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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Maria Teresa dos Santos Borges A Poesia em Tempo de Pandemia (Manuel Alegre e Nuno Júdice) outubro de 2023 UMinho | 2023 Maria Teresa dos Santos Borges A Poesia em Tempo de Pandemia (Manuel Alegre e Nuno Júdice)
Maria Teresa dos Santos Borges A Poesia em Tempo de Pandemia (Manuel Alegre e Nuno Júdice) Dissertação de Mestrado Mestrado em Literaturas de Língua Portuguesa Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Sérgio Paulo Guimarães de Sousa Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas outubro de 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Ao Professor Sérgio Guimarães de Sousa, pela sua disponibilidade, paciência, orientação e constante motivação. As suas palavras foram fundamentais para a execução deste trabalho. Aos meus filhos, Miguel e Sofia, por todo o carinho e compreensão, pela preocupação e incentivo, por fazerem de mim uma pessoa melhor. A ti, Luís Carlos, por acreditares em mim, apoiares e seres companheiro desta jornada que é a vida. À minha mãe, por todo o seu apoio, pela sua insistência em terminar um objetivo esquecido. À Paula Cruz, colega e amiga, que me fez voltar a um projeto. Ao meu pai e avós maternos, ausentes da vida terrena, presentes no amor eterno…
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, outubro de 2023
v RESUMO No contexto pandémico, o mundo da poesia e da literatura foi, também, apanhado de surpresa. Se noutros tempos, de outras guerras com inimigos visíveis, os poetas ergueram a sua espada e combateram o inimigo, desta vez o adversário era outro: um vírus invisível e silencioso. Em julho e novembro de 2020 Nuno Júdice e Manuel Alegre editaram, respetivamente, um livro de poesia - Regresso a Um Cenário Campestre e Quando . Dois autores que confluíram para um ponto comum: a pandemia. E se Júdice mantém características, traços da sua estética - os cenários outonais ou crepusculares - conjugando-os com a nova realidade, com um regresso campestre que se espera revigorante e promissor, Alegre não canta o seu “país de abril”, mas um país “cinzento”. As referências a grandes figuras literárias e/ou mitológicas dão continuidade a uma linha temática do autor e o modo como vê o mundo e o seu país revelam uma dimensão antiépica (de um eu angustiado perante um presente avassalador, embora convicto de que “a poesia é poder”). Palavras-chave: Manuel Alegre, Nuno Júdice, palavra, pandemia, poesia.
vi ABSTRACT During the pandemic, poetry and literature were also caught by surprise. If in past times poets raised their swords and fought against visible enemies, this time the enemy was another: an invisible and silent virus. In July and November of 2020 Nuno Júdice and Manuel Alegre published, respectively, one poetry book – Regresso a Um Cenário Campestre and Quando . Both authors converged to a single common point: the pandemic. While Júdice keeps traces of his aesthetic – scenes of Autumn and twilight – combining them with the new reality, with a bucolic return which awaits rejuvenating and promising, Alegre does not proclaim his “country of April” anymore, but a “grey” one. References to major literature figures and/or mythological ones give continuity to a thematic line of the author, and the way he sees the world and his nation reveals an antiepic dimension (of a disturbed self before a crushing present, although convinced that “poetry is power”). Keywords: Manuel Alegre, Nuno Júdice, pandemic, poetry, word
vii ÍNDICE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 1 1: MANUEL ALEGRE: A VOZ (ANTI) ÉPICA DA RESISTÊNCIA ..................................................... 7 2: QUANDO O PRESENTE EVOCA O PASSADO NA INCERTEZA DO FUTURO ............................ 16 3: NUNO JÚDICE - A INEVITABILIDADE DO POEMA ................................................................. 24 4: O REGRESSO DA LUZ E A FORMA DAS SOMBRAS .............................................................. 32 5: PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM ALEGRE E JÚDICE .................................................... 40 CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 45 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................ 51
7 CAPÍTULO 1: MANUEL ALEGRE: A VOZ (ANTI)ÉPICA DA RESISTÊNCIA MA inicia a sua atividade em 1965 com a publicação de Praça da Canção (PC) , obra que não agradou ao regime político e foi alvo de censura. Segundo Eduardo Loureço (2000: 32), este primeiro livro “o sagra e consagra como «poeta da resistência», desarmado e armado de provocadora impaciência”. De acordo com as palavras do próprio poeta “a circunstância histórica em que vivi me levou, em certo, a dizer não. E a dizê-lo em verso, segundo um certo ritmo, uma certa toada, certas correspondências de sons e imagens. E nem tanto por um movimento de consciência, mas sobretudo por um impulso, uma energia, uma certa relação mágica com o mundo” (Alegre, 1999: 27). Esta relação intrínseca entre o eu e o mundo será, assim, o ponto de partida da poesia de Alegre, imprimindo-lhe um cunho de subjetividade (“… la distinction d'un sujet lyrique ne semble nullement incompatible avec l'idée que la poésie a malgré tout affaire avec la vie, qu'elle puisse dans le fond autobiographique. c'est parce que la poésie lyrique est l'expression de l'expérience vécue - erlebnis - affranchie des contingences de l'anecdote, dans laquelle le singulier reencontre l’universel…” – Rabaté, 2005:60). Não obstante o poder do lápis azul, cedo os seus poemas, pelo teor, pela mensagem e estrutura, foram passando de voz em voz, no seio académico, e perpetuaram como um hino à liberdade. Partindo da sátira, presente na nossa literatura desde a lírica trovadoresca, Alegre enaltece um Portugal perdido, um passado glorioso de luta e perseverança (lembrando os ideais do Romantismo). O poder da palavra, a cada sílaba, conferiu ao seu texto um pendor que se aproxima da epopeia pela grandiosidade da mensagem veiculada. É através da palavra e da sílaba que o poeta espera que o país se salve e, tal como Eugénio de Andrade no poema “A Sílaba” (2018: 16), o jovem poeta vê na palavra a salvação. Há neste livro o “atrito” adotado por Eiras (2007: 18): embora o poema não informe, está a informar, embora o poema não comunique, será através das suas palavras que o poeta comunica: num poema, as palavras, os sons, as matérias que se dirigem aos tímpanos não se seguem numa autoestrada de informação, não constituem um débito de saberes (nem, claro, um crédito que assegure qualquer futuro rentável). As palavras e os sons surgem em solidões salvaguardadas. Se a prosa estende o novelo a uma velocidade alucinante, a poesia deixa as palavras em ilhas e pede que nademos de praia para praia. Os pulmões do nadador trabalham contra as ondas.
8 Esta especificidade da palavra poética, conferiu a MA e aos seus dois primeiros livros de poesia - PC e O Canto e as Armas (OCA) - um estatuto irreversível. Estas palavras perdidas em “ilhas”, que ainda hoje não são “perdoadas” (como referido por Mário Cláudio ao próprio poeta), perduraram na sociedade e cultura portuguesa pela diferença da mensagem. Estes livros rompiam com o poder politicamente instituído, versavam o quotidiano, numa análise subjetiva e pessoal da realidade (Guimarães, 1999: 130), característica do pós-modernismo. O poeta olha para a realidade, descreve-a, interpreta-a e aponta soluções para o que o circunda, através de uma perspetiva patriótica que não se coadunava com a instituída, mas estaria em consonância com a popular. Embora o tema da guerra colonial seja o focus dos dois primeiros livros deste autor, não será intenção do poeta ser historiador. A poesia surge acima da história, na medida em que não narra apenas o que sucedeu, mas o que poderá acontecer, atendendo ao contexto histórico que se estava a viver. Desta forma, a palavra poética adquire um pendor filosófico (Aristóteles, 1992: 115), pois universaliza os acontecimentos. Esta poesia de MA nasce durante um contexto político e social de conturbação, em que os jovens emigravam e/ou eram recrutados para pugnar nas colónias do continente africano em nome da pátria e da nação. A força da poesia quebra barreiras, vai além da força política e policial da restrição. Os seus poemas convivem, desde a sua origem, com a canção de intervenção, “existente no nosso país desde sempre” (Letria, 1978: 27). Foi num contexto de revolta e descontentamento que a poesia saltou dos livros, não permitindo que a censura vencesse e apagasse a palavra poética. A poesia de MA, nomeadamente dos seus dois primeiros livros, ganha projeção quer através de folhetins panfletários, quer através do canto oral, passando a ser conhecida e reproduzida no seio académico de Coimbra (Letria, 1978: 34): «O trabalho criado por José Afonso [a canção de intervenção] vai abrir portas a novos intérpretes e autores. Em Coimbra irá surgir, alguns anos mais tarde, Adriano Correia de Oliveira, estudante de Direito, natural de Avintes. Será um dos mais destacados intérpretes do Fado de Coimbra, optando depois por musicar textos de Manuel Alegre e de outros poetas que, ao longo do tempo, integrados na luta estudantil, erguiam a voz contra o fascismo.». O “desprazer de uma situação de perigo, a situação de angústia” (Blomm, 1991: 72) em que o poeta se encontrava foi transmitida através de poemas próximos da tradição oral pela sua métrica e estrutura, e consequentemente próximos do povo, atingindo o leitor de uma forma quase magnética.
9 Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. (Alegre, 2000: 119) O poema “Trova do Emigrante” torna-se neste contexto “um hino e uma mensagem de confiança dirigida às centenas de milhar de trabalhadores que deixam a pátria para procurarem em terras madrastas melhores condições de vida” (Letria, 1978: 35). “Trova do Vento que passa”, eternizada em primeira instância no seio académico por Adriano Correia de Oliveira e posteriormente por nomes como o de Amália Rodrigues, contesta o regime político da ditadura e assume a posição dos que, como o poeta, dizem «não». Esta negação não passava apenas pela posição contra o regime político. Seria também um «não» que pretendia dizer «sim» à independência das colónias, à Liberdade. E foi a este conceito de «Liberdade» que desde o início da sua produção poética que MA foi fiel. Aliás, no seu discurso, aquando da atribuição do Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Pádua, a 26 de novembro de 2017, o poeta afirma: “Posso apenas dizer que fui sempre fiel à liberdade. Lutei por ela, vivi e sofri por ela, por ela escrevi cada verso, cada palavra. Pela liberdade do meu país e pelo direito dos povos colonizados à autodeterminação e à independência” (Alegre, 2017). A dor provocada não atinge apenas o eu e o nós. O próprio país, apodrecido com tudo o que viveu, com os sonhos que teve, com as batalhas que travou, une-se numa dor de novecentos anos: Estar aqui dói-me. E eu estou aqui há novecentos anos. Não cresci nem mudei. Apodreci. Doem-me as próprias raízes que criei […] Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos. Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome. Eis-me tal como sou há novecentos anos Em que não sei escrever sequer o próprio nome (Alegre, 2000: 66-67)
10 Assim, porque consciente da força da palavra, o poeta torna a sua voz coletiva, dando projeção aos que, como ele, se opunham ao rumo de um país que se encontrava à deriva. Dos homens falo. Não sei dos mitos. Homens de mil trezentos e oitenta e cinco Esperando em mil novecentos e sessenta e três A verdadeira independência do país. Dos homens falo. Suas tragédias, seus ritos Sua maneira de perder e seu afinco Em tentar mais uma vez. E ficam uns em Sagres outros vão para os Brasis. (Alegre, 2000: 71) É a partir do mundo exterior a que o poeta não é alheio que o poema acontece. No fundo, é porque o acontecimento existe que a produção poética nasce: O acontecimento exterior, quando está presente num texto lírico, permanece sempre literalmente como um pretexto em relação à estrutura e significado desse texto: o episódio e a circunstância exteriores podem funcionar como elementos impulsionadores e catalíticos da produção textual, mas a essencialidade do poema consistirá, graças à fulguração da palavra, na emoção, nas vozes íntimas, na meditação, na ressonância mítica e simbólica, enfim, que tal episódio ou tal circunstância suscitam na subjetividade do poeta (Silva, 1991: 584) A vida do eu é, neste contexto, o ponto de partida para a expressão poética e o poeta transforma a sua voz na voz dos outros, “porque sai de si” assumindo-se como a já referida “voz coletiva” (Morão, 2005: 12). A função poética de crítica e simultaneamente de esperança, tão presente na geração de 70, é retomada por este poeta que surge antes do maio de 68 e da revolução de 75. No entanto, o «novo Camões» que desde o início se impõe, com referências à grandiosidade lusa de outrora, luta, não por “um livro a nado” (Verde, 2001: 124), mas por um país que se esconde e foge, luta além fronteiras, através daqueles que buscam a paz e a esperança perdida. É um jovem poeta que simboliza todos os jovens de um país à deriva, que verbaliza, através da palavra escrita, o sofrimento, a angústia, e simultaneamente a esperança de um povo amordaçado a uma ditadura. O poeta tem consciência do poder transformador que as palavras possuem e desde logo «informa» que não se deixará silenciar.
11 E é inútil mandarem-me calar. De certo modo sou um guerrilheiro que traz a tiracolo uma espingarda carregada de poemas ou se preferem sou um marinheiro que traz o mar ao colo e meteu um navio pela terra dentro e pendurou depois no vento uma canção. (Alegre, 2000: 60) O poeta-soldado-marinheiro representará a voz, que o vento leva, de todos os que não concordam com a guerra colonial, dos que sofrem com a separação e que não se reveem no caminho politicamente definido para o país. Poeta da resistência, de abril, exalta valores como a liberdade e a paz, o que confere à sua obra um pendor de hino. Este jovem poeta, estudante de Direito na Universidade de Coimbra, “ergue a voz” (Quental, 1987: 52), escreve para ferir e para agir, criticando, por um lado, mas exaltando e enumerando, por outro, a História e o percurso que se poderá fazer para não continuar no caminho da estagnação. É o “soldado do Futuro” (Quental, 1987: 52), que usa a poesia e as palavras como arma de combate. A posição que o poeta MA assume é neste contexto paradoxal: critica a guerra colonial, mas assume uma posição bélica e de combate (Carvalho, 2006: 155). Que o poema diga o que é preciso Que chegue disfarçado ao pé de ti E aponte a terra que tu pisas e eu piso E o poema diga: o longe é aqui. (Alegre, 2000: 248) O D. Sebastião da epopeia camoniana (aquele a quem camões dedica o seu poema) é agora o povo português, simultaneamente herói, que terá que (re)definir o seu caminho e encontrar o seu rumo, lutar pelo seu sonho e pela sua Liberdade. MA dirige-se a um povo que sofre, explorado e enviado a lutar, não “por mares nunca antes navegados” (Camões, 1995: 59), mas por colónias
12 conquistadas durante os descobrimentos exaltados pelo poeta quinhentista. É ao povo português que “lava no rio” (verso de Pedro Homem de Mello imortalizado por Amália Rodrigues), que emigra e vai além das fronteiras em busca da Terra Prometida, de uma nova vida, que se dirigem as palavras de afeto, alento e consciência, numa tentativa de ferir e atingir os governantes, para conquistar a desejada mudança . “É a Hora!”, como exaltou Pessoa no último poema da Mensagem (1993: 120), de as palavras ganharem voz e de a canção do poeta ser “como um navio” (Alegre, 2000: 64). Esta missão poética, em que o “eu é poema” (Lourenço, 2000: 33) atribui à poesia de MA uma dimensão épica. Todavia, e não obstante esta dimensão, a poesia de Alegre nasce no sentido oposto à epopeia camoniana e em linha com o Portugal de Fernando Pessoa. Camões, no seu tempo, canta as glórias de uma nação que se fez Império, daqueles que contribuíram para a grandiosidade do país. Já Pessoa evoca um “Império que se desfez” e um país que “falta cumprir” (Poema «Infante»), depois de um período áureo e de riqueza. Em MA a poesia nasce a partir de um contexto social, político e pessoal, de completa descrença e desorientação popular. O V Império Português ainda não se cumpriu. Os poemas de PC versam um herói que após várias façanhas e dificuldades atingirá os desejados objetivos. Aquando da publicação da sua Poesia Completa (2000), MA publica o poema “Dedicatória”, onde expressa o seu interlocutor e a sua intenção poética: Darei ao povo o meu poema. Eu lhe darei a flor e a pedra Cada minuto cada tristeza Uma azagaia contra a dura sorte A minha raiva acesa a cada noite. Eu lhe darei a flor e a pedra. E a minha vida. E a minha morte. (Alegre, 2000: 57) Através do paradoxo “dura sorte”, que poderá ter uma dupla interpretação («dura» com significação de «sofrida», ou «que perdura»), o eu assume-se como detentor de uma “raiva” que não se calará e será levada até às últimas consequências. Entrega-se a um povo com quem comunga a “sorte”. É a este Povo português que o eu se alia desde 1965 através da força e do significado das palavras, dando-lhe a voz perdida. Ao longo da sua produção poética, MA,
13 consciente “da energia e da força da palavra poética” - tal como referiu no discurso proferido aquando da apresentação da versão definitiva e comemorativa dos 50 anos de OCA (2017) - usa a poesia para atingir, ferir e alertar para o caminho da salvação e liberdade. O poeta assume que vem para “incomodar”, para “transform[ar] destinos” e “plant[ar] espadas”, sendo, como o próprio diria de modo lapidar, “inútil mandarem-me calar” (Alegre, 2000: 60-61). Esta “epopeia frustrada” (Lourenço, 2000: 37) não canta o país glorioso que os navegadores levaram além-mar, canta um país que terá de olhar para dentro, que terá de se desmistificar e perceber que o futuro está em si. A “antiga pátria heróica” (Lourenço, 2000: 37) não aprendeu as lições do passado, continuando a impor a sua força e vontade num colonialismo inconsciente, “Até quando? Até quando?” (Alegre, 2000: 230). Este canto, que em 1967 se materializa em OCA , exalta, tal como o poeta quinhentista ou Pessoa, um país que poderá haver. Este Portugal do século XX difere do Portugal das Descobertas. A “Ilha dos Amores”, os “beijos merecidos da verdade” (Pessoa, 1993: 75), a glória nacional, estará em assumir o que está errado, em seguir um novo rumo e admitir que outras nações existem e são independentes. O Portugal que “falta cumprir” na epopeia pessoana continua, na segunda metade do século XX, na sua “gesta inglória” (Carvalho, 2006: 25). A poesia de MA estabelece, desta forma, uma relação de “atração-repulsa” (Carvalho, 2006: 19) com a epopeia. Os acontecimentos narrados confluem para uma intenção final, engrandecem o poema e, se por um lado se repudiam os ideais nacionais e o rumo que a história do país segue, por outro, essa mesma nação é exaltada e anuncia-se a salvação a partir dela própria. Se se anuncia o destinatário do canto – “Cantarei o homem criador crucificado/em suas máquinas. Caçador caçado/por suas armas. Tocador tocado por suas harpas” (Alegre, 2000: 228) –, anuncia-se igualmente a podridão que se instalou – “Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca” (Alegre, 2000: 230). Na verdade, ao anular-se a importância do(s) mito(s), mitificase a própria pátria cuja raiz se considera perdida. Não mais Alcácer Quibir. É preciso voltar a ter uma raiz […] Não mais navios a partir para o país da ausência.
14 É preciso voltar ao ponto de partida é preciso ficar e descobrir a pátria onde foi traída não só a independência mas a vida (Alegre, 2000: 187) Neste sentido, a relação antitética entre a grandiosidade de uma nação e os seus defeitos e desventuras bebe influência da epopeia camoniana. Lembremo-nos das reflexões onde o poeta alerta D. Sebastião, inicialmente designado de “bem nascida segurança/Da Lusitana antígua liberdade,/E não menos certíssima esperança/De aumento da pequena Cristandade;” (Camões, 1995: 61), e o Portugal do seu tempo para a pouca valorização das artes, para a cobiça e para o poder do dinheiro, por exemplo. Citemos o Velho do Restelo, que após a partida das naus em Belém acusa os portugueses de partirem em busca da fama e da glória. É na voz do Velho do Restelo que Camões alude às mortes, às famílias separadas e à busca desenfreada da fama, do mesmo modo que no poema “E o bosque se fez barco há a referência à colheita de um “fruto nunca semeado” (Alegre, 2000: 170), metáfora para a ditadura vivida no país: —"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça C'uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas! (Camões, 1995: 218) A dor provocada não atinge apenas o eu e o nós. O próprio país, apodrecido com tudo o que viveu, com os sonhos que teve, com as batalhas que travou, une-se numa dor de novecentos anos:
15 Estar aqui dói-me. E eu estou aqui há novecentos anos. Não cresci nem mudei. Apodreci. Doem-me as próprias raízes que criei […] Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos. Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome. Eis-me tal como sou há novecentos anos Em que não sei escrever sequer o próprio nome (Alegre, 2000: 66-67) Se PC e OCA surgem num contexto nacional de guerra colonial (em que o povo, pobre, com dificuldades, sem esperança era ministrado por aqueles que o governavam), Quando em 2020 surge num contexto de «desorientação» mundial pelas vicissitudes de uma pandemia. É também o medo, a angústia e a incapacidade nacional e mundial que impelem o poeta para um novo livro. A crítica política passa a fronteira nacional e atravessa o Atlântico.
16 CAPÍTULO 2: QUANDO O PRESENTE EVOCA O PASSADO NA INCERTEZA DO FUTURO Dividido em X partes, Quando ( Q) lembra, desde logo pela estrutura externa, a epopeia camoniana. Se, em Praça da Canção e o Canto e as Armas, cada uma das partes contém poemas cuja temática engloba o título, este único poema, com a divisão apresentada, mantém uma linha temática construída através de sucessivas interrogações, de vários tempos e atores que se cruzam. Já Aristóteles distinguia epopeia de tragédia, conferindo à primeira a narração de muitas ações. Mas na epopeia, porque narrativa, muitas ações contemporâneas podem ser apresentadas, ações que, sendo conexas com a principal, virão acrescer a majestade da poesia. Tal é a vantagem do poema épico, que o engrandece e permite variar o interesse do ouvinte, enriquecendo a matéria com episódios diversos; (Aristóteles, 1992:140) Partindo desta definição, Quando será um novo poema épico. O poeta parte duma constatação “Estou e não estou em lado nenhum” (parte I) sendo, ao longo da sua narração, evocados vários episódios que se cruzam e lhe conferem um tom grandioso. Episódios como as conversas entre Dª Etelvina e Dª Eduarda, o dia a dia da cidade, as alterações climáticas, ou as reminiscências da guerra, não surgem de forma despegada, mas com uma articulação que culmina no questionar da função da poesia na atualidade. Aliás, será esta a questão que abarca o poema: como dar à poesia a função revolucionária perdida na atualidade. Para Quando o tempo em que o poema se solta da prisão que encerra a palavra, emparedada em números e estatística (vistos e analisados diariamente sobre a pandemia)? O mundo encontra-se, no momento da escrita, demasiado ligado às questões numéricas – número de infetados, número de mortos, previsões para o(s) dia(s) seguinte(s), despegando-se da arte literária, do saber, da cultura, do pensamento e ação. A analogia estabelecida com Nelson Mandela na VII parte (evocado através do ator Morgan Freeman), com a sua perseverança e resistência (“Sou o capitão da minha alma” – verso de Wiliam Ernest Henley que terá motivado o antigo presidente da África do Sul enquanto prisioneiro) inspira o poeta e fá-lo associar-se a Gilgamesh, cujos escritos perduraram até à atualidade - “Talvez eu seja um poeta arcaico/Sou primo de Gilgamesh” - Q, 19). A arte de cantar precisa de ser revigorada e MA questiona o modo como, neste novo tempo, a poesia poderá ter a força de outrora. Por outro lado, essa visão menos positiva do presente, a aparente inexistência de esperança para um mundo que mudou muito, mas permanece igual, confere ao poema o tom
23 revigoração. Este longo poema de MA surpreende o leitor, traz uma nova faceta que inquieta e deixa em suspense a próxima produção.
24 CAPÍTULO 3: NUNO JÚDICE - A INEVITABILIDADE DO POEMA A poesia de NJ surge num contexto em que várias tendências literárias do século XX convergiam. Em 1972 o poeta edita dois livros: A Noção de Poema (ANP) e O Pavão Sonoro (OPS). Logo neste ano o poeta “afirmava-se já como uma voz singular pela criação de um universo imaginário único que se traduzia na utilização de um discurso próprio” (Almeida, 2000: 34), com uma estrutura narrativa próxima das Odes de Álvaro de Campos, onde “se adivinhava o desejo de contar uma história” (Almeida, 2000: 35). É através de uma “essencial discursividade” (Guimarães, 1989: 38) que o poeta se afirma no seio literário. Numa época politicamente conturbada, em que a poesia servia de “arma de combate”, NJ lembra os poetas românticos e simbolistas, através das imagens de que parte para escrever o seu poema. Não obstante a referência à guerra colonial no seu primeiro livro, através do poema “Esperando por Mathias Ferguson, morto com o seu regimento” (2000: 77), o poeta não torna esta a temática principal. Segundo palavras do próprio poeta, este poema faz parte do seu primeiro livro “porque não era indiferente àquilo que estava acontecendo em Portugal nesse tempo da ditadura”. (Júdice, 2023: 69). Todavia, será o ato de escrever poesia e a sua conceção que ocupa as páginas deste primeiro livro, “numa interrogação atenta do enigma de escrita” (Almeida, 2000: 44). De facto, é de poesia que este primeiro livro trata, da sua relação com o mundo e da forma como o poeta perceciona o Poema. Partindo do conceito Aristotélico de Poesia , esta, como a epopeia e a tragédia, imita “com o ritmo, a linguagem e a harmonia, usando estes elementos separada ou conjuntamente” (Aristóteles, 1995: 103). O poeta não nega a influência dos que o antecederam (próximos e distantes) e evoca-os. Mas não pretendia fazer uma poesia militante, que outros tinham feito e faziam com eficácia. O que pretendi foi trazer a revolução para o plano da própria invenção poética, problematizando as questões que surgiam do facto de pensar a poesia enquanto a escrevia e introduzindo temas que vinham na sequência de poetas que me marcaram: Jorge de Sena, com a relação entre o poema e a pintura, Ruy Belo, com a poesia e a história enquanto fonte de mitos, Sophia com a importância da dicção para sentir a música no poema. (Júdice, 2022: 15) É assim, “sob a pressão da História e da tradição” (Barthes, 2006: 19), que este poeta surge, apresentando o seu canto com uma interrogação que, juntamente com o título do primeiro poema, indicia a dúvida a que estará a tentar responder: “Como iniciar o canto, a homenagem às
25 cidades imprevisíveis do continente/fulgurativo?” (Júdice, 2000: 57). A “interrogação atenta ao enigma da Poesia” (Almeida, 2000: 44) vem desta forma atribuir uma nova visão ao ato de a escrever, à perceção da palavra poética e ao papel das influências literárias na produção poética. O Poeta concebe, desta forma, a escrita como “um ritual antigo” (Almeida, 2000:43), e através do poema questiona a vida atribuindo aos poemas novas características. Através do ato contínuo de questionar e explicar o passado, a poesia ganha outra dimensão, filosofando acerca da importância da vida, da inevitabilidade da morte e dos seus significados. Penso que, sem desassossego e sem inquietude, não há literatura. Não significa que sem angústia, sem infelicidade, não se pode escrever, mas nem sempre a felicidade é sinónimo de poesia. É sempre a partir de uma interrogação, de uma dúvida, da tal inquietude que o poema nasce, que o texto aparece. E escrevê-lo é, de certo modo, uma catarse, uma forma de libertação. O que tem a ver também com a memória, porque no fundo ir à memória é encontrar aquilo que se perdeu, e é muitas vezes esse sentimento de perda que está muito na base do que se escreve. (Júdice, 2023: 72) Para NJ a poesia terá assim uma dimensão filosófica e transcendente. Ela existe em todos os momentos da vida humana, sejam de felicidade ou infelicidade, em momentos associados à vida ou à morte. A poesia acompanha o percurso humano e pretenderá libertá-lo das suas inquietações e dúvidas. O poema terá a missão de dar cor à vida, de dar a sonoridade correta às palavras. Poema! – suspende o impulso ártico da nomeação! Tu bordarás a descrição púrpura de uma flor libertadora. Os teus lábios fechar-se-ão à obliquidade porosa da prosódia. Ordenarás a extensa nomenclatura da imagem. Não te detenhas no estuário reversível da metáfora! Cumpre o espírito emissário das hierarquias outonais! Regressam já as aves indicativas do idioma. Elas dizem: «Está próxima.» Ei-la – a cidade. (Júdice, 2000: 58) O diálogo estabelecido com o leitor logo desde o início é representativo de uma nova voz e de uma nova forma de percecionar a Poesia, de escrever o poema:
26 […] eu reinicio a prática de uma aristocracia tumultuosa, longe das métricas conformadas dos cultores de celebração – elogiando a intenção paranóica do poema, o desespero enfático da solidão, a cor espaçosa da genealogia. (Júdice, 2000: 58) Nessa descoberta do poema, NJ recua ao tempo da infância, associado às origens. No poema “Os Corredores da Infância” (Júdice , 2000: 86) é estabelecida uma analogia entre a casa que o eu habitou no passado e aquela que agora o poeta descobre: o poema. A descrição estabelecida ao longo da primeira estrofe, imbuída de forte dinamismo e vivacidade (lembrando Álvaro de Campos, no poema “Aniversário”), foca determinados pormenores (“O meu olhar passeia demoradamente”), permite acompanhar o percurso deambulante e atento feito pelo interior da habitação (semelhante ao do jovem Cesário pela sua cidade). São várias as sensações convocadas - visuais, táteis e auditivas - nesta deambulação onde os “rumores” do passado vêm “de quartos do fundo da casa”. Esta consciência de que esta nova casa agora descoberta existe sem ser necessário construir, que retém no seu silêncio vozes e sons há muito fechados, causa estranheza e um certo receio - “O meu corpo estremece então/ numa hesitação de dedos” (Júdice , 2000: 86). O poema ganha vida própria, uma extraordinária autonomia (“venho então para o litoral do poema”), será “esta casa abandonada, o rosto belíssimo de imagens mortas” (Júdice , 2000: 86) e pertencerá “a um outro universo” (Almeida, 2000: 35). E não obstante a indubitável certeza de que o poema não existe por nenhum motivo em concreto (mais ou menos subjetivo), por nenhum objetivo, ele existe: Ao apresentar a narrativa exata do que aconteceu, descubro que também aqui não tenho outro objectivo, nenhum pretexto, nenhum facto que justifique o poema. Mas ele existe apesar disso. (Júdice, 2000: 108) As palavras poéticas têm vida própria, são dispostas através de uma sonoridade muito própria, numa autonomia ou razão que ultrapassa o conhecimento que o eu tem de si próprio, e
27 não terá como intenção representar os sentimentos, vivências ou emoções humanas. A poesia que reflete o poeta será “teatro” (Júdice, 2000: 72), na medida em que não passará de uma representação da realidade (ideia presente na poesia pessoana no poema “Isto”, quando o poeta afirma “Eu simplesmente sinto com a imaginação/não uso o coração”). Também em Júdice a poesia será mais do que um sentimento, pois se assim fosse, a identidade poética seria “falsa, seria uma representação. O poema surgirá autonomamente, não necessitando de qualquer ligação a uma individualidade humana. Neste fazer poético, a contenção emotiva não desvirtua a expressão, ordenação e exemplaridade poética. “Dominando a sensibilidade, limitando a imaginação, excluindo/o delírio e a insanidade” (Júdice, 2000: 73), o poema surge, com capacidade para se impor perante o indivíduo e a sua conceção poética. Para existir o poema precisaria o poeta pois de inteligente insensibilidade, de não ceder, de conter a cada instante as suas sensações, os seus desequilíbrios, a sua solidão. Debruçar-se-ia o poeta com cuidado e experiência para o papel, escreveria formas estáveis de vida, exprimiria verosímeis emoções. Assumiria o poeta então o destino impessoal da sua poesia, seria ele próprio o próprio mistério de ser, uma presença obscura nos outros, insubstituível personagem de si próprio, inventado inventor. (Júdice, 2000: 73) A função do poeta será árdua. Caber-lhe-á permitir que o poema surja, que as palavras ganhem forma e sonoridade sem que a sua privacidade seja invadida por este labor. Pretenderse-á atingir a plenitude e a “unidade” (Júdice, 2000: 67) entre si, o poema e a natureza. De facto, esta cumpre no universo poético de NJ uma função de extrema relevância. É a partir de ambientes naturais que o poema ganha vida. Os cenários naturais, “a paisagem é sempre um pretexto para a viagem” (Souto, 2016: 102) que o poeta pretende realizar neste mundo superior que se apresenta à sua frente. Esta relação entre o poema, o eu e a natureza, de alguma forma, estará próxima dos ideias românticos em que o eu (o herói romântico) se revia no estado da natureza. Nesta comunhão com a natureza, o mar ocupa um papel preponderante. Esta “presença obsessiva” (Almeida, 2000: 37) desde o início da produção poética deste autor, permitirá o ponto de encontro do eu com a poesia. Espaço onde a terra termina ou inicia, é junto ao mar que o
28 poema encontra as palavras e o seu ritmo. É neste litoral que o poeta contacta com algumas personagens e as suas histórias, como “N. do fundo da sua garrafa” ou “C., bêbada de sono e de jogo” (Júdice, 2000: 65), e que a realidade poética se impõe. Espaço propício à meditação e reflexão, o mar lembra naufrágios (a morte), vitórias e conquistas (a vida). É um espaço vasto, de evasão, que representará, muitas vezes, a vida com as suas oscilações (momentos de acalmia e momentos de maior euforia). O poeta observa o mar e os outros elementos a ele associados, como o vento ou as aves marítimas, e parte deles, como oxigénio, para o ato de escrever. Há, neste contexto, uma inquietação profunda que atravessa o poeta – a inevitabilidade da morte, de que se deseja fugir: Uma hipérbole habita este poema. Ele irradia uma luz triste. Estou junto ao mar, ouvindo a música insalubre das aves litorais. Fujo a uma certeza vitoriosa – morrer. As ondas derramam frases sumptuosas de um continente excessivo. (Júdice, 2000: 83) Ora, esta constante referência a elementos naturais confere à poesia uma qualidade plástica. O poeta “pinta” os seus poemas através de uma paisagem real ou captada através de um artista. A observação será assim fundamental para este surgimento poético, que se baseia na realidade circundante. NJ não perceciona a poesia como uma arte isolada. O poema terá uma relação intrínseca com outras artes, nomeadamente com a pintura e com a música. A epopeia, a tragédia, assim como a poesia ditirâmbica e a maior parte da aulética e da citarística, todas são, em geral imitações. Diferem, porém, umas das outras, por três aspetos: ou porque imitam por meios diversos, ou porque imitam objetos diversos, ou porque imitam por modos diversos e não da mesma maneira. (Aristóteles, 1995: 103) A observação de quadros, a leitura de outros autores ou a visita de alguns locais serão pontos de partida para a arte poética em Júdice. Neste sentido, a relação da literatura/poesia com a pintura, por exemplo, é bastante notória no poema “A Praia de Tourgeville” de ANP (Júdice, 2000: 63). Nele, o poeta parte de uma descrição “minuciosa” (Souto, 2016: 97) de um quadro de Eugène Boudin, guiando o leitor, como se se tratasse de um guia de museu a orientar visitantes. Após uma descrição extraordinariamente visualista que nos coloca frente ao quadro, o poeta parte
29 para uma reflexão que explica a sua conceção de poesia. Tal como o pintor “reconstruiu um ambiente, perfilou um horizonte/ fixou sem liberdade de técnica, com mobilidade sugerida, a praia/de Tougueville, o mar”, também o poema partirá de uma realidade, reconstrói “cenários para de seguida criar o poema” (Souto, 2016: 98). Este impressionismo literário, próximo do ut pictura poesis horaciano e da poesia de Cesário Verde (em termos nacionais), em que a poesia assume uma relação próxima com a arte da pintura, atribui um caráter interpretativo ao poema. A paisagem, a natureza, os objetos, são vistos e descritos pelo poeta que, de seguida, os interpreta através de palavras ritmadas, desviando-se do original através de um movimento de aproximação (em primeira instância) e distanciamento (numa fase posterior). Da mesma forma, aquando da referência a Matisse e às suas obras, o poeta procede a uma descrição, não de uma obra em concreto, mas de vários aspetos que atribuem singularidade ao trabalho elaborado pelo artista, para posteriormente se referir ao seu labor poético. Tal como o pintor rompeu com as regras preestabelecidas para atingir a “libertação da cor”, a “expressão intensa de superfícies sólidas” (“rompendo com a tradição”, “recusou a perspectiva”), também o poeta “por afinidade” exalta “as talentosas inflexões deste alterno autor”, para descobrir o poema. Há deste modo uma analogia entre o artifício do eu e o do pintor: - eu exalto as talentosas inflexões deste alterno autor – atmosferas surdas e tintas ensombrecidas, a convenção do modelado e a energia da imagem, o canto preciso de um descobridor da ulteridade. (Júdice , 2000: 71) Todavia não é apenas de pintura que NJ nos fala, a música ocupa, também, um lugar de destaque. Em “Segundo poema sobre a Morte” (Júdice , 2000: 68), o poeta alude à pianista e compositora Maria Pleyel, num poema marcadamente narrativo, com dois longos parágrafos. Ao ler este poema o leitor é, logo desde o seu início, transportado para a angústia que terá assolado este grande nome feminino da música do século XIX (“Procurando a paz no coração”), quer pelas suas composições, quer pela sua atitude irreverente e diferente da socialmente instituída. A musicalidade desta composição acompanha a angústia final de Maria Pleyel e o seu caminho até ao derradeiro momento da morte. De forma progressiva o leitor é conduzido até ao momento fatal de Pleyel:
30 … Só não será difícil de imaginar o seu último olhar antes de morrer, quando já os braços empalideciam e o rosto adquiria tranquilidade” (Júdice, 2000: 69) NJ apresenta, desta forma, nos últimos anos da ditadura portuguesa, uma diferente perspetiva de poesia. Falamos de uma escrita que, sem ter o caráter revolucionário de outros escritores, viria revolucionar, pela diferença, o contexto literário português. O poeta sabe que a poesia será um “ double bind fantástico de uma luta com mortos poderosos” (Bloom, 1991: 84). Há uma herança poética, uma história, séculos de escrita de que se tem conhecimento que não podem ser apagados. Por isso, escrever poesia será conseguir herdar a sabedoria e a força do passado, sem a copiar, mas partir dela para (re)criar: A poesia é assim ao mesmo tempo contração e expansão; porque todas as proporções de revisão são movimentos de contração e no entanto o fazer é um movimento de expansão. A boa poesia é uma dialética de movimento de revisão (contração) e de refrescante desvio. (Bloom, 1991: 109) É a este movimento de atração e repulsa que o poeta se refere no poema “Elucidário de Crentes” (Júdice, 2000: 84), onde tenta estabelecer uma relação entre si e “os monges mortos, na capela do convento”. Como noutros poemas, estamos perante uma fortíssima alusão e relação com a natureza, nomeadamente como mar, o vento e o horizonte (que separa a terra do mar). Os monges evocados ouviam e escreviam poesia litúrgica, dedicavam-se a outras artes (como a pintura), isolados da sociedade e em comunhão com a natureza. Todavia, hoje, muitos séculos depois, permanecem vivos “nas pedras lisas que eu piso, do coro ao refeitório”, isto é, a sua memória prevalece na magnitude das suas ações e criações. Graças à atividade desses monges, a poesia chegou até aos nossos tempos e a palavra sobreviveu. Esta certeza e evidência causa dúvida a um poeta que se sente pequeno perante tamanha grandiosidade. Sobre os monges mortos: eles são inomeáveis. […] Eis-me aqui, em 18 de maio de 1969, pensando naqueles lugares e na sua [população
31 de mortos. Eu, um poeta desordenado, acreditando na razão das palavras, nada sabendo sobre mim. (Júdice, 2000: 85) Quando em 2020 o autor edita Regresso a Um Cenário Campestre , o país estava a viver um momento de grande perturbação devido à pandemia. O título sugere um regresso às origens, à terra na procura da resposta às inquietações.
32 CAPÍTULO 4: O REGRESSO DA LUZ E A FORMA DAS SOMBRAS Quase cinco décadas após a publicação do seu primeiro livro, NJ edita Regresso a Um Cenário Campestre (RCC) . Este novo livro de poesia revela, desde o título, a ligação do autor ao elemento Terra, em oposição ao elemento Água (mar), tão marcante e presente nos primeiros livros, como apontado por Teresa Almeida: “Progressivamente a poesia de Nuno Júdice aproximar- -se-á da terra, registando a passagem do tempo ou das estações do ano, sem que, no entanto, abandone a referência a imagens marinhas” (2000: 37). Escrito durante a pandemia Covid-19, inicia com um poema intitulado “A Casa da Poesia”, numa alusão a “Os Corredores do Poema”, de ANP. A casa outrora percorrida pelo poeta, onde encontrou a génese da poesia, será agora o espaço de um novo reencontro. Neste poema, há duas ideias que sobressaem: a luz e a sombra, ideias antitéticas que se complementam. Iniciado com a descrição da poesia metaforizada na imagem de uma casa, com cantos obscuros, propícios ao esconderijo, longe dos olhares, e onde o poeta deseja estar, por as sombras darem “um outro sentido ao que vemos” ( RCC , 11), paulatinamente o poema caminha para um encontro do eu com o tu , através dos sentidos da visão e da audição. Esta casa será um lugar idealizado onde o eu , para além de procurar encontrar a paz desejada, tem a luz do Sol a iluminar e a refletir nas paredes a imagem das sombras que perpetuam e das quais não é possível fugir. O Sol, com a sua luz, será o responsável pela união entre o eu , o tu e a poesia, que se fundem num só. Esta dicotomia luz/sombra, igualmente presente no poema “Conversa com a noite” ( RCC , 30), reitera a ideia de que o escuro noturno será propício à reflexão. É na escuridão da noite que o poeta conversa, num diálogo monologado, sobre o que designa de “temas habituais”. Também neste poema será a chegada da “branca luz da madrugada” a permitir que o amor ganhe novo alento e renasça da escuridão. Estendo-lhe um último cálice de sombra, como se ela o pudesse beber. E toco os seus lábios, como se os visse, antes de abrir a porta e partir, sem dizer adeus, apenas deixando, nas suas mãos, a esmola de um sentimento a parca moeda a que os solitários dão o nome de amor. ( RCC , 30-31)
39 qualquer imposição externa. A poesia terá a função de dar sentido às palavras, de se deixar seguir pelo poder que a palavra tem: “o amor tem um dicionário/em que nenhuma palavra tem o sentido próprio/quando é o próprio amor a dizê-la” ( RCC, 39) . A metáfora construída em torno da “mesa de trabalho” ( RCC, 48) descreve com precisão quais os passos para a construção de um poema e do verso (através da estilística e da sua estrutura externa), explicitando no final que se o tu não existir, não estiver junto de si, o poema não terá qualquer utilidade. O poema será comparado a uma substância laboratorial, na medida em que é constituído por vários componentes - “Num poema encontro partículas de diversa/ ordem.” ( RCC, 40), que nada terão de complexo entre si nem serão de difícil explicação. No poema, há “a essência de um sentimento que parece eterno” ( RCC, 40). Em RCC , NJ regressa ao poema, à sua força de expressão e capacidade de renascimento. A relação do poeta com a natureza, a perceção e interpretação das sombras permitirão que o poema voe, perpetuando no tempo e na memória. A necessidade deste retorno poderá ter sido despoletada pela pandemia e pelo período de incerteza que se vivia. O poema volta a ganhar força, regressa através de um trabalho meticuloso, para dar forma às imagens esbatidas pela passagem do tempo.
40 CAPÍTULO 5: PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM ALEGRE E JÚDICE Tendo iniciado a sua atividade literária nas décadas de 60 e 70, quando jovens estudantes universitários, MA e NJ afirmaram-se no panorama literário português, sendo hoje nomes incontestáveis da nossa literatura, com uma vasta produção poética. Tendo surgido num contexto de “resistência político-social” em que a poesia “fazia sentir as vicissitudes da luta” (Saraiva, Lopes, 1992: 1113), ambos pretendiam comunicar com o recetor. Estes poemas foram, desde o início, lidos e interpretados na esfera cultural da época, e quase sessenta anos depois da primeira edição de PC , num contexto de outras lutas, as inquietações e palavras poéticas adaptaram-se aos novos tempos para não perder o fulgor e vitalidade de outrora. Já para NJ, após quase cinquenta anos, o regresso a casa permitirá ao poema renascer das sombras, adquirir a forma desejada em completa simbiose com a natureza. O emissor/autor de um texto literário, mesmo quando escreve sob o domínio de um impulso confessional, ou movido por um anseio de autocatarse, ou buscando efeitos de autoremuneração psicológica, não ignora que o seu texto, sob pena de se negar como texto literário, tem de entrar num circuito de comunicação em que a derradeira instância e o receptor/leitor. (Silva, 1991: 300) Para MA, a poesia será, desde o início da sua produção, um “testemunho” de acontecimentos políticos e sociais da sociedade portuguesa, evocando, através de referências ao passado glorioso e mítico da nação, o desejo de mudança e a esperança num futuro melhor. O poeta perceciona a poesia e a palavra poética como um canto que deverá ser ouvido por todos aqueles que, tal como ele, não se reveem no caminho da nação e desejam um futuro melhor. As constantes referências ao povo e aos mitos engrandecem o seu canto, testemunhando, através da palavra poética, os acontecimentos, os dramas, as inquietudes, os sonhos e esperanças de Portugal. Neste sentido, o poeta confere à palavra poética uma função nacionalista: Manuel Alegre […] testemunha a resistência, a guerra colonial, o drama dos imigrantes, as vicissitudes do exílio, esperança e decepção, tudo recortado sobre a tradição histórica nacional; (Saraiva, Lopes, 1992: 1115) Consciente do legado literário e histórico dos antepassados, o poeta alude, recorrentemente, a outros autores, nomeadamente a Camões, conferindo à sua poesia um tom
41 majestoso de canto poético. O escritor de Os Lusíadas será uma das grandes referências literárias deste poeta que, desde PC , o cita nas epígrafes. Alegre divide as suas obras em partes, numa analogia com a epopeia renascentista, embora a divisão nunca seja a mesma da obra camoniana, à exceção do último livro. Do mesmo modo, a construção poética é formalmente trabalhada, dando preferência ao verso decassílabo. Já em Quando , não existem poemas, mas, como afirma o próprio poeta “um único poema” (2020c: 10) dividido em X partes onde são abordados vários temas: a infância, a guerra colonial, as alterações climáticas, a pandemia, a política internacional e a desinformação. Este livrinho plasma um canto de louvor à memória e ao tempo, a uma história pessoal tecida de factos e textos, todos os textos escritos, marcando no mapa do poema etapas essenciais da vida – a infância, a guerra colonial e o exílio, incluindo este agora de estar à janela e de ir ao quiosque do jardim público. (Morão, 2020: 12) Assim, e embora o poeta, numa primeira leitura, pareça distanciar-se da sua linha de construção poética inicial, há neste poema um fio condutor de pensamento, agora mais refletido. “Poema fora de horas” (Alegre, 2020c: 110), Quando surge numa fase da vida em que o poeta tem já um domínio mais apurado da palavra e da técnica poética, uma visão mais refletida sobre os acontecimentos: Desde muito novo que tentava escrever um poema longo que fizesse as perguntas todas. Mas não tinha então a sabedoria, nem as vivências, nem as leituras, nem o domínio da palavra e da técnica poética. (Alegre, 2020c: 10) A guerra de agora não será a colonial, será “muito pior” (Alegre, 2020c: 12), e a mentira, décadas depois, prevalece “talvez” por estar “reforçada com os novos meios, a Internet e as redes sociais” (Alegre, 2020c: 12). O poeta adapta-se aos novos tempos e mantém a ideologia literária dos primeiros livros, usando a poesia para descrever o que rodeia, alertar para os perigos. Livro que encerra uma nova mensagem de esperança, continua a refletir as inquietudes e perspetivas de um poeta que não dissocia a literatura da vida pessoal, das suas vivências, preocupações e sonhos. Se no início da sua carreira literária, o autor usava a palavra numa luta contra as políticas nacionais que amordaçavam os jovens e os levavam a guerrear fora do território nacional, o “livrinho” (Morão, 2020: 12) agora em análise incide em questões relacionadas com a política internacional (nomeadamente nos perigos da proliferação de fake news ), nas preocupações dos
42 habitantes de Lisboa (pertencentes ao povo), assim como em preocupações ambientais, que afligem o ser humano e colocam em causa a continuidade do planeta. O momento vivido e vivenciado durante a pandemia, o medo que tomou conta das populações, colocando em causa a possibilidade de o ser humano conseguir ultrapassar esse flagelo, induz o poeta para outras reflexões, analogias, de caráter mais amplo. Quando será, nas palavras de Paula Morão, “de novo o canto e as armas, a cidade tem nova praça da canção” (2020, 12). Será, assim, um novo livro de luta que não se desvia das ideologias poéticas de outrora. O autor regressa aos temas do passado, sem lhes atribuir o mesmo nome. No fundo, os temas de hoje são analisados numa analogia com o passado, mostrando que o mundo, tendo evoluído, continua a viver situações tão (ou mais) críticas como as do passado. Neste novo livro cabem os temas cantados no passado, a que se somam os da atualidade mundial e pandémica. A literatura, enquanto poesia, assume assim a função de informar a sociedade sobre os acontecimentos, deixando o seu testemunho não só ao recetor do presente, mas também ao do futuro: A comunicação literária e os seus textos constituem meio e instrumentos privilegiados de conservação e de contínuo renovamento da informação sobre o homem, a sociedade e o mundo, tanto sob a perspetiva da instância de produção como sob a perspetiva das suas inumeráveis e historicamente diversificadas instâncias de recepção. (Silva, 1991: 333) Por seu lado, para NJ o tema central da sua poesia será, tal como o seu primeiro título enuncia, o próprio poema, que quebra as “certezas quotidianas” (Saraiva, Lopes, 1992: 1128), tendendo para uma poesia ritmada e narrativa, com características visuais e sensoriais muito marcadas. Esta narratividade, que se associa aos poetas vanguardistas como Álvaro de Campos, Mário de Sá Carneiro ou Almada Negreiros, confere ao primeiro livro deste autor um cariz muito próprio que o distancia dos poetas da sua época. Júdice parte do poema para refletir sobre o próprio poema, perceciona-o como inquestionável, na medida em que existe por si só. maneja como unidade rítmica recorrente, não a palavra, o verso ou a estância, mas blocos de fraseologias aparentemente normal e tópicos narrativos de parábola. Parte da meditação discursiva sobre o próprio acto poético como aniquilador de certezas quotidianas ou herdadas e tende para um visionarismo, rítmica e imagisticamente insinuante, em que a morte e vida, «eu» e outrem, «nós» e as coisas (e toda a «fingida memória do poeta») se abrem às inesgotáveis virtualidades de uma vida «alterna», indistintamente actual, revivida ou pressagiada. (Saraiva, Lopes, 1992: 1128)
43 Esta constatação poética é percecionada através dos sentidos, numa ligação ao elemento mar, que estará associado à vida, nas suas várias vertentes. Há na poesia de NJ a preocupação pela descrição de ambientes marítimos, nomeadamente o porto, a praia, onde se encontram figuras humanas e animais. A descrição de paisagens marítimas, o vento, a agitação das águas, as tempestades, favorecem a reflexão sobre a fragilidade humana, sobre a vida e a inevitabilidade da morte, sobre o trabalho e o sofrimento daqueles que dependem do mar para viver. Embora esta referência seja uma evidência em vários poemas, esta ligação do poeta ao elemento marítimo, de forma gradual, aproximou-se da terra, “registando a passagem do tempo ou das estações do ano” (Almeida, 2000:37). Estaremos, assim, perante um poeta que reflete acerca da fragilidade humana, sobre “o sentido da vida, o enigma do amor, a ausência irremediável de Deus” (Almeida, 2000: 43-44). A terra ganha espaço comparativamente ao mar, não tendo, no entanto, este último sido abandonado pelo autor. A descrição de ambientes terrestes, campestres, foi ganhando forma, numa poesia que veste a realidade, retirando-lhe as sombras opacas através de uma luminosidade apenas possível através do poema. Há sempre essa dialética entre a luz e a sombra que é, no fundo, o lado duplo do diurno e do noturno, esse jogo, esse conflito. Mas, enfim, a luz acaba por vencer a sombra, a noite. Não foi, digamos, um processo fácil, e nos meus primeiros livros está muito presente esse lado noturno. Mas, nos últimos, penso que tem sido mais o lado luminoso a vencer. (Júdice, 2023: 71) E se a figura feminina nos anos setenta do século XX surgia em contextos naturais, em praias, ou em evocações a partir de descrições de determinados espaços junto à natureza, em RCC a mulher encontra-se revestida de extrema sensualidade, sendo muitas vezes o ponto de partida do poema. Esta mulher surge inicialmente como uma figura abstrata (à semelhança da mulher petrarquista ou da Senhor das Cantigas de Amor), criada a partir da imaginação do autor, a quem dá forma através do processo poético “como se a poesia cumprisse a suprema função de materializar o «fantasma»” (Sousa, 2019: 122): Trata-se, em primeiro lugar, de uma poesia, não raro alimentada por impressivos símbolos, pautada, não há como negá-lo, por uma incrível sensualidade. Uma sensualidade que também poderíamos chamar pureza. (Sousa, 2019: 121) Tal como na poesia de MA, também em NJ as inquietações da vida, os anseios e as dúvidas assomam o poeta. Não se tratará, em Júdice, de uma poesia intervencionista, mas
44 filosófica e reflexiva que permitirá ver o mundo com clarividência. A poesia surgirá, tal como em Alegre, como o meio para a obtenção das desejadas respostas através de um processo de libertação, que a escrita permite: Penso que, sem desassossego e sem inquietude, não há literatura. Não significa que sem angústia, sem infelicidade, não se pode escrever, mas nem sempre a felicidade é sinónimo de poesia. É sempre a partir de uma interrogação, de uma dúvida, da tal inquietude que o poema nasce, que o texto aparece. E escrevê-lo é, de certo modo, uma catarse, uma forma de libertação. (Júdice, 2023:72)
45 CONCLUSÃO Em Quando , MA afirma “O poema é a última conjura!” ( Q, 39). Cremos que esta expressão, este grito, poderá ser aplicado aos dois autores em estudo, na medida em que em ambos a palavra poética é usada como tal. O poema será o responsável pelo extermínio do mal, será ele o responsável pela clarividência necessária para transformar a sociedade e trazer a paz, o equilíbrio, as formas desejadas. Com a Pandemia Covid-19, a população fechou-se em si própria, nas suas casas para sobreviver à propagação de um vírus que teve tanto de inesperado como de expectável. Desde sempre a humanidade se deparou com flagelos, científicos ou naturais, que colocaram a vida humana em risco. Nos últimos séculos, doenças como a gripe espanhola, a tuberculose, a cólera e a SIDA, ou acontecimentos como as duas guerras mundiais, foram evidenciando os riscos a que a humanidade estaria sujeita e o quão pequeno o Homem é perante determinados acontecimentos. Doenças como o cancro, por exemplo, continuam a ameaçar a vida humana e amedrontam apenas e somente pelo nome. Com o ritmo a que a humanidade e o planeta têm evoluído, a comunidade científica há muito tem vindo a alertar para os riscos de uma pandemia. Por isso, embora a Covid-19 tenha surpreendido o mundo, a verdade é que a sua chegada era já expectável. Estes cancros ameaçadores foram, ao longo dos tempos, sendo escritos, quer através de folhetins quer em textos literários, onde os autores, através de uma função quase copista, deixam o registo para a posteridade dos acontecimentos. Neste contexto, Portugal acompanha a literatura mundial e, ao longo dos tempos, são vários os autores que deixaram o registo de um país pobre, doente ou de um país magnânimo, onde a opulência e a riqueza de uns contrastam com a situação social e financeira de outros. A poesia não será exceção neste percurso, assim como os acontecimentos experienciados ou sentidos aquando do confinamento em 2020. Num mundo onde a tecnologia impera, onde as máquinas, paulatinamente, vão mostrando a capacidade de substituir, embora não de forma absoluta, o ser humano, não foi possível antever um acontecimento como este sem isolar, sem afastar. Este confinamento atingiu todas as idades e gerações, todas as classes sociais, revelou as maiores fragilidades políticas, sociais e familiares. Paralelamente, devido ao afastamento social, o meio ambiente ficou mais limpo, os animais andaram livremente nas cidades e o som da
46 natureza passou a ouvir-se em detrimento das máquinas, dos transportes, dos apitos, ou das buzinas. Em 1965, o país atravessava um período de doença crónica: a guerra colonial. MA perceciona a poesia como o antídoto para curar o país de uma cegueira que estaria cada vez mais enraizada na sociedade portuguesa. Numa analogia com Padre António Vieira, a palavra poética teria um poder curativo, libertador, pois ao tornar-se voz popular, através dos cânticos de intervenção, daria forma a uma esperança que se encontrava escondida atrás da angústia e do medo da perseguição. A poesia estaria, assim, ao serviço de todos aqueles que, tal como o poeta, conheciam a glória a herança nacionais. Todavia, contrariamente àquele povo que, ora fugia atravessando a fronteira clandestinamente, ora era mobilizado para a guerra, o poeta disse “não” e lutou através da linguagem poética pelos valores e ideais curativos. A doença que proliferava no país teria a sua cura, a vacina estaria na força da palavra poética, que resistiu e combateu a estagnação e a opressão. Numa época em que a poesia de intervenção, principalmente no meio universitário, estava a ganhar força, os primeiros poemas de MA ganham projeção e popularidade. Tal como camões inicia a sua epopeia, também Alegre “cantando espalhará por toda a parte” a sua ideologia e perspetiva para uma saída do estado doentio de Portugal. A Praça da Canção seria o local onde os demais, como o poeta, se juntariam para elevar a sua voz na expectativa de alterar o rumo do país, e a poesia seria O Canto e as Armas a usar em todo esse processo. O poeta revela a sua dimensão antiépica ao expor sem qualquer pudor as fragilidades portuguesas em analogia e comparação com toda a riqueza de um país, que não estaria a ser aproveitada. O povo, amordaçado, empobrecido, exposto a fatores externos e internos que lhe eram desfavoráveis, vivia num estado quase paliativo em que a fome e a ausência de possibilidade de ascender a uma situação melhor o atirava, cada vez mais, para um beco sem saída ou para uma cama de hospital devido à falta de condições sanitárias. O poeta canta as mãos sujas desse povo, a terra cavada, o mar onde se perde a vida para alimentar a família. Se Camões, na proposição da sua epopeia, anuncia quem vai cantar, começando por enunciar todos os ilustres que “da lei da morte se foram libertando” (Camões, 1995:59) , Alegre desde o início da sua produção, associa os seus versos a todos aqueles que lutam pela sobrevivência, a todos os que, doentes, almejam a fuga à morte anunciada. A vida e a sua fugacidade seriam a preocupação de um poeta consciente do estado moribundo em que a população se encontrava.
47 Durante a pandemia que assolou o início da segunda década do século XXI, MA é, novamente, confrontado com uma situação bélica e com um país estagnado. Embora o poeta já não possua a jovialidade física de outros tempos, a sua voz, projetada através da palavra escrita, ergue-se mais uma vez para transmitir ao leitor, não só as suas inquietudes e receios, mas também a sua esperança e perspetiva acerca do momento que toda a humanidade se encontra a experienciar. Desta vez, o risco infecioso é real e o vírus é uma realidade com o qual a humanidade parece não ter argumentos ou armas para combater. Paralelamente a este cenário dantesco, de mortes, de famílias que enterram os seus entes queridos sem se despedirem (numa analogia com a guerra colonial), de filas de caixões solitários a serem transportados para a última morada, o poeta enumera outros riscos, outros vírus tão ou mais perigosos. Esses vírus, personificados nas questões climáticas ou nas preocupações acerca da política internacional, estarão relacionados com a falta de valores que assoma o mundo atual, que parece esquecer-se de um passado onde muitos lutaram para obter a liberdade. A perda, física ou psicológica, é descrita, para enfatizar a ideia de que a função poética ainda não terminou, não obstante as dificuldades presentes, que o poema terá a função de se adaptar ao novo tempo. O poema, escrito num tom grandioso e eloquente, composto por dez partes ligadas por um fio condutor (a pandemia), aponta o dedo a todas as feridas existentes numa sociedade e num mundo tecnologicamente evoluídos, que deveriam ter tido a capacidade de prever e prevenir este flagelo. A dimensão perigosa e quase fatal da palavra é digna de reparo e de atenção por parte de um poeta que, mais maduro e consciente, alerta para o facto de alguns a usarem de forma perniciosa, por ganância e sede de poder. A infância, com a sua ingenuidade e paz, é evocada através da memória que sobrevive e que se deseja reviver. Os sons repetitivos da natureza, agora tão próximos e audíveis, numa cidade acostumada ao frenesim diário da população, transportam o poeta para essa rememoração. O povo exaltado e protegido da Praça da Canção é também ouvido e o poeta, agora, dá voz às suas angústias. As duas figuras femininas evocadas (Dª Hermínia e Dª Etelvina) representarão os medos daqueles que, perante a evidência de uma propagação tão veloz da epidemia, temem pela própria vida e pela possibilidade desta infeção culminar com o “fim do mundo”. O temor da morte está, assim, nas palavras destas mulheres do povo, como nas do poeta, mulheres que o eu convoca para o poema através das próprias palavras. Os três tempos (passado, presente e futuro) são novamente evocados, a partir de uma incerteza no tempo que falta viver. Já o poema terá, novamente, uma força revitalizadora para afastar a
48 negatividade e para repor a verdade, almejada num mundo em que a proliferação da mentira impera. Em 1972, NJ traz como tema central para a poesia o próprio poema. Através de uma construção poética narrativa, que marcou o panorama literário português, o poeta apresenta o poema como figura inquestionável, que surge nos vários momentos, a partir de situações diárias. O poema refletirá a vida, o seu percurso, assim como o seu fim. A comunhão do eu com a natureza, nomeadamente com os ambientes junto ao mar, são propícios ao surgimento do poema e a essa reflexão. Os sons do mar, mais calmos ou mais agitados, as aves marítimas, o vento em dias de tempestade, são convocados, conferindo ao texto uma sonoridade extraordinária, dando vida ao poema que se afirma. Nesses ambientes marítimos, associados à existência humana, tal como o mar, há momentos de maior ou menor agitação. É a perceção da inquietação da vida, das vicissitudes de uma vivência, que impele o poeta para uma comunhão com este espaço, às vezes longínquo, mas cuja força irrompe pelo pensamento. A água, como elemento purificador, permite a ligação do poeta com o poema, ligando as emoções, permitindo-lhe ver com clareza o poema. O tempo da infância é evocado através das memórias de uma casa associada à casa da poesia, na medida em que, tal como o passado está envolto de névoa e de pó, também o poema precisará arrumar as ideias, estruturar as palavras, para ser audível pelos demais. O poeta mostra e evidencia a relação da poesia com as outras artes, nomeadamente a música e a pintura. A partir de referências concretas, de artistas plásticos, quadros, ou compositores/músicos, o poema descreve, com minúcia, esta relação interartes, refletindo acerca da imposição da palavra poética mesmo quando inesperada. Tal com a arte plástica ou musical, também o poema busca a melodia, através de um trabalho criterioso de seleção de vocábulos, de construções frásicas, de relações de sentido. Por isso, a narratividade impressa à poesia de Júdice pretenderá, através de uma extraordinária discursividade, atribuir ao poema a vida que ele próprio impõe. O poeta descreve a sua caminhada, alude a espaços físicos e/ou mentais, para imprimir ao poema a grandiosidade que lhe é inerente. É através de uma reflexão filosófica profunda, que a poesia de NJ se revela perante o leitor, sem deixar de aludir às preocupações políticas e socias da sua época, às doenças que teimavam em persistir (como a guerra) embora não lhes atribua a exclusividade temática da sua poesia. Nesta poesia, a herança literária é evocada, quer através de referências concretas quer através de alusões espácio-temporais. O poeta vagueia pelas estradas do pensamento, refletindo acerca de outros que, tal como ele, se expressaram através da arte num passado sempre evocado.