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Confronto de representações: trabalhadoras sexuais vs estudantes universitários do norte de Portugal

Argolo, Karen

Abstract

O objetivo geral desta dissertação é entender o estigma percebido pelas mulheres trabalhadoras sexuais no Norte de Portugal, e comparar estes discursos com o que os estudantes universitários da Universidade do Minho pensam sobre o assunto. Como forma de obter essas significações, optamos por uma metodologia mista, com análise bibliográfica e também utilizando de entrevistas semiestruturadas, aplicadas a estas mulheres, e inquéritos por questionário realizados com uma amostra de estudantes universitários Para discutir o Estigma, utilizamos os estudos feitos por Erving Goffman, dada a amplitude de sua análise do estigma em uma perspetiva social e, em um segundo momento, utilizamos a Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici e a Teoria do Núcleo Central de Jean Claude Abric como ponto de partida para compreendermos a maneira como o exercício do trabalho sexual por profissionais do sexo se manifesta nas suas vidas e nas suas interações com a comunidade em geral. Através dos discursos das trabalhadoras sexuais entrevistadas, percebemos motivações de dimensão individual, econômica, familiar e social que circundam seu ingresso e manutenção nesta área de trabalho. Utilizamos suas narrativas para a criação de afirmativas que foram posteriormente apresentadas a estudantes universitários. Com a análise do resultado do inquérito por questionário, a teoria de Abric (1994) foi usada para desvendar qual seriam o núcleo central e as periferias das representações socias vislumbradas. Apesar de modestos, os resultados deste estudo podem ajudar a avaliar o poder do estigma associado à prática do trabalho sexual e como as mulheres respondem ao estigma associado a sua profissão

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Karen Argolo Confronto de representações: Trabalhadoras sexuais vs estudantes universitários do Norte de Portugal janeiro de 2023 Karen Argolo Confronto de representações: Trabalhadoras Sexuais trabalho sexual UMinho | 2023 vs estudantes universitários do Norte de Portugal Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Karen Argolo Confronto de representações: Trabalhadoras sexuais vs estudantes universitários do Norte de Portugal Dissertação de Mestrado Mestrado em Crime, Diferença e Desigualdade Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Carlos Gil Correia Veloso da Veiga Janeiro de 2023 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND h tt ps ://creat iv ecomm on s .o rg/licenses /by - nc - n d/4.0 / Braga, 19 de janeiro de 2023 Karen Maria Argolo da Silva Agradecimentos Gostaria de abrir este trabalho exprimindo meus agradecimentos a todos aqueles que, de algum modo, permitiram que esta dissertação se concretizasse. Em primeiro lugar, agradeço ao Prof. Dr. Carlos Veiga por ter embarcado na jornada de me orientar. Agradeço o seu trato simples, científico e concreto, assim como as inúmeras ajudas que me deu ao longo desta jornada. Agradeço por ter sido um farol que sempre me levou na direção certa e por ter me tornado uma estudante e uma pesquisadora melhor. Agradeço, de igual forma, ao Prof. Dr. José Machado, pela humanidade na forma em que sempre lidou comigo. À Prof. Dra. Manuela Ivone, por ter me acolhido desde o início do meu Mestrado e pela generosidade com a qual sempre me ajudou. Às colegas que ingressaram comigo, quero agradecer a companhia e a amizade, assim como os momentos incríveis que tivemos juntas. Agradeço também aos meus amigos que me deram suporte e me estimularam durante esta jornada. Jornada esta que foi tudo, menos fácil e que sem suporte jamais teria sido concluída. Finalmente, agradeço à minha família. Ao meu pai, Gladimar Antunes, que é a minha pessoa favorita nesse mundo e que sempre acreditou em mim, mesmo quando eu duvidava de mim mesma. À minha mãe e rainha, Sheyla Argolo, que esteve sempre ao meu lado me encorajando e que esteve sempre disposta a ouvir os meus desabafos. Ao meu companheiro, João Carlos, pela paciência e amor demonstrados nos meus momentos menos bons. A todos, os meus sinceros agradecimentos. DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho acadêmico e confirmo que não recorri a prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e respeito o Código de Conduta e Ética da Universidade do Minho. Braga, 19 de Janeiro de 2023 Karen Maria Argolo da Silva Resumo O objetivo geral desta dissertação é entender o estigma percebido pelas mulheres trabalhadoras sexuais no Norte de Portugal, e comparar estes discursos com o que os estudantes universitários da Universidade do Minho pensam sobre o assunto. Como forma de obter essas significações, optamos por uma metodologia mista, com análise bibliográfica e também utilizando de entrevistas semiestruturadas, aplicadas a estas mulheres, e inquéritos por questionário realizados com uma amostra de estudantes universitários Para discutir o Estigma, utilizamos os estudos feitos por Erving Goffman, dada a amplitude de sua análise do estigma em uma perspetiva social e, em um segundo momento, utilizamos a Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici e a Teoria do Núcleo Central de Jean Claude Abric como ponto de partida para compreendermos a maneira como o exercício do trabalho sexual por profissionais do sexo se manifesta nas suas vidas e nas suas interações com a comunidade em geral. Através dos discursos das trabalhadoras sexuais entrevistadas, percebemos motivações de dimensão individual, econômica, familiar e social que circundam seu ingresso e manutenção nesta área de trabalho. Utilizamos suas narrativas para a criação de afirmativas que foram posteriormente apresentadas a estudantes universitários. Com a análise do resultado do inquérito por questionário, a teoria de Abric (1994) foi usada para desvendar qual seriam o núcleo central e as periferias das representações socias vislumbradas. Apesar de modestos, os resultados deste estudo podem ajudar a avaliar o poder do estigma associado à prática do trabalho sexual e como as mulheres respondem ao estigma associado a sua profissão Palavras chave: Trabalho Sexual; Estigma; Portugal; Representações Sociais. Abstract The general objective of this dissertation is to understand the stigma perceived by female sex workers in the North of Portugal, and to compare these discourses with what university students from the University of Minho think about the subject. As a way to obtain these meanings, we chose a mixed methodology, with bibliographic analysis and also using semi-structured interviews, applied to these women, and questionnaire surveys carried out with a sample of university students To discuss stigma, we used the studies by Erving Goffman, given the breadth of his analysis of stigma from a social perspective and, in a second moment, we used Serge Moscovici's Theory of Social Representations and Jean Claude Abric's Core Theory as a starting point to understand the way sex work by sex workers manifests itself in their lives and in their interactions with the community at large. Through the discourses of the interviewed sex workers, we perceived motivations of individual, economic, family, and social dimensions that surround their entry and maintenance in this area of work. We used their narratives to create statements that were later presented to university students. With the analysis of the questionnaire survey results, Abric's theory (1994) was used to uncover the central core and peripheries of the envisioned social representations. Although modest, the results of this study can help assess the power of stigma associated with the practice of sex work and how women respond to the stigma associated with their profession Keywords: Sex Work; Stigma; Portugal; Social Representations. Índice Introdução .......................................................................................................... 5 1 Enquadramento Teórico e Conceitual ..................................................................... 8 1.1 O Trabalho Sexual ............................................................................................. 8 1.2 Trabalho sexual de rua e sua natureza vulnerável .................................................... 9 1.3 O movimento das mães de Bragança ................................................................. 11 1.4 Estigma e trabalho sexual feminino ................................................................... 12 1.5 O estigma e a categorização social ......................................................................... 15 1.6 A trabalhadora sexual e seu status na sociedade ......................................................... 18 1.7 Consequências do estigma no trabalho sexual ........................................................... 19 2 A Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici ............................................. 20 2.1 A origem do termo ....................................................................................... 21 2.2 O Conceito de representações sociais ..................................................................... 22 2.3 Como se formam as representações sociais .............................................................. 24 2.4 Os mecanismos de comunicação ........................................................................... 24 2.4.1 O mecanismo de ancoragem ............................................................................. 25 2.4.2 O mecanismo de objetificação ............................................................................ 26 2.4.3 O mecanismo de naturalização ........................................................................... 27 2.5 Importância da teoria das representações sociais no pensamento social e crítico da sociedade .. 28 2.6 A abordagem estrutural das representações sociais ............................................... 30 3 Abordagem metodológica ...................................................................................... 32 3.1 Das entrevistas à construção do questionário ............................................................. 34 3.2 O inquérito por questionário aos estudantes universitários. ............................................. 38 3.2.1 Amostra e procedimentos de aplicação ................................................................. 38 4 Apresentação e discussão de resultados ..................................................................... 39 4.1 O núcleo central das representações ...................................................................... 40 4.2 As periferias das representações ...................................................................... 47 4.2.1 A composição da 1ª periferia das representações ..................................................... 47 4.2.2 Composição da 2ª periferia das representações ....................................................... 58 4.2.3 Composição da ultraperiferia ............................................................................. 66 Considerações finais .............................................................................................. 72 Bibliografia .......................................................................................................... 81 Anexo 01 - Transcrição das Entrevistas ......................................................................... 90 Anexo 02 – Frases propostas aos estudantes no questionário ............................................ 101 10 envolvimento de terceiros. Muitas trabalhadoras de rua possuem péssimas condições de trabalho, se envolvendo por motivação de sobrevivência, por extrema necessidade, ou para sustentarem seu vício em drogas. Portanto, muitas destas mulheres são dependentes químicas que trabalham e vivem em áreas dominadas pelo crime, razão pela qual estão socialmente isoladas e desconectadas de serviços de apoio, além de estarem mais expostas ao risco de roubo, violação e de contrair e transmitir doenças sexuais. Algumas destas mulheres, ainda que livres de drogas e cafetões, enfrentam uma série de problemas ocupacionais. Além disso, apesar de haver variações dentro do próprio trabalho sexual de rua, ele continua sendo fundamentalmente diferente do trabalho sexual indoor. As trabalhadoras de rua são muito mais propensas do que as trabalhadoras indoor de se envolverem em comportamentos de risco e, além disto, estudos que comparam trabalhadoras de rua e trabalhadoras indoor encontraram diferenças substanciais nas taxas de vitimização. Uma vez que o trabalho sexual é definido como um aluguel ou mais genericamente, como uma troca em que a trabalhadora presta serviços sexuais e o cliente paga por esses serviços. Caso esta troca econômica fosse retirada da equação, a interação sexual não seria, por definição, trabalho sexual, mas sim um evento ou relacionamento sexual sem ganho material. Leal, Souza e Rios (2017) realizaram um estudo com o objetivo de compreender o significado de ser trabalhadora sexual, e concluiu-se que estas mulheres representam a prática sexual a partir do ganho financeiro, visto ser a forma que encontraram para ter renda e proporcionarem uma melhor qualidade de vida para suas famílias e, principalmente, para os seus filhos. Um outro estudo realizado por Plumridge e Abel (2001) com 115 trabalhadoras sexuais de rua e 125 trabalhadoras sexuais indoor realizado no Reino Unido mostrou que as trabalhadoras de rua eram muito mais propensas do que as trabalhadoras indoor a relatar que já haviam sido roubadas (37% vs 10%), espancadas (27% vs 1%), violadas (22% vs 2%) ou sequestradas (20% vs 2%) (Church, 2001). Cabe aqui a ressalva de que tais dados não significam que o trabalho sexual exercido fora da rua seja isento de riscos. Contudo, não há dúvida de que os ambientes internos são geralmente mais seguros do que as ruas. De acordo com Plumridge e Abel (2001), as trabalhadoras de rua correm um risco significativamente maior de mais violência e violência mais 11 grave do que as trabalhadoras indoor. Com relação à idade destas mulheres quando ingressam no trabalho sexual, um outro estudo, desta vez australiano, realizado por Perkins e Lovejoy (2007), verificou que as trabalhadoras sexuais de rua (3%) e das trabalhadoras indoor (4%) que haviam ingressado no trabalho sexual tinham menos de 15 anos. A grande maioria teria começado com mais de 19 anos de idade (84% das trabalhadoras de rua e 76% das indoor). As trabalhadoras de rua seriam mais propensas a iniciarem na profissão em idades mais jovens. Na verdade, problemas de natureza familiar (como negligência e violência) e o abuso também fazem parte da história de muitas destas mulheres, em especial entre as trabalhadoras de rua (Perkins e Lovejoy, 2007). Como aprofundaremos mais adiante, as trabalhadoras sexuais, sejam de rua ou indoor, sofrem com o estigma e com a condenação da sociedade em geral, como é amplamente demonstrado por dados da opinião pública sobre prostituição (Weitzer, 2000). Isso obriga estas mulheres a desenvolverem estratégias de normalização, incluindo separarem a sua personalidade de trabalho desviante de sua identidade real, ocultar seu trabalho de familiares e amigos e ver seu trabalho como uma profissão valiosa (Foltz, 1979). 1.3 O movimento das mães de Bragança Por conta da forte onda migratória brasileira que ocorreu nas décadas de 80 e 90, está presente no imaginário social português a associação da mulher brasileira à figura da trabalhadora sexual. Em 2003, mulheres portuguesas de Bragança, cidade do Norte de Portugal, se reuniram no chamado Movimento das Mães de Bragança, protestando contra as mulheres brasileiras que ofereciam o trabalho sexual na cidade. Segundo elas, este movimento tinha o intuito de lutar ”contra os efeitos nefastos da prostituição na estabilidade da família tradicional” (Fidalgo, 2003). Este movimento alimentou o estereótipo da mulher brasileira enquanto imigrante que “roubava” os maridos das mulheres portuguesas e foi condição sine qua non para criar e reproduzir o estigma que ainda paira sobre as mulheres brasileiras, associando-as diretamente ao trabalho sexual. A cobertura mediática dada a este movimento não se restringiu aos jornais nacionais. Inclusive, alcançou cobertura internacional quando a revista Times Magazine apelidou 12 Bragança de Europe´s new red light district , devido a presente atividade sexual. Figura 1: Capa da Revista Times Magazine de 20 de Outubro de 2003 Fonte: Sitio digital da Times Magazine Pode-se, inclusive, fazer uma ligação entre este episódio e o fenômeno do tráfico de seres humanos associado às mulheres brasileiras. Ainda que tenham sido (e ainda sejam) vistas como uma espécie de ameaça à família tradicional portuguesa devido à natureza do seu trabalho e, neste contexto, sejam consideradas algozes, muitas foram vítimas de amplas organizações e redes criminosas que angariavam a auxiliavam a imigração ilegal destas mulheres para a prática de atividade sexual em solo português (Peixoto, 2007). 1.4 Estigma e trabalho sexual feminino O trabalho sexual é uma prática socialmente marginalizada, ao passo que, além de 13 envolver a prática sexual em troca de dinheiro, é delineada por estigmas sociais que permeiam esta profissão. As trabalhadoras sexuais oferecem uma espécie de serviço de aluguer de seus corpos que, muitas vezes, lhes permite autonomia e independência financeira, o que faz do trabalho sexual uma forma de melhorar a qualidade de vida. Muitas destas mulheres apresentam baixa escolaridade, baixa qualificação, condições socioeconômicas desfavoráveis, condições precárias de moradia, situações de violência e outras condições de vulnerabilidade, sendo simultaneamente discriminadas e estigmatizadas. Observamse problemas emocionais e afetivos, que favorecem uma avaliação negativa da qualidade de vida. A satisfação sexual, nessa área, em sua interface com a saúde, pode ficar comprometida, pois nem sempre o prazer é alcançado e o foco dessa satisfação é orientada para a subsistência, podendo gerar conflitos subjetivos e interpessoais. Em seus estudos sobre estigma, Goffman (1963) afirma que “este refere-se a um atributo que está profundamente desacreditado” e que é interpretado como um sintoma de uma falha moral subjacente e/ou uma falha em viver de acordo com uma norma ou valor social acordado. É também possível analisar essa compreensão do estigma em paralelo com a ideia de que a estigmatização serve para manter diferentes posições de poder – o que leva à manutenção de um determinado status quo. Foucault (1978) defende que precisamos examinar o papel das estruturas de poder na aplicação do estigma, e na qual a marca da estigmatização é usada para traçar distinções entre grupos de pessoas e inseri-las em estruturas de poder. Aqueles indivíduos percebidos como alinhados com as normas culturalmente preferidas são considerados dignos e gozam de plenos direitos e poderes, enquanto aqueles que resistem ou desafiam tal alinhamento são culturalmente definidos como desviantes e, portanto, considerados indignos. Ao analisar as relações de poder no âmbito do trabalho sexual, as representações destas mulheres condicionam a construção de suas identidades e influenciam diretamente seu lugar na sociedade. Essas representações, por sua vez, podem incluir noções sobre os significados do trabalho sexual (sujo, reprovável) e a natureza do estigma, bem como crenças mais gerais sobre papéis de gênero e valores familiares. É por meio dessa rede de representações sociais que o mundo social de um indivíduo ou grupo é estruturado e da qual derivam o conhecimento e as crenças sociais referentes à participação num grupo. 14 Com relação a isto, Foster (2003) acredita que as relações de poder detém suma importância, uma vez que nem todos os grupos sociais estariam igualmente equipados para manter, promover ou reconhecer sua própria representação social de um conceito. Em suma, o que Foster quer dizer é que ainda que haja tentativas de modificar as representações dominantes e estigmatizantes presentes em um grupo e, a partir daí, criar novas identidades (neste caso, para as trabalhadoras sexuais), será difícil esta nova identidade vingar e dominar uma sociedade mais ampla que ainda se vale das representações tradicionais. O estigma afeta como um indivíduo é visto e tratado por outros membros da sociedade. É frequentemente usado para justificar tratamento preconceituoso ou a marginalização feita por familiares, amigos, empregadores, colegas de trabalho, profissionais de saúde, etc. Isso também afeta diretamente a autoimagem percebida entre muitos que são estigmatizados. É então possível ver o estigma, não apenas como um fenômeno isolado ou expressão de atitudes individuais ou valores culturais, mas como central para a constituição da ordem social. O estigma é um dos problemas principais que circunda o trabalho sexual. Está onipresente no comércio sexual, embora sua substância e intensidade variem um pouco por gênero, por setor ocupacional e por contexto nacional. Pesquisas sobre profissionais do sexo, seus gerentes e seus clientes oferecem evidências abundantes das consequências prejudiciais da estigmatização. O conceito de internalização – também chamado de auto-estigmatização por alguns estudiosos (Corrigan e Watson, 2002) - é uma resposta ao trabalho sexual ocupacional. Isso ocorre quando o indivíduo estigmatizado internaliza discursos negativos e normaliza ou aceita seu status desacreditado. Suposições indignas sobre pessoas envolvidas com a prostituição passam a aparecer como justificados e adotados como verdadeiras representações do eu (Wong e Bingham, 2011). O controle da informação é uma segunda resposta encontrada na literatura sobre estigma proposta por Goffman (Goffman, 1963). Aqui, a informação é controlada ativamente por meio de divulgação seletiva, dependendo do contexto social. Isto se percebo no momento em que a mulher analisa a quantidade de risco que enfrenta se revelar sua ocupação e de que modo pode mitigar 15 ou evitar esse risco, optando por divulgar ou reter informações relacionadas à sua ocupação. Isto pode resultar em distanciamento cognitivo e emotivo, por meio do qual personas alternativas e/ou separação estrita entre identidade de trabalho e eus pessoais são construído e aplicado. Essas reações de dramatização ou distanciamento às vezes resultam no que Begum descreve como a vida dupla (Begum, 2013). Há também respostas que obtém resistência por parte dos estigmatizados. Ao invés de aceitar seu status estigmatizado como algo inevitável (Cornish, 2006), algumas profissionais do sexo rejeitam as suposições e julgamentos negativos dos estigmatizadores. Em particular, elas rejeitam a noção de que o trabalho sexual é fundamentalmente diferente de qualquer outro tipo de trabalho ou que o o trabalho é inerentemente prejudicial (Bruckert, 2013). Como já previamente elucidado, mesmo que o trabalho sexual seja uma atividade que, de facto, gere receita e promova a independência financeira, a estigmatização e a marginalização da “indústria” do sexo e das pessoas que nela trabalham ainda são generalizadas. E tal não é um fenômeno isolado, mesmo em locais onde o trabalho sexual foi descriminalizado, como na Nova Zelândia (Jordan, 2005), por exemplo, a estigmatização e a marginalização persistem. A perpetuação de perceções negativas da indústria do sexo e das pessoas que nela trabalham é muitas vezes fundamentada em um retrato incompleto e enganoso do trabalho sexual como fenômeno que ameaçaria a saúde, a segurança, o bem-estar e os direitos das trabalhadoras. 1.5 O estigma e a categorização social Embora usado, até mesmo coloquialmente, e compreendido em um sentido geral, o conceito de estigma é um tanto nebuloso, tendo sido interpretado e aplicado por pesquisadores de várias origens a todos os tipos de questões sociais. Goffman, em sua obra Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity de 1963, define o estigma como um atributo que é profundamente desacreditado, o que reduz a pessoa estigmatizada de “uma pessoa normal e completa a uma pessoa contaminada e desprezada”. Estudos mais recentes descrevem o processo e os resultados da estigmatização de forma mais completa. Link e Phelan (2001) conceituam o estigma como um processo que envolve uma série de elementos relacionados entre si, incluindo rotulagem, conectando indivíduos rotulados a estereótipos negativos, separando 16 indivíduos rotulados (eles) do resto da população (nós), perda de status e discriminação contra indivíduos rotulados e a subsequente desigualdade de resultados. Outros estudiosos, por sua vez, acreditam que o estado aceitável de ser e as ideias de vergonha e culpa advindas dos processos de rotulagem são inerentes à estigmatização e são, por sua vez, mais bem compreendidas quando examinadas no contexto das estruturas sociais em que estão incorporados (como classe, gênero e etnia). Essas estruturas operam de modo a diferenciar e discriminar o outro de uma forma que permita que os componentes do estigma se desdobrem. Scambler e Hopkins (2008), na obra Sociology of Health and Illness, dividem o estigma em dois universos: o estigma decretado e o estigma sentido. O primeiro se refere a episódios de discriminação contra pessoas com a condição estigmatizada com base em sua inaceitabilidade social e cultural, enquanto o último envolve dois componentes: a vergonha associada à pertença ao grupo estigmatizado e o medo de encontrar se deparar com o estigma. Apesar das influências sociais e culturais específicas que moldam o processo de estigmatização em um determinado contexto, é possível afirmar que as profissionais do sexo geralmente representam um grupo marginalizado que está amplamente sujeito a esses processos de estigmatização. Phetersen (1993) afirma que a estigmatização das prostitutas deriva da imaginação popular das várias maneiras pelas quais as trabalhadoras do sexo violam as normas socialmente estabelecidas em relação ao comportamento esperado das mulheres, como fazer sexo com estranhos, fazer sexo com múltiplos parceiros, pedir dinheiro em troca de sexo e, especificamente como mulher, tomar a iniciativa sexual e controlar o encontro sexual, ser uma especialista em sexo, usar suas habilidades para satisfazer a luxúria masculina e fantasias sexuais, estar sozinha com o propósito expresso de atrair o desejo masculino e estar em situações com homens indesejáveis. Soma-se a esta lista nos últimos anos o retrato das profissionais do sexo como vetores de doenças, especificamente o vírus da imunodeficiência humana/síndrome da imunodeficiência adquirida (HIV/AIDS), e como fonte de transmissão dessas doenças para a comunidade respeitável, nomeadamente casais e famílias heterossexuais. A pesquisa do estigma tende a ser fortemente teórica, privilegiando as opiniões e teorias dos pesquisadores sem dar a devida atenção às palavras e perceções daqueles que são 17 estigmatizados. A pesquisa das trabalhadoras do sexo, por sua vez, geralmente se concentra em questões relacionadas à transmissão de DSTs entre as trabalhadoras do sexo e a transmissão adicional dessas doenças para a população em geral - presta pouca atenção à saúde psicossocial das trabalhadoras do sexo, pois considera-se que tem pouca relevância para a saúde pública geral da comunidade. Hoje, há evidências de que o próprio estigma contribui significativamente para problemas de saúde nos indivíduos e isto é particularmente visto nos âmbitos psicossociais de saúde e bemestar. Um estudo recente de 343 mulheres afro-americanas relacionou a discriminação racial com a depressão e uma pior autoavaliação da saúde geral, e mostrou que uma mudança na discriminação ao longo do tempo está positivamente ligada a uma mudança nos sintomas de depressão e negativamente associada a uma mudança no estado de saúde auto relatado. Dentre os indivíduos com doença mental, descobriu-se que o estigma percebido está negativamente associado às avaliações dos pacientes sobre a vida como um todo e com medidas específicas de qualidade de vida. Além disso, a internalização do estigma e do preconceito tem sido associada à retirada das redes de apoio social e diminuição da autoestima, aumento dos sentimentos de auto depreciação e sintomas de depressão. Partindo daí, pode-se concluir que o silêncio das mulheres em condição de prostituição na literatura sobre estigma representa um obstáculo para a compreensão e resposta eficaz às questões que impactam a saúde desta população marginalizada. O ato de estigmatizar originalmente se referia à marca dada a certas pessoas (por exemplo, criminosos e prostitutas) para fazê-las parecer diferentes e separadas das outras (Goffman, 1963). O ato de marcar as pessoas dessa maneira resultou em exílio ou evasão sendo que, atualmente, uma manifestação mais cognitiva da estigmatização - marcação social - tornouse a base para a maioria dos estigmas (Jones, 1984). Essencialmente, as pessoas usam as diferenças para exilar ou evitar os outros. Além disso, o que mais intriga na ontogênese do conceito de estigma é a ampliação de suas respostas afetivas predominantes, como aversão e nojo, para incluir a reação emocional de medo. Atualmente, o medo pode ser instrumental na perpetuação do estigma e na manutenção de suas funções sociais originais, embora ainda se discuta que esse medo não seria natural, mas sim adquirido. 18 Embora várias abordagens para a categorização social possam explicar como as pessoas estereotipam com base em um atributo específico (por exemplo, cor da pele, crenças religiosas), elas não explicam as imputações negativas. As abordagens tradicionais do processamento sociocognitivo também não oferecem ideias sobre como as pessoas podem ir percetivelmente além do estereótipo, da tipificação ou do estigma para perceber um indivíduo. Estudos de estereótipos e estigmas revelam regularmente que as crenças sobre a inferioridade de uma pessoa predominam nos pensamentos de quem percebe (Crocker, 1986). O estigma parece ser, então, um tipo especial e insidioso de categorização social ou um processo de generalização a partir de uma única experiência. As pessoas são tratadas categoricamente ao invés de individualmente, e por conta disto, são desvalorizadas (Ainlay e Crosby, 1986). A rejeição ou evitação social afeta não apenas o indivíduo estigmatizado, mas todos que são socialmente envolvidos, como família, amigos e parentes. Cria-se uma forma permanente de quarentena social que força as pessoas a limitar seus relacionamentos com outras pessoas estigmatizadas e com aqueles para quem o vínculo supera o estigma. Desta forma, a rejeição social também atua como uma forma de controle ou contenção social. Muitas pessoas estigmatizadas não são encorajadas a se desenvolver ou crescer, a ter aspirações ou a ter sucesso. A identidade negativa que se segue torna-se um traço de personalidade penetrante e inibe o estigmatizado a desenvolver outras partes do self. Em contrapartida, muitos indivíduos estigmatizados recuperam sua identidade redefinindo a normalidade e percebendo que é aceitável ser quem eles são. 1.6 A trabalhadora sexual e seu status na sociedade Uma dimensão que perpetua a imagem social da mulher em condição de prostituição é o status que recebe na sociedade. Tanto este status, quanto o estigma, têm efeitos significativos na atitude social em relação às profissionais do sexo e como elas são tratadas. Discursos muitas vezes propagados pelos média atuam de modo a separar estas mulheres daquelas que seriam as mulheres normais, por meio de ideias que perpetuam associações com sexualidade imoral e 19 perigosa, doença, incivilidade e nojo. Os movimentos sociais que apoiam os direitos das trabalhadoras do sexo estão na vanguarda das campanhas educacionais e políticas para reequilibrar os danos do estigma. Contudo, por exemplo, dentro do próprio movimento feminista há vertentes que condenam a prostituição, cujo discurso coloca estas mulheres em risco por legitimar falsas suposições, como na ideia de “estupro pago”, que têm consequências significativas e prejudiciais. Bennachie e Marie (2010), acreditam que esta mensagem encoraja a negatividade em relação às trabalhadoras do sexo, o que, por sua vez, aumenta a crença geral de que as trabalhadoras do sexo não são dignas de direitos ou proteção de cidadania comum. 1.7 Consequências do estigma no trabalho sexual Grande parte do estigma associado ao trabalho sexual advém da premissa de que o trabalho sexual é prejudicial, tanto para aqueles que estão diretamente envolvidos (na forma de violência e abuso sexual), como para as comunidades, através da ameaça de DSTs ou como um incômodo público. Em uma revisão da literatura examinando tais danos, Cusick (2006) descobriu que, ao invés de ser inerentemente associado ao trabalho sexual em si, tais danos derivam da vulnerabilidade elevada destas mulheres e da subsequente incapacidade de resistir às forças sociais e contextuais que os geram. Como já mencionado, a prática da prostituição em Portugal não é criminalizada, mas ainda assim se vislumbra a necessidade da conscientização, por parte do Estado e também dos profissionais de saúde, acerca das representações elaboradas sobre a vida destas mulheres e seu envolvimento na prática de sexo remunerado, para se poder planejar práticas de atendimento, suporte e proteção específicas para este grupo social. A falta de regulamentação do trabalho sexual em Portugal pode, portanto, ser entendida como perpetuadora do estigma e os estereótipos moralistas negativos associados a tal emprego e esto acaba sendo percebido através dos julgamentos morais comprovadamente feitos sobre as trabalhadoras do sexo. Ao invés de ajudar a proteger as trabalhadoras do sexo dos danos associados ao trabalho, a falta de regulamentação e de políticas públicas eficazes acaba por exacerbar os diferenciais de poder que estão por trás da estigmatização. Por exemplo, o medo do 26 pela qual novas representações sociais são incorporadas àquelas já conhecidas, ao mesmo tempo em que as últimas são transformadas pelas novas. De modo gradual, as ideias desconhecidas tornam-se ideias conhecidas e fazem parte dos quadros coletivos de referências de uma sociedade. Basicamente, ancoragem significa que novas ideias ou fenômenos estão de algum modo relacionados a um fenômeno ou contexto que já é bem conhecido. Stuart Hall (1973), em sua obra clássica “Encoding and decoding in the television discourse” discute este mecanismo e argumenta que acontecimentos novos, problemáticos ou preocupantes, que quebram nossas expectativas e contrariam nossas “construções de senso comum”, nosso conhecimento “dado como certo” das estruturas sociais, devem ser atribuídos aos seus domínios discursivos antes que possam ser considerados como ”faz sentido”. A maneira mais comum de “mapear” eles seria, portanto, atribuir sentido a eles a partir de algum domínio dos “mapas de problemas sociais” existentes”. (Hall, 1973) A “construção do senso comum” de Hall está próxima do conceito de representação social, ao passo que o mecanismo de “mapeamento” que ele descreve é basicamente um mecanismo de ancoragem pelo qual algo novo é ligado a algo que é já conhecido. Ele, no entanto, não se aprofunda nisso como feito na teoria das representações sociais. 2.4.2 O mecanismo de objetificação A objetificação é o mecanismo por meio do qual se dá conhecimento ao desconhecido, a partir do momento que o transforma em algo concreto que podemos perceber e experimentar com nossos sentidos. É uma espécie de materialização de ideias abstratas, que ocorre também nos média, ao representar as ideias como fenômenos concretos existentes no mundo físico. Moscovici (2000) explica esse mecanismo argumentando que aquilo “[…] que é percebido substitui o que é concebido”. Quando os média, por exemplo, relacionam a ocorrência de ondas de calor ou inundações a mudanças climáticas, o fenômeno abstrato é objetificado. A objetificação é, segundo Moscovici (2000) um processo muito mais ativo do que a 27 ancoragem e ocorre quase automaticamente cada vez que somos confrontados com novos fenômenos. Objetificar é transformar uma ideia desconhecida em realidade concreta, e isto exige mais esforço. A própria pesquisa de Moscovici (2007) sobre a difusão do pensamento psicanalítico na sociedade francesa é essencialmente um estudo de como os conceitos abstratos e relacionais da psicanálise (inconsciente, ego, libido, complexos, neuroses etc) são objetificados em elementos concretos no pensamento público. Voltando ao exemplo da mudança climática, a objetificação ocorre quando sinais comuns na natureza, como um calor de verão, uma tempestade de outono ou um inverno curto, são considerados como evidências anedóticas concretas da mudança climática. A objetificação também aparece nos média quando os conceitos científicos são transformados em imagens que, em vez dos pensamentos e ideias originais, tornam-se elementos dos fenômenos. Quando vemos uma reportagem, por exemplo, a mostrar que o derretimento das calotas polares tem causado o avanço do mar sobre ilhas e cidades litorâneas, percebemos que estas imagens objetivam a mudança climática e tornam-se as maiores categorias de associação livre do público quando pensam em aquecimento global (Leiserowitz 2007). 2.4.3 O mecanismo de naturalização A naturalização, refere-se especificamente à concretização de noções abstratas (Jodelet, 2008) e permite que as representações se tornem parte da realidade social. De facto, as representações naturalizadas são “conhecimento social que se tornou dado como certo” (Hakoköngäs Sakki, 2016). Em outras palavras, uma vez naturalizadas, “as ideias não são mais percebidas como produtos da atividade intelectual de certas mentes, mas como reflexo de algo que existe fora. Há uma substituição do percebido pelo conhecido” (Moscovici, 2004.). A naturalização das representações sociais tem muito a ver com a linguagem e com a nomeação da nova realidade ou do novo objeto em questão (Marková 2012), isto porquê, a naturalização das representações sociais implica a descontextualização das ideias abstratas que desencadearam o processo de gênese representacional. Ideias, noções e conceitos, uma vez naturalizados, perdem seu caráter teórico ou 28 imaginário. Isso, por sua vez, confere a essas novas noções um caráter de imutabilidade e permanência (Philogène Deaux, 2001). Eles, então, se integram nas práticas sociais cotidianas e confirmam assim sua existência social, pois tornam-se parte da memória coletiva, que por sua vez “funciona como uma espécie de pano de fundo para a compreensão” (Hakoköngäs e Sakki, 2016). Em suma, uma vez naturalizadas, as representações sociais passam a fazer parte do “fundo de inteligibilidade” de um grupo, permitindo que seus membros compreendam outros novos elementos (Daanen, 2009). Moscovici refere-se à naturalização das representações sociais como uma etapa do processo de sua objetivação, seguindo construção seletiva e esquematização estruturante. 2.5 Importância da teoria das representações sociais no pensamento social e crítico da sociedade A Teoria das Representações Sociais dirige sua atenção para o pensamento social e cultural da sociedade e discute como novas cognições sociais ou representações da realidade são impulsionadas, ao passo que as antigas são transformadas através da comunicação. A teoria, também, vem para desmistificar a questão de onde vêm as representações: elas estão, por um lado, relacionadas às mudanças reais no mundo material e simbólico (mudanças tecnológicas, conquistas científicas, cursos de eventos etc.) e, por outro lado, relacionadas àquelas representações sociais já existentes na vida social, nos média e em outros lugares da sociedade. Uma das preocupações centrais da Teoria das Representações Sociais é a forma como os indivíduos lidam com o choque com o novo. A teoria envolve-se, então, com os processos de assimilação de novos fenômenos no meio social, dando peso, tanto a ideias historicamente perpetuadas, quanto à correntes culturais contemporâneas. Todos os fenômenos sociais, quando encontrados pela primeira vez, são novos para o indivíduo em desenvolvimento. Ora, mas por que razão as pessoas precisam de representações comuns, coletivas ou sociais de ideias? Como dito anteriormente, a função mais útil das representações sociais é familiarizar o desconhecido (Moscovici, 2000). Este desconhecido ou esta novidade em si representa uma ameaça, pois compromete o 29 senso de domínio do indivíduo sobre um universo conhecido. Diante deste perigo que muitos dos fenômenos apresentam, foi que surgiu a necessidade por parte dos cientistas sociais de desenvolver uma teoria apropriada para explicar a resposta a eventos novos e, portanto, ameaçadores. É importante entender por que as pessoas precisam representar os objetos presentes. O desconhecido é, quase sempre, perturbador e o novo fenômeno social é, portanto, um conceito perturbador, incerto e desconhecido que alarma as pessoas. Para amenizar esta ameaça, as pessoas precisam formar uma representação social do objeto desconhecido ancorando-as a algo conhecido, objetivando-as e, eventualmente, naturalizando-as. O que as representações sociais realmente fazem é trazer esses novos objetos desconhecidos de longe para perto ou de fora para dentro. A proximidade é um fator chave aqui, uma vez que as pessoas decidem a que o novo conceito ou objeto pertence, classificando-o na classe mais próxima à qual o associam. Essa classificação nos dá, assim, uma ideia do que as pessoas estudadas percebem no novo conceito e, a partir daí, entender com o que elas se importam daquele conceito, como elas pensam e com quais valores elas estão mais preocupadas. Essa classificação nos dá, assim, uma ideia do que as pessoas estudadas percebem no novo conceito e, a partir daí, entender com o que elas se importam daquele conceito, como elas pensam e com quais valores elas estão mais preocupadas. Deixando de lado a perspetiva individual, na perspetiva das sociedades as representações sociais têm duas funções principais: i) estabelecer a ordem entre as massas, permitindo que as pessoas ajam em seu próprio ambiente de maneira comum e exerçam controle sobre ele; e ii) fornecer elementos necessários para uma comunicação compreensível. Uma vez que a maioria da sociedade estudada utiliza as mesmas ou pelo menos semelhantes estratégias de nomeação e categorização para o novo objeto, isso permite a construção da linguagem comum desta determinada sociedade (Moscovici, 2000). Basicamente, as representações sociais são essenciais para a construção das realidades 30 sociais das sociedades (Moscovici, 2000) e fornecem convenções para vincular os novos objetos e também fórmulas para lidar com eles. Tal como acontece com outras teorias, obviamente que também existem deficiências nesta abordagem teórica. Voelklein e Howarth (2005), por exemplo, apontaram que questões de relações de poder estão ausentes na teoria e defenderam que é preciso analisar como as representações podem ser infundidas com poder ideológico para justificar o status quo e, assim, manter sistemas de desigualdade e exclusão. Uma outra crítica bastante debatida acerca da Teoria das Representações Sociais é a de que estas representações apresentam características que são, ao mesmo tempo, amplamente constatadas e contraditórias. Uma possibilidade de solução deste fenômeno foi proposta por Jean Claude Abric (1994b), através da Teoria do Núcleo Central. 2.6 A abordagem estrutural das representações sociais A Teoria do Núcleo Central proposta por Abric (1994b) busca estudar as representações sociais como um fenômeno que, embora constitua uma entidade unitária, é organizado por um sistema interno dual e complementar: o núcleo central e suas periferias. Uma representação social tem uma certa forma e estrutura. As análises de representações sociais normalmente exploram ideias, características, atributos e avaliações associadas ao objeto representado. Esses elementos demonstraram desempenhar diferentes papéis em uma representação social e assumir diferentes posições dentro de sua estrutura. Na abordagem estrutural da Teoria das Representações Sociais, um conjunto desses elementos, que é a parte constitutiva de uma representação social, é o núcleo central. Segundo Abric (1994b), o núcleo central é composto por determinados componentes que determinam o significado global da representação e, portanto, o significado que os indivíduos atribuem ao objeto. Sem o núcleo central, uma representação específica deixaria de existir ou mudaria de caráter. O núcleo é altamente estável, compartilhado por praticamente todos os membros do grupo 31 em larga maioria que criou a representação, e inclui uma série de elementos que constituem a base comum e consensual da memória coletiva e do sistema de normas a que um grupo se refere (Abric 2001). O sistema central pode ser caracterizado por sua ligação com a memória coletiva e a história do grupo, é consensual, estável, coerente e rígido e pouco sensível ao contexto imediato. Além disso, o sistema central apresenta diferentes funções: gera a significação da representação e determina sua organização. O sistema central encoraja o consenso e a homogeneidade cultural e psicológica de um grupo ou de um indivíduo. O status central de um elemento não se limita à sua dimensão quantitativa, mas também inclui uma dimensão qualitativa. Em outras palavras, não é a proeminência de um elemento que define sua centralidade, mas o fato de dar sentido à representação (Moliner 1994). Vários estudos experimentais, como Moliner (1994), validaram essa conceção e concordam com a ideia de que pelo menos algumas das informações contidas em cada representação formam uma base de conhecimento que é compartilhada pelos indivíduos que a construíram. Ao redor do núcleo, encontramos alguns componentes periféricos menos estáveis (núcleo periférico) que são de natureza operacional, mais dependentes do contexto e sujeitos a variações individuais. Em suma, os elementos centrais são decisivos para a estruturação de uma representação (Abric, 1993), enquanto os elementos periféricos servem para adaptar uma representação a diferentes contextos (Flament, 1994). O núcleo central é uma estrutura que dá sentido a toda a representação, ou seja, aos inúmeros elementos periféricos, que por sua vez são negociáveis. Os elementos centrais, portanto, precisam formar uma unidade estruturalmente estável, o núcleo, cuja estrutura interna permanece relativamente inalterada pela variação situacional. 32 Os elementos periféricos, por outro lado, podem suportar as variações entre indivíduos, entre subgrupos e ao longo do tempo – pelo menos no caso em que essas variações não estejam em contradição violenta com os princípios do núcleo central (Flament, 1994). O próprio sistema periférico é composto por elementos que dão expressão concreta e ilustram a representação. Eles são mais diversos e flexíveis que os elementos centrais e aparecem como interface entre o núcleo central e as situações concretas. São os elementos periféricos, cujo significado e relação uns com os outros, e com os elementos centrais, que sofrem mudança situacional. Neste trabalho, utilizaremos a Teoria do Núcleo Central para identificar o núcleo central e o sistema periférico das representações sociais feitas por estudantes universitários das mulheres em condição de prostituição no Norte de Portugal. Pretendemos entender quais os elementos mais relevantes e, portanto, constituintes do núcleo central da representação (aqueles mais frequentemente evocados), como também quais elementos são menos salientes e que, portanto, estariam na periferia desta representação. 3 Abordagem metodológica Entre maio e outubro de 2021, realizamos entrevistas semiestruturadas a uma amostra de 5 mulheres trabalhadoras sexuais que se engajaram na troca direta de serviços sexuais por dinheiro. Posteriormente, após a avaliação do conteúdo das entrevistas, construímos e aplicamos um inquérito por questionário a uma amostra de 279 estudantes universitários do norte de Portugal. Por conseguinte, uma abordagem qualitativa foi inicialmente adotada, uma vez que esta abordagem enfatizou a experiência de vida das 5 mulheres, focando na perceção do estigma que circunda a profissão. Essa abordagem permitiu obter informações sobre a experiência das mulheres e, por conta disso, a entrevista semiestruturada, anônima e confidencial foi considerada mais adequada, devido a natureza sensível da informação obtida, pelo que foi empregada neste estudo. No que diz respeito às entrevistas, dada a natureza diversa do trabalho sexual em Portugal, foi tomada a decisão de diversificar nossa amostra. Neste sentido, as trabalhadoras sexuais foram 33 contactadas de forma que representassem a variedade em termos de origens étnicas (portuguesas e estrangeiras, notadamente brasileiras e cabo-verdianas) e a trabalhar em diferentes tipos de estabelecimentos (bordeis, rua e também as que anunciam seu trabalho nos meios de comunicação). Alguns outros critérios de inclusão das mulheres na amostra foram: serem maiores de 18 anos; estarem atualmente envolvidas com trabalho sexual, definido como tendo realizado pelo menos um serviço sexual por dinheiro nas últimas 4 semanas, falarem português e serem capaz de dar consentimento informado. Todos estes critérios foram rigorosamente cumpridos. Todas as entrevistas foram conduzidas pela autora da presente dissertação, que possui formação na área das ciências sociais e humanas. O roteiro das entrevistas foi elaborado com base em uma revisão da literatura. As questões propostas foram posteriormente discutidas com o orientador. Todas as participantes forneceram consentimento por escrito, tendo seus nomes substituídos por pseudônimos. As entrevistas manuscritas encontram-se no Anexo 01 deste trabalho. Devido às limitações e políticas de distanciamento social decorrentes da COVID-19, duas entrevistas foram realizadas por meio online e as restantes três se deram em bares ou restaurantes locais, e todas foram gravadas e transcritas na íntegra. Os conteúdos das entrevistas foram examinados à medida que a pesquisa era conduzida, de modo que as primeiras entrevistas acabavam por conduzir as posteriores, ou seja, os conceitos identificados nas primeiras entrevistas foram usados para orientar as entrevistas subsequentes. Algumas perguntas derivaram diretamente das respostas das entrevistadas, enquanto outros exigiram uma interpretação mais aprofundada. Nos resultados descritos neste trabalho, todas as citações diretas são atribuídas a informantes individuais. As citações permanecem um tanto coloquiais em conteúdo e frequentemente envolvem gramática incorreta. A fim de manter a autenticidade dos testemunhos, foi tomada a decisão de manter integralmente o que foi dito pelas mulheres. 34 Uma série de decisões pragmáticas também foram tomadas com relação à inclusão e apresentação dos resultados. Por exemplo, embora tenham sido pontos comuns no que tange à perceção do estigma e as representações feitas por estas mulheres, as experiências e respostas reforçam-se mutuamente. Além disso, embora façamos uso dos conceitos de estigma sentido e encenado, é importante observar que contamos apenas com os testemunhos das mulheres entrevistadas para identificar as possíveis representações dos estudantes inquiridos sobre o envolvimento das mulheres no chamado trabalho sexual. 3.1 Das entrevistas à construção do questionário 3.1.1 As entrevistas às trabalhadoras sexuais As entrevistas realizadas com as trabalhadoras sexuais se destinaram a verificar potenciais representações, relativas a causas e consequências do ingresso e manutenção neste trabalho, foram as portas de entrada para a formulação das frases colocadas no inquérito por questionário posteriormente aplicado a uma amostra de estudantes universitários do Norte de Portugal. Para que fosse possível realizar as entrevistas, a autora contou com a contribuição de colegas da universidade e amigos que a apresentaram a mulheres trabalhadoras sexuais, atuantes maioritariamente nas zonas de Braga e Vila Nova de Famalicão. Dos quase 10 contactos realizados nem todas as mulheres aceitaram participar do estudo, de modo que foram utilizadas 4 entrevistas neste trabalho. A partir da verificação das entrevistas, tornou-se possível perceber que os depoimentos destas mulheres podem ser incluídos nas seguintes dimensões: Individual, Familiar, Econômica e Social. Esta separação em dimensões tem apenas finalidades analíticas. Com efeito, na verdade, elas se cruzam umas com as outras, dado a forma como o trabalho sexual começou e continuou a fazer parte do cotidiano de vida das mulheres entrevistadas, se legitimou, legitima e continua presente nas suas vidas, muito especialmente no caso das dimensões individual e familiar, dimensões que mais contribuíram para a formulação da maioria das perguntas que integram o inquérito por questionário aplicado aos estudantes universitários. Falamos em maioria das 35 perguntas colocadas no inquérito, pois outras foram acrescentadas como contrabalanço aos testemunhos das mulheres entrevistadas, emanando indiretamente desses testemunhos. Na dimensão individual situam-se sobretudo as escolhas e vontades pessoais de entrada e manutenção no trabalho sexual, enquanto na econômica temos as razões financeiras que justificam o exercício desse trabalho. A dimensão familiar cruza-se com diferentes situações presentes em suas vidas, a exemplo de violência doméstica, ausência dos pais e o tornarem-se adultas precocemente e, por fim, a dimensão social diz respeito ao estigma que decorre do exercício do trabalho sexual. Assim sendo, considerando a dimensão individual, foram coletadas 21 perguntas, abrangendo representações relacionadas com comportamentos de risco, escolarização interrompida, gravidez precoce, desejo sexual precoce, apreciação das experiências de trabalho sexual, influências recebidas de terceiros, fatores emocionais e motivações pessoais para a entrada e permanência no trabalho sexual: - Foram/são sujeitas à convivência com álcool e drogas; - Envolvem-se em comportamentos de risco (álcool e drogas); - Deixaram os estudos por concluir, abandonando precocemente a escola; - Conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar; - Foram obrigadas a deixar a escola; - Passaram por uma gravidez precoce; - As primeiras experiências sexuais dessas mulheres foram traumáticas; - São mulheres que sentiram desejos sexuais precocemente; - Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo; - O trabalho sexual foi uma escolha pessoal consciente; - Com o passar do tempo acostumam-se ao exercício do trabalho sexual; - Não pensam em deixar a prostituição; - Permanecem no trabalho sexual por se sentirem autónomas e independentes; - A ausência de professar uma religião influenciou a decisão de entrar no trabalho sexual; - Consideram que seu trabalho não impede ter namorado ou relações fora do contexto do trabalho sexual; 42 As afirmativas presentes na Tabela 1 são maioritariamente pertencentes à dimensão econômica, que se cruzam com fatores familiares. Pode se considerar que apresentam percentuais estatisticamente relevantes, estando em concordância com os discursos das mulheres entrevistadas. Ou seja, o núcleo central das representações dos estudantes, acerca da vida das profissionais do sexo assentam basicamente em motivação financeira; melhoria familiar; comportamentos de risco. Portanto, em termos gerais, os estudantes da amostra representam o trabalho sexual realizado pelas mulheres pelo seu contributo para a resolução de problemas financeiros próprios e, sobretudo, das famílias a que pertencem, considerando também que exercem uma profissão de risco para a saúde das mulheres, por exposição a álcool e drogas. Por outras palavras, o trabalho sexual é sobretudo representado como tendo motivação econômica e causas e/ou consequências potencialmente nefastas e inevitáveis para a saúde das mulheres que o exercem. Em suma, a maioria dos estudantes da amostra associam essencialmente o exercício do trabalho sexual a fatores de natureza econômica, uma vez que cerca de 70% deles associam o exercício desta profissão a razões financeiras que estiveram presentes na vida quotidiana e familiar das mulheres trabalhadoras sexuais, como uma forma de obtenção de renda para promover o seu sustento e de suas famílias. De notar que 209 estudantes (74,9%) acreditam que estas mulheres vêm ou, ainda são, de família muito pobres, com problemas financeiros crônicos. Este valor é muito próximo do número daqueles que acreditam que parte do dinheiro ganho é enviado as suas famílias. Nota-se que é bastante numeroso o universo dos estudantes que acreditam que a dimensão econômica, através da busca por uma melhor condição e independência financeira é uma das principais motivações destas mulheres. No caso dos fatores de tipo económico estas ilações estão respaldadas nos discursos das mulheres entrevistadas: As famílias viviam/vivem com crónicos problemas financeiros; Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito pobres; 43 “[…] ela (mãe) era doméstica (empregada doméstica) e a gente não vivia muito bem […]” (Entrevistada A) Parte do dinheiro ganho com o trabalho sexual é enviado para ajudar a família “Hoje minha prioridade é mesmo mandar dinheiro pro meu filho […] ele mora com o pai dele, tá trabalhando num posto (bomba de gasolina), mas quer fazer faculdade, ele me dá muito orgulho, eu tento ajudar ele como posso, a gente conversa às vezes, eu tenho muito orgulho dele.” (Entrevistada A) “Hoje minha prioridade é mesmo mandar dinheiro pro meu filho.” (Entrevistada A) A razão principal para permanecerem no trabalho sexual é o dinheiro que ganham “Faço porque, como qualquer outra pessoa, preciso de dinheiro.” (Entrevistada B) No caso dos fatores de tipo individual embora tenham sido percebidos apenas em um dos discursos das mulheres incluídas neste trabalho, um estudo realizado em 2015 (Barros, Dias, Gama e Mendão, 2015), que avalia a presença de comportamentos de risco em trabalhadoras sexuais de Portugal, verificou que uma grande parte destas profissionais, mais de 50%, afirmavam usar drogas - principalmente quando portadoras de HIV. Foram/são sujeitas à convivência com álcool e drogas; Envolvem-se em comportamentos de risco (álcool e drogas) “Na minha adolescência andava sempre drogada ou bêbada (risos), portanto nunca tive uma relação muito boa com os meus pais…” (Entrevistada B) Por fim, a última afirmativa presente no núcleo central, que pertence à dimensão familiar, também se encontra em consonância com o depoimento das mulheres entrevistadas que são mães. Uma das entrevistadas relata que uma das razões que a leva a continuar na profissão é o ganho econômico que possibilita suportar os encargos financeiros com educação e capacitação de seu filho. Nota-se no seu discurso o poder do exercício do trabalho sexual em oferecer ao seu filho mudança de vida e oportunidades diferentes daquelas de que dispôs, nomeadamente proporcionar ao seu filho uma vida melhor e ajudar a bancar seus estudos, como a seguir se transcreve: 44 Desejam que os filhos/as tenham uma vida diferente “[…] ele ta no Brasil, ele mora com o pai dele, tá trabalhando num posto (bomba de gasolina), mas quer fazer faculdade, ele me dá muito orgulho, eu tento ajudar ele como posso, a gente conversa às vezes, eu tenho muito orgulho dele.” (Entrevistada A) ”Hoje minha prioridade é mesmo mandar dinheiro pro meu filho. [...] ele mora com o pai dele, tá trabalhando num posto (bomba de gasolina), mas quer fazer faculdade, ele me dá muito orgulho, eu tento ajudar ele como posso, a gente conversa às vezes, eu tenho muito orgulho dele.” (Entrevistada A) 4.1.1 Composição do núcleo central segundo o género Das representações incluídas no núcleo central, apenas em uma das afirmativas se detetou diferença considerável no que diz respeito ao género dos sujeitos inquiridos. Trata-se da frase que afirma: As famílias viviam/vivem com crónicos problemas financeiros . De facto, a quantidade de mulheres que a consideram congruente com as condições de vida das trabalhadoras sexuais é significativamente superior do que a quantidade de homens, a partir do teste de diferença de proporções. Tabela 2: Composição do núcleo central segundo o género dos estudantes (percentagens e significância do teste de diferença de proporções) Frases de resposta concordante (afirmativa) Masc. % Fem. % Sig. teste As famílias viviam/vivem com crónicos problemas financeiros 67,8 79,0 A.S.1 Parte do dinheiro ganho com o trabalho sexual é enviado para ajudar a família 67,8 74,0 N.S. Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito pobres 71,3 72,9 N.S. A razão principal para permanecerem no trabalho sexual é o dinheiro que ganham 59,8 70,7 N.S. 1 A.S. significa que a diferença de proporções é altamente significativa ao nível de significância de 5%. 45 Foram/são sujeitas à convivência com álcool e drogas 64,7 60,8 N.S. Desejam que os filhos/as tenham uma vida diferente 54,0 63,5 N.S. Envolvem-se em comportamentos de risco (álcool e drogas) 50,6 50,3 N.S. Fonte: Inquérito por questionário Parece razoável explicar essa diferença de acordo com o que poderíamos chamar de aqui de intuição de género - Um fenômeno que permite às mulheres se afastarem da ideia de que servem apenas ao prazer e a sexualidade masculina, e entenderem o trabalho sexual como último recurso para garantir a sobrevivência. 4.1.2 Composição do núcleo central segundo a idade No que tange às idades dos estudantes inquiridos, analisamos os dados colhidos através de 3 categorias de idades na sua relação com a adesão às frases do inquérito por questionário. Para além de dar destaque às percentagens de respostas concordantes com essas frases (afirmativas), analisamos a relação entre essas frases e as idades dos inquiridos através do teste de qui quadrado. Destacadas em rodapé estão as representações que mostram diferenças que podem ser consideradas estatisticamente significativas entre as idades. No entanto pode analisarse a forma como as percentagens variam entre as idades, nomeadamente se vão crescendo ou decrescendo com a idade. Tabela 3: Composição do núcleo central segundo a dade dos estudantes (percentagens e valor de significância do teste de qui quadrado) Frases de resposta concordante (afirmativa) 18 – 25 Anos % 26 – 35 Anos % > 35 Anos % Sig. teste As famílias viviam/vivem com crónicos problemas financeiros 74,7 76,2 75,0 0,978 Parte do dinheiro ganho com o trabalho sexual é enviado para ajudar a família 73,3 69,0 66,7 0,767 46 Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito pobres 76,4 54,8 41,7 0,0012 A razão principal para permanecerem no trabalho sexual é o dinheiro que ganham 65,8 66,7 83,3 0,454 Foram/são sujeitas à convivência com álcool e drogas 64,0 61,9 33,3 0,102 Desejam que os filhos/as tenham uma vida diferente 61,3 57,1 50,0 0,668 Envolvem-se em comportamentos de risco (álcool e drogas) 52,4 50,0 16,7 0,054 Fonte: Inquérito por questionário Conforme a tabela 3, observa-se uma relação estatisticamente significativa entre a variável adesão às afirmativas e a variável idade dos inquiridos apenas em uma situação. Referimos à que questiona se o ingresso no trabalho sexual tem relação com a falta de condições financeiras e pobreza das famílias (sig. do teste igual a 0,001). Assim sendo, muito embora cerca de 70% do total de inquiridos a julgue verdadeira, a maioria (76,4%) possui entre 18 e 25 anos. Ou seja, quanto mais velho o inquirido, menor a adesão em julgar tal premissa verdadeira, de modo que apenas 41,7% dos estudantes com mais de 35 anos consideram a falta de condições financeiras como condição que motivou estas mulheres a iniciarem sua jornada no trabalho sexual. Apesar de a relação entre as variáveis não serem estatisticamente significativas (sig. do teste maior que 0,05), mas pelo fato de estar muito próximo de o ser (0,054), assumimos como relevante a existência do mesmo padrão quando os estudantes foram questionados acerca do envolvimento das trabalhadoras sexuais em comportamentos de risco - como o uso de álcool e de substâncias tóxicas. Metade dos inquiridos assumiu concordância com a frase, segundo a qual estas mulheres se envolviam em comportamento de risco (uso de álcool e drogas). Porém, dentre estes que o fizeram, a maioria também possui entre os 18 e 25 anos (52,4%), valor que decresce 2 Teste de qui quadrado altamente significativo ao nível de 5% de significância, indicando a existência de relação entre a idade e as respostas afirmativas às frases constantes no inquérito por questionário. 47 para 16,7% entre os estudantes com mais de 35 anos. Apesar de incluída no núcleo central, ou seja, e seja uma das representações mais partilhadas, são menos de 20% os estudantes com mais de 35 anos acreditam que haja este envolvimento. 4.2 As periferias das representações Tal como referido atrás, em redor do núcleo central localizam-se alguns elementos periféricos que são menos estáveis, que devido à sua ligação a contextos específicos são menos partilhados, podendo variar de uns sujeitos para outros. No nosso caso, registamos a existência de 3 periferias de elementos que gravitam em torno do núcleo central, as quais denominados de 1ª, 2ª e ultraperiferia tendo em conta o nível de compartilhamento das afirmativas entre os estudantes que responderam ao inquérito por questionário. 4.2.1 A composição da 1ª periferia das representações A primeira periferia se refere às afirmativas que foram assumidas por entre 25 e 50% dos estudantes inquiridos. A Tabela 4 a seguir contém afirmativas presentes nesta primeira periferia. Importante reter que nesta primeira periferia não são percebidas afirmativas próprias da dimensão econômica, diferentemente do que acontece no núcleo central. Isto parece provar que os estudantes inquiridos partilham efetivamente que as motivações financeiras das mulheres são o fator mais importante para o ingresso e manutenção no trabalho sexual. Tabela 4: Composição da 1ª periferia das representações Frases de resposta concordante (afirmativa) % Dimensão Com o passar do tempo acostumam-se ao exercício do trabalho sexual 47,4 Individual São vítimas de violência por parte dos clientes 46,6 Individual Receiam que os familiares descubram que exercem trabalho sexual 44,8 Familiar São exploradas financeiramente pelas famílias 41,6 Familiar As suas mães também atuavam com o trabalho sexual 40,1 Familiar 48 Consideram que seu trabalho não impede ter namorado ou relações fora do contexto do trabalho sexual 39,4 Individual Consideram o trabalho sexual um trabalho igual aos outros 38,7 Social Foram obrigadas a deixar a escola 36,1 Individual Deixaram os estudos por concluir, abandonando precocemente a escola 35,1 Individual A entrada na profissão fez-se para evitar ou sair de trabalhos mal pagos e desqualificados socialmente 34,5 Individual Sentem-se vigiadas no espaço público, com a sensação de que todos sabem que são trabalhadoras do sexo 34,4 Social Viveram situações de violência doméstica e/ou foram vítimas 33,3 Familiar Admitem continuar na profissão até ao limite possível 32,6 Individual Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi terem sido obrigadas a cuidar da casa e dos irmãos mais novos 31,2 Familiar As famílias não aceitam que as mulheres aluguem seus corpos 29,0 Familiar Essas mulheres começaram a exercer esta profissão durante a adolescência 27,2 Individual O trabalho sexual foi uma escolha pessoal consciente 26,9 Individual As mulheres imigrantes sentem dificuldades emocionais em deixarem o seu país para se prostituírem 26,2 Individual Fonte: Inquiridos por questionário A maioria das 18 afirmativas presentes na 1ª periferia das representações pertencem à dimensão individual (10) e se referem as causas e consequências de ingresso e manutenção das mulheres no trabalho sexual. No caso, a afirmativa que obteve maior adesão dos estudantes diz respeito à que pode ser chamada de acomodação por parte das mulheres com a condição de trabalhadoras sexuais (47,4%). Também releva o fato de 46,6% dos estudantes considerarem que as mulheres são vítimas de violência por parte dos clientes. Igualmente releva o facto de girar em torno de 27% a percentagem dos inquiridos que acreditam, que as mulheres iniciaram o trabalho sexual ainda na adolescência e que o seu ingresso neste universo se deu por meio de uma escolha pessoal e consciente. Uma outra parcela significativa das 18 afirmativas presentes nesta primeira periferia diz 49 respeito à dimensão familiar (6) e se referem a fatos ocorridos no seio das famílias ou decorrentes das relações familiares das trabalhadoras sexuais, supostamente relacionados com o ingresso no trabalho sexual, direta ou indiretamente. Os trechos das entrevistas destacados a seguir também demonstram uma certa consonância com estas representações, uma vez que entrada precoce na vida adulta, a violência doméstica, a exploração económica e o desconforto associado ao ser descoberta enquanto trabalhadora sexual se mostraram presentes na vida da maioria das trabalhadoras sexuais entrevistadas. Por sua vez, 31,2% dos estudantes inquiridos acreditam que foi passada a estas mulheres, enquanto jovens, a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos e de zelar pelas suas famílias. Esta percentagem é similar aos 36,1% que acreditam que estas mulheres foram obrigadas a abandonar precocemente a escola. Ambas as representações estão relacionadas a um ingresso precoce na vida adulta e encontram respaldo nos testemunhos das trabalhadoras sexuais entrevistadas. Por fim, importa reter que cerca de 44,8% dos estudantes inquiridos acreditam haver um receio por parte das trabalhadoras sexuais em verem descoberta a natureza do seu trabalho por parte das suas famílias Na dimensão social estão incluídas as restantes duas representações presentes na primeira periferia. Uma percentagem considerável dos inquiridos acredita que as trabalhadoras sexuais consideram o seu trabalho como equivalente a qualquer outro e esta representação está em consonância com os discursos elencados a seguir, colhidos a partir das entrevistas. Embora uma parte das mulheres tenha relatado sentir raiva ou mágoa por se sentirem vítimas de estigma e preconceitos vindos da comunidade, não parecem ligar os rótulos que outros lhes colocaram. Em verdade, elas avaliam a sua posição como trabalhadoras sexuais, não sob a ótica das avaliações morais ou pejorativas do trabalho sexual, mas como um tipo de emprego e fizeram uma avaliação mais pragmática ou racional de suas circunstâncias: apenas um trabalho . 50 Assim sendo, por um lado, a interpretação da composição das afirmativas que entram nesta 1ª periferia, sugere que os estudantes do norte de Portugal, ainda que de forma não maioritária, representam as mulheres como responsáveis pela situação em que se encontram. Ou seja, trata-se mulheres que se acomodam conscientemente e livremente a um tipo de vida marcado por episódios de violência sofrida, abandono escolar e exploração salarial, por exemplo. Por outro lado, essa interpretação sugere que os estudantes representam a situação de vida das mulheres como uma sujeição à exploração, estigma e preconceitos de que foram e/ou ainda são alvo por parte das suas famílias e da sociedade no geral. Como veremos nos trechos das entrevistas enumerados a seguir, estas representações estão em consonância com os discursos das mulheres: Com o passar do tempo acostumam-se ao exercício do trabalho sexual “Eu já tô nisso há tanto tempo que eu acho que é mesmo o que eu sei fazer, sabe? Não acho que eu tenha idade pra mudar e nem sei se vale a pena […]” (Entrevistada A) São vítimas de violência por parte dos clientes ”No inicio [ tinha mais medo ] porque eu era muito verde ( ingênua ) ainda, às meninas me ajudaram e desencanar de muita coisa e também a como lidar com certo tipo de homem e quando pediam pra eu fazer algo que eu não queria. Nunca teve nada sério comigo não, só uns clientes que são mais grossos (rudes) que outros mas a gente aprende a lidar.” (Entrevistada A) A entrada na profissão fez-se para evitar ou sair de trabalhos mal pagos e desqualificados socialmente “[…] quando vi que teria que trabalhar com restauração e aguentar patrões insuportáveis eu pensei várias vezes em voltar… Até que decidi trabalhar pra mim e não me arrependo até hoje.” (Entrevistada D) O trabalho sexual foi uma escolha pessoal consciente “Eu sou do interior de São Paulo e precisava de dinheiro pra me manter na capital pra estudar…. Acabei fazendo isso, então. Porque gosto mesmo, não porque não tive escolha.” (Entrevistada C) 51 As mulheres imigrantes sentem dificuldades emocionais em deixarem o seu país para se prostituírem “Sempre me deram a ideia de que aqui (em Portugal) eu teria mais oportunidades de trabalho e conseguiria ter mais dinheiro do que na minha terra natal. De fato isto é verdade, mas quando vi que teria que trabalhar com restauração e aguentar patrões insuportáveis eu pensei várias vezes em voltar… Até que decidi trabalhar pra mim e não me arrependo até hoje.” (Entrevistada D) Essas mulheres começaram a exercer esta profissão durante a adolescência “Com meus 16/17 anos eu comecei a trabalhar em um strip club lá em Lisboa, mas naquela altura só fazia sala, depois uma coisa levou a outra e comecei a trabalhar lá de fato. Praí um ano depois comecei a trabalhar mesmo com sexo e tem sido assim até agora.” (Entrevistada B) Admitem continuar na profissão até ao limite possível “Uma das minhas metas é no futuro abrir um salão de cabeleireiro e na verdade estou juntando dinheiro pra isto. Como não tenho muitos gastos fixos aqui, tenho mesmo me dedicado a este sonho. A prostituição é um trabalho como qualquer outro, fui mesmo afetada durante a quarentena e isto me fez ver que nenhuma área de trabalho é 100% segura, mesmo quando você trabalha pra você… Por isso tenho adiado esse projeto meu, mas definitivamente está nos meus planos abrir o meu salão. Não sei se deixaria de trabalhar na prostituição logo assim de vez, mas no futuro me vejo apenas sendo dona da minha empresa.” (Entrevistada D) Consideram que seu trabalho não impede ter namorado ou relações fora do contexto do trabalho sexual “A situação que mais me afetou foi quando a família do meu namorado ficou sabendo… Como ele não tem muito contato com a família acaba sendo mais tranquilo, mas confesso que fiquei muito mal com as coisas que disseram sobre mim. Acho que a gente tende a ter medo daquilo que não conhece e tem quem pense que, por trabalhar com isso, eu não tenho direito a namorar ou ter minhas relações fora do trabalho.” (Entrevistada C) Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi terem sido obrigadas a cuidar da casa e dos irmãos mais novos 58 afirmativas, podemos, mais uma vez, perceber congruências com o discurso das trabalhadoras sexuais. 4.2.2 Composição da 2ª periferia das representações Conforme se pode verificar na tabela 7 a seguir, para integrar a 2ª periferia das representações foram consideradas as afirmativas partilhadas por entre 10 e 25% dos estudantes inquiridos. Tabela 7: Composição da 2ª periferia das representações Frases de resposta concordante (afirmativa) % Dimensão Poupam dinheiro para acautelar a qualidade de vida no pós-trabalho sexual 24,7 Económica A entrada no trabalho sexual deveu-se a influência de amigos ou conhecidos 24,4 Social Permanecem no trabalho sexual por se sentirem autónomas e independentes 24,4 Individual As famílias destas mulheres são alvo de censura pública 22,9 Social Não confundem o seu trabalho sexual como resultante de tráfico de pessoas ou trabalho forçado 20,4 Social Não sentiram carinho maternal ou paternal durante a infância e adolescência 20,1 Familiar As primeiras experiências sexuais dessas mulheres foram traumáticas 19,4 Individual Passaram por uma gravidez precoce 15,4 Individual Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo 15,1 Individual Não se incomodam com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos 12,5 Social Conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar 12,5 Individual Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito numerosas 11,1 Familiar Não pensam em deixar a prostituição 10,8 Individual As mães destas mulheres foram/são solteiras e vivem(ram) sozinhas com os filhos 10,4 Familiar Fonte: Inquérito por questionário 59 Apesar de menos presentes no sistema das representações dos estudantes inquiridos, os trechos das entrevistas realizadas com as trabalhadoras sexuais que justificaram a inclusão destas afirmativas no inquérito por questionário que lhes foi aplicado. Nesta segunda periferia continuam maioritariamente presentes as afirmativas que podem ser incluídas na dimensão individual (6 em 14). Ainda que entendamos que, maioritariamente, a maioria das afirmativas pertence à dimensão individual, por dizerem respeito às motivações pessoais de ingresso e manutenção no trabalho sexual, nota-se uma convergência com a dimensão econômica, uma vez que se associam a busca pela independência financeira como fator motivacional. As afirmativas de dimensão familiar também se mostraram presentes nesta segunda periferia e estão relacionadas a ausência de afetos e/ou de progenitores e ao grande número de membros em suas famílias. Por sua vez, algumas afirmativas da dimensão social, também integram esta segunda periferia e se relacionam com as consequências sociais negativas da visibilidade real ou imaginária da sua condição de trabalhadoras sexuais. Em síntese, apesar de minoritárias, relativamente esparsas e pouco partilhadas pelo conjunto dos estudantes inquiridos nesta 2ª periferia parecem mostrar, por um lado, que os estudantes da amostra partilham representações que associam sobretudo o trabalho sexual das mulheres à busca de uma vida com qualidade de vida, autónoma e com independência pessoal que rendimento financeiro auferido lhes permitirá alcançar. Por outro lado, cientes da negatividade em torno do exercício do trabalho sexual destas mulheres, os estudantes as representam dentro de uma certa hierarquia de comportamento socialmente indesejável. As afirmativas das três dimensões aqui verificadas estão em congruência com os relatos das trabalhadoras sexuais entrevistadas: Permanecem no trabalho sexual por se sentirem autónomas e independentes 60 “Eu comecei nisso pra ter minhas coisas sem depender de ninguém e poder dar ao meu filho oportunidades que eu e meus irmãos não tivemos… E é isso que me faz levantar da cama de manhã e continuar, sabe? Essa sensação de ser independente e de conseguir me virar sozinha…” (Entrevistada A) As primeiras experiências sexuais dessas mulheres foram traumáticas “Eu me lembro de pensar em sexo desde pequena, sabia? A virgindade pra mim sempre foi um tabu… até quando eu brincava de boneca ou de casinha eu dava um jeito de fazer a história ser sobre isso e de simular as coisas com os bonecos.” (Entrevistada C) Passaram por uma gravidez precoce “Eu tinha um namorado […] aí fiquei grávida e minha mãe achou melhor que eu saísse da escola pra cuidar do meu filho, porque ela não tinha condições de me ajudar e meu namorado na época não trabalhava.” (Entrevistada A) Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo; “Eu sou do interior de São Paulo e precisava de dinheiro pra me manter na capital pra estudar…. Acabei fazendo isso, então. Porque gosto mesmo, não porque não tive escolha.” (Entrevistada C) A entrada no trabalho sexual deveu-se a influência de amigos ou conhecidos “Minhas amigas que moravam perto de mim me chamaram um dia pra ir com elas, elas já faziam isso há um tempo […]” (Entrevistada A) Conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar “Eu estudei até o fundamental, até a oitava série eu acho, não cheguei a terminar.” (Entrevistada A) Não pensam em deixar a prostituição; Não pensam em regressar aos estudos “De momento não (tenho vontade) …. Tenho vontade de voltar a estudar e terminar o 12º ano, mas no geral eu gosto do meu trabalho.” (Entrevistada B) “Eu já tô nisso ha tanto tempo que eu acho que é mesmo o que eu sei fazer, sabe? Não acho que eu tenha idade pra mudar e nem sei se vale a pena terminar os estudos mesmo… Se tu perguntar 61 se eu tenho vontade, é claro que eu tenho… Não é legal que me olhem torto na rua ou me julguem ou tenham desconfiança de mim e me desmereçam pelo meu trabalho, mas com ele eu consigo pagar às contas, ajudar meu filho e acho que isso é o que importa pra mim mesmo… Querendo ou não foi o que eu escolhi pra mim e é essa a vida que eu tenho que viver pra mim.” (Entrevistada A) “Uma das minhas metas é no futuro abrir um salão de cabeleireiro e na verdade estou juntando dinheiro pra isto. Como não tenho muitos gastos fixos aqui, tenho mesmo me dedicado a este sonho. A prostituição é um trabalho como qualquer outro, fui mesmo afetada durante a quarentena e isto me fez ver que nenhuma área de trabalho é 100% segura, mesmo quando você trabalha pra você… Por isso tenho adiado esse projeto meu, mas definitivamente está nos meus planos abrir o meu salão. Não sei se deixaria de trabalhar na prostituição logo assim de vez, mas no futuro me vejo apenas sendo dona da minha empresa.” (Entrevistada D) Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito numerosas “[…] ela (mãe) era doméstica (empregada doméstica) e a gente não vivia muito bem não porque era muita boca pra comer né” (Entrevistada A) Não sentiram carinho maternal ou paternal durante a infância e adolescência; As mães destas mulheres foram/são solteiras e vivem(ram) sozinhas com os filhos “Pra ser sincera eu não tenho muitas lembranças da minha infância… Eu nunca conheci o meu pai e minha mãe namorava muito, ´tava´ sempre com um homem diferente lá em casa. […] Eu não sei se ela sabia ser uma mãe pra mim e meus irmãos, eu que acabei assumindo esse papel porque ela passava muitas noites fora de casa.” (Entrevistada A) Poupam dinheiro para acautelar a qualidade de vida no pós-trabalho sexual “Uma das minhas metas é no futuro abrir um salão de cabeleireiro e na verdade estou juntando dinheiro pra isto. Como não tenho muitos gastos fixos aqui, tenho mesmo me dedicado a este sonho.” (Entrevistada D) As famílias destas mulheres são alvo de censura pública “[…] todo mundo se conhece por lá, fofoca, fala da vida dos outros, muita gente religiosa que 62 julgava minha mãe por tá sem o marido, falavam que ela era uma péssima esposa e por isso meu pai largou ela.” (Entrevistada A) “Quando eu comecei com a prostituição, meus pais me disseram anos depois que, na época em que eu trabalhava em uma casa de sexo, havia rumores na família de que eu trabalhava com isto mas que eles não acreditavam.” (Entrevistada B) Não confundem o seu trabalho sexual como resultante de tráfico de pessoas ou trabalho forçado “Há muito tráfico de pessoas e muitas mulheres são forçadas a trabalhar com o seu corpo… Isto é um problema no mundo inteiro. Mas o erro que as pessoas cometem é que se concentram muito na prostituição, enquanto o tráfico de pessoas e o trabalho forçado acontecem pra várias outras cenas. Parece que quando se trata de sexo, aquilo é pior para as pessoas de alguma forma. Acredito que isto acaba por virar desculpa para simplesmente desencorajar o trabalho sexual em geral.” (Entrevistada B) Não se incomodam com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos “Eu sempre fui muito cautelosa pra falar que trabalho com prostituição… Como eu falei às pessoas tem uma imagem formada e aquilo ai nem sempre é verdade ou sequer justo com a pessoa que você é… […] Por um lado eu prefiro não expor o que eu faço, mas por outro me sinto culpada porque penso que, ao fazer isso, é como se eu tivesse vergonha do meu trabalho e achasse que devo esconder. Eu evito falar apenas pra me preservar mesmo, poucas são as pessoas que conseguem levar isso numa boa.” (Entrevistada C) “[...] sinto que me olham torto quando tô no shopping, ou vou em alguma loja ou no médico, sinto que não aprovam o que eu faço com a minha vida e o que eu escolhi pro meu corpo, o que é meio doido se você pensar que o corpo é meu e eu deveria poder fazer aquilo que eu quisesse com ele, né não? Às vezes eu não sei se julgam mesmo ou se eu acho que tão julgando só porque eu mesma já espero isso das pessoas. Eu às vezes consigo escutar uns comentários, gente apontando pra mim nos lugares…” (Entrevistada A) “Por um lado eu prefiro não expor o que eu faço, mas por outro me sinto culpada porque penso que, ao fazer isso, é como se eu tivesse vergonha do meu trabalho e achasse que devo esconder. Eu evito falar apenas pra me preservar mesmo, poucas são as pessoas que conseguem levar isso 63 numa boa.” (Entrevistada B) Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo “Eu me lembro de pensar em sexo desde pequena, sabia? A virgindade pra mim sempre foi um tabu… até quando eu brincava de boneca ou de casinha eu dava um jeito de fazer a história ser sobre isso e de simular as coisas com os bonecos. Eu só fui, como que eu digo (risos), entrar nessa vida de verdade quando passei no vestibular. Eu sou do interior de São Paulo e precisava de dinheiro pra me manter na capital pra estudar… Acabei fazendo isso, então. Porque gosto mesmo, não porque não tive escolha.” (Entrevistada C) 4.2.2.1 Composição da 2ª periferia segundo o género Como veremos na Tabela 8 a seguir, dentre as 14 representações integrantes desta segunda Periferia, notam-se diferenças estatisticamente significativas no que tange ao género dos estudantes em quatro diferentes situações, a saber: a) as famílias destas mulheres são alvo de censura pública, b) as mulheres sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo, c) as mulheres não se incomodam com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos e, por fim, d) as mulheres não pensam em deixar o trabalho sexual. Tabela 8: Composição da 2ª periferia segundo o género dos estudantes (percentagens e valor de significância do teste de diferença de proporções) Frases de resposta concordante (afirmativa) Masc. % Fem. % Sig. teste Poupam dinheiro para acautelar a qualidade de vida no póstrabalho sexual 27,6 21,5 N.S. A entrada no trabalho sexual deveu-se a influência de amigos ou conhecidos 31,0 21,0 N.S. Permanecem no trabalho sexual por se sentirem autónomas e independentes 23,0 25,4 N.S. As famílias destas mulheres são alvo de censura pública 14,9 28,5 A.S. Não confundem o seu trabalho sexual como resultante de tráfico de pessoas ou trabalho forçado 21,8 19,9 N.S. Não sentiram carinho maternal ou paternal durante a infância e adolescência 24,1 18,8 N.S. 64 As primeiras experiências sexuais dessas mulheres foram traumáticas 12,6 22,7 N.S. Passaram por uma gravidez precoce 14,9 14,9 N.S. Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo 21,8 11,6 A.S. Não se incomodam com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos 18,4 8,3 A.S. Conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar 16,1 9,9 N.S. Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito numerosas 9,2 11,6 N.S. Não pensam em deixar a prostituição 18,4 7,2 A.S. As mães destas mulheres foram/são solteiras e vivem(ram) sozinhas com os filhos 8,0 11,0 N.S. Fonte: Inquérito por questionário No que diz respeito à primeira afirmativa, nomeadamente a de que as famílias destas mulheres são alvo de censura pública, a percentagem de mulheres (28,6%) que aderem à representação quase dobra a dos homens (14,9%). Ainda que partilhada por 22,3% dos inquiridos, tal assertiva não encontrou tanto respaldo nos discursos das trabalhadoras entrevistadas, as quais julgaram sofrer mais censura das suas famílias do que propriamente as colocarem em situação de desconforto. No que tange à segunda afirmativa, de que as trabalhadoras sexuais sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo, dos 15,1% de estudantes que a julgam verdadeira, a percentagem de mulheres (21,8%) é consideravelmente maior que a dos homens (11,6%). Neste caso, por exemplo, a satisfação sexual, no caso das mulheres entrevistadas, foi mencionada explicitamente apenas por uma delas como gatilho para o ingresso no trabalho sexual. Pode-se aferir que, para estas mulheres, a satisfação sexual não estaria, então, limitada apenas ao ato sexual, mas incluiria também o aspeto financeiro, em conformidade com o que foi 65 mencionado em diversos testemunhos. Cabe fazer a ressalva de que a sexualidade humana tem sido um desafio para grupos vulneráveis associados ao estigma social (Nascimento e Garcia, 2015). Essa realidade confere uma tremenda importância à compreensão desse fenômeno e ao levantamento de hipóteses para a ausência de trabalhadoras do sexo que consideram a satisfação sexual merecida de ser mencionado, muito embora haja uma parcela da população que ainda associe o exercício deste trabalho à busca pela satisfação sexual. A terceira afirmativa cuja diferença entre os dois sexos foi considerável respeita afirmativa a estas mulheres não se incomodarem com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos. Os dados mostram que cerca de 10% a menos de mulheres (8,3%) do que homens (18,4%) a compartilharem a existência desse pensamento, dentre os 12,5% de inquiridos que a julgam efetiva. 4.2.2.2 Composição da 2ª periferia segundo a idade Quando analisamos esta mesma segunda periferia à luz da idade dos inquiridos, a relação entre a idade e a respostas às frases do inquérito por questionário apenas uma situação se apresenta com estatisticamente significativa, tendo a distribuição das idades se mantido equilibradas dentre os estudantes em todas as outras 13 afirmativas, como veremos na Tabela 9 a seguir. Tabela 9: Composição 2ª periferia segundo a idade dos estudantes (percentagens e valor de significância do teste de qui quadrado) Frases de resposta concordante (afirmativa) 18 – 25 26 – 35 > 35 Anos Sig. teste Poupam dinheiro para acautelar a qualidade de vida no pós-trabalho sexual 23,6 26,2 41,7 0,356 A entrada no trabalho sexual deveu-se a influência de amigos ou conhecidos 23,6 28,6 25,0 0,784 Permanecem no trabalho sexual por se sentirem autónomas e independentes 24,0 23,8 33,3 0,761 As famílias destas mulheres são alvo de censura pública 24 21,4 8,3 0,439 66 Não confundem o seu trabalho sexual como resultante de tráfico de pessoas ou trabalho forçado 21,8 14,3 16,7 0,514 Não sentiram carinho maternal ou paternal durante a infância e adolescência 21,3 14,3 16,7 0,553 As primeiras experiências sexuais dessas mulheres foram traumáticas 18,7 23,8 16,7 0,720 Passaram por uma gravidez precoce 17,3 7,1 8,3 0,192 Sentem prazer nas primeiras experiências sexuais como trabalhadoras do sexo 16,0 9,5 16,7 0,553 Não se incomodam com o que os outros pensam pelo facto de alugarem seus corpos 11,6 16,7 16,7 0,595 Conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar 9,8 23,8 25,0 0,017 Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi pertencerem a famílias muito numerosas 11,6 9,5 8,3 0,884 Não pensam em deixar a prostituição 9,3 16,7 16,7 0,295 As mães destas mulheres foram/são solteiras e vivem(ram) sozinhas com os filhos 10,7 11,9 0,0 0,469 Fonte: Inquiridos por questionário Portanto, a única diferença considerável, por mostrar uma relação estatisticamente significativa entre os grupos de idade que foi percebida é a que se verifica entre aqueles que acreditam que as trabalhadoras sexuais conseguem conciliar a profissão com a frequência escolar. Dentre os 12,5% de estudantes que consideram essa afirmativa coerente, notou-se uma tendência crescente no que diz respeito à suas idades: Quanto mais jovem o inquirido, menos é partilhada a representação, sendo 25% com mais de 35 anos, enquanto 9,8% possuem entre 18 e 25 anos. 4.2.3 Composição da ultraperiferia 67 Devido ao grande número de respostas obtidas nos inquéritos e sua consequente variedade em termos de percentagens, fez-se necessário ampliar o universo das representações para além do núcleo central e das 1ª e 2ª periferias de modo a trazer também à discussão as afirmativas muito pouco partilhadas, dado que foram assumidas por menos de 10% dos estudantes inquiridos, criando aquela que chamamos de ultraperiferia. Tabela 10: A composição da ultraperiferia Frases de resposta concordante (afirmativa) % Dimensão Não pensam em regressar aos estudos 9,7 Individual As suas mães foram possuíram vários companheiros em um curto espaço de tempo 7,5 Familiar Uma das causas para atuarem com o trabalho sexual foi a ausência do pai biológico 4,7 Familiar São mulheres que sentiram desejos sexuais precocemente 4,7 Individual A ausência de professar uma religião influenciou a decisão de entrar no trabalho sexual 3,6 Individual Fonte: Inquérito por questionário Assim sendo, na tabela 10 atrás encontram-se as cinco afirmativas constantes nesta ultraperiferia. Como se pode verificar, as afirmativas são pertencentes apenas a duas dimensões: individual e familiar. Três das cinco representações são de natureza individual e duas de natureza familiar. No caso das afirmativas que pertencem à dimensão familiar, a sua presença nesta ultraperiferia mostra que existe uma franja de estudantes da amostra que representam o trabalho sexual das mulheres como produto de relações familiares inapropriadas. Essa situação dever-se-á ao não acompanhamento dos progenitores masculinos durante a infância e adolescência das mulheres, i.e., os pais biológicos ou não se fizeram presentes ou foram substituídos por “pais” de ocasião. Esta representação, por sua vez, também encontra respaldo no discurso de uma das mulheres, mas não foi percebido nas outras entrevistas, o que faz o que a baixa representatividade possa ser justificável. 74 Omitindo a realidade ou não, se vislumbra nestas mulheres uma espécie de recategorizarão e resinificação de si próprias e de seu trabalho, ao passo que se desvinculam da identidade de trabalhadoras sexuais e passam a ser mães, irmãs e filhas. Em muitos dos discursos destas mulheres, se verifica a recorrente justificativa de que trabalham para enviar dinheiro a suas famílias, garantir um futuro diferente para os seus filhos ou cuidar de seus pais. Através das entrevistas, nota-se que muitas destas mulheres têm o sonho de mudar de vida e buscar uma área de trabalho diferente (contudo, apenas 23% dos estudantes que participaram desta pesquisa o acolhem em suas representações). Facto é: esses sonhos muitas vezes contradizem suas histórias enquanto vítimas de maus-tratos que precipitaram sua entrada no trabalho sexual, e as descrições que fazem de uma sociedade que as estigmatiza e que nunca permitirá que se tornem respeitáveis. Ironicamente, a grande maioria dos estudantes inquiridos tem, pelo menos em termos das representações que compõem o núcleo central das suas representações, um entendimento não conservador com relação à realidade das trabalhadoras sexuais e, até mesmo, demonstram compreensão com os potenciais motivos que levam estas mulheres ao trabalho sexual. Efetivamente, percebemos vários pontos de convergência entre as representações feitas pelos estudantes e os testemunhos das trabalhadoras sexuais entrevistadas. Não deixa de ser irônico que uma grande parte dos estudantes inquiridos represente o ingresso destas mulheres no trabalho sexual mais como uma necessidade do que como algo sujo e reprovável, enquanto as trabalhadoras sexuais fazem uma representação estigmatizada de si próprias, vendo o seu trabalho como desviante e ocultando este mesmo trabalho de amigos e familiares. Verificou-se, também, o pensamento critico acerca da legitimidade da estigmatização da prostituição e o foco nos atributos positivos e qualidades valiosas de seu trabalho. Finalmente, descobriu-se que, apesar de maioritariamente experimentarem os efeitos psicológicos negativos do estigma, as mulheres foram capazes de usar a experiência do estigma para o crescimento pessoal, incluindo o desenvolvimento de resiliência pessoal e a busca pela independência financeira. 75 Embora haja pequenas variações na natureza precisa e no grau da estigmatização vivida pelas mulheres incluídas neste trabalho, suas principais preocupações com relação ao estigma que sofriam foram quase universalmente descritas como decorrentes de: baixo grau, abuso diário de indivíduos na comunidade e tratamento desrespeitoso e humilhante. A partir da análise dos discursos das mulheres entrevistadas e dos resultados dos questionários realizados com estudantes universitários do norte de Portugal, nota-se que as suas representações acompanham, no essencial, os testemunhos dados pelas trabalhadoras do sexo, bem como o peso do estigma social que estas mulheres têm de carregar. Os seus discursos, que de certa forma são o eco das autorrepresentações das trabalhadoras sexuais sobre essa sua forma de vida profissional, têm como pilares, comumente, as dimensões econômica e familiar. Segundo os resultados dos questionários, os estudantes também consideram estes fatores como determinantes para o ingresso e manutenção destas mulheres na condição de trabalhadoras sexuais. Em contextos sociais nos quais o público reconhece, legitima e valida a nova identidade reivindicada, as estratégias de mudança social e diminuição do estigma tornam-se mais viáveis. Trazendo este pensamento para o estudo realizado aqui, podemos perceber que a amostra colhida englobou apenas indivíduos escolarizados, estudantes do ensino superior, e em sua maioria com entre 18 a 35 anos, o que pode justificar resultados não tão perturbadores e que não problematizem tanto a realidade e as escolhas das trabalhadoras sexuais. As experiências psicológicas mais notáveis em seus testemunhos incluíram: estresse, vigilância, ansiedade, medo da exposição da desta identidade, confusão, frustração e raiva por ser estigmatizadas como trabalhadoras sexuais e sentimentos de serem incompreendidas, não reconhecidas, desvalorizadas, condenadas e desonradas. Talvez os casos mais abertos e comumente relatados de estigmatização e discriminação dos participantes foram as situações nas quais as profissionais do sexo foram rotuladas negativamente em contextos sociais. Tal rotulagem sugere mostrar que a base da estigmatização vivida pelas participantes está em conformidade com a análise teórica do estigma da prostituta e 76 as normas sociais, culturais e morais que o fundamentam (Phetersen, 1993 e Scambler, 2008). Em Portugal, é provável que as normas culturais que sustentam este processo de rotulagem sejam influenciadas pelo, ainda presente, conservadorismo católico que condena o trabalho sexual (e profissionais do sexo) como um “ato imoral” (Pais, 2016). Contudo, de acordo com a opinião dos estudantes inquiridos, menos de 3% relacionaram a ausência de religião como um fator determinante para o exercício desta profissão. Embora existam semelhanças na maneira como essas mulheres representam a sua sujeição ao estigma e à discriminação, suas respostas variam de forma bastante marcante, parecendo amplamente mediadas pelo grau em que aceitam ou rejeitam as raízes de tal estigma. O menor grau de resultados negativos do estigma observado ou descrito entre aqueles que rejeitaram as bases do estigma da trabalhadora do sexo pode resultar do fato de que eles não identificaram o trabalho do sexo como algo que era necessariamente ou inerentemente ruim. Em vez disso, algumas parecem ver o trabalho sexual como meio de obtenção de dinheiro, ou como uma alternativa a pobreza. Para essas mulheres, o trabalho sexual é representado como um meio de conquistar sua independência. O bem-estar geral dessas mulheres, por sua vez, parecia menos afetado pelas atitudes da comunidade em relação a elas, o que pode estar relacionado a esse sentimento de empoderamento. Por outro lado, o estigma internalizado e sofrido gera um grau percetível de angústia e ansiedade relacionada, especificamente, ao trabalho sexual - o que é consistente com pesquisas sobre os efeitos do estigma internalizado, que tem sido associado a uma série de efeitos, como baixa autoestima, depressão, entre outros (Fife, 2000). Também é consistente com os resultados da pesquisa sobre os efeitos do tratamento humilhante e denegridor, como o experimentado por mulheres que são vítimas de violência praticada pelo parceiro íntimo, contribuindo para um sentimento de inferioridade, vergonha e autorrespeito reduzido (Astbury, 2010). Ainda assim, é importante ressaltar que uma perceção negativa do estigma não significa necessariamente que ele será internalizado e que terá efeitos prejudiciais na saúde dos indivíduos. O estigma do trabalho sexual não é absoluto (Weitzer, 2018), mas sim uma variável sensível a contextos temporais e sociais (Benoit, 2018). 77 As participantes deste estudo forneceram respostas variadas nesse quesito, e apenas uma minoria afirmou que internalizou os discursos depreciativos e aplicou crenças negativas sobre si mesmas e seu trabalho. Assim, quando inquiridas sobre o envolvimento no trabalho sexual e a forma como são vistas pelo público afetou sua formação de identidade ou senso de si, a maioria das participantes rejeitou esta ideia. Em vez disso, conforme relatado com alguns outros grupos estigmatizados, a maioria das participantes avaliou suas circunstâncias concretas e encontrou formas de enfrentar, fugir, adaptar, reduzir e resistir ao estigma (Benoit, 2017). Em conformidade com o disposto acerca das pessoas estigmatizadas, algumas recorrem a táticas de controle de informação para evitar a censura pública, e a maioria das mulheres entrevistadas as utiliza para ajudar a mediar o impacto do estigma em seu trabalho e vida pessoal (Koken, 2012). Elas tiveram o cuidado de revelar os detalhes sobre seu trabalho sexual apenas para aqueles em quem confiavam, mas não publicamente (Begum, 2013), buscando separar sua identidade de trabalho e eu pessoal. De acordo com o estudado por Benoit (2015), a rejeição é outra das respostas comuns ao estigma ocupacional e, no tema estudado aqui, envolve uma consciência crítica de como a sociedade olha para as trabalhadoras do sexo e como os outros as veem – mas ao mesmo tempo recusando-se a aceitar essas perceções. Em nosso caso, fica evidente que o estigma ligado à comercialização de serviços sexuais e dos estereótipos e rótulos negativos que os acompanham, não direcionam a forma como as participantes deste estudo representam a si mesmas. Percebe-se que as participantes frequentemente recorreram a técnicas de resinificação para refutar o estigma associado a sua ocupação. As respostas de resinificação revelaram pensamento reflexivo e iluminaram uma compreensão complexa das limitações, mas também os benefícios do seu trabalho, tal como referido por Koken (2004). Este ato de resinificar é um passo além da rejeição dos estereótipos ocupacionais negativos, e atua de modo a dar atenção aos benefícios pessoais e sociais do trabalho sexual, incluindo experiências de empoderamento, maior confiança, autoconfiança e benefícios econômicos. 78 Algumas participantes veem o trabalho sexual como uma atividade econômica rotineira e afirmaram claramente que é uma prática com importantes contribuições para a sociedade e deve ser reconhecido como tal. Os testemunhos que revelam a reformulação mostram que algumas profissionais do sexo encontraram uma sensação de poder através do trabalho sexual, incluindo oportunidades para estabelecer limites pessoais, mudar dinâmica e obter independência. Alguns estudos a respeito dos riscos que as profissionais do sexo estão sujeitas por conta de seu trabalho também destacam os problemas decorrentes da perceção de estigma. Embora os riscos físicos tenham sido reconhecidos, os riscos emocionais geraram mais preocupação e efeitos nocivos, pois eles exigem processos psicológicos sustentados, estendendo-se além das premissas e horas em que o trabalho sexual real ocorre e se fazendo presente na vida privada das mulheres (Sanders, 2004). Este fenômeno, no presente estudo, foi detetado no que diz respeito à necessidade percebida pelas mulheres de ocultar suas atuações como profissionais do sexo. As mulheres que tanto temem o estigma encenado são, visivelmente, as mais afetadas por ele. Não obstante a isso, as que pareciam gerenciar seu papel como profissionais do sexo de forma mais positiva ainda são potencialmente suscetíveis a resultados indesejados diretamente relacionados à sua experiência de estigmatização. Por exemplo: embora não tenham reagido ao medo do estigma escondendo sua realidade do seu círculo social, ainda assim sofreram um processo de exclusão ativo com muitos efeitos negativos. A fim de propor novas abordagens para a promoção da saúde e políticas públicas para esta população, as experiências individuais dessas mulheres e os processos que contribuem para a sua marginalização são melhor examinados dentro de um contexto sociopolítico mais amplo, reconhecendo a sua realidade de poder e vulnerabilidade que perpetuam o processo de estigmatização. A forma como o estigma é percebido por estas trabalhadoras representa de que forma as interações individuais são direta e percetivelmente afetadas por esses contextos mais amplos. Dada a amplitude e escala das forças sociais e estruturais que circundam o estigma, uma abordagem baseada em direitos mostra-se necessária (Cornish, 2006), a exemplo dos direitos 79 identificados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): o direito de não ser submetido a atos cruéis, desumanos ou tratamento ou punição degradante; igualdade perante a lei sem qualquer discriminação e direito a igual proteção da lei; condições justas e favoráveis de trabalho; e o direito a um padrão de vida adequado para saúde e bem-estar. Cornish (2006) argumenta que, ao se falar em direitos, as profissionais do sexo podem ser encorajadas a perceber a discriminação e a marginalização que sofrem não como um fato consumado, mas como uma transgressão ilegítima desses direitos. É igualmente importante, por sua vez, remover ou, quiçá reduzir, o dilema moral associado ao trabalho sexual, equiparando-o a outras profissões, não podendo deixar de lado, entretanto, a vontade de muitas destas mulheres de buscarem formas alternativas de se sustentar. Finalmente, embora a elaboração de políticas públicas seja importante para dirimir o estigma sofrido por este grupo de autoras sociais, as necessidades imediatas de saúde física, emocional e psicológica das profissionais do sexo não podem ser ignoradas. A este respeito, é importante complementar intervenções amplas e estruturais com serviços de saúde mais tradicionais para profissionais do sexo, incluindo serviços de extensão que visam especificamente aqueles que podem relutar em se identificar como profissionais do sexo de forma que não contribuam para a estigmatização adicional desta população (Day e Ward, 1997 e Wong, 2008). O estigma associado ao trabalho sexual não é apenas uma fonte de vulnerabilidade e sofrimento, mas também fomentador de resiliência. As reações ao estigma variam muito de um indivíduo para outro (Major, 2005). Outras entrevistas com outras mulheres que atuam nesta mesma área podem ajudar a aprofundar a compreensão das experiências entre as prostitutas que vivem em nossa sociedade, bem como lançar uma nova luz sobre as questões relacionadas de gênero e sexualidade. Espera-se que este estudo incentive intervenções anti estigma relacionadas ao trabalho sexual em Portugal. As mulheres que atuam na prostituição devem estar envolvidas diretamente neste processo para que os programas e políticas públicas produzidos tenham uma chance genuína de realizar mudanças positivas para estas mulheres em suas comunidades. 80 Lidar com essas questões exigirá uma abordagem proativa e de vários níveis para a saúde das trabalhadoras do sexo, que envolve responder às necessidades imediatas de saúde e às questões sociais e estruturais que perpetuam o estigma das trabalhadoras do sexo. Para que tais medidas sejam eficazes, elas devem ser implementadas em um ambiente legal que reconheça o seu trabalho e os seus direitos humanos como trabalhadoras sexuais e as proteja de discriminação e assédio. Apesar de modestos, os resultados deste estudo podem ser analisados por futuros pesquisadores para que avaliem o poder do estigma associado à prática do trabalho sexual e como as mulheres respondem, lidam, gerenciam e, às vezes, desafiam os julgamentos negativos oriundos de sua profissão. Obviamente, devemos recordar que a amostra colhida inclui apenas estudantes do ensino superior que, em sua maioria, possuíam menos de 50 anos - o que traz certas limitações à conclusão acima. Pesquisas futuras e mais detalhadas sobre este tópico devem ter o efeito cumulativo de produzir uma compreensão mais nuançada, multidimensional e abrangente do trabalho sexual do que existe atualmente. Ampliar este estudo para além da realidade do Norte de Portugal, ou ainda incluir a perspetiva de trabalhadores masculinos e mulheres transgéneros esclarecerão, por exemplo, se e como as estruturas de gênero dão combustível às relações de poder. Pesquisar sobre os sistemas legais do trabalho sexual ajudará a diferenciar as dimensões do trabalho que são intrínsecas a este setor ocupacional, daqueles que são contexto específico. Investigações adicionais nessas áreas devem enriquecer e ampliar nossa compreensão da natureza polimorfa do trabalho sexual. 81 Bibliografia Livros Abric, JC. (1993) Central system, peripheral system: their functions and roles in the dynamics of social representations. Papers on Social Representations, 2(2), 75-78. Abric, JC. (Org.) (1994a) Pratiques Sociales et Representations. Paris: Presses Universitaires de France. Abric, J.C. (1994b) L'organisation interne des representations sociales: système central et système périphérique. In: C. Guimelli (Org.) Structures et Transformatwns des Representations Sociales. Neuchâtel: Delachaux et Niestlé. Abric, J.C. (2001). A structural approach to social representations. In K. Deaux & G. 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Neuchâtel: Delachaux et Niestlé. Fonseca, Claúdia (1996) “A Dupla Carreira da Mulher Prostituta”. Rio de Janeiro: Revista Estudos Feministas, vol. 4, nº 1, 1996. 90 Anexo 01 - Transcrição das Entrevistas Entrevista 23.05.2021 ´Monalisa´, brasileira, 37 anos Como foi sua infância? M: Pra ser sincera eu não tenho muitas lembranças da minha infância… Eu nunca conheci o meu pai e minha mãe namorava muito, ´tava´ sempre com um homem diferente lá em casa, ela não ficou muito bem depois que meu pai largou ela e começou a beber demais, sabe? Eu não sei se ela sabia ser uma mãe pra mim e meus irmãos, eu que acabei assumindo esse papel porque ela passava muitas noites fora de casa. Pra te responder eu acho que não me lembro porque nem tive bem uma infância, eu cuidava de tudo dentro de casa, quando meus irmãos tavam com fome era pra mim que eles vinham pedir porque minha mãe quase nunca tava lá e quando tava tinha homem junto e a maioria deles não era boa pra nós (eu e meus irmãos). Quantos irmãos você tem? M: Tenho dois irmãos e uma irmã, a diferença de idade é pouca, mas eu sou a mais velha. Somos irmãos só por parte de mãe mesmo. Como era a relação de vocês com os namorados da sua mãe? M: Tiveram uns gente fina… Que se esforçavam pra mostrar que gostavam da gente e não se importavam por estar com uma mulher que já tinha filhos, o povo falava demais disso. 91 Que povo? M: Ah, os vizinhos né, todo mundo se conhece por lá, fofoca, fala da vida dos outros, muita gente religiosa que julgava minha mãe por tá sem o marido, falavam que ela era uma péssima esposa e por isso meu pai largou ela. Você disse que alguns namorados da sua mãe não eram bons pra você e seus irmãos, o que acontecia lá? Eles tratavam vocês mal? M: Alguns ignoravam a gente né, mas minha mãe namorava bastante mesmo, não sei se eles chegavam a ser namorados, mas era normal ter homem diferente lá em casa. Tem muitos que não lembro até o nome, mas teve um que o relacionamento durou mais tempo, ele começou a morar lá com a gente, fazia minha mãe pagar as dívidas dele, ela era doméstica (empregada doméstica) e a gente não vivia muito bem não porque era muita boca pra comer né, mas ela pagava às coisas dele e ele jogava muito no bicho (uma espécie de jogo de azar), a gente chegou a passar mais dificuldade por causa dele. Ele bebia muito, tava sempre bebendo e com os amigos lá em casa, ficava agressivo mesmo, já vi ele falar alto com minha mãe, mas não sei se ela apanhava, a gente que apanhava às vezes. Ele batia em você e seus irmãos? M: Nos meus irmãos só algumas vezes porque quando eu via eu não deixava, acabava que ela batia em mim. Eu que cuidava da casa mais porque minha mãe trabalhava em duas casas na época e tava sempre fora, aí eu que cozinhava e lavava as roupas… fazia meus irmãos irem pra escola também. Sua mãe sabia disso? M: Sinceramente eu acho que não tinha como ela não saber, mas ela achava que ele era bom pra ela porque pelo menos ela tava com um homem em casa e as pessoas paravam de olhar torto pra ela na rua. Acho que ela preferia não acreditar, ela nunca perguntou nada pra gente. Não tinha jantar em família pra saber como foi o dia da gente, sabe? Não culpo ela porque ela trabalhava 92 muito, mas nunca foi mesmo como uma mãe pra gente, era como se a gente só morasse junto. Hoje eu tenho meu filho e eu entendo a necessidade de trabalhar pra cuidar dos seus, mas eu quero ser mais presente na vida dele do que minha mãe foi com a gente. Você sofreu algum outro tipo de violência por parte desse padrasto? M: Estupro que ´cê´ ta falando né? Isso não, graças a Deus ele não fez nada disso comigo, mas me batia quando a comida não tava pronta quando ele queria ou quando eu não tinha feito as coisas em casa porque tava fazendo lição (tarefas escolares). Você estuda? M: Eu estudei até o fundamental, até a oitava série eu acho, não cheguei a terminar. Eu tinha um namorado na época, aí fiquei grávida e minha mãe achou melhor que eu saísse da escola pra cuidar do meu filho, porque ela não tinha condições de me ajudar e meu namorado na época não trabalhava. Depois disso ficou tudo muito louco na minha vida e eu nunca mais estudei. Eu tenho tentado aprender a falar inglês, sei falar algumas coisas e acho que é importante o inglês né? Minhas amigas me ensinam, ajuda a gente no trabalho também, mas não sei se tenho idade pra voltar a estudar, acho que já foi meu tempo, sabe? Hoje minha prioridade é mesmo mandar dinheiro pro meu filho. Seu filho não mora com você? M: Não não, ele ta no Brasil, ele mora com o pai dele, tá trabalhando num posto (bomba de gasolina), mas quer fazer faculdade, ele me dá muito orgulho, eu tento ajudar ele como posso, a gente conversa às vezes, eu tenho muito orgulho dele. E como é sua relação com o resto da sua família? M: Com meus irmãos falo às vezes, meu filho a gente conversa mais porque eu mando dinheiro pra ele também, embora não fale mais com o pai dele. A minha mãe que aje como se eu não existisse, quando ela descobriu que eu tava trabalhando na rua a gente brigou feio e desde então a gente não se fala mais. Nessa época eu devia ter uns 17 e fui morar com minhas amigas e meu filho ficou com o pai, eu que mandava dinheiro pra ele comer e pra creche, mas ninguém mesmo aprovou como eu ganhava dinheiro, mas na hora de pedir dinheiro sabiam falar comigo. 93 Como você começou na prostituição? M: Foi meio que acontecendo, uma coisa levou a outra assim…. Minhas amigas que moravam perto de mim me chamaram um dia pra ir com elas, elas já faziam isso há um tempo, apareciam sempre de unha feita, cabelo feito… Eu perguntei onde elas estavam trabalhando e elas disseram preu ir com elas, eu meio que entendi quando elas explicaram o que era, mas acho que eu fiquei meio tentada mesmo, porque eu poderia trabalhar de noite e ter dinheiro pras coisas do meu filho e pra mim também, pra comprar umas coisas que eu sempre quis ter. Ai elas me chamaram e eu fui, no inicio foi meio engraçado, porque eu só tinha feito sexo com dois homens na vida e já tinha um tempo que não fazia porque o pai do meu filho e eu separou, né, antes dele (filho) nascer, ai eu não sabia muito bem o que fazer, como falar, mas elas (amigas) me ajudaram. Quantos anos você tinha? M: Quando eu comecei tinha 16. Onde vocês se prostituíam? M: Tinha um ponto (de prostituição) lá, não era tão perto de casa porque eu tinha medo que às pessoas soubessem, mas acaba que uma hora todo mundo descobre, ai era lá que a gente ia, os carros paravam a gente falava o preço e ia, depois de um tempo eu acostumei. Você nunca teve medo de violência? M: No início mais porque eu era muito verde (ingênua) ainda, às meninas me ajudaram e desencanar de muita coisa e também a como lidar com certo tipo de homem e quando pediam pra eu fazer algo que eu não queria. Nunca teve nada sério comigo não, só uns clientes que são mais grossos (rudes) que outros, mas a gente aprende a lidar. Como foi isso de vir pra Portugal? M: Eu primeiro não vim pra cá, eu fui pra Itália, uma dessas minhas amigas foi pra lá em 2016 e me chamou pra ir, ai 2018 eu juntei dinheiro e fui, fiquei morando com ela e a gente ficou trabalhando junta. Foi difícil deixar meu filho lá mas ela disse que fazia mais dinheiro aqui e eu 94 vim pra poder ganhar mais também porque lá sempre foi mais limitado mesmo. Ai fui pra Itália com ela e a gente ficou lá um tempo trabalhando em casa mesmo, lá a gente não ia pra rua como eu ia antes, lá era em casa e aqui também é. Só que eu comecei a me relacionar com um homem que morava aqui em 2019. Mulher é doida mesmo quando se apaixona né? Larguei tudo e vim pra cá com ele, ele disse que eu não ia precisar trabalhar mais com isso e que eu podia morar com ele. Mas não deu certo não e eu voltei a trabalhar, foi difícil e tive que usar o jornal (anúncios) porque não conhecia ninguém aqui pra isso, mas eu sempre soube que não dá pra depender e nem acreditar em homem mesmo, eu fui idiota ali, não posso parar de trabalhar por homem porque eu posso trabalhar pra me sustentar. Foi por isso que eu vim pra cá, mas eu penso em voltar pra Itália quando esse covid passar porque eu ganhava mais. Então você não pensa em mudar de profissão? M: Eu já tô nisso há tanto tempo que eu acho que é mesmo o que eu sei fazer, sabe? Não acho que eu tenha idade pra mudar e nem sei se vale a pena terminar os estudos mesmo… Se tu perguntar se eu tenho vontade, é claro que eu tenho… Não é legal que me olhem torto na rua ou me julguem ou tenham desconfiança de mim e me desmereçam pelo meu trabalho, mas com ele eu consigo pagar às contas, ajudar meu filho e acho que isso é o que importa pra mim mesmo…. Querendo ou não foi o que eu escolhi pra mim e é essa a vida que eu tenho que viver pra mim. Você falou que te julgam pela sua profissão, podia me explicar isso? M: Não sei se é pelo jeito que eu me visto, pela aparência ou por ser brasileira… Você é brasileira então deve saber que aqui a gente já é meio julgada por isso, mas sinto que me olham torto quando tô no shopping, ou vou em alguma loja ou no médico, sinto que não aprovam o que eu faço com a minha vida e o que eu escolhi pro meu corpo, o que é meio doido se você pensar que o corpo é meu e eu deveria poder fazer aquilo que eu quisesse com ele, né não? Às vezes eu não sei se julgam mesmo ou se eu acho que tão julgando só porque eu mesma já espero isso das pessoas. Eu às vezes consigo escutar uns comentários, gente apontando pra mim nos lugares…. Aqui tem menos isso porque não fico na rua como eu ficava no Brasil, então até dá pra me misturar mais, mas ainda sinto que tem uma energia sobre mim quando saio de casa. 95 Como você lida com isso? M: Eu já sou velha, se eu ligasse pra tudo que pensam e falam de mim eu nem levantava da cama de manhã (risos), mas a gente tem que saber lidar. Eu comecei nisso pra ter minhas coisas sem depender de ninguém e poder dar ao meu filho oportunidades que eu e meus irmãos não tivemos… E é isso que me faz levantar da cama de manhã e continuar, sabe? Essa sensação de ser independente e de conseguir me virar sozinha… Eu não peço nada a ninguém, não dependo de ninguém e acho que isso é suficiente pra que eu não fique envergonhada. Quem devia se envergonhar é quem taí roubando os outros, pegando dos outros aquilo que não é seu… Eu alugo aquilo que me pertence e eu não vejo mal nisso. Entrevista 12.06.2021 ´Carla´, portuguesa, 24 anos Quantos anos você tinha quando iniciou na prostituição? C: Ah, eu tinha 18 anos e parece-me que foi há muito, muito tempo atrás. Acho que somos muito jovens com essa idade e percebo porque as pessoas sempre me disseram isso. Eu percebo os dois lados disto... Para certas coisas já somos vistos como adultos aos 18 anos, mas acredito que até com 18 anos não estamos prontos para decidir sobre coisas complicadas como trabalho sexual. Você então trabalha com prostituição há uns 6 anos…. Poderia me dizer, na sua opinião, quais os prós e contras desta profissão? C: Acredito que não se trata realmente de haver algo positivo ou negativo, sabes? Quero dizer…. É um trabalho. A prostituição é um trabalho. Todos nós temos de trabalhar para ter uma renda e não é todo mundo que está sempre feliz com aquilo que faz. Eu não me prostituo porque gosto, apenas faço porque apareceu no meu caminho e eu realmente não me importo. Faço porque, como qualquer outra pessoa, preciso de dinheiro. Tem lados positivos e negativos como qualquer 96 outra coisa na vida. Como você começou na prostituição? C: Com meus 16/17 anos eu comecei a trabalhar em um strip club lá em Lisboa, mas naquela altura só fazia sala, depois uma coisa levou a outra e comecei a trabalhar lá de fato. Praí um ano depois comecei a trabalhar mesmo com sexo e tem sido assim até agora. Você tem vontade de mudar de profissão? C: De momento não…. Tenho vontade de voltar a estudar e terminar o 12º ano, mas no geral eu gosto do meu trabalho. Sua família sabe do seu trabalho? C: Na minha adolescência andava sempre drogada ou bêbada (risos), portanto nunca tive uma relação muito boa com os meus pais… A minha família é bastante católica e nunca me aceitou bem. Quando decidi trabalhar no clube lhes contei muito feliz que finalmente tinha encontrado um trabalho (risos), eles não aceitaram muito bem. Eles nunca viram isto como um trabalho normal e não ficaram nada felizes. Foi como uma bomba na família… Mas eu fiz isso de qualquer maneira e cortei relações com eles. Quando eu comecei com a prostituição, meus pais me disseram anos depois que, na época em que eu trabalhava em uma casa de sexo, havia rumores na família de que eu trabalhava com isto, mas que eles não acreditavam. Então você foi criada como católica? C: Meus pais tentaram (risos). Você acha que sua religião te influenciou na decisão de trabalhar com a prostituição? C: Acredito que não, pois eu sempre tive curiosidade…. Era curiosa e um pouco rebelde quando eu era mais jovem. Além da sua família, você consegue sentir o julgamento das outras pessoas quando elas ficam 97 sabendo do seu trabalho? C: (risos) Muito! E digo-te que isto é uma coisa muito cansativa e frustrante... As pessoas são muito críticas e criam uma opinião com base em duas coisas: os média e como se sentem sobre o assunto. A prostituição tem a ver com sexo e sexo ainda é um assunto complicado para a maioria das pessoas. Estamos em 2021 e as pessoas ainda acham difícil acreditar que você pode fazer sexo por diversão e por dinheiro. Já que elas não conseguem se ver fazendo isso, então projetam isso nos outros e isto me deixa com muita raiva. Para mim isto é extremamente difícil de lidar. Por outro lado, eu entendo o que causa essa imagem... Há muito tráfico de pessoas e muitas mulheres são forçadas a trabalhar com o seu corpo… Isto é um problema no mundo inteiro. Mas o erro que as pessoas cometem é que se concentram muito na prostituição, enquanto o tráfico de pessoas e o trabalho forçado acontecem pra várias outras cenas. Parece que quando se trata de sexo, aquilo é pior para as pessoas de alguma forma. Acredito que isto acaba por virar desculpa para simplesmente desencorajar o trabalho sexual em geral. Entrevista 14.06.2021 ´Diana´, brasileira, 28 anos Quantos anos você tinha quando iniciou na prostituição? D: Eu tinha 19 anos na época. Lembra de como começou? D: Lembro sim… Eu me lembro de pensar em sexo desde pequena, sabia? A virgindade pra mim sempre foi um tabu… até quando eu brincava de boneca ou de casinha eu dava um jeito de fazer a história ser sobre isso e de simular as coisas com os bonecos. Eu só fui, como que eu digo (risos), entrar nessa vida de verdade quando passei no vestibular. Eu sou do interior de São Paulo e precisava de dinheiro pra me manter na capital pra estudar…. Acabei fazendo isso, então. Porque gosto mesmo, não porque não tive escolha. Era difícil conciliar isso com a faculdade? 98 D: Na verdade não… Eu estudava no turno matutino e acabava trabalhando apenas alguns dias por noite. Eu te juro que sempre fui boa aluna (risos). Tanto que consegui vir estudar aqui também. Você ainda estuda aqui? D: Não… Eu vim pra Lisboa com o visto de residência por estudo, né, pra tirar mestrado aqui… Mas acabei não me adaptando e deixei pela metade. Hoje eu só trabalho mesmo. Ainda trabalha com prostituição aqui? D: Sim, acabei vindo pra cá pra cima porque, muito embora eu receba um pouco menos, o custo de vida é mais barato… Lisboa é uma cidade muito cara, e como ainda mando dinheiro para minha família preciso me esforçar pra ter menos gastos. Você passou por alguma situação desconfortável na faculdade por conta da sua profissão? D: Pouquíssimas pessoas sabiam com o que eu trabalhava, só mesmo às minhas amigas que também dividiam apartamento comigo… Mas já aconteceu de eu encontrar homens que estudavam ou que trabalhavam na faculdade e isso gerou um burburinho… Na época eu usava muito os Classificados (jornal) para conseguir clientes, então não sabia com quem eu ia me encontrar até a hora H. Nesse ponto eu sou muito grata a tecnologia (risos), uso muito o Telegram para combinar meus encontros e hoje já passo uma peneira, peço fotos, decido o lugar… Já não me encontro mais com qualquer pessoa. Mas já chegou a sofrer preconceito ou discriminação nestes ambientes? D: Ah… Sempre, né… As pessoas que ficavam sabendo não conseguiam me ver de outra forma…. Pra mim sempre foi claro que eu estava ali para estudar e que, embora eu realmente gostasse do meu trabalho, eu usava ele a princípio para bancar minhas contas e bancar a vida que me possibilitava, em primeiro lugar, estar ali estudando. Acho que é uma das piores profissões pras pessoas separarem quem você é daquilo que você faz. Eu trabalho 99 com prostituição, eu não sou prostituta 24h por dia…. Acho que isso ainda é difícil de entender e eu via que muito do julgamento que eu sofria vinha daí. E aqui em Portugal, ainda sente alguma discriminação? D: Nada que me incomode muito… Eu sempre fui muito cautelosa pra falar que trabalho com prostituição… Como eu falei às pessoas tem uma imagem formada e aquilo ali nem sempre é verdade ou sequer justo com a pessoa que você é… Prostituição não é só sobre sexo, por exemplo… Com vários clientes eu sou paga apenas para conversar, pra fazer companhia (risos)... No fundo no fundo eu fico mesmo é dividida… Por um lado, eu prefiro não expor o que eu faço, mas por outro me sinto culpada porque penso que, ao fazer isso, é como se eu tivesse vergonha do meu trabalho e achasse que devo esconder. Eu evito falar apenas pra me preservar mesmo, poucas são as pessoas que conseguem levar isso numa boa. A situação que mais me afetou foi quando a família do meu namorado ficou sabendo… Como ele não tem muito contato com a família acaba sendo mais tranquilo, mas confesso que fiquei muito mal com as coisas que disseram sobre mim. Acho que a gente tende a ter medo daquilo que não conhece e tem quem pense que, por trabalhar com isso, eu não tenho direito a namorar ou ter minhas relações fora do trabalho. Entrevista 17.07.2021 ´Lucinda´, Cabo Verdiana, 32 anos Como você começou na prostituição? L: Eu nunca pensei que trabalharia com isso. Vim cá pra Portugal com alguns amigos há alguns anos atrás e acabou por acontecer, mas não é algo que esteve nos meus planos quando morava em Cabo Verde ou quando decidi vir pra cá. Por que você decidiu vir pra Portugal? L: Sempre me deram a ideia de que aqui eu teria mais oportunidades de trabalho e conseguiria ter mais dinheiro do que na minha terra natal. De fato isto é verdade, mas quando vi que teria que