamente em torno da pesquisa bibliográfica tanto no que se refere à fundamentação já consolidada sobre patrimônio geomorfológico, geoconservação e geoeducação, bem como na análise dos estudos realizados no contexto do litoral piauiense em relação às possibilidades de implementação de estratégias geoconservacionistas, não sendo propósito deste trabalho a aplicação destas. Constatou-se, a partir dos estudos já realizados na área em questão, que se destaca a indicação do Geoturismo enquanto estratégia geoconservacionista para o litoral piauiense, associado às suas atividades inerentes já reconhecidas como trilhas interpretativas, paineis interpretativos, folhetos, cartões postais, entre outras. O trabalho de Lopes (2017) acrescenta o emprego de jogos e atividades lúdicas e o de Baptista & Lima (2019) sugere roteiros didáticos específicos para o desenvolvimento de atividades geoeducativas no sentido do conhecimento e valorização da geomorfologia do litoral do Piauí. Deste modo, entende-se que a Geoeducaçao e/ou a educação geomorfológica podem ser instrumentos importantes para a valorização do patrimônio geomorfológico do litoral do Piauí. Palavras-chave: patrimônio geomorfológico, geoeducação, litoral do Piauí. 1. Introdução Os estudos relacionados à Geoconservação para o litoral do Piauí, nordeste do Brasil, iniciam-se a partir de Silva & Baptista (2014a,b), dentre outros, com a finalidade de identificar para este espaço potencialidade de aplicação de estratégias geoconservacionistas por conta das particularidades de sua geodiversidade, destacando-se as feições geomorfológicas. Posteriormente os trabalhos de Lopes (2017) e Silva (2019) empreenderam com a aplicação das etapas de inventariação e quantificação, expandindo a possibilidade do processo de geoconservação para a área. No entanto, embora alguns estudos já tenham promovido o indicativo de ações geoconservacionistas relacionadas a processos educativos como palestras, jogos e atividades lúdicas, considera-se importante ampliar a perspectiva para a valorização das formas do litoral do Piauí através da Geoeducação, evidenciando neste estudo o valor patrimonial do modelado litorâneo piauiense. [Document text truncated for crawler view.]